29 – DESENCONTROS
... Faramir acompanhou o casal que se retirava e optou por ir em direção oposta distanciando-se, assim, do conflito iminente, contudo este seria inevitável, pois Éowyn já o esperava. O Príncipe pode perceber pela expressão da esposa que não era há pouco tempo que ela os observava.
Os olhos de Éowyn brilhavam, porém a dama de Rohan não se permitiu chorar. O brio da guerreira se impunha à decepção da mulher. O príncipe de Ithilien, por sua vez, viu-se em desconcerto diante dos mil pensamentos que deveriam estar se apoderando de sua esposa. Abriu a boca em uma tentativa de justificar-se, contudo, a mulher não lhe deu chance alguma e ofereceu-lhe apenas as costas em resposta, retirando-se para não mais se falarem, pelo menos por um bom tempo.
...
Após serem introduzidos em seus aposentos, Anna aproximou-se da janela vislumbrando a cidade, mais como uma tentativa de fugir do elfo do que por desejo de apreciar a paisagem.
- O que eu fiz, Tempestade – perguntou finalmente Haldir com as mãos apoiadas em uma mesa após um silêncio prolongado – para ser digno de tamanha humilhação?
A mulher nada respondeu. Seria melhor deixar que o marido extravasasse de uma vez toda ira.
- Privei-a da morte, quando por esta ansiava? Resgatei-a de um mar de trevas e ódio na qual estava imersa? Fui por demais compreensivo quando se recusou a dar-se a mim?
Essas últimas palavras atraíram sobre o elfo o olhar de revolta de Tempestade.
- Esperei por você como nunca esperei por ninguém. Devotei a você minha existência. Por qual destas faltas, minha senhora, resolveu me punir? Por que tantas mentiras?
- Eu não menti... apenas...
- Omitiu? Que desculpa sem propósito, minha cara!
- Peço que compreenda, meu senhor, se o magoei...
- Compreensão? Pede-me mais uma vez compreensão? Será sempre assim? – a voz do primogênito soava como um trovão.
Tempestade não sabia o que dizer. Entendia que o elfo tinha razão em muitos pontos.
- Como acha que me senti vendo-a abraçar seu primo com tanta desenvoltura, enquanto que há algumas semanas rejeitou veementemente seu marido por tentar fazer o mesmo? – berrou esmurrando a mesa.
- Foi justamente você quem me libertou, Haldir de Lórien. Você que arrancou de mim todos os meus temores. Curou todas as feridas de minha alma...
- Para que assim pudesse retornar para os braços de seu amado Faramir? – Haldir finalmente encarou a mulher.
- Não!
- Agora entendo porque seu coração chorava por Gondor... Como pude ser tão cego?
- Cego está agora, Haldir, se não vê que o único por quem meu coração bate é por você.
- Sua declaração enternece meu coração, minha esposa – disse cinicamente.
- Quer saber o que senti quando abracei Faramir?
- ...
- Acolhimento, carinho, ternura.
- Comovente...
- Sabe o que sinto quando abraço você? Plenitude, eternidade, vertigem, torpor, desejo...
- Então me responda, por que a mentira?
- Medo.
- ...
- Medo de que reagisse exatamente assim. Quando contei a todos vocês minha história, estava morrendo, não havia motivo... Depois, foi ficando cada vez mais difícil, não queria magoá-lo. Nunca quis enganá-lo.
- Pelo que pude compreender, não pretendia dizer a verdade mesmo depois de reencontrá-lo...
- Queria poupar a você e a mim este sofrimento desnecessário...
- Com mentiras? Como quer que eu acredite que não veio aqui em busca dele e que se não o tivesse encontrado casado, não correria para os seus braços?
- Minha palavra é tudo o que tenho para lhe dar como garantia, meu esposo.
Haldir nada respondeu. A ira dentro dele crescendo a cada minuto. Resolveu sair antes que cometesse algum desatino.
...
O elfo estava transtornado. Suas feições refletindo toda sua confusão interior. Percorria a esmo os corredores do palácio sem perceber quantas horas já haviam se passado.
Buscou auxílio nas muralhas reconstruídas. A noite já ia adiantada trazendo consigo um frio que em nada se comparava àquele que envolvia o coração do elfo. E que nem mesmo o fogo da ira que percorria seu sangue conseguia abrandar.
Tempestade, tempestade. Um turbilhão de emoções inebriando a mente, confundindo os sentidos. Levou as mãos ao rosto. Buscou ar. Queria, mas não conseguia acreditar nas palavras dela. Os argumentos daquela adán traiçoeira que o enfeitiçara rodopiavam ao seu redor, contudo, a dúvida se instalara em seu coração e Haldir não sabia o que fazer para desterrá-la.
Pensou em voltar a Lórien. Ficaria um pouco sozinho e assim, longe dela, poderia refletir melhor, mas logo desistiu, sabia que se a deixasse ali, junto dele, não teria paz um minuto sequer. Cada segundo potencializaria um encontro, uma palavra, um afeto entre eles.
Elevou os olhos às estrelas implorando por uma luz ou algo que o guiasse naquela escuridão.
E as estrelas o ouviram.
- O que poderia ter acontecido a ponto de lhe tirar a paz dessa maneira, Haldir?
O elfo olhou surpreso para a rainha que se colocava a seu lado.
- E o que faz a senhora de Gondor ao relento a uma hora dessas?
- Justamente porque sou senhora dessa terra, Haldir, devo zelar por tudo e todos que nela habitam, ainda que temporariamente. Não pude deixar de perceber a ausência de meus hóspedes durante o jantar.
'Pelo Único, o jantar!' Esquecera-se por completo de dar qualquer satisfação que fosse aos anfitriões e amigos.
- Por favor, perdoe-me tal indelicadeza, Undomiel. Eu... nós...
- Shiiii! – disse a elfa colocando a mão delicada sobre a boca de Haldir – Acalme-se, meu amigo. Não estou aqui para lhe cobrar nada, principalmente no que se refere a etiquetas e protocolos. Sei que algo de muito grave deve ter acontecido. Quando fui aos seus aposentos após o jantar em busca de respostas, eu o vi sair como um furacão. Caminhou sem rumo pelos corredores durante todo esse tempo.
- E me acompanhou sem que eu o percebesse? Como? Eu devia estar realmente fora de mim!
- Disso não duvido. Contudo, preciso saber se vai me contar o que está acontecendo.
- Não sei se sou capaz, se teria coragem...
Haldir fitou a amiga. Um sorriso de Arwen foi suficiente para recordá-lo de que a amizade que os unia era como seu povo: imortal.
- Espero que tenha tempo. É uma longa história...
A elfa assentiu e Haldir começou a abrir seu coração.
...
Tempestade andava de um lado para o outro no quarto. Seu marido estava demorando mais do que ela poderia suportar. Optou por ir procurá-lo.
Andou por alguns corredores e não o encontrou. Chegou ao alto de uma torre e resolveu ficar um pouco sozinha com seus pensamentos até que uma presença atrás de si chamou sua atenção. Em um reflexo desembainhou a espada levando-a até a garganta do recém-chegado.
- Calma, minha prima – disse Faramir – eu vim em paz.
- Sinto muito, meu primo. Anos de condicionamento são difíceis de superar... – disse mais seriamente do que pretendia.
- Eu sei. Soube de suas proezas.
- Proezas? Se lhe contaram a verdade deve saber que não me orgulho delas... – comentou voltando a observar o horizonte.
- Tornou-se uma mulher admirável, Anna, embora insista em negar isso – disse colocando-se ao lado da jovem.
- E quanto a você, príncipe de Itilien? É o segundo em comando em Gondor. O povo o ama, o rei abençoado o respeita. Conquistou para si o amor de uma mulher inigualável. Creio que conquistou tudo que um homem precisa para se considerar realizado.
Às palavras de Anna, Faramir baixou os olhos.
- Sim, conquistei – disse com voz cansada – e espero não a haver perdido esta noite.
A mulher compreendeu bem a que o primo se referia.
- Lamento que estejamos unidos neste temor, meu primo – disse Anna colocando a mão por cima da mão do parente.
- Por certo – concordou correspondendo ao gesto – o elfo me pareceu um marido cioso e devotado.
- E o é – confirmou a mulher recordando-se de todos os cuidados de que já fora objeto nas mãos de Haldir.
Um breve silêncio se instalou entre ambos antes que Faramir prosseguisse:
- Éowyn retorna a Rohan ao nascer do sol...
A revelação do primo caiu como uma rocha por sobre a cabeça da mulher. Sentimentos de culpa a invadiram. Já não bastava ter arruinado a vida de Haldir e a sua própria? Também viera por fim à abençoada felicidade de um casal que atravessara toda sorte de intempéries a fim de conquistá-la?
Com o queixo trêmulo, Tempestade ensaiou um pedido de desculpas:
- Faramir, eu lamento tanto...
- Não se culpe – disse incisivo – ninguém pode escapar do próprio passado ou pretender que alguém o ame sem que o conheça por inteiro. Ela retornará... Se me amar realmente, retornará.
- E se não retornar?
- Então cavalgarei até Rohan e a trarei de volta – concluiu convencendo a si mesmo de que poderia dar uma solução simples a um problema deveras complicado.
- Mas Faramir...
- Não descansarei enquanto não tiver a mulher que amo de volta em meus braços, minha prima, ainda que para isso precise percorrer toda a Arda em busca de algo que a agrade.
E a firmeza da resolução de Faramir deu à Tempestade a certeza de que para não perder Haldir, ela também deveria estar disposta a tudo.
...
O sol já despontava no horizonte quando o elfo vislumbrou a caravana que deixava a cidade sob a bandeira da terra dos cavaleiros. Haldir passara a noite em claro sobre a muralha. Não sentia que poderia retornar ao quarto. De fato, não sentia que poderia retornar a parte alguma.
A rainha fora gentil em ouvi-lo e por alguns momentos sentiu o coração aliviado de tantas incertezas, contudo mal a elfa se retirara, voltou a sentir o coração esmagado pela frustração.
Caminhou por sobre a muralha, indagando a primeira sentinela que cruzou seu caminho:
- Para quem os portões se abriram há pouco?
- A Senhora de Rohan, meu senhor.
Haldir sentiu uma espada penetrar-lhe o crânio e o sangue fugir de seu rosto.
- Algum problema, meu senhor – argüiu o soldado preocupado diante da reação do estrangeiro.
- Não é nada – balbuciou Haldir retirando-se em um esforço tremendo de mover as pernas a fim de não chamar a atenção para si.
Caminhava lentamente, mas em sua mente, os pensamentos vinham como enxurradas. O caminho livre. Tempestade agora tinha o caminho livre para aquele que sempre amara verdadeiramente, ainda que ela mesma houvesse tentado se convencer do contrário. Como fora tolo! Um tolo! Haldir se odiava naquele momento. Mais do que recriminar a mulher, recriminava a si mesmo, ainda que ela não se atrevesse a atravessar seu caminho agora. Sabia que não conseguiria conter sua ira.
Encontrou uma pilha de escombros. Resquícios de uma batalha ainda recente. Apoiou-se neles. Sentou-se. Já não conseguia pensar e caminhar ao mesmo tempo. Escombros. Era no que sua existência se tornara. Jamais conseguiria reconstruir sua vida. Desde que encontrou aquela mulher, algo sempre estava desmoronando. Haldir esmurrava as pedras. A ira crescendo dentro de si. Atirou algumas para longe a fim de atingir a imagem dos dois que surgiam a sua frente, abraçados.
Esmagava as menores com as mãos. E percebeu tarde demais quando a pequena, mas letal criatura picara-lhe a mão antes que esta a esmagasse.
...
