Sentada à mesa, no meio do jardim, Ruby vestia um macacão jeans e tênis. Seu cabelo, preso em um rabo de cavalo, caía elegantemente sobre a lateral do rosto. Regina tivera uma semana corrida e atribulada, e ela achou que deveria aguardar até as coisas se acalmarem para uma conversa entre elas.

Ruby ainda estava olhando para o jardim quando Regina apareceu, vestida apenas com um robe azul perolado, que realçava sua pele morena. A morena trazia um prato com algumas frutas e uma xícara de café puro.

"Bom dia, dear."

"Hey Gina."

Regina sentou-se, colocando um morango nos lábios e mordendo-o. Ruby revirou os olhos. A desgraçada era sexy involuntariamente. Ruby desviou os olhos do olhar inquisidor dela, e reparou no verde vivo da grama, e nas flores que cercavam os caminhos de pedras.

"Ruby."

A voz de Regina era poderosa e ela não podia ignorar, simplesmente. Com contrariedade, ela levantou o olhar e encarou-a.

"Sim?"

"Fale logo o que está querendo. Eu sei quando você está querendo perguntar alguma coisa."

"Eu detesto a maneira como sou transparente para você."

"Eu sei disso também. Fale logo."

"O que está acontecendo entre você e o Robin?"

Regina engasgou com outro morango.

"Como assim?"

"Regina, não me faça de tonta. Primeiro, você aparece toda estranha. O Robin liga te chamando de Gina, com ciúmes do teu marido, você e o David cada vez com mais crises. A maneira como você sempre se assusta quando eu pergunto sobre o assunto... Não precisa ser muito inteligente para ligar os pontos."

"Que pontos?"

"Você transou com ele."

Regina olhou nos olhos da amiga por algum tempo. Mas não respondeu. Permanecendo em silêncio, ergueu a xícara e tomou um longe gole de café. Ruby continuou.

"Foi uma vez só?"

Regina balançou a cabeça, negativamente.

"Puta merda, Gina... Mas o que isso quer dizer? Você vai deixar o David? Vai ficar com o Robin?"

"Ruby" – Regina limpou a garganta e certificou-se que ninguém estava se aproximando do jardim. "Eu não sei o que vai acontecer. Eu não posso me separar do David agora. Ele está passando por muitas coisas no momento."

"Transar com outro cara sem que ele saiba não vai ajudar em nada."

"E o divórcio vai? Você faria isso? Deixaria seu marido, uma relação de anos, com o sogro semi-operado e prestes a perder o emprego para ficar com o cara pelo qual está apaixonada há alguns meses?"

"Você está apaixonada pelo Robin há meses?"

Regina ficou boquiaberta por alguns segundos, pensando no que acabara de dizer.

"Talvez."

"Talvez? Você acabou de confessar que sim."

"Ruby. Será que você pode, por favor, manter isso em segredo? Pelo menos até eu encontrar uma solução sensata?"

Ruby segurou nas mãos dela, e sorriu.

"Eu faria qualquer coisa por você, Gina. Apenas tome cuidado, ok?"

"Eu tomarei, dear."


David abriu a planta na mesa, e colocou as garrafas sobre as pontas. O papel estava meio amarrotado, indicando as inúmeras vezes que já fora manuseado.

"Bem, Whale, a proposta é esta. Com o seu capital de giro, o investimento em pesca teria um retorno rápido e preciso. Grande parte da nossa economia advém dos cais."

"Qual seria minha porcentagem, Nolan?"

"O que tem em mente?"

Whale tomou mais uma dose de conhaque. Nolan era quase ingênuo em questões de negócio. Claro que abrir um negócio próprio era uma boa oferta quando se está prestes a ser substituído na delegacia. E ser o provedor do dinheiro necessário para esta transação lhe dava um poder e influência reconfortantes.

"25%."

"Dou 20%."

"Fechado."

"A distribuição é ideal, pois quero contratar funcionários experientes, que já tenham vivência nos mares que banham o nosso país."

"Sem problemas, Nolan. Eu confio no seu trabalho."

David sorriu, e bebeu uma dose do whisky também.

"Vamos ficar ricos."

Whale sorriu para ele, enquanto tamborilava o papel com a ponta dos dedos. Eu vou ficar rico, babaca. Você vai falir.

"Amanhã eu trago o contrato, e nós discutimos a transferência bancária."

David estendeu a mão e apertou a palma do homem à sua frente, confiante.

"É um prazer fazer negócios com você, Whale."

"O prazer é meu, xerife."

Whale sorriu, e se distanciou.

O prazer é meu, babaca.

O dinheiro também.

E depois que o negócio der certo, o lucro todo também.

Whale discou alguns números em seu celular e o levou à orelha.

"Zê?"

"Sim, querido."

"Ele mordeu a isca."


"Senhorita Swan?"

Regina entrou na delegacia usando um vestido vermelho grudado ao corpo e saltos altíssimos. Seu cabelo reluzia e sua pele cintilava, os lábios vermelhos como sangue em um sorriso assassino.

"Prefeita."

Emma rodopiou em seus saltos. Elegantemente vestida em uma saia lápis preta e camisa social azul, a loira era a imagem do profissionalismo forense.

"Adorei o look. Quem é o estilista?"

"Eu nunca li nenhuma etiqueta, se quer saber."

"O bom gosto é natural, então."

"Creio que sim."

Regina deu a volta na mesa de seu marido, sentando-se na cadeira estofada.

"Como deve saber, senhorita Swan... Você está tentando tirar o emprego do meu marido."

Emma baixou os olhos para a sua prancheta e sorriu. Colocando a prancheta sobre a mesa, ela se voltou para Regina.

"Na verdade, só quero fazer o melhor pela cidade."

"Quer dizer que ele não faz?"

"Eu não disse isso, Regina."

"Também não disse o contrário, Swan."

Emma a encarou, irritada. Debruçou-se sobre a mesa, e o clima entre elas começou a condensar.

"Não é exatamente imparcial quando a prefeita e o xerife estão casados. A cidade não tem equilíbrio."

"A cidade tem mais equilíbrio do que a senhorita nesses Louboutins, senhorita Swan."

Emma sorriu e admirou a ferocidade da mulher à sua frente. Uma oponente à altura.

"Boa resposta, Senhora Nolan. Mas isso não irá salvar o seu marido. Ele tem feito vista grossa sobre as suas manobras políticas, coisa que eu não farei quando for a xerife."

Regina endireitou-se na cadeira, e gesticulou com os dedos, fazendo sinal de aspas.

"Se"- Sorriu ela, maquiavélica. "você conseguir ganhar este cargo."

"Eu darei o meu melhor para isso, prefeita."

Regina levantou-se e deu a volta na mesa, passando por ela e derrubando os arquivos de Emma.

"Tomara que o seu melhor seja suficiente, Swan."


David estava caminhando pelo centro da cidade quando a encontrou.

"Oi."

Mary Margareth sorriu, e abraçou ainda mais os livros contra o peito.

"David."

"Quanto tempo, não?"

"Realmente... muito. O tempo corre mais rápido em Storybrooke?"

"Talvez."

Ela sorriu, e ele adorou rever aquele sorriso. Fazia muito tempo.

"Ouvi falar sobre o seu pai. Ele está bem?"

"Ah sim! O velho é duro como aço. Vai durar mais uma centena de anos."

"Fico feliz!"

"Você ainda tem pais, Mary?"

"Tenho apenas meu pai, Leopoldo. Minha mãe morreu quando eu era adolescente."

"Eu sinto muito."

"Tudo bem. Ela estava muito doente."

Eles se encaravam como se tivessem muito a dizer, mas as palavras simplesmente não o acompanhassem.

"Bem" – Mary cortou o silêncio, e baixou o olhar. "Eu preciso ir."

"Claro."

David assentiu com a cabeça, e passou por ela, mas lembrando-se de algo, virou-se para trás.

"Mary Margareth?"

Ela se voltou para ele.

"Sim?"

"Eu... estou abrindo um comércio voltado para a pescaria, e sua redistribuição pela região. Vou precisar de alguém para cuidar da área administrativa. Alguém com boas noções de escrita, e matemática financeira."

"Não creio que eu conheça alguém..."

"Você."

"Eu?"

"É. Mary, eu confio em você. É um negócio novo... Preciso de alguém de confiança."

"O que a Regina acha disso?"

"Ela... não liga."

Ele não sabia porque estava mentindo, mas simplesmente não podia voltar atrás agora.

"Tudo bem, nesse caso. Mas só vou conseguir comparecer à tarde, tudo bem?"

"Ótimo" – David sorriu e ele aparentava estar extremamente feliz com a resposta dela. "Depois conversamos sobre salário e essas coisas."

Mary sorriu de volta e assentiu com a cabeça. Impulsivamente, David caminhou até ela, segurando-a pelo rosto e beijando-a ternamente na bochecha, fazendo-a corar.

"Você é a melhor, Mary."

Ele se afastou, no sentido oposto, deixando para trás uma Mary Margareth pálida e com as bochechas rosadas.

E como se não bastasse, com milhares de borboletas no estômago.