Do alto da colina, igual a cada alma condenada ainda de pé naquele campo de batalha, Radamanthys tinha sido tomado por uma paralisia atroz.
Ainda tinha os dentes medonhos cravados na garganta de Shaka de onde o sangue denso escorria para fora das feridas abertas inundando sua boca, porém não conseguia degluti-lo, uma vez que não era mais dono de suas próprias funções motoras, e este lhe escorria pelos cantos da boca e queixo.
Com os olhos negros arregalados divisava vidrado e atônito o cenário inacreditável à sua frente, e então entendeu, quase entrando em choque, que havia perdido aquela guerra.
Tinha chegado tão perto... Mas, ainda assim se negava a aceitar aquela realidade.
Naquele mar de silêncio até o ar parecia morto.
De pé ocupando todo o campo, estáticos feito peças de um tabuleiro de xadrez esculpidas em pedra, seus exércitos agora estavam à mercê da criatura que se erguia no meio deles e que era a única que se movia livremente.
Subjugado, e ainda em poder do Espectro, Shaka, que já tinha o corpo paralisado pela ação da adaga cravada em seu coração, agora sentia aterrorizado cada fibra de seus músculos tremerem involuntária e desordenadamente. Estava de costas para o campo, não podia ver o que acontecia, mas o elo sanguíneo com Mu lhe avisava que algo estava errado, muito errado, pois a mente e a razão do Nut haviam desaparecido, e tudo o que conseguia sentir vindo dele era uma raiva animalesca e uma sede de sangue desvairada.
— Mu! Muuuuuuuuuuu!
O sumo sacerdote reunia toda a força que lhe restava para gritar, em torpor angustiante e com a voz saindo rouca, o nome do companheiro, tomado subitamente por uma fúria tão primitiva que confundia sua razão. Queria dilacerar cada pedaço, cada membro daquele Espectro, mas logo entendeu, tão surpreso quanto aterrorizado, que não apenas a adaga limitava seus movimentos, mas seu corpo todo era controlado por uma força maior.
— N-não... pode... ser... — murmurou olhando para baixo e encontrando os olhos arregalados de Radamanthys, em completo terror, voltados para o campo de batalha — MUUUUUU!
Em meio aos gritos roucos de Shaka, o único som que se ouvia ecoar naquele momento cortando o véu silencioso daquela noite odiosa, a criatura avançou alguns poucos passos.
As joias e adornos que trazia no corpo ficaram espalhados pelo chão, estilhaçados, e apenas um fino tecido de linho rasgado que se manteve preso à sua cintura cobria sua nudez.
Mu havia infringido a regra primária imposta por sua família ancestral e feito uso de um dom que de tão poderoso e terrível era considerado lendário por muitos imortais, visto que havia relatos de que apenas os primordiais, os que vieram antes de Mu, o haviam usado e depois nunca mais foram vistos para confirmar tal teoria.
A Dominação da Carne, como era conhecida no Mundo Novo, era um dom amaldiçoado, uma vez que exigia o consumo total do próprio sangue de seu possuidor para liberá-lo, e sendo o sangue a conexão do vampiro com o mundo vivo, era ele quem também mantinha sua parte racional, então, ao consumir todo o sangue para liberar tal poder o imortal acabava por se entregar totalmente à Besta que o habita, podendo jamais retornar à sua forma pacífica, ficando permanentemente na forma bestial. É o dom mais temido por todos os vampiros, o que coloca seu detentor no topo da cadeia alimentar acima até dos próprios imortais, pois lhe permite ter controle absoluto sobre tudo que é constituído de matéria orgânica, seja ela viva ou morta.
Portanto, se alguns vampiros são capazes de dominar com excelência elementos, sombras, pensamentos e feras, Seth era capaz de dominar a matéria que compõe todos os seres os induzindo a fazer suas vontades ou simplesmente os aniquilando num piscar de olhos.
Mas, a que preço...
Mu não era um simples vampiro. Ele era amaldiçoado pelo mais grave tipo de Consumo Conspícuo, e ao abrir mão de sua racionalidade e entregar-se totalmente à Besta não apenas havia condenado a si mesmo, mas talvez toda a humanidade. Todos os cuidados e esforços de Aset e Rá para manter o Caos adormecido agora caiam por terra e o futuro da Máscara de Seth e da sociedade humana e vampírica era incerto.
Um novo grito de agonia e desespero de Shaka pareceu, enfim, despertar a atenção de Seth, que ainda um tanto atordoado e desorientado pela metamorfose virou a cabeça para direção do alto da colina e estreitou os olhos selvagens.
Atenta, a criatura franziu o nariz alongado farejando algo no ar, o cheiro do sumo sacerdote, que lhe soou familiar, então um ronco animalesco brotou de sua garganta. De repente partiu correndo em direção ao líder Espectro e o sumo sacerdote cruzando o campo de batalha agora sem nenhuma dificuldade, pois nem era preciso mais tocar nos inimigos para derrota-los. Todos ali estavam sob seu domínio, até mesmo as sombras, que não eram constituídas de matéria orgânica, mas eram controladas por Radamanthys, e este estava à sua mercê.
Quando chegou ao topo da colina a criatura saltou cruzando o vazio como um vulto negro na noite, e com um pouso ruidoso caiu sobre os quatro membros bem à frente do líder Espectro, que olhava para ela num misto de fascínio e terror.
Como cientista e estudioso dos clãs vampíricos, Radamanthys conhecia a lenda do avassalador poder do Domínio da Carne. Ambicioso que era, por diversas vezes sonhara em possui-lo, porém jamais tinha imaginado presencia-lo daquela forma, assim como nunca imaginou ver concretizada à sua frente a crença do clã Setita.
Uma lágrima de sangue escorreu dos olhos vidrados do Espectro, enquanto com os dentes ainda enterrados na carne da garganta de Shaka passou a urrar de pavor e embevecimento ao ver a criatura enorme erguer o tronco e caminhar lentamente em sua direção encarando seus olhos.
Os urros abafados do líder Espectro e o choro alucinado atiçavam ainda mais a curiosidade de Shaka, que num esforço tremendo tombou mais ainda a cabeça para trás e então finalmente conseguiu ver a criatura.
Trêmulo, o sumo sacerdote sentiu a alma gelar. Mesmo totalmente transfigurado reconheceu de imediato Mu naquela Besta medonha, e seu coração se encheu de temor e aflição.
— Mu... — sussurrou sôfrego, mas em nenhum momento o demônio olhou para seu rosto, pois este tinha os olhos ferais cravados aos do vampiro grudado em seu pescoço.
Foi então que Seth abriu a boca imensa, franziu o focinho e soltando um urro gutural avançou sobre Radamanthys numa velocidade ímpar lhe abocanhando de uma só vez toda a cabeça. Com um único tranco o Nut decapitou o Espectro bem diante dos olhos atônitos de Shaka, que caiu de joelhos no chão quando finalmente foi separado do Espectro, enquanto ouvia os ossos do crânio do alemão serem triturados pelos dentes da criatura.
Pouco antes de engolir a cabeça, Seth meteu as garras no centro do peito de Radamanthys e dominando a matéria orgânica da carcaça em segundos reduziu aquele corpo a uma nuvem vermelho escuro de vísceras, ossos, tecidos e nervos pulverizados.
Uma nevoa fina de sangue envolveu a criatura e o sumo sacerdote no chão tingindo tudo de vermelho, então quando ela se dissipou Seth se curvou para baixo e finalmente olhou para Shaka.
— M-Mu... — sussurrou o Setita deixando escapar uma lágrima de um de seus olhos ao ver no que seu companheiro tão amado havia se tornado.
Contudo, não era a aparência de Mu que mais alarmava o sumo sacerdote naquele momento, mas o que o elo sanguíneo lhe dizia sobre ele. Aquela criatura diante de si não possuía um traço sequer de racionalidade, sua essência era puro instinto primitivo.
— Então esse é... Seth... Esse é... você... O que foi que você fez! O que...
Shaka teve a fala interrompida quando foi agarrado pelos cabelos e puxado com violência de encontro à fera. Esta agora cheirava toda a extensão de seu rosto, sibilando e rosnando enquanto o fazia.
Com extrema rudeza Seth empurrou o sumo sacerdote contra o chão e colocando-se sobre ele passou a farejar todo seu corpo até encontrar o que queria, o ferimento em seu peito onde estava cravada a adaga de prata.
Com um safanão virou Shaka de bruços, abriu a boca sangrenta e salivante e abocanhou o cabo da arma a puxando de uma vez para fora, para depois cuspi-la ao longe. Sem nenhum cuidado rasgou as vestes que cobriam o torso do Setita e lambeu a ferida, primeiro nas costas, depois no peito ao vira-lo novamente de frente. Fez o mesmo com a ferida na garganta, pois o elo de sangue lhe dizia que deveria curar aquele ser inferior que de alguma forma sentia estar ligado a si, portanto o sofrimento dele também era o seu.
Feito isso, Seth se ergueu abandonando Shaka ali no chão, então lhe deu as costas e avançou alguns poucos passos em direção ao campo de batalha.
Agora esse teria toda sua atenção, e o que se seguiu foi uma carnificina sem precedentes.
Rosnou alto e ameaçador antes de saltar para o meio daquela horda de vampiros paralisados por seu dom e, fosse correndo tão rápido que chegava a se tornar invisível, ou se teleportando, um a um os exterminava sem ao menos tocá-los, usando apenas a força de seu pensamento, ora liquefazendo seus corpos e depois os fazendo explodir no ar, ora os transformando num bolo de carne disforme que ele desintegrava tão fácil quanto estourar bolhas de sabão.
O exército de sombras já tinha sido dizimado no momento da queda de Radamanthys, e ali agora só restavam Assamitas, Espectros e poucos Seguidores de Seth, que em meio a todo aquele horror observavam imóveis, imersos num transe que era uma mistura de estado de graça e terror, a criatura exterminar sozinha o exército inimigo.
Os Setitas só não foram também aniquilados porque Seth os reconhecia através do odor de seu próprio sangue contido neles. Não fosse o ritual realizado no Egito certamente seriam igualmente exterminados.
A cada existência poupada um louvor silencioso era entoado na mente e no coração das Serpentes, que reconheceram naquela criatura a verdadeira essência de seu deus tão adorado e aguardado. Sua desgraça e sua salvação.
Asmita, Shijima e também Shun e Fudou estavam entre os sobreviventes e regozijavam-se ao vivenciar aquele milagre tão terrível.
Em poucos segundos aquelas planícies da Baviera pareciam ter sido varridas por um furacão furioso e a batalha havia se findado.
O solo estava tinto de vermelho, encharcado pelo sangue dos soldados que junto às vestes imundas destruídas e as armas caídas no chão se tornaram os únicos vestígios de sua existência.
Quando não restou mais nenhum inimigo de pé, Seth liberou os Seguidores de seu domínio, e estes na mesma hora dobraram seus joelhos se prostrando diante de seu deus, amedrontados e em estado de graça.
Não ousavam nem olhar para a criatura. De cabeça baixa e mãos unidas entoavam louvores e súplicas.
Seth então lhes deu as costas e saltou até onde estavam os corpos dos felinos de Shaka que foram mortos na batalha, depois, tal qual um animal furioso chafurdou seu focinho nas carcaças decapitadas.
Em alguma parte da mente perdida do Nut ele se recordou de Seth e Kali, e como se tivesse perdido elementos de seu próprio bando soltou um sibilo baixo carregado de dor e ressentimento.
Furioso abocanhou uma das carcaças e com uma das enormes mãos agarrou a outra, então teleportou-se levando a ambas consigo para o telhado da mansão de Radamanthys onde procurou refúgio de todas aquelas criaturas e de toda aquela balburdia para poder lamentar sua perda. Não que fosse capaz de chorar, já que tinha deixado de ser uma criatura racional, mas procurava se isolar como fazem as feras que perdem membros do seu bando, e enquanto chafurdava as carcaças no telhado mantinha seus olhos fixos à figura de Shaka no chão, logo ali perto.
A única coisa que ainda impedia Seth de correr para longe dali para saciar sua sede de sangue e sua fúria primitiva era Shaka.
Seu elo com o sumo sacerdote era como uma corrente invisível que o mantinha perto dele, mesmo que a essa altura não tivesse mais consciência do que Shaka representava para si.
Aos pés da mansão de Radamanthys o sumo sacerdote agora se levantava do chão com certo custo. Havia perdido uma boa quantidade de sangue, mas a saliva da fera já tinha regenerado boa parte de seus ferimentos. Contudo, as injúrias físicas que sofrera em nada se comparavam ao choque que dominava sua alma naquele momento. Tinha testemunhado o extermínio de um exército inteiro pelas mãos de um único ser, seu companheiro, seu deus, Seth, exatamente como previram as profecias... Mas, e Mu?
Apoiando um dos joelhos no chão para se levantar logo foi cercado pelos membros de seu clã que sobreviveram, e estes agora olhavam para si com os olhos cheios de terror, mas que ao mesmo tempo brilhavam numa espécie de encantamento.
Seth estava entre eles finalmente, mas e agora?
Quando conseguiu ficar de pé Shaka correu os olhos pelos rostos amedrontados de cada um ali, entendendo que buscavam em si uma resposta que ele não tinha para dar-lhes no momento.
— Sumo sacerdote...
Shun quebrou o silêncio, mas nada mais foi capaz de dizer além daquelas palavras.
Angustiado, Shaka olhou para cima, para o telhado da mansão, e viu a silhueta de Seth no que parecia uma fusão perfeita com a noite. Somente seus olhos escarlates faiscavam fixos aos seus, então olhou uma vez mais para os rostos dos Setitas a sua volta e se teleportou para o telhado.
Surpreendeu-se ao ver as carcaças dos felinos aos pés do Nut e este as protegendo como se fossem partes de si mesmo, mas seu choque foi ainda maior quando ali, cara a cara com a criatura, pôde observa-la de forma mais analítica.
Em sua mente as Escrituras e papiros antigos faziam todo sentido agora.
Diante de si estava Seth, não um deus, mas um vampiro que dominava a carne, talvez o único desde milênios antigos, um ser que detinha o dom da criação e da destruição em sua mais plena forma, por isso aqueles que sobreviviam à sua fúria eram considerados abençoados e o nomeavam de deus por ter-lhes sido misericordioso.
— Mu... — Shaka sussurrou.
Não sabia como, nem se era possível, reverter a transformação, mas sua fé inabalável lhe dizia que em algum lugar dentro da mente daquela Besta, Mu ainda vivia, e se vivia ele o traria de volta, como fez da primeira vez quando o encontrou sozinho naquela tumba no Irã.
Nada impediria Shaka de tentar despertar Mu novamente.
— Mu... Sou eu... Shaka! — disse, agora elevando ligeiramente o tom de voz.
A criatura inclinou a cabeça para o lado e olhou desconfiada bem fundo nos olhos do sumo sacerdote.
Na mente de Seth muitas informações corriam rápidas, mas ele não era mais capaz de processa-las com coerência, não conseguia delinear uma linha de raciocínio, nem entender o que lhe era dito e, por isso, havia perdido a habilidade da fala, comunicando-se apenas através de alguns sons e rugidos parecidos com os produzidos pelos felinos de grande porte.
— Mu... sou eu. — insistia o sumo sacerdote.
A figura que lhe falava despertava a curiosidade de Seth, que avançou um passo à frente aproximando-se dela. Seu instinto animal lhe dizia que aquela pequena criatura diante de si lhe pertencia, afinal estava impregnada com seu cheiro, sentia seu sangue correndo dentro dela, e esse sentimento de posse de repente despertou em si o dever de cuidar daquele ser, protegê-lo, mas ainda estava muito confuso.
Encostou o focinho no peito de Shaka e deu um leve empurrão seguido de um sibilo. Suas orelhas muito compridas mexiam frenéticas, pois estava atento também aos seres no pé da mansão.
— Mu... — Shaka chamou mais uma vez, entristecido pelo que via, pois parecia mesmo que Mu não era capaz de reconhecê-lo — Sou eu, Shaka! Você me entende?
O tom extremamente triste e angustiado da voz do sumo sacerdote espantosamente mexeu com a criatura, que não era capaz de raciocinar, mas através do elo sanguíneo podia sentir o que o outro sentia.
— Como eu faço para trazê-lo de volta? — a voz do loiro saiu trêmula, e agora ele estava tão próximo do demônio que se atreveu a erguer o braço para tocá-lo, ainda que receoso.
Era apavorante tê-lo assim tão perto, e quanto achou que Seth permitiria o contato este subitamente mudou seu semblante e sua postura.
A carranca selvagem se contorceu numa expressão de fúria, e ele ficou de pé sustentado apenas pelos membros inferiores, dobrando de tamanho. Soltou um ronco grotesco, e quando viu que Shaka fez menção em correr para longe de si o agarrou pela cintura usando apenas uma das mãos enormes, então saltou para o chão trazendo o sumo sacerdote consigo o carregando com a facilidade e desmazelo de uma criança que carrega uma boneca de pano na mão.
Seth se colocou bem no meio do círculo disforme constituído pelos sobreviventes Setitas, que imediatamente se prostraram dobrando seus joelhos e encostando suas testas no solo em sinal de reverência e submissão. Sem lhes direcionar o olhar ou sequer lhes dar atenção, o Nut passou a cavar um buraco na terra com a mão que tinha livre, mantendo Shaka firmemente seguro na outra.
Enquanto ouvia o ronco animalesco da fera, Shun ergueu a cabeça e assustadíssimo seu olhar encontrou o de Shaka.
— Sumo sacerdote... o que...
A pergunta do jovem vampiro de cabelos verdes não fora concluída, pois assim que ouviu sua voz Seth imediatamente virou-se em sua direção e rosnou ameaçadoramente, depois soltou um rugido alto e pavoroso respingando saliva sanguinolenta em todo o rosto do jovem Setita, fazendo com que todo seu corpo tremesse em verdadeiro pavor.
— Shun, fique quieto! — Shaka gritou de súbito — Ninguém fale nada! Fiquem todos quietos e não se aproxi... Argh!
O sumo sacerdote Setita também foi interrompido enquanto falava quando o Nut, furioso e incomodado com aquela falação toda, o chacoalhou no ar apertando ainda mais os dedos poderosos em torno de sua cintura, sibilando e rosnando ferozmente.
O aviso tinha sido claro.
Todos se calaram e baixaram novamente as cabeças em obediência, e então a criatura voltou a cavar. Quando achou que era suficiente teleportou as duas carcaças dos felinos de Shaka para aquela cova improvisada e depois jogou terra por cima usando os pés imensos até cobria-la bem, então com um gesto brusco jogou Shaka contra o solo e sibilou ruidosamente.
Sem saber o que a Besta faria consigo, e temendo pelo futuro de seu clã, o sumo sacerdote gritou em alto e bom tom enquanto encarava os olhos selvagens do Nut:
— Voltem para a sede no Egito e aguardem por um pronunciamento do Conselho. Asmita será o líder de vocês até que eu consiga trazer Seth de volta à sua forma racional, e se eu não conseguir... ARGHHHHHHHH NÃO!
O grito de Shaka foi um misto de dor, surpresa e pavor, pois agora Seth tinha aberto a boca imensa e abocanhado sua cintura o levantando no ar.
— Sumo sacerdote! — gritou Shun em aflição ao erguer a cabeça juntamente de todos os outros.
— VÃO! DEVEM PARTIR AGORA! — bradou Shaka apoiando ambas as mãos nos maxilares da criatura.
Foi a última coisa que o líder dos Seguidores de Seth disse antes que fosse carregado para longe de seu clã por aquela criatura que com um salto fundiu-se com a noite desaparecendo diante dos olhares perplexos de todos. Deixando para trás muitas perguntas sem respostas.
Não apenas os Seguidores de Seth saíram vitoriosos da sangrenta guerra vampírica.
Em outras partes do mundo, apesar das eficientes articulações estratégicas de Radamanthys, o que acarretou de fato muitas baixas a todos os clãs envolvidos, a batalha também se findava e os Espectros das Sombras saíam derrotados.
Devido aos ataques simultâneos engendrados pelos Assamitas e Espectros a ajuda demorou a aparecer em muitas das sedes, porém as alianças vampíricas entre os clãs eram tão fortes e antigas quanto a Máscara, e mesmo chegando atrasados os aliados chegaram a tempo de obter a vitória. Até mesmo os Pietones, clã nômade poderosíssimo, cumpriu sua aliança comparecendo à sede dos Patricii.
Na mansão de Camus, na França, não tinha sido diferente. Ao fim da batalha o cenário era de pura destruição.
Os Cesarens eram alquimistas e seus principais dons constituíam em manipular os elementos para usá-los como armas poderosas, por isso terra, fogo, água e ar contiveram o ataque dos exércitos de Radamanthys até à chegada dos aliados, os Filhos da Cacofonia, um clã de vampiros extremamente poderosos e muito temidos por dominarem o dom do Melpominee, uma dádiva das trevas que os permite usar a voz como arma mortal, podendo projetá-la para confundir os sentidos do ouvinte, para encantá-los e coloca-los numa espécie de transe, e até mesmo para induzi-los à loucura e lhes infringir dano físico rompendo seus tímpanos e órgãos internos mortos.
Não havia no Mundo Novo clã que não temesse os Filhos da Cacofonia, pois vampiro nenhum, nem humano, estava livre de ouvir seus cantos de morte e destruição, uma vez que suas vozes também atingiam a mente.
No entanto, mesmo com tamanho poder a batalha na sede francesa dos Cesarens foi dura e sangrenta, e ao seu final o cenário era de morte e desolação.
Espectros, Cesarens, Filhos da Cacofonia, Assamitas, e também servos e carniçais... Todos agora eram carcaças retorcidas e arruinadas estendidas num chão imundo e destruído.
Da elegante e imponente mansão de Camus apenas destroços restaram, como se um furação tivesse varrido tudo levando partes inteiras consigo e deixando para trás apenas entulho. E era por cima deste que aparentemente um único sobrevivente caminhava cambaleante e ferido.
Como o dom de manipular o ar e a água, Camus usava o gelo para lutar. Por isso uma grossa camada de neve cobria os destroços que haviam restado de seu lar. Das poucas paredes que restaram de pé, e também do chão e de um pedaço do telhado, gigantescos cristais de gelo formavam estalactites e estalagmites onde muitos corpos de Espectros e Assamitas ainda pendiam empalados. Sangue negro e fétido cobria aquele cenário branco e desolador.
— A-Aphrodite... — Camus chamou, quase num sussurro, pois reunia a força que lhe restava para caminhar e tentar regenerar minimamente seus ferimentos —... Hyoga... Isaak...
Caiu de joelhos, mas continuou sua busca por sobreviventes rastejando sobre os destroços congelados, quando de repente viu um corpo debaixo de uma viga grossa de madeira que havia sido derrubada na batalha.
— Oh non... non... — disse rastejando apressado até ele —... Non... Isaak... — lamentou pesadamente ao olhar para o rosto do servo morto, que ainda tinha os olhos abertos numa expressão de pavor e uma ferida enorme no pescoço. O haviam bebido até a última gota de sangue —... Desgraçados... Pardon, mon cher... Pardon... — rogou angustiado enquanto levava os dedos aos olhos do servo para fecha-los pela derradeira vez.
Camus lamentou muito perder Isaak. Sendo vampiro tinha seu jeito peculiar e frio de lidar com a morte, já que conviva com ela diariamente, mas nada o havia preparado para aquilo. Filhos da noite e humanos, todos haviam sucumbido de maneira violenta vítimas de uma luta desnecessária e estúpida.
Revoltado e ainda mais temeroso Camus continuou sua busca. Um ferimento grave nas costas e outro na coxa o fazia perder sangue e prejudicava sua regeneração, mas ele não ia desistir de buscar por Afrodite.
Em desespero repassava na mente o exato momento em que se perdeu do jovem músico no calor da batalha, e agora o medo assolava sua alma.
— Aphrodite! Aphroditeee! — chamou o mais alto que conseguia, enquanto rastejava agora chafurdando aflito na neve desviando dos cristais pontiagudos.
— Aqui...
Súbito Camus arregalou os olhos faiscantes e ergueu a cabeça.
A voz soara tão baixa e fraca que pensou ter alucinado.
Correu os olhos pelo local, atento, em silêncio, então, quando conseguiu controlar minimamente a euforia e o desespero que lhe cegavam pode, enfim, sentir o cheiro de sangue.
— Non... — seus lábios proferiram trêmulos, depois não conteve o brado de desespero que brotou de sua garganta — NON, NON NOOON! DIEU, NON!
No ar gélido viu uma tênue fumaça de vapor subir de detrás de uma estante de livros caída no chão. De lá também vinha o odor intenso do sangue vivo, e foi com a alma em agonia que correu o mais depressa que pode para lá.
Com as mãos feridas quebrou algumas estalagmites que impediam sua passagem e saltou a estante para o outro lado, então o que viu lhe causou mais dor, medo e horror que toda aquela batalha violenta de momentos antes.
No chão, Afrodite jazia sentado sobre um montículo de escombros e gelo. Curvado, tinha a cabeça pensa para baixo e os longos cabelos claríssimos lhe cobriam parcialmente as pernas nuas dobradas de joelhos unidos. Estas estavam encharcadas de sangue vivo. Tremia. Muito.
— Dieu... Aphrodite! — Camus gritou ao se lançar de joelhos ao lado dele, então segurou delicadamente em seu queixo e o fez levantar a cabeça. Estava tão pálido que parecia um fantasma, e sangue lhe vertia abundante pelos cantos da boca de lábios arroxeados — Non, Dieu, non! Você non!
A voz do francês veio acompanhada do choro eminente. O primeiro choro em séculos de existência desde que fora abraçado pela morte.
Ao descer os olhos para o torso do jovem pianista viu uma grossa estaca de gelo atravessada neste pouco abaixo do coração. No calor da batalha acidentalmente seu poder tinha ferido de morte aquele que mais amava.
— Non... — chorou contorcendo o rosto e meneando a cabeça —... Non... O que foi que eu fiz a você...
Em completo desespero, Camus afastou os braços do músico que se apoiavam no enorme cristal de gelo atravessado em seu corpo e verificou a ferida. Como cientista sabia que não poderia removê-lo, pois Afrodite morreria assim que o fizesse, uma vez que era ele quem estava estancando a hemorragia.
— Camus...
Ao ouvir o sussurro quase inaudível do músico, Camus levantou o olhar e divisou seu rosto pálido. Seu coração naquela hora estava imerso em uma tristeza jamais experimentada antes, nem em séculos enfadonhos de pós-vida.
Afrodite respirava com extrema dificuldade. O ar gelado se condensando em contato com seu hálito quente a cada nova tentativa. Aliás, era a atmosfera extremamente fria dali que havia mantido o sueco vivo até aquele momento, pois esta diminuía seu metabolismo.
Entretanto, para o jovem era sua fé que o mantinha vivo, pois em uma das mãos trêmulas segurava firme entre os dedos a pulseira de ouro que Mu havia lhe dado, e era a ele, Seth, o deus de seu antigo mestre que rogava em silêncio para que tivesse forças para se manter vivo a tempo de ver Camus uma ultima vez.
— Shiii... Non fale, mon amour... Non diga nada, poupe suas energias até que eu... eu... eu vou... Dieu, por favor!
Transtornado, Camus rogava a um deus que ele nunca acreditou existir.
Sua Ciência, afinal, não era capaz de salvar aquele jovem humano que agora tinha certeza que amava com todas as forças de seu ser, tampouco seu poder vampírico podia, pois debilitado e ferido como estava não teria sangue o suficiente para transforma-lo.
Soltou um grito de desespero, pois simplesmente era incapaz de lidar com a ideia de perder Afrodite para a morte.
Já o pianista parecia ter aceitado seu destino, finalmente. Fora Seth que o enviara a Camus, e foi ali que havia encontrado o amor.
No fim de todas as coisas Afrodite estava grato ao destino que o deus egípcio e seu antigo mestre haviam lhe dado: morrer nos braços de seu grande amor ao invés de destroçado pela besta faminta que habitava o interior de Mu.
— Eu... estou morrendo... Camus... — disse o belo sueco encarando os olhos úmidos de sangue do vampiro, e de repente foi acometido por uma crise de tosse que o fez quase sufocar no próprio sangue que lhe vertia da boca e vias aéreas e lhe afogava aos poucos.
— Non... eu non vou permitir que morra... — o francês dizia em agonia desmedida, enquanto segurava fortemente o rosto do músico lhe amparando — Dieu, o que eu faço?
— O... piano... — sussurrou o sueco entreabrindo os olhos azuis belíssimos e encarando os do francês.
— O piano? — Camus franziu as sobrancelhas, confuso. Seu coração de tão angustiado parecia até bater frenético dentro do peito hirto — O que tem o piano?
— Eu... estou ouvindo... o piano.
Camus sabia que Afrodite delirava.
Era isso que acontecia quando a morte já tocava os vivos com seus longos dedos gélidos.
Apertou os lábios, mas não conseguiu conter o choro convulso.
— Non, mon amour... Fica comigo, por favor. Non ouça a música, non ouça!
Em desespero Camus debruçou-se sobre Afrodite e o abraçou o mais forte que conseguia, como se assim pudesse roubá-lo dos braços da morte para mantê-lo nos seus.
— É tão... linda... — outro sussurro, então o jovem pianista levantou os olhos e através do telhado em ruinas divisou o firmamento, iniciando um suave e sussurrado cantarolar que repetia os acordes de Claire de Lune, uma de suas composições preferidas.
No céu estrelado a Lua cheia banhava a Terra com seu véu de prata.
Na Terra Camus encostava a testa no peito de Afrodite e chorava copiosamente ouvindo seu coração bater cada vez mais fraco. Um pranto sofrido, doloroso, e que vinha de dentro de sua alma amaldiçoada.
— Non cante, Afrodite... Dieu! Non leve ele de mim, por favor... por favor... non leve ele de mim. — rogava novamente a um deus que nunca acreditou existir, mas que agora tudo que mais desejava era que ele se manifestasse ali, diante de si, e colocasse por terra todas suas teorias científicas.
Camus tentava desesperadamente não ouvir o cantarolar de Afrodite, este cada vez mais fraco e arrastado.
Em angústia dolorosa e exasperação ergueu o tronco para analisar mais uma vez a situação. Correu os olhos pela ferida medonha no torso do jovem, depois para seu rosto pálido, para o sangue a escorrer incessante e para os olhos hirtos voltados ao céu.
Poderia tentar abraça-lo e transforma-lo em vampiro, mas teria que desfazer a alquimia que mantinha a água em seu estado sólido e isso acabaria por matar Afrodite imediatamente. Se o fizesse ainda teria que ter sangue o suficiente em seu corpo para ser capaz de transferi-lo e transformar o músico, mas não o tinha.
Estava fraco, ferido e de mãos atadas.
Entregando-se novamente ao choro, inconformado em ter de ver Afrodite morrer em seus braços sem nada poder fazer para impedir, de repente fora surpreendido por um novo sussurro do jovem.
— Eu acho que... amo você... Camus... Desde a primeira vez que... o vi... na sala do mestre Shaka...
Camus olhou para ele e acariciou seu rosto. Aquela declaração lhe encheria o espírito amaldiçoado de alegria não fosse a atual situação na qual fora dita.
— Mon petit, eu também amei você, Afrodite... Hoje eu sei! Sei que o que senti ao te ver pela primeira vez foi amor, um amor que non conhecia. Eu o quis para mim, non para tê-lo, non como posse, mas porque eu queria amá-lo... — as palavras do vampiro eram soluçadas, engasgadas, sinceras.
— Camus... — súbito Afrodite foi calado por uma nova crise de tosse e outro volume intenso de sangue que lhe vertia pelo nariz e boca, mas ainda assim insistiu — Camus... me dê seu derradeiro beijo... — pediu como numa súplica.
— O quê? — o vampiro inquiriu surpreso, pois sabia que o jovem não se referia ao beijo de lábios e sim ao de sangue.
— Não me deixe morrer... sem senti-lo... uma última vez.
— Non... non posso, Afrodite... Já teria o feito há muito se pudesse, mas non posso. — Camus chorou acariciando o rosto do sueco — Se eu mordê-lo agora você vai morrer, porque non tenho sangue o suficiente para transformá-lo.
— Não estou pedindo... que me transforme... — disse num fio de voz, em meio a muita tosse e sangue expelido.
— Non... — o vampiro o olhou nos olhos deixando todo seu amor transbordar naquela troca de olhares silenciosa.
— Eu estou morrendo... quero apenas... um último... beijo seu. Carregue-me para dentro de você... Assim morrerei... feliz. — "Afinal existe ordem no Caos, meu amor." — o sueco completou mentalmente, já sem forças para verbalizar.
Sem conseguir respirar mais, pois o sangue agora tomava completamente suas vias respiratórias o fazendo sufocar aos poucos, Afrodite sofreu uma convulsão, e Camus simplesmente não conseguia acreditar, tampouco aceitar, o que estava acontecendo ali.
Estático ele olhava para o músico sofrendo os espasmos da morte por choque e antes que essa o abraçasse de vez decidiu ele tomar a frente, como havia lhe pedido seu amado pianista em seu último sopro de vida.
Segurou no rosto contorcido de Afrodite, e com o seu próprio banhado em lágrimas de sangue lentamente aproximou seus lábios aos dele e selou seu amor com um beijo terno. Em seguida, delicadamente tombou a cabeça do pianista para o lado e escorregou seus lábios frios para o pescoço exposto, onde cravou as presas com lentidão e cuidado.
Camus chorava copiosamente enquanto lhe dava o derradeiro beijo do vampiro, certo de que aquela seria a última vez que sentia o pulsar daquela vida que para ele tinha sido tão preciosa.
