Capítulo XXVII

Sentiu minha falta? Perguntou Saphira, antes de acertar Thor com rabo e girar rapidamente para uma rajada de fogo. O dragão carmim abriu as asas para frear o voo e rugiu alto.

Ele não queria machucar Saphira de maneira nenhuma; parecia ser o que existia de mais errado no mundo. Ele e seu cavaleiro sabiam que não estavam do lado em que deveriam estar e isso já era errado o bastante.

Qual é? Isso é tudo o que você tem pra mostrar? Saphira provocou-o e riu de sua maneira, enquanto Thor pousava e se posicionava para separá-la do local onde Eragon e Murtagh travavam sua batalha. Era só o que se permitia fazer.

Saphira rugiu furiosa ao perceber que o outro dragão não lutaria com ela. Subiu até a altura que o teto de pedra do castelo permitia e mergulhou, incendiando tudo em seu caminho.

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Nasuada deixou Violet à mercê da Galbatorix com relutância; precisava buscar ajuda. Não seria capaz de derrotar o tirano sozinha.

Apressou-se pelos corredores por onde passara antes à procura de elfos que pudessem tirar Violet daquele sofrimento, mas não via ninguém. Tudo pegava fogo, incluindo os corpos que jaziam pelo chão de mármore, mas não havia ninguém. Imaginou que os elfos que entraram pelas masmorras tivessem ido cumprir o plano tático dos invasores: atacar os defensores da muralha por trás, enquanto os outros penetravam no castelo.

Lady Nasuada desesperou-se, sem saber o que fazer em seguida. Violet não havia gritado mais, e não sabia dizer se aquilo era bom ou ruim.

Ela pode estar morrendo. Deus... Apertou com força o amuleto que seu pai lhe dera no pescoço e murmurou uma oração. Ouviu vozes alarmadas e escondeu-se atrás de um pilar.

Uma mulher ruiva, com olhos cinzentos, dava instruções a um outro homem, que apenas assentiu e caminhou na direção onde a verdadeira guerra estava sendo travada. Nasuada arrepiou-se; a cólera lhe tomando as veias. Segurou firme a espada na mão direita, pronta para travar um combate com aquela conselheira de Galbatorix.

Berrou algum grito de guerra enquanto avançava para cima da mulher, mas antes que pudesse piscar os olhos, Arya pareceu e posicionou-se em frente à ruiva, de modo a protegê-la. Nasuada parou, completamente confusa.

- Lady, esta é Grace, a informante que tem nos ajudado esse tempo todo. Perdoem-me ter de apresentá-las nessas circunstâncias – Arya disse. Havia um pequeno corte em seu rosto, mas não parecia cansada.

- Eu é que peço perdão...

- Não se preocupe com isso, Lady – Grace lhe sorriu brevemente, e Nasuada assentiu. A líder dos varden virou-se para Arya, franzindo a testa.

- Se você está aqui, quer dizer que...

- Tomaram as muralhas – Grace disse, parecendo genuinamente feliz.

- Ainda falta a última. Os melhores oficiais de Galbatorix estão lá e começamos a ter baixas demais... – Arya disse e deixou o resto de sua frase no ar.

Nasuada lembrou-se de repente o que estava fazendo ali.

- Meu Deus! Arya! Violet... Galbatorix está com ela... Você precisa me ajudar! – A elfa assentiu gravemente e as três mulheres seguiram para encontrar a cavaleira e o déspota.

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Eragon estocava como um semideus, sem ofegar nem parar para nada, e Murtagh começava a ter dificuldade em desviar-se dos golpes. O mais velho conseguiu empurrar o irmão para longe de si por um momento e enxugou o suor da testa.

- Você se tornou mesmo um grande guerreiro... – Não havia sarcasmo em sua voz, mas Eragon parecia impassível. – Sempre soube que esse dia chegaria.

- O dia em que eu mato você.

Murtagh riu.

- Espero que você o faça. Será melhor do que apodrecer aqui.

Eragon encarou o irmão. Tentou compreender o que Murtagh estaria passando sob às ordens de Galbatorix se tivera mesmo que fazer um juramento forçado. Ambos sabiam havia apenas duas maneiras de libertar Murtagh daquela prisão horrenda.

- Me mate – pediu Murtagh, sorrindo de canto. Eragon rosnou um palavrão e voltou a estocar.

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Mal haviam chegado à claraboia e Galbatorix já as havia dominado sem proferir palavra alguma. De fato, ainda não havia movido os lábios naquela noite, nem mesmo para que sua voz fosse ouvida.

Nasuada e Grace estavam desacordadas no chão, e Violet e Arya estavam em pé, imóveis, inertes, sob o velho feitiço das correntes invisíveis.

Violet sentia os elos estreitarem-se no pescoço, mas não fazia esforço para libertar-se. Lágrimas negras ainda lhe escorriam pelo rosto machucado e ela sentia-se completamente inútil. Galbatorix a havia feito ver cenas medonhas: cadáveres amontoados, dragões despencando dos céus em agonia, e as pessoas mais próximas a ela gritando e morrendo, e não podia fazer nada.

Não escutava Georhgio e mal podia ouvir o que Arya tentava lhe dizer, enquanto lutava para se livrar das correntes. Era o fim, ela iria morrer, mas isso de pouco importava. Arya, Orik, Judy, Oromis, Saphira, Eragon, George...

O nome de George pareceu clarear sua mente levemente.

George? Chamou fracamente.

VIOLET!

Seu dragão esmeralda gritou-lhe de volta e Violet voltou a si de repente. Sentia a dor de George como se fosse na própria pele. A dor a fez despertar.

Estou bem. Desça logo, por favor! Acabe com isso aí em cima! Preocupação tomou-lhe a alma. George estava muito ferido e Shruikan, provavelmente, estava quase imaculado.

É, vou acabar com ele rapidinho.

George, não!

Galbatorix parecia entediado; nem prestava atenção em Violet ou Arya. As duas estavam sem energia nenhuma para tentar reverter o feitiço que as envolvia; Violet nem podia tocar os punhos de suas espadas para conseguir um fiapo de força com o que lutar.

Pensou rapidamente em uma saída, mas não via nenhuma. Galbatorix não parecia estar ciente de que voltara à sanidade, mas isso não duraria por muito tempo... Precisava salvar Georhgio...

Um rugido que quase estourou-lhe os tímpanos ecoou na claraboia e um borrão enorme e dourado acertou Shruikan com força e Violet viu seu mestre pular no centro do local com certa dificuldade.

Galbatorix arregalou os olhos e arreganhou os dentes. Violet sentiu as correntes se alargarem um pouco e não evitou uma careta. Ele era mesmo um monstro.

Oromis e o tirano murmuravam magia muito rapidamente, enquanto desembainhavam suas espadas. Violet sentiu-se culpada, de repente, por estar com as espadas de seu mestre atadas às costas e não poder entregá-las a ele, para que as usasse melhor do que ela. Mas Oromis tirara duas espadas magníficas de suas bainhas e Galbatorix mostrava a sua, preta, enquanto resmungava magia negra antes do combate.

Arya olhava para Violet, porque as duas sentiam as correntes se afrouxando devagar. George pousou com um baque ao lado de Violet e tinha um grande ferimento no pescoço, na divisão da sela com a armadura, e uma de suas asas parecia comprometida.

GEORGE! VOCÊ ESTÁ BEM?

Não precisa gritar.

Aquilo devia significar que ele estava bem. Violet finalmente pôde libertar-se das correntes e abraçou seu dragão com força. Afastou-se e tirou as espadas douradas das costas rapidamente, absorvendo de imediato a energia que os punhos havia guardado. Mal pode fazê-lo e sua atenção voltou-se para a o centro da claraboia.

Glaedr foi arremessado contra a parede com força por Shiruikan e quando despencou, não se ergueu mais. Exatamente ao mesmo tempo, em meio às faíscas que o atrito entre as espadas de Oromis e de Galbatorix causava, o Ebrithil de Violet e Eragon afastou-se do combate o quanto pode, e parecia a Violet mais uma daquelas dores que o tomava desde a mutilação que ele e Glaedr haviam sofrido. Galbatorix aproveitou-se, e estocou uma vez.

Violet entendeu de repente e chorou. Oromis e seu dragão, cujas escamas rutilavam em ouro com o começo do amanhecer estavam morrendo. Georhgio viu as orbes douradas de Glaedr se fecharem aos poucos, enquanto caído no chão. Oromis largou as espadas e arrastou-se para perto de seu companheiro.

- EBRITHIL! – Violet berrou, e tentou correr para socorrê-los, mas George a impediu e ela compreendeu que não havia mais nada para aquele cavaleiro e seu dragão. Oromis e Glaedr estavam mortos e Shruikan rodeava a claraboia, lembrando os vivos de sua presença mórbida.

Arya mumuruou magia rapidamente, e parecia ser algo parecido com o que Galbatorix fazia, pois o tirano não pôde caminhar na direção de Violet. Ele sorriu para Arya.

Violet olhou para cima; encarou os olhos extremamente verdes de seu dragão e os dois souberam o que fazer, assim como o Eragon primeiro lhes havia dito.