Flores Escuras

Autoria: Niphrehdil

Publicada originalmente em:

www(ponto)fanfiction(ponto)s/10655072/1/Dark-Flowers

Tradução autorizada: Inna Puchkin Ievitich


Capítulo 29


Nota Inicial da Autora:

Ei pessoal,

Peço desculpas por quaisquer colapsos emocionais que possam ter sido causados. E os seus elogios só se superam – esta história tem sido aclamada A Melhor de todas do meu ARQUIVO inteiro, e não sei o que fazer sobre isso. Dizer 'obrigado' soa repetitivo nesse momento e é quase insuficientemente expressivo para descrever minha gratidão. Mas vamos deixar por isso mesmo.

A seguir aqui teremos o capítulo 29 - o penúltimo. O capítulo 30 será um epílogo, e se por um lado estou triste por chegar ao fim da história depois de uma viagem dessas, também mal posso esperar por isso - eu estive aguardando a chegada do último capítulo desde o início.

Contudo este não é o fim - ainda não. Então, aqui vamos nós.


Havia apenas escuridão.

Não era o tipo de escuridão trevosa e interminável como a do fundo do mar.

Não.

Era suave e completa.

Em algum lugar, bem à margem dela, todavia havia luz.

Quente e seguro, convidando luz.

Sem formas ou limites - era infinito.


Erik nunca tinha morrido antes.

E, a despeito de tudo o que já afirmou, ele estava ciente de que nem todas as coisas que fez em sua vida poderiam ser consideradas exatamente boas - mesmo se feitas pelas razões certas. Erik, de fato, nunca dedicou um tempo a pensar sobre a vida pós-morte – ele nunca tinha, de fato, acreditado no céu ou no inferno. Mas, apesar disso, sempre teve essa certeza sombria de que se há mesmo um lugar como o paraíso, esse não era para ele. E Erik estava bem com isso. Afinal havia muito sangue, violência e crimes em suas mãos. Muita sujeira e assassinato e dor em sua vida.

Sim - eles poderiam ficar com o seu paraíso.

O que haveria lá que poderia ser oferecido a Erik?

Todas as boas coisas que Erik já tinha saboreado durante sua vida tinham sido breves. Mornas. Sem significado.

Elas nunca tinham realmente importado.

Bem... ao menos até os últimos meses da sua vida. Durante esse tempo, um milagre lhe fora concedido - o de encontrar-se capaz de sentir coisas à exceção de raiva e amargura.
Coisas que ele nunca teria imaginado sentir depois de assistir sua mãe ser morta bem diante de seus olhos e ter aprendido a não se apegar a ninguém. Nunca. Mas então... por um curto período... houve coisas boas – coisas brilhantes. Coisas que fizeram Erik sentir-se forte e vivo da melhor forma – ao contrário de ser Magneto. Magneto era sobre poder, medo e vingança.

Por um longo tempo, Erik não fez nenhuma distinção entre ele e Magneto. Porque como poderia haver uma diferença – se eles eram, afinal, a mesma pessoa?

Isso até Reach.

Mas Erik não queria pensar em Reach.

Ele sequer podia lembrar adequadamente o que foi tudo aquilo, porque não podia realmente compreender qualquer coisa sólida ali – qualquer que fosse esse lugar.

Sua mente buscou alguém completamente diferente. Alguém familiar, cálido e gentil.

Charles.

Seu telepata ridículo, com seus longos cabelos e distraídos olhos azuis. Essa era a única memória coerente de Erik, apenas pensamento e luz nesse campo escuro de trevas. Era como uma vela que o atraía como a uma mariposa pela chama, impedindo-o de escapar e ser engolido pela escuridão. Toda a existência de Erik cintilou com carinho por esse pensamento. Mas havia também anseio, uma dor constante, porque em algum lugar à margem de sua mente Erik desejava alcançar a chama brilhante – não importa o quanto isso pudesse queimá-lo. Talvez ele quisesse ser queimado. Porque ele não estava pronto para ir, ainda não. Ele fora interrompido. Arrancado. Descartado, a quem foi negado a chance de ver o que aconteceria se ele realmente pegasse a chama. Era muito cedo – deveria ser por mais tempo.

A morte parecia terrivelmente o fim.


Caindo.

Sensação de queda.

Indefinidamente.

Em um ponto, Erik estava quase certo de ter visto o rosto de sua mãe. Ela estava sorrindo.

Mas, então, ele estava caindo novamente e não a viu mais.


Erik se perguntou se esse era o fim, se esses eram seus últimos momentos antes de ele desaparecer.

Ele não sabia quanto tempo tinha passado, ou o que tinha acontecido.

Até suas últimas memórias e pensamentos coerentes tinham desaparecido.

Não havia nenhuma dor, nenhum desconforto.

Ele simplesmente era.


... rk.

Erik ...

Erik!

Fique comigo! Você pode me ouvir?

Fique comigo, por favor...


Erik tinha certeza de que não deveria ficar mais ali. De alguma modo, ele só sabia. Ele já deveria ter partido.

Mas era como se uma corda invisível o estivesse mantendo no lugar, forçando-o a não ir.

Segurava, e segurava, mesmo que Erik tivesse uma vaga noção de que não deveria, de que havia algo errado nisso.

Aguente firme.

Eu estou bem aqui, Erik. Estou bem aqui... Eu não vou deixar você ir.

Suaves sussurros reconfortantes alcançaram Erik na escuridão, ecoando estranhamente.

Erik... Eu estou com você. Você não está sozinho.

Erik quase sentia como se a escuridão fosse vencer, ao puxa-lo para baixo, mas a estranha corda ainda estava agarrada nele.

Erik...

É a sua escolha. A escolha é sua, mas eu não vou deixá-lo.

Erik hesitou.

Eu estarei com você onde quer que vá.

Erik pairou e permaneceu.

Mas havia algo como uma força magnética atraindo-o para a luz que ele ainda podia sentir de forma tênue e, subitamente, Erik sentiu que ali estava algo que poderia agarrar, para leva-lo de volta.

Por um momento, que, simultaneamente, parecia como um piscar de olhos e uma eternidade, Erik hesitou entre os dois lados, entre a direção que ele sabia que já deveria ter tomado e aquela que estava tentando segurá-lo. Mas, conforme ele permanecia lá, frações de luz e calor deslizavam através da corda impedindo-o de afastar-se.

Deveria ter havido mais tempo, pensou Erik. Ele sempre achou que se acabasse ali, apenas seguiria em frente. Que não tinha razão alguma para voltar, que a vida que tivera na Terra já havia lhe mostrado tudo que existia. E não havia nada de bom nele – apenas dor e sofrimento. Até... até...

A consciência de Erik deslocou-se um pouco em direção à luz. Era como estar flutuando no mar, vendo a luz do sol através dos volumes de água acima. O fundo escuro e a superfície brilhante estavam equidistantes dele; ele estava no meio.

Era como se a luz do sol pudesse queimar seus olhos, consumi-lo e engoli-lo inteiro. A mente irracional de Erik perguntou se a luz era uma alma, a alma de outra pessoa - se essas coisas existiam a princípio. Real ou não, Erik sentiu um puxão em sua direção. Suas memórias confusas de repente evocaram o conceito de almas gêmeas, mas ele imediatamente pensou que era simplesmente ridículo e infantil, e afastou o pensamento como uma pluma irritante. Você não poderia ser atraído para uma alma, certo? O magnetismo não deve ser aplicado a tais conceitos abstratos. Certamente, o magnetismo não poderia ser aplicado à pessoas.

No entanto, as partes mais profundas da consciência de Erik pareciam, de repente, encontrar um meio de se erguer. Ele percebeu que poderia elevar-se acima da superfície, que tinha uma maneira de regressar.

Era a sua escolha, tal como os sussurros tinham dito.

Erik não chegou a escolher muitas coisas em sua vida. Ninguém lhe ofereceu a oportunidade de fazê-lo. Bem, até... até.

A existência de Erik pairou por um momento - esta era a sua decisão. Ele podia deixar-se afundar, seria tão fácil como adormecer.

Ou ele poderia se dirigir à luz. Ele poderia ter outra chance.

O tempo passou, mesmo que o conceito aqui fosse estranho.

Finalmente, Erik fez sua escolha.

Sua consciência estendeu a mão para o alto, para cima – para a luz solar. Com o auxílio da corda invisível. Em pouco tempo, a luz passou a ficar mais brilhante, e a superfície começou a aproximar-se dele a uma velocidade estonteante.

Pouco antes de Erik irromper na superfície, ele estava certo de que fizera a escolha certa.


Uma dor surda logo seguiu-se.

Erik ficou surpreso ao senti-la, ter sensações corporais novamente.

Mas, lentamente, desorientadoras faíscas de dor e sensação e ruído se fizeram presentes em sua consciência, apenas para deslizarem, se transformarem e desaparecem novamente.

Erik lembrou-se, então, que tinha um corpo, porque tomou conhecimento dele. Quieto e hirto, preenchido pela dor latejante e substâncias em suas veias, que o puxavam para baixo, hora após hora.

Em algum ponto, ele teve certeza de ter aberto os olhos, mas nada viu. Havia ruídos e sensações de ansiedade jorrando de algum lugar do lado de fora de si mesmo, e as pálpebras de Erik descenderam novamente.

Ele se sentia como se estivesse oscilando para frente e para trás – indo e vindo em direção aos ruídos e novamente para a escuridão, em uma dança sem fim.

Mas ele nunca mais voltou para o abismo ensurdecedor.

Nem mesmo uma vez.

Erik sentiu alguém mantê-lo em segurança, certificando-se de que não se afogaria de novo. Sua mente nebulosa quase reconhecia esse tipo de teimosia, quase... - antes de cair em um sono sem sonhos outra vez.


O tempo passou, embora Erik não tivesse certeza do quanto.


Cheiro de hospital.

Essa foi a primeira coisa que Erik reconheceu após um longo, longo tempo passado em estado obscuro - ele conheceria esse cheiro em qualquer lugar. Levou muito tempo, mas Erik, languidamente, conseguiu abrir os olhos – apropriadamente, ao contrário de antes – e a realidade de ímpeto colidiu.

O cheiro do hospital intensificou. Luzes brancas e muito luminosas que ardiam os olhos de Erik e perfuravam sua consciência. Som de chuva em algum lugar ao longe. Toque dos lençóis. Todo o seu corpo entorpecido, drogas que fluiam dentro de suas veias.

A mente vagarosa de Erik parou em confusão – ele não estava morto. Ele estava... definitivamente muito vivo.

Erik teve que piscar lentamente – as pálpebras pesadas como chumbo. Era como se houvesse pesadas cortinas suspensas entre ele e o mundo real, tornando difícil entender alguma coisa, para lembrar algo concreto. Tudo era vago e obscuro.

Erik, veio o sussurro repentino em sua consciência. Era como uma exalação transbordando emoções – um alívio tão forte que pareceu esmagador. Havia também alegria e preocupação, e elas estavam misturadas uma na outra e gradualmente jorraram na consciência de Erik.

Erik levou um tempo antes de perceber que tinha sido o seu nome a ser evocado. E que não fora um pensamento automático - ele viera de algum lugar do lado de fora. A voz soava familiar, e Erik sentiu que deveria reconhecê-la.

Erik tentou fixar os olhos em algo, sua visão nervosa e trêmula. Ele sentiu que alguém estava próximo, alguém importante e familiar, e tentou virar o rosto para essa direção. Foi um esforço horrível, como se um simples movimento pudesse drena-lo completamente.

Mas, em seguida, ele conseguiu, e os olhos de Erik vislumbram alguém ao seu lado. Quando sua visão entrou em foco, ele pousou seus olhos em Charles.

Charles.

A mente de Erik o reconheceu mais rápido do que seus pensamentos conscientes. Mas o fluxo de calor automático dentro de sua cabeça seguiu-se ao nome de Charles, e os olhos cansados de Erik fixaram-se nele, a visão lentamente nítida.

Charles estava lá, com anéis escuros sob os olhos, pele pálida e aparência exausta estampada no rosto. Seus olhos azuis estavam cheios de tantas emoções, tanto sentimento que Erik podia sentir alguns dos que chegavam até ele - o mais forte deles, alívio. A sensação o invadia em ondas – era estranho respirar – e ele buscou o olhar de Charles.

Quando seus olhos finalmente se encontraram, Charles fechou-os quase instantaneamente, como se fosse demais para ele, como se não pudesse se conter por muito tempo.

Como se estivesse esperando por Eras para ver os olhos de Erik novamente, mas no momento em que o fez isso ainda lhe tirasse o fôlego.

Longos segundos se passaram.

Erik vagamente percebeu que Charles estava tremendo um pouco. Parecia estar na iminência de se partir em pedaços. E, então, uma lágrima escapou do canto do olho direito de Charles, e a mente nebulosa de Erik sentiu uma ponta de preocupação. Por que Charles está chorando? O que estava errado? Erik não fazia idéia. Não tinha lembrança.

Charles engoliu em seco e abriu os olhos, piscando para impedir as lágrimas de caírem. Ele olhou para Erik novamente, mordendo o lábio e inclinando a cabeça com um olhar triste e aliviado em seu rosto, como se não pudesse acreditar que fosse real.

Como se Erik tivesse realizado algum tipo de milagre.

Erik sentiu a urgência de secar a lágrima da face de Charles, porque ele não gostava de vê-la lá.

Mas ele não tinha forças para fazer qualquer coisa, sequer se mover. E ele estava muito desorientado para lembrar como falar, então apenas ficou lá, olhando.

O quarto de hospital parecia distante, somente Charles parecia ser real.

Tudo o mais parecia sem importância. Sem significado. Então, Erik manteve sua atenção apenas nele.

Charles deu um suspiro trêmulo e instável e ergueu a mão de cima da cama. Erik levou alguns segundos para perceber que era sua própria mão – envolta em tubos e agulhas, e quase nenhum sentimento bom nisso. Em qualquer outro momento, Erik poderia sentir-se enojado ao ver tantos tubos invadindo sua própria pele, mas agora seu cérebro não tinha a capacidade de refletir sobre. Em vez disso, observou como Charles lentamente envolvia sua mão nas suas, com cuidado.

Por um momento, Charles ficou ali, parecendo tão frágil... Como se não pudesse expressar o que estava sentindo, como se não houvesse palavras para este encontro ou para a esperança e alívio que irradiavam dele. Então, sem dizer nada, Charles apertou a mão de Erik contra o seu rosto suavemente, como se pudesse quebrar com o toque. Sua respiração era instável, porém quente de encontro a pele de Erik. Charles engoliu em seco e, em seguida, deu um beijo suave na mão de Erik - havia um tom de desespero no gesto, e Erik podia quase ter certeza de tê-lo visto fazer a mesma coisa com alguém muito tempo atrás... mas não podia forçar a memória.

Em silêncio, Charles deitou suas mãos unidas na cama cuidando para não causar qualquer dor, seus movimentos leves como uma pluma. Então, acenou um sorriso triste para Erik – como se tentando parecer mais valente do que realmente se sentia.

Durma um pouco, Charles disse serenamente sem o uso de palavras faladas, ainda sorrindo e mal contendo as lágrimas. Sem os vários meses vividos com a ligação entre suas mentes, a mente de Erik estava trabalhando lentamente e a lógica teria afirmado não ser possível ter ouvido Charles sem que ele tivesse falado, mas seu sub-consciente apenas aceitou. Erik sentiu um fluxo de conforto chegando até sua mente, e uma miscelânea de SeguroDurmaSeguroErikDescanse, e Erik confiou em Charles automaticamente.

Ele deixou suas pálpebras descerem novamente.


Depois disso, ele começou a acordar com mais frequência.

Toda vez que acontecia, Erik se sentia cada vez mais alerta, mas também com um pouco mais de dor. Ele só acordava por um minuto ou dois, apenas abrindo os olhos e olhando o entorno da sala.

Charles estava sempre lá.

Sempre.

Sentado do lado esquerdo da cama de Erik, não importa em que momento Erik acordasse. Noite, dia, tarde – não importa.

Apesar de quão exausto e desgastado Charles parecia, ele estava sempre lá, sorrindo suavemente e encorajador, apesar da dor oculta em seus olhos, pairando ao seu lado, preocupado.

Apesar de dar a impressão de poder partir-se em pedaços, Charles apenas sempre sorria e apertava a mão de Erik, irradiando conforto e segurança e pensamentos cálidos em sua mente.

Erik não tinha energia para falar, então ele se limitava a escutar o link – agora que se lembrava da sua existência. Ele ouvia a presença de Charles, os pequenos ecos de suas emoções. Isso curava mais que qualquer droga que lhe deram.

Às vezes, quando Erik já estava à beira do sono, ele sentia uma suave carícia em seu braço, como uma promessa de que nunca estava sozinho.


Após acordar e adormecer inúmeras vezes, Erik tinha mais e mais certeza de que não estava morto, ou que morreria tão cedo. Como tudo ainda era confuso, sua mente lenta chegava à conclusão de que ele estava vivo. E de que esse fato provavelmente não mudaria.

Mas o tempo ainda passou como um borrão.


Depois do que pareceu ser uma pequena eternidade, Erik vagarosamente acordou e imediatamente percebeu que algo estava diferente. Seus sentidos pareciam mais nítidos, e todo o mundo parecia estar mais tangível que nunca. Como se ele não estivesse à beira do escuro esquecimento o tempo todo. Seu cérebro parecia funcionar – lentamente – porém o suficiente para começar a verbalizar pensamentos e tirar conclusões. Saber onde estava e por quê.

Era uma manhã bem cedo quando aconteceu. Ainda não estava claro lá fora.

Quando Erik abriu os olhos, ele não se sentiu como se estivesse imergindo das profundezas. Dessa vez, o processo foi mais suave, mais fácil. Seus pensamentos não eram tão confusos.

Erik instintivamente procurou Charles, e ele estava lá, no lado esquerdo da cama de hospital, como sempre estivera.

Erik engoliu em seco quando fixou seus olhos no rosto de Charles. Ele parecia tão exausto como jamais estivera, mas claramente não se importava consigo mesmo.

Por um momento, apenas o som de um relógio na parede do hospital era o único na sala.

As cortinas da janela estavam fechadas.

Erik deu um longo suspiro e estudou Charles por um tempo. Parecia calmo, como se não tivesse pressa com nada. Ele deixou seus olhos vagarem por um tempo, vendo apenas o rosto de Charles, cada polegada dele.

Charles parecia notar que Erik estava mais alerta que o normal. Ele estudou Erik com um olhar suave no rosto.

- Ei – ele disse com voz rouca.

Erik tentou responder, mas sua garganta estava muito seca pela falta de uso. Na primeira tentativa ele só conseguiu produzir um chiado. Depois, engoliu, tossiu uma vez e tentou novamente.

- Ei – ele respondeu calmamente.

Isso rendeu um sorriso em Charles.

Houve uma pausa e Charles inclinou a cabeça, como que calculando se Erik estava pronto para falar mais.

- Como está se sentindo? – ele perguntou cautelosamente, seus dedos envolvendo o pulso de Erik. Erik olhou para o próprio braço estendido na cama, e a forma que os dedos de Charles pareciam envolve-lo. Seus lábios se esticaram num leve sorriso, apesar de sentir como se o próprio corpo tivesse sido atropelado por um caminhão – repetidamente. Erik voltou os olhos preguiçosamente para Charles.

- Bem melhor – ele murmurou, cansado.

Charles suspirou e balançou a cabeça, dando um pequeno sorriso para Erik, mas também muito reservado, como se suas emoções estivessem em todo lugar sob a fachada serena.

- Certamente você está – Charles sussurou, e algo quase como culpa escureceu seu rosto. Ele baixou os olhos, engolindo em seco. Erik podia sentir um aumento da auto-aversão sangrando através do link a partir da extremidade de Charles. Erik sentiu-se frustrado por captá-lo, mesmo que levasse um instante para perceber o porquê, quando então as memórias começaram a fluir lentamente: a Chimera, Reach, os policiais... suas memórias eram borradas e não tinham detalhes, mas ele não aguentava ver a culpa refletida nos ombros caídos e na face de Charles.

Não ... não se culpe, ele enviou a Charles.

Charles olhou para cima, surpreso, como se não tivesse suspeitado que Erik poderia pegar algumas coisas da sua extremidade do link. Então, ele se virou para pedir desculpas.

- Eu... sinto muito. Você não deveria... Meus escudos e bloqueios não estão no seu melhor dia.

Erik bufou, cansado. É claro que não estavam – Charles parecia não ter dormido em anos. Erik olhou para o hematoma no rosto dele – agora quase completamente desbotado, o restante adquirindo um tom esverdeado como se estivesse se curando. Logo, ele terá desaparecido de todo. Erik percebeu que não fazia idéia de quanto tempo se passara desde que... desde então.

- Quanto... Quanto tempo? – perguntou.

Charles engoliu em seco, como se odiasse dizer.

- Três... quase quatro semanas – disse, quase inaudível. Eles não precisavam se dizer o que significava, ambos sabiam. Erik ficou surpreso com a enorme quantidade de tempo que tinha transcorrido no esquecimento, sem ter memórias apropriadas de nada. Sem saber se ele estava vivo ou morto.

Charles de repente piscou com força, como se estivesse segurando as lágrimas novamente. Ele tentou olhar para Erik, mas depois teve de voltar o olhar para a parede oposta.

- Foi... Foi por um triz – ele resfolegou. – Você... você quase... – mas sua voz quebrou-se e ele baixou o olhar para o seu colo uma vez mais, os dedos apertando em torno do pulso de Erik.

Erik deu um longo suspiro.

Havia uma planta na frente da janela, subitamente ele percebeu.

A despeito disso, o quarto era grande e impertubável. O ar cheirava à limpeza, mas ainda parecia pesado.

Era como se a tristeza de Charles persistisse em todos os lugares, incontida. Como se corroesse o próprio oxigênio.

Como se toda a sala pudesse sentir as coisas quebradas dentro dele, a forma como sua mente dolorida se sentia crua, rasgada, sangrando – mesmo através de todos os escudos cuidadosos e fortes que ele estava tentando manter.

Erik suspirou. Havia tanta coisa que ele queria dizer, mas falar parecia cansativo, então ele tinha que manter as coisas simples. E Erik sentiu-se preocupado ao ver Charles assim, obviamente dolorido e exausto.

- Como... Como você está? – perguntou, tentando recuperar uma aparência apropriada para ele.

Charles olhou para cima, surpreso.

- Eu? – ele indagou, incrédulo. Então, ele balançou a cabeça e soltou um bufo. Mas Erik olhou para ele, preocupado.

- Sim. Você – ele disse, porque não tinha vontade de formar uma sentença mais longa.

Charles pareceu achar uma pergunta ridícula, que, de modo algum, Erik deveria estar preocupado com ele naquele momento. Mas, em seguida, deu de ombros.

- Estou bem – disse e olhou para Erik. Por alguns segundos, porém, ele hesitou, e Erik instantaneamente soube que havia algo que Charles estava deixando de fora. Ele endureceu e olhou para Charles mais exigente, o seu monitor cardíaco apitou com maior frequência.

O que é?, Erik enviou.

Ele não podia suportar o simples pensamento de Charles estar ferido.

Charles olhou preocupado para as máquinas apitando alto, em seguida para Erik.

- Nada. Nada. Acalme-se. Foi apenas... – sua voz sumiu e ele hesitou novamente. Então, baixou a voz e suspirou. – Eu só fui atingido de raspão por uma bala. Ela quase não me feriu – ele começou a explicar em tom casual, mas Erik se moveu instantaneamente para a frente em um assomo de preocupação, o que fez com que todos os seus curativos e pontos e tubos o lembrassem que estavam ali e ele não pôde deixar de estremecer com a dor súbita.

- Erik! – Charles gritou e pôs a mão em seu braço, aumentando a pressão para sinalizar que ele não devia se mexer. – Fique parado – Charles sussurrou, olhando para ele preocupado.

Você foi ferido, os pensamentos altos de Erik vibraram através do seu link. Sua mente imediatamente lembrou-se de Raven e sua arma contra a cabeça de Charles, mas Charles apressou-se:

- Mal um arranhão, Erik, como eu disse. Estou bem, eu realmente estou. – ele deu um suspiro, voltando seus olhos para Erik, encarando-o.

Erik lentamente se acalmou, e afundou no leito de novo.

Charles também afastou-se um pouco. Houve um curto silêncio.

- Afinal, você levou todas as balas... – Charles sussurrou, e havia algo sombrio no tom da sua voz, quase como uma acusação dolorida.

Mas Erik sentia-se calmo. Não havia modo algum de ele se arrepender. Ele pestanejou lentamente.

- Eu faria... faria de novo. – disse.

Charles olhou para ele por um tempo, e lentamente tornou a parecer doído.

- É isso... isso que me preocupa – disse ele tão baixo que Erik mal ouviu. Em seguida, porém, Charles rapidamente balançou a cabeça, como que tentando arejar seus pensamentos. - Mas agora não é o momento. Você precisa descansar.

Erik soltou um bufo lento.

- Isso é tudo o que eu faço – murmurou. Ele sabia que Charles estava tentando evitar o assunto anterior, e ele não estava disposto a deixar passar. – Onde você foi ferido?

- Erik...

-Charles, me diga.

- Isso não impor...

- Charles – Erik interrompeu, dando-lhe um olhar significativo e tomando fôlego de forma exasperada. Charles deu a impressão de estar prestes a discutir, mas depois pareceu adivinhar que Erik não recuaria. Então, devagar, suspirou e colocou a mão na sua lateral, acima das costelas.

- Aqui.

Erik sentiu raiva ao saber e lançou um olhar preocupado. Charles apenas balançou a cabeça novamente.

- Mas já está curado. Eu nunca estive em perigo – ele fez uma pausa. Mais uma vez, a familiar sombra cruzou seu rosto. – Ao contrário... ao contrário de você.

Erik apenas ignorou o comentário e concentrou-se no rosto de Charles. Então, perdeu-se em estudá-lo – agora que tinha as inforamções básicas sobre o que acontecera, ele sentiu-se em paz. Ambos caíram em silêncio enquanto Erik observava Charles polegada a polegada, uma avalanche de emoções de repente à tona em seu peito. Ele sentia-se imensamente grato pelo fato de ambos estarem ali. Que... que Charles estivesse vivo e bem. Essa era a única coisa que importava. Que eles tinham escapado. Erik sentiu uma onda incrivelmente forte de carinho enchendo-o, e teve que semicerrar os olhos, mordendo o interior do lábio.

Erik sentiu o mais estranho desejo de aproximar sua mão de Charles, mas sabia que isso, provavelmente, não era uma boa idéia no estado destroçado que seu corpo estava. Ele fixou os olhos em Charles, tentando abafar as emoções fortíssimas e as dores de ânsia no peito. Mas, sobretudo, ele se sentia preocupado por ver quão desgastado Charles claramente estava.

- Você está horrível – Erik disse calmamente.

Charles bufou e quase parecia envergonhado, e tornou a voltar o olhar para seu colo. Erik já se sentia cansado de falar em voz alta, então ele usou o link.

Qual foi a última vez que você teve um bom descanso?

Charles não respondeu. Erik franziu o cenho - Charles sempre foi muito descuidado consigo mesmo. Tão altruísta. A resposta era óbvia, todavia – Charles, provavelmente, não tinha se ausentado da sala, a menos que absolutamente necessário. Erik queria lembrá-lo do quão negligentemente estava agindo, o quão ridículo isso era, mas não tinha energia para tal. E Erik ainda podia lembrar-se vividamente de como ele fizera o mesmo depois de ter resgatado Charles da sede da Chimera, como tinha passado noites infinitas em cadeiras desconfortáveis hospitalares e lá dormido, acordando com todos os tipos de dores pelas manhãs.

Erik deixou sua mente vagar.

Havia tanto a se dizer.

Desde o momento que Erik tirou Charles da sede da Chimera, as suas combinações mentais, até o ponto em que Erik afundara os dentes no pescoço de Reach e esmagado sua artéria para manter Charles vivo.

Tudo o que acontecera nos últimos meses - cada pensamento, toque, sensação, conclusão - que pedia para ser dito.

Erik podia sentir todas aquelas coisas pairando no ar.

E, de súbito, lembrou do último momento nas docas – do que ele fizera. E o que dissera a Charles – o que foram, então, suas últimas palavras. Erik sentiu, de repente, um calor rastejando em seu rosto, e a vaga lembrança dos lábios de Charles contra os seus. Erik rapidamente sentiu-se auto-consciente – ele não tinha se lembrado daquele momento até então. Provavelmente, Erik nunca diria nada disso sem ter a certeza absoluta de que permaneceriam como seus últimos instantes. Não era como se ele se arrependesse – de modo algum, mas... ele só não sabia o que isso poderia significar no futuro. Ele não sabia que coisas isso poderia mudar.

Mas Erik também estava certo de que Charles jamais comentaria sobre isso antes dele sentir-se melhor, antes de recuperar-se o suficiente. Isso teria que esperar, não importa o quanto Erik desejasse o oposto. Então, ele tentou afastar os pensamentos e concentrar-se na situação que tinha em mãos.

Ele respirou cuidadoso, por muito tempo.

Ocorreu-lhe, de repente, o pensamento do quão lesados eles foram pela Chimera. Não só fisicamente, mas mentalmente. Havia tantas coisas a resolver, tantas coisas a curar... Mas isso teria que ficar para mais tarde. Uma coisa de cada vez. Agora, o que Erik queria saber era o que tinha acontecido no período entre as docas e o hospital. Porém, Charles pareceu captar seu pensamento porque olhou para Erik e sacudiu a cabaça.

- Mais tarde – disse em voz baixa, e esboçou um leve sorriso para ele. – Você precisa descansar – acrescentou, dando um aperto suave no pulso de Erik.

Erik queria ter discutido, queria ter perguntado, mas o pouco tempo que tinha passado acordado já se esgotara para ele. Então, relutantemente, fechou os olhos e deixou-se levar novamente.


Enfermeiros e médicos iam e vinham.

Os dias seguintes passaram-se no cansado turvamento, enquanto a consciência de Erik ia lentamente voltando ao normal.


Na próxima vez em que que acordou adequadamente, Erik quase se sentiu como ele mesmo. Bem, ao menos mentalmente - os seus pensamentos eram afiados e focados novamente depois de um tempo muito longo, embora ainda pudesse detectar a vaga presença de drogas em seu sistema.

O quarto estava escuro.

Erik pestanejou, abrindo os olhos lentamente, apenas para perceber que já estavam no meio da noite. A luz azul vinda através das janelas encheu o quarto do hospital. Estava chovendo de novo, e longos filetes de água deslizavam pelas janelas do hospital.

Erik virou a cabeça - apenas para encontrar Charles ao lado dele novamente, mas desta vez ele tinha colocado os cotovelos sobre a cama, apoiando-se neles, enterrando o rosto entre os braços, o cabelo bagunçado esparramado pelo lençol branco. Erik poderia dizer de imediato que Charles estava dormindo, e olhou para ele com frustração e paixão. Teimoso Charles - ele havia se recusado a sair do lado de Erik, mas o esgotamento conseguiu vencê-lo. Não havia forma de se sentir confortável nessa posição, mas Erik não queria acorda-lo quando ele finalmente conseguira ter algum tipo de descanso.

Erik respirou fundo e, por um momento, apenas ouviu a chuva e seu monitor cardíaco apitar calmamente. Ele olhou para o teto por um tempo.

Era estranhamente tranquilizador, isso.

Segundos se passavam.

Erik sempre tinha odiado hospitais, mas agora era como se fosse um refúgio seguro. A Chimera tinha sido destruída, e a sensação do perigo interminável na sua cabeça e instintos tinha ido embora. Charles estava bem ali ao lado dele, e ambos estavam, de forma geral, inteiros. Ou, pelo menos, ficariam.

Isso era tudo o que Erik precisava.

Isso era suficiente para ele por enquanto.

Ele quase não podia acreditar que o pesadelo tinha acabado, que as coisas poderiam voltar remotamente à normalidade. Exceto que o normal não era muito normal – precisava ser redefinido.

Erik olhou mais uma vez para a forma adormecida de Charles. Charles tomara cuidado para não colocar um de seus braços sobre Erik, então não causaria qualquer dor ou dano ao seu corpo convalescente. Erik sequer sabia quanto dano físico realmente sofrera – ele teria que pedir explicação em breve. Mas não agora. Não essa noite.

A chuva parecia relaxante.

Erik mordeu o lábio e ergueu a mão da cama vagoramente, porque suas reações ainda eram lentas – e também para que não acordasse Charles. Ele deslizou os dedos pela curva do braço de Charles e pousou sua mão sobre a cabeça, enroscando os dedos em seus cabelos.

O link na parte de trás da sua mente cantarolava em resposta, ampliado pelo toque físico. Erik suspirou de satisfação por senti-lo. Era acolhedor e intimista, como sempre. E ele estava muito feliz pelo link ainda estar intacto, em seu devido lugar. Erik podia localizar alguns ecos sonolentos de Charles e, por um breve instante, se perguntou o que ele estaria sonhando.

O tempo passou.

Erik sentiu uma onda de protecionismo em direção a Charles. Tinha se tornado quase uma segunda natureza nele, aparentemente.

Ele fechou os dedos suavemente contra o braço de Charles, e sua ligação cintilou um pouco por isso. Erik ouviu seu monitor cardíaco acelerar. Por um momento, ele ouviu, uma sensação estranha na boca do estômago, e algo quase como confusão tímida tomando conta dele. No fim, Erik decidiu ignorar a coisa toda.

Ele roubou o momento para si mesmo. Seu corpo poderia estar imóvel e sob o efeito de drogas pesadas, mas suas mãos funcionavam bem e ele tinha a sensação adequada na ponta dos dedos. A pele de Charles estava quente, e Erik teve o mais estranho anseio de senti-la contra a sua própria. Ele deve ter ficado assim por ambos terem compartilhado cama e fundirem as mentes, distantemente pensou consigo.

Charles não se mexeu e, devido ao toque físico, Erik podia ouvir seus batimentos cardíacos fracamente através do link. Eram tranquilos e lentos, como deve ser durante o sono. Os de Erik ainda estavam muito rápido, mas ele não deu atenção a isso. Deixou-se perder-se no Thum Thum constante na parte de trás da sua cabeça. Momentaneamente, Erik fechou os olhos por estar deveras agradecido. Ele teria prazer em morrer por isso, para ficarem os dois no mundo. Ele não se arrependia de nada do que tinha feito. Ele se jogaria na frente de balas cem vezes mais se isso significasse ouvir o batimento cardíaco de Charles, sentir o seu link... sentir-se assim.

Erik não tinha a menor preocupação com o mundo exterior.

Estava tudo bem, porque o seu mundo era aquele pequeno quarto de hospital – ele tinha tudo que precisava ali mesmo.

Por um momento, isso era tudo o que Erik poderia ter querido, porque era tudo o que quase tinha perdido.

Erik se recusou a retratar Reach, sentir remorso ou nojo do que tinha feito com ele. Reach ainda era Charles, vítima da Chimera como todos os demais, mas... Erik, irreversivelmente, tinha sido vinculado a esta versão de Charles, do seu Charles – o único com quem estiver unido após a fuga da sede. Não havia modo dele poder quebrar o domínio que Charles exercia sobre ele agora. Nem mesmo se o link fosse rompido, nem mesmo assim. Erik tinha todas as chances de virar as costas, deixar isso para trás e ir embora. Mas ele não podia. Não de qualquer forma. Ele tinha ficado. Fora sua escolha, assim como Charles sempre quis que fosse. E Erik entendeu, em um momento de silêncio, que se alguém tentasse força-lo a ficar, se preocupar, envolver-se – ele não o faria. Mas... Charles nunca lhe pediu para estar presente, para ficar ou fazer qualquer coisa. Todavia, Erik tinha ficado.

Ele não tinha vontade de partir.

Porque a calma que ele sentia em seu peito era boa demais para ser errada.

Erik acariciou a pele de Charles gentilmente, distraidamente. Mas, mesmo assim, o contato parecia queimar levemente as pontas dos dedos, pulsando em suas terminações nervosas.

A atenção de Erik foi subitamente atraída para os pilares de luz do corredor que se refletiram no chão - agora se movendo. Erik congelou e olhou para a porta. Antes que seus sentidos tivessem tempo de responder ao estímulo ou ficarem alertas, ele já havia reconhecido a figura atrás da porta. Erik a encarou por um momento em surpresa, então suspirou e revirou os olhos. Ele relaxou de encontro a cama.

Erik apenas acenou com a cabeça em um gesto de concordância. Com uma leve brisa de ar, Leap teletransportou-se para dentro do quarto. Ele estava prestes a explodir em uma saudação alta, mas Erik deu-lhe um olhar significativo, silenciando-o, e apontou para Charles. Leap compreendeu e fez uma careta a modo de sorriso, jogando um braço no ar como num gesto de conformação – o outro braço envolto em uma tipóia.

Erik deu uma rápida olhada no teletransportador dos pés à cabeça – ele estava vestindo uma bata hospitalar, e claramente tinha muitos pontos e ataduras em seu tórax, mas, em geral, parecia bem.

- Ei, Magneto, cara! - Leap sussurrou baixinho, mas super excitado. Ele olhou para Erik com muito entusiasmo.

O jovem teletransportador quase começou uma nova frase, quando, ato contínuo, avistou Charles e pareceu confuso.

- Por que o cara aleijado irritado está dormindo aí? Não é desconfortável? – ele perguntou, erguendo uma sobrancelha.

Erik congelou por um momento ante as palavras utilizadas por Leap, até se lembrar de que quando Leap conheceu Charles pela primeira vez, ele não estava exatamente no seu melhor. Tinha sido pouco tempo depois de Charles saber da morte de Hank.

Erik abriu a boca, mas Leap não parecia esperar uma resposta, ele apenas se aproximou e olhou para os monitores e máquinas ao redor da cama de Erik.

- Nossa, você fez uma confusão. Quero dizer, quatro balas... que louco!

Erik alçou uma sobrancelha.

- Quatro? – ele só conseguia se lembrar de três delas o perfurando.

Leap assentiu.

- Sim, sim. Duas na sua perna, uma nas suas costas e, em seguida, uma no seu ombro. Muitas pessoas não conseguiriam viver para contar história!

Erik olhou para Charles, verificando se a conversa sussurrada o tinha acordado, mas ele não parecia se mexer. Provavelmente, estava demasiado cansado para isso. Então, Erik voltou-se para Leap, pensando no que o teletransportador tinha dito. Ele arqueou a sobrancelha.

- Como... Como você sabe sobre as balas? – perguntou, desconfiado.

Leap deu de ombros, usando o ombro saudável.

- Bem, quem não saberia? Você tem sido manchete há um mês.

Os olhos de Erik se arregalaram um pouco.

- O que? – ele sussurrou, quase se esquecendo de falar baixo.

Leap parecia confuso. Ele olhou para Erik, então para Charles.

- Ele não disse a você, então? – perguntou, apontando para Charles. Erik não respondeu, apenas olhou para Leap com expectativa. Leap parecia ficar animado com o fato de ter que explicar. Ele respirou fundo.

- Eles o transformaram num herói trágico, Magneto. Quero dizer, a imprensa e os humanos descobriram sobre a Chimera – grande coisa – e isso é tudo o que ouvimos falar há cerca de um mês. As pessoas têm acendido velas para os mutantes mortos, realizado protestos contra a discriminação mutante, afirmando que as pessoas remanescentes da Chimera devem enfrentar a Justiça adequadamente... Você deve ver os jornais. Eles estão incríveis! E fizeram de você um símbolo da coisa toda! Isso não é legal, cara?

Erik piscou, surpreso.

- O que você quer dizer?

Leap riu.

- Bem, todo mundo conhece a história do Salvador do Rio. Tipo, qual é, a polícia disparou em você – assim por diante, em mutantes inocentes, certo? Quero dizer, sim, a polícia não sabia de nada, mas ainda assim... De qualquer forma, quando a mídia descobriu sobre tudo da Chimera, ela fez um escândalo – para, você sabe, vender jormais – e escreveu uma história sobre você. Quero dizer, um sobrevivente do Holocausto que mergulha atrás do amigo paralítico que foi empurrado no rio por um policial? Isso é tão devastador quanto se pode imaginar! Logo, logo esse material apareceu em cada cobertura. Era como uma história de amor, sabe – as pessoas se sentiram mal por você e isso meio que alimentou todo o movimento anti-Chimera.

Erik só podia encarar Leap com espanto. Ele tentou pensar sobre isso – parecia quase bom demais para ser verdade que os humanos estivessem do seu lado. Erik supôs que a maioria das coisas feitas pela Chimera fora mantida em segredo e que não veria a luz do dia tão cedo ou, provavelmente, jamais. Mas o que tinha sucedido no exterior do edifício deve ter sido muito dificil de esquecer, mesmo para os humanos, uma vez que havia muitos jornalistas e pessoas ali então presentes, além de muitos agentes policiais, tiros e corpos.

Erik ficou em silêncio por um tempo, pensando sobre isso.

A Chimera realmente não perecera silenciosamente, ao que parecia.

Leap apoiou-se no outro pé.

- Você sabe, havia um monte de pessoas mortas e outras coisas. Quero dizer, fora daquela prisão da Chimera... Os humanos têm feito memoriais e todo esse tipo de evento chique tradicional – Leap acrescentou.

Erik engoliu em seco. Ele se sentiu um pouco afetado com a coisa toda – em parte grato pela súbita empatia demonstrada aos mutantes, em parte com raiva ao saber que, sem perdas humanas, a Chimera provavelmente não teria sido um notícia tão grande. Mas com inúmeros mutantes torturados até a morte e a queda violenta de toda a organização, e as mortes que se seguiram... toda a questão mutante parecia ter se tornado um grande debate político e midiático, segundo Leap. Erik olhou para Charles – provavelemnte ele diria que, apesar do aspecto trágico disso, a comoção da opinião pública ajudava ainda mais a causa mutante. Porque Charles tinha dito certa vez que a opinião pública era tudo.

Erik, então, percebeu que algo de bom poderia ter saído de todo o pesadelo Chimera, no final das contas.

Mas em seguida ele congelou por um momento em que sua mente relacionou todos os detalhes. Erik voltou-se para Leap.

- Eles sabem que... que o Salvador do Rio – ou qualquer coisa ridícula pelo que me chamam – e Magneto são a mesma pessoa? Que ambos sou eu?

Leap pareceu confuso por um momento.

- Nah. Acho que não. Eles só acharam que você fosse um cara mutante aleatório, que salvou um paralítico do rio. Mas ainda assim, eu acho que você vai afundar a história. Digo, você puxou um cara paralisado do rio e, em seguida, também levou quatro balas por ele. Essa é a melhor história drama queen!

Erik virou-se para olhar para a parede oposta, os pensamentos girando. Ele não tinha certeza de como se sentir-se sobre isso, sobre ter sido transformado em uma espécie de herói. Ele, normalmente, tinha sido o seu oposto – precisamente o oposto. E não era como se Erik se sentisse exatamente heróico sobre o que tinha feito - não tinha sido uma escolha consciente, porque não havia o que decidir. Não havia forma alguma de Erik não ter saltado no rio atrás de Charles. Ou ter ficado na frente das balas. Porém, se isso ajudava a causa mutante, Erik achou que estava bem com isso. E também não era como se ele pudesse fazer qualquer coisa a respeito.

Houve um pequeno silêncio, antes de Leap falar novamente.

- Além do mais, estou totalmente de bem com a forma que seu amigo aleijado...

- O nome dele é Charles – Erik interrompeu com uma pequena irritação, e deu a Leap um olhar significativo. Ele sentiu uma ligeira agitação irradiada do link quando chamou o seu nome – como se Charles resconhecesse seu nome quando fora chamado – mas, então, a pequena consciência desapareceu novamente.

Leap levantou o braço no ar defensivamente.

- Ok, sim, que seja. Mas... Eu só queria que você soubesse que estou totalmente de bem com seu... amigo... por, uh, ter usado meus poderes com o poder dele e nos tirar daquela mansão grande pra cacete rumo ao hospital. Quero dizer, meu coração parou e toda essa merda, mas ainda... estou vivo. E eu tenho a cicatriz mais legal! Você sabe - quantas pessoas foram esfaqueadas e tudo? As gatas gostam desse tipo de coisa!

Erik quase quis gemer em voz alta porque Leap era tão ridiculamente jovem e inocente ainda, apesar do que tinha experimentado.

O jovem teletransportador lançou um olhar cauteloso para Charles.

- Ele é meio assombroso, sabe. Ele pode fazer tanta coisa assustadora... Digo, a coisa que ele fez de puxar você do coma...

O rosto de Erik desencaixou e seus olhos afiaram.

- Que coma? Do que está falando? – perguntou instantaneamente, o tom exigente.

Leap parecia perplexo.

- Oh, ele não te disse? – indagou, surpreso. Então franziu a testa. – O cara não te disse nada! – brincou e sorriu, mas Erik lançou-lhe um olhar tal de advertência que ele se aquietou e voltou a ficar sério.

Leap apoiou-se no outro pé novamente e procurou as palavras certas. Ele olhou para Charles com algo parecido a respeito.

- Sim, você sabe... - ele começou. - Quando eles o trouxeram para o hospital... você tinha perdido muito sangue, Magneto. Você parecia horrível – desculpa, cara, mas você realmente parecia, eu vi - e eles estavam quase desistindo de você, sabe, parar de operar. Na verdade, eu acho que eles fizeram isso, mas acho que seu amigo fez essa magia mental e os médicos continuaram mesmo assim. Você ainda estava... morto, sabe... e, em seguida, seu amigo meio que desfaleceu também e vocês entraram ambos em coma, ou algo assim, por volta de três dias. Mas, então, ele acordou, e depois de algum tempo eles viram alguma atividade cerebral em você também. E então você começou a se recuperar.

Erik estava quase sem palavras, e respirou tão fundo que a ferida no ombro protestou em resposta, como uma pontada de raiva, apesar dos analgésicos.

Charles tinha... Charles se recusou a deixá-lo ir? Tinha feito os médicos prosseguirem mesmo quando era supostamente uma causa perdida? O pensamento parecia trazer algumas lembranças muito vagas em sua cabeça - sobre a escuridão e vozes e recobrando o sentido – e, uma fraca luz constante. Mas não havia nada coerente. Devagar, Erik percebeu que Charles, provavelmente, tinha forçado o link a não quebrar – tão perigosamente quanto parecia.

O cérebro de Erik tentou processar a nova informação por algum tempo.
Charles tendo ido tão longe por ele... era realmente algo. Chocava Erik o fato de Charles ter controlado a mente de pessoas por causa dele, por vontade própria. Mesmo sendo uma situação de vida ou morte – ainda assim. Charles deve ter ficado verdadeiramente desesperado ao ponto de intervir.

Mas Erik mal podia acreditar ou aceitar a simples idéia de que Charles havia segurado o link tão loucamente a ponto de ir até Erik – dentro do coma – para mante-lo vivo e, então, puxá-lo de volta ao seu corpo. Erik nem sabia o que pensar sobre isso. Que Charles iria... iria arriscar sua vida de forma tão descuidada apenas para mantê-lo vivo. Que Charles tinha se arriscado por ambos podendo acabar em morte cerebral ou coisa pior – ao invés de apenas deixa-lo morrer.

Erik cerrou os dentes e olhou para Charles - esse idiota teimoso. Esse cabeça-dura, idiota altruísta.

Mas ainda que ele pensasse assim, percebeu que Charles devia ter pensado o mesmo nas docas. Que Erik tinha sido imprudente e louco para protegê-lo das balas com seu próprio corpo. A realização e os paralelos disso fizeram Erik congelar e olhar para a forma adormecida de Charles com tanto carinho, que parecia que seu peito poderia estourar, apesar da irritação mesclada.

Ao que parecia, eles estavam realmente condenados quando se tratava de um em relação ao outro.

Erik ficou ali por algum tempo, apenas tomado pelo espanto.

Leap limpou a garganta. Erik se assustou um pouco e se virou para fita-lo como se só então houvesse se lembrado que ele ainda estava no quarto. Leap soltou um assobio baixo e olhou com estranheza.

- Certo, não me deixe acendendo vela, cara, mas...

Erik engoliu em seco, quase se sentindo encabulado, mas endureceu as feições novamente.

- Você ouviu falar dos outros membros da Irmandade? - perguntou ele de forma mais eficiente.

Leap enfiou a mão saudável em seu bolso.

- Eu ouvi dizer que Emma escapou. Mas não sei para onde. Não sei sobre os outros também.

Erik assentiu levemente, pensando a respeito por um momento. Sentia-se estranhamente relutante em reunir sua equipe de volta, mas ele sabia que os ramos existentes da Chimera tinham que ser extirpados. Ele deu a Leap um olhar crítico.

- Considerando que você está bem o suficiente, e se ainda deseja fazer parte da Irmandade, eu quero que vá e procure os outros membros, Leap. Encontre-os e reuna-os. Eu quero que vá atrás das pessoas da Chimera que ainda estão por aí, e as derrube.

Os olhos de Leap se arregalaram um pouco e ele pareceu repentinamente desconfortável.

- Quer dizer, tipo... matá-los?

Erik abriu a boca para responder, mas então hesitou. Ele olhou para Charles de repente, sabendo que ele jamais aprovaria isso. Que ele reclamaria, falando que assassinato e violência não são o caminho certo para resolver as coisas, que era errado. Erik quase virou-se para responder sim de qualquer forma, apenas por força do hábito e do seu ainda forte ódio da Chimera, porém, no último instante, ele parou. Em vez disso, soltou um pequeno suspiro.

-Não, Leap. Matá-los somente se não houver escolha. Porque se é verdade o que você disse, é possível simplesmente entregar esses traidores para a polícia e eles cuidarão disso da sua maneira. O frenesi da mídia, a humilhação pública e uma pena prisional devem servir-lhes bem.

Leap pareceu aliviado.

- Sim, cara! Serve! - ele se alegrou, batendo com o punho no ar.

Erik deixou escapar um sorriso, balançando a cabeça um pouco, tanto para o jovem teletransportador como para si mesmo. Charles simplesmente mudara a sua forma de pensar sem dizer uma só palavra, sem sequer tomar parte na conversa. Era verdadeiramente notável. Quase... assustador. Mas, Erik finalmente percebeu que Charles estava certo - a opinião pública liquidava o assunto. Se ela poderia ser, de fato, utilizada para ajudar a sua causa, também deveria ser considerada com mais cuidado no futuro. E, certamente, não fazia sentido ter a Irmandade nas manchetes por assassinato. Se os sobreviventes que trabalhavam para a Chimera ainda causassem qualquer outro dano, então Erik ou a Irmandade sem dúvida os derrubariam sem nenhum pesar - com certeza. Mas Erik poderia entrar em acordo com o fato de que, apesar de eventuais diferenças ideológicas, todos queriam que os mutantes fossem vistos sob novas luzes. Essa situação pró-mutante poderia não durar para sempre, mas agora soava melhor do que nunca.

Talvez houvesse esperança para eles no fim das contas.

Talvez ao menos houvesse algum sentido no modo de pensar de Charles - Erik conseguia admitir, mesmo que ainda não conseguisse concordar de todo.

- Eu irei e encontrarei os membros da nossa equipe assim que me livrar dessa tipóia – Leap prometeu. – Fiquei preso aqui por muito tempo, de qualquer maneira. Eu acho que vou começar procurando Emma – disse ele e corou um pouco. Erik apenas fitou-o, não impressionado – estava claro que Leap iria por Emma em primeiro lugar.

Leap notou seu olhar e deu um sorriso tímido.

- Tem algo sobre telepatas, você sabe... – disse e piscou o olho para Erik, rindo.

Erik olhou para o outro lado da sala, silenciando-o e, felizmente, fez o sorriso de Leap decair um pouco.

- Só me reporte o progresso que tiver – disse.

Leap ficou mais grave e coçou a cabeça.

- Onde... Aqui? Você vai ficar aqui por tanto tempo assim?

Erik hesitou. Ele olhou mais uma vez para Charles, então para Leap. Em seguida, soltou um suspiro de reconhecimento.

- Não, eu não acho. Assim que eu puder, deixarei o hospital. Você se lembra da grande mansão da qual nos tirou?

Leap assentiu.

- É onde vai me encontrar – Erik disse sem vacilar, quase se sentindo ridículo por ter tanta certeza sobre isso. Afinal, ele precisava de tempo para se recuperar de seus ferimentos... e seria necessário um longo, longo tempo, provavelmente, vários meses. A mansão era uma escolha natural. Erik sequer considerou estar em qualquer outro lugar que não junto de Charles.
- Ok, Magneto. Trato feito! – Leap disse calmamente. Ele permaneceu ali por um tempo, olhando para a porta. - Eu acho que já vou... - disse, gesticulando vagamente.

Erik apenas balançou a cabeça, e antes que parasse o movimento, Leap tinha desaparecido em uma nuvem. Apenas uma pequena brisa de ar foi deixada, mexendo alguns fios de cabelo de Charles, fazendo cócegas na mão de Erik.

Ele olhou para o lugar onde Leap estivera.

A chuva ainda estava batendo na janela.

Erik recostou-se no travesseiro, encarando o teto, mas não puxou o braço de Charles. Ele prometeu a si mesmo que faria Charles tirar férias e ter um bom descanso em breve. Amanhã. Em seguida, eles poderiam começar a se recuperar – a ambos. Devidamente. Talvez eles nunca se recuperariam de todo, porque a Chimera certamente deixou marcas para sempre - mas... eles conseguiriam. Havia muitas coisas a se esperar agora. Tantas coisas por dizer... - mesmo que essas coisas tivessem que esperar até que os dois estivessem melhor e apropriadamente sozinhos.

O monitor cardíaco de Erik soou no silêncio.

Charles mexeu um pouco a cabeça durante o sono, virando-a de modo que sua respiração quente batera de encontro a palma da mão de Erik.

De súbito, Erik podia recordar com perfeita nitidez como sentira essa mesma respiração suspirando em sua própria boca, e estremeceu um pouco.

Seu monitor cardíaco ganhou ritmo novamente, e Erik mordeu os lábios, fechando os olhos bem apertado.

A chuva ainda continuou por muito tempo depois que ele, lentamente, começou a se deixar levar.

Naquela noite, Erik dormiu tranquilamente pela primeira vez em muito, muito tempo.


Nota da tradutora:

Recém saído do forno, eis aí o penúltimo capítulo! Entreguei antes do fechamento da primeira quinzena do mês, mas poderia ter feito antes se, bom, se não fosse minha obsessão com séries, doramas, animes, leituras, clipes musicais... - eer, neste último aqui, culpo o Charlie Puth e seu recém lançado clipe.

Espero que tenham gostado e peço desculpas por quaisquer erros, eu não costumo revisar o que traduzo.

Com isso, fico devendo só mais um capítulo. Não prometo, mas pretendo me empenhar para publica-lo até, no máximo, o próximo mês - se possível, antes da primeira quinzena.

Aos leitores, especialmente a Barbara e o "Convidado Anônimo", meu muito obrigado por sua presença! Em tempo: 1) Barbara, as limitações inexplicáveis do FFNET com a formatação dos textos mexem com o meu lado zen de uma maneira que... deixa quieto. Mas ó, não simorre não, que assim cê vai perder o fim do conto. Segura as pontas só mais um pouquinho, vai ser deboas! 2) Colega Anônimo, seja bem vindo! Respondendo sua pergunta: não, a autora não disse o porquê de remover suas fanfics - ao menos não que eu saiba -, ela apenas as retirou do ar e eu só consegui salvar apenas Dark Flowers - o que foi por pouco, pois quando ela o fez eu ainda estava no processo de tradução dos primeiros capítulos e não tinha copiado os capítulos originais seguintes. Minha salvação foi saber que a autora também havia publicado Dark Flowers no AO3. Ê sorte!

Abraço a todos e até o próximo!

Inna