NI TANG CAPÍTULO 28
Tso Lan observou Bai Tsa e Hsi Wu colocarem velas amarelas por toda a sala e afirmou com a cabeça. Fora bastante difícil localizar o portal, Shendu era o único que sabia onde ele ficava. Eles haviam deixado o dragão para trás e foram forçados a encontrá-lo sozinhos.
Por outro lado, não fora assim tão difícil, já que Tso, que era o mais sensato deles, logo sentira onde estava uma grande carga mágica.
Quando Shendu e a Mão Negra abriram o portal de Tchang Zu, houvera uma porta falsa bem no lugar do portal. Claro que a porta já fora retirada e eles colocaram algumas caixas no lugar para que a caixa Pan Ku tivesse algo sólido onde bater.
O grupo de demônios e Jade entraram com facilidade: Bai Tsa apresentara um de seus melhores espetáculos nos portões e Tso Lan acabara com tudo usando alguns feitiços. A maioria dos demônios não enganava os olhos tão bem, apenas Tso, Bai e Po.
O demônio da lua tivera um pouco de trabalho para se livrar de todos os humanos que pudessem perturbá-los, mas, agora que eles finalmente estavam sozinhos, as coisas começaram a melhorar.
Agora tudo o que eles tinham que fazer era terminar o feitiço que abriria o portal. Como Tchang Zu era o mais velho e mais forte deles, isso requeria mais trabalho, mas eles não tinham outra opção.
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Jackie franziu a testa, deixando seu olhar vagar pela sala cheia de roupas e cenários. Ele apurara todos os seus sentidos e estava pronto para se virar e atacar à mínima distração.
— Relaxe — disse-lhe o Tio enquanto fazia sua última pesquisa e lia um livro do qual não queria largar.
— Como eu poderia? Este lugar está cheio de demônios e eu vou ter a chance de salvar a Jade — retrucou Jackie, virando-se para o velho.
O Tio bateu-lhe com os dedos.
— Quieto! Você quer que todo mundo saiba que nós estamos aqui, hein? — perguntou ele bem mais alto do que Jackie.
Antes de partir, Jackie pedira a Black que se certificasse de que eles poderiam entrar no estúdio, onde pessoas "normais" geralmente não eram permitidas. Ele se lembrou da última vez, em que entrara com a ajuda de Jade, e isso o fez suspirar.
Quem sabia o que os demônios fizeram com ela? Ela devia estar aterrorizada.
Mas isso acabaria agora: todos os demônios seriam banidos de volta ao Mundo Inferior e eles poderiam finalmente esquecer de tudo isso. Claro que haveria problema se nem todos os demônios estivessem lá, mas, ainda neste caso, eles teriam todas as cartas.
Se — quando — eles vencessem, a caixa Pan Ku estaria do lado dos bons novamente e, depois disso, seria inútil para qualquer um sequer pensar em libertar os demônios. A caixa seria trancada na Seção 13 e cuidar-se-ia da segurança para que ninguém mais pudesse entrar ou sair. Nem mesmo Jade.
Po Kong caminhava atrás deles, emburrada e carregando a caixa de ingredientes chi. Estava de muito mau humor: toda a sua família estava indo direto para uma armadilha e não havia nada que ela pudesse fazer!
Felizmente, todos os outros estavam tão animados e envolvidos com a situação que não perceberam nada de estranho com ela. Ou, se perceberam, achavam que ela estava apenas nervosa e não disseram nada.
Se a situação piorasse, ela seria obrigada a desistir de seu disfarce e de todas as suas esperanças de encantar o inimigo. Era a triste verdade, mas Po Kong não era idiota e compreendia o que era importante no momento.
Tohru a olhava às vezes, mas estava ocupado demais para dizer alguma coisa à demônio. Por algum motivo ela o fascinava, e isso deixava o japonês nervoso. Dava-lhe a impressão de que havia algo mais sobre a mulher.
— E se os demônios já estiverem lá? — perguntou Jackie ao Tio. O velho leu uma linha de seu livro antes de responder.
— O Tio já preparou tudo. Nós também temos um feitiço para o demônio do trovão, e se você e o Hak Foo os distraírem por bastante tempo, nós vamos lançar os feitiços — disse, e Jackie olhou para o guerreiro que andava ao seu lado.
Hak Foo estava muito quieto. Ele decidira matar Shendu lá e finalmente limpar sua honra, mas Jackie não tinha certeza de que isso chegaria a acontecer. O Tio queria banir todos os demônios e não daria a Hak uma chance de matar o demônio do fogo.
Quando eles estavam quase chegando ao portal, o Tio os parou, apertando os olhos.
— O que foi, Tio? — ousou perguntar Jackie. O velho balançou a cabeça: Jackie ainda era jovem demais para entender. Ele próprio podia sentir que algo importantíssimo estava para acontecer em breve e, para o seu desgosto, não sabia dizer se era algo bom ou ruim.
E isso o deixou cauteloso.
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— Estamos prontos para desfazer o feitiço que sela o portal — disse Bai Tsa a Tso Lan, que afirmou com a cabeça. O demônio da lua fez um gesto aos irmãos para que se reunissem atrás dele e segurassem as mãos uns dos outros. Então, Tso fechou os olhos e se afastou do resto, abaixando a cabeça.
Ni Tang sentiu a mão com garras de Hsi Wu na sua. Todos eles tiveram que abandonar suas formas humanas para estarem prontos para receber Tchang Zu. O fato de que Shendu e Xiao Fung não estavam presentes poderia enfurecer o poderoso demônio do trovão, mas nenhum dos irmãos ausentes era importante, então provavelmente estava tudo bem.
O ar pareceu vibrar ao redor deles e, como os outros, ele manteve seu olhar no demônio da lua. Ni engoliu em seco. Sentia como se algo estivesse ascendendo dentro de si e não sabia o que estava acontecendo.
Tso Lan ergueu todos os seus quatro braços e, de repente, todas as velas na sala se acenderam. Ele ficou parado como uma estátua nessa posição até abrir os olhos e dizer a primeira palavra:
— Huang.
A voz do demônio da lua não estava mais alta do que um sussurro, mas ainda parecia ecoar em cada canto da sala. Ni Tang se retraiu quando a voz do irmão pareceu cortá-lo. Olhou para os irmãos para ver se eles achavam isso tão desagradável quanto ele.
Mas esse não era o caso: Hsi Wu e Bai Tsa fitavam o irmão como se estivessem em transe e ambos pareciam estar gostando. Ni franziu a testa, preocupado, sempre que outro lampejo frio o atravessava. Por que ele era tão diferente?
A palavra seguinte de Tso Lan o acertou e ele largou a mão de Hsi Wu. O demônio do céu o olhou surpreso e agarrou a mão de Ni novamente. Eles não podiam arruinar o feitiço agora. Ni sabia que não devia se entregar àquela estranha sensação, mas queria tanto cair no chão e ficar deitado lá até tudo acabar.
Até que tudo estivesse bem outra vez.
A chama das velas de vermelho tornou-se verde e subiu até quase tocar o teto numa espiral. Ninguém na sala sentia o calor na pele, as chamas pareciam frias.
Tso Lan ergueu a voz e continuou seu cântico simples enquanto as chamas cresciam, e Ni Tang achava que nunca se sentira tão mal.
Do canto do olho, ele viu um grupo de humanos se apressar para dentro da sala, mas não lhes deu atenção. As chamas faziam tudo parecer surreal e verde, e ele se sentia como se estivesse se afogando em algum lugar em sua própria miséria. Ele não se importaria mesmo se alguém os estivesse atrapalhando.
— Jade! — gritou Jackie, e a garota, que estivera assistindo impressionada a tudo aquilo, virou-se na direção de sua voz. Sua expressão se abriu quando ela reconheceu o tio e ela correu para ele com a caixa Pan Ku.
Hsi Wu estava prestes a deixar os outros para ir atrás dela, mas Bai Tsa agarrou sua mão com força, parando-o.
— Controle-se, idiota. Quando o Tchang Zu estiver conosco novamente, você pode ter a sua escrava — sibilou ela com raiva e Hsi Wu se forçou a se acalmar. Ele não deixaria aqueles humanos tirarem Jade dele, mesmo que ele tivesse que abrir mão de tudo mais.
— Você está bem? — perguntou Jackie, envolvendo os braços ao redor de Jade, e a garota afundou o rosto em sua camisa.
— Estou — murmurou a garota alegremente e então tentou se livrar. Não gostava de ser tão emotiva. Jackie suspirou de alívio: os olhos de Jade brilhavam tanto quanto antes e o tempo com os demônios não parecia tê-la afetado nem um pouco.
— O que os demônios estão fazendo? — indagou ele, confuso. Tudo aquilo parecia assombroso, mas ele não via nenhum sentido naquilo. Jade abriu a boca para responder, mas o Tio foi mais rápido.
— Eles estão desfazendo o feitiço que eu coloquei no portal! Quando terminarem, eles vão poder abrir o portal de novo! — apressou-se ele e Jade mostrou-lhe a caixa Pan Ku.
— Não se preocupe, eu estou com a caixa — disse.
Tso Lan bateu com uma mão na outra, fazendo tudo brilhar em verde e ofuscando a vista de todos por um tempo. Quando eles voltaram a enxergar, as chamas haviam se apagado e tudo estava como se nada tivesse acontecido.
— O portal pode ser aberto agora — disse Po e ninguém sabia dizer pela sua voz o que achava daquilo. Hak Foo franziu a testa.
—Shendu, Xiao Fung e Po Kong não estão aqui — notou ele e fez os outros também perceberem que faltavam três demônios.
— Onde eles poderiam estar? — perguntou-se Jackie e o Tio o acertou.
— Não importa! Nós já temos muito trabalho com estes! — replicou e tirou uma flor de lótus da caixa que estava carregando. — Tso Lan é o mais velho e, portanto, o mais forte destes demônios. O Tio bane ele primeiro — disse e respirou fundo antes de começar o feitiço.
Jackie e Hak Foo se entreolharam. Embora Shendu não estivesse lá, o Tigre Negro os ajudaria na luta e, no momento, eles tinham que distrair os demônios o máximo possível. Jackie empurrou Jade para a pessoa mais próxima: Po.
— Cuide dela! — gritou antes de sair correndo. Ele não tinha que ter dito isso a Po. Reabrir o portal de Tso Lan era quase impossível e ela não deixaria que ninguém banisse o demônio da lua outra vez.
Ela largou as caixas que estava carregando e os itens se espalharam pelo chão. Jade, que estivera demasiada feliz por ver seus parentes, percebeu que a demônio da montanha estava com eles e gritou de surpresa quando Po agarrou seu ombro.
— Desistam do feitiço ou a garota morre! — ameaçou Po em voz alta e o Tio se virou para olhá-la surpreso. Normalmente o velho não se teria deixado distrair-se, mas agora ele estava chocado demais com a traição e pôde apenas encará-la boquiaberto.
— Você... você... — gaguejou ele, totalmente sem guarda, e Po deu um largo sorriso.
— Sim. Acho que agora todos vocês já sabem onde está a demônio da montanha — disse, satisfeita consigo mesma, e deu uma olhada em Jade, que lutava para se livrar dela.
— Tohru! Pegue a caixa! — gritou a garota, arremessando a caixa Pan Ku para o japonês, que a pegou após deixar cair tudo que tinha nas mãos. O Tio inspirou fundo, em choque.
— Os livros do Tio! — exclamou e se abaixou para checar se estava tudo bem com eles. Po Kong olhou com raiva para Tohru, que tinha a caixa nas mãos e parecia não ter idéia de o que fazer com ela.
— Me dê ela agora, sim? — pediu a demônio da montanha de forma amigável demais.
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O feitiço estava agora terminado e tudo o que eles precisavam para libertar Tchang Zu era da caixa Pan Ku. Tso Lan balançou a cabeça para clareá-la. Lançar o feitiço o deixara bastante confuso e ele não podia se dar ao luxo disso agora.
Jackie e Hak Foo olharam o grupo de demônios. Tso Lan com suas longas vestes e Bai Tsa sem pernas não pareciam bons lutadores, mas Hsi Wu e Ni Tang poderiam causar problemas.
— Eu fico com o de asas, você pode ficar com o de máscara — disse Hak Foo e, antes que Jackie pudesse protestar, o guerreiro estava se mexendo e já perto de Hsi Wu.
O demônio do céu olhou desconfiado para o humano e apertou os olhos vermelhos. No momento, tudo o que ele queria era se certificar de que não perderia Jade, mas a garota parecia estar segura com Po Kong. Alem do mais, ele também poderia se divertir um pouco.
Abriu e bateu as asas. Aquela sala não era o melhor lugar para se voar, mas não era um caso perdido. Ele não tinha que voar mesmo, só precisava de alguma velocidade.
Hak Foo se desviou quando o demônio passou voando por ele, suas garras parecendo bastante perigosas, e imediatamente se levantou.
— Arranhões de pantera zangada!
Jackie viu que Hak Foo de alguma forma estava lidando com a situação, então deu uma olhada nos outros demônios. Tso Lan segurava a cabeça e já parecia estar fora da luta, então tinha que escolher entre Bai Tsa e Ni Tang. Apesar do fato de que a primeira era um demônio, Jackie não gostava da idéia de atacar uma mulher, que, ainda por cima, não tinha pernas, então se virou para encarar o demônio polar.
Ao contrário de Hak Foo, Jackie nunca atacava primeiro se não fosse ameaçado de alguma forma. Não gostava de fazer isso agora, mas sabia que uma distração era indispensável para seu sucesso. Tinha que se perguntar por que o Tio ainda não terminara o feitiço, mas uma rápida olhada em sua direção lhe mostrou o porquê.
Jackie franziu a testa com raiva. Pomako os traíra! A mulher segurava Jade firmemente com as mãos e parecia estar exigindo que Tohru deixasse de lado a caixa Pan Ku. Raiva e desespero cresceram dentro de si. Tudo deveria ter ido tão bem!
Atacou Ni Tang e o surpreso demônio polar mal pôde desviar-se. Como antes, ele não pensara que Jackie atacaria, e levou um tempo para recolher seus pensamentos. Agora que o feitiço estava terminado, seu mundo acabara de girar, mas ele ainda não se sentia muito bem.
— Sem você, nós não estaríamos nesta confusão — comentou Jackie, virando-se para encarar Ni, que deu de ombros, parecendo não se importar. Nem se deu ao trabalho de responder. Se o humano queria gritar alguma coisa, isso não era problema seu.
Jackie mirou um chute nem no peito do demônio polar, mas este se desviou agilmente sem devolver o ataque. Pressionou os dedos nas têmporas e engoliu. Não é que se sentisse muito mal, mas algo ainda o incomodava.
Não teve tempo de pensar mais nisso, já que o próximo chute de Jackie o acertou em cheio e Ni foi lançado ao chão. Sacudiu a cabeça e saiu rolando, e o punho de Jackie acertou o chão onde ele estivera.
O humano estava sério.
Isso era uma surpresa. De alguma forma, ele pensara que Jackie Chan não atacaria ninguém sem um bom motivo.
Ele deu uma olhada em volta, notando que Po Kong tinha Jade como refém, exigindo que a caixa Pan Ku lhes fosse entregue, e que Hsi Wu estava lutando com o guerreiro amigo do arqueólogo.
Tudo bem, talvez seu motivo fosse bom o bastante.
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— Não dê ouvidos a ela, Tohru! Leve a caixa daqui antes que ela possa fazer alguma coisa com ela! — avisou Jade, embora todos soubessem que Po não podia tocar na caixa, e, depois de dar uma última olhada nela, o japonês saiu correndo. Ele não sabia bem para onde estava indo, apenas tinha que levar a caixa para longe de Po Kong imediatamente.
Ele não conseguia pensar com clareza. Soubera que havia algo de estranho em Pomako, mas que ela era um demônio? Ele nunca teria acreditado nisso, a mulher entrara apesar de todos os feitiços de proteção!
E ela os enganara a todos. Tohru se sentia traído e furioso, acreditara em tudo que a maldita demônio dissera!
— Não, Tohru! Aí, não! — a voz desesperada de Jade o despertou de seus pensamentos e o homem parou para dar uma olhada em volta. Para a sua surpresa, percebeu que estava bem no meio da sala, onde estava Tso Lan, ainda aturdido, observando-o.
O demônio da lua virou os olhos para ele e, após perceber onde Tohru estava, uma expressão sombria e vitoriosa abriu-se em seu rosto.
Tohru não teve tempo de se dar conta do que estava errado antes que a caixa em suas mãos começasse a brilhar de verde e subisse para longe dele.
— Opa — disse ele, recuando e deixando Tso Lan para encarar sozinho o que demônio que estava retornando.
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Durante o tempo em que tudo isso acontecia, Bai Tsa se sentiu bastante inútil. Po Kong estava ocupada com Jade e o velho, Hsi Wu lutava com Hak Foo e Ni Tang certamente não estava entediado com Chan. Tso Lan ainda estava se recuperando do feitiço, então o que ela poderia fazer?
Bufando furiosa consigo mesma, a demônio da água considerou juntar forças com Ni Tang, pois o Chan mais novo a fascinara todo este tempo e ela queria ver se ele realmente era tão bom quanto Shendu dizia. Alem do mais, o demônio polar não parecia estar sobre controle da situação: parte dos chutes e socos de Jackie acertava o alvo quando o demônio mais ágil deveria ter podido se desviar com facilidade.
Bai Tsa estava prestes a juntar-se à luta quando um lampejo verde de luz chamou a sua atenção e a de todos na sala.
A caixa Pan Ku acertou o símbolo que aparecera e, no momento seguinte, um enorme portal verde abriu-se no meio da sala. Tso Lan, que estava bem próximo a ele, recuou apressadamente para evitar ser sugado de volta ao mesmo tempo em que Tchang Zu saía.
Ele era uma visão poderosa, um enorme demônio azul que de certa forma assemelhava-se a alienígenas de revistas em quadrinhos. Usava uma armadura escura e tinha enormes garras.
Tchang Zu deu uma olhada ao redor e virou-se para Tso Lan, que era o mais próximo.
— Por que demoraram tanto? Vocês deveriam ter me libertado primeiro! — trovejou ele, mas o demônio da lua nem se retraiu sob o olhar raivoso do irmão.
— As circunstâncias foram contra isso, honrado irmão — explicou ele e o demônio do trovão bufou.
— E quem eu posso culpar por isso? — perguntou furioso.
— Eles — disse Tso Lan, apontando para Jackie e seus amigos, que haviam todos parado para observar o demônio recém-chegado. Tchang Zu apertou os olhos.
— Eu me lembro de vocês! Vocês me baniram da última vez! — esbravejou ele e, no momento seguinte, o ar estava cheio de eletricidade.
Tanto os humanos quanto os demônios tiveram que se desviar dos ataques do furioso demônio do trovão e Hsi Wu imediatamente aterrissou. Ninguém atacou ninguém, mas todos se concentraram em salvar suas próprias vidas.
— Acalme-se, irmão! Você pode ter a sua vingança depois, não há necessidade de nos ferir quando a situação ainda é incerta — apressou-se Tso em acalmar o demônio mais velho da família e Tchang Zu o olhou irritado, mas mesmo assim parou de atacar.
Todo mundo suspirou de alívio e se virou para o demônio do trovão. Era claro que era ele quem decidia o que tinha que ser feito.
— Matem os humanos — disse Tchang Zu sem sequer pensar. Hsi Wu olhou nervoso para Jade; o demônio do trovão não sabia que ela era sua escrava.
— É claro — concordou Tso Lan, decidindo que não era hora de discutir. E, ao destruir aquele grupo patético, eles fariam com que ninguém fosse perturbá-los na Espanha.
Hsi Wu subiu e, com algumas batidas de asas, aterrissou ao lado de Po Kong.
— Eu quero a minha escrava — exigiu o demônio do céu, mas sua irmã balançou a cabeça.
— Eu não posso tomar a minha verdadeira forma aqui, então não posso lutar. Eu cuidarei dela enquanto você massacra aquele humano desprezível! — disse ela, apontando com a cabeça para Hak Foo.
— Mas... — tentou Hsi, mas Po o interrompeu.
— Silêncio! Faça o que eu mando sem discutir! Você já tem tido muitas liberdades ultimamente, Hsi Wu, e talvez seja a hora de pôr você de volta na linha — disse e Hsi Wu segurou a vontade de responder a ela.
— Como quiser — resmungou o demônio alado e virou-se para Hak Foo. Porém, o homem não estava onde fora visto pela última vez e ele franziu a testa. Onde ele estava?
Foi-lhe respondido quando algo o acertou por trás e o fez cair no chão.
— Urso zangado derruba o morcego! — gritou Hak Foo, pressionando o demônio do céu contra o chão para não o deixar se levantar. Hsi sibilou e tentou empurrar o homem de cima dele, mas seu aperto era forte e, por um breve momento, o demônio do céu achou que já era.
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Durante esse tempo, o Tio pensara no que faria. Ele desesperadamente queria banir pelo menos um demônio, mas percebeu que os restantes logo descobririam um jeito de libertar seu irmão ou irmã.
Então ele decidira que sua responsabilidade era atacá-los com seus feitiços e, mesmo que não conseguisse matar nenhum deles, poderia ao menos feri-los e ganhar um pouco de tempo.
Quando Tchang Zu fora libertado, ele pegara seus livros e ingredientes chi e afastou-se sorrateiramente de Po Kong. Então, ele encontrara para si um canto solitário onde lançar feitiços sem ninguém notar. Folheara depressa um de seus livros, procurando por um feitiço ofensivo apropriado.
E ele encontrara um.
Ele era raramente usado e o Tio nunca o dissera em voz alta. Então, não tinha certeza do que ele faria, mas não ousava perder tempo lendo outro livro. Se não se apressasse, os demônios os matariam ou escapariam, e ambas as opções eram muito ruins.
Agora o velho estava de pé, com um livro na mão e algumas folhas secas na outra, pronto para lançar o feitiço. Ele o leu mais uma vez e viu do canto do olho Jackie mal conseguindo se desviar de um soco de Tchang Zu.
Normalmente o Tio era muito cuidadoso ao lidar com magia, mas sabia que agora eles estavam com pressa. Não queria ver seus parentes ou seu aprendiz morrendo nas mãos dos demônios somente porque ele não fora rápido o bastante.
Fechou os olhos e começou o feitiço.
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— Deixe esse humano patético comigo — disse Tchang Zu e violentamente empurrou Ni Tang para fora do caminho. Jackie parou para encarar o enorme demônio do trovão um pouco nervosamente. Ni Tang era o mais novo dos demônios e um adversário bem fácil, mas ele não podia fazer nada contra Tchang.
Pelo menos com os modos tradicionais ele tinha que pensar em algo. Jackie agilmente saltou quando o punho do demônio do trovão acertou o chão, fazendo-o rachar. Ele aterrissou de pé e deu uma rápida olhada ao redor.
Ele deu um pulo corajoso passando pelo demônio enfurecido e ficou atrás dele. O que quer que fizesse agora, não parecia muito bom. Com um ou até dois demônios estaria tudo bem, mas com tanto assim já era demais.
De repente, a voz do Tio ecoou pela sala e até Jackie sentiu uma vibração no ar.
Os demônios a sentiram mais claramente e todos seguraram a cabeça, gritando em agonia. Jackie olhou confuso e chocado ao redor; o que o Tio estava fazendo? Tchang Zu caiu de joelhos bem ao seu lado e o homem rapidamente pulou para longe dele. A última coisa de que precisava era uma morte repugnante sob o corpo do demônio.
Hak Foo não conseguia decidir se deveria matar Hsi Wu sozinho ou deixar o Tio cuidar disso. De qualquer forma, o resultado seria o mesmo. Pelo menos o demônio do céu não parecia nem um pouco bem.
— Ele está usando magia contra nós! — sibilou Po Kong entre dentes cerrados e tentou localizar o Tio. Ela conhecia muito bem aquele feitiço: ele deveria sugar a energia vital deles até que não pudessem mais ficar de pé.
Mas ela não deixaria isso acontecer, tinha seus próprios feitiços para isso!
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Ni Tang era provavelmente o mais afetado pelo feitiço do Tio. O demônio polar não podia sentir mais nada alem da dor aguda por todo o seu corpo e os seus poderes lentamente desaparecendo. Não conseguia manter os olhos abertos, mas os fechara com força como se fosse a única forma de tirar aquela experiência da cabeça.
Ele mal ouviu a voz de Tchang Zu, mas a sensação de alívio que se seguiu não passou despercebida por ele. Ni ergueu os olhos quando a dor diminuiu aos poucos e viu que Tchang Zu atacara o feiticeiro do chi com um feitiço próprio. O velho caíra em um joelho, mas parecia estar bem.
Embora nada lhe doesse mais, Ni sentia que algo estava errado. Ele abriu e cerrou o punho e preocupou-se ao perceber o quanto isso parecia estranho, como se ele não tivesse mais controle sobre o próprio corpo.
— Você achou que era páreo para nós, poderosos demônios, seu humano patético! E, como castigo, você será obrigado a presenciar todos os seus entes queridos morrerem, e então será a sua vez, se ainda estiver vivo até lá! — rugiu Tchang Zu, seus olhos vermelhos brilhando de fúria.
O demônio do trovão disse algumas palavras que provavelmente deveria fazer Jackie em pedaços, mas ele estava tão dominado pela raiva que era inútil. Ao invés de Jackie, ele conseguira destruir algumas caixas e uma máquina de fumaça.
Ni Tang sentiu um corte no corpo como se o demônio do trovão tivesse tentado atacá-lo e caiu em um dos joelhos. Ninguém pareceu reparar isso, todos estavam observando Jackie, que tentava desesperadamente evitar os ataques de Tchang Zu.
Ele engoliu em seco e ergueu a mão trêmula na frente dos olhos. O que estava acontecendo? Uma onda de náusea passou o atingiu e ele envolveu os braços ao redor de si para se proteger daquela sensação nova e incrivelmente desagradável.
Tso Lan viu algo do canto do olho e virou-se para olhar. A princípio, ele pôde apenas fitar a figura caída de Ni Tang, mas, após alguns segundos, compreendeu.
A enorme carga mágica na sala, desfazendo o feitiço no portal, libertando o demônio do trovão e todos aqueles outros feitiços fizeram com que todos os que tivessem qualquer potencial mágico pudessem sentir a mudança na atmosfera. Para os demônios, não era nada. Eles eram criaturas totalmente mágicas, mas Ni Tang claramente estava sendo afetado.
O demônio polar estava ruindo.
— Pare! — disse ele a Tchang Zu, erguendo a voz para o demônio do trovão pela primeira vez em séculos, e Tchang Zu se virou para encarar o irmão menor com evidente choque. Não durou muito, logo todos podiam ver que ele não estava contente.
— Tso Lan — disse, — é melhor você ter um muito bom motivo para me perturbar agora — disse perigosamente.
— Acho que nós deveríamos ir embora. Agora — disse o demônio da lua. Ele podia apenas esperar que o demônio mais velho entendesse o que estava acontecendo. Era impossível explicar a situação agora.
Ele esperou demais: Tchang Zu simplesmente não estava muito esperto no momento. E ele não estava interessado no que acontecia à sua volta, então não viu a miséria de Ni Tang.
Ao mesmo tempo, o Tio aproveitou aquela chance e começou outro feitiço.
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Ni Tang gritou quando um lampejo no ar, causado por outro feitiço, passou por ele. O golpe não era para ele, mas o feriu mais do que a Tchang Zu, que acabava de se virar para o Tio. O grito do demônio polar finalmente mostrou a Tchang que havia algo de errado e agora todos já haviam notado a figura no chão.
O mundo inteiro pareceu desaparecer e escurecer em seus olhos e Ni não sabia em que posição estava. Todo o seu corpo doía e sentia que estava tremendo imprudentemente. Os lampejos mentais o atravessavam e não havia nada que ele pudesse fazer.
Exceto gritar.
— O que está havendo? O que está acontecendo com ele? — indagou Hsi Wu, preocupado, e conseguiu arrastar-se para longe do confuso Hak Foo. O homem nem pareceu notar, mas apenas fitou como todos os outros.
— Isso é coisa sua? — perguntou Jackie ao Tio, que tocou os óculos de leve e olhou a cena com interesse.
— O Tio não é forte o bastante. Está havendo alguma outra coisa — disse.
Bem na frente de seus olhos, Ni Tang começou a mudar. Era difícil descrever, mas ele parecia brilhar intensamente e diminuir até que estivesse do tamanho de um homem normal. A cor de sua pele aos poucos mudou de cinzenta para a cor de pele de um humano e todo o seu corpo transformou-se em algo que não parecia tão perigoso.
— O que... — perguntou Jackie, em choque. O que estava acontecendo com o demônio polar? Ele assistiu impressionado às roupas pretas mudarem e tomarem a forma muito familiar de um vestido preto e azul que ele não vira desde que...
— Ele está voltando — disse Jade em voz baixa e estava tão concentrada naquilo que nem percebeu que Po Kong a segurava.
Logo tudo estava acabado e ninguém conseguia dizer nada.
Valmont ergueu o olhar do chão, confuso; o brilho vermelho desaparecera de seus olhos.
A máscara cinzenta de porcelana caiu no chão e quebrou-se em vários pedaços.
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Jackie pôde apenas fitar. Sabia que sua boca estava aberta e desesperadamente queria dizer alguma coisa, qualquer coisa, mas percebeu que seu corpo não estava seguindo suas ordens.
— Va... hã... Val... — conseguiu gaguejar, mas ninguém mais pôde fazer melhor que isso.
— Ai, ai. Eu nunca pensei que chegaria tão longe — murmurou Tso Lan, pensativo, e Hsi Wu virou-se para encará-lo com preocupação.
— O quê? O que aconteceu? O Ni Tang está bem? — perguntou, mas o demônio da lua não lhe deu atenção. Ele virou-se para Tchang Zu.
— O nosso feitiço decaiu completamente. Agora, a melhor coisa a fazer é deixar a cena e refletir sobre isto — sugeriu e o demônio do trovão assentiu com a cabeça devagar.
— Concordo. Esta é uma chance muito grande — disse, aceitando o plano do irmão menor. Ele era um demônio teimoso e sangue-quente, mas sabia quando estavam lidando com algo sério.
E aquilo com certeza era sério.
— Vamos embora agora! Todos conosco! — disse e deu a todo mundo um olhar severo. Bai Tsa e Po Kong, que arrastava Jade consigo, rapidamente obedeceram e apressaram-se para junto do irmão que poderia levá-los todos embora, mas Hsi Wu não fez nada.
— E o Ni Tang? Não podemos deixá-lo! — preocupou-se e olhou Valmont com confusão. O que acontecera? Por que Ni tomara sua forma humana? Por que ninguém lhe contava nada?
— Esqueça-o, Hsi Wu! Venha agora ou nunca! — ameaçou Tchang Zu impacientemente e o demônio do céu olhou para sua família, depois para o humano que havia pouco fora seu irmão.
Ele ficou incerto por um momento e então se aproximou do demônio do trovão. Hsi não queria deixar Ni, mas permitir que seus irmãos ficassem com Jade também estava fora de questão.
Ni Tang podia cuidar de si mesmo. Pelo menos ele esperava que sim.
Os demônios e Jade desaparecerem com um lampejo de luz.
Valmont levantou-se devagar e deu uma olhada em si mesmo. Não sabia dizer o que pensava, sentia como se todo o seu corpo tivesse passado por uma máquina de moer e depois moldado em algo que deveria parecer um humano.
Não se sentia inteiro, algo muito importante parecia estar faltando, mas ele não fazia idéia do quê. Ele parecia bem, tinha os olhos azuis, o cabelo branco, o nariz que o fazia parecer um falcão...
Ainda assim, sentia-se estranhíssimo e queria arrancar os cabelos de tanta frustração. Ele estava tão confuso!
A última lembrança clara do homem era do Mundo Inferior, quando os demônios... Ele não queria pensar nisso e deixou esse pensamento de lado.
Tudo o que acontecera depois daquilo... Ele não se lembrava bem, mas tinha vários relances de lembranças que pertenciam a uma outra pessoa. De alguma forma, ele achava que sabia o que acontecera, mas era como se tivesse sido com outra pessoa.
Valmont nunca se sentira tão traído, como se alguém tivesse partido sua alma e revelado todos os seus segredos sórdidos a todo mundo.
— Valmont? — ele ouviu alguém chamar o seu nome e ergueu o olhar. Parecia fazer uma eternidade desde que o chamaram pelo seu verdadeiro nome e ouvi-lo fazia-lhe bem. Também o lembrou de que ele não estava só na sala.
— Sim? — perguntou, forçando sua voz a soar fria. Ele não era mais Ni Tang, não tinha que ser humilde para ninguém nem para nada.
— É você mesmo? — indagou Jackie e Valmont franziu a testa. Estava pensando exatamente a mesma pergunta: ele era mesmo Valmont? Ou ele era Ni Tang? Ambos? Ele era sequer humano?
— O que é que parece, Chan? — perguntou ele sem mostrar sua confusão a ninguém.
— Pelo menos fala como ele — resmungou Jackie e deu um grito quando o Tio o empurrou.
— Deixe o Tio ver! — disse ele e aproximou o rosto do de Valmont o máximo possível. O homem deu um passo para trás.
— Eu não sou um objeto em exposição! — redargüiu aborrecido quando o velho o seguiu teimosamente.
— Muito interessante... Eu nunca ouvi falar disto acontecer antes — murmurou ele. Jackie o olhou.
— O que aconteceu? — indagou. O Tio bateu-lhe com o dedo.
— Cadê os seus olhos? Você não viu nada? — perguntou irritado enquanto Jackie esfregava as têmporas.
— O Ni Tang se transformou no Valmont... — murmurou. Era inacreditável. Todos haviam pensado que o inglês morrera meses atrás nas mãos dos demônios e agora lá estava ele, exatamente do jeito que estivera então.
— Exatamente! Tudo está claro: os demônios o usaram e o fizeram um deles — disse o Tio, franzindo a testa e enfim entendendo o que se passava. Jackie ergueu as sobrancelhas em choque e olhou o senhor do crime mais de perto.
— Então, o Ni Tang era o Valmont esse tempo todo? — quis confirmar, ainda não acreditando muito. Aquilo era impossível.
Valmont não gostava da forma com que os Chans falavam sobre ele como se ele não estivesse presente ou estivesse muito deficiente para entender uma só palavra. Ele era um humano, afinal, eles não podiam tratá-lo como um animal!
— Eu vou embora — anunciou abruptamente e só então percebeu que não tinha para onde ir. Seu império criminal devia ter ruído e ele não podia simplesmente sair pelas ruas sem ser preso.
— Espere! — O Tio apressou-se para impedi-lo e agarrou o ombro do homem. Valmont se virou e empurrou sua mão. Ele poderia ouvi-los, mas nunca permitiria que um Chan o tocasse.
— O que é? — perguntou.
— Não sabemos o que vai acontecer. O feitiço dos demônios se despedaçou, mas isso não significa que o demônio dentro de você se foi para sempre. Você tem que vir conosco, o Tio faz pesquisa e... — começou o velho, mas Valmont o interrompeu com raiva.
— Não. Eu nunca farei nada com vocês. Não quero ouvir nada sobre o assunto — disse e virou-se, sem querer ver se alguém ainda tinha algo a dizer. O Tio cruzou os braços e bufou.
— Hmph. Problema dele. Se a ajuda do Tio não é boa o bastante, ele se vira com os resultados sozinho — resmungou. Jackie afirmou com a cabeça e não disse nada, podendo apenas fitar Valmont indo embora.
— Eu também já vou — disse Hak Foo de repente e Jackie o olhou com surpresa. O guerreiro não ia lutar ao lado deles?
Hak Foo pareceu adivinhar o que Jackie pensava e balançou a cabeça.
— Valmont ainda é o meu mestre e eu devo servi-lo lealmente — anunciou e, sem dizer mais nada, apressou-se atrás de Valmont.
— Isso está muito mais complicado agora — comentou o Tio sombriamente e nem Jackie nem Tohru puderam discordar. Eles não conseguiram fazer nada: todos os demônios ainda estavam livres e Jade sua refém.
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Estava tudo quieto na lua.
E silêncio era o que Tso Lan queria agora acima de tudo. Sua cabeça doía e ele pressionou os dedos nas têmporas, suspirando longamente.
Tudo estava tão confuso agora.
O inevitável finalmente acontecera e o feitiço de Ni Tang se fora. Valmont estava de volta e se lembrava de tudo que ocorrera.
Não deveria ter sido assim: geralmente os feitiços daquele tipo duravam para sempre, mas aquele tivera uma falha. Tso Lan não estivera no círculo mágico, e sim ficara de olho em Hsi Wu, e por causa disso Ni Tang nunca fora um demônio de verdade.
Hsi Wu estava morrendo de preocupação, ninguém lhe contara o que realmente se passara. O demônio da lua acreditava que a escrava contaria a verdade mais cedo ou mais tarde e ele sabia que deveria fazer alguma coisa para impedir isso.
Mas ele não se importava. Estava tão cansado... Tudo aquilo era inútil. De certa forma, a família inteira parecia estar ruindo assim como o demônio polar. Pelo menos antes eles sentiam compaixão e apego uns pelos outros, mas isso se acabara.
Não era apenas o ódio entre Shendu e Bai Tsa, Tso podia sentir isso em todos eles. Até ele e Hsi estavam zangados um com o outro e era tudo culpa sua.
Ou será que não?
Tudo aquilo acontecera apenas para que eles se libertassem do Mundo Inferior e pudessem começar a dominar o mundo. Ele sacrificara a amizade do irmão só para que ele não descobrisse a verdade cedo demais.
Para quem eles estavam jogando aquele jogo?
Tso Lan sacudiu a cabeça e olhou em volta. Amargura tomou sua mente e ele teve que fechar os olhos.
Humanos também haviam estado lá.
Na Antigüidade, a lua era seu esconderijo particular, aonde ninguém mais ia. Ele gostava de pensar que podia retirar-se para lá a qualquer hora e ficar sozinho por quanto tempo quisesse.
Isso não era mais possível. A raça humana visitara a lua e tirara-lhe sua última alegria no mundo. Ela perdera parte de sua beleza misteriosa e apenas estar lá fazia o seu coração pesar.
Os humanos mudaram tanto. Tornaram-se mais fortes, mais independentes, corajosos e ambiciosos. Não se conformavam apenas com viver, tinham que visitar todos os lugares e conseguir tudo o mais rápido possível, de preferência imediatamente.
Quanto tempo levaria até que eles habitassem a lua?
Tso Lan deu uma última olhada ao redor, erguendo as mãos para voltar para os outros. Não tinha nada lá nem na Terra, mas, com seus irmãos, poderia pelo menos conseguir alguma coisa.
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Hsi Wu deixou o vento soprar em seu rosto. Mantinha o olhar no chão e só conseguia pensar em Ni Tang, que eles haviam deixado para trás. Seu irmão estava bem? O que teriam feito os mortais com ele?
Não conseguia acreditar que os outros abandonaram o demônio polar daquele jeito. Ele era um deles! Hsi tinha certeza de que ninguém nunca sugeriria deixar Bai Tsa ou Tso Lan para trás. Por estes, eles correriam riscos enormes.
Talvez fosse porque Ni era o mais novo? Ele não era tão valioso para a família, mas Hsi achara que essas regras já haviam sido esquecidas. Eles não precisavam mais delas depois de terem sido libertados.
— Hsi? — perguntou Jade com cuidado atrás dele e o demônio não se deu ao trabalho de se virar. Imediatamente depois de terem retornado a São Francisco, ele levara Jade consigo e saíra voando para que pudesse ficar sozinho e pensar. Ninguém parecia ter percebido, Tso Lan também desaparecera, e Hsi sentia somo se não fosse mais necessário.
A voz confusa e talvez preocupada da garota o fez sentir-se um pouco — só um pouco — melhor.
— Sim? — perguntou ele e, para sua surpresa, Jade sentou-se ao seu lado no telhado.
— Não precisa se preocupar com o Ni Tang — disse a garota, e o demônio o céu a olhou. O que ela quis dizer desta vez?
— Eu não estou preocupado — anunciou, embora soubesse que Jade não acreditaria nele. A garota girou os olhos.
— Tch! Você mente muito mal — comentou. Não sabia o que deveria fazer. Sabia o que acontecera e tinha certeza de que seus parentes não machucariam Valmont, mas deveria dizer isso a Hsi? Seria melhor se ele pensasse que Ni estava morto e deixá-lo lamentar-se até que a dor se fosse, ou dizer-lhe que o demônio polar nunca existira?
Hsi Wu suspirou.
— O que quer dizer? — indagou. Jade mordeu o lábio. O demônio do céu já estava devastado. Poderia ela afligi-lo ainda mais?
— Eu tenho certeza de que o Ni Tang pode cuidar de si mesmo — decidiu dizer e olhou para o céu.
Continua...
