28

"Your song" estava tocando no rádio do carro. Quando Heero deu-se conta disso, desligou imediatamente. Ele sabia que aquela era uma ação apressada. Contudo, as pequenas coisas incomodavam. Incomodavam mais que as grandes pelo óbvio fato de que o que é grande pode ser facilmente evitado. O pior de tudo não era precisamente a lembrança trazida pela canção, mas as imagens que subitamente começavam a afluir. Tão rápido quanto giravam as rodas de seu carro, as imagens revolviam por sua mente. Nunca falhava em relembrar com integridade fotográfica o primeiro sorriso que ela lhe oferecera – descuidado, brilhante demais e abrasador para ele. E um sorriso lembrado levava ao outro e à próxima ocasião. A festa no Prodige, a tarde na piscina, o fim de semana em The Wing, os encontros mecânicos, o casamento, o baile de Primavera…

Começou a notar como Relena escolhia as roupas precisamente, para que sempre estivessem confundindo-se com sua pele ou com seus cabelos, o que sempre contribuía para torná-la etérea e quase fascinante. Não havia nada que o irritasse mais do que ela, porém, lá estava ele pensando nela, quase a ouvindo respirar ao seu lado, no banco do passageiro, a saia de um vestido azul celeste espalhada sobre o colo dela e suas pernas bonitas se revelando um pouco, com seu viço e luminosidade. Mas isso fora um ano atrás.

Como podia lembrar tudo sobre ela? Não era como se estivesse prestando atenção. Se precisasse, jamais seria capaz de explicar como os detalhes sobre ela se acumulavam em sua mente. E não era a primeira vez que se incomodava com isso, reconhecer isto o contrariava muito. Relena era dotada de um inato feitiço ruim, permanente, amaldiçoador. A figura dela sedutora no vestidinho bege pairava em sua mente da mesma maneira que sua silhueta bem-feita pelo romântico corselete de rendas pairara, provocando um misto intenso de sensações indecifráveis. Não se deteria mais nelas. Não, não outra vez.

Subitamente via-se tão patético. Um impulso se apoderou dele ordenando-lhe virar a primeira esquina e seguir em frente sem parar, para longe, sem destino, só pela certeza de se afastar, de fugir, de evitar. Não via razões para voltar para o apartamento. Quem lhe causava todo aquele conflito habitava tal local, trazendo com sua presença gangrena para o espírito dele, ferrugem para seu entorpecimento e levedo para sua ferocidade irracional.

Abriu a porta no apartamento e olhou os lados. Foi o silêncio quem o recebeu, sem guardar qualquer segredo, sendo de fácil decifragem. O toque do telefone trouxe um pouco de suspense ao ambiente, causando Heero levar a mão instintivamente ao bolso, mesmo que não fosse seu celular que tocava, mas o telefone no aparador próximo a fotografia de Londres no corredor.

_Pronto. –atendeu e ao mesmo tempo viu Manon surgir para responder ao chamado do aparelho. Contudo, ela deteve-se em seu curso ao notar Heero e, com uma mesura de cabeça, voltou para a cozinha.

_Alô? –surpresa e desconforto compuseram a melodia da voz de Relena ao captar alguém diferente de Manon respondendo ao telefonema. Normalmente, Manon pronunciava com sua dicção perfeita e pompa de francesa "residência de Heero e Relena Yuy". O processo quebrado causou estranhamento e por pouco Relena foi levada a pedir a identidade de seu interlocutor, embora soubesse de quem se tratava.

–Aqui é Relena. –Heero ouviu a voz sem a figura. Aquele som tinha uma textura que ele preferiu não definir. –Irei me atrasar para o jantar. –ela seguiu e ele só ouvia, feito uma máquina.

Relena engoliu seco, olhou os lados, tentando encontrar o que fazer em seguida, visto Heero manter a mudez.

_Fui para Nova Jersey resolver alguns assuntos e buscar uns livros e aproveitei para visitar Noin, que estava de folga. –foi dizendo vagarosamente, esperando ser interrompida a qualquer segundo. –Aconteceu um acidente na pista agora e estou presa em um engarrafamento.

_Não perguntei.

_Tudo bem. Não vou pensar em avisar da próxima vez.

_Não sinto necessidade de controlar cada movimento seu.

_O quê? –ela teve de expressar ultraje.

É irônico dizer, contudo ali ambos tiveram impulsos de dizer frases parecidas – Heero preferia que Relena nem viesse mais para o jantar. Seria muito mais confortável. Relena preferia nem regressar mais ao apartamento, mas tornar para casa do pai, onde as refeições eram revigorantes, não só pelo alimento, mas pela companhia.

Todavia, Relena não fugiria e Heero não admitira querê-la longe de si, pois eles serviam aos seus orgulhos.

Ela o escutou encerrar a ligação prontamente frente a seu ultraje. Deitando a testa no volante, Relena ficou esperando que buzinassem para que ela soubesse ser hora de mover-se. Queria chorar e nem sabia por quê. Depois quis rir. Que conversa completamente idiota fora mais aquela. De fato, a maneira perfeita para encerrar o ciclo da angústia: o cair da noite, sozinha no carro, presa no trânsito, calor e ansiedade avolumando-se, e, minutos antes, "Your song" no rádio trazendo um espiral de imagens que açoitavam suas defesas. Se é que contava ainda com elas.

Que montanha russa era aquela na qual vivia? Pura vertigem. Acreditou ter chegado a seu limite final. Só que não havia chegado também naquela madrugada no Plaza? Naquela tarde no haras? Afinal, qual era seu limite? Seria ela como a onda que avança sobre o litoral conforme passam as horas, cada vez ganhando novos limites, até subitamente tocar a serra obstando sua caminhada e forçando seu retrocesso? Perguntas, perguntas… soterrava-se com elas. Onde estariam as respostas e quando as encontraria? Perguntas! Se serviam para algo, era para fazê-la sentir-se destruída. Tanto que a afastava da Relena de outrora, que raramente podia ser vista num relance de espelho ou numa velha fotografia.

_Não vou aguentar mais isso. –e eram oito horas e quarenta minutos quando chegou. Nem sentia fome, alimentada por uma noção nova de vazio. Foi direto para o escritório onde Heero lia um processo e brincava com um lápis, às vezes usado para fazer notas.

Ele ergueu os olhos friamente para Relena a despeito da intensidade da entrada dela. Imóvel, assistiu-a fechar a porta. As roupas delas estavam bastante amassadas nas costas pelo tempo que passara sentada e a trança loura extremamente desmanchada conferia a Relena um quê indomado.

_O que veio fazer aqui? Saia.

_Por que precisa sempre agir assim?

_Não tenho nada a discutir com você.

_Não tem ou não quer? –cada indagação dela era firme.

_Escolha você. Não posso perder meu tempo com isso. –mas ele era um rival à altura.

_O que foi que eu fiz para você me tratar tão mal?

Ele meneou a cabeça, negando-lhe qualquer palavra.

_Agora não fala nada! Como pode me desrespeitar assim? Você não deve ser humano. –desdenhou, revoltada.

_Pense o que quiser. –e fez uma pausa tensa, lançando um fito inflamado ao passo que saía de trás da mesa. –Para mim, não influí em nada. Você sabe que não.

Relena franziu as sobrancelhas.

_Não foi assim que me falou? –ele rugiu. –Você quer ser coerente, Relena? –a fez estremecer de leve. –Não me condene por te tratar da mesma forma que você me trata. E é assim mesmo que devemos nos tratar. Eu quero mesmo que você finja que eu não existo.

_E eu não faço isso?

_O que acha? No fim, você sempre aparece para me cobrar qualquer atitude que satisfaça a sociedade ou a seu ego.

_Irracional… parece que não quer manter o segredo. Ele depende de nós dois.

_Não entendo o que você quer dizer. E também, este segredo não te dá direito de exigir de mim o que não foi acordado.

_Tampouco dá direito a você me maltratar.

_Você não vai chegar a lugar nenhum com essa choramingação.

_Só faz quatro meses que estamos nisso e eu já desisti… perdi qualquer controle sob minha personalidade. Sabe o que é isso?

_Não pode estar me culpando por isso!

_Talvez eu esteja!

_Mas a culpa é toda sua. É você quem dá importância demais ao casamento.

_Importância? Eu já quero o divórcio.

_Não posso te dar agora e você sabe.

Relena sentou-se, inesperadamente roubada de vigor.

_Você só esgota a si mesma com este comportamento. Vai desperdiçar energia se acha poder me mudar, porque não mudo para ninguém. –ele adicionou ao observá-la.

_Seu covarde. –entre os dentes, ela determinou. Não aceitava o que ele dizia, porém, sabia que tudo era desnecessário e repetitivo e por isso não queria retornar à questão dele ter se vendido ao juiz. Também, o furacão emocional a arrasava, o coração batendo como trovão. –Eu odeio você. –era mentira, porém então era real. –Você jamais se redimirá comigo, Heero.

_Não me venha com essa. –ele soou entediado.

_Fale o quanto quiser, de boca cheia e peito estufado, olhe mesmo para mim e diga que nunca vai precisar se redimir comigo. Contudo, no dia que cair em si, tudo já estará perdido. –ela explanou, fluente e controlada, olhando-o irritadamente.

_Muito bem. Vá em frente e diga que morri para você. Pode dizer.

O lábio dela tremulou com o desejo quente de dizer. Todavia, do mesmo modo que seu ódio era momentâneo, forças a detinham em matá-lo. Estava perenemente atada à criação saudável que recebera, conferindo-lhe nobreza principesca. Desejar o mal – ela só caía na tentação de fazê-lo superficialmente, o solo de seu coração sendo infértil para a cultura daquele amargo e traiçoeiro fruto. Era sempre ela o seu próprio entrave de tocar a liberdade que merecia. Sepultara-se em uma moita de espinho. Quanto mais se debatesse, pior seria.

Cerrou os olhos e abraçou os ombros e sentiu suas mãos geladas e suadas.

Onde estava? Heero não estava ali, com ela? Ou ele estaria morto?

A confusão estava por toda parte, paralela a sensação de qualquer coisa macia e leve, delicada e plácida, que atraia e envolvia Relena, vindo por trás.

Heero a fitava aguardando a próxima frase, aquecido para rebatê-la, contudo, acompanhou a inércia puxar Relena irresistivelmente ao mesmo tempo em que um grande palor tomava-lhe a face.

Duvidou incialmente se ela desmaiara de fato e forçou-se a aproximar-se dela e verificar se seria ou não culpado de homicídio. Abaixou-se junto dela e sentiu-lhe o braço frio e imóvel.

Por um instante que o relógio não podia cobrir, encarou-a caída no sofá e dentro de sua indiferença achou forças para julgar Relena excessivamente dramática. Sentou-se ao lado dela sem tomar qualquer medida e ela já voltava a si.

Podia ter aberto os olhos, contudo não recuperara a consciência. Com dificuldade trouxe o próprio corpo para frente, deixando o encosto do móvel que a amparara. Sim, havia sido um dia agitado como sempre, passado todo fora de casa, permitindo um almoço apressado e suprimindo o momento do jantar. Em caminho suave, sua mente tateava a próxima palavra e o próximo sentido, o real e o imaginário não sabiam qual linha divisória exatamente deviam respeitar.

Ao seu lado parava uma sombra e ela inclinou-se para ela, deitando a cabeça pesadamente. Aquele perfume… uma vez ela o havia sentido. E o barulho que identificou em meio ao silêncio críptico da sala era rítmico, como o carrilhão. Sentiu-se segura a ponto de dizer:

_Estou tão cansada. –mas sua voz veio em um sussurro.

Heero não previu o desfecho. A mesma moça que entrou enfurecida e histérica no escritório agora era um cordeiro se refugiando em seu peito. Sentiu-a respirar fundo e percebeu que sussurrou, só que não entendeu o dito. Ela bem podia estar delirando…

Relena perdia qualquer razão que tinha quando agia daquele jeito, tocando-o e dependendo dele – era o que ele pensava. Heero odiava-a mais naqueles momentos, desprezando-a quanto mais próxima ela ficava. Empurrou-a para longe embora ousasse em usar um pouco de cuidado. Ela ergueu os olhos para ele, contudo era certo que não o reconhecia ou não tinha forças restantes para reagir.

Heero considerou: a largaria ali em sua sala?

Levantou-se e usou de raiva para olhá-la uma última vez antes de sair.

Deteve-se no corredor e deu duas voltas pelo pequeno espaço, bagunçando a franja. Antes de iniciar a terceira volta, seguiu em frente, atravessando a sala de estar, invadindo território estrangeiro. Não tinha porque prestar atenção em nada, queria que a operação se realizasse de forma simples e limpa. Abriu a porta do quarto dela e acendeu a luz.

Relena ainda tentava compreender o que acontecia quando Heero voltou e a ergueu em seu colo. Ela também não prestava atenção no que acontecia, a não ser para os detalhes em gesso no teto. Depois recolheu a cabeça contra o ombro dele.

Foi estranho para Heero o modo como o corpo dela se aconchegou ao dele. Ela não pesava e era tão fácil segurá-la…

Quando a deixou sobre a colcha na cama, os olhos dela estavam entrecerrados. Não ficaria cuidando se ela dormia ou desmaiara novamente… Fez muito mais que sua obrigação, não se responsabilizaria mais.

Relena não conseguira considerá-lo morto. Ela não o havia rejeitado. Heero se intrigava com as decisões dela. Bem podia ser mais uma dessas que realmente gostam de sofrer. De repente ele deu-se conta de que todas as mulheres ao seu redor gostavam de sofrer, insistindo em impor suas vontades nele, alheias ao fato de que seus esforços eram o mesmo de tentar evitar a Lua mudar de fase.

Ele não aceitaria Relena exatamente como não aceitava mais Sylvia. Desconsiderava ter às vezes cedido à Relena ou mesmo aceitado casar-se com ela.

O que não era de sua vontade, mas acontecia, ele ignorava, como se não tivesse se dado. Era uma fuga, uma ilusão, contudo era escolha dele, e por isso aprovado. Não admitia o externo.

Será?

Era um hipócrita consigo mesmo.

Por um relance, descobria isso, só que voltava a ignorar, afastando sempre de si a verdade. Não queria vê-la, era seu retrato de Dorian Grey. Quando se deparasse com ela, irremediavelmente teria de confrontar-se com seus erros, fantasmas e defeitos e pagar o que devia ao vazio por este tê-lo feito entorpecido todos aqueles anos.

Por que não queria sentir. Era melhor o conforto de não ter de lidar com os sentimentos e suas consequências. Tais eram complicados e destruíam as pessoas.

Era só olhar o que faziam com Relena, que perdera toda a coerência. Se é que ela a tivera um dia, ele não sabia ou se interessava em descobrir.

Ela ficou inerte na cama ao passo que flashes homeopáticos das últimas horas espocavam em seus pensamentos. Poucas imagens se formavam em bom estado – a briga estava intacta, sim, embora não fizesse ideia de como terminara. Perto da meia-noite sentiu-se alerta e quis tomar uma chuveirada gelada.

Será que se comportaria feito Lady Macbeth, perdendo a sanidade ao perceber as péssimas escolhas feitas e intenções e por causa do arrependimento? Por outro lado, talvez não lhe fosse permitido se arrepender e era isso que a enlouquecia mais.

-8-8-8-8-

Como seria de se esperar, uma festa aconteceria. Era para isso que servia o Verão.

Akane decidiu recriar o sucesso da festa do preto e vermelho com um novo tema, azul e branco, e seria naquele sábado.

Relena finalizou sua maquiagem cobrindo os lábios com seu batom da MAC rosa claro matte. Olhou o próprio rosto de vários ângulos diferentes, apreciando sua própria obra de arte.

Já nem pensava mais na discussão que houvera dois dias antes. Estava acostumada com elas. Só serviam para desabafar os sentimentos do instante, dias depois não tinham proveito nenhum ou surtiram qualquer resultado na vida do casal. A verdade é que eles estavam prontos para outra.

Ela passou as mãos pelos cabelos soltos e sentiu-se extremamente satisfeita com sua aparência como há tempos não fazia.

Podia ser o vestido que Lori lhe fizera, cheio de personalidade.

Heero não estava ansioso em ir à festa. De fato, nem estava pronto. Sentara no sofá em frente a TV com o laptop no colo após o almoço e ainda não havia levantado, pensando em ficar lá ainda um bom tempo. Por isso, teve a visão mais privilegiada do surgimento de Relena. O fez pensar em uma noite de semanas atrás…

Relena mexia em um dos seus brincos, segurando na outra mão uma bolsa carteira cor de safira. Os olhos dela pareciam duas turquesas bem lapidadas e seus cabelos tecidos em ouro puro. E seu vestido embrulhava seu corpo em renda branca de trama grande e florida, fazendo revelar a pele rosada. O traje era traspassado, com o decote profundo, tinha mangas três quartos e cintura marcada, de saia ampla e rodada na altura dos joelhos. Todo feito de renda, só era forrado na saia, sendo que Relena usava um bustiê tomara-que-caia pequeno e firme de tecido azul acetinado, como um céu de Verão, combinando com os sapatos peep toe meia pata.

O casal se encarou e de desdenhou.

Ele tentava decidir se ela estava provocando-o por parar bem em sua frente e conferir o conteúdo da bolsinha. A renda criava texturas e atraia os olhos para o tronco dela, esbelto e tão frágil de se envolver com os braços. Ele ainda lembrava ausência de peso ao carregá-la.

_Você vai assim? –ele criticou sem muita expressão na voz.

_Caso contrário não estaria usando esta roupa. –ela retrucou, insolente, mas sorrindo. –E você, vai assim? –devolveu, referindo-se a regata preta e a bermuda jeans que ele vestia.

_Eu nem vou. –anunciou, como se isto fosse importante para ela.

_Que bom. Me envergonharia se aparecesse no Prodige desse jeito. –e alegou, com menosprezo.

_Por que você vai? –ele não gostava do tom dela e por isso não continha-se em seguir com o diálogo até que se tornasse uma discussão.

_Porque eu quero.

Heero entrava em contradição. Olhava-a e não queria que ela fosse.

_O que foi agora? –ela bem via o descontentamento no rosto dele. Queria estocá-lo, até que sangrasse. Como ele não disse nada, ela meneou a cabeça e saiu.

Recuperara-se rápido. Rápido demais na visão de Heero, que a preferia quebrada isolada no quarto como antes ao invés de exibir o frescor de sua beleza para o mundo. A alegria ou o fascínio dela o contrariava. Guardava um rancorzinho da rebeldia dela de semanas atrás que a última briga potencializara.

O que ela achava estar fazendo, saindo sozinha para festas, toda arrumada e perfumada?

Só podia estar procurando briga com ele.

Não ia admitir.

Acabou desligando tudo e apressando-se para o banho. Vestiu um terno azul do tom exato de seus olhos e uma camisa branca. Procurou seu convite e foi para a festa com objetivo de terminar com a ousadia da esposa e trazê-la de volta para o apartamento, em uma espécie de descarga contraditória de sua raiva.

O ambiente no clube era muito claro, diferente do esperado. Heero recebeu de Astuce na entrada um cartãozinho azul e uma folhinha personalizada. Ela lhe sorria com uma positividade que ele rejeitava. Além do jogo dos casais, um enorme cilindro de plástico tinha sido colocado em um canto cheio até a boca de bombons embrulhados em papel alumínio prata e azul. O desafio era acertar, ou pelo menos se aproximar, da quantidade real de doces dentro do recipiente de quase dois metros de altura. Quem conseguisse o feito, levava tudo e a folhinha com o nome de cada um servia para anotar o lance e depositá-lo na urna que aparecia junto da atração.

Heero encontrou os amigos ajuntados perto do objeto tentando calcular o número de bombons por utilizar regras de proporção e medidas. Duo até usava sua trena portátil que ficava no seu molho de chaves para medir a circunferência do recipiente. Wu Fei queria jogar só pelo prazer de superar todos, enquanto Quatre achava tudo muito divertido e Trowa apreciava o desafio.

_Quando vi Relena chegar sozinha, pensei que não viria de novo. –Quatre murmurou, tranquilo, enquanto os outros faziam seus cálculos e decidiam o que anotariam. –Ia atrapalhar todo o jogo dos pares, ia deixar alguma pobre senhorita sozinha!

_Eu peguei o "Luís XVI" desta vez. –Trowa comentou, olhando de novo o cartão que estava no bolso da camisa. –Hoje estou com a Maria Antonieta, seja ela quem seja.

_Não vá perder a cabeça! –Duo fez piadinha sem graça ao amigo que só olhou com desdém aristocrático. –Eu tirei o "Heathcliff"… –e depois reclamou. –Afe, ele é complicado demais. Não sei o que as meninas acham nele!

Quatre riu, dando de ombros.

_Este ano eu peguei o "Johnny Cash". Achei criativo. –e compartilhou seu resultado. –Mas na verdade, nós deveríamos estar mantendo segredo…

_Bobagem… E você Wu Fei? –Duo dirigiu-se a Wu Fei, que revirou os olhos.

_Nem olhei.

_Você já está aqui mesmo, vamos, não resista. –Trowa incentivou com ar de cobrança.

_Que saco vocês… –e pegou o cartão no bolso. –Que droga, "Mickey Mouse"!

Duo soltou uma gargalhada frenética e ofensora na visão de Wu Fei, que balançava a cabeça, incrédulo.

_Só falta você, Heero… –Quatre lembrou.

_O "rei Arthur". –ele leu naquele instante somente seu cartão.

_Wow! –Duo sorriu, fascinado. Mas Heero não fazia caso.

Jade e Relena estavam encostadas no balcão do bar bebendo espumante. Jade usava um cheongsam desenhado por ela, pois ela também era estilista. Era branco e estampado de padrões abstratos em azul, prata e dourado, e arrumara o cabelo todo em um beehive, com um pente de cristais simples enfeitando a parte de trás da cabeça. Ela parecia habitar os anos 50 e aquilo agradava e divertia Relena, que parara para observá-la um pouco. Até a maquiagem era da época.

_Ah, eu não gostei da minha personagem. –e ela choramingou, olhando o cartãozinho de novo.

_Por que não?

_Nunca ouvi falar dessa menina…

_Deixe me ver… –Relena pediu e quando Jade lhe mostrou o cartão, ela levantou as sobrancelhas douradas. –"Guinevere"… –e sorriu melancólica. –Quer trocar?

_Quem você pegou?

_ "Minnie Mouse". –Relena mostrou o cartão branco e viu Jade estender a mão.

_Ah! Agora sim consigo me identificar! –e Jade sorriu alegrinha, passando seu cartão para Relena e recebendo sua nova personagem.

Relena ficou um minuto olhando o cartão enquanto bebia e pensava. E a seguir, olhou Jade:

_Guinevere é parte do Ciclo Arturiano. Ela era uma mulher encantada, mas não era perfeita.

_Não? –Jade se interessou pela palestra, olhando Relena com expectativa respeitosa.

Relena negou com a cabeça:

_Ela tinha os mesmos desejos e emoções que qualquer um… Até mesmo traiu seu marido, o rei Arthur, com o primeiro cavaleiro do reino, Lancelot, falhando em resistir à atração que sentia…

Jade assentiu, atenta, e depois olhou pelo salão, deixando Relena refletir um pouco em Guinevere. E logo lhe ocorreu a intriga – com quem teria sido Guinevere pareada?

_Veja só minha personagem, prima! Não acha que combina comigo? –Decker vinha chegando junto de Sylvia, que o olhou, mas desatenta. –"Lancelot"!

_Interessante… –atirou a resposta, olhando seu próprio cartãozinho. –"Odette". –e suspirou.

Lori surpreendeu-se com a decisão da sorte para Sylvia. Talvez fosse alguma mensagem subliminar? Soltou um risinho malvado. Dorothy os assistia com tranquilidade analítica e tirava suas conclusões.

_Tirei a "Elizabeth Bennet". –e Lori comentou. –E você, Dorothy?

_ "Perséfone". –sorriu, felina, mostrando-se aprazida em ser a rainha do submundo.

Kyria espantou-se com o resultado e respirou fundo, olhando a moça, e por sua vez, revelou:

_Que triste, amor, eu tirei o "Vagabundo"… não vamos ficar juntos. –dirigiu-se à Sylvia.

_Quem é este? –Decker indagou com desgosto, tal qual fosse ele quem havia tirado tal personagem cujo nome lhe soava tão humilhante.

_O cachorro da história "A dama e o vagabundo"… –Kyria explicou sossegado, gostando da ideia. Sylvia riu, achando fofinho, embora o suspense sobre a identidade de seu acompanhante naquela noite não lhe agradasse em nada.

Akane e Astuce interromperam a música, falaram sobre o cilindro com os chocolates antes de revisarem a regra do jogo dos casais e anunciar o prêmio daquele ano: um vale presente na Victoria's Secret para as meninas e para os rapazes duas entradas para a partida de baseball World Series do próximo fim de semana. A brincadeira se encerraria às duas da manhã, só meia hora antes de anunciar o resultado de quem foi o melhor casal da noite. Contudo, os prêmios não passavam de mimos, porque a intenção de Akane era criar novas amizades e interações entre pessoas que normalmente não passavam tempo juntas apesar de se conhecerem, talvez, há anos.

Eram dez horas da noite. Os casais tinham quatro horas para se localizarem e criarem seu vínculo aparentemente harmonioso e forte o suficiente para ganharem os presentes da noite.

_Bem, é hora da caçada… –Jade se desencostou do balcão. –É a primeira vez que participo de algo assim, estou curiosa com o que vou encontrar. –e meticulosamente deixou a taça sobre o tampo olhando o barman com gratidão sedutora.

Relena a acompanhou executar os movimentos e a deixou se afastar. Sentou-se por fim, pediu que reabastecessem sua taça e ficou assistindo os casais se formarem. Viu quando Akane descobriu que estava com Quatre, que pareceu muito embaraçado. Duo, que estava junto deles, mostrou um pouquinho de revolta.

_Não está curiosa sobre seu par? –Astuce viera buscar uma garrafa de água e abordou Relena com delicadeza.

Relena lhe sorriu com uma altivez benigna e negou com a cabeça.

_Eu estou aqui mais para me distrair… talvez não esteja no clima para o jogo.

_Entendo. –Astuce achou educado dizer alguma coisa, mas ela provavelmente não entendia. –Ainda não achei meu Peter Pan.

_Não se preocupe, é só você prender a sombra dele… –Relena brincou.

_Boa ideia, pena que não boa de costura. –Astuce respondeu e afastou-se.

Parada como estava, sorrindo e lançando seu fito para a pista de dança, parecia a dona da festa vigiando o salão. Bebia pequenos goles e nem sentia o sabor doce do espumante. Nada parecia real em seu redor e era isto mesmo que ela queria.

_Você é a minha primeira tentativa da noite. Escolhi você porque tenho esperanças de que seja meu par. –e subitamente surgiu diante de si o rapaz desconhecido que estava com Sylvia no debute.

_Eu? E por que deseja assim? –o ar galante dele e sua fala pomposa lhe influenciaram.

_Porque não tem garota mais bonita nesta festa.

Ela não de consideração ao elogio.

_Meu nome é Decker Evangeline.

Ela assentiu, sem sorrir, confirmando que ouvira.

_Porém, hoje eu sou Sir Lancelot du Lac, a seu dispor, caríssima milady. –ele falava com tanta autoconfiança, propriedade e sentimento que parecia fingido e arrogante.

Ela não sabia se ria ou se afastava. A excentricidade dele era visível e chocante. Porém, o rosto dele era como o de um anjo travesso e seus cabelos castanhos caiam em longas e aleatórias mechas onduladas sobre os ombros, fazendo-o atraente e completamente associável a figura de Sir Lancelot. Ela deixou-se perder uns minutos olhando a face do rapaz, inventando qualquer descrição literária ao passo que o via ficar ansioso pela resposta.

Assentiu outra vez, meditativa:

_Cavaleiro… não sei como, mas seu coração não errou ao trazê-lo a mim. –e mostrou sua cartinha. –Sou Guinevere.

O sorriso de Decker foi de puro embevecimento em satisfação e o brilho em seu olhar era perigoso. Relena viu. Há quanto tempo não lidava com homens assim? A ferocidade de Heero não era o que Decker exibia. Porque Heero era sóbrio, preferindo se excluir a mostrar toda sua força. Relena sentia no perfume que, por mais impossível que fosse, Decker poderia ser mais intratável que Heero bem como mais assustador. E ela não errava sobre as pessoas, pelo menos em noventa e nove por cento das vezes.

_Fico honrado, vossa majestade, de encontra-la nesta noite e peço a benignidade de dançar comigo.

Relena riu. Será que alguém explicara a ele que aquilo não era um teatro?

Ele riu também, achando que a impressionava e gostava muito disso.

Ela estendeu-lhe a mão e ele a tomou apaixonadamente e juntos foram para a pista.

_Da primeira vez que pus os olhos em você, sabia que nossas histórias foram escritas para se cruzarem. –impetuosamente, ele pontuou. Sorria, mordendo o lábio inferior.

Ela ouvia, sem palavras. Decker passou um dedo preguiçoso em uma mecha de cabelo dela que lhe caía sobre o ombro, deixando os olhos no colo dela e a insistência do olhar dele fazia-a corar de desconforto. Lançando a atenção a seu redor, verificou se alguém prestava atenção ao comportamento do rapaz. Não queria dar ideia de que o encorajava, por isso procurou movimentar-se para mudar o foco da atenção dele.

_Qual sua profissão? –ela começou uma conversa enquanto dançavam, para ocupá-lo mais.

_Sou advogado.

_É parente de Sylvia?

_Sim, apesar de em terceiro grau… pode ser… bem… não sei. –e talvez tivesse bebido demais para ter certeza sobre isso. Riu, fazendo questão de tocar em Relena o máximo possível.

Ela moveu a cabeça, incomodada, e com uma mão desajeitada mexeu na franja.

Decker gostava do modo natural e acanhado com que ela reagia. Parecia uma moça sofisticada e elevada, contudo, no interior daquela superfície havia uma pureza e simplicidade praticamente em extinção nas sociedades frequentadas. Ela não era afetada ou desdenhosa, como todas as outras, como Dorothy, Sylvia ou Loreley, todas garotas de lindas qualidades, mas privadas daquela luz que ele via em Relena. Contudo, notava a lâmpada interior dela fraca, velada por um dossel de mistério, dúvida e medo.

Falou no ouvido dela:

_Você parece triste.

_O quê? –não ouviu muito bem ou tentou se enganar.

_Não me parece contente, majestade.

_Você me conhece bem. –ela ironizou.

_Perdão?

_Não, quero dizer, como é que pode saber?

Ele deu de ombros, sorrindo. Tinha certeza que por mostrar interesse nela a conquistaria, mesmo que soubesse que era casada. Aquilo não lhe era empecilho. Olhava-a nos olhos, invasivo e ela sentia aquela atenção incerta sobre como encará-la. Por um lado, ele era inconveniente, por outro, fazia-a importante e uma parte dela desejava loucamente por atenção.

Lancelot era perturbador para Guinevere.

_Todos me vêm falando isso. –e acabou confessando, deixando de olhá-lo para olhar o chão.

_Talvez porque seja verdade. A tristeza não combina com você… Relena, dá para ver que você é um espirito meigo e delicado.

_Não tanto quanto você pensa. –ela sentiu necessidade de contrariá-lo, pelo bem de sua consciência.

_Só que isso é por causa de seu marido. Eu sei que tipo de homem ele é.

Relena franziu as sobrancelhas. Não sabia explicar porque, mas o desprezo fácil que Decker usou ao dizer aquela frase prepotente a irritou.

_Se ouviu sobre ele de Sylvia, saiba que a visão dela pode estar deturpada.

_Sim, ouvi dela e de Loreley e também o conheço de anos atrás, conseguindo assim concluir que Heero não mudou nada. Ele nunca soube tratar bem uma garota… só usá-las e machucá-las conforme ele quisesse.

Relena ficou suspensa nesta definição.

_Se fosse eu, Relena, não te deixaria desaparecer assim… –e alisou-lhe os dois ombros com devoção.

Ela não cansava de fitá-lo enquanto ele discursava daquele modo tão seguro e malicioso e cruel e inquietante. Subiu-lhe um arrepio quando as mãos dele tocaram-lhe os braços por cima da renda.

_Pode me dar licença? Vou ao banheiro… –ela anunciou, saindo da frente dele. Pousou uma mão na testa e foi caminhando na direção que lembrava ser o toalete. Suspirou trêmulo, viu a si mesma no espelho e percebeu Dorothy sair de uma das cabines:

_Boa noite, milady Guinevere. –e a voz dela era mais macia que a de Decker e por isso mais ameaçadora.

Relena a viu pelo reflexo, mas preferiu olhá-la diretamente lhe sorrir ofídia:

_Senhora Yuy, está deslumbrante! Não é a toa que atraiu tanto a atenção de Decker – ele só gosta do melhor.

Relena não conseguia falar.

Dorothy riu, um tanto perversa, e saiu graciosamente. Todos seus modos eram muito refinados.

Relena deu-se conta de que existiam pessoas piores que Lori. E passou a pensar no que fazer ao deixar o banheiro. Só sabia que não queria voltar para Decker, só que não era nem uma hora da manhã e não tinha ideia de como o despistaria.

_Espere um minuto… –ouviu a voz aguda de Lori pedir. Ela apareceu na porta, sorriu faceira e depois gritou. –Ela está aqui sim. –falava com alguém lá fora. –Lena, Decker está te procurando…

_Lori, por favor, não quero continuar com ele.

_Oras, qual o problema? Se não queria brincar, não deveria ter vindo. –estava ácida e sorria, arrumando o cabelo.

_Por favor, distraia ele para eu sair. –pediu, séria, querendo um pouco de lealdade.

Lori a relanceou pelo espelho e estalou os lábios:

_Já é grandinha para ficar se escondendo no banheiro. Vai aproveitar a vida, Leninha… Você tem coisa pior dentro de casa. O Decker é só fachada, se você souber, consegue usar ele e jogar fora… –e tentava ser amiga, embora Relena sentisse sarcasmo na fala da moça.

Lori saiu também.

Relena não viu mais nenhuma escolha.

Decker estava na porta, guardando-a de modo a não perder sua rainha.

_Majestade… –aproximou-se, solícito. Aprazia-o chamá-la assim.

Ela sorriu, falsa. Não era fácil para ela fingir. Olhou sobre o ombro dele para procurar Akane para salvá-la, mas não via ninguém em quem confiasse por perto.

_Relena, se está cansada, posso te levar para casa.

_Por que todo este interesse e cuidado?

_Vê o que te falei? Está tão desacostumada a ser tratada com carinho que se tornou arredia. –a voz dele transmitia uma malícia e uma ironia que combinadas eram cáusticas.

_Não fale assim comigo. Eu nunca te dei esta liberdade. –ela foi aplacando-o.

A rosa que Decker enxergava nela mostrava seus espinhos. Ele não se sentiu contente em encontrá-los.

_Relena, por favor, não exagere… –e quis encará-la tolinha.

_Exagerado é você. Nunca tinha te visto antes e você me trata como sua posse, cheio de intimidades despropositadas. Pois saiba que sou casada, Decker, e valorizo isso.

Ele estreitou os olhos ao receber as farpas dela. De princípio, pareceu ofendido, mas sobrepujado e conformado. Só que ele inclinou-se e sussurrou entre os cabelos dela:

_Da forma como você fala, você gosta de seu marido, mas ele não parece corresponder. Afinal, onde está ele agora? –a voz abafada e perversa praticamente a afagava doentiamente.

Encolheu o ombro evitando a respiração do rapaz. E não achava o que responder.

_Acha que me assusta com suas palavras corajosas? Até pensei que era diferente… entretanto está se fazendo de difícil para me estimular, porque no fim você vai ceder, como todas as outras.

_Insolente. –e o esbofeteou.

Decker segurou a mão que ela deixou solta no ar e que o tinha acabado de acertar.

_O que você está pensando? –e gritou com ela, descontrolado.

Era mal intencionado o fito dele, sem sorriso, e inesperadamente veio a Relena um pensamento que lhe era completamente absurdo, mas a fazia sentir uma segurança tão grande que se agarrou nele: quis que Heero estivesse por perto e que de algum modo a livrasse de Decker e de seus caprichos perigosos.

_Qual o problema aqui? –e imediatamente ouviu aquela voz e seu coração se descompassou. Parecia fantasia, mas era Heero ali, afrontando Decker com o fio de corte de seus olhos azul-cobalto.

_Heero… –ela murmurou, olhando-o um pouco pasmada.

Ele a relanceou, mas voltou a fixar-se em Decker.

Relena baixou os olhos, perdendo-se um pouco naquele sobressalto. Seu pensamento se realizara e ela queria entender como e por que, mesmo que soubesse ser dificílimo.

_Problema nenhum. Somos parceiros no jogo de sua irmãzinha. Sou Lancelot e ela é minha Guinevere.

_Pois bem. E eu sou o rei Arthur. –Heero caiu na infantilidade de Decker, mostrando sua carta, contribuindo sem pensar para a bizarrice da situação.

Relena decidia que aquele não era seu ano. Umedeceu o lábio e ficou a mercê do peso da pressão do momento. Mais coincidências inexplicáveis ali com ela.

Os rapazes se olhavam, reunindo todas as rixas e opiniões que tinham um do outro, prontos para partirem para a parte física de sua disputa.

_Rapazes, por favor… –ela murmurou, olhando um de cada vez. Pessoas próximas já começavam a prestar atenção.

_Acho melhor você ir procurar outra coisa pra fazer agora, Decker. –Heero determinou.

_Senão…?

Relena sentia quanto Heero se continha. Assustava-a e a confundia.

_Heero, por favor, venha comigo. –e intrometeu-se, pois tinha que impedir aquela briga.

Os dois voltaram-se para ela, feito a tivessem esquecido.

_Como assim, Relena? Vai me abandonar assim, por ele? –Decker indagou, soando manhoso e egoísta.

_Desculpe, mas a nossa noite terminou aqui. –ela taxou. –Venha, Heero, por favor.

Heero não gostava do que ela fazia, mas os olhos dela eram suplicantes e o sorriso ameno e frágil.

Relena deu as costas e passou a caminhar. Decker bufou, ultrajado. Deu as costas também, e saiu aos resmungos furiosos.

Heero os assistiu e por fim foi atrás de Relena:

_Que droga foi essa?

Relena meneou a cabeça.

_Heero, não, por favor.

E ela só falava isso, o que o irritava.

_O que foi que ele falou para você?

Ela sacudiu a cabeça outra vez. Era óbvio para ele que algo errado acontecera.

_Eu vou comer algo e ir embora. –informou, indo até o pequeno buffet e servindo-se de talharim aos quatro queijos. Comia ainda quando Heero veio:

_Vou embora também, venha comigo.

Ela não reagiu.

Heero tinha passado a festa toda sozinho em um canto, sem estranhar o fato. Algumas garotas o abordaram, temerosas, querendo verificar sua identidade no jogo, mas como sempre recebiam negativas.

_Heero, Heero… –Lori se aproximou com sua taça de espumante. –Sozinho outra vez.

Não fazia caso.

_Relena é milady Guinevere, sabia? –e jogando a frase, saiu procurando seu par que tinha ido ao banheiro.

Aquilo o acionou de forma inexplicável. Se ela era seu par, onde estaria? Não a havia visto ainda. E as coisas só pioraram quando a viu com Decker. De todos os homens do mundo, ele era o único que Heero não toleraria perto dela, mesmo dela. A rivalidade deles datava quase da infância e apoiada pelos amigos de Heero, que também o detestavam.

E agora, Heero a aguardava terminar de comer, olhando-a de vez em quando. Estava tão bonita, ele repetia este pensamento e depois o riscava. Colocava as mãos nos bolsos e bufava.

De novo juntos pela sorte. Akane só podia forjar aquelas coisas, apesar de o detalhe de Decker também se conectar a Relena não soasse como algo que Akane faria. Heero olhou sua carta mais uma vez, amassou-a e largou no chão.

Relena comia o mais rápido que podia, agitada. A presença de Heero, por algum motivo, a estava desestruturando, o que não parecia lógico. Sentia uma vontade descabida de chorar, embora soubesse que não devia chorar porque Heero estava com ela, mas pelo modo como foi tratada por Decker. Deixou escapar um suspiro e relanceou o moço, porém ele olhava distante.

Foi despedir-se de Akane fazendo o melhor para disfarçar o desânimo.

_Já vai? O que foi que houve? –Akane ficou terrivelmente surpresa, preocupada e também desconfiada.

_Mais tarde conversamos, está bem? –Relena determinou.

_Claro. –e viu Heero a dois passos de Relena. –Pelo menos isso. –e murmurou consigo mesma ao vê-lo seguir a esposa.

Encheu o peito de ar, descontente, e refletindo um minuto em qualquer coisa, legou a cada minuto sua preocupação e foi juntar-se a Quatre para terminar o jogo.

Relena estacou diante da porta do BMW F01.

Heero abriu a sua porta e a encarou imóvel segurando a bolsa de braços cruzados do outro lado do carro.

_Diabos, Relena. –e deu a volta, abrindo a porta para ela. –Entre logo.

E que opção tinha?

A presença dele o perturbava tanto que ela preferia voltar andando para casa.

Encolheu-se e sentou-se cuidadosamente no carro, como uma dama.

_O que foi que ele disse para você?

_Nada.

_Ele tem que ter dito alguma coisa. O Decker é um cretino da pior espécie. –e disse outros palavrões que Relena preferia esquecer. Olhou para ela intensamente, inquieto. –O que ele lhe falou?

_Por que se interessa tanto? Está com medo?

_Medo, Relena? Do que?

_Eu não sei, me responda você! Não tenho que te dizer nada do que aconteceu.

_É melhor dizer.

_Me convença, então. Você vive dizendo que não é meu marido… será que por acaso mudou de ideia? –e nem sabia por que o atacava.

Heero a encarou golpeado pela frase dela, entretanto, não retrucou.

_Por Deus, como estamos parecidos. –ela reclamou. –Preste atenção na rua. –mandou, olhando para a janela a sua direita. Como estava escuro, Relena fechou os olhos para que as lágrimas acumuladas escorressem.

Bufando, Heero voltou a concentrar-se em dirigir silenciosamente. Ele queria entender como tudo acabara daquela maneira. Era curioso, ele sempre se arreliava em considerar aqueles assuntos, mas não tinha paciência para meditar e de fato chegar a conclusões. Sua mente se fixava demais somente no calor do momento, depois tudo perdia o significado. Tinha déficit de atenção emocional.

Chegando ao apartamento, Relena acendeu a luz e se largou na poltrona da sala ao passo que Heero foi para a cozinha. Cansou de abrir portas, impaciente:

_Não tem uísque nessa casa? –e surgiu na sala com as mãos na cintura, soando severo.

_Não.

_E vodca?

_Não. –ela soou um pouco aborrecida. –Só vinho.

_Vinho! Que droga, só serve para dar dor de cabeça. –rejeitou e sentou-se no sofá. Deixou o corpo pender em direção dela e apoiar-se nos joelhos com os cotovelos. –Por que está chorando? –enervou-se.

_Não estou chorando. Me deixe em paz. –e levantou-se, indo para o quarto.

Ele bufou assistindo-a. Depois, foi para o quarto também, dar a noite por encerrada.

Antes de dormir, deixou-se fazer só mais uma pergunta: o que teria acontecido se não fosse à festa?

Não sabia.

Todo este não saber o importunava.

Talvez fosse hora de terminar com aquilo e dar a atenção que suas dúvidas e indagações mereciam. Precisava decidir por onde começar e essa possivelmente era a resposta mais difícil de obter de todas as que precisava. Todavia, concedeu a cada noite a sua preocupação devida, convencido de que para aquela noite os eventos da festa bastavam.


Boa noite, queridos leitores!

Mais um capítulo.

As brigas deles nunca me cansam, apesar de às vezes serem repetitivas. Eles talvez estejam ficando sem argumentos.

Tenho certeza que este capítulo faz aparecer quão apaixonado os dois estão ficando.

Relena mais, com certeza.

E desculpa as clichezices e as pieguices. Eu amos elas! :3 Eu sou uma drama queen, ninguém sabe… LOL

Tá, voltando a ficar séria.

Talvez o conflito de Decker e Relena e Heero tenha sido meio apressado. Mas o Decker é atirado mesmo e ele tentou sua sorte para ver aonde chegaria com Relena. Ele não desistiu, fiquem tranquilas (ou não).

E é isso, me mandem suas manifestações.

Midori, querida, seu e-mail foi apagado pelo FFdotnet, então entre em contato comigo no meu blog, tumblr ou twitter para que possamos conversar.

Obrigada como sempre pela preciosíssima atenção e carinho que vocês me dedicam toda a semana.

Beijos e abraços!

31.10.2011