Capítulo 28 – A maldade de Snape

Suas mãos agarraram os braços frágeis de Harry com tanta força que o grifinório pensou que iriam se quebrar.

Estava ali, descontada sem censura, a raiva reprimida que os olhos negros sentiam.

Estava ali, a magoa maldita que corria por suas veias entupidas pelo ódio.

Estava ali, diante de si o homem que outrora vira como um alguém sem alma, mas que perante seus olhos se transformara apenas em um homem que luta pelo mesmo motivo que ele, que lutava pela mesma pessoa que ele, que estava ao seu lado mesmo pensando não estar, mesmo não enxergando que a linha que os separavam, agora os juntavam.

Snape e Harry

Tão diferentes e ao mesmo tempo tão iguais.

Ana

A linha invisível que os prendiam.

Quando o professor falou, Harry sentiu as mãos afrouxarem,assim como a voz que falava baixinho, quase como se sussurrasse em seu ouvido. Parecia uma leve brisa que podia ser sentida depois de um temporal forte e perigoso.

Era apenas um fio de tristeza, de submissão e desistência.

Era nada mais do que um anjo negro caído suplicando no último suspiro.

" Leve-me até ela"

Aquele bairro era tão pateticamente igual que lhe dava arrepios de pensar que alguém pudera viver ali. Tão certo, limpo, chato, sem graça.

Snape andava por aquelas ruas como se suas casas fossem ratos em um esgoto.

Harry ia na frente guiando-o, mostrando o caminho que o levaria para aquela que agora ocupava sua mente, mesmo não sendo de uma forma boa.

O grifinório ia pé ante pé sempre ligado a qualquer ruído nas ruas escuras. Mas os arrepios em sua espinha, o medo e a insegurança o atacavam profundamente daqueles olhos negros.

Harry parou e se atreveu a olhar para trás, porém se arrependeu no exato momento em que seus olhos verdes encontraram os negros em meio ao nevoeiro da noite escura.

Snape não falava nada, não se mexia e nem ao menos respirava. Parecia uma estatua de mármore que guardava as portas do inferno.

Um verdadeiro guerreiro escondido atrás de uma armadura negra feita de ódio que espuma de seus olhos.

O menino sentiu o poder daquele olhar, sentiu as ondas arrepiantes e temerosas que Snape conseguia liberar sem nem ao menos olhar para ele.

- Fique aqui.

A voz de Snape era o vento que soprava na noite vazia. O professor adiantou-se para a casa no final da rua, uma casa pequena, normal, igual a todas as outras, com suas paredes pintadas de cor creme e sua grama bem aparada.

A mulher dormia tranquilamente no sofá vinho diante da lareira apagada.

Mexia-se nervosamente como se algo ruim estivesse acontecendo ou viesse a acontecer.

Sentia frio e tremia, um frio que aumentava, que chegava perto, que a tocava com suas mãos geladas.

Acordou assustada e suada, sentou-se e respirou fundo com os olhos fechados.

Apenas um sonho, nada mais que um sonho ruim e frio.

Olhou pela janela. O frio não era sonho, a janela estava aberta e deixava o vento gelado entrar e cortar seu rosto.

- Mas... eu fechei – Pensou consigo mesma – Talvez tenha deixado aberta.

Seu coração disparou quando todas as luzes apagaram, parecendo um blackout que acontecera apenas em sua residência.

Sua nuca arrepiava-se perante a sensação de olhos lhe comendo a alma na escuridão.

Pensou rápido, mas não o suficiente para evitar que as mãos geladas do frio de seu sonho lhe impedissem.

- Eu não me viraria se fosse você – Disse a voz arrastada e baixa em seu ouvido rosnando como um lobo que acha sua caça.

- Quem é você? – Perguntou a mulher tentando esconder o medo que aflorava de seus poros.

- Está com medo? Humm, esta sim – Sentiu o perfume de seu pescoço – Esse cheiro. Medo, tremor – Mordeu a pele branca – Eu gosto.

- Quem... – Tentou continuar corajosamente.

- Eu! – Respondeu interrompendo-a – Sou nada mais nada menos do que aquele a quem não deveria ter entrado no caminho – Uma pausa, outra mordia no ombro deixado de fora pelo rasgo feito com os dentes do homem – Acha mesmo que o Lord é o único que deve temer, acha que não há outra pessoa que se iguale à ele, que seja tão cruel quanto ele?

Suas mãos apertaram as pequeninas mãos da mulher e a puxaram para dentro da sala escura.

- Por favor!

O breve movimento foi percebido por ele.

- Está tentando pegar isso? – Disse rodando a varinha entre seus dedos longos – Achou mesmo que eu iria deixá-la pegar sua varinha? Teve a ingenuidade de pensar nisso?

Um riso, perto de seu ouvido, dentro de seu corpo.

- O que quer?

- Ora, você irá saber minha cara, mas somente na hora certa, pois tudo é feito na hora certa.

- Eu não tenho medo de você.Mostre-se, me deixe ver quem é o animal que tenta se igualar ao meu Lord.

- Se assim deseja, mas saiba que eu não tento me igualar à ele – Ela foi virada e presa pelos braços grandes do bruxo – Eu sou pior que ele, eu sou o inferno, eu sou a solidão, eu sou o sofrimento, eu sou o ódio...

- Você é ele, você é o pai do filho dela, você é...

- EU SOU SEVERUS SNAPE!

Gritou apertando o queixo dela trazendo o rosto para perto do seu, suas bocas a milímetros uma da outra, seus olhos negros presos nos dela, devorando os dela, o puro ódio em suas pupilas. O queixo estralava com o aperto da mão pálida.

Ele a olhava criticamente, percebia cada detalhe. Seus olhos tentadores tentando demonstrar coragem onde estava explicito o medo. Seus dentes cerrando-se, sua pele esbranquiçada, seu rosto perdendo a pouca cor.

- Eu – Sussurrou como o vento que vai embora depois de um inverno cruel – sou a encarnação de... Lúcifer.

Um grito desesperado ecoou pela rua de casas chatas e iguais, um grito que jamais seria ouvido vindo da mesma voz, um grito sumido na calada da noite, um grito de morte.