O Voo do Passarinho

Capítulo XXVIII - A Rainha da Pedra do Dragão

O último corvo branco que ela tivera notícias de ter sido lançado pela Cidadela fora há cerca de um ano atrás; algum tempo após a morte de seu pai. Daquela vez a mensagem era sobre o fim do verão e início do outono. Sansa acreditava que teria mais ou menos uns dois ou três anos da crescente agitação do outono até que a estação mudasse novamente, mas não... O inverno que estava vindo para assolar os Sete Reinos não seria tão brando quanto o que enfrentou em sua infância. Desta vez ele deveria ser temido, não só pelo fato de que nada brota nesta estação, como também pelas guerras que hão de garantir a hostilidade da temporada.

Tão hostil quanto estas passagens, pensou, tentando se recordar qual caminho tomara para chegar até ali. Lembrava de ter subido e descido vários lances de escadas e entrado em vários corredores diferentes. O quarto da filha de Stannis fica no quinto andar e o meu no sétimo, sentiu-se aliviada com o fato. Ela só teria que se basear na lógica para retornar aos seus aposentos. Contudo, a lógica não facilitou as novas subidas e descidas nos degraus íngremes e gastos. Se Cara-Malhada não lhe desse tanto medo ela bem que poderia ter se beneficiado da presença dele como um guia. Isso é, se a Princesa Shireen o emprestasse para mim, disse a si mesma, tendo a certeza de que a garota cederia ao seu pedido.

Dependendo apenas de sua direção e instinto, Sansa perambulou entre as paredes ocultas do castelo de Pedra do Dragão até que depois do que pareceu ser uma hora completa ela chegou no conforto de seu aposento e nunca se sentiu tão grata por sua lareira estar acesa e iluminando todo o lugar, pintando a parede atrás do biombo com inúmeros losangos feitos de sombra e luz. A jovem estava tão cansada e frustrada por ter entrado em um par de quarto desocupado antes de chegar no correto que só identificou as batidas que ouvia desde que cruzara a passagem secreta vinha da porta de carvalho de seu quarto e não de seu coração.

- U-um momento! - Gaguejou, desesperando-se para garantir que tudo parecesse normal. Não desejava que ninguém soubesse de seu novo segredo.

Uma vez aquela portinhola na parede fechada, a entrada da câmara que percorria pelas paredes do castelo não poderia mais ser identificada, pois era feita da mesma pedra das paredes. Isso a sossegou, mas ao ver o seu reflexo no espelho a garota engoliu em seco. Sua face estava coberta de fuligem e sua roupa não estava diferente.

- Só um segundo! - Pediu para quem quer que estivesse desejando falar com ela.

Com as mãos trêmulas Sansa encontrou a bacia com água para higiene pessoal e lavou a face, assim como as mãos e os braços. A respeito de sua vestimenta não havia muito o que se podia fazer. Ela só recebera uma roupa de dormir e para usar os seus vestidos diários era necessário a ajuda de uma serva. A vantagem é que estou utilizando este roupão, pensou e imediatamente se pôs a removê-lo e o deixou caído atrás do biombo, sem tempo para arrumá-lo de forma apropriada. Embora sua camisola fosse uma peça indecente para receber quem veio visitá-la a essas horas era a sua melhor opção por estar limpa.

A correria para se arrumar demorou menos de dois minutos e respirando profundamente para manter a calma, entreabriu a porta de seu quarto apenas alguns centímetros para que a pessoa que estivesse do outro lado pudesse ver o seu rosto e uma parte de seu corpo, mas não pudesse ter muita visão de seu aposento.

A pessoa que Sansa se deparou fez com que seu coração voltasse a disparar e toda a sua falsa calmaria fosse descoberta.

- V-vossa Graça? - O chamou para ter certeza que não estava alucinando.

Do outro lado da porta estava Stannis Baratheon com o semblante extremamente pesado de rancor por ter sido feito esperar em seu próprio castelo.

- Lady Sansa... - O homem a cumprimentou entre dentes.

Ela sabia que o correto seria convidá-lo para entrar, entretanto ela não ousava. Ele era um homem e estava desacompanhado e ela estava em seu quarto com roupas inapropriadas para se apresentar perante ele. Qualquer que fosse o assunto que desejasse tratar deveria ser feito ali mesmo pelo vão da porta. A menos que ele insista, constatou, visto que afinal de contas ele era um Rei e um Rei sempre pode fazer o que desejar em seu território.

- P-posso ajudá-lo em alguma coisa? - Mostrou-se solicita, porém sem conseguir controlar a gagueira que cismava em persegui-la nas horas de estresse.

- Tenho assuntos para tratar com a filha de Lorde Eddard Stark a respeito de seu futuro - A informou.

Seria essa a deixa para convidá-lo para entrar? Se questionou, agarrando com força a maçaneta. O silêncio ameaçou se estender entre ambos e sentindo a pressão vinda daqueles olhos azuis que se recusavam a ficar um segundo a mais se quer naquele corredor, Sansa abriu a porta para Stannis, mantendo-se atrás da mesma.

O Rei adentrou o seu quarto sem delongas, mas ao invés da atenção dele se focar na pessoa que veio visitar, ele demonstrou interesse no ambiente, como se estivesse procurando algo escondido ali. Sansa não interrompeu a análise que ele fazia, observando-o para entendê-lo.

O aposento que ela ocupava sofrera poucas alterações desde sua chegada. Na verdade, ele se tornara habitável apenas. A poltrona era a mesma assim como a cama, o biombo, o baú e a lareira. As únicas mudanças eram que agora a lareira estava acesa, o baú estava ocupado, o biombo tinha um vestido seu esticado por cima dele, a cama estava desfeita e a poltrona tinha alguns itens pessoais de Sansa que sobrevivera ao naufrágio, como o livro de ervas que ganhara de Alíria que duplicara de tamanho devido a umidade nas folhas e a capa que Sandor Clegane utilizava quando era membro da Guarda Real.

A capa... Sansa mordeu o lábio inferior ao identificá-la. Aquele item era como a prova de um crime. Aquele pedaço de tecido representava uma promessa, representava Sandor, o mal e o bem que ele lhe fizera além dos sentimentos que secretamente nutria por ele. Nos dias em que se sentia sozinha em Pedra do Dragão ela costumava tomar a capa em seu colo e colocá-la próxima ao seu rosto para sentir o cheiro de Sandor que ainda permanecia impregnado ali e misturado ao seu.

Como se Stannis conseguisse ler o significado do item mais precioso de Sansa, ele dedicou um bom tempo de sua análise aquele pedaço de tecido. Não se sabe dizer exatamente quanto tempo que o Rei depositou sua atenção naquela capa, mas para Sansa foi como uma eternidade cuja qual ela não ousou falar nem se mover, temendo até mesmo respirar. A garota sabia que se fosse Joffrey quem tivesse pego uma vestimenta de outro homem em seu quarto ela teria apanhado de um dos Guardas Reais, contudo essa era a vantagem de Joffrey, pois ela sabia do que ele era capaz, enquanto por outro lado ela desconhecia o cavalheiro que estava à sua frente e a única coisa que a tranquilizava era o fato deles não possuírem nenhum laço que resultasse em punição por este deslize.

Girando sobre os calcanhares, Stannis se voltou na direção dela e fez de Sansa o seu objeto de análise, percorrendo todo o corpo dela com os seus olhos até finalmente parar no rosto da mesma, tentando encontrar algo que procurava ali.

Sansa sentiu as maçãs do rosto avermelhar e as mãos transpirar. Ela procurou algo em sua mente que pudesse distrai-lo, mas nada lhe veio em auxílio, tendo de esperar que a iniciativa partisse do cavalheiro.

- Você não estava em seu quarto, estava? - Stannis a questionou, com o semblante revelando os seus pensamentos tanto quanto uma parede revela o que está do outro lado.

- Eu... - Hesitou, sabendo que sua resposta não soaria convincente o suficiente. Sansa se sentia exposta demais para arriscar enganar o homem diante de si - Não, eu não estava.

- E aonde a senhorita foi a estas horas da noite vestindo apenas estes trapos? - Perguntou o Rei. Era óbvio que ele sabia sobre as passagens secretas, afinal de contas ele morava há muitos anos nesta fortaleza, portanto a questão sobre como ela saíra do quarto e retornara com ele estando na porta principal não pareceu tão importante.

Sansa franziu o cenho. A pergunta não a enervou tanto quanto o fato dele ter se referido a camisola dela como trapo. Ele por um acaso faz com que seus convidados se vistam em trapos? Irritou-se.

- Fui conhecer o seu castelo, Vossa Graça, sem que nenhum de seus homens acompanhassem cada passo meu - Respondeu com implicância sem perder a educação. Podia ter contado a verdade, mas a irritação lhe deu coragem para mentir e expor o fato de que estava cansada de ser vigiada pelos soldados de Stannis.

O homem estreitou as sobrancelhas, demonstrando insatisfação com a explicação que recebera. Pelo menos ele está demonstrando algo, Sansa pensou.

- É para a sua própria segurança que os coloquei a sua disposição. Depois que Selyse foi embora, os Florent levaram consigo um considerável número de meus homens, fragilizando o meu exército para qualquer bastardo com uma falsa pretensão ao trono me derrotar - Confessou, tomando liberdade para se sentar no leito da garota - Diga-me Sansa, o quanto você gostaria de rever o que restou de sua família?

- Vossa Graça? - Sansa não entendeu o rumo que a conversa seguiu, muito menos o fato de sua família ter sido inserida no contexto.

- O seu irmão, Robb Stark, e sua mãe não estão muito distantes daqui. Você gostaria de revê-los?

Sansa sentiu o coração disparar. Fazia mais de um ano que ela não via os dois membros mais queridos da sua família. Robb era o seu irmão favorito, ela sentia falta de ser paparicada por ele, assim como de ter a sua mãe para arrumar os seus cabelos. Catelyn fazia questão de dispensar a ama da filha quando chegava a hora de escovar suas longas madeixas acobreadas, o que a deixava muito feliz por ser um dos únicos momentos em que mãe e filha podiam ter intimidade juntas. Sansa sabia que não era fácil para Catelyn dividir seu tempo e atenção com cinco filhos e um marido, por isso fazia questão de aproveitar cada segundo do tempo dedicado a ela.

- Mais do que qualquer coisa, Vossa Graça - Respondeu com emoção na voz.

- E o que estaria disposta a fazer para isso? - Stannis se pôs em pé novamente e caminhou em direção dela.

- Tudo - Respondeu, sem pensar duas vezes.

Em um movimento ágil, o Rei se pôs na frente de Sansa e encostou um dos joelhos no chão, permanecendo com uma das pernas dobradas e em suas mãos tomou a mão direita da garota sem desviar o olhar dos olhos daquela que estava disposta a fazer qualquer coisa para rever a família.

- Case-se comigo, Lady Sansa Stark - Propôs - Se torne minha esposa e será coroada Vossa Graça, Sansa das Casas Stark e Baratheon, Rainha dos Ândalos e dos Primeiros Homens, Senhora dos Sete Reinos e Rainha da Pedra do Dragão. Me dê o exército de seu irmão nessa aliança e eu lhe darei a sua família.

Nenhuma palavra deixou seus lábios e já não conseguia pensar em mais nada. Sansa sentiu o estômago revirar em náusea. Aquela criatura velha, sem nenhum atrativo físico e psicológico a estava propondo em casamento e embora soubesse que não podia recusar o pedido, a única coisa que desejava fazer era vomitar o seu desgosto. Stannis é fraco, sem amigos e velho e no entanto ele tem mais poder sobre o meu destino do que eu mesma, lamentou, talvez eu seja realmente um passarinho, passando de gaiola em gaiola sem nunca poder sentir o gosto da liberdade e esperando que nenhum de meus donos queira torcer o meu pescoço.

- Vossa Graça... - Murmurou com o resto da voz que lhe restava. Por mais feio e desagradável que ele fosse em seu conceito, naquele instante ela teve pena dele e de si mesma. Meu pai confiou nele para se tornar o Rei dos Sete Reinos e no entanto não há mais ninguém que aceite sua pretensão. Ele não a desejava, isso era claro, o que ele realmente queria era os homens de seu irmão Robb. Ela seria apenas um instrumento para que ele tivesse o que desejava. Ele estava condenando os dois a uma vida infeliz para uma satisfação momentânea. Ninguém nunca se casará comigo por amor, tornou a pensar nesta constatação que a atormentava.

Se ao menos houvesse alguém para interceder por mim, desejou. Por mais fraco que Stannis fosse militarmente, não havia ninguém que pudesse ou quisesse derrotá-lo em prol dela, nem mesmo Sandor Clegane. Sandor era um homem só, mesmo que ele cumprisse sua palavra e voltasse por ela já seria tarde demais. Se ele tivesse pedido a minha mão nesse tempo em que ficamos juntos... Entretanto Sandor não era um homem que desejasse contrair núpcias. Ele era um homem da vida e a única coisa que ele podia propor para ela ele já tomara sem o seu consentimento. Ele mesmo confirmara isso quando fora preso por Melisandre.

A garota sentiu lágrimas brotarem em seus olhos e foi necessária toda a sua energia para contê-las. Não se permitiria chorar na frente de seu pretendente.

- Quando... - Foi necessário parar a frase e assegurar a voz antes de continuar - Quando poderei ver a minha família?

Stannis tornou a se por de pé, mas ainda segurava a mão dela entre as suas.

- Assim que aceitar a minha proposta enviarei um corvo ao Jovem Lobo, mas você só os verá após a cerimônia do nosso casamento - Garantiu.

- E... Quando a cerimônia ocorrerá?

- Antes que a lua mude - Respondeu com simplicidade.

- Isso ocorrerá em dois dias! - Sansa exclamou, perplexa. Se Sandor fosse realmente voltar por ela, o prazo de resgate havia encurtado consideravelmente.

- Não será necessário muitos preparativos. O casamento será simples, Lady Melisandre realizará a nossa união e alguns dos meus homens servirão de testemunhas.

Sansa virou o rosto para ocultar sua visão e não despertar o ódio de Stannis por ela não conseguir esconder a sua indignação. Ela jamais esperara um casamento de camponês com um homem que se intitulava Rei, mesmo que este fosse o mais impopular de todos. Não haveria nem um rosto conhecido entre os presentes na oficialização de sua aliança, ninguém em quem ela pudesse confiar, ninguém que a amasse, ninguém que respeitaria o seu novo título, nem mesmo o seu noivo se enquadrava nessas descrições. O motivo de eu ter deixado Winterfell foi para me tornar uma Rainha e o motivo de eu ter deixado Porto Real era para reencontrar a minha família, mesmo que não seja da forma que eu esperava eu estou alcançando estes objetivos, tentou convencer-se.

Stannis libertou a mão de Sansa que ele segurava. Hora alguma Sansa esteve presa à ele, bastava que ela desejasse e ela poderia ter sua mão de volta, entretanto ela era educada demais para fazer isso e agradeceu o fato da iniciativa ter vindo dele.

- Irei deixá-la para que pense em minha proposta, Lady Stark - Anunciou - Contudo eu esperarei uma resposta sua ao amanhecer - Dito isso, Stannis caminhou até a porta do quarto, mas parou antes de atravessá-la - Só quero avisá-la antes de ir, que independente do que esteja pensando, aquela criatura que estava viajando junto com você já deve estar há muito morta nesta altura, portanto abandone todas as esperanças que tenha de reencontrar aquela besta.

- Sandor está morto...? - A notícia a chocou ainda mais do que o pedido de casamento que recebera, mas nenhuma lágrima escorreu.

Neste ponto, Stannis já havia deixado-a só sem nem ao menos se dignificar de expor o que sabia sobre o paradeiro do homem que retirou Sansa de Porto Real.

Sandor está morto... a frase lhe causou tremores nas extremidades e um soco no estômago. Aquela única esperança que tinha de Sandor voltar por ela havia sido abalada. Não é possível que ele tenha morrido, se ele tivesse, eu sentiria... Tentou se convencer, obrigando-se a andar de um lado para o outro no quarto em que ocupava, segurando suas mãos na altura da barriga de forma nervosa. Lady Melisandre teria avisado ou qualquer um teria me dito, mas não Stannis e não dessa forma... Raciocinou. Stannis suspeitava dela pela forma em que examinara a capa da Guarda Real e os boatos da fuga dela com o Cão de Caça de Joffrey havia se espalhado e com certeza chegara até Pedra do Dragão. Eles acham que eu estou fodendo com o Passarinho de Joffrey, foi o que Sandor lhe disse. Stannis deve pensar a mesma coisa... Engoliu em seco. Clegane a orientara para não confessar o que ele fizera com ela, o que ele não sabia era o quão óbvio isso se tornara. E mesmo suspeitando disso Stannis quer me tornar sua segunda esposa. Mas o que Stannis realmente quer é o seu irmão como aliado, Sansa sabia disso.

- Queria que Sandor estivesse aqui... - Desejou e sem que percebesse lágrimas deslizaram pelo seu rosto.

Havia uma parte dela que acreditava que ele realmente podia estar morto. Stannis não era um mentiroso como os Lannisters e se ele dissera isso é porque o Cão de Caça fora colocado em uma situação perigosa pela Sacerdotisa Vermelha. Se Sandor realmente estiver morto é culpa de Lady Melisandre e neste caso Stannis é tão culpado quanto ela... e eu terei de me casar com um assassino... Refletiu. Se Sandor tivesse proposto matrimônio à ela, então ela também teria se casado com um assassino. Só que ele nunca matou ninguém que eu gostasse... O defendeu, sentindo as bochechas corarem. Sansa gostava de Sandor, mas esta era a primeira vez que admitia isso para si mesma. Talvez eu esteja sentindo isso pelo o que ele fez comigo, ela forçara os seus pensamentos para toda a vez que ele lhe feriu com as palavras ásperas e quando lhe machucou com suas ações e nem assim conseguia odiá-lo. Talvez eu esteja apenas me enganando e quando eu o ver novamente pense diferente, concluiu. Entretanto se ele realmente tivesse vivo e cumprisse sua promessa, ela não seria mais Sansa Stark e sim Sansa Baratheon e talvez já tivesse aprendido a amar Stannis. Se o plano dele der certo, eu serei a Rainha dos Sete Reinos e de Pedra do Dragão, ele me dará tudo o que eu quiser e eu já não precisarei mais de um Cão, pensou. Seu pai acreditara em Stannis, então o mais certo fosse ela também acreditar em seu futuro marido.

Decidida a não pensar mais no assunto, Sansa enxugou as lágrimas que ainda desciam e se deitou em sua cama, porém não conseguiu dormir e toda vez que se virava em seu leito mirava os olhos na capa de Sandor que estava sobre a poltrona e por fim decidiu escondê-la dentro do baú. Ela não queria comprometer a si mesma com aquele pertence, nem queria mais pensar em como teria sido se eles tivessem um outro destino.

Apesar de seus esforços, Sansa não dormiu naquela noite e antes de amanhecer, conforme havia sido combinado, uma criada veio até o quarto de Sansa para acordá-la e a tornar apresentável para o Rei, embora a aia só tivesse de desempenhar uma das funções em que foi resignada.

Livrando-se do resquício da poeira de sua aventura na noite anterior e disfarçando suas olheiras com pó de arroz, a criada a vestiu com um vestido verde simples que pertencera a Rainha Selyse em sua juventude e penteou o cabelo de Sansa, o amarrando em uma trança.

- Me Lady está muito bonita - Elogiou a criada com o seu carregado sotaque camponês.

Que diferença isso faz? Stannis se casaria comigo mesmo que eu fosse um monstro, constatou.

Sem delongas, Sansa deixou os seus aposentos e foi acompanhada por dois soldados até o Salão da Mesa Pintada, onde Stannis a esperava. Naquela hora da madrugada, com os pássaros começando a cantar, o castelo estava mais vazio do que de costume, nem mesmo Cara-Malhada tilintava os seus sinos ou cantava suas canções através das paredes. Até bobos dormem, Sansa podia ter rido de seu pensamento, mas não havia felicidade nela naquele momento para compartilhar.

Quando entrou no salão, Sansa encontrou Stannis sentado na cadeira da ponta da mesa que ele propositalmente virara em direção da janela, esperando pelos primeiros raios de sol. Aparentemente ele tivera tanto sono quanto ela, contudo os olhos dele não indicavam que havia chorado e nisso eles se diferenciavam. Se eu tivesse de me separar do meu esposo de tantos anos com quem eu tenho uma filha devido a formação de novas alianças eu teria chorado por pelo menos um mês, comparou.

- Vossa Graça - Sansa o cumprimentou, fazendo uma pequena reverência.

- Pensou em minha proposta, Lady Stark? - O Rei foi direto ao assunto, voltando a posicionar seu assento em seu devido lugar.

Havia na mesa alguns pratos para o desjejum de ambos. Se Stannis fosse mais cortês poderia ao menos tê-la convidado a tomar um lugar e quando tivessem começado a comer ele então deveria ter-lhe questionado, mas como Sansa percebera nos dias em que estivera ali, o Rei de Pedra do Dragão não possuía tato algum.

- Sim, Vossa Graça, eu aceito vossa oferta - Respondeu sem emoção alguma.

O Rei a encarou sem nenhuma demonstração de surpresa ou felicidade com essas palavras, ele apenas assentiu e indicou o lugar ao seu lado direito para que ela se sentasse.

- Tome o seu desjejum comigo, Lady Sansa.

Sansa o obedeceu e observou os alimentos que tinha a sua disposição. Havia uma torta de legumes e meia dúzia de ovos cozidos, assim como biscoitos e vinho para ajudar a comida descer. Uma refeição digna de camponeses, constatou. Era certo que as guerras e o inverno estavam deteriorando os estoques de alimentos, mas não haver uma carne na mesa de um nobre, ainda por cima um rei, era preocupador.

- Não tenho fome, senhor - De fato ela não tinha fome, não pela aparência da comida que lhe fora servida e sim pelo luto que havia declarado para si mesma.

Stannis a encarou fixamente antes de voltar sua atenção para a comida diante dele. Ele pelo menos podia ter algum criado para fazer as honras, pensou Sansa.

- Há algum motivo que a induza a evitar o que eu tenho para lhe oferecer? - O Rei perguntou, voltando a fixar os olhos nela agora que havia um pedaço pequeno de torta de legumes em seu prato.

Ele não está falando apenas da comida, percebeu.

- Não, Vossa Graça, é apenas o meu estômago que não está bem - Disse com simplicidade, porém hesitando encará-lo. Por favor, que ele pare de falar comigo!, pediu. Estou tão indisposta que suportar a presença dele é o máximo que posso fazer no momento. Por mais que meu pai gostasse dele e que a coisa certa seja me desposar com este homem, eu jamais selaria matrimônio com ele se eu fosse livre para escolher o meu marido... Ainda mais se Sandor realmente estiver morto, eu não poderei tolerar ser tocada pelas mãos que carregam o sangue de Sandor... Sansa sentiu um gosto amargo lhe subir pela garganta e deteve os pensamentos. Sandor fora o primeiro homem que a possuíra e mesmo ele gostando dela ele a violentara, então se Stannis que não gostava dela demandasse o seu direito de marido poderia fazer-lhe coisa pior.

- Seu estômago? - Stannis a analisou com severidade - É algo com que devo me preocupar?

- Não, Vossa Graça - Meneou a cabeça em sinal negativo - Tenho certeza que mais tarde terei fome e comerei com prazer o que quer que seja que me ofereça - Respondeu com ingenuidade a pergunta que lhe fora feita.

- Você está gravida, Lady Sansa? - Seu noivo foi direto ao perceber que ela não entendera o que ele se referira.

- V-Vossa Graça? - Sansa sentiu o sangue subir para o rosto e involuntariamente os seus olhos encontraram os de Stannis. Havia uma frieza tão grande naquelas duas órbitas azuis que lhe causaram terror.

- Há um filhotinho de cachorro crescendo dentro de seu ventre!? - Satirizou.

O Rei estava mais impaciente do que ela já o vira. O ranger de dentes estava mais alto e mais constante do que de costume. Sansa concluiu que tinha mais medo dele do que de Sandor.

- Não! - Exclamou em puro nervosismo - Sandor e eu nunca... - Hesitou, não conseguia mentir para ele naquele estado em que ambos se encontravam. Ele sabe, repetiu para si mesma. Por mais que negasse a verdade, ela seria descoberta se ele mandasse alguém examiná-la e ela se tornaria uma piada e uma desgraça para ele - Eu não estou grávida... Eu acho... - Completou em um sussurro, desviando os olhos para suas mãos. Eu confessei... Mordeu o lábio inferior para conter suas emoções. Estava tão envergonhada por estar tendo aquela conversa que desejava ter comido mesmo sem estar com fome para evitar ter entrado nesta situação.

- O seu sangue da lua já veio ou o que manchou o seu vestido foi um sangramento? - Stannis parecia menos impaciente, ainda que continuasse sisudo e o ranger de dentes continuasse.

- Meu sangue da lua, Vossa-Graça... - Respondeu, ainda evitando mirar os seus olhos no homem que estava na presença dela. Cada vez mais tinha novas razões para se envergonhar. Ela percebera que manchara um de seus vestidos com o seu sangramento mensal, só não imaginara que Stannis também tivesse percebido isso.

- É menos um problema para se resolver - Disse o Rei, levando uma garfada de torta a boca - Se tivesse sabido a tempo o que aquele animal fez a filha de Eddard Stark, a minha futura esposa, eu mesmo teria dado cabo a vida dele.

Ainda bem que não soube, pensou, se atrevendo a olhá-lo de escanteio. Stannis era o tipo de homem tradicional, algo que ela sempre valorizara nas características de seu futuro marido, mas agora isso parecia errado. Não que o que Sandor fizera com ela fosse certo, contudo no conceito dela era menos errado do que o que Stannis faria com ela. Sandor me possuiu por amor e Stannis vai me possuir por ambição, refletiu.

Queria poder se levantar e ir para o seu quarto, mas não podia enquanto Stannis não lhe desse permissão para partir e como desejava mudar de assunto, procurou um que soaria mais apropriado para a ocasião.

- A Princesa Shireen já sabe da sua proposta, Vossa Graça? - Ousou.

- Minha filha não precisa se envolver em política - Foi a vez de Stannis se incomodar com o novo tópico.

Sansa se ofendeu. Independente do motivo deles estarem se casando, ela seria parte da família também.

- E se ela não aprovar a nossa união? - Questionou.

Na noite anterior ela conhecera a princesa e a garotinha demonstrou ter gostado dela enquanto ela era apenas Lady Sansa Stark, talvez os sentimentos da menina mudassem quando o sobrenome de Sansa fosse o mesmo que o dela. Sansa jamais a culparoa por isso.

- A aprovação dela é indiferente a minha decisão - Stannis bebericou o vinho e a encarou - Não posso obrigá-la a gostar de você e nem você a gostar dela, mas vocês quase não se verão. Shireen passa a maior parte do tempo em seu quarto e não será diferente com você.

Ele tem vergonha de mim, reparou. Ele tranca a filha no quarto devido ao Scamagris que ela tem no rosto e Sansa seria trancada pela mácula no passado que ela carrega. Stannis só tem que dizer os seus votos e me visitar à noite, ele não precisa de mim ao seu lado para comprovar a aliança que firmará com o Norte.

- A Princesa Shireen parece ser uma garotinha doce - Comentou.

- E ela é, mas você não a conhece para fazer qualquer julgamento - A repreendeu.

Stannis parecia um muro. Qualquer investida que fazia para passar por aquele bloqueio só a feria.

- Meu irmão - Mudou o tópico novamente, desconfortável pelo receio de ser repelida mais uma vez - Quando irá enviar uma mensagem a ele?

- Agora que tenho sua resposta, mandarei assim que terminar o meu desjejum - Respondeu com menos severidade. Este parecia ser um assunto seguro para continuar - Gostaria de enviar algumas palavras? - Stannis sugeriu.

Havia tantas coisas que Sansa gostaria de dizer para o irmão e para a mãe e poucas eram cabíveis para uma carta redigida por Stannis.

- Diga para a minha mãe que ela estava certa quanto o meu desejo de ir para Porto Real e ao meu irmão que o nosso pai teria orgulho de quem ele se tornou. Escreva também que eu os amo e que estou ansiosa para revê-los - As palavras saíram junto com um sorriso carinhoso. Pensar em sua família aquecia o seu coração, ainda mais quando o reencontro deles estava tão próximo.

- E para a sua cunhada?

- Minha... cunhada? - Sansa franziu o cenho, sendo trazida de volta para a realidade.

Stannis arqueou as sobrancelhas.

- Não ficou sabendo do casamento de seu irmão, então? Já tem alguns meses que ele contraiu núpcias com uma tal de Jeyne Westerling, uma união nada propícia visto que a Casa dela era vassala dos Lannisters.

- Robb se casou...? - Sansa arregalara os olhos com a novidade. Ninguém se importara em informá-la sobre o ocorrido e havia várias pessoas que podia ter lhe dito isso, claro se isso não fosse algo tão polêmico como o fato de seu irmão e sua cunhada estarem de lados diferente na guerra, pelo menos a princípio já que agora Jeyne se tornara uma Stark - Eu não sabia... Em todo o caso, dê as minhas felicitações a ela.

- Como desejar - Disse Stannis, posicionando os talheres no prato para indicar que finalizara a refeição - Se ainda estiver sem fome, lhe dou permissão para retornar aos seus aposentos, Lady Sansa. Meus homens a acompanharão e mais tarde minha costureira irá tirar suas medidas.

Sansa não hesitou e se pôs em pé, se despedindo de Stannis com uma reverência similar a qual ela o cumprimentara quando o encontrara mais cedo e o deixou a sós.

Lá fora o sol já havia se erguido totalmente e os passos de soldados e criados andando pelos corredores já podiam ser ouvidos, mas ainda não dava para ouvir o barulho provido do bobo da corte. Sentindo o corpo cansado pelos assuntos tratados, dessa vez Sansa não teve dificuldade em dormir e a véspera de seu casamento passou como se fosse qualquer outro dia em Pedra do Dragão,sem visitar ninguém e sem receber visitas que não fosse da aia e da costureira que Stannis mandara, Sansa ficou em reclusão em seu quarto, saindo apenas para as refeições.

No dia seguinte, quando acordou, em sua poltrona estava um vestido amarelo com rendas negras sem nenhum ornamento a esperando. Dentro de algumas horas, quando o sol estivesse no seu ápice indicando o meio dia a cerimônia seria realizada. Após se banhar e com auxílio de sua aia Sansa pôs o seu vestido de casamento e arrumou o seu cabelo com uma renda negra e ficou sozinha, recebendo a promessa da criada que quando a hora se aproximasse Sor Davos viria acompanhá-la.

Em outras condições, se Sandor tivesse contraído núpcias comigo eu usaria uma roupa semelhante a esta, constatou ao observar o seu reflexo no espelho que fora colocado em seu quarto. Ela estava bonita mesmo com toda aquela simplicidade, mais parecida com uma burguesa do que com a Lady que era. Em outras condições, o meu pai me entregaria ao meu noivo, imaginou o rosto de Lorde Eddard a entregando para Sandor Clegane no Septo de Baelor e se pegou rindo da fantasia que realizara. Em sua imaginação original o seu pai a entregava para Joffrey, mas isso era quando ela acreditava que o então Príncipe Herdeiro de Robert era uma pessoa boa. Eu ficaria feliz se pelo menos Robb estivesse aqui para me entregar para Stannis. Entretanto esse pensamento também não passava de fantasia, pois Robb estava longe e só saberia da celebração depois que ela ocorresse. E talvez ele saiba antes de Sandor, constatou. Sansa mordeu o lábio inferior. Sandor não ficará feliz com a decisão dela, ela sabia, porém ele mesmo lhe orientara para fazer tudo o que Stannis lhe dissesse e neste caso ela não tinha escolha. Ela era prisioneira dele assim como Theon fora de seu pai. Embora tivesse alguma liberdade, ela sabia que podia ser mandada para o calabouço junto com o tal de Teddy, Mandy, Landry, ou qualquer que fosse o nome do filho bastardo do Rei Robert que Stannis aprisionara.

- Começo a pensar que Joffrey não seja um bastardo como todos creem, porque ele e o tio tem características em comum - Pensou em voz alta ao fazer comparação de como ambos tratavam algumas questões com frieza, embora Joffrey tendesse mais a loucura e a violência.

- Mi Lady? - Alguém a chamou do outro lado da porta.

Sansa engoliu em seco. A pessoa que a chamava podia ter ouvido o que ela acabara de dizer e isso não teria um bom resultado.

- J-já vai! - Exclamou, apressando-se até a porta e quando a abriu encontrou um Sor Davos esbaforido que forçou sua presença para dentro do quarto fechando com agilidade a porta atrás de si como se fosse um criminoso fugindo dos soldados.

- Vamos Lady Sansa, nós temos que ser rápidos se desejar sair de Pedra do Dragão antes que o seu destino seja selado para sempre! - O senhor parecia ter vomitado as palavras, arrastando-a pelo braço até a passagem secreta que ela utilizara uma vez.

- E-espera! - Sansa fincou os pés no chão, recusando-se a obedecer o Capitão das Cebolas, achando que aquilo podia ser um teste de lealdade - Por que eu deixaria Pedra do Dragão agora? - Era isso que Stannis gostaria de ouvir, não?, pensou.

Sor Davos parou e a estudou brevemente. Os olhos dele estavam arregalados e havia suor em sua testa, transmitido veracidade a ação que realizava. Sansa percebeu que ele ainda não havia colocado sua roupa festiva, o que podia justificar o fato de faltar quase três horas para o grande momento. Eu me precipitei ao me vestir mais cedo, constatou.

- Eu não posso permitir que se case com o Rei, Lady Stark - O velho sussurrou, temendo ser ouvido - Ele está seguindo o que Lady Melisandre lhe aconselhou e isso está sendo um erro. Você não entenderia muito se eu lhe explicasse a questão política, mas talvez entenda que eu tenho esperança de que se você for embora ele corrija suas ações e volte com a Senhora Selyse.

Isso Sansa certamente entendia e ela mordeu o lábio inferior.

- Eu não posso ir, Sor Davos - Murmurou - Isso é um teste, eu sei. Se eu for com você eu serei pega pelos soldados e lançada ao calabouço.

- Isso não é um teste, Lady Sansa! - O Capitão das Cebolas agarrou os braços dela a chocalhando - Se os soldados nos encontrarem você continuará com o casamento e eu serei queimado por traição!

- Mas você é a Mão do Rei... - Debateu. Meu pai também era e foi decapitado, relembrou.

- E é por isso que estou fazendo isso, estou corrigindo os erros do meu Rei antes que seja tarde demais.

Eu não deveria confiar nele cegamente, disse a si mesma, mas ela desejava muito se livrar desta união. Porém essa pode ser a única chance que eu tenha e talvez os Deuses realmente existam e estejam provando isso ao mandar Sor Davos para ser o meu salvador, pensou. O plano de seguir a Mão do Rei lhe deu uma nova esperança, entretanto se ela fosse embora de Pedra do Dragão Sandor não conseguiria reencontrá-la. O seu cabelo ainda estava negro e ela poderia continuar na estrada até reencontrar o seu irmão e sua mãe sem ser descoberta. Eu estarei segura com eles e poderia falar com Robb para deixar Sandor entrar ao seu serviço. Ele poderia ser o meu protetor e ninguém precisaria saber o que aconteceu entre nós. Se eu falar bem dele, minha mãe pode até vê-lo como um heroi.

- Você irá comigo, Sor Davos? - Perguntou, decidida a qual escolha faria.

- Não, Lady Sansa, mas Gendry irá - Respondeu o homem, andando apressado até a porta secreta e abrindo-a.

- Gendry?

- O sobrinho de Stannis - A recordou Sor Davos.

O nome dele é Gendry, então, constatou. Sansa conhecia muito pouco aquele rapaz de cabelos negros e olhos azuis. O que ela sabia é que ele trabalhara como ferreiro em Porto Real e que a presença dele poderia ser útil à viagem que fariam.

- Eu devo me trocar antes de ir... - Sansa analisou a própria roupa e percebeu que não seria tão confortável em comparação as que ela já utilizara na estrada.

- Não há tempo para isso. Quanto mais tempo desperdiçamos aqui, mais tempo o exército de Stannis ganhará no encalço de vocês! Se tem algo que deseja levar, seja rápida! - Sor Davos mantinha a porta de pedra aberta, chamando-a com uma mão para segui-lo.

Sansa tinha algo que gostaria de levar consigo. Com agilidade correu até o baú e o destampou, retirando de lá a capa de Sandor que guardara e nela embrulhou o livro que Alíria lhe dera e com ainda mais rapidez seguiu o homem por dentro daquele corredor estreito sem olhar para trás.

Preocupada apenas em acompanhar os passos de Sor Davos, ela nem se importara em marcar o caminho que estava fazendo, a única coisa que sabia era que estava descendo bem profundo pela passagem. O sobrinho de Stannis está nas masmorras, então deve ser pra lá que estamos indo. De fato ela não estava errada.

- Você não precisa ver isso, Lady Sansa. Espere aqui que já volto - O Capitão das Cebolas lhe disse antes de sumir por uma porta oculta com um molho de chaves na mão.

No tempo em que ficou sozinha Sansa domada pelo medo de ser detida agora que estava para sentir o gosto da liberdade teve os seus sentidos aguçados e pôde sentir o cheiro de dejetos humanos e a salubridade do mar tornarem-se palpável a ponto de deixar um gosto estranho em sua boca. Naquele lugar em que estava, vários barulhos de animais pequenos ressoavam pelas paredes apertadas da passagem secreta, bem diferente do caminho que ligava o quarto dela ao da Princesa Shireen. Eu espero que a Princesa fique bem. Eu prometi que a visitaria novamente, mas não poderei cumprir minhas palavras. Sansa se entristeceu com isso. A menina era solitária, diferente dela que crescera cercada de irmãos e crianças da sua idade. Ali em Pedra do Dragão a filha de Stannis não tinha um amigo, só dependia da companhia de seu bobo. Não é de se admirar que ela seja tão triste, refletiu. Contudo ela entendia Stannis, era para a segurança dela e das pessoas ao redor dela que ela ficava a maior parte do tempo dentro de seu quarto. A doença que ela exibia no rosto era contagiosa e poderia comprometer a vida de outras pessoas, mesmo que a chance do Scamagris de Shireen se espalhar fosse ínfima devido ao tempo que ela já o tinha e sem que ele tivesse contaminado outras partes do corpo dela.

- Por aqui, Gendry! - A voz de Sor Davos foi ouvida antes dele ser visto. Sansa ouviu a pedra ranger e então os dois homens que ela estava esperando apareceram.

- Ela também vai? - Gendry perguntou para o Capitão das Cebolas, apontando Sansa.

- Os dois vão! Vamos rápido! Temos que descer mais dois andares até chegar no túnel em que a condução de vocês os esperam!

Sansa o obedeceu, sendo a última na fila que formaram. Ela já estava cansada de tanto descer aquelas escadas íngremes que estava com o coração na boca devido ao exercício e ao medo que a assolava quando chegaram no lugar indicado por Sor Davos.

Quando a passagem se abriu, Sansa sentiu a forte brisa do vento marítimo e identificou o túnel como sendo a passagem de barco dos prisioneiros que eram retirados e trancafiados nas masmorras em tempos antigos. Bem ali na entrada externa do túnel estava a condução que a Mão do Rei se referira; um pequeno barco com espaço para apenas três pessoas. Sansa engoliu em seco. Apesar de somente duas pessoas o tripularem ela o achava pequeno demais.

- Algum de vocês já remaram antes? - Sor Davos perguntou sem os olhar, ocupado em desamarrar as cordas que o atracavam aquele cais precário.

Sansa encarou Gendry, com esperança que ele dissesse que sim, mas o que ela encontrou foi ele a encarando de volta e desejando a mesma coisa a respeito dela.

- Não... - Responderam em uníssono.

- Vocês sabem como chegar As Gêmeas deste ponto? - Sor Davos se virou para eles, oferecendo a mão para que Sansa a tomasse como apoio para entrar dentro do barco.

Os dois tornaram a se encarar e a resposta tornou a ser negativa.

- É só seguir reto e quando verem terra a vista à esquerda, a contorne que vocês entrarão na Baía dos Caranguejos, depois vocês continuarão reto e virarão na primeira correnteza a direita e vocês chegarão nas Gêmeas. Se bem que eu recomendo que vocês abandonem o barco o quanto antes e façam o percurso a pé. Se Stannis estiver decidido a segui-los, qualquer navio dele será mais rápido que esse barquinho - Analisou Sor Davos depois de ter colocado Gendry dentro da embarcação.

- Mas o meu irmão está em Correrrio - Sansa o corrigiu, não entendo porque estava indo para As Gêmeas.

- Não, o Jovem Lobo está indo para as terras dos Frey para celebrar o casamento de seu tio Tully com uma garota Frey - Sor Davos a avisou.

Mais um casamento que não fui convidada, Sansa lamentou, apesar de não se lembrar de alguma vez ter encontrado o irmão de sua mãe.

- Escondi alguns mantimentos em baixo do banco que vocês estão sentados para vocês sobreviverem aos primeiros dias da viagem e aqui está algumas estrelas de cobre que também os ajudarão. Não é muito, mas é tudo o que eu tenho para oferecer - O homem entregou a bolsa de dinheiro para Sansa que prontamente a embolou no meio de sua capa - Desejo a vocês uma boa viagem e se tiverem alguma dúvida, é só seguir em direção ao Norte. Lembrem-se de não andaram pelas estradas principais, está tendo muito roubo nas terras fluviais!

Dito isto, Sor Davos empurrou o barco em que eles estavam e Gendry começou a remar sem jeito algum para a direção que o homem que os tirara de Pedra do Dragão indicara. Sansa encarou bem o garoto à sua frente. Ele não era Sandor, mas era melhor do que ninguém para acompanhá-la na jornada de volta para casa, mesmo estando com as roupas finas manchadas e ser um bastardo.