CAP 27 – UM NOVO ATO

Até que ele simplesmente soube.

Haldir simplesmente soube, ao acordar aquela manhã, que a veria naquele dia.

Sem atentar para o fato, o elfo aprontou-se com esmero, preparando-se para vê-la. Nunca um dia lhe demorara tanto para chegar, a ele, que passeara pelas eras como se fossem dias, até ver os últimos dias converterem-se em eras, seu destino suspenso nas mãos bárbaras daquela adan.

Mas, enquanto dirigia-se fria e condignamente para o passadiço da muralha exterior, destacando-se em meio à multidão curiosa que já começava a aglomerar-se nas proximidades, tais pensamentos mal permeavam a superfície de sua consciência. Ele não o permitiria. Tinha e exercia pleno controle sobre si mesmo, e não dava aos próprios pensamentos e sentimentos a liberdade de se apoderarem dele, atormentando-o – principalmente quando precisava manter a mente fria e atenta.

A única coisa que não controlara fora sua esposa, e por Manwë, como se arrependia!

Ainda naquela manhã, quando soubera do ocorrido, fora procurá-la, encontrando-a quase às cocheiras, botas e calças de montaria, blusa vermelha, cinturão de ouro – o maldito ouro com o qual os sulistas já voltavam a recobrí-la.

- Dirigindo-se tarde ao acampamento dos haradrim hoje – observara irônico.

Estava quase, quase querendo que se voltasse para ele de dentes arreganhados, que o desrespeitasse, que o agredisse, que lhe desse um motivo ...

Teria contido a ela então.

Mas Mornfinniel apenas o fitara ao se lhe voltar.

Nem mesmo o cenho estava franzido, ao contrário do de Haldir, tentando decifrar aqueles olhos silenciosos e inatingíveis.

- Soube que um homem do Sul foi preso, e que você levou um tal assunto à Rainha, esposa.

Ela ainda o fitava, impassível.

- A Senhora Undomiel não deve ser perturbada com a menção de acontecimentos desse tipo, trata-se de um desrespeito à posição e sensibilidade inerentes a uma dama como ela, compreende isso?

Ainda que o rosto à sua frente nada lhe dissesse, Haldir pôde escutar, além da expressão de sua face, da imobilidade de seu corpo, e ouviu o bater furioso do coração dela.

Haldir quase levara a mão ao peito então, em choque! Seu próprio coração acelerara também, tentando conduzi-lo desesperadamente a obedecer o impulso de abraçá-la, de desculpar-se pela grosseria da observação, de gritar-lhe que estava ali por ela, para protegê-la, para ajudá-la ...

Mas ele NÃO ESTAVA ALI PARA AJUDÁ-LA! E aguardou o próprio coração voltar ao ritmo normal sustentando o olhar daquela criatura. Era a filha ímpia de um povo ímpio, e não o renegava nem se afastava de suas práticas bárbaras, portanto, que experimentasse o gosto da derrocada de um dos seus! Que fosse visitá-lo nas masmorras, como a Rainha acabara por permitir, já que ambientes ou companhias mais edificantes em nada pareciam atraí-la!

Mais teimosa que Tulkas! Que a visão de seu conterrâneo preso então, quem sabe, inspirasse-a, nem que fosse por medo, a assumir um comportamento condigno!

- Se vai ao acampamento de seu povo buscar algum item de conforto para seu compatriota preso, faça-me o favor de não tentar contrabandear para dentro da prisão uma adaga ou punhal junto ao corpo: será revistada ao entrar. Poupe-me ao menos deste constrangimento, já que foi incapaz de evitar associar-me a uma série de outros.

A voz rouca pareceu custar a sair da garganta da mulher:

- Deste constrangimento, então, o senhor meu marido será poupado.

Os dedos de Haldir crisparam-se sobre a espada, e quem chegasse a olha-lo com atenção no momento em que se lembrava das palavras derradeiras que ouvira dela, veria o elfo tremer.

Devia ter entendido então, por todos os Valar, ela praticamente lhe revelara o que pretendia fazer!

Não! Não iria contrabandear uma arma para o preso! Certamente poupara o marido deste constrangimento, de ser pega cometendo uma falta primária e óbvia!

Não contrabandeara uma arma para ele, contrabandeara um disfarce. ELBERETH! A pobre senhora numenoreana, gestante e detida, por artimanhas que ele sabia haverem partido exclusivamente de sua própria esposa!

A altiva e nobre moça atribuíra a decisão de permitir que o prisioneiro se passasse por ela à precariedade das condições em que o haviam encontrado, mas, juntando as peças do quadro que lhe chegaram naquela hora, Haldir enxergou nitidamente que Cabel ... que a senhora Darai havia planejado tudo aquilo.

Que planejara, inclusive, a parte mais importante do disfarce, a forma de lançar a derradeira sombra sobre ele...

Valar!

Valar, Valar, Valar.

Ele sempre soubera, e sempre lutara contra esse saber que o perturbava tanto.

Ele sabia que não apenas aos seus olhos ela era bela.

Ele sabia que não apenas por ele era ela cobiçada.

Mas o que sempre procurara negar ... o que sempre buscara esconder de si mesmo ... era o quanto ela mesma tinha consciência disso.

Sim, elfo infeliz, ela tinha consciência disso, uma consciência profunda, mas antes de perturbar-se por um tal conhecimento, antes de constranger-se, de velar seus decantados atributos sob um manto de recato e modéstia, ela ... ela os utilizara ... como armas mais precisas e definitivas do que quaisquer outras que pudesse ter contrabandeado para libertar seu parente ...

Num ímpeto, Haldir sacudiu a cabeça, logo depois estremecendo: teria alguém percebido seu gesto de destempero? Elbereth, senhora das estrelas, precisava acalmar-se, precisava esvaziar a mente ... até em seu pensamento a presença daquela mulher lhe enfraquecia o controle ... ia acabar gesticulando em praça pública como um louco. Compostura, soldado!

Mas ninguém parecia haver notado o chacoalhar de sua cabeça, ou o tormento íntimo que externava, atenções voltadas para além da muralha.

Os soldados que guarneciam o local, entretanto, tinham sido reforçados ao raiar da aproximação do gigantesco animal, e uma parte deles mantinha agora a multidão à distância, para sua própria segurança.

Ao capitão da Aliança, entretanto, foi aberto caminho sem a necessidade de uma palavra ou gesto.

Claro, refletiu Haldir estoicamente, qual daqueles guardas ignoraria, afinal, que aquela que se aproximava de Minas Tirith conduzindo aquela criatura bestial era sua esposa?

Muitos talvez não soubessem, contudo, conjecturou o elfo, apoiando a mão esquerda num dos vãos do passadiço e observando o insólito transporte, ainda algo distante para o olhar humano.

- É sua esposa, não é?

- Sim. – confirmou o elfo, impassível apesar da pergunta de um Legolas que lá não se encontrava quando ele mesmo chegara revelar-lhe que ficara preso à contemplação daquela cena por tempo demais.

- Mas o que a traria aqui? – perguntou Gimli – Não sabe que pode ser presa?

NÃO! – Berrou o coração do elfo. Ele a arrancaria dali! Saltaria das próprias muralhas com ela em seus braços! Que seu amigo, o Rei, o perdoasse, mas aquela era sua esposa!

Não que não a quisesse encarcerar, tomar-lhe aquela liberdade da qual ela só sabia fazer mau uso...

- Nem tudo que pode ser, naquilo se converte – contemporizou Legolas, buscando oferecer um olhar tranquilizador a Haldir. O amor, a paixão, sentimentos intensos a ponto de motivarem ações de outra forma inexplicáveis: assistia fascinado suas manifestações, intrigando-se e compadecendo-se daqueles que os alcançavam, certo de que a Música vibrava mais melodiosa e dissonante no dedilhar do Único sobre aqueles corações

– E a esposa de Haldir não é tola. – Completou o jovem elfo.

O galadhrim voltou-se para o príncipe de Mirkwood – agora novamente Erin Lasgalen – com uma gratidão que não conseguiu esconder. Sim, sua esposa era inteligente. Cabelos Negros era uma estrategista audaz, mas frequentemente precisa, como se a própria luz de Ëarendil brilhasse na consecução de seus planos.

Era como se os Poderes do Mundo olhassem por ela.

Como se, de alguma forma, ela houvesse conquistado crédito junto a eles, apesar de tudo ...

Mas, se a proteção Deles faltasse para com ela agora, ele estaria ali.

E algo lhe dizia que Legolas também.

- Senhores, por favor, afastem-se da muralha, o olifante pode jogar uma pedra.

Os elfos e o anão fitaram o jovem tenente e sua guarda, cujos arcos já se encontravam retesados.

- Baixem suas armas, seus imbecis – fustigou o anão – há quanto tempo estão entre as forças da Cidade Branca? Não estavam presentes à batalha do Pelennor? Não sabem distinguir um guerreiro de um emissário? O animal não está municiado para uma batalha! – admoestou-os impaciente, enquanto baixavam as armas. Bah! Homens, elfos ... como tinham sobrevivido todo aquele tempo sem um anão por perto?!

As armas, entretanto, caíram das mãos dos homens, e estes, assim como os elfos e o valente anão, chocaram-se às paredes opostas à muralha, ante a violenta vibração do zurro ensurdecedor com que a tromba do monstruoso animal varreu o topo das aléias dessa.

Quando se voltaram novamente em sua direção, lá estava ela, de pé no meio da formidável construção.

O impulso imediato do elfo foi o de saltar sobre ela, deslizar com a mulher em seus braços por sobre o animal, e voar em seus próprios pés pelos caminhos que os levariam de volta a Lórien, e, antes que a razão, foi de fato apenas um pequeno detalhe que o deteve.

A haradrim não apoiava mais do que uma parte de suas botas nas largas pedras. Um gesto súbito que a assustasse, e o precário equilíbrio em que ela se mantinha poderia ser perdido.

A imagem de um corpo despencando no vazio assombrou o elfo que apenas se aprumou lentamente, como os demais presentes, imobilizado onde estava.

- A dívida de uma união desfeita foi cobrada aos haradrim! – Darai projetou sua voz em direção às paredes em frente à muralha, na qual reverberou.

Como sabia assumir um tom de comando!

- Que se apresente o credor para recebê-la – completou, ao mesmo tempo em que a tromba depositava a arca fechada sobre duas das aléias da muralha.


NOTA POP DA AUTORA: A música tema é Dammed if I do, do The Alan Parsons Project (se você disser que conhece, já está bem passado dos 30)