Capítulo bônus

Mais um ano depois...

Bulma sentiu as primeiras contrações exatamente dois dias após Raditz ter deixado Vegetasei para acompanhar Tarble e Kakarotto até o planeta onde Piccolo se estabelecera, os três saiyajins comprometidos a ajudar o namekuseijin na colheita dos primeiros frutos dados pela semente sagrada.

De acordo com seus cálculos – que nunca, nunca estavam errados –, ainda faltava pouco mais de um mês para o bebê nascer e, por isso mesmo, quando experimentou um leve incômodo nas costas, seguido por uma dor que, de tão intensa, mal permitia a cientista conseguir ficar de pé, Bulma soube não só que tinha entrado em trabalho de parto, mas que alguma coisa ali não estava certa

— Tem alguma coisa errada — Ela disse entre gemidos e gritos e respirações ofegantes e laboriosas enquanto Vegeta a carregava o mais rápido possível até a cama mais próxima e berrava para que alguém fosse chamar o médico. — Está muito cedo, Vegeta. Está cedo demais. Trunks não deveria nascer agora...

Vegeta não a respondeu, ou, se a respondeu, Bulma não ouviu, pois a dor, que era como uma lâmina e manifestava-se em intervalos que eram curtos demais e mal davam a ela chance de se recuperar, aliada ao pânico de estar entrando em trabalho de parto muito antes do previsto tinham não só esgotado o seu corpo, mas, principalmente, deixado a mulher num estado de extrema aflição, e a cientista encontrava-se alheia a tudo, exceto ao próprio – e agonizante – sofrimento físico, mental e emocional.

Do jeito que estava, não percebeu quando Vegeta a deitou sobre a cama e nem quando o médico – um velho saiyajin –, Chichi e Gure entraram correndo no quarto e se aproximaram, os três rodeando a cientista e cobrindo-a com compressas de água e toalhas quentes, fazendo tudo o que podiam para tentar diminuir as dores que lhe atacavam sem descanso. Não percebeu também quando Vegeta, anormalmente pálido e com olhos arregalados e aterrorizados, foi praticamente arrastado para fora do cômodo pelo rei.

— Ela ficará bem — O rei Vegeta garantiu ao filho pela décima quarta vez naquele final de tarde, mas o saiyajin permaneceu calado e nem mesmo fez menção de mostrar que ouvira as palavras proferidas pelo pai. — Lentis sempre foi um médico muito competente — O rei disse, referindo-se ao saiyajin que estava ajudando Bulma, e colocou uma mão sobre o ombro de Vegeta, num gesto de conforto. — Sei que ele já é bem idoso e está bastante enferrujado, mas tenho certeza de que poderá ajudar Bulma e o pequeno Trunks. Apenas tenha fé, meu filho.

Houve um silêncio longo demais quando o rei terminou de falar, pois Vegeta somente se manifestou vários minutos depois. Quando falou, sua voz soou estranha, carregando um quê de arrependimento e derrota.

— Não sei onde estava com a cabeça — Sussurrou o príncipe. — Devia ter deixado as coisas como estavam.

Ao seu lado, o rei franziu as sobrancelhas.

— Do que está falando?

Um suspiro cansado precedeu a fala de Vegeta:

— Eu já tive esse sonho tantas vezes que até mesmo perdi a conta. E ele nunca termina bem — Ele pressionou as pontas dos dedos contra os olhos, massageando-os devagar. — Bulma nunca sobrevive ao parto.

— Você tem pesadelos com Bulma em trabalho de parto? — Indagou o rei, fitando o príncipe com preocupação. Quando percebeu que Vegeta não o responderia, prosseguiu, falando bem devagar e de modo complacente. — Pesadelos não costumam passar da manifestação dos nossos medos. Não deveria dar-lhes tanta atenção... ...muito menos dar-lhes permissão para conduzir a sua vida.

Vegeta bufou de levinho e torceu um pouco o nariz, entretanto, permaneceu calado.

— Ela é uma garota muito forte. Com certeza se sairá bem. E o meu neto ficará bem também.

— Ela disse que não estava na hora ainda — Interrompeu o príncipe, rispidamente. — Trunks só deveria nascer no próximo mês. As contrações começaram cedo demais. Bulma está certa... algo tem de estar errado.

— Não necessariamente — Acautelou o pai. — Bulma baseou os seus cálculos no seu pouco conhecimento de gestação e na fisiologia dos terráqueos, contudo, não podemos nos esquecer de que Trunks não é nem um terráqueo puro e nem um saiyajin puro. Ele é uma mistura de duas raças bem diferentes. Além do mais, — Falou o velho saiyajin, e sua voz carregava uma seriedade que apenas raramente utilizava. — Trunks jamais escolheria nascer se a gravidez realmente oferecesse a Bulma qualquer risco de vida. Não se esqueça da escolha que ele fez há alguns anos.

O príncipe prendeu a respiração e retesou a coluna ao se lembrar da época em que Bulma perdera o bebê.

— Pai, você acha...?

— Eu acho que você está deixando a sua preocupação falar alto demais — Orientou o rei e esboçou um sorriso pequeno ao filho. — Não permita que isso aconteça. Tenha um pouco de fé na sua esposa e no seu filho. Ela pode ser uma terráquea e não possuir a mesma força física que um saiyajin, mas existem muitos tipos de força... e o que Bulma não tem nos músculos, Vegeta, ela tem de sobra no coração e no espírito. E Trunks... ...Trunks pode ser apenas uma criança, mas ele é um menino valente e bastante sábio ao seu próprio modo. Ele jamais permitiria que mal algum acontecesse a ela... e nem a você.

O príncipe ponderou sobre aquelas palavras, seu corpo ainda tenso por causa da preocupação que era impossível deixar de sentir. E então, encarou o pai bem nos olhos e perguntou:

— Ele se lembrará de tudo o que aconteceu? — Sua voz soou ligeiramente estrangulada, refletindo bem o aperto que experimentava no peito.

Não sabia que tipo de resposta gostaria de ouvir – se sim ou se não –, mas a réplica do seu pai o surpreendeu.

— Você se lembra?

— O quê? Se eu me lembro do quê?

O rei sorriu com mansidão.

— Eu e a sua mãe costumávamos compartilhar muitos sonhos... ...primeiro, quando ela estava grávida de você e, depois, do seu irmão. E você estava sempre presente nesses sonhos. Você ainda tem as lembranças dessa época?

Vegeta permaneceu em silêncio enquanto o rei falava e, no instante em que abriu a boca para responder que não, pois ele de nada se recordava, seu pai retomou a palavra:

— Meus conhecimentos sobre esses assuntos não são grande coisa, porém, até onde sou capaz de entender, nossas memórias são perdidas quando atravessamos os portões do mundo espiritual e adentramos o plano físico para aqui habitarmos. É por isso que acredito que ele não se recordará de nada, assim como você não se recorda e como eu também não me lembro do que se passou quando os seus avós me esperavam. Acredito que Trunks será como nós fomos um dia. Uma folha em branco... e ele, tal como todos nós, fará novas memórias nessa sua nova existência.

O som alto e estridente do choro de um bebê, então, eclodiu no ar e ressoou pelos corredores do palácio real assim que o rei concluiu sua fala, e os dois saiyajins deram a conversa por encerrada naquele momento. Correram até a porta do cômodo onde Bulma estava e, repletos de antecipação e palpável nervosismo, aguardaram.

Ao ver a maçaneta girar e a porta começar a abrir, o príncipe prendeu a respiração.

— Parabéns, alteza — O doutor Lentis o felicitou ao abrir a porta. O semblante do velho saiyajin deixava transparecer imenso cansaço, bem como a alegria e o alívio de uma missão cumprida com sucesso. — É um menino. Mas acho que você já sabia disso!

O médico riu e deu uns tapinhas no ombro de Vegeta, que estava aturdido demais pela notícia para conseguir responder. Percebendo a dificuldade do filho, o rei sorriu e indagou ao outro saiyajin:

— Lentis, meu filho pode entrar para vê-los?

— Claro que sim. Bulma está um pouco cansada, mas passa bem. E já está amamentando, o que é um ótimo sinal. Vou deixá-los a sós, mas me chamem caso haja necessidade.

Eles trocaram mais algumas poucas palavras e, assim que o doutor se foi, o rei deu passagem ao príncipe para que entrasse no quarto. Chichi e Gure ainda estava lá dentro, as duas mulheres ao lado de Bulma, rindo e conversando enquanto limpavam o rosto suado da cientista, paparicavam o bebê e trocavam alguns lençóis que estavam sujos de sangue e secreções. Ao verem Vegeta caminhando até a cama, a terráquea e a techtecana se entreolharam e se despediram brevemente de Bulma, prometendo retornarem mais tarde.

— Parabéns, Vegeta! — A pequena Gure exclamou e segurou as mãos do cunhado entre as suas. — É um bebê muito bonito.

— Obrigado... — Vegeta sussurrou a resposta, seu olhar ainda um tanto perdido, e caminhou devagar até Bulma.

Ele ouviu as duas mulheres conversarem baixinho com o rei, que optara por permanecer no corredor e dar a Vegeta privacidade para ver o filho e a esposa, entretanto, não prestou muita atenção no que diziam, pois estava completamente concentrado na mulher deitada na cama e no pequenino bebê que sugava-lhe o peito com avidez.

— Calminha, Trunks — Bulma murmurou para o filho, e o príncipe ouviu o cansaço e um ligeiro desconforto na voz dela. — Eu sei que o apetite de vocês saiyajins é muito grande, mas pode mamar com mais calma. — Ela riu fracamente e olhou para cima quando Vegeta se acercou o suficiente.

— Ele está te machucando? — Perguntou o saiyajin, e Bulma fez que não com a cabeça.

— Não. Está apenas esfomeado. Apressado para comer... apressado para nascer... ele é mesmo o seu filho!

Indignado, Vegeta bufou, cruzou os braços na frente do peito e virou o rosto, no entanto continuou a fitar os dois com o cantinho dos olhos.

— Não fique emburrado — Disse a cientista, num tom brincalhão, e Vegeta bufou novamente. — Quando ele terminar de mamar, você poderá segurá-lo.

— O quê?! — A ideia o deixou um pouco assustado. — Segurá-lo?

— Claro — Ela tentou se ajeitar um pouco contra o encosto da cama e sorriu agradecida quando o saiyajin a auxiliou, afofando e arrumando os travesseiros em suas costas. — Sei que parece difícil, mas não há mistério algum nisso.

O príncipe saiyajin não disse nada, apenas observou o pequeno Trunks em silêncio, seus olhos escuros ligeiramente estreitos. Bulma, percebendo o olhar um tanto quanto sério e preocupado de Vegeta, perguntou:

— O que foi?

— Não é nada — Garantiu ele, rapidamente.

— Tem certeza? Parece pensativo...

— É que — Ele hesitou um pouco antes de responder, mas seus olhos, nem por um segundo, deixaram a figura pequenina do filho. — Eu não esperava que ele fosse ser tão pequeno.

Bulma riu.

— Eu te entendo. Estávamos tão acostumados a vê-lo mais crescido. Mas ele é apenas um bebê, agora. E bebês são assim... pequenos.

— Meu pai disse que ele não se lembrará do que aconteceu.

— Oh! — Bulma exclamou e abaixou um pouco o rosto, seu olhar demorando-se no bebê. — Acho que será melhor assim — Disse ela, por fim, e tornou a erguer o rosto, sustentando o olhar sereno em Vegeta. — Ele passou por muita coisa. Na verdade, nós todos passamos. É melhor mesmo que ele não se lembre do que aconteceu.

O príncipe assentiu devagar e sentou-se na beirada da cama, ao lado de Bulma. Passou a mão pelo rosto dela, ajeitando algumas mechas azuis que estavam coladas na testa suada.

— Você se saiu muito bem, Bulma — Sussurrou baixinho, e a cientista sorriu, gostando do toque gentil.

— Eu estava preocupada. Quando senti a primeira contração, achei que algo estava errado, pois, pelos meus cálculos, ainda estava cedo demais para Trunks nascer. Mas acho que nem eu, a mulher mais inteligente do universo, sou infalível.

O cantinho dos lábios de Vegeta se contorceram num sorriso.

— Você é uma terráquea muito convencida, isso sim.

Bulma abriu a boca para respondê-lo, mas calou-se assim que sentiu a boquinha de Trunks afastar-se do seu seio e o ouviu fazer um som pequenino.

— Ah! Olha só quem já está com a barriguinha cheia — Comentou ela, seu coração explodindo de carinho e felicidade. Com muito cuidado, arrumou o bebê nos braços. — Agora que já está alimentado, o que acha de conhecer o seu pai?

No seu colo, Trunks deixou escapar outro som miúdo, que Bulma interpretou como sim.

— Muito bem — Disse a cientista com firmeza. — Vegeta, pode se preparar.

A princípio, o saiyajin empalideceu e até recuou um pouco, mas, depois, recuperou a compostura e, estufando o peito, aceitou o desafio.

— O que devo fazer?

— Apenas fique calmo e não tenha medo. Tenho certeza de que você não irá machucá-lo. Trunks é uma criança forte, afinal, ele puxou ao pai.

Ele também puxou à mãe, foi o que Vegeta imediatamente pensou, mas não disse nada. Em silêncio, recebeu a criança em seus braços e a contemplou como se ela fosse a criatura mais fantástica e incrível e maravilhosa do universo.

E, talvez, até fosse mesmo.