Capítulo 28

Victoria estava metida na cama, recostada em almofadas e continuava a sentir algumas dores.

A bebé, já limpa e vestida, e depois de ter mamado na ama-de-leite, foi trazida para o colo da mãe.

Ela não sabia muito bem como pegar na filha recém-nascida, mas fez o melhor que o seu instinto lhe ditou. Por todos os medos associados, ela tinha sido renitente à gravidez e sentira-se a dar um salto no escuro naquela experiência de ser mãe, mas agora ali estava ela com um bebé nos braços que teria de cuidar e educar. Felizmente, o seu amantíssimo marido iria fazer isso com ela.

William foi sentar-se na cama ao lado de Victoria. Ele estava encantado olhando a bebé que acariciava nas mãos e no rosto.

- Estou tão feliz, minha querida, de vos ter comigo e de ter essa bebé! – Ele disse beijando-lhe a testa.

- Achou mesmo que eu deixaria George ser rei? – Ela perguntou.

Ele riu.

- Ela é tão linda, meu amor, como você! – William exclamou.

- No fundo você não preferia um rapaz?

- Não. Eu nunca pude desfrutar de ter uma filha… Esta menina é um tesouro…

- Talvez da próxima vez seja um rapaz.

William ficou surpreendido com a hipótese de outro bebé ser colocada por ela com esta naturalidade. Disse:

- Talvez…Mas isso não importa.

Ficaram ambos em silêncio a observar aquele pequeno ser rosado.

Victoria sempre achara que os bebés recém-nascidos não eram bonitos e pareciam-lhe um pouco escorregadios, mas havia algo neste bebé que era especial… Vendo que o pouco de cabelo da bebé se revelava escuro ela observou:

- Eu acho que ela tem o seu cabelo porque eu, quando era pequena, tinha o cabelo louro.

- Mas deveríamos chamá-la Victoria, como uma grande rainha! – Sugeriu William.

- Não, eu tenho outra sugestão.

- Qual?

- Alice…

William olhou para ela e sorriu.

- Você disse-me uma vez que gosta muito do nome Alice. – Ela explicou.

- Se a minha primeira filha tivesse sobrevivido ter-se-ia chamado Alice.

- Então será Alice.

- Alice Victoria, pode ser? – Ele propôs em alternativa.

- Se você gosta, assim será!

Continuaram a observar a bebé que dormia. Ainda não permitira perceber a cor dos olhos, que após o nascimento tinham-se mostrado acinzentados. Deveriam ser claros, como os de pais, ou azuis ou verdes… Agora já existia uma sensação de alívio para ambos, de que toda a preocupação já tinha passado.

- Nós acasalámos ao mesmo tempo das gralhas e eu acho que ela foi concebida numa gaiola de pássaros. – Disse Victoria sorrindo.

- Provavelmente…

- Tenho sono. – Ela informou.

- Então durma, meu amor. Eu vou levar a bebé.

William beijou a testa de Victoria, pegou em Alice e movimentou-se no sentido de sair do quarto.

Enquanto fechava os olhos para adormecer Victoria ainda observou como ele fazia aquilo com naturalidade, como tinha jeito para pegar na bebé…

Depois de deixar Alice no berçário, William seguia no corredor quando ouviu chamar atrás de si:

- William!

Reconhecendo de imediato a voz familiar, ele virou-se para trás:

- Emma…

Ela aproximou-se dele sorrindo e observou:

- Vejo que está feliz!

- Muito Emma, mas não me peça para explicar como nem para medir o quanto…

Ela voltou a sorrir mais profundamente e disse:

- Queria dar-lhe os parabéns! Acho que agora já conseguiu alcançar tudo aquilo de que precisava para se sentir realizado e tranquilo…

- É verdade Emma! Acho que nunca lhe agradeci convenientemente todo o auxílio que nos prestou sempre que foi necessário e que permitiu chegar até hoje…

- Você sabe que não precisa de agradecer. Sabe que sempre teve em mim alguém devotado e que eu fico contente se puder vê-lo feliz…

William sorriu. Ele sabia que assim era.

Emma aproximou-se mais dele, esticou-se um pouco e deu-lhe um beijo na face do lado direito. Depois afastou-se rapidamente, mas ele ainda percebeu que ela segurava as lágrimas nos olhos.

Só Emma poderia ter feito aquilo…

Uma vez sozinho no escritório, sentado à sua secretária, depois de todas aquelas horas de tensão e expectativa, William sentiu-se descomprimir. Embora fosse necessário esperar pela evolução da bebé e da mãe nos próximos dias e meses, o momento mais difícil e mais perigoso já tinha passado. O martírio da dor para ela já estava ultrapassado e Victoria comportara-se muito bem. E o medo da morte no parto de qualquer um dos dois seres que mais importavam já não existia. Ele mantivera aquela pose de força e tranquilidade quando ela precisara, mas agora parecia que todo o medo reprimido estava a escorrer de si.

Lembrou-se do passado: de Caro, de Augustus, da filha recém-nascida que falecera…Do intervalo de tempo na sua vida entre a perda de todos eles e o aparecimento de Victoria. Do tempo que mediou entre a entrada dela na sua vida e a chegada de Albert. Naqueles dias aflitivos com a presença do príncipe em que ele achara que ela o iria pedir em casamento…E depois a terra balançara debaixo dos seus pés no dia em que ela o informou que não casaria com Albert! E algum tempo depois o mundo girara, no dia em que ele se permitira ser homem, em vez de ser apenas o estadista, e a possuíra pela primeira vez em Brocket Hall! De lá para cá ele vivia no paraíso terrestre! E hoje a filha de ambos nascera…E mesmo agora tinham existido as palavras de Emma no corredor... Ele não precisava de mais!

William apoiou os cotovelos na secretária, colocou as mãos no rosto e permitiu-se chorar até que todas as lágrimas tivessem secado.

Ao final da tarde, recostada na cama, Victoria pensava no mais recente acontecimento da sua vida. Além do medo da morte e das dores que fora preciso suportar achara que o parto era uma coisa repugnante. Sentira-se uma vaca a parir num estábulo! Esvaída em fluídos e sangue, uma rainha era igual a uma indigente. Não havia dignidade naquele ato brutal! O embaraço de se expor ao olhar de gente alheia à sua intimidade que perscrutava dentro do seu corpo…

Mas agora sentia-se liberta daquela agonia. Os meses de incómodos com a gravidez, o terror antecipado do parto e a dor e a humilhação do momento! E agora poderia voltar aos braços de William como mulher! Apesar das dores que sentia podia dizer que tinha o corpo saudoso dele! Havia demasiado tempo que não se entregava e que não recebia… Era preciso aguardar que o tempo de resguardo tivesse passado, claro, mas assim que fosse possível…

William entrou no quarto.

Victoria sorriu de imediato para ele.

Ele recostou-se na cama do lado direito dela dizendo:

- Vim agora do berçário! A nossa filha dorme tranquilamente.

Victoria agarrou a mão esquerda dele e disse:

- Foi muito importante ter você aqui sempre comigo…

- Eu nunca vos abandonaria.

- Você conseguiu descontrair-me e depois deu-me a força necessária…

- Você comportou-se muito bem, meu amor! Se achar melhor eu posso dormir noutro quarto hoje, ou posso ficar aqui numa poltrona, para o caso de você precisar de algo…Você sabe como eu tenho experiência de dormir em poltronas…

Victoria franziu a testa enquanto ele falou e depois disse:

- Por favor, William durma comigo na nossa cama! Eu quero você junto de mim. E acho que as suas costas já estão desabituadas de dormir em poltronas…

- Eu só não quero magoar-vos…

- Você nunca me magoou, não será agora que vai fazê-lo… Sentir-me-ia perdida nesta cama se você não estivesse aqui.

Ele passou-lhe uma madeixa de cabelo para trás da orelha esquerda e disse:

- Serei muito cuidadoso então…

Daí a cinco dias era dia de Natal. Mas este ano os dias festivos coincidiam sempre com momentos complicados… No dia do aniversário de Victoria não existira festa porque ela tinha acabado de descobrir que estava grávida e tinha enjoos, agora que era Natal acabava de ter um bebé e tinha de se manter metida na cama… Os bebés eram mesmo uma limitação… Ela achava que o Natal era uma época bonita e mágica e recordava os natais em Kensington. Não lhe davam muita liberdade e era mandada para o quarto cedo, mas gostava de observar o teixo iluminado e decorado, e existiam sempre alguns doces e presentes. Agora que ela já era adulta e autodeterminada podia demorar-se no jantar o tempo que desejasse e organizar a decoração e os presentes como mais lhe aprazia. Mas não este ano! Existia uma árvore no salão de baile, para apreço pela corte, e existiriam presentes e um jantar no qual ela não participaria.

William teve de marcar presença no jantar, onde estariam familiares de ambos os lados e membros da Corte. Sobretudo agora que a integração dele no papel de marido da rainha estava a evoluir muito favoravelmente. Ele tinha de ser anfitrião nestes eventos. Mas assim que possível retirou-se para estar com Victoria.

Ele entrou no quarto com a mão direita atrás das costas e Victoria sorriu percebendo imediatamente que ele trazia alguma coisa para ela.

Estendendo o braço quando chegou perto dela, ele disse:

- O meu presente…para si…

Victoria agarrou a caixa que William lhe mostrava e abriu-a, enquanto ele se sentava na cama do lado direito dela.

Ela abriu a caixa e, surpreendida, abriu a boca.

- Oh, William! É linda!

O presente era uma pulseira de ouro, de bracelete larga, composta por várias peças trabalhadas, ligadas entre si, e que terminavam num medalhão oval no qual se encontrava um retrato em miniatura de William. Era um tipo de joia comum na época, o tipo de peça que permitia transportar o retrato do noivo, do marido ou dos filhos, um presente frequente entre familiares, mas Victoria ainda não tinha nenhuma com o retrato do marido.

- Quando Alice crescer, mandarei fazer uma joia para si com o retrato dela. – Disse William.

Victoria sorriu, virou-se para ele, colocou-lhe a mão esquerda no rosto e beijou-o apaixonadamente.

- Muito obrigada! Estou felicíssima com o seu presente. Mesmo estando de cama garanto que este é o melhor Natal da minha vida, porque é o primeiro em que eu tenho você como meu marido. E temos a nossa filha…

- Fico feliz que você tenha gostado da pulseira e garanto que este também é o meu melhor Natal! Eu tive os melhores presentes que podia desejar: Alice e você aqui ao meu lado.

- Mas os seus presentes ainda não acabaram. – Disse Victoria. – Eu também tenho um presente para si!

William olhou para ela com ar intrigado.

- Para mim? Como é que você tratou dessa questão? Já sei, teve algum assistente…Eu diria uma assistente. Alguém com quem você andou a combinar coisas nas minhas costas… - Ele disse rindo.

- Você sabe que nós temos bons amigos! Emma ajudou-me, claro. Mas eu já tinha feito a encomenda há algum tempo, antes do parto…

- Encomenda?

- Está ali no armário. – Disse Victoria olhando para o fundo do quarto. – Se não se importa, tem de ir buscar, porque não me deixam levantar da cama.

William levantou-se e foi ao armário buscar uma caixa muito maior e mais pesada do que a que ele tinha trazido para Victoria.

- É melhor colocar em cima da mesa. – Sugeriu Victoria.

William fez o que ela disse. Colocou a caixa em cima da mesa e abriu-a. Lá dentro estava um raro e belo conjunto de secretária: tinteiro de vidro com tampa em prata; e suporte de tinteiro e de caneta, caneta de aparo, mata-borrão, espátula para abrir cartas, palmatória e porta fosforeira, todos em prata integral. As peças eram todas decoradas por um friso trabalhado. Ele pegou na espátula para abrir cartas e, enquanto observava o desenho do friso no cabo, voltou para junto de Victoria sentando-se novamente na cama.

- Isto são amores-perfeitos! – Ele constatou.

- Não é só você que sabe o significado das flores…

Ele percebeu que ela estava a transmitir uma mensagem, a de que o amor que tinha por ele nunca seria esquecido. Que era um amor poderoso, cujas recordações permaneceriam no pensamento. Pousou a espátula em cima da mesa-de-cabeceira e abraçou-a, deixando o corpo escorregar na cama para ficar deitado ao lado dela.

Ela constatou que ele tinha percebido o significado.

- Você consegue sempre surpreender-me com presentes tão bonitos e tão significativos! – Ele exclamou.

- Posso dizer o mesmo de si!

Eles amavam-se tão profundamente, a realização do seu casamento tinha sido tão difícil, a sua relação era tão aprazada, que todos os presentes que pudessem dar um ao outro eram a expressão materializada desse sentimento e nunca seriam suficientes para demonstrar toda a força do afeto mútuo.

Victoria teria de se manter na cama durante duas semanas. A bebé era-lhe trazida algumas vezes por dia.

Quando a bebé não estava com Victoria, William ia ao berçário frequentemente para ver Alice… Lehzen e a ama achavam um pouco incómodo aquela presença constante, mas a baronesa esforçava-se por entender.

Quando não estava no berçário, William passava horas a fazer companhia a Victoria. Ela sentia-se completamente enternecida com as atenções dele para com ela e para com a bebé. Não seria possível encontrar cuidador mais doce ou mais sensato. Ele só a deixava para fazer as refeições, que por vezes acabavam por partilhar no quarto, ou se era inevitável ter de sair do palácio.

O mordomo mandou um lacaio ao berçário avisar Sua Alteza de que o Primeiro-Ministro e o duque de Wellington o esperavam no escritório.

Ele questionou-se sobre o que quereriam dele Peel e Wellington, enquanto se deslocava ao encontro dos seus velhos adversários políticos com quem mantinha uma relação polida.

Quando entrou no escritório notou que havia preocupação no semblante de ambos.

- Uma boa tarde senhores… Por favor sentem-se. – Disse William entrando no escritório e cumprimentando ambos de forma afável.

Os dois homens disseram algumas palavras de circunstância em forma de cumprimento e sentaram-se na frente da secretária de William, enquanto ele se instalava na sua cadeira.

William fez um gesto com as mãos e colocou uma expressão no rosto de quem esperava que eles falassem.

- Nós viemos aqui porque achamos que podemos estar na eminência de um desastre… - Começou Peel.

- Um desastre? - Perguntou William, esperando que eles concretizassem.

- Elphinstone deu a ordem de retirada de kabul, as nossas tropas devem chegar a Jalalabad dentro de um mês… – Continuou Peel.

- Em Janeiro o clima é muito frio e por todo o Passo Khyber eles estarão em fila única sendo muito fáceis de emboscar. – Acrescentou Wellington, numa oportunidade para demonstrar rapidamente as razões do perigo naquela retirada.

- Receio não haver alternativa. – Peel interpôs. – Elphinstone crê que Kabul é indefensável. Eles não têm escolha! E há garantia de passagem segura…

- Mas eu não teria fé em promessas afegãs… - Expressou Wellington.

William sentiu-se apreensivo perante aquela possibilidade. Disse:

- Compreendo, senhores. E essa perspectiva deixa-me bastante preocupado. Mas…porque quiseram comunicar-me pessoalmente essa situação? Eu não tenho funções políticas…

- Sua Majestade a rainha… O momento é delicado… Não sabemos se devemos transmitir-lhe isto… - Explicou finalmente Peel.

William percebeu o problema deles. Deu-lhes a solução:

- Bem, eu acho que a rainha deve ser informada de tudo o que se passa. Ela não está doente, nem é uma criança, apenas teve um bebé…Mas podem ficar descansados que eu mesmo transmitirei esse assunto, garantindo que ele seja gerido da melhor forma.

À noite, enquanto jantava com Victoria no quarto William começou:

- Recebi uma informação muito importante hoje.

- Uma informação? Sobre o quê? De quem?

- De Peel e Wellington.

- Eles estiveram aqui no palácio? E porque vieram falar consigo?

- Pobres homens, eles estavam aflitos… Victoria, você sabe, a sua condição de mulher e rainha ainda deixa alguns homens desconfortáveis. Eles não sabiam se lhe deviam comunicar a notícia que tinham, uma vez que você está em recuperação do parto, e pediram a minha ajuda…

Victoria fez uma expressão de indignação contra aquela atitude de quererem preservá-la só porque ela era mulher, e tinha tido um filho… Afastando-se da mesa e recostando-se para trás na cadeira, como quem se preparava para um embate, disse:

- Muito bem, William! Eu já percebi! Mas o que é que eles lhe disseram?

- Elphinstone vai retirar de kabul para Jalalabad porque o local é indefensável e foi-lhe dada garantia de passagem segura…

- Mas? – Ela perguntou notando a paragem dele no discurso.

- O clima e o território são hostis. O frio e a possibilidade de uma emboscada colocam o nosso exército em perigo. Wellington não acredita em promessas afegãs…

Victoria sentiu um aperto no estômago e disse:

- Compreendo. Se o duque o diz…Eu acredito muito nele.

- Eu também. – Confirmou William.

- Você quer-me dizer que devemos preparar-nos para a possibilidade de termos más notícias…

- Infelizmente!

Victoria sorriu para William. Ele não lhe sonegava informação! E não a tratava como um ser frágil que precisava de ser protegido de todas as tempestades. Ele protegia-a! Sempre! Muito! De forma que a fazia sentir absolutamente segura! Mas ele sabia fazer isso sem nunca a tratar como se ela fosse uma criança, ou um ser fraco ou ignorante.

- Obrigada William, por me colocar a par desta situação!

Ele sorriu de volta e concluiu:

- Você é a rainha!

Para surpresa de todos, a duquesa de Kent mostrou-se uma avó muito afetuosa, cativada por aquele pequeno ser chamado Alice. Clarence House distava de Buckingham dez minutos a pé o que permitia à duquesa visitar o palácio com frequência. A relação com Victoria também estava mais terna e a aceitação de William como genro era agora algo mais natural.

Após duas semanas Victoria saiu da cama, mas as recomendações médicas e das mulheres à volta exigiam que não fizesse esforços, que não se cansasse e que não saísse do palácio. Deslocar-se implicava, inclusive, o uso de uma cadeira com rodas que permitia que fosse empurrada pelos corredores, mas que exigia que fosse carregada para subir e descer degraus. A vida era um tédio!

Agora que já tinham passado quinze dias desde o parto e que tudo parecia bem, William foi a Brocket Hall. No regresso trouxe um ramo de lírios brancos para Victoria. Símbolo da maternidade e também do matrimónio e da inocência. O gesto conseguiu arrancar-lhe um sorriso e, depositadas numa jarra de cristal, as flores trouxeram alegria à sua vida de confinamento.

Embora não pudesse sair, aos poucos Victoria retomou a atividade política no que dizia respeito a assuntos de secretária. Mas William ajudava bastante com as caixas vermelhas dos despachos. Lia documentos, fazia uma síntese oral do seu conteúdo, redigia cartas… No entanto, ele nunca se sobrepunha, não tentava controlar as coisas. Dava opinião sobre possíveis decisões, mas deixava a escolha nas mãos dela. Um marido "principezinho", jovem e inexperiente, sentir-se-ia inseguro na sua posição de quem "era o marido, mas não o dono da casa" e poderia aproveitar esta fase, em que Victoria estava a recuperar do parto, para tomar as rédeas do poder. William não fazia isso. Ele nem era inseguro, nem precisava de se afirmar. Não queria ser chefe nem rei. Não, ele não só não governava por ela, como a ajudava a fazer isso da melhor forma. A realização dele estava nela, em que ela brilhasse como rainha! O que havia entre eles era um equilíbrio perfeito e aquela completude inexplicável!

Estavam ambos na mesma mesa a trabalhar em conjunto quando o Primeiro-Ministro foi anunciado pelo mordomo.

Peel entrou com um ar aflito e disse:

- Vossa Majestade! Vossa Alteza!

William pensou no que os nervos faziam ao homem. No passado Peel já o tinha tratado de formas rudes no Parlamento e agora aqui estava ele a usar "Vossa Alteza"! Peel mudava de cor na presença da rainha, sem saber como agir e o que dizer a um monarca mulher. E alguma coisa devia ter acontecido para mostrar aquele ar esbaforido como se tivesse vindo a correr da Casa até ao palácio.

Perante o semblante dele Victoria e William levantaram-se, preocupados, das respetivas cadeiras.

- Sir Robert…O que se passa? – Perguntou a rainha.

Peel olhou para William como quem pedia autorização para falar.

Ele fez-lhe sinal afirmativo com as sobrancelhas para que falasse.

- Lamento dizer, Senhora, mas o pior aconteceu…

- O quê? O que aconteceu? – Victoria perguntou inquieta.

William já supunha o que Peel diria a seguir.

- Apesar de ter sido garantida passagem segura na retirada de Kabul, as nossas tropas foram emboscadas perto de uma vila chamada Gandamak… - Informou Peel.

- E?

- Perdemos 4.500 soldados, Senhora! Europeus e indianos…

Victoria sentiu o estômago apertar.

William pensou como tinham sido erradas as perceções do que se passava no terreno no início da guerra. E ele fora um dos responsáveis por elas…

- Eles estavam acompanhados por 12.000 civis…famílias dos soldados britânicos e indianos, trabalhadores, servos, seguidores de campo…Mulheres e crianças…

- E essas pessoas…

- Foram todos massacrados, Senhora! Mais de 16.000 pessoas…

William fechou os olhos.

O chão parecia fugir debaixo dos pés de Victoria.

Peel continuou:

- Talvez alguns tenham sido capturados… Não há números certos… Pelo que sabemos neste momento apenas um soldado britânico sobreviveu: o cirurgião assistente William Brydon.

Victoria tinha as lágrimas nos olhos, mas ela não se podia permitir chorar.

Sentou-se na cadeira colocando os olhos no chão.

William posicionou-se atrás dela e colocou-lhe a mão direita nas costas.

- Obrigada, Sir Robert! – Victoria agradeceu num tom que fez com que o primeiro-ministro percebesse que ela devia querer ficar sozinha e era melhor sair.

Peel fez uma vénia e retirou-se fechando a porta.

William passou a mão pelos ombros nus de Victoria enquanto passava para a frente dela. Ajoelhou-se e abraçou-a ao mesmo tempo que ela se lhe lançou nos braços. Era extraordinário como ele sabia dar resposta àquilo que ela precisava em cada momento. Ela precisava que ele a abraçasse e ele abraçou-a. Simplesmente.

Victoria chorou sobre o ombro esquerdo de William. Só na frente dele ela podia chorar.

- Desculpe, Victoria! - Ele pediu. - Fui eu que os mandei para lá…

Victoria abanou a cabeça em sentido negativo e disse:

- Você não podia prever… Os relatórios dos nossos enviados no terreno, antes de a guerra começar, indicavam que esse era o caminho certo…

- Este é o pior desastre militar britânico… - Disse William.

- Eles eram os meus soldados… eles estavam lá em nome da coroa que eu uso na cabeça, eles estavam lá por mim… - Victoria soluçou.

Confortaram-se mutuamente naquele abraço. Duas pessoas que partilhavam a mesma história de vida e a mesma história política. Parecia que assim até era menos pesado de suportar. Ele sabia exatamente o que ela sentia, o que era ter a responsabilidade de vidas nas mãos. Nenhum outro homem, vindo de outro estado, sem funções de governo, perceberia isto. A vida dela com tal marido seria uma solidão. Mas não com William!

Ao fim de uma semana a andar sobre rodas Victoria rejeitou a cadeira e passou a deslocar-se por si! Já não suportava mais aquilo! Ela não era uma inválida! Lehzen recorreu a William na busca que este imprimisse sensatez na rainha, mas ele apoiou a decisão de Victoria. Ele deixava-a ser como ela era. Um espírito livre. Ele tinha o conhecimento perfeito dela, o que mais ninguém alcançava…

A notícia da derrota no Afeganistão começou a espalhar-se. A crítica política ao partido que estava no governo quando a guerra tinha sido iniciada e aos ministros da época começou a circular no Parlamento, nos jornais, em panfletos, nas ruas… Melbourne e Palmerston eram os nomes atacados. A Grã-Bretanha tinha sido humilhada em Gandamak. O exército britânico tinha sido derrotado por tribos com apenas uma dúzia de mosquetes entre eles!

Victoria quis falar com Wellington. Sempre admirara o velho marechal porque quem tinha muito respeito e em quem acreditava. Desde criança que ouvira contar as histórias das suas façanhas militares. E sentia que ele admirava a sua condição de mulher e rainha. Esperava que ele, como homem de guerra que era, tivesse a capacidade de acalmá-la sobre este assunto.

Se ela pudesse sair falaria com ele no jardim para arejar a cabeça. Mas ela não podia. Recebeu Wellington na sala verde.

A rainha e o distinto marechal estavam sentados na frente um do outro.

Wellington observava o semblante preocupado da rainha. Tão jovem, tão bonita (Melbourne era definitivamente um sortudo) e com tanto peso para carregar…

- E Elphinstone? – Perguntou a rainha.

- Do que é possível saber continua cativo dos afegãos. A liderança deste homem é um exemplo notório de como a ineptidão e a indecisão de um oficial superior pode comprometer o moral e a eficácia de um exército inteiro. Um tolo, que em vez de sair de lá ficou indeciso até a neve chegar… Elphinstone não conseguiu liderar os seus soldados, mas fatalmente exerceu autoridade suficiente para impedir que nenhum de seus oficiais exercesse o comando apropriado em seu lugar…

- Mas houve mais alguns sobreviventes…

- Parece que sim, alguns que chegaram a Jalalabad depois de Brydon e alguns outros que foram capturados pelos afegãos… O Afeganistão é um lugar miserável, Senhora, abandonado por Deus! Nada além de pedras, areia e membros de tribos que lutam como tigres! Deveríamos tê-los deixado como estavam… Quem não morreu às mãos dos afegãos morreu de frio, de doença e de fome…Houve quem tivesse perdido os dedos por causa do frio…

Victoria ficou impressionada pela descrição e percebeu a crítica implícita à decisão de iniciar a guerra, mas apreciava a franqueza de Wellington. Ele não a tratava de forma diferente por ser mulher.

- E agora, duque? – Perguntou a rainha.

- Agora é preciso lamber as feridas, levantar a cabeça e caminhar em frente…

- Mas o que aconteceu…é uma perda demasiado pesada para a Inglaterra...

- Isso é inegável! Mas desastres desta natureza sempre aconteceram ao longo da História, em vários estados do mundo…Não somos os únicos, nem os primeiros, nem os últimos a passar por isto.

Victoria pensou que, dito assim, até parecia simples.

- Mas como é que este desastre pode ser superado, como é que os meus súbditos vão ultrapassar isto? – Perguntou ela.

- Da forma que sempre foi feito no passado…fazendo mais guerra. Peel já começou essa discussão com os seus ministros, deverá falar convosco em breve. Vamos mandar uma expedição a Kabul, numa campanha punitiva.

- Vingança? – Perguntou Victoria, com ar alarmado.

- Vingança, Senhora! Agora não há mais nada que possamos fazer… E isso permitirá aplacar, em parte, o coração dos homens…

O médico recomendara abstinência nas seis semanas após o parto.

Victoria estava ávida de William e da plenitude que só encontrava nos seus braços, do prazer da sua pele a alastrar sobre a dela. Não havia palavras para descrever o turbilhão de sensações que se espalhavam pelo seu corpo quando estava debaixo dele! Não precisava de mais nada senão do deleite de se encaixar nele! Sem amarras! Pensava na satisfação que sentia todas as vezes que ele lhe tocava, concentrado só nela e na intensidade dos gemidos que ela produzia com a boca colada ao seu ouvido. Queria entontecê-lo ao passar-lhe a língua pelo peito e pelo pescoço, enredar-lhe o corpo com a nudez das pernas abertas para o receber, tornar a revolver-se com ele na cama ou no chão, na escuridão da noite, à luz das velas ou só com as labaredas da lareira do quarto a crepitarem. Desejava voltar a apreciá-lo de olhos fechados, a flutuar na exuberância do regozijo vibrante, perdido nela. Já passara tanto tempo! Antes e depois do parto… Mas era preciso esperar.

Ao fim de um mês, que pareceu demasiado longo, Victoria tinha finalmente autorização para sair do palácio, o que já era uma conquista. Ela gostaria de correr no jardim ou de se lançar a cavalo, para comemorar o fim do confinamento, mas era preciso passar por uma cerimónia de purificação após o parto que lhe parecia roçar os limites da descriminação. Porque é que ela estava impura? Porque era mulher? Porque tivera um filho? Não havia volta a dar. Se queria voltar à sociedade teria de ser de novo recebida na Igreja, como lhe explicou a duquesa de Kent.

Victoria submeteu-se à cerimónia na igreja, ajoelhada perante o altar, com o Arcebispo de Cantuária de pé na sua frente dizendo algumas palavras e abençoando-a. Atrás de si assistiam William, a duquesa de Kent, a duquesa de Buccleuch, Emma, Lehzen e mais alguns membros da corte. Ela notou as palavras do arcebispo quando ele disse que agradecia ao Senhor por tê-la livrado da dor e do perigo do parto e por expulsar dela o pecado. Pecado? Porque é que o que ela fazia com William, que dera origem à filha de ambos, era considerado pecado? Pecado? Era uma bênção! Isso sim! O Arcebispo não percebia nada!

A primeira coisa que Victoria fez depois disto foi correr a cavalo pelo parque com William a seu lado!

NOTAS:

Caros leitores, escrever esta história tem sido um prazer e saber que há pessoas que têm prazer em lê-la torna este processo ainda mais maravilhoso. Mas eu devo avisar que Amar em Brocket Hall está a caminhar para o fim...Perguntei-me se devia ou não fazer um aviso prévio, mas quando lemos um livro também sabemos que ele está a chegar ao fim e por isso achei que era justo fazer este aviso.

Eu quero agradecer à pessoa que tem deixado comentários, pois esta plataforma não me permite responder a quem comenta, mas não está inscrito na plataforma. Fico feliz que você esteja a gostar da minha história e percebo o seu pedido para que os filhos de Victoria e William possam herdar o trono, mas à luz da lei isso não é possível. Acredite que eu estudei todas as formas para que isso fosse possível, mas não é.