Pessoal, de volta com mais um capítulo "pequenino"! Estamos perto de manter a fic totalmente atualizada, que felicidade!
Agradeço muito a Alexiz tutsi por estar acompanhando e comentando, confesso que isso tem sido um grande incentivo para eu passar aqui pelo FFNET com mais frequência. Muito obrigada, de coração! E obrigada a quem estiver acompanhando!
Bem, vamos ao capítulo - esse está BEM animado! Ku, ku, ku...
Boa leitura!
Capítulo 29 - Caos
— Você me disse que o convenceria a me libertar e até agora nada. — Kagura cobrou enquanto as duas caminhavam por um bosque e Annabelle colhia algumas frutas em uma cesta.
— Tenha calma, estou tentando fazer isso aos poucos. Se eu o pressionar demais, posso estragar tudo. — disse pacientemente. — Há algum tempo atrás, ele sequer a deixaria sair comigo sem que aqueles insetos nos acompanhassem, e veja só... cá estamos, a caminhar livremente.
— Humpf! — bufou aborrecida e cruzou os braços — Grande coisa ficar passeando no meio desse bando de árvores iguais e ter que ficar de olho para você não se meter em encrenca. Mas, tenho que confessar uma coisa... — a voz soou menos agressiva — estou impressionada com essa sua capacidade de fazer aquele idiota agir com alguma dignidade. Faz algum tempo que ele não me manda participar de armadilhas para prejudicar os inimigos dele.
— É sério? — ela parou de supetão e fitou-a com os olhos quase arregalados. — Naraku não está mais perseguindo Inuyasha e seus amigos?
— Pois é, garota. Acho que o seu maior poder está entre as suas pernas. — diante do constrangimento da ocidental, a Mestra dos Ventos não conseguiu segurar uma gargalhada.
— Kagura! — exclamou, rubra de vergonha, e depois de dar um tapinha no ombro da companheira de caminhada acabou por dar algumas risadas também.
— Sabe, no início pensei que você fosse traí-lo, que na primeira chance que tivesse viraria as costas para ele. — deu de ombros — Mas quem diria que até o Naraku conseguiria arranjar alguém para amá-lo?
— Quê?! — Ela estava falando de amor? Annabelle até se engasgou no meio da expressão de espanto.
— Ah, qual é? Vai dizer que não gosta do cretino? Na hora de ir para a cama com ele você não reclama.
— Kagura, francamente! — cobriu a testa com uma mão, apesar de um lado seu querer se acabar de rir com aqueles comentários. — Sim, eu gosto de estar com o Naraku... mas não sei se isso é amor. — suspirou pensativa.
— E o que é amor então?
— Boa pergunta... — inclinou a cabeça para cima e contemplou o céu da cor de seus olhos.
— Ah, vocês adoram complicar as coisas! Eu hein... — deu de ombros e passou a andar a frente.
Annabelle ouviu a voz dela tão abafada que mal a compreendeu. Kagura não percebera, mas seus simples e divertidos dizeres fizeram a moçoila encucar com as tantas ideias a passarem pela cabeça. Certa vez, numa gruta, Naraku perguntara se Anna o amaria e ela o respondera com pergunta semelhante à da colega: O que é o amor?
Seria possível rotular algo tão complexo e abstrato quanto esse sentimento?
Bem, uma convicção que ela tinha era de que precisava cumprir com sua palavra e ajudar a youkai.
Naquela tarde, chegou ao castelo decidida a puxar o assunto pela primeira vez com o criador da Mestra dos Ventos.
— Fez bom passeio? — o hanyou perguntou assim que ela entrou pela porta. A Rosa Branca sentou-se diante dele, pousou a cesta entre ambos, pegou uma fruta e ofereceu a ele. Diante do gesto tão inocente, Naraku riu breve — Obrigado, mas não como essas coisas.
— Sempre é bom ver um pouco da luz do sol, você deveria experimentar. — deu uma mordida no pomo suculento.
— Não sei se é uma boa ideia.
— Eu gostaria que fizéssemos uma caminhada qualquer dia, só nós dois. — mordeu outro pedaço, o sulco adocicado escorreu pelo canto dos lábios e pingou do queixo.
— Seria interessante, mas muito arriscado. — curvou-se para frente, o braço esticou até que a mão alcançasse a face lambuzada e os dedos tentassem limpar os lábios tingidos pelo tom avermelhado da fruta. — Não posso me dar o luxo de me aventurar muito, ainda mais com tantos inimigos sempre me cercando.
— É, eu sei... — desanimou com a ideia, e a partir dela tentou encontrar uma deixa para abordar o tema importante — Kagura gosta tanto de explorar o mundo afora... e eu sei que às vezes ela preferiria fazer isso sozinha.
— Hum. — rapidamente, os traços dele tomaram os tons da suspeita, os olhos estreitaram-se atentos.
— Naraku, você precisa tanto dela e de Kanna aqui, servindo você? — tomou coragem e foi direta, se fizesse muitos rodeios acabaria por atiçar a ira dele. — Não acha que está na hora de deixá-las ir?
— Kagura é esperta... — sorriu taciturno — eu sei o que ela está tentando fazer.
— Kagura não fez nada, eu pensei nisso e estou perguntando a você. — firme, argumentou.
— Se pensa que porque libertei Kohaku, abrirei mão de qualquer coisa por sua causa, pare agora mesmo. — o tom mudou, ele mudou. Retomou a postura costumeira, provando à Annabelle que ele ainda era Naraku no fim das contas — Kohaku já não tinha muita utilidade, o garoto era apenas uma marionete em minhas mãos, mas as habilidades de Kagura e Kanna me são caras, elas são partes do meu corpo, portanto me pertencem.
— Se ao menos tratasse as duas com um pouco mais de empatia, talvez elas ficassem no castelo por vontade própria. Com nossas atitudes podemos ganhar o respeito ou o desprezo das pessoas. — embora a dureza do discurso do hanyou a tivesse afetado, a forasteira optou por manter a serenidade e insistiu.
— Eu deveria ter previsto isso... — riu ácido.
— Não seja assim. — o interpelou, afastou a cesta que estava entre ambos para poder se aproximar e repousar as mãos nos joelhos dele. — Só estou fazendo um pedido, porque me importo com elas, assim como me importo com você.
— Oh, é mesmo? — persistiu com o tom de ironia — Você e esse seu coração mole são uma graça.
— Naraku... — cativou o rosto dele nas mãos e o afagou, ajeitou os fios da franja e os que estavam em torno da moldura desconfiada — temos vivido coisas boas, não vamos estragar isso com uma discussão. — uniu os lábios aos dele num ósculo sutil e superficial.
— Então não toque mais nesse assunto. — conteve os dedos dela e livrou a face do carinho, lá ia o sujeito se fechar uma vez mais, e isso era tudo o que ela não queria. Se afagos pacíficos não o conquistavam, Annabelle apelaria.
— Venha aqui. — puxou-o pela nuca com urgência, fê-lo abrir a boca e receber a sua língua ansiosa, assim como ela toda estava por não querer perder aquilo. A princípio, Naraku pareceu relutante, porém, à medida em que os corpos se atritavam e o dela tombava sobre o dele, as articulações do hanyou foram amolecendo. Ainda assim, as mentes naquele quarto estavam tensas, e o araneídeo tinha um motivo a mais para estar à flor da pele: deveria ter escolhido o fatídico dia do mês em que sua verdadeira aparência se mostraria. Ficaria vulnerável e monstruoso, não gostava de se mostrar nessa forma para ninguém, muito menos desejaria que Anna o visse, apesar de a escocesa já ter se deparado com sua essência.
Os orbes de sangue cerraram-se fortemente, os ouvidos focaram no som da respiração humana arfante e o paladar degustou o sabor adocicado do fruto, ainda na saliva dela e agora na dele. O meio-youkai se confundia entre pensamentos bons e ruins e isso acabava por desconcentrá-lo do momento presente, porém, quando os dedos dela meteram-se furtivos por dentro da calça dele e tomaram-lhe o sexo, todo o seu ser se sentiu desafiado a mostrar-se dominante e ele girou por cima dela tão veloz que quando Annabelle percebeu, jazia deitada sobre o piso amadeirado, subjugada pelo corpo sobre o seu, mãos continham seus pulsos, pernas prendiam as suas, e enfim, a boca dele a calou voraz.
Havia algo de diferente no ar, o youki espalhava-se pela sala arroxeando seus contornos e algo que há muito ela não presenciava ocorreu – as patas de aranha rasgaram o nobre tecido escuro e fincaram-se ao chão – engaiolando-a. Ainda assim, as expressões da escocesa estavam longe de demonstrar espanto. Naraku notou ao cessar o beijo selvagem e mirá-la profundamente. A humana quase sorria e o cheiro de sua libido era forte o suficiente para entontecê-lo.
Ela não se importava com o que estava acontecendo?
Ela sabia o que estava acontecendo?
Bem, Naraku sabia. Era seu corpo ansiando por tomar a forma original. O muco já começara a se formar sobre a pele, inclusive. Seus dedos afrouxaram o aperto aos poucos, permitindo que Annabelle movesse as mãos – essas não mediram esforços, bem como os braços, para abraçá-lo. Todavia, nem toda a aura ebúrnea poderia evitar o evento mensal, por essa razão, o hanyou saltou de cima da mulher e saiu apressado do quarto. Sendo o último dia do mês, não era mais escolha e sim obrigação se esconder no porão. Anna correu até o corredor e deparou-se com Kanna no caminho.
— Você não deve segui-lo. — a pequenina disse calmamente — Ele precisa de um tempo às sós.
— O que ele tem, está doente?! — preocupada, questionou.
— O mestre está bem. — e foi tudo o que a youkai representante do Nada revelou.
— É só o dia do mês que ele mostra a verdadeira face. — Kagura, por outro lado, não via justificativa para esconder.
— Eu conheço a verdadeira face dele... já vi uma vez. — fitou o piso enquanto rememorava o triste episódio em que quase matara o araneídeo.
— Naraku não gosta de ser visto naquela forma, é melhor deixá-lo quieto essa noite. — a Mestra dos Ventos aconselhou.
Annabelle acatou o conselho e decidiu ir para o quarto, não sem antes olhar para trás uma vez e mirar a escuridão no corredor. Havia gosma pelo chão onde ele pisara. Aquilo a entristeceu de uma forma indescritível. Não buscou, contudo, entender a razão da melancolia, caminhou até o quarto em que sua harpa ficava guardada e em vez de tentar dormir, sentou-se diante do instrumento e partiu a tocá-lo. Seu coração sabia que o som chegaria aos ouvidos dele nos confins daquela mórbida morada.
"Está tentando me confortar..." — isolado no porão, Naraku podia sentir as intenções de sua protegida. Um riso lânguido escapou da garganta. Seus pedaços remexiam-se ora raivosos, ora confusos.
Ela está com tanta pena de você, como é nobre! — naquelas horas mais escuras, naquele único dia de cada mês, os ecos soavam como gritos — e mesmo assim, toda essa piedade não a impedirá de traí-lo.
— Senhor Inuyasha, tem certeza de que os outros não ficarão chateados por termos vindo sem avisar? — Kohaku, acuado, questionou enquanto os dois marchavam em direção às terras onde uma nuvem púrpura oscilava acima.
— Naraku está enfraquecido, posso sentir. — afirmou seguro — a barreira não é mais suficiente para escondê-lo. Sinto o cheiro daquele maldito mesmo daqui. Nessas condições, não vou arriscar a vida de Kagome, Miroku, Sango, Shippo e Kirara. Posso acabar com ele com minhas próprias mãos...
— É ali mesmo... — o menino relembrou e estancou os passos. Tinha andado como um sonâmbulo até então, movido apenas pelo instinto e por fragmentos de memória. Eis que o cenário distante pareceu-lhe extremamente familiar. — Em quantas horas acha que chegaremos lá?
— Acho melhor você ficar aqui. — a segurar a grande Tessaiga sobre um dos ombros, o hanyou cachorro comentou. — Da mesma forma que não quero arriscar a vida do pessoal, não quero arriscar a sua.
— Mas...
— Escuta, — virou-se de frente para o irmão caçula da amiga e abaixou-se de modo que ambos ficassem na mesma altura — eu sinto que dessa vez derrotarei o Naraku de vez, ele não terá chance! O youki do bastardo está muito mais fraco que das outras vezes. Só que se eu te levar junto, terei que ficar de olho em você e isso vai me atrapalhar. — tocou-lhe o ombro.
— Entendo. — Kohaku baixou a cabeça, obediente, mas chateado.
— Um dia você será forte para vencer as próprias batalhas. Hoje, me espere aqui. — não aguardou resposta, simplesmente saltou longe, encaminhando-se à construção que provavelmente estaria por trás das nuvens escuras. Pouco antes ou depois do amanhecer, talvez, Inuyasha chegaria ao seu destino.
Kohaku ouviu passos suaves sobre a relva e eriçou-se todo. Como poderia se defender se estava desarmado? No entanto, ao espiar com o canto de um olho, notou ser uma bela mulher de longos cabelos negros a se aproximar e estranhamente sentiu-se seguro.
— Quem é você? — ele perguntou.
— Me chamo Kikyou. — os lábios pálidos esboçaram singela curvatura. Depois, os olhos escuros focaram-se ao longe, atentos à trilha que Inuyasha seguira. — Escute, menino, há um vilarejo aqui perto. É melhor que se esconda por lá. — aconselhou — Venha comigo, mostrarei o caminho.
Annabelle dedicava-se a tocar o extenso repertório de suas terras e de terras que já visitara, e então parou subitamente. Um barulho a incomodou, ou melhor dizendo: uma espécie de pulsação. O som era tão discreto a ponto de a humana questionar se não era fruto de sua imaginação, todavia aquilo não parava. Nunca antes ela o notara, mas parecia ser algo que sempre esteve lá – ou melhor – em algum canto do castelo.
Algo sugeria que ela procurasse a fonte da singela batucada, como uma voz a sussurrar no interior do ouvido, confundindo-se com sua consciência. Decidida a descobrir o que era, ergueu-se, apartou os dedos das cordas áureas e abandonou o quarto sem se importar por estar coberta apenas pela fina camada de tecido branco e o espartilho. Naraku, no porão, estranhou a falta de música e suspirou frustrado.
"De onde vem isso? Parece estar me chamando..." — pensava conforme zanzava pelos corredores, quase perdida dentro de um labirinto. — "Onde estão Kanna e Kagura?" — sentiu-se sozinha, não tinha pista das outras moradoras.
Seus pés pararam bruscamente quando seus sentidos perceberam a aura maligna. Anna estava ao lado da porta que levava ao aposento da Joia de Quatro Almas. Os olhos miraram a entrada aberta, protegida por um campo de força transparente – através do manto protetor a coisa brilhava intensa, se aquilo fosse uma pessoa estaria a rir de escárnio. A ruiva virou-se de frente para a pedra à distância e encarou-a firme. Não foi difícil atravessar a barreira que protegia o quarto, sequer parecia que Naraku se empenhara para impedi-la de entrar. Mais próxima do objeto amaldiçoado, a ocidental se pronunciou:
— O que quer que haja aí dentro não me assusta ou me seduz. Eu sei que no fundo você serve apenas para causar a desgraça. — referiu-se à pedra como se ela fosse uma pessoa, e não estava de todo errada. Só não sabia que a Joia representava não um, mas muitos entes revoltados.
O som de batimentos soou ainda mais forte, atordoando-a. Annabelle titubeou, manteve-se inerte diante da gema rósea, os pelos do corpo arrepiaram-se todos. Uma presença invisível a sondava, a fazia sentir o terror. O fragmento no peito queimava. Seria uma resposta à sua provocação? O lume claro em torno da mulher aumentou, protegendo-a.
"Não posso deixar que uma pedrinha cor-de-rosa o destrua, Naraku. Eu quero protegê-lo..." — o desejo palpitava no fundo do coração.
Tu-dum, tu-dum. A pulsação não se calava. Enfim, a highlander tomou a iniciativa de correr dali e buscar pela origem do som. Por conta da escuridão, do miasma a contornar a construção, não havia meios de adivinhar por quantas horas Belle deu voltas, entrou em quartos, abriu e fechou portas, até encontrar um cômodo isolado de onde o som certamente vinha. Um campo de força bem mais forte protegia a entrada, e provavelmente por causa dele a localização do aposento era tão difícil de ser encontrada. Era como se o quarto fosse invisível para todos no castelo, menos para ela – e não por coincidência – algo a ajudou a chegar lá.
A cada passo, o ruído intensificava. Quando Anna estava a poucos milímetros da porta, ela se abriu sozinha e a barreira se desfez como uma poeira acinzentada. A jovem entrou e estranhou não haver um leito, apenas uma espécie de estante, e nela um vaso de onde o som provinha.
Vagarosa, a moça se achegou, a mão trêmula retirou a tampa e quase um grito horrorizado escapou-lhe. A pulsação, o batuque, os sons perturbadores vinham de um coração, e o órgão vital era guardado em um simples vaso de cerâmica.
"Kagura!" — raciocinou depressa, e o pedido da amiga a assombrou.
Era o coração de Kagura.
Primeiro, Annabelle controlou a própria respiração até deixar de estar ofegante, pegou cuidadosamente o órgão vital em mãos e o uniu ao próprio peito. Por último, correu desvairada por todo o caminho que percorreu em busca da escrava de Naraku.
"Que sensação é essa?" — Kagura alarmou-se. Estava sentada à varanda do castelo, de guarda. Era sua função nos dias de vulnerabilidade de seu mestre. Já de pé, virou-se num segundo para a grande porta e vislumbrou Annabelle estática, abraçada a uma coisa que ela conhecia bem. — Eu não acredito! Você... — empalidecida, começou uma aproximação. Então, a outra também deu alguns passos e ergueu-lhe o coração o qual ela cuidara com tanto zelo para não feri-lo no caminho.
— Eu consegui. — ela também estava aterrorizada — Eu achei!
— Então não foi Naraku quem cedeu? — o medo a aplacou — Você roubou?!
— Ele não me deu ouvidos, Kagura. Você precisa sair daqui agora, tome!
— Sua maluca, Naraku pode matá-la por isso! — cobriu os lábios avermelhados com uma das mãos, a outra, aos poucos, aproximou-se de sua parte tão cara recuperada.
— Não importa o que ele decidir fazer comigo, eu me viro. — sorriu como se fosse trivial — Vá, viva a sua vida na tão sonhada liberdade!
— Jamais me esquecerei do risco que você correu por mim... — a Mestra dos Ventos mal sabia como agradecer ao gesto, um sorriso queria se formar e de fato surgiu, desajeitado, duro. Quando um de seus dedos finalmente roçou o coração agitado, a fumaça escura veio como um furacão de dentro do castelo, bem como diversos tentáculos enfurecidos.
Kagura caiu para trás, Annabelle jogou-se para o lado a proteger o tesouro vivo com o próprio corpo.
— É só eu virar as minhas costas Annabelle, e você se acha no direito de fazer o que bem entende. — a voz grave ressoou por cada canto. Os apêndices gosmentos arrastavam-se através de portas e janelas, com eles vinham os pedaços de centopeias em cores vibrantes, e por fim, o rosto abatido e os olhos escarlates coléricos. A Joia estava dentro dele outra vez, agora em sua cabeça.
"Não é possível, ele está arriscando a sair do castelo nessa condição!" — Kagura estremeceu caída no chão de terra.
— Vai pagar por isso! — Naraku sentenciou e a princípio Annabelle pensou ser com ela, porém os mesmos tentáculos que a empurraram miraram o corpo da youkai do vento.
— Não, deixe-a ir! — apelou, atraindo a atenção do hanyou — Eu peguei esse coração sozinha, e decidi devolvê-lo por minha conta, então puna a mim! — pôs-se de pé diante dele, em frente a amiga, o coração estendido às costas, ao alcance de Kagura — Pegue. — orientou-a — Agora! — insistiu ao notar que ela hesitava.
— Como ousa, humana? — o araneídeo se enfureceu com o atrevimento, não só de entregar o coração à serva, mas de aproximar-se dele destemida.
— Estou pronta para receber o meu castigo, mas deixe-a ir. — encarou-o incisiva, e ainda assim a tristeza nos traços era evidente.
A cabeça, ligada a uma espinha dorsal – únicas nuances de humanidade naquele amontoado de pedaços de artrópodes e gosma – achegou-se à garota, analisando-a. Viu-a encolher-se e mordiscar o lábio inferior, depois a acompanhou fechar os olhos à espera de qualquer destino conforme tentáculos lhe subiam as pernas, outros contornavam sua cintura, e dois imobilizavam-lhe os braços.
— Não, Naraku! — Kagura gritou de longe.
— Garota idiota. — ergueu o queixo dela com um dos apêndices livres. — Dou-lhe uma casa, conforto, proteção e na primeira chance que tem você me trai.
— Não fiz mal algum a você. — os cílios destrançaram devagar.
— Ainda bem que tenho Kanna sempre por perto e ela me mostra tudo através do espelho. — o tentáculo envolveu o pescoço de Annabelle, contudo não o apertou de imediato — Pude acompanhar a sua jornada, achei que fosse desistir, mas você prosseguiu com essa inconsequência. Que piada! — por fim, ele riu, incansável, sem dar chance a ela de falar qualquer coisa — O que pensou que fosse acontecer? Que daria a Kagura o que ela quer e todos seriam felizes para sempre? Sequer desconfiou do que ela tentaria fazer quando adquirisse a tão desejada liberdade?!
— Naraku, solte-a! — A serva insistiu.
— Ela se juntaria à trupe de Inuyasha e na primeira oportunidade viria atrás de minha cabeça! Mas você não parou para pensar nisso porque é uma humana estúpida como todos os outros, desprezo a sua raça! — bradou descontrolado. Annabelle sentiu os ossos estalarem diante o forte aperto em cada região onde as partes do corpo dele a envolviam. — Eu deveria saber que você causaria a minha ruína, mas não se preocupe, consertarei o meu erro. — as últimas palavras, por outro lado, soaram como um rosnado. Os olhos dele estreitaram-se.
— Prometeu que nunca mais me machucaria. — ela o lembrou, e ele respondeu com ferocidade. — Você não é um monstro... — O ar parou de circular e Annabelle teve a terrível sensação de sufocar. As lágrimas rolavam incessantes pela face e misturavam-se ao muco no tentáculo enrolado em seu pescoço. O que mais lhe doía não era a violência, as costelas espremidas, as pernas já dormentes sem circulação sanguínea, mas sim a alma.
— Tanto caso por um rostinho bonito... — sibilou enraivecido, no entanto afrouxou sutilmente o laço ao redor do pescoço e sua vítima tossiu conforme recuperava o ar.
Olhando-o nos olhos, diretamente, ela percebia a angústia. Se Naraku quisesse a teria matado, mas estava enrolando. Seus tentáculos possuíam orifícios próprios para expelir veneno, e ele optara por não usar o recurso. Annabelle era humana e fatalmente sucumbiria ao miasma. Não queria matá-la, sequer intentava e já tinha o objetivo de largá-la, eis que a atitude de outra fêmea chamou sua atenção.
— Pegue de volta! — Kagura, ajoelhada e estendendo o coração nas duas mãos, pediu desesperada — Pegue isso e a deixe em paz!
— Oh! — um sorriso amargo descoloriu a face de Naraku — Quem diria? Até você foi enfeitiçada pelos encantos de Annabelle Rose... — um tentáculo menor e amarronzado cativou o artefato.
A escocesa, entontecida, caiu sobre a terra como uma boneca de pano, estava acordada, porém em choque. Seus ouvidos, ainda assim, mantinham-se atentos mesmo que os olhos estivessem embaçados.
— Seu idiota, você é tão inteligente para certas coisas e tão burro para outras! — a Mestra do Vento escarneceu — Você não a merece. — afirmou com veemência e o fitou direta, quase a esquecer do temor pela própria vida.
Com a força de um pedaço de corpo de centopeia, o hanyou a atirou longe, a coluna da cria dele bateu contra uma pilastra de madeira da varanda e o impacto a fez perder a consciência. Ao final daquele gesto violento, os baixos soluços de sua amante soaram e recuperaram sua atenção. Mirou-a caída, derrotada, o traje de dormir encardido de terra e pensou em chegar perto, mas o que faria? O que diria? Ela procurou por isso! Ah sim, o presente desastre se dera por culpa dela.
As partes remexeram-se começaram a encolher, ao passo de que o corpo humano de Naraku crescia aos poucos, o sol deveria nascer por trás da neblina e da barreira – ele pensou, não só por se perceber voltar vagarosamente ao estado normal, mas também por notar um tênue lume dourado além da bruma.
A luz se intensificou, os olhos avermelhados arregalaram-se pois deram-se conta de que aquele brilho não era proveniente do astro matinal.
— Ferida do Vento!
"Inuyasha?!" — as esferas celestiais também escancaram-se, os dedos dela cravaram na areia escura.
— Como?! A minha barreira... — Naraku quase gaguejou diante de tamanho torpor, suas articulações sequer moveram-se. O corpo despido e coberto de substância viscosa petrificou, alguns pedaços ainda se arrastavam pelo chão, inquietos.
— Keh! Finalmente encontrei o seu castelo, miserável! Dessa vez não terá como escapar! — o rival atravessou as nuvens e pairou na outra extremidade do jardim desértico. — Você está horrível, Naraku! — riu-se — Mas o quê? — em seguida, notou um adorno no terreno – a árvore de Annabelle – e os orbes dourados giraram até focarem-se na imagem da garota caída — Maldito, o que você fez?!
Naraku não estava com humor para provocações, por isso foi objetivo e lançou alguns tentáculos sobre seu inimigo. Tão logo Inuyasha os podou com a espada, o miasma se espalhou sobre ele. Com o braço a proteger o nariz, o híbrido saltou longe da zona envenenada e buscou se aproximar de seu alvo.
O araneídeo, ainda sem ter recuperado completamente os poderes, tentou manter a distância em saltos pelo telhado, Inuyasha foi à caça. Os golpes da Tessaiga arrancavam telhas, destruíam os entalhes de madeira, e quase acertavam o foco, mas o ser tão odiado por ele era rei quando se tratava de talento para a esquiva.
— Não pode fugir para sempre! — o irmão de Sesshoumaru vociferou.
"Não, não!" — Annabelle rolou pelo chão, apoiou-se nos braços e conseguiu sentar. Kagura permanecia desfalecida —"Eles precisam parar!" — acompanhou-os com os olhos. Naraku atirou-se ao chão outra vez, não tão distante dela. — "É por minha causa que ele está economizando miasma!" — constatou — "Ele não quer me ferir..." — mirou-o atarantado, acuado, por último dedicou seu olhar a Inuyasha, na típica postura de combate, o vento a se formar ao redor da grande lâmina de seu gládio.
— Acabarei com você de uma vez por todas! — sentenciou primeiro, depois conjurou o poder de sua espada: — Ferida do Vento!
Naraku sorriu, aparentemente despreocupado. A cúpula rosada o envolveu e fez com que as rajadas de ventania se concentrassem ali. De certo e sem demora elas se dissipariam, e ele sairia ileso como de costume. No entanto, uma flecha atirada de longe atravessou o seu campo de força e o quebrou, fazendo com que as rajadas douradas de ventania o atingissem e provocando espanto não só nele, como em sua humana de alta estima. Um grito exasperado rasgou a garganta de Annabelle.
"Kikyou?!" — Inuyasha supôs, pois o poder daquela flecha haveria de ser da antiga sacerdotisa. Sorte do Naraku a seta ter passado entre seus cabelos e fincado ao chão, pois se o tivesse atingido, não haveria poder de regeneração que o salvasse. Então, a silhueta dela atravessou a fumaça de vento com areia e seu aspecto se tornou evidente — Kagome! — exclamou desacreditado. Como a garota chegara ali? E não só ela, mas também os outros amigos, um ao lado do outro, todos seguros de si e prontos para combate. Após raciocinar por alguns segundos, o meio-youkai cão chegou a uma conclusão: o fragmento de Kohaku! Kagome o sentiu, por isso o encontrou. Um sorriso meio abobado se formou na face dele.
— Inuyasha, não temos muito tempo! — Kagome proferiu determinada — A Joia de Quatro Almas está na cabeça dele!
— Osso Voador! — Sango endereçou sua arma de ossos ao aracnídeo, por sorte ele conseguiu se jogar no chão a tempo e o gigantesco bumerangue passou a milímetros de suas costas. Suas partes estavam a terminar de se regenerar depois de serem atingidas pelo golpe do outro meio-youkai.
— Buraco do Vento! — Miroku, ao ver que não havia insetos venenosos por perto, utilizou-se de sua maldição e, ironicamente, poder maior. Naraku começou a ser arrastado.
Annabelle sentiu o coração doer e o mundo ao redor girar devagar. Em sua percepção, as vozes daquelas pessoas soavam graves e com atrasos, mesmo a brisa e a poeira lhe pareciam paradas no espaço. Mal sentia as ondas acobreadas a atritarem-se no rosto conforme o denso ar as fazia chacoalhar. Tudo o que ela via era o estado de seu amante, atirado ao chão, levantando-se com dificuldade, as esferas escarlates ressaltadas, os dentes quase a trincar. Ele conseguiria fugir? Acreditou que não. Era isso. Era o fim. O fim de Naraku, como ela previra.
— Agora! — Kagome assinalou para Inuyasha.
"Não!" — O próprio espírito de Annabelle gritou incendiado, finalmente ela estava de pé.
— Ferida do Vento!
Os olhos de Naraku fecharam-se diante da luminosidade. Graças à forte sucção e ao fato de ele ainda não ter recobrado a sua força youkai completamente, o corpo não conseguiu sair do lugar. Doeria muito? – ele se perguntou – Ou seria rápido, como um feixe de luz, fugaz como uma estrela cadente?
A luz permaneceu intensa, a sensação de ser tragado, todavia, se foi. Mesmo com as pálpebras seladas, o hanyou notou uma presença a sua frente. Evitou acreditar ser o que cogitava até conseguir abrir um de seus olhos e contemplá-la diante de si com os braços abertos, sua aura cálida e clara a cobrir os dois e por si só aguentar o peso da energia, do forte poder da Tessaiga.
Ela o protegera.
"Por quê?!" — confuso e aturdido, enrijeceu. Seu interior todo ferveu diante da cena. E não era só ele que se encontrava atônito. Inuyasha e seus amigos paralisaram, todos de olhos arregalados e lábios escancarados – mudos – porém.
Em passos largos e irracionais ela chegara ali e se jogara na frente dele. Kagura despertou para testemunhar a cena. Antes que conseguisse se levantar para tomar uma atitude, alguns tentáculos se formaram das costas de Naraku, agarraram Annabelle, e por fim ele saltou ao longe levando-a consigo.
Inuyasha deixou a lâmina de sua espada tombar sobre a areia, suas mãos tremiam. O castelo ao redor se desfez aos poucos, como uma miragem. Eles assistiram aquela cena certa vez.
— Ei, Kagura! — Kagome a chamou, acreditada de que a serva do inimigo poderia dar alguma informação, contudo a Mestra dos Ventos jogou sua pena sobre o chão, atirou-se nela e voou longe – seguindo a trilha que seu criador traçara.
— Maldição! — Inuyasha vociferou ao léu. A oportunidade se perdeu por tão pouco... por causa dela.
Todo aquele alvoroço tivera um lado positivo, ao menos. Annabelle podia apreciar a paisagem – o topo das árvores ancestrais atravessando o nevoeiro, o sol das primeiras horas da manhã por trás do véu de uma tormenta que chegava – conforme Naraku flutuava com ela em seus braços.
Chegaram ao ápice de uma montanha onde um singelo gazebo fora construído, e possivelmente há muito tempo abandonado. A cúpula protetora se formou no entorno da construção, iluminando-a. Naraku a acomodou sentada no piso enquanto ele se posicionava sentado à sua frente, já em sua forma humanoide e sem um arranhão.
Encararam-se por instantes, ambos ofegantes, assustados.
— Está ferido? — ela perguntou trepidante.
— Você me salvou. — as mãos aproximaram-se hesitantes dos ombros encolhidos. Uma trovejada ressoou lá fora — Por que fez isso? — os dedos pousaram sobre o tecido encardido e apertaram-no, puxando-a para perto — Por que, se eu quase a matei?! — os orbes estavam vidrados nas feições dela.
— Eu... eu não sei! — quase engasgou, pensou que fosse cair morta de tão tonta e nervosa.
— Disse que não se voltaria contra o Inuyasha e seus amigos, que jamais lutaria contra eles por mim! — largou os ombros para apanhar-lhe os pulsos, puxou-a para si e certificou-se de continuar a segurá-la para que não pudesse se afastar.
— E eu não lutaria com eles, não os machucaria! — disse em alto tom, mais firme do que ele —Mas não poderia deixar você morrer!
— Por quê?!
— Porque eu não quero que você morra! — berrou angustiada, a voz aguda ecoou montanha abaixo por alguns segundos. Uma fina lágrima escorreu-lhe a face atribulada.
— Eu quase a matei... — em contraste, Naraku sussurrou assombrado consigo mesmo, e com a reação dela depois de tudo. As mãos escorreram dos pulsos finos, caíram sobre o chão melando-o de muco.
— Mas não o fez, você me poupou. — Anna, nem um pouco preocupada com a gosma que o cobria por inteiro, usou uma mão para desgrudar as madeixas que se colaram na bochecha dele – quase lisas diante da oleosidade – e a outra mão para percorrer o rosto espantado, o queixo retesado, o pescoço cujas veias pulsavam. A palma parou repousada à nuca. Ela não sentia qualquer resquício de nojo daquela condição, e provou isso ao envolvê-lo num abraço — Quando eu vi a sua barreira se partir por causa da flecha de Kagome, eu soube que você não teria chances e tive que fazer uma escolha. Não conseguiria simplesmente ficar olhando enquanto eles o faziam em pedaços, Naraku!
— Você poderia ter sido atingida, poderia ter morrido. — ainda em choque, não retribuiu ao enlace. Suas articulações pareciam esculpidas em pedra. Ele mirava o horizonte borrado de nuvens através do campo de força transparente, as reflexões eram muitas, e inconstantes como as batidas agitadas de seu coração.
— Não me importa. — prensou-o contra si. Não era só Naraku que se sentia apavorado com os recentes eventos, ela mesma estava embasbacada consigo, com a sensação que teve no momento em que acreditou ser o último do araneídeo. Uma dor excruciante a tomou só de pensar em viver uma vida sem ele ao seu lado. Naqueles segundos obscuros, Annabelle teve um vislumbre da falta que ele faria, do vazio que deixaria em sua alma caso partisse, e então uma nova crença ascendeu em seu âmago: — "Acho que eu o amo" — um soluço escapou, sofrido e abafado. A boca dela se espremia contra o ombro dele. O abraço se apertou a ponto de Naraku sentir-se ligeiramente sufocado. Mas, vendo-a tão carente e desconsolada, o meio-humano não encontrou outra opção além de retribuir na mesma intensidade, colar-se a ela, afagar os cabelos arruivados.
— Me perdoe. — pediu melancólico, com o peso do remorso a esmagá-lo pela incontável vez. Encontraram reciprocidade no medo de se perderem um do outro. Naraku também temeu pela vida de Annabelle, também se perguntou o que seria dele caso ela partisse – e por sua culpa, ainda por cima.
Enquanto ela estiver sob a sua custódia, jamais estará segura. — os burburinhos chiaram em sua mente, a cabeça latejou de leve, sutil a ponto de ele não demonstrar nada além de um cenho franzido. — O humano morto tem razão, Naraku, o seu destino é causar o caos. Eventualmente, o sangue dessa mulher estará em suas mãos, como o da sacerdotisa.
Por onde passa, causa estrago, tudo o que toca vira pó. A única coisa pela qual tem apreço é sua ganância. Esse é você. — as palavras de Hitomi doeram como marteladas. O hanyou conteve a respiração, tomou coragem, cativou a face aflita da escocesa nas mãos e a fitou cauteloso. Os olhos azuis pregados nele, cheios de expectativas, desejos, medos e súplicas. As mãos dela, por sua vez, desciam-lhe as costas meladas a apalpar a pele para se certificar de que tudo estava bem.
— Você faria isso de novo? — sério, perguntou-lhe — Arriscaria a sua vida pela minha outra vez?
— Quantas vezes fosse preciso. — a resposta veio direta e sem uma piscadela, assustando-o ainda mais. Junto com a afirmação, um beijo urgente e passional o consumiu, entorpecendo seus sentidos por ora, despertando a fera dentro dele que ansiava pela luxúria.
Seus dedos indelicados, puxaram as fitas do espartilho e o abriram de supetão. A peça caiu ao chão enquanto a mão metia-se pelo decote da camisola branca e apanhava um seio arfante. Anna comprimiu os lábios abafando um gemido, e foi só este. Os próximos soaram livres e sem pudores, quando o usurpador de seu primeiro amor lambeu sedento o seu pescoço, mordiscou-lhe o ombro a baixar a manga do vestido, e finalmente chegou aonde queria: desceu o decote com a mesma displicência que desatou os nós do corpete e encaixou o monte arredondado dentro de sua boca, circulando o mamilo entumescido com a língua, encharcando-o e aquecendo-o.
Annabelle afundou a mão no negrume ao topo da cabeça dele e deixou-se levar até sentir as costas pousarem sobre o piso. Naraku empurrou uma de suas pernas para o lado de modo que a brecha entre elas se tornasse mais acessível. Os panos que cobriam-na, ele fez questão de puxar e jogar longe. Ainda a degustar o seio arrepiado, levou uma de suas mãos até a fenda quente e molhada e a dedilhou com gosto. Quanto mais a humana se contorcia e balançava, quanto mais doces ruídos ela emitia, mais o hanyou a tocava com afinco, numa dedicação descomunal ao prazer dela, quase como se a enlouquecesse de propósito.
Quando senti-la com o tato não lhe pareceu mais suficiente, Naraku desceu até seu rosto estar de frente àquela pequena e rosada fonte de deleite que palpitava, exalava libido, e a segurar os joelhos da Rosa Branca de modo que ela não pudesse trançar as pernas, lambeu os lábios antes para depois se deliciar com o botão e as paredes infladas. A coluna da ocidental arqueou-se para cima, as unhas dela arrastaram-se pela madeira e os pés encolhiam-se, a pele toda se eriçara.
Ele largou os joelhos dela e suas pernas tombaram vertiginosas, as palmas livres apanharam as nádegas e a induziram a levantar os quadris, os beijos dantes vagarosos intensificaram-se e a degustação se transformou em um devorar ardil. Naraku só parou no último suspiro do orgasmo dela, e dali em diante a sua aura ficou incontrolável. A pérola cintilava dentro de sua tez, às vistas turvas da mulher. Porém, o pequeno caco no peito dela a impediu de comentar ou reclamar, ela não raciocinava. Suas mãos seguiram o instinto e alisaram o peito dele, a barriga, marcaram a pele com as unhas. O meio-youkai, ajoelhado diante dela a empurrar o falo ereto contra a entrada, parecia mesmo querer exibir o corpo perfeitamente talhado.
— Beije-me. — pediu fracamente, esticando os braços para alcançá-lo num abraço. O pedido soou humilde e carinhoso, era quase inédito vê-la se comportar assim durante a cópula. Naraku estranhou o sorriso terno, o discreto brilho nos céus de verão. Verão? Não, era a primavera que desabrochava nos olhos dela.
Acatou a súplica, mas não com meiguice. Devorou a humana, dedicou cada fibra de si para tê-la até o último fio de cabelo. Já a havia possuído em desespero, e ainda assim, nada se comparou com o seu ardor no ato presente. Empurrou-se para dentro numa vagarosidade cruel, queria parar o tempo e tê-la para sempre colada a si, ungida por seus fluidos. Queria ouvir aqueles grunhidos para sempre, tão melodiosos quanto o som da harpa dourada. Então, com a volúpia de ambos tornando-se cada vez mais urgente e incontrolável, Naraku percebeu que não poderia se manter no mesmo ritmo eternamente, seu próprio corpo pediu por pujança, e as estocadas aumentaram a intensidade, as peles se roçavam de modo a produzirem fagulhas nos espíritos. Os dois já não poderiam saber onde um começava e o outro terminava, ou onde se uniam em um, as suas vozes, os seus suspiros, as suas essências num abraço tórrido e apaixonado.
Durma. — a voz grave do hanyou sussurrou na mente de Annabelle, assustando-a de primeira, mas adormecendo-a em seguida.
Depois de o deleite aplacar o casal, Naraku utilizou-se do poder do fragmento que depositara nela. Tombado sobre a escocesa desacordada, escondeu o rosto dentro das ondas alaranjadas, aspirou a fragrância de flores e buscou coragem... coragem para tomar uma decisão.
Os raios alaranjados do sol crepuscular a despertaram. Annabelle sentou-se atordoada, notou algo a cobri-la e ao descer a vista para o manto o reconheceu: ela o havia bordado a certo tempo, para uma pessoa... abraçou a peça, confusa com a forma como chegara ali. Ainda estava dentro do gazebo, mas Naraku não estava ao seu lado. Procurou-o com os olhos até deparar-se com a figura coberta pela capa de babuíno próxima a uma árvore.
— Teve bons sonhos? — ele perguntou.
— O que é isso? — referiu-se a uma sacola aos pés dele.
— Suas coisas. — respondeu naturalmente.
— Naraku, o que está havendo? — envolveu-se na mortalha que bordara e caminhou até o sujeito.
— Você não pode sair pelos bosques enrolada em uma manta, certo?
E ela petrificou, o sangue pareceu congelar nas veias.
— Naraku, não estou entendendo... — sibilou, o coração a quase escapar pela garganta. Ele emudeceu. Trêmula, Annabelle agarrou a gola fofa e esbranquiçada daquele traje excêntrico e o sacudiu — Você está me mandando embora?! — procurou os olhos dele por trás da máscara de primata, os rubis sequer piscavam.
— Foi divertido enquanto durou, devo confessar... — proferiu em tom de deboche, a brancura dos dentes evidenciou-se num sorriso perverso — mas já enjoei desse jogo. De qualquer forma, obrigado pela distração, Annabelle Rose. — afagou o rosto esquálido, em seguida ela precisou buscar apoio na árvore perto deles, pois pensou que sufocaria.
"Distração?!"
A mesma sensação de horas atrás, quando o mundo pareceu preso em um vagaroso e infindável giro, se repetiu. Belle buscou por ar antes de erguer a cabeça e cravar os olhos nele. Naraku sequer se movia. Permanecia elegantemente de pé, encarando-a sem qualquer exaltação. Indiferente.
Continua...
Muita coisa acontecendo em um capítulo só, eu pensei em prosseguir a conversa final entre Naraku e Annabelle, mas preferi deixar para o próximo para tentar fazer esse aqui ficar menos extenso, e também para deixar o suspense. Sei que vocês devem estar com raiva, Naraku é o típico personagem que desperta essa sensação na gente, e também cheios de dúvidas sobre algumas coisas. Se algum instante no conflito que ocorreu no castelo tiver ficado nebuloso, por favor comentem e eu tento esclarecer nas respostas.
A fanfic já passou da metade, e caminha para seu final, acho que conseguiremos um desfecho antes dos 40 capítulos.
Não sei que esqueci de mencionar alguma coisa, espero que não.
Obrigada por tudo, pessoal!
Kissus!
