(Cap. 29) Esse Cara
Notas do capítulo
Esse é um capítulo extra. Uma volta no tempo. Quando Kent envia o primeiro presente para Hope. Ele mostra a visão de Kent e é narrado sobre o ponto de vista dele.
Esse capítulo é dedicado a Luiza Mellark, victorgsantos, Julia Zanini, Priscylla Oliveira, Ana L e Gabriela Odair, que comentaram no capítulo Malandragem, fazendo-o recordista de comentários dessa história, e como eu havia prometido um capítulo extra caso houvesse 6 comentários , aqui vai. Sem vocês eu realmente não o teria escrito!
Esse Cara
"Ah! Que esse cara tem me consumido
A mim e a tudo que eu quis
Com seus olhinhos infantis
Como os olhos de um bandido
Ele está na minha vida porque quer
Eu estou pra o que der e vier
Ele chega ao anoitecer
Quando vem a madrugada ele some
Ele é quem quer
Ele é o homem
Eu sou apenas uma mulher"
Caetano Veloso
Narração de Kent Wayne
Faziam 2 dias que Hope havia ido para a arena. Dois dias que não a tocava nem falava com ela, e eu sentia a sua falta. E ainda havia a preocupação por ela estar naquele lugar perigoso, correndo riscos enormes. Estava observando-a em quase todos os momentos. Meus olhos só desgrudavam da TV quando precisava comer ou fazer outras necessidades, fora isso, eu a acompanhava, até quando ela dormia, humm ...ela ficava tão bonita quando descansava. Eu percebia que alguns estranharam essa minha atenção especial, mas esse não era o momento para me fazer de durão. Eu estava ali por ela, faria tudo para ela sair viva de lá.
Ela conseguira ir muito bem nos momentos iniciais. Pegara armas e uma mochila. Depois matara um carreirista para proteger sua amiga. Ficou abalada na hora, mas já havia se recuperado.
Falavam mal das suas alianças, afinal, ela estava com duas garotinhas, as menores da arena. Se eu pudesse falar com ela, conversaria sobre isso. Diria que era necessário se reunir com tributos fortes, e não controlar uma creche. Mas no fundo isso me fazia admirá-la ainda mais. Aquela garota maluca se uniu a quem não a ameaçava, quem precisava de proteção, e poderia sair algo interessante daí. Não parecia vantajoso num jogo de vida ou morte, mas era especial, mostrava que ela era diferente.
Entretanto, agora ela precisava de comida, ainda com aquelas meninas. O alimento que conseguira no primeiro dia, já estava acabando. Ela tinha que arrumar uma forma de conseguir mais. Se alimentar bem era crucial nos Jogos. Eu podia ajudá-la nesse sentido. Havia muitos ratos naquele lugar, não seria apetitoso, mas Hope era corajosa e não descartaria essa possibilidade. Estava na hora de mandar um presente para ela.
Mas antes precisava arrumar um financiador. Presentes eram muito caros, e uma boa quantidade de dinheiro seria necessária. Normalmente era Nero quem entrava em contato com os financiadores, era ele que contactava os potenciais patrocinadores. Ele tinha mais contatos, já agia há mais tempo como mentor. Mas as vezes, era necessário que eu fizesse isso também. E sabia por onde começar. Então, tirei os olhos da televisão para buscar apoio à Hope.
Procurei Titus Opportunity, um importante banqueiro da capital. Ele era riquíssimo e poderia patrocinar ou indicar um patrocinador para Hope. Na verdade, caso ele não fizesse nada disso, eu estava disposto a tudo, penhorar e vender meus bens, pegar um empréstimo desvantajoso. Faria qualquer coisa para sair de lá com o dinheiro que precisava.
Ele me recebeu, bonachão, com um sorriso nos lábios. Não era a primeira vez que o visitara durante os Jogos Vorazes, mas nunca estivera tão desesperado por dinheiro:
– Você não me parece bem, Kent.
– São os jogos, é como se estivesse sendo sugado.
– Estou vendo. Mas nunca te vi assim antes, você está precisando de descanso.
– Vai ser difícil conseguir isso agora.
– Mas então o que você procura? Dinheiro? Como sempre !- ele deu uma risada, era um ótimo negociador partindo logo ao ponto que interessava
– Sim. - disse impassível - Um patrocínio para Hope Vega.
– Humm... A garota... - ele colocou a mão no queixo e deu um suspiro – ela é belíssima, não? E diferente! Só não devia se aliar a meninas tão pequenas, mas ela tem potencial – ele falava de Hope com tanto fervor que eu deveria dar um soco nele, mas não estava lá para brigar, eu precisava do dinheiro
– Então? Você consegue dinheiro para ela? - continuei impassível tentando encerrar seus devaneios
– Você está com sorte – ele me disse animado – Tenho verbas para Hope Vega. Um cliente meu liberou dinheiro para ela.
– Um cliente? - eu queria saber quem era aquele patrocinador misterioso
– Sim. Palmer Vega, ele é um empresário rico do seu distrito, dono de diversas fábricas, e é um ótimo cliente.
– Quem? - eu sabia quem ele era, reconheci o nome, mas queria saber mais
– O pai dela dela, Kent! Mas quem não faria isso por uma filha? Ainda mais que só resta ela, sendo que a irmã morreu nos jogos. Homem azarado, não? As duas filhas passando pela arena- aquilo me surpreendeu, Hope não falava bem do pai, ela não era próxima dele, percebi que as coisas eram mais estranhas do que pensava, no fundo ele deveria nutrir algum tipo de amor pela filha
– Ahh, é claro – fingia desinteresse
– Então, quanto você precisa?- eu escrevi num papel o valor necessário, ele colocou a mão no queixo e voltou a falar – È possível, vou pedir a minha assistente para trazer.
Havia sido mais fácil do que eu pensava. O dinheiro estava comigo, agora só precisava enviar o presente. Com a ratoeira nas mãos, decidi escrever um bilhete, fiquei um tempo pensando e por fim saiu:
" Não passe fome. Faça uma caçada! Te espero com saudades!
Do seu Kent"
Entreguei o bilhete e a ratoeira para serem inspecionado. Derby Axxiom, era a responsável por verificar essas coisas. Ela era uma mulher discreta, e deveria apenas ver se eu estava mandando o que informava no meu pedido e se o bilhete não daria uma informação sigilosa ou uma vantagem desleal a Hope. Ela me olhou de forma estranha. A mensagem tinha certo tom sentimental. Mas eu queria dizer aquilo, e achava que talvez animasse Hope. Não me importava com Derby sabendo sobre a gente. Ela deveria manter o conteúdo que via em segredo, e eu nunca tinha ouvido falar que ela vazara alguma informação pessoal, pelo menos nenhuma fofoca havia acontecido sobre algum bilhete estranho, e deveria ter tido muitos. Ela carimbou o meu pedido com "Aprovado" Eu pisquei para ela, tentei parecer agradecido e falei:
– Obrigado.
– Boa sorte.- ela sorriu
Embrulhei tudo, paguei a taxa para enviar no pará-quedas e despachei o conteúdo. Não foi barato, mas por Hope valeria a pena mesmo se custasse 100 vezes mais e saísse do meu bolso. Pela manhã, ela deveria receber o presente. Voltei para a televisão, observava Hope que dormia. Ela estava tão longe de mim, e tão bela!
