Capítulo 29: O Canto do Cisne

"E pronto, arranjei um trabalhinho para ganhar dinheiro. Que mal há nisso?"

"O mal é que você anda a enganar as pessoas. Você não tem poderes especiais nenhuns." disse Delfina. "E depois ainda poderão as pessoas vir aqui reclamar de alguma coisa. Não estou para isto. Você tem de acabar com esse negócio e já."

Etelvina bufou de raiva.

"Eu já não te conheço, Delfina! Todos os meus filhos têm algum lado ambicioso e egoísta e tu não eras diferente dos outros. Mas, desde que eu saí do lar e vim para aqui, vi que tu estás muito diferente. Dantes fazias tudo para ganhar dinheiro e obteres reconhecimento, mesmo que fosse algo ilegal. Agora não. O que é que te aconteceu?"

Delfina encarou a mãe, olhos nos olhos.

"O que aconteceu é que eu quase morri, por causa de esquemas. Agora quero mas é estar quieta, mas viva." respondeu Delfina.

"Quase morreste por causa de esquemas? Do que é que tu estás a falar, Delfina Maria?" perguntou Etelvina.

"Eu achei que nunca contaria isto a ninguém, mas vou contar, porque mesmo que diga isto a alguém, ninguém vai acreditar em si. Pensam que eu sou muito boa pessoa." disse Delfina. "Bom, lembra-se da história do director pedófilo e que eu tinha provas contra ele?"

"Pois está claro que me lembro. Até apareceste na televisão e tudo."

"Exacto. Só que eu alterei alguns pormenores quando contei a minha versão da história. A verdade é que eu fui ao computador do director roubar-lhe informação para a poder usar e obter lucros. E acabei por descobrir que ele era um pedófilo e fiz chantagem com ele."

Etelvina começou a rir-se e Delfina lançou-lhe um olhar frio.

"Qual é a piada, mãe?"

"Chantagem. Foi muito bem pensado, filha. Aprendeste bem com a tua mãe."

"Ora, cale-se e oiça. Estava eu a dizer que fiz chantagem com ele. E sabe o que aconteceu? Ele empurrou-me pelas escadas abaixo e eu podia ter morrido. E depois tentou estrangular-me! Com tudo isto, tive de começar a repensar a minha vida." explicou Delfina. "Se me continuasse a meter em esquemas, podiam haver consequências graves. Podia nem morrer, mas ir presa ou perder o emprego e ficar na miséria. Portanto, comecei a respeitar as regras."

"E o que é que isso contribui para a minha felicidade?"

"A mãe é que perguntou porque é que eu tinha mudado. Foi por isto. Dizem que quando as pessoas se vêm cara a cara com a morte, às vezes mudam. Eu mudei e pronto."

"Não sei se gosto desta Delfina com escrúpulos."

"A Delfina sem escrúpulos tê-la-ia mandado para a rua e agido tal como os seus outros filhos fizeram. Lembre-se disso."

"Pronto, pronto, está bem. Já percebi a ideia. Mas não me podes obrigar a acabar com o meu negócio. Está a correr muito bem e tenho feito bom dinheiro."

"Mas anda a enganar as pessoas, mãe."

"Ora, não lhes digo nada de mal. Elas querem saber sobre o seu futuro. Eu digo-lhes umas patranhas sobre felicidade, que vão encontrar a pessoa certa e blá blá blá. Não é nada que lhes vá fazer mal e elas ficam todas contentes... bom, pelo menos a maioria." disse Etelvina.

"Mãe, tem de acabar com isso."

"Mas... ok e se eu te der uma parte do que ganho?"

Delfina ficou surpreendida, mas depois pôs-se a pensar.

"Receber uma parte do que ganha? Hum... não me parece mal. Ok, eu disse que não me ia meter em esquemas, mas a verdade é que o dinheiro me faz falta." disse ela.

"Pois é, filha."

"Posso aceitar." pensou Delfina. "E se isto correr mal, digo que não sabia de nada e que foi a minha mãe que armou tudo. Se a prenderem, é a ela e não a mim. Lá por eu ter ficado melhorzinha, não quer dizer que seja estúpida."

"Então, aceitas ou não?"

"Muito bem, aceito. Recebo cinquenta porcento do que ganhar."

"Cinquenta porcento? Estás doida? Isso é muito! Vinte porcento e já chega."

"Vinte? Nem pensar. Quarenta porcento então."

"Trinta."

"Trinta e cinco."

"Bolas, tu és mesmo chata. Pronto, está bem, dou-te trinta e cinco porcento do que ganhar." disse Etelvina, aborrecida. "Mas não me andes a chatear por causa das adivinhações, ouviste?"

Delfina acenou afirmativamente. Afinal, sempre acabara por arranjar maneira de ganhar mais algum dinheiro e nem tinha de fazer nada para isso.

Para Além da Adolescência

Com a chegada da noite, Ricardo despediu-se da mãe e foi até ao bar do karaoke. Foi o primeiro a chegar, logo seguido de Elisa, Regina, Leandro, Afonso e por fim Amanda e Hugo, que chegaram juntos.

"Vamos entrar. Entretanto começam os espectáculos de karaoke e se quisermos participar, temos de nos inscrever." disse Ricardo.

"Eu vou inscrever-me." disse Afonso, sorrindo. "Até já sei que música é que gostaria de cantar e tudo."

Afonso lançou um olhar a Leandro, que não se apercebeu.

"Eu normalmente não gosto de me expor muito, mas sabem, hoje também me inscrevo para cantar." disse Elisa. "Vai ser muito divertido, mesmo que eu desafine imenso."

"Eu já me contento a não cantar, mas encontrar algum rapaz giro." disse Regina, suspirando. "Para esquecer esta tristeza do nosso dinheiro ter sido roubado."

"Vá Regina, não é altura para desanimações." disse Amanda. "Vamos."

Os sete amigos entraram de seguida no bar, prontos para uma noite de diversão. Ao entrarem no bar, o grupo de amigos arranjou uma mesa para se sentarem. Pediram algumas bebidas e inscreveram-se de seguida para cantar no karaoke. O horário para o karaoke começar estava a chegar, quando Ricardo viu um homem aparecer no bar, acompanhado de dois dos seus seguranças pessoais.

"Olhem, aquele não é o Don Mussic?" perguntou Ricardo, aos outros.

Os amigos viraram-se para olharem para o recém-chegado e muitas outras pessoas já faziam o mesmo. Don Mussic era um cantor bastante conhecido pela sua música rock. Vestia-se sempre de preto e trazia os cabelos negros entrançados.

"É mesmo ele. Quem diria que uma celebridade apareceria aqui?" perguntou Hugo, surpreendido.

"Eu não sou muito apreciador da música dele." disse Afonso. "Não é o meu estilo."

"Também não gosto muito da música dele, mas olha que ele é bem giro. Dava uma voltinha com ele." disse Regina, sorrindo.

"Credo, que tarada, Regina." disse Amanda. "Fogo, não podes ver homem nenhum que ficas logo toda excitada."

"Ah, não chateies, Amanda. Tu já namoras, mas eu não, por isso posso interessar-me por quem quiser."

"Eu até gosto da música do Don Mussic, mas dizem que ele tem uma personalidade complicada e se dá mal com a maioria das pessoas." disse Elisa. "Deve ter alguns inimigos."

"Todas as pessoas famosas têm sempre quem não goste delas." disse Leandro.

Pouco depois, Célia e Irene estavam a entrar no bar. Tinha sido Irene a convencer Célia a ir com ela ao bar, pois Célia saía pouco de casa. Desde que tinham estado a viver juntas, as coisas estavam normais e não se incomodavam uma à outra, ficando até amigas.

"Podemos sentar-nos numa das mesas." disse Irene. "Hoje há karaoke."

"Ah sim? Eu até posso ficar a ouvir, mas não vou cantar." disse Célia. "Sou péssima a cantar."

"Também eu, mas é divertido ouvirmos os outros. Vamos procurar uma mesa."

As duas procuraram uma mesa livre, porém já não havia nenhuma. Dois homens, que estavam sentados numa das mesas, viram-nas passar e acenaram-lhes.

"Estão à procurar de lugares?" perguntou um deles, um homem loiro de nome Olavo.

"Por acaso estamos, mas já não há mesas vagas." respondeu Irene.

"Podem sentar-se connosco. Teríamos todo o prazer." disse o segundo homem, de cabelo preto e óculos, chamado Jeremias.

Irene e Célia entreolharam-se. Para Célia, preferia ir embora, mas Irene acabou por a convencer a sentarem-se com os homens à mesa. Fizeram as apresentações. Os dois homens não tiravam os olhos de Irene, que trazia trajava um vestido com um grande decote.

Pouco depois, a noite de karaoke começou e as primeiras pessoas foram chamadas ao palco para cantarem. A primeira desafinou imenso, arrancando gargalhadas a toda a gente.

"Há pessoas que cantam mesmo mal e fazem cada figura." disse Amanda, continuando a rir-se. "Eu quando for cantar, vou fazer um brilharete com a minha voz melodiosa."

"Tenho a certeza que sim." disse Hugo, abraçando a namorada.

Alguns minutos depois, Olavo e Jeremias estavam a fazer perguntas a Irene, enquanto continuavam a olhar-lhe para o decote. Célia, apesar de ter gostado das apresentações de karoake, que estavam agora numa pausa de cinco minutos, não se estava a sentir nada confortável ali.

"Então, trabalha num centro comercial. Isso é muito interessante." disse Olavo, continuando a olhar para o decote de Irene.

"Ah, nem por isso, mas tem de se trabalhar para ganhar dinheiro, é claro." disse Irene. "Há trabalhos piores."

"De certeza que você faz o trabalho ser muito mais interessante." disse Jeremias.

Célia revirou os olhos. Só faltava ele começar a babar-se para a cena chegar ao máximo do deplorável.

"O meu trabalho não é interessante, mas aqui a minha amiga Célia é escritora." disse Irene. "E vai ser famosa, de certeza."

"Ah sim?" perguntou Olavo, olhando para um segundo para Célia e voltando a olhar para Irene de seguida. "Fale-me mais de si, Irene."

"Acho que já falámos muito de mim. Podíamos falar um bocadinho da minha amiga que..."

"Desculpe lá, mas não estamos minimamente interessados na sua amiga." disse Jeremias, de modo cortante.

Célia abanou a cabeça, aborrecida. Irene pareceu irritada pelo tom de voz de Jeremias.

"Quer dizer, vocês só se interessam por mamas, é isso? Porque não param de olhar para o meu decote, mas quando se fala em alguém que é escritora e uma boa pessoa e atraente, vocês não querem saber, porque ela não traz um decote como eu."

"Vê como percebeu?" disse Olavo, de modo provocador. "Além de ter boas mamas, é esperta."

"E você é um grande parvo. E feio ainda por cima." disse Irene. "E já que não querem saber da Célia, então pronto, fica para mim."

De seguida, Irene aproximou-se de Célia e beijou-a. Célia arregalou os olhos, enquanto Olavo e Jeremias abriam a boca de espanto.

"Alguma coisa que tenham a dizer?" perguntou Irene, depois de quebrar o beijo, encarando os dois homens.

"Ah... eu..." gaguejou Olavo.

"Vocês beijaram-se!" exclamou Jeremias.

"Olha que novidade." disse Irene, sarcasticamente. "Vá, seus tarados, ponham-se mas é a andar daqui para fora."

Olavo e Jeremias entreolharam-se e de seguida, levantaram-se, indo embora. Célia continuava zonza e confusa.

"Estás bem, Célia?" perguntou Irene.

"Tu beijaste-me." disse Célia, atordoada.

"Sim, para nos livrarmos daqueles paspalhões. E resultou."

"Podíamos ter ido embora. Não era preciso beijares-me." disse Célia.

"Ok, desculpa se te aborreci. Ah, vai começar outra actuação."

Irene voltou a sua atenção para o palco onde as pessoas cantavam karaoke, enquanto Célia olhava para ela, confusa.

"Mas que raio. O que é que se passa aqui? Ela beijou-me assim sem mais nem menos e agora é como se não tivesse importância nenhuma." pensou Célia. "Ah, mas teremos de falar disto quando chegarmos a casa."

Afonso tinha-se levantado quando tinham chamado o seu nome, para ser o próximo a cantar. Os amigos sorriam ao vê-lo subir ao palco.

"O que será que ele vai cantar?" perguntou Elisa.

"Não sei, mas acho que será alguma coisa aqui para o Leandro." disse Regina. "Então mas quando é que vocês começam a namorar?"

"Regina, pára com isso." pediu Leandro. "Eu gosto da companhia do Afonso. É um óptimo amigo e boa pessoa... mas não sei se sinto algo mais por ele."

"Tu é que sabes, mas se fosse eu, agarrava logo a oportunidade de estar com alguém que gostasse mesmo de mim." disse Regina. "Bom e daí talvez não, mas eu sou um bocadinho maluca, como sabem. Mas devias aproveitar."

"Eu concordo com a Regina. Senão, mais tarde ainda te podes arrepender." disse Amanda.

"Obrigado pelos conselhos, mas deixem que eu trate sozinho da minha vida." pediu Leandro. "Para já, ainda continuo a querer ser apenas amigo do Afonso e ele sabe disso."

Pouco depois, a música do karaoke começou a tocar e Afonso olhou para os seus amigos, mais precisamente para Leandro. As pessoas reconheceram rapidamente a música como sendo Take a Chance on Me dos Abba.

"If you change your mind, I'm the first in line. Honey I'm still free, take a chance on me.

If you need me, let me know, gonna be around. If you've got no place to go, if you're feeling down. If you're all alone when the pretty birds have flown, honey I'm still free, take a chance on me. Gonna do my very best and it ain't no lie, if you put me to the test, if you let me try. Take a chance on me. Take a chance on me."

Algumas pessoas começaram a cantar em coro com Afonso. Regina deu uma cotovelada a Leandro, que corara imenso. Claro que aquela canção era dirigida directamente a si.

"We can go dancing, we can go walking, as long as we're together. Listen to some music, maybe just talking, get to know you better. 'Cos you know, I've got so much that I wanna do, when I dream I'm alone with you. It's magic! You want me to leave it there, afraid of a love affair. But I think you know, that I can't let go."

Amanda, Regina e Elisa juntaram as suas vozes às vozes das pessoas que já acompanhavam Afonso na canção. Leandro estava dividido entre querer desaparecer dali e não conseguir despregar os olhos de Afonso.

"If you change your mind, I'm the first in line. Honey I'm still free, take a chance on me.

If you need me, let me know, gonna be around. If you've got no place to go, if you're feeling down. If you're all alone when the pretty birds have flown, honey I'm still free, take a chance on me. Gonna do my very best and it ain't no lie, if you put me to the test, if you let me try. Take a chance on me. Take a chance on me."

Quando Afonso terminou de cantar, as pessoas bateram palmas. Afonso não cantava tão bem como Leandro, mas tinha sido um bom espectáculo. Quando voltou para ao pé dos amigos, eles elogiaram-no.

"Grande performance, Afonso." disse Ricardo. "Cantaste muito bem."

"Isto é que foi uma grande declaração de amor." disse Amanda. "Hugo, tens de cantar uma música para mim também."

"Claro Amanda, farei isso." disse Hugo, sorrindo.

"O que é que achaste, Leandro?" perguntou Afonso.

"Eu... foi óptimo, Afonso." respondeu Leandro. "E acho que temos de ter uma conversa muito séria, mas este não é o momento, nem o local para isso."

"Eu sei esperar." disse Afonso. "Teremos a nossa conserva quando for conveniente."

Leandro acenou afirmativamente. De seguida, foi a vez de Elisa e Ricardo serem chamados ao palco.

"Vão lá e cantem e encantem." disse Regina, sorrindo.

"Boa sorte." desejou Hugo.

"Façam boa figura, para não nos envergonharem, senão digo que não vos conheço." disse Amanda, com um sorriso brincalhão.

Elisa e Ricardo levantaram-se e dirigiram-se ao palco. Na mesa de Célia e Irene, Irene tentou meter conversa, mas Célia mantinha-se calada.

"Então Célia, agora vais ficar sempre assim?" perguntou Irene. "Credo, até parece que eu fiz algo de muito mau. Foi só um beijo. Não te matou, nem te fez mal nenhum, pois não?"

"Está bem, não fez, mas agora não quero falar. Quero é ir-me embora." disse Célia, preparando-se para se levantar.

"Espera, Célia. Vá, ficamos a ouvir mais algumas músicas e depois vamos, está bem? Não queria que isto estragasse a tua noite."

Célia acabou por suspirar e deixou-se ficar sentada. O cantor Don Mussic estava sentado numa mesa ali perto, ladeado pelos seus guarda-costas.

"Quem é aquele, com aqueles seguranças?" perguntou Célia.

"Não conheces? É um cantor famoso. Como nome artístico, chama-se Don Mussic. Já ouvi algumas coisas dele."

"Eu acho que ele tem péssimo aspecto." disse Célia. "A música dele é alguma coisa de jeito?"

"Para quem gosta de rock pesado, sim."

A música voltou a encher o bar, quando Elisa e Ricardo se prepararam para cantar um dueto.

"Vamos lá." disse Elisa, sorrindo ao namorado. "Eu gosto desta música e vai ser giro cantarmos a música os dois."

"Sim, vamos a isso."

De seguida, os dois começaram a cantar a música Leve Beijo Triste do cantor Paulo Gonzo, que na música original tinha também a participação da cantora Lúcia Moniz.

"Teimoso subi, ao cimo de mim. E no alto rasguei, as voltas que dei." começou Ricardo a cantar.

"Sombra de mil sóis em glória, cobrem todo o vale ao fundo. Dorme meu pequeno mundo." cantou Elisa, numa voz suave.

"Como um barco vazio, p'las margens do rio."

"Desce o denso véu lilás, desce em silêncio e paz. Manso e macio."

As pessoas iam abanando a cabeça ao ouvi-los. A música era mais calma do que as anteriores e, apesar de não cantarem perfeitamente, Elisa e Ricardo estavam a esforçar-se ao máximo.

"Deixa que te leve, assim tão leve. Leve e que te beije, meu anjo triste. Deixo-te o meu canto, canção tão breve. Brando como tu, amor, pediste." cantaram Elisa e Ricardo, em dueto.

Regina, Amanda e Leandro acabaram por começar a cantar juntamente com Ricardo e Elisa. Outras pessoas fizeram o mesmo.

"Não fales, calei." cantou Elisa.

"Assim fiquei." cantou Ricardo.

"Sombra de mil sóis cansados."

"Crescendo como dedos finos. A embalar nossos destinos."

"Deixa que te leve, assim tão leve. Leve e que te beije, meu anjo triste. Deixo-te o meu canto, canção tão breve. Brando como tu, amor, pediste." cantaram Elisa e Ricardo, em dueto.

Quando a música se aproximava do fim, uma confusão iniciou-se à porta do bar. A maioria das pessoas não notou quando quatro homens encapuçados entraram no bar, armados com pistolas. Os seguranças de Don Mussic deram o alerta e rapidamente o cantor se levantou.

Os responsáveis do bar, ao verem os homens entrarem, tentaram colocar-se à sua frente. Um tiro vitimou rapidamente um dos funcionários e os outros recuaram. Elisa e Ricardo continuavam a cantar. De seguida, uma arma foi apontada e um novo tiro foi disparado. Desta vez, foi ouvido, mas quem estava a ouvir o karaoke não reparou no som, mas sim no que aconteceu de seguida.

Num momento, Elisa e Ricardo estavam a cantar animadamente, olhando um para o outro e sorrindo. No momento seguinte, Elisa arregalou os olhos, quando a bala lhe acertou na barriga. Deixou cair o microfone no chão e de seguida caiu ela própria sobre o palco, com o sangue a alastrar pela sua camisola branca.

Por um segundo, todos ficaram a olhar para a cena, sem reacção. Depois, várias pessoas soltaram gritos. Célia levantou-se apressadamente, tal como Regina e Leandro. Amanda abafou um grito de horror.

"Elisa!" gritou Ricardo, baixando-se sobre a namorada e deixando o seu microfone cair no chão também. "Oh não, Elisa."

Elisa gemeu, com a mão sobre a ferida que a bala tinha provocado. A confusão instalou-se rapidamente no bar. Algumas pessoas começaram a tentar fugir, enquanto os homens encapuzados avançavam na direcção de Don Mussic e dos seus seguranças. Duas balas foram disparadas e um dos seguranças do músico foi atingido, caindo no chão.

Don Mussic fugiu, escondendo-se atrás de umas grandes colunas. O segurança que restava juntou-se a ele. Mais algumas balas foram atiradas. Duas pessoas gritaram ao ser atingidas e caíram no chão. Célia tremia, querendo fugir dali, mas os homens vinham naquela direcção. Irene agarrou-lhe no braço e puxou-a para o chão.

"Célia, vamos para baixo da mesa."

"Mas...

"Já! Não discutas!"

Célia anuiu e as duas esconderam-se debaixo da mesa, ficando quietas. Dois dos homens encapuçados passaram perto da mesa, em perseguição do músico e do seu segurança. Os outros dois homens pareciam agora estar interessados em continuar a causar o caos. Um deles virou uma das mesas ao contrário, enquanto o outro começou a recarregar a arma.

Ricardo continuava baixado sobre Elisa. Agora, os seus amigos já se tinham todos levantado e corrido até ao palco. Regina estava agarrada ao telemóvel a ligar para a ambulância.

"Pessoal, temos de sair daqui. Aqueles homens estão armados e podem atirar sobre nós." disse Hugo.

"Elisa, aguenta, por favor." pediu Ricardo.

"Ricardo... desculpa não termos terminado de cantar a música." murmurou Elisa.

"Isso não interessa. Aguenta querida. Não fales para poupares forças." disse Ricardo.

De seguida, ouviu-se mais um tiro e uma mulher que ia a fugir, caiu ao chão. O quarto encapuçado estava a divertir-se a atirar sobre quem quer que estivesse a fugir.

Elisa teve uma convulsão, deitando sangue pela boca. Regina terminou a chamada e todos olharam para Elisa, horrorizados. Ainda há pouco, estava a cantar animadamente e agora estava assim, caída e a sangrar. Amanda desviou os olhos, sem conseguir suportar mais a cena.

No momento seguinte, ouviu-se um novo tiro e Leandro estremeceu. O tiro tinha passado apenas a escassos centímetros de si. Leandro, Regina, Amanda, Afonso e Hugo olharam para onde tinha vindo a bala. O encapuçado sorriu sobre a sua máscara negra e apontou novamente.

"Pessoal, baixem-se!" gritou Afonso.

Eles assim fizeram. Duas balas zuniram sobre eles, mas não lhes acertaram.

"Temos de sair daqui. Estamos em cima do palco e somos um alvo fácil." disse Regina.

Antes que eles pudessem fazer mais alguma coisa ou tomar uma decisão, já o encapuçado apontava novamente. Petrificados, olharam para a arma, apontada a Leandro. O tiro foi disparado. Leandro não conseguiu reagir. Fechou os olhos. Iria ser atingido. Mas não foi. Ouviu um gemido e alguém a cair. Abriu os olhos. Afonso estava caído no chão. A bala tinha-o atingido no peito. Tinha-se colocado à frente de Leandro e levado com a bala.

"Não! Afonso!" gritou Leandro, baixando-se sobre Afonso.

Regina estremeceu e Amanda quase desfaleceu, mas Hugo agarrou-a. Ricardo continuava concentrado em Elisa, falando com ela, como se nada existisse à sua volta. Mais tiros foram ouvidos. O segurança de Don Mussic foi abatido e logo de seguida o próprio músico levou um tiro na cabeça, caindo morto no chão.

"Já está morto! Vamos embora!" gritou um dos encapuçados.

Os outros acenaram afirmativamente e os quatro começaram a correr para fora do bar. Ninguém os tentou impedir, pois continuavam armados.

"Afonso, não morras." pediu Leandro.

"Afinal, não consegui conquistar-te." murmurou Afonso, com a cara pálida. "Tenho muita pena..."

De seguida, os seus olhos tornaram-se vítreos. Leandro abanou-o.

"Não! Não podes morrer! Por favor!" exclamou ele.

Leandro abanou-o novamente, desesperado, até que Regina lhe tocou no braço.

"Leandro, pára." pediu ela.

Regina tomou o pulso de Afonso e depois abanou a cabeça.

"Ele morreu." disse ela.

Leandro começou a chorar, continuando agarrado ao corpo de Afonso. Elisa voltou a ter uma convulsão, cuspindo mais sangue.

"Vá lá querida, aguenta mais um pouco. A ambulância há-de estar a chegar e eles vão tratar de ti. Vais ficar boa." disse Ricardo.

"Ricardo... queria ter estado mais tempo contigo." disse Elisa.

"E vais estar muito mais tempo. Prometo que não te vou largar mais. Hei-de passar o tempo todo contigo. Prometo." disse Ricardo. "Aguenta por favor."

Nesse momento, Irene espreitou por baixo da mesa e da toalha e viu que os homens encapuçados já não estavam ali. Saiu debaixo da mesa e Célia fez o mesmo. Olharam à sua volta, vendo as pessoas assustadas. Algumas estavam baleadas e mortas, outras apenas feridas.

"Que horror." disse Célia.

"Como é que algo assim foi acontecer?" perguntou Irene. "Olha, mataram o Don Mussic."

Havia dois homens responsáveis do bar perto do músico morto, mas não havia nada a fazer. No palco, Leandro continuava a chorar, agarrado ao corpo de Afonso, enquanto Regina tentava permanecer calma para o ajudar a acalmar-se também.

Hugo e Amanda estavam parados, de pé, sem saberem o que fazer. Pouco depois, Amanda começou a soluçar e baixou-se sobre Elisa.

"Desculpa se nem sempre fui boa para ti, Elisa." disse ela.

"Não fales como se fosse uma despedida." disse Ricardo, lançando um olhar zangado a Amanda. "A Elisa não vai morrer."

Ricardo tinha tirado o seu casaco e pressionava-o contra a ferida no peito de Elisa, tentando que ela não perdesse tanto sangue. Elisa estendeu a mão a Amanda.

"Tu és boa pessoa... Amanda." disse Elisa. "O passado... não importa... és minha amiga."

De seguida, Elisa teve mais uma convulsão e cuspiu sangue. Ricardo já tinha a sua camisola ensopada de sangue e agora Amanda também. Elisa mexeu lentamente a cabeça, olhando para Ricardo.

"Dizes à minha família... que gosto muito deles, por favor?" pediu Elisa.

"Tu própria lhe vais dizer isso, querida." disse Ricardo. "Aguenta mais um pouco."

Um minuto depois, começaram a ouvir-se as sirenes da polícia e ambulância.

"Eles estão a chegar para te ajudar, querida. Vai ficar tudo bem." disse Ricardo, esperançoso.

"Desculpa... não... poder... ficar mais tempo contigo..."

De seguida, Elisa fechou os olhos e deixou de se mexer. Amanda soltou um guincho e começou a chorar. Hugo abraçou-a. Ricardo ficou em choque.

"Não, Elisa! Responde! Por favor! A ambulância está aqui!" gritou Ricardo. "Não morras! Não! Tu disseste-me que eu te tinha a ti, quando discutimos por estar sempre preocupado com a minha mãe. Por favor, não me abandones agora."

Porém, Elisa não voltou a mexer-se. Ricardo soltou um grito de angústia e começou a chorar. Regina apercebeu-se do que tinha acontecido e a muito custo conseguiu conter-se. Tinha de tentar manter a calma, pelos outros.

De seguida, vários polícias e paramédicos entraram no bar. Os paramédicos dirigiram-se rapidamente às vítimas das balas.

"Venham aqui! Por favor, a minha namorada parou de se mexer!" gritou Ricardo, ao vê-los.

Dois paramédicos aproximaram-se e só a muito custo conseguiram afastar Ricardo de Elisa. Um dos paramédicos foi rapidamente buscar um aparelho para reanimação. Ricardo engolia em seco, ainda esperançoso. Hugo e Amanda começaram a murmurar uma prece.

Porém, não havia nada a fazer. A reanimação era já impossível. Quando disseram isso a Ricardo, ele foi-se abaixo completamente. Regina teve de o amparar, deixando Leandro de lado. Os paramédicos viram também Afonso, mas tal como Elisa, já estava morto e não havia reanimação possível, pois a bala tinha acertado muito perto do coração.

Naquela noite, Regina responsabilizou-se por levar Leandro a casa e Hugo e Amanda trataram de levar Ricardo até à casa dele, apesar de terem tido muita dificuldade em afastá-lo do corpo de Elisa.

A polícia interrogou algumas pessoas, começou a recolher provas e marcou inquéritos a outras pessoas para o dia seguinte. Célia e Irene saíram do bar aturdidas e quando chegaram a casa, foram cada uma para o seu quarto e não falaram do assunto.

Para Além da Adolescência

Na sua casa, Margarida ouviu baterem à porta e quando foi abrir, deparou-se com Ricardo sujo de sangue e a chorar, ladeado de Amanda e Hugo, que o seguravam, como se Ricardo pudesse cair no chão desamparado a qualquer momento.

"Meu Deus! Mas o que passou? Filho, estás coberto de sangue!" exclamou Margarida, aflita.

"Deve ser a mãe do Ricardo. Ele precisa de se deitar. Não se preocupe que ele não está ferido. O sangue não é dele... deram-lhe uns calmantes, mas ele ainda está muito agitado." disse Amanda. "Eu depois conto-lhe tudo."

Margarida acenou afirmativamente. Amanda e Hugo levaram Ricardo até ao seu quarto, que Margarida indicou onde ficava. Depois, os dois saíram do quarto enquanto Margarida conseguia que Ricardo mudasse de roupa para um pijama e se deitasse, a muito custo. Agora, já não se mexia, nem dizia nada. Ao voltar à sala, Margarida encarou Hugo e Amanda.

"O que é que se passou com o meu filho?" perguntou Margarida. "Porque estava ele coberto de sangue? E você, menina, também tem sangue na camisola."

Continua…

P.S: As músicas Take a Chance on Me dos Abba e Leve Beijo Triste do cantor Paulo Gonzo, obviamente não me pertencem e sim aos seus respectivos cantores.