Salve-nos Charlie parte III

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(Flashback)

Os olhos dela eram de um tom de azul profundo como ele nunca tinha visto antes. Como duas pequenas abóbadas retiradas do céu e repousadas no rosto suave de menina que escondia a personalidade forte de mulher.

Charlie a amava como nunca amara ninguém em toda sua vida, a não ser sua própria família que no fim o tinham destruído. Mas Claire não. Claire era o anjo que o havia resgatado do fundo do poço, que fora paciente o suficiente para esperar que ele se recuperasse do vício.

Eles estavam perto das pedras, era noite de lua cheia. O vento bagunçava os cabelos loiros dela e a risada gostosa de Claire lhe enchia os ouvidos. Charlie não podia estar mais feliz.

- Está vendo aquela estrela lá?- Claire indagou apontando para o céu, subindo em uma pedra com dificuldade.

- Você vai cair daí!- Charlie avisou, preocupado, seguindo-a.

- Tá tudo bem Charlie!- ela respondeu.

Ele juntou-se a ela em cima da pedra.

- Está vendo aquela estrela?- ela voltou a apontar e perguntar. – A estrela mais brilhante?

- Estou sim.- dessa vez ele respondeu.

- Eu gosto de pensar que essa estrela é o resgate que está vindo nos levar de volta para casa.

- Nós vamos para casa, Claire. Um dia. Eu, você e o Aaron. E podemos morar em Londres, eu sempre tive vontade de voltar pra Londres.- ele envolveu as mãos dela nas suas. Você moraria comigo em Londres?

- Sim.- Claire respondeu com um beijo terno.

Eles se abraçaram e Charlie a deitou delicadamente na pedra, buscando-lhe os lábios com mais intensidade dessa vez. Claire deu um gemido suave e Charlie sorriu. Gostava do jeito meigo dela quando faziam amor, terno e intenso ao mesmo tempo.

As mãos dele começaram a subir a camiseta dela acariciando a cintura esguia, a pele alva e macia se contraindo sob seus dedos longos de tocador de violão. Claire perdeu-se nos braços dele e nos beijos macios.

Charlie acariciava-lhe o rosto enquanto eles se movimentavam no mesmo ritmo, se amando, porém, aos poucos, a medida em que ele a tocava, a pele alva de Claire começou a adquirir uma tonalidade mais escura.

- Claire...- Charlie murmurou, estranhando a mudança.

- Charlie!- a voz dela soou esganiçada e seu rosto se transformou por completo. De repente, não era mais Claire quem estava nos braços dele, mas outra mulher. Uma mulher morena, com uma tatuagem no braço direito. Com os olhos arregalados, ela dizia: - Salve-nos Charlie! Salve-nos Charlie!

Ele soltou a mulher de imediato, assustado. Sentiu sua garganta arder e ar ser empurrado com força para dentro de seus pulmões. Tossiu e abriu os olhos. Viu Desmond debruçado em cima dele rodeado por Hurley e Craig.

- Graças a Deus, brotha!

- Você está bem?- indagou Craig.

- Dude, o que deu em você para se jogar de cabeça no lago daquele jeito. Pretendia se suicidar?- indagou Hurley com preocupação.

Charlie tossiu mais um pouco antes de dizer:

- Mas eu estava na praia, com a Claire!

- Você tava sonhando de novo Charlie, esse seu sonambulismo ainda vai te matar!- comentou Craig.

- Eu vi uma mulher no meu sonho. Morena, de cabelos escuros. Ela tinha uma tatuagem no braço direito e dizia que eu tinha de salvar a todos nós, que nem no meu outro sonho, aliás todos esses meus sonhos me dizem que tenho de salvar alguém, Aaron ou Claire, todos nós. Estou ficando bolado com isso.

- Meu avô Tito costumava dizer que sonhos tem significados.

- Eu também acredito nisso.- comentou Charlie. – Mas estou ficando assustado. Não entendo o que esses sonhos querem dizer.

- Algo me diz brotha, que quando chegar a hora você compreenderá o significado dos seus sonhos. Mas deve ter muito cuidado.- disse Desmond, enigmático.

Hurley suspirou:

- E eu que pensei que tínhamos entrado na floresta atrás de morangos pra minha Libby!

- Vamos andar mais um pouco antes que escureça.- sugeriu Desmond ao grupo que o seguiu.

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Depois de Ana-Lucia ter-lhe virado as costas e se recusado a conversar com ele depois que viu Cassidy beijando-o, ele resolveu dar uma volta na cachoeira e deixá-la esfriar a cabeça para conversarem quando ele voltasse, mas ao chegar à sua cabana encontrou-a terminando de arrumar seus pertences e os do bebê.

- O que está fazendo?- ele indagou, surpreso.

Ela não respondeu de pronto, apenas encarou-o e continuou arrumando suas coisas. Irritado, Sawyer segurou-a pelo braço, com força.

- O que pensa que está fazendo, lábios quentes? Vai me deixar?

- Eu vou embora- ela confirmou puxando o braço da mão dele.

O grito dela e a tensão que reinava no ambiente acordaram James no bercinho. Ele começou a chorar alto e Ana-Lucia correu a acalentá-lo.

- Calma bebê, mamãe está aqui...shiiiii...

- Ana, você não pode ir embora e ainda por cima levando o meu filho!

- Mas eu vou! Estou cansada das suas mentiras! Eu não me sinto segura com você...

- Eu já te contei a história toda, já disse que te amo, estou vivendo com você, o que mais você quer?

Ela não respondeu, mas seus lábios tremiam e James ainda chorava no colo dela, sentido.

- Amor... – ele insistiu, acariciando uma mecha dos cabelos dela que lhe caíam sobre o rosto.

- Tchau, Sawyer!- disse ela, ajeitando James no colo e colocando uma mochila na costa.

Ele bateu com o punho na mesa, enraivecido.

- Se quer ir, ótimo, vá! Mas deixe meu filho aqui!

- Meu filho jamais vai ficar longe de mim!- ela gritou de volta, abraçando o bebê. – Além disso, como iria cuidar dele? Você não sabe cuidar dele!

- Mas eu tento, tá bom! Você está sendo muito injusta comigo, Ana!

- Divirta-se com sua garota e me deixe em paz!

Dizendo isso ela deu as costas a ele mais uma vez naquele mesmo dia e Sawyer não agüentou:

- Ninguém é insubstituível, mulher, sabia?

- Sim.- ela respondeu com rispidez. – Você também!

Quando ela se afastou levando James que não parava de chorar em seu colo, Sawyer sentiu vontade de sair quebrando a cabana inteira de tanta raiva que estava sentindo. Por que Ana-Lucia tinha que ser tão difícil? Ele nunca se relacionara com uma mulher tão geniosa em toda a sua vida. As coisas poderiam ser mais simples, ela poderia ser mais dócil. Mas talvez se fosse assim, ele não a amasse tanto. Arrependeu-se de ter dito que ela era substituível, porque a verdade é que ela não era. Ela era única.

Triste e chateado, ele resolveu dormir um pouco. Na manhã seguinte tentaria uma nova aproximação com ela. Imaginou que ela iria para a casa de Jack e Kate, e logo cedo ele a procuraria lá.

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Uma chuva fina começou a cair e Ana-Lucia apertou o passo pensando para onde iria. Viu a cabana de Jack e Kate, mas não quis ficar com eles porque imaginou que seria o primeiro lugar onde Sawyer a procuraria. Apesar do que ele tinha dito, ela sabia que ele a procuraria e no fundo pensava que estava exagerando com ele, mas seu orgulho era forte e ela não perdoaria aquele deslize tão facilmente, principalmente depois dele ter dito que ela não era insubstituível.

A chuva começou a aumentar e Ana-Lucia se viu desesperada para encontrar um abrigo. Foi então que lembrou-se de Libby. Desde que tinha voltado ao acampamento elas não tinham conversado muito porque a memória de Ana ainda estava muito confusa, mas com o tempo ela começou a se lembrar do que tinha vivido quando o avião caiu na ilha e da amizade que fizera com Libby.

Decidida, ela foi até a cabana da amiga e chamou à porta, cobrindo James com uma fralda para que o bebê não se molhasse.

- Libby, você está aí?

Libby não demorou a aparecer, com uma expressão cansada, uma mão às costas e a outra embaixo da pesada barriga em estágio final de gravidez.

- Olá, Ana. Está tudo bem?- Libby indagou, afastando a cortina para que Ana-Lucia entrasse e saísse da chuva.

- Onde está o Hurley?- Ana perguntou, se acomodando com James dentro da cabana.

- Ele partiu com o Desmond e os outros rapazes para encontrar morangos pra mim na floresta. Eu ando com esses desejos mas não queria que ele tivesse ido, mas o meu Hugo é teimoso.

- Eu posso ficar aqui por algum tempo?- Ana-Lucia perguntou com o semblante hesitante, não gostava de pedir ajuda a ninguém, tinha muita dificuldade com isso e se não fosse mãe de um bebê de sete meses ela não incomodaria ninguém, poderia dar um jeito de improvisar uma cabana para passar a noite, mas James precisava de um lugar seco e quentinho para dormir.

- È claro que pode. Mas o que houve? O Sawyer sabe que está aqui?

Ana-Lucia balançou a cabeça negativamente.

- Eu e ele tivemos uma discussão. Eu o vi beijando Cassidy e...

- Mesmo?- questionou Libby, surpresa. – Oh, Ana, sinto muito. Mas o que ele disse a você sobre isso?

- Disse que foi ela quem o beijou, que não foi culpa dele, mas eu me sinto tão insegura, não agüento mais sentir tantos ciúmes!- Ana desabafou.

- Ciúmes!- exclamou Libby. – Acho que essa é a palavra chave para o seu relacionamento com o Sawyer. Vocês se amam! Acho que desde o dia em que se viram pela primeira vez e você bateu nele. Não percebe Ana, o quanto você e ele são possessivos?

Ela abaixou a cabeça e embalou James que voltou a chorar.

- Nunca amei alguém assim.- ela admitiu. – Nem mesmo Danny.

- Quem é Danny?- Libby indagou. Ana-Lucia nunca tinha falado a respeito de seu passado com ela.

- Meu ex-marido.- ela respondeu. – Nos separamos depois que eu levei tiros em serviço. Eu estava grávida e pirei quando perdi o bebê. O Danny me deixou quando eu saí da recuperação. Foi muito difícil, embora eu ficasse dizendo pra todo mundo que estava tudo bem, mas não estava.

Ana ficou em silêncio um pouco, depois continuou:

- Sabe por que eu vim parar nessa ilha? Foi por causa de um homem. O nome dele era Christian. Nos conhecemos no aeroporto internacional de LA depois que eu deixei a polícia. Ele era alcoólatra, mas eu não me importei. Ele era divertido e charmoso, e nos tornamos amantes, éramos patéticos juntos, como ele costumava dizer. O pior de tudo é que ele era casado e mais de vinte anos mais velho do que eu. Ele me chamou pra irmos à Sidney e eu aceitei. Mas quando chegamos lá, ele passava os dias e as noites bebendo, me deixava sozinha no hotel. Depois eu descobri que só estávamos em Sidney porque ele queria ver uma filha que ele tinha com uma australiana. Decidi ir embora, deixá-lo pra trás e retornar à LA, então peguei esse vôo.

Libby deu um sorriso amargo.

- Bem, eu fui parar em Sidney porque estava tentando me encontrar.- contou Libby. – Meu marido David teve câncer e morreu. Eu enlouqueci com isso, literalmente. Passei uma temporada em uma casa de recuperação e quando saí de lá resolvi viajar para tentar me encontrar, descobrir um lugar onde eu pudesse recomeçar e ser mais feliz. Mas aí, descobri que meu coração estava em Los Angeles e quando decidi voltar, peguei o 815 da Oceanic.

Libby riu e Ana-Lucia a acompanhou na risada. Aquilo era irônico, mas ao mesmo tempo reconfortante poder ter uma conversa franca com alguém naquela noite.

- Mas sabe o que é mais engraçado nisso tudo?- indagou Libby. – È que apesar de tudo, eu consegui me encontrar, aqui nesta ilha. Eu amo o Hugo e agora vou ter um filho, parece loucura, mas estou muito feliz, Ana.

James se irritou no colo da mãe e começou a berrar alto.

- Oh, o que ele tem?- perguntou Libby.

- Ele está faminto!- Ana respondeu.

- Quer que eu pegue uma fruta pra ele?

- Obrigada, mas nessas horas a única coisa que ele quer é mamar.- Ana-Lucia levantou a camiseta com cuidado, deu um jeito de puxar o sutiã e acalentou o filho em seu seio. – Já comecei a dar sopa, papinha, mas continuo a amamentar.

- Isso é bom pra ele! Você é uma boa mãe, Ana.

Ela sorriu.

- Às vezes eu fico imaginando como seria se nós fôssemos resgatados daqui e eu pudesse rever minha mãe. A Capitã Cortez ficaria louca se soubesse que tem um neto. Ela sempre quis ter um neto.

Libby sorriu também.

- Minha mãe já faleceu, mas o meu pai ficaria muito feliz se soubesse que vai ser avô.

Ana-Lucia ficou calada por alguns instantes antes de dizer, olhando para James.

- Eu gostaria de saber lidar tão bem com o pai dele, como sei lidar com ele.

- Bem, acho que tudo o que vocês dois precisam é de tempo para se entenderem, logo vão estar aos beijos novamente, deixando a Sra. Lewis chocada e mexericando.

Ana deu uma gargalhada:

- Ela morre de inveja de nós dois!

James parou de mamar e ergueu o rostinho para a mãe.

- O que foi, cowboyzinho da mamãe?- disse Ana ao filho com a voz adocicada.

O bebê sorriu e voltou a abocanhar o bico do seio dela, sugando. Ana beijou-lhe a cabecinha loira.

- Você quer comer alguma coisa?- perguntou Libby. – Manga, talvez?

- Obrigada Libby, mas não quero comer nada. Passei o dia inteiro enjoada, aliás, estou enjoando a semana inteira, acho que preciso dar uma mudada no meu cardápio.

- Você deveria falar com o Jack sobre isso.- Libby sugeriu.

- Não Libby, eu estou bem, não é nada demais. Obrigada por me acolher.

- Eu é que agradeço.- respondeu Libby, segurando a mão da amiga. – Jamais poderei agradecer tudo o que fez por mim do outro lado da ilha.

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Kate colocou o pedaço de papel sobre a mesinha de madeira e rabiscou os meses e os dias do ano. Em seguida, ela voltou-se para Jack e abriu um sorriso, ele balançava a pequena Lilly no ar e a menina sorria para o pai.

- Bem, Dr. Shephard, estou fazendo o que me pediu, mas duvido que você consiga cumprir o que me prometeu hoje de manhã.- ela provocou.

Jack riu, levemente.

- Kate, eu sou um cara sério, você sabe. Monte a tabela e eu não irei encostar um dedo em você nos dias proibidos.

Ela riu.

- Você tem certeza? Olha que são muitos dias.

Ele se aproximou dela e a beijou no rosto, dizendo:

- Só quero cuidar de você, amor. Sabe que outra gravidez aqui na ilha não seria bom pra você...

- Eu sei disso.- ela respondeu, dessa vez séria. – Você está sempre cuidando de mim, meu médico lindo!

Eles se beijaram nos lábios e Lilly resmungou no colo do pai. Ambos sorriram porque a filha deles desde cedo se mostrava muito opiniosa.

- Tá bom, o papai não beija a mamãe agora, bolinho!

Kate achava engraçado como Jack vinha chamando Lilly ultimamente. Bolinho. Combinava perfeitamente com sua menininha roliça.

- Ok, agora deixe-me terminar essa tabela antes que a gente caia em tentação e esqueça toda essa história e a bolinho resolva querer mamar outra vez.- disse Kate, pegando o lápis e voltando sua atenção para a tabela.

- Certo, Sra. Shephard. Eu e a Lilly não iremos te atrapalhar. Nós vamos ver a chuva na janela, não é bolinho?

Kate voltou concentrou-se na tabela, mesmo assim, Jack indagou à janela:

- Vai falar com a Libby amanhã sobre o que conversamos?

Ela assentiu.

- Vou sim, embora eu não esteja muito animada com meu novo emprego no acampamento. Sugerir que as pessoas controlem mais seus hormônios não será tarefa fácil.

- Mas eu confio em você pra isso. È o melhor pra comunidade, Kate. Precisamos sobreviver.

- Viver juntos, morrer sozinho né?- ela indagou. Era o antigo slogan de Jack e continuava servindo três anos depois dele tê-lo criado.

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Sawyer não conseguia dormir. Virava na cama de um lado para o outro sentindo falta de Ana-Lucia. Pensou em ir atrás dela antes do amanhecer, mas desistiu da idéia porque ainda estava muito zangado, não só com ela, mas consigo mesmo.

No que tinha se transformado? Num idiota que abaixava a cabeça toda vez que sua mulher gritava com ele? Já não era mais nem sombra do que fora quando caíra naquela ilha. Um homem egoísta, que só se importava consigo mesmo, os outros que se danassem. Deveria voltar a ser o mesmo Sawyer de antes, o Sawyer que todos odiavam. Ana-Lucia não mandava nele. Se ela estava com raiva por Cassidy tê-lo beijado, problema dela.

Levantou-se da cama e lavou o rosto. Arrumou os cabelos, calçou os sapatos e caminhou pela areia molhada até a cabana de Cassidy. Alguns pingos de chuva ainda caíam, mas nada que pudesse encharcá-lo.

Ao chegar à cabana dela, entrou sem bater na porta e a encontrou dormindo em um monte de palha e tecido que servia como cama, a pequena Clementine dormindo ao lado dela. Ao ver as duas adormecidas e abraçadas, Sawyer sentiu muito culpado e idiota ao mesmo tempo.

Saíra de sua cabana pensando em ficar com Cassidy para se vingar de Ana-Lucia que o abandonara, mas em nenhum momento pensou em Clementine ou James. Eles eram seus filhos e não tinham culpa se ele ficava naquela confusão com as mães deles. Talvez Ana tivesse razão. Ele não estava dando segurança a ela e isso a fazia sofrer.

Ao mesmo tempo em que não dava segurança a Ana-Lucia, não dizia a Cassidy de uma vez por todas que não a queria, não cortava as iniciativas dela. Mas isso iria mudar. Faria as pazes com Ana-Lucia e resolveria aquela história de uma vez por todas.

Ele agachou-se ao lado de Clementine e beijou-lhe levemente a testa. A menina resmungou no sono, mas não acordou. Sawyer aproveitou para ir embora antes que Cassidy acordasse e o visse ali.

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Ana lavou o rosto com água fria, tentando fazer passar a sensação de vertigem que estava sentindo. Mas aparentemente não funcionou muito. O enjôo também continuava a incomodá-la e ela não sentiu vontade de comer nada naquela manhã, assim como na noite anterior.

Libby notou o desconforto dela e disse:

- Ana, você não me parece mesmo bem. Não a vejo assim desde que... – ela interrompeu a si mesma, fazendo cara de espanto, como se tivesse pensado em algo.

- Desde que?- perguntou Ana-Lucia com os olhos fechados e a mão direita na testa.

- Desde aquela noite em que você passou mal, lembra, quando o Sawyer estava na floresta caçando. Você se sentiu muito mal, o Jack te examinou e descobriu que você estava grávida.

Ana-Lucia alargou os olhos.

- Não, não pode ser! Isso é impossível!

- Pois pra mim parece muito possível, Ana! Nós não temos qualquer tipo de método contraceptivo aqui, você e o Sawyer fazem amor com freqüência eu imagino?

- Não Libby, eu não estou grávida de novo. Isso não pode acontecer!- disse Ana com certa irritação. – Com licença, eu vou preparar uma vitamina de frutas pro James.

Libby não disse mais nada, mas ficou com aquilo na cabeça. Os sintomas de Ana pareciam de gravidez. Mas de qualquer forma, se a amiga estivesse grávida novamente, logo Ana descobriria.

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- Não vejo porque vou precisar da Juliet.- disse Kate a Jack, com irritação enquanto trocava a fralda de Lilly.

- É claro que vai precisar dela, Kate. A Juliet é obstetra, médica de fertilidade e vive há um bom tempo nessa ilha.

Kate revirou os olhos, mas sabia que Jack tinha razão. Ela poderia trabalhar as mulheres na questão afetiva, mas Juliet com certeza era a mais indicada para a parte médica. E não demorou muito para a loira chegar, toda animada para seu novo trabalho.

- Bom dia Kate.- ela saudou com simpatia.

- Bom dia.- respondeu Kate, terminando de arrumar Lilly e colocando-a no colo.

- Vamos indo? O Jack me explicou hoje mais cedo sobre a idéia dele e eu achei interessante. Só acho irônico que agora eu tenha que ajudar as mulheres a evitarem a gravidez enquanto meu trabalho na Dharma Initiative era fazê-las engravidarem.

Kate concordou. Deu um beijo em Jack, que também despediu-se de Lilly.

- Tchau bolinho, toma conta da mamãe, tá bom?

Em seguida as duas caminharam pela praia em direção à cabana de Libby. Quando lá chegaram, Libby, Ana-Lucia e Sun estavam sentadas à porta da cabana, ambas com seus bebês no colo.

- Bom dia.- Juliet e Kate saudaram as mulheres.

As três sorriram e Kate explicou o motivo da visita delas.

- Meninas, eu e o Jack andamos conversando sobre um assunto importante para a segurança das mulheres da comunidade e para a sobrevivência do grupo. Por isso, pedimos a ajuda de Juliet e viemos falar com vocês.

As mulheres prestaram bastante atenção. Foi Kate quem começou:

- Deve ser do conhecimento de vocês que estamos racionando a comida porque a Dharma parou de fazer os carregamentos. Por causa disso, chegamos a uma questão importante: o controle de natalidade no acampamento. Vocês sabem que não possuímos contraceptivos aqui e algumas mulheres já engravidaram e tiveram seus bebês.

As três assentiram. Libby acariciou a barriga instintivamente. Ana-Lucia beijou o filho e Sun abraçou Jung.

- Nossa atual preocupação é...- Juliet deu continuidade às palavras de Kate. – As condições médicas precárias da ilha. Não estamos só preocupados com a questão dos alimentos, nos preocupamos também com a saúde das grávidas e seus bebês. Ana-Lucia, por exemplo, teve problemas sérios no parto e uma nova gravidez poderia ser muito complicada.

Ana-Lucia ficou muito séria ao ouvir as palavras de Juliet, mas nada disse.

- Eu também tive problemas.- Kate acrescentou. – E é claro que esperamos que tudo corra muito bem no parto da Libby, mas é preciso que nos conscientizemos do risco que uma gravidez aqui na ilha sem estrutura representa para nós mulheres.

Sun e Libby concordaram e Kate e Julie começaram a falar sobre o controle de natalidade através da tabelinha. Que não era cem porcento eficaz, mas que poderia ajudar. No entanto, Ana-Lucia não mais as ouvia, de repente estava muito preocupada com o que Libby dissera a ela mais cedo sobre a possibilidade de estar grávida de novo. Isso não podia acontecer, por que se ela estivesse esperando um bebê não saberia dessa vez quem era o pai. Durante os meses em que ficou presa pelos outros, como esposa de Benjamin Linus, ela teve relações sexuais freqüentes com ele, ainda que contra sua vontade. Era verdade que assim que conseguiu se livrar do jugo de Linus ela fez amor com Sawyer, mas a dúvida persistira e seria impossível descobrir a verdade. Portanto, era melhor que não estivesse grávida.

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Hurley nem acreditou quando viu a extensa plantação de morangos em um campo aberto a perder de vista. Sorrindo como uma criança, ele voltou-se para Desmond e o abraçou com força, levantando-o do chão. Desmond sorriu.

- Dude, obrigado! A Libby vai ficar louca quando eu voltar ao acampamento com um monte de morangos pra ela.

- È, seu filho não vai nascer mais com cara de morango!- disse Craig.

Os quatro se embrenharam na plantação e começaram a colher as frutas, tentando evitar as formigas de fogo que subiam pelo caule e pelas folhas da planta. Charlie executava sua tarefa tomando muito cuidado, pensando consigo que já tinham acontecido coisas muito estranhas com ele nas últimas horas.

Ele estava concentrado colhendo as frutas que não percebeu que seus amigos se afastaram um pouco. De repente, ele ouviu uma voz feminina atrás de si dizendo num sussurro:

"Salve-nos Charlie, salve-nos...por favor!"

- Desmond? Hurley?- ele chamou, voltando-se para trás e não vendo ninguém.

Foi quando sua atenção foi chamada por um pedaço de tecido vermelho flutuante caindo do céu e enganchando em uma árvore. Charlie largou sua mochila onde estava enfiando os morangos e correu até a árvore para ver o que era aquilo.

- Charlie!- chamou a voz de Desmond ao longe.

- Eu estou aqui! Venham ver isso!

Os três se encontraram no labirinto formado pela plantação de morangos e foram até a árvore onde Charlie estava.

- O que será isso?- ele indagou.

- Parece um paráquedas.- comentou Craig.

- Vamos descobrir se é isso mesmo!- disse Desmond, preparando-se para subir na árvore.

Continua...