Andreas abre as portas de seu box no centro comercial, somente depois do meio dia. Havia almoçado com Petrus e levado o menino pra o segundo período da escola. Apanharia iguarias e retornaria para casa a fim de organizar os kits para os pedidos acumulados durante os dias de sua ausência.

- Tem novidades para mim? – a voz grave de Gladius é ouvida por Andreas, que sorri amplamente.

- Como diz meu pai pirata: em breve estarei na equipe dos homens casados!

O gigante avança para Andreas e o abraça, levantando-o do chão e rodopiando com ele. Devolve-o ao chão.

- Meus parabéns, piratinha! Sua amada gostou da noite?

- Nós dois adoramos e prolongamos até aos clarões do dia. Estou feliz, Gladius e é com ela que gostaria de viver os meus dias.

- Eu felicito você! Vou ser padrinho deste casamento, senão ficarei ofendido!

Andreas segura os ombros poderosos do gladiador e aperta a carne com seus dedos.

- Sabe, Gladius, quando meu amigo Cosme partiu, era porque o destino estava avisando que você viria. Pensei estar totalmente órfão, mas aos poucos estou reconstruindo a minha família. Estou amando você, Capitão Gladius!

O gigante gargalha. Afasta-se de Andreas e disfarça as lágrimas em seus olhos.

- Somos responsáveis por quem cativamos, menino. Isso diz o livro O Pequeno Príncipe, mas se você contar viu o livro em minha cabine, nego até à morte!

Andreas franze o nariz numa careta risonha. A imagem de Gladius com aquele livro nas mãos, era a cena mais ridícula que havia visto desde sua chegada à cidade.

- Vou fazer um jantar especial em minha casa e quero a presença de Marlene e de Petrus. Tenho de preparar os dois para nossa próxima empreitada! – ele toca o ombro de Andreas e ia complementar sua frase, quando uma movimentação abrupta pelas ruas chama a sua atenção. – O que está acontecendo? Alguma oferta relâmpago de celulares?

Os dois homens e mais alguns comerciantes correm para a entrada do centro comercial e observam as pessoas correndo assustadas e curiosas na direção das docas. Mas não precisam ir muito longe para entenderem o que estava acontecendo.

Lá no mar, formando uma parede atrás dos barcos ancorados, a água levantava-se e aumentava em altura, numa onda gigante. Uma onda que não se quebrava, mas que formava um muro de proteção tomando uma extensão de mais de um quilômetro de comprimento.

Do meio da imensa parede de água, surge a monstruosidade em madeira escura, conhecida por Andreas. O Sonho da Rainha anunciava sua chegada teatral e assustadora. O navio vem pomposo e silencioso, lento e atraca a vários metros das docas.

Andreas e Gladius não hesitam e correm para presenciar aquela coisa assombrosa e bonita ao mesmo tempo.

- O que é aquilo? – várias pessoas perguntam-se ao mesmo tempo.

Andreas não consegue acreditar na informação que seus olhos recebiam. Charlize havia atravessado algum portal e estava ali, em Storybrooke, vinda do reino Pedras Desenhadas e aquilo demonstrava a certeza de que haveria a possibilidade de todos retornarem juntos. Mas e Marlene? Aceitaria retornar a ser como era, sobretudo agora que havia conhecido o prazer de ser uma mulher? Ele veria seus companheiros de roubo, Cosme, veria Minerva e o deslumbrado Dovar, veria o Barba Negra e todos os aldeões, além de poder encontrar o túmulo de sua mãe?

Sorridente e hipnotizado, o rapaz abre espaço entre a multidão, usando a força de seu corpo e caminha até a beirada de uma plataforma. Subitamente, seu sorriso se desfaz e um véu de horror desce sobre seu rosto.

Quando Athos desejara ficar no navio com todo o ouro e demais carga, um acordo havia sido feito: um companheiro pela liberdade do outro. Mas por que Charlize trouxera o Sonho da Rainha até aquela cidade? Em busca de que ou de quem? Sua mente evoca lembranças e respostas. Reconhece definitivamente que ela estava em busca da quebra de sua maldição em torno dele, na esperança de que ainda permanecia intocado.

- Estamos sendo atacados! – grita Leroy, provocando uma fuga em massa daquela pequena multidão, deixando somente Gladius e Andreas, parados encantados e assombrados com a presença do navio.

- Quem é esse? – pergunta Killian conseguindo desvencilhar da manada em fúria que se afastava dali. Ele toca os ombros do filho. – Você está bem?

Andreas aponta com o dedo indicador para o navio e para a parede de água.

- Este é o Sonho da Rainha!

Incrédulo e instantaneamente apaixonado, Killian leva seus olhos arregalados e brilhantes para o navio e imediatamente sente o coração tamborilar pela saudade de sua Jolly Rogers.

- É lindo!

- Lindo, assombrado e amaldiçoado!

Gladius sorri malicioso e já imagina como equiparia aquele navio com todos aqueles predicados, para um embate contra os navios baleeiros. Queria aquele navio!

- O que significa isso? – Gold mal consegue perguntar.

- Charlize atravessou algum portal e veio trocar um companheiro por outro. – a voz de Andreas embarga-se e desta vez, ele sente medo.

- Não neste reino. Deram as coordenadas erradas para esta senhora. – rosna Gold, recebendo um olhar de admiração por parte de Killian.

Neste momento, Emma chega apressada e estaca-se observando o fenômeno antinatural.

- Outro ataque?

- Ainda não se manifestaram. – responde Killian. – Este navio é descrito em várias narrativas, mas eu nunca o havia encontrado.

Gladius abre os braços e torna-se ainda mais amplo em sua estatura. Dá passos adiante e diz:

- Vamos fazer contato! Ver o que a tal senhora deseja conosco! Quem vai comigo além do Andreas?

- Você não irá mesmo! – rosna Gold. – Isso é trabalho para adultos!

- É mesmo? E quem vai ser o adulto que me impedirá? – rosna o gigante.

- Senhores! – Emma intervém. – Vamos Andreas e eu! Tenho como protegê-lo!

Uma imediata discussão começa entre os homens ali presentes, argumentando sobre a ida da xerife numa empreitada contra o desconhecido.

- Não precisaremos ir. – a voz de Andreas cala o grupo e todos voltam seus olhos para direção do navio e percebem a presença de um bote afastando-se da embarcação, vindo para as docas.

Com movimentos assombrosos, o bote vai se aproximando numa velocidade literalmente fantasmagórica, como se sua aceleração saltasse em metros para diminuir a distancia. Diante dos olhos atordoados a atentos, duas figuras humanas descem lentamente do bote e caminham pela plataforma até aproximarem-se dos espectadores.

- Andreas Verbenas...- a voz suave de Charlize é ouvida, tão nítida como se ela fosse um dos humanos encarnados ali. – Sua ausência não foi preenchida em meu coração e em meu navio.

O jovem leva os olhos para o companheiro humano e ganancioso de Charlize.

- Athos...

- Você é uma pessoa incrível, Colombo! Como eu admiro a sua força de vontade! Sua jornada é uma odisseia! – o homem leva os olhos para todos os presentes e os fixa ferozmente no rosto forte de Gladius. – Eu conheço você!

O gigante levanta o queixo barbado em sinal de desafio.

- Provavelmente sim. Talvez eu tenha lutado para a sua diversão em algum ponto perdido deste mundo imenso.

Charlize caminha na direção de Andreas e para repentinamente ao ver Gold e Killian tomarem a dianteira e ficarem entre ela e o rapaz.

- Alto lá, moça! – Killian se adianta. – Seu avanço termina aqui!

Ela sorri suavemente e depois desenha no rosto uma expressão de inocência e abandono. Gesticula inesperadamente, então o pirata e o advogado são atirados para longe de Andreas. Ia fazer o mesmo gesto para os outros, mas é impedida por Emma. Isso a surpreende e ela se intimida. Olha para Andreas com indignação e sente a arma de Gladius apontada para sua cabeça.

- Parem com isso! Eu lhe imploro! – Andreas protege a visitante com seu corpo e empurra delicadamente a arma de Gladius. Gesticula para que Gold e Killian não se aproximassem. Volta-se para a jovem. – O que você deseja, Charlize?

- Athos e eu não queremos permanecer sozinhos no navio. Ele tem seu ouro e eu não tenho ninguém. Amo você, Andreas, e por isso resolvi tomá-lo de vez para mim.

Killian avança e para diante do pedido mudo do filho.

- Fizemos um acordo e eu honrei a minha parte, Charlize. Vivi com você até a chegada de outro companheiro por vontade própria. – ele aponta para Athos. – Não pode simplesmente vir e tomar-me à força.

- Posso e farei, meu amado. Eu o fiz totalmente meu e você sabe disso. Aproveitei-me de seus votos e o protegi contra os seus próprios desejos. – ela se avizinha e segura o rosto bonito do rapaz entre suas mãos pequenas. Mas seu sorriso logo se desvanece. Liberta-o e olha-o com nojo. – Você foi mesclado!

Todos os olhos voltam-se para Andreas como se buscassem entender o significado da indignação da visitante.

- E foi mesclado com muito amor. – provoca Gladius sorridente.

Charlize dá alguns passos para trás, porém, depara-se com o corpo de Athos.

- Ele é seu! Tome-o assim mesmo! Somente assim irá livrar-se da maldição eterna e poderá ficar para sempre em seu reino, fora do navio, como uma jovem humana! Tome-o! Ele é seu!

Charlize estende a mão na direção de Andreas e neste momento a parede de água emite um estrondo poderoso e balança como se fosse cair sobre a cidade e provocar um desastre. Era o seu aviso.

- Venha conosco, meu amado. Tudo ficará bem depois que partimos. – ela aponta para a onda e sorri. – Mas derrubarei a onda, caso permaneça ao lado da mulher com quem se mesclou.

Regina e Marlene chegam ao grupo caminhando cautelosas e irritadas. Teriam de ser cuidadosas, uma vez que haviam ouvido o que a jovem tinha dito sobre a onda assustadora e imensa, que pairava como uma cordilheira em torno da cidade.

Charlize olha Regina e exibe um sorriso de reconhecimento.

- Vejo que também se deleitou nos lençóis da grande Rainha Regina, meu amado. Ela emana desejo puro por você. – volta seus olhos para Marlene e sente o ódio ferver em suas veias. – Foi você!

Rosnando e completamente transtornada, ela crispa as mãos e a onde gigantesca começa a descer sobre a cidade, num formato de abóbada. Mas é detida pela imediata intervenção de Gold, Regina e Emma.

- Isso é forte demais! – grita Gold ainda com suas forças debilitadas.

- Não vamos aguentar por muito tempo! – grita Emma.

- Eu irei com você, Charlize! Mas não fira as pessoas que amo! – Andreas grita e aponta para Marlene. – Eu abdico do meu amor, apenas para que você poupe este reino e seus habitantes! Eu lhe imploro para parar com isso! Vou embora com vocês agora!

Depois de longos segundos, a onda vai diminuindo e o mar torna-se sereno e suave, como se nada tivesse acontecido. Charlize sorri e estende a mão para Andreas, sob o olhar apavorado de Athos.

- Irei com você, mas me permita dar adeus aos que amo.

Um maneio da cabeça é a resposta da mulher. Ela permite.

Andreas caminha até Gold e Killian e abre os braços, envolvendo os dois pais. Encostam os rostos.

- É a raiz que sustenta a árvore. Destruam a raiz e toda a força da árvore será minada. – ele beija os pais e volta-se para Marlene, estendendo os braços.

"Outras vêm quando ele chama. Como pude condená-lo? Infinita a sua beleza, como poderia ficar preso como a um santo no altar?" – pensa Charlize piscando para afugentar as lágrimas.

Andreas beija os lábios da amada e não permite que o beijo se aprofunde. Afasta-se sem olhar para trás. Regina sente seu peito queimar, mas não permite demonstrar fraqueza e dor pela partida.

- Pode me envolver com seus galhos, Cássia Imperial. Apenas peço que não partamos antes do anoitecer. Permita-me ver a lua deste reino mais uma única vez. – pede Andreas em voz alta, ao ver Charlize conduzi-lo para o bote.