Capítulo Vinte e Oito

Meeting Myrtle

(Conhecendo Murta)

Severus observou Lucius voltar para a Ala Hospitalar. Draco não o seguiu. Severus começou a ir em direção a porta e viu Potter — que também se levantara — voltar a se sentar com um assentir.

Draco estava no corredor, acomodado em uma parede baixa, que levava a vários lances de escada.

— Posso? — perguntou Severus, indicando a parede ao lado de seu afilhado. Draco o olhou e assentiu, antes de desviar os olhos. Severus se sentou e tentou não olhar para baixo. A altura não o incomodava, mas nunca teria se sentado ali por escolha própria; era só uma questão de se inclinar demais para cair vários andares. Mas Draco não parecia incomodado por isso.

— O pai te mandou conversar comigo? — perguntou Draco depois de um momento. Sua voz estava tensa e ele não olhava para Severus.

— Não — respondeu. — Pensei em ver se você estava bem.

— Por que não estaria? — quis saber.

— Bem, Granger está numa cama de hospital, para começo de conversa — disse lentamente. Tinha ido se garantir de que Lucius não havia ofendido o garoto, mas sabia que não chegaria a lugar nenhum falando sobre isso agora. — Se fosse Potter, você poderia nem se abalar, já que acontece o tempo todo, mas... — Draco o surpreendeu ao soltar um som estranho, parecido com um soluço, e Severus parou de falar na mesma hora, tentando decidir se deveria confortar Draco ou não. Estava um pouco relutante em fazê-lo, porque Lucius poderia aparecer a qualquer momento e isso pioraria ainda mais as coisas.

— O pai é um idiota — disse Draco, tomando a decisão por Severus ao começar a falar. Ele ainda não erguera a cabeça, mas parecia mais bravo do que triste, e Severus perguntou-se se tinha imaginado o soluço.

— Por quê? — perguntou em voz baixa. Olhou para as portas da Ala Hospitalar para se certificar de que Lucius não estava saindo, e Draco entendeu errado.

— Ele te mandou! — Draco se levantou em um pulo e teria ido embora, mas Severus segurou a manga de suas vestes.

— Sente-se, seu garoto tolo — mandou. Draco obedeceu. — Achei ter deixado bastante claro no último natal do lado de quem estou quando o assunto é esse. — A expressão de Draco relaxou um pouco.

— Descul...

— Você teve uma manhã cansativa — falou, dispensando o pedido de desculpas. — Apenas tente evitar esse desserviço no futuro.

— Sim, senhor — murmurou Draco. Ele ergueu a cabeça, e Severus se virou. Lucius e o diretor saíam da Ala Hospitalar (sem conversarem) e foram para o outro lado. Dumbledore encontrou os olhos de Severus brevemente, mas se Lucius notou que eles estavam ali, ele não demonstrou. Draco fechou a cara.

— Posso perguntar sobre o que vocês brigaram? — perguntou.

— Ele disse que eu sou deplorável e que eu preciso ser punido — respondeu, os olhos ainda em seu pai.

— Ele disse o porquê?

— Porque ele é idiota e eu o deixei saber — falou depois de um momento de hesitação. — E porque eu estou chateado sobre a Granger e ele acha que é impróprio. Ele é que é impróprio! — Draco chutou a parede em que estavam sentados. Severus o observou. Há um ano, Draco ficaria chateado por ter chateado seu pai... ou, pelo menos, Draco teria apenas assentindo e concordado com o que Lucius falasse, independente do que acreditasse. Ele nunca o teria chamado de idiota.

Veja o que fizemos, Narcissa, pensou, mas achou que ela só veria o filho com o interesse distante de sempre. Um garoto que pensa por si mesmo, que se permite dizer opiniões nada populares, um garoto que está mais triste pelo ataque a sua amiga nascida muggle do que pela opinião que o pai tem dele... Severus não sabia se devia ficar triste, orgulhoso ou ambos.

— O quê? — perguntou Draco.

— Você mudou — disse Severus, sem ter motivos para mentir — desde sua Seleção.

— Bom — falou. — Especialmente se não mudar significa que eu pensaria como o pai. — Severus teve a impressão de que essa seria a atitude de Draco por um tempo. Tinha ido até ali esperando encontrar um Draco triste ou confuso, e não tinha certeza do que fazer com um Draco bravo. Não havia por que defender Lucius (Draco não lhe daria atenção, mas Severus suspeitava que Lucius estava errado), mas concordar com Draco só o deixaria ainda mais bravo e isso não ajudaria em nada.

Draco voltou a erguer a cabeça quando McGonagall foi para o corredor, olhou ao redor e se aproximou. Atrás dela, estavam os gêmeos Weasley e a irmã, as duas garotas Greengrass e Runcorn. Todos pareciam um pouco perdidos.

— Potter e Weasley passaram por aqui? — Severus achou que McGonagall parecia estressada.

— Deveriam ter passado? — perguntou.

— Eles parecem ter se perdido. — As narinas dela se dilataram, mas ela parecia mais preocupada do que brava. A pequena Ginny Weasley parecia passar mal, e a raiva de Draco virou medo. — Fique de olho, por favor, Severus, e se eles aparecerem, acompanhe-os até a Grifinória.

— E os outros? — Olhou para o grupo de alunos atrás dela.

— Poppy quer um tempo sem visitantes, então vou levar esses três para a Grifinória, e a senhorita Greengrass para a Corvinal. Pomona está com Poppy, discutindo as mandrágoras, então se eu puder pedir que você acompanhe a senhorita Greengrass e o senhor Runcorn para a Sonserina e para a Lufa-Lufa, eu seria grata... — Severus quase perguntou onde Flitwick estava, mas aí se lembrou.

— Certamente — disse, levantando-se.

— Senhor Malfoy, comigo, por favor — disse McGonagall, e Draco se posicionou ao lado da gêmea Greengrass. Severus gesticulou para Greengrass e Runcorn o seguirem.

-x-

— Falaram onde ela foi encontrada? — perguntou Ron, ajustando a mochila de Draco nos ombros, na qual estavam vários livros e na qual, felizmente, também estiveram a capa e o mapa. Riddle teria amado colocar as mãos neles, Harry tinha certeza.

— Biblioteca — respondeu, segurando a capa quando o movimento de Ron ameaçou tirá-la de cima deles. A expressão de Ron se contorceu, como se ele fosse sorrir, mas voltou a ser triste; Harry suspeitava que ele tinha se lembrado do porquê ela ter ido à biblioteca e que Ron, como Harry e Draco, eram responsáveis por não terem ido com ela.

— É esse aqui? — perguntou Ron, indicando uma porta.

— Acho que sim. — Era o que dizia no mapa. Eles se entreolharam e tiraram a capa. Harry a guardou no bolso e sacou a varinha. Ron voltou a ajustar a mochila e também sacou a varinha. Abriram a porta e entraram.

— O que foi agora?! — gritou uma garota, e Harry recuou num pulo, trombando em Ron, ao tentar encontrar a dona da voz. — Também veio me jogar pelo ralo?

Harry finalmente a encontrou; era o fantasma de uma garota de rosto longo e de óculos, vestida no uniforme de Hogwarts, flutuando pouco acima do primeiro cubículo do banheiro.

— Não — disse —, nós... erm...

— Não estava falando com você — disse ela, interrompendo-o. Ela olhava feio para Ron. — Quanto de você, afinal?

— De... mim? — perguntou Ron, olhando para Harry num pedido de ajuda.

— Você é a Murta que Geme — falou Harry —, né? — Não tinha percebido até agora que esse era o mesmo banheiro que Ginny lhe mostrara no Halloween. Isso chamou a atenção dela.

— E se eu for? — perguntou, cruzando os braços. — Aposto que ouviu todos os tipos de coisas horríveis sobre mim, não foi?

— Erm, não — falou Harry, decidindo não falar do encontro de Ginny com ela —, só que você mora aqui. — Ron estava em silêncio, ainda a olhando com confusão. Murta o observou por um longo momento, antes de flutuar até o chão, ficando na altura deles, em vez de ficar flutuando perto do teto. Ela era um pouco menor do que Ron, mas Harry achou que ela era um pouco mais velha.

— O que vocês querem, então? — perguntou ela, com um olhar cauteloso para Ron.

— Eu sou o Harry — falou.

— Murta — disse ela, mal-humorada.

— E esse é meu amigo Ron. — Ron acenou, observando Murta com igual cautela. — O irmão dele foi atacado aqui noite passada.

— Não — disse ela. Harry olhou para Ron, confuso. Estavam no banheiro errado? — O irmão dele me atacou! Eu estava sentada nas piadas, cuidando da minha vida quando ele entrou aqui e me jogou pelo ralo...!

— Percy é um Monitor, ele não te atacaria — disse Ron, mal-humorado.

— Ah, sim, ele atacaria — retorquiu Murta. — Porque ele atacou!

— Bem — disse Harry, erguendo uma mão para que Ron ficasse calado —, ele foi encontrado hoje cedo, petrificado. — Murta piscou.

— O garoto ruivo alto, de óculos? — perguntou ela.

— Sim — disse Ron —, ele mesmo...

— Foi ele quem me atacou — disse ela. Ela subiu um pouco, para olhá-los de cima.

— E ele foi petrificado — disse Harry.

— Que azar o dele — respondeu Murta, dando de ombros. — Vocês ainda não falaram o que querem.

— Saber se você sabe de alguma coisa — falou Harry.

— Claro que não, ele me mandou embora! — brigou.

— Certo, desculpe, mas quero dizer... você não viu mais nada... estranho, ou alguém... Conhece Tom Riddle?

— Eu frequentei a escola com ele — disse. — Olive Hornby gostava dele, mas eu nunca nem falei com ele. E a única coisa estranha que eu vi foram dois garotos no banheiro das garotas.

— Não sabe nada sobre a Câmara Secreta? — perguntou Ron.

— Ela foi aberta quando eu era uma aluna — respondeu. Depois, suspirou. — O monstro de Sonserina me matou. E todos os professores que costumavam ouvir aos meus problemas quando eu era viva pararam de me visitar depois que morri. Simplesmente me deixaram aqui...

— O monstro de Sonserina te matou? — perguntou Harry, boquiaberto. — O que ele é? Como?

— Sim, ele me matou — disse. Se não entendesse melhor das coisas, diria que ela estava se divertindo, mas era difícil saber com os fantasmas, porque não podia sentir o cheiro de seus sentimentos. Ocorreu a Harry que andava dependendo demais disso ultimamente. — Foi horrível. E não tenho certeza do que ele era, mas era enorme, com olhos amarelos...

— Aha! — Murta ergueu os olhos com o barulho, assustada, e então uma expressão sonhadora tomou seu rosto. Ignorando Harry e Ron, ela flutuou para ir cumprimentar Lockhart, que acabara de entrar. — Achei mesmo que acharia vocês aqui. — Harry duvidava muito disso; era mais provável que ele estivera passando pelo corredor e os ouvira.

— Murta — chamou Harry, mas ela não se virou.

— Olá, professor — disse Murta, envergonhada.

— Olá. — Lockhart a olhou, desconfortável, antes de se voltar para Harry e Ron. — Sim, bem, vamos lá, então. Não posso deixá-los perambular por aí sozinhos em um momento desses, posso?

— Claro que pode — respondeu Ron. — O que você estava...

— Venham, meninos.

— Ela só estava nos contando sobre o monstro de Sonserina — disse Harry, frustrado.

— E eu adoraria ouvir o que você tem a dizer sobre o assunto — falou Lockhart, sorrindo para Murta. — Poderia falar comigo depois de eu levar os meninos para um local seguro...?

— Ah, sim — disse Murta, dando risadinhas.

— Viram só; o assunto está em mãos mais capazes. Vamos. — E, com isso, Lockhart levou Harry e um Ron muito insatisfeito para fora do banheiro. Por mais que ele fosse um idiota, ele ainda era um professore, e Harry estava certo de que ele voltaria para conversar com Murta (ainda que só por parecer que ela gostava dele) e, esperava, Lockhart passaria as informações que descobrisse para McGonagall ou algum outro professor.

— Você realmente não precisa nos acompanhar o caminho todo — disse Ron. Harry assentiu.

— Meninos — disse Lockhart com um sorriso inteligente —, vocês não podem me enganar como enganam aos outros. Se eu os deixar sozinhos, só vão ir atrás do Herdeiro. Vocês querem a fama, a glória, eu sei que sim.

— É, o fato de Hermione ter sido atacada não tem nada a ver com isso — falou Harry, sarcástico. Ou que é Voldemort.

— Fiquei triste ao ouvir sobre a senhorita Granger — disse Lockhart, e Harry acreditou. — Mas não tema, Harry. Agora estou verdadeiramente no caso...

— Quer dizer que não estava antes? — perguntou Ron, revirando os olhos; Lockhart contava há semanas durante as aulas sobre como chegara perto de acabar com toda essa história de Câmara durante o natal.

— Temo ter subestimado o Herdeiro — disse Lockhart. — Acontece com os melhores, sabe, mas agora ele tem toda minha atenção. Ele não durará mais do que algumas noites. Quase dá pena dele, né, eu ir atrás dele. — Lockhart lhes deu um sorriso branco e cheio de dentes, e Harry o olhou.

— Claro — disse depois de um momento.

— Até pedi que o Profeta viesse amanhã; as pessoas estão com medo, sabem, e é importante que saibam que eu estou cuidando das coisas. Elas vão dormir muito melhor depois de lerem minha opinião no assunto.

— Então o que você sabe até agora? — perguntou Harry. Lockhart estalou a língua.

— Harry, Harry, Harry. Temo ter virado um ídolo para você esse ano... — Ron fingiu vomitar do outro lado de Lockhart, enquanto Harry apenas olhava para o professor, incrédulo. — E eu vejo meu altruísmo em você. De verdade; vejo que você e seus amigos se colocariam no caminho do perigo para salvar os outros alunos, mas, Harry, é uma vida difícil. Não é uma que eu escolhi ou escolheria para os outros. — Harry apenas o olhou. — Acredito que te contar sobre o Herdeiro só irá te distrair e chatear, e não posso fazer isso; meu trabalho é te manter seguro.

Era claro que Lockhart não tinha sido informado do acordo que Harry tinha com Dumbledore. Harry não sabia se sentia-se reconfortado com isso, ou frustrado.

— Certo — disse, quase sem conseguir se impedir de revirar os olhos. O som de passos o fez erguer os olhos a tempo de ver McGonagall na curva do corredor. Ela correu os olhos por eles, aparentemente procurando por ferimentos, antes de cerrá-los. Harry sabia que ela não estava feliz.

— Acredito existir uma explicação para isso — disse ela, cruzando os braços. — Sair sem dar satisfação é um péssimo jeito de retribuir toda a confiança que lhe demos ultimamente, senhor Potter. E você, senhor Weasley; considerando o que aconteceu, eu teria achado que você levaria sua segurança mais a sério, assim como a de seus amigos.

— Desculpe, professora — murmurou Ron. Harry não falou.

— Eles estavam no banheiro do primeiro andar, professora — disse Lockhart. McGonagall ergueu uma sobrancelha para Harry, que sustentou seu olhar. — Tentando resolver todo esse mistério da Câmara, certamente.

— Certamente — repetiu ela, ainda observando Harry.

— Eu os encontrei antes que pudessem se meter em problemas... parece que já tivemos problemas o bastante ultimamente. Estou certo de que eles tiveram boas intenções.

— Eu os acompanharei a partir daqui — disse ela. Harry viu Ron quase sorrir.

— Eu não me importo...

— Garotos. — Harry e Ron foram ficar ao lado de McGonagall. — Obrigada por sua ajuda, Gilderoy.

— Não foi nada, de verdade. Não seja muito dura com eles, professora.

— Eu lidarei com eles como achar melhor — disse ela brevemente. Lockhart foi embora parecendo um pouco orgulhoso.

— Estamos com problemas? — perguntou Harry.

— Não estou nem um pouco impressionada — disse ela, caminhando pelo corredor. — Certamente vocês estavam investigando, mas sair sozinhos não é o jeito certo. — Harry olhou para o chão. — Cada um de vocês receberá uma detenção. — Ron a olhou, mas antes que pudesse falar qualquer coisa, ela continuou: — E considerem-se com sorte por essa ser a única punição; eu poderia — usou a cabeça para indicar a direção em que Lockhart sumira — tê-los deixado com ele.

Continua.