Novembro...
- Eu estou ridícula! – revirei os olhos me olhando mais uma vez no espelho.
- Pequena, garanto que você será a mulher mais linda na festa. – ele pegou minha mão e deu um beijo. – Mais linda até que a Ashley! – ele disse – Pelo menos eu só vou ter olhos pra você.
Ele tentou moldar seu corpo no meu, mas a barriga já impedia que ele fizesse isso.
- Você está dizendo isso pra eu não ficar fazendo pirraça como uma criança. – fiz um bico pra ele.
- Se você quiser eu posso tirar esse lindo vestido e te amostrar como você realmente fica linda pra mim... – ele sussurrou no meu ouvido. – Nua... na nossa cama.
Me afastei dele.
- Você não vai me convencer que eu estou bonita nesse monte de pano dourado. – fiz uma careta pra ele.
- Porque você é tão teimosa? – ele jogou os braços pro ar se sentando na nossa cama. – Você está linda! Linda! – ele suspirou – E carrega um filho nosso na barriga Kris! Por isso você será a mais linda, a mais iluminada da festa...e minha esposa!
Sorri pra ele. Não tinha como ficar chateada ao seu lado. Ainda mais por uma bobeira como essa.
- Me desculpe! – diminui a distância entre a gente e toquei seu rosto. – Eu estou uma chata... me sentindo feia e enorme. Me desculpe, eu não vou mais te encher com os meus problemas.
Ele me olhou.
- Pequena, seus problemas são os meus problemas, mas isso... – ele passou as mãos na lateral do meu corpo até chegar atrás dos meus joelhos. – Não é um problema! É a nossa felicidade e acredite em mim, você está linda! – ele me beijou apaixonadamente. – Vou pegar a Angel.
Ele saiu do quarto e me deixou sozinha.
Eu estava insegura. Nunca tinha colocado um vestido de festa e nunca tinha estado grávida, então acredito que era normal, não era?
Me olhei no espelho mais uma vez e me vi dentro daquele vestido longo e dourado, escolha da Ashley. Estava me sentindo um embrulho pra presente, grande e redondo.
Meu cabelo estava preso todo pra trás num rabo de cavalo super elaborado e a maquiagem estava pronta. Me sentei na minha cama e com um pouco de dificuldade por causa da barriga calcei minhas sandálias.
- Vamos? – Rob perguntou entrando no quarto com Angel no colo.
Ela estava linda num vestido branco cheio de babados. Parecia uma princesa. Não, ela é uma princesa.
- Pegou o carrinho dela? - perguntei a ele. Ele assentiu – A bolsa? – ele assentiu. – Então acho que podemos ir.
- Pequena relaxa. – ele estendeu sua mão pra que eu a pegasse. – Vamos ficar o tempo suficiente e depois viemos embora, ok?
- Obrigada! – o beijei – Sei que ela é minha prima e eu a amo demais, mas estou me sentindo tão mal que não tenho vontade nem de sair de casa.
Ele revirou os olhos e sorriu.
Fomos na mini van por causa de Angel. Lizzy e Bobby também iriam, mas eles iam no próprio carro e nos encontraríamos lá.
Quando chegamos a igreja Abby me disse que Ashley queria me ver assim que chegasse.
Dei um beijo em Rob e um em Angel e a segui até onde estava Ashley.
Ashley estava linda num vestido de noiva super moderno e com um decote enorme nas costas.
- Hey! – a chamei – Você está linda! – eu disse a ela.
- Você também! – ela sorriu nervosa. – Minha única madrinha vai chamar mais atenção do que eu. – ela fez um falso bico.
Só se for pelo tamanho – pensei, mas me contive em dizer.
- Ash, fica calma. Vai dar tudo certo! – eu disse.
- Eu sei que vai, mas é como se eu não conseguisse me acalmar. – ela disse. – Você vai ver no dia do seu. É quase impossível!
- Posso fazer alguma coisa pra você se sentir melhor? – perguntei.
- Só fique aqui comigo! – ela segurou minhas duas mãos. – Isso basta.
O resto do tempo ficamos em silêncio, enquanto ela tentava acalmar a respiração e não transpirar. Até que uma garota veio até a sala onde estávamos e disse que estava na hora de entrarmos na igreja.
Primeiro eu entrei e logo depois Ashley entrou de braços dados com meu pai, afinal o velho John foi sua única referência de pai pra ela e eu o emprestei com maior prazer.
A cerimônia foi linda e eles disseram os votos que eles mesmos escreveram. Lógico que Jackson e todo seu romantismo me fez chorar rios.
Quando a festa começou Angel já dormia. A coloquei no carrinho próximo a nossa mesa e ela dormia como o verdadeiro anjo que ela é, nem o barulho da música alta a incomodava.
- Vamos dançar? – Rob me perguntou já se levantando.
- Acho melhor não. – fiz uma careta.
- Só uma. Prometo. – ele me estendeu a mão e eu a peguei me levantando da cadeira.
Olhei pra Lizzy e ela sorriu apontando Angel com a cabeça, num sinal de que ela olharia Angel pra mim.
Tocava uma música lenta e seria fácil dançar, até porque eu estava sendo conduzida pelo homem da minha vida.
- Está se sentindo melhor? – ele me perguntou enquanto rodávamos pelo salão lotado de casais dançando.
- Um pouco. – forcei um sorriso. – Juro que vou esquecer isso. Não sei o que está acontecendo comigo, nunca liguei pra aparência e agora estou dando chilique como uma garota mimada. Me desculpe! – escondi meu rosto em seu peito.
Eu sabia o que estava acontecendo.
Eu realmente nunca liguei pra aparência, porque eu nunca tive ninguém pra reparar em mim, mas agora que eu tinha Robert e era diferente. Ele era tão lindo e eu tão comum... tenho certeza que dezenas de mulheres matariam pra ter um homem como Robert ao lado delas.
Acho que por isso que eu estava me sentindo feia. Mas eu tinha que superar. Ainda faltavam 3 meses pra Richard nascer e eu não queria aborrecer Robert com minhas crises de insegurança.
- Acredite! – ele sussurrou no meu ouvido. – Você está linda!
Eu o beijei como forma de agradecimento.
Ainda dancei com Ashley e Lizzy umas músicas mais animadas. Ashley me deu a chave do seu apartamento pra se eu por um acaso precisar de alguma coisa e dar uma olhada pra ela.
Dancei uma música lenta com Jackson e quando estava dançando com ele meu pai reclamou minha atenção.
- Será que eu conseguiria dançar com meu anjo ainda nessa festa? – John disse cutucando o braço de Jackson.
- Claro John! – ele passou minha mão pro meu pai e se virou indo em direção a Ashley e Jeff dançando na pista de dança.
- Se divertindo? – ele perguntou.
- Um pouco cansada. – fiz uma careta.
- Isso é normal não é? – ele quis saber.
- É pai! Fica tranqüilo que o herdeiro da transportadora Stewart está bem. – brinquei.
- Você sabe? – ele perguntou sério.
- Claro pai! – revirei os olhos.
Eu estava confusa! É claro que eu sabia da transportadora dele. Que pergunta! Ele sabia que eu sabia.
Essa história estava muito estranha. Resolvi dar corda pra ver aonde ia.
- Fico feliz que ele tenha te contado! – ele suspirou aliviado. – Eu tive vontade de te contar, mas ele achava que você não ia gostar.
Eu o olhei e em seguida olhei pra Robert na nossa mesa. Ele ria e conversava animado com Bobby enquanto bebia uma dose de Whisky.
- Er..pai? – ele me olhou. – Rob me contou, mas gostaria que você dissesse pra mim...er...sabe, a sua versão.
Ele me olhou confuso, mas disparou uma chuva de palavras que me deixavam mais enjoada conforme ele as jogava em meus ouvidos.
- Bom, no dia que voltamos pra Chicago por causa do noivado da sua prima, Robert esteve lá e conversamos sobre muitas coisas. Ele me contou sobre o mal entendido e que Lizzy era sua irmã e da sua filha... – nós ainda dançávamos – Eu comentei com ele que queria abrir a transportadora, que eu precisava e queria ficar ao seu lado e ele me propôs uma sociedade. – ele disse com cautela.
- Que seria? – perguntei curiosa.
- 70% pra ele e 30%. – ele disse. – Ele comprou os caminhões e eu os coloquei pra rodar. Basicamente ele entrou com o capital e eu com a mão de obra. – ele sorriu.
- De quanto seria esse capital pai? – perguntei.
- 2 milhões. – ele fez uma careta.
Meu estômago pareceu dar uma volta de 360º na minha barriga.
Eu tinha certeza que eu estava branca como papel. Meus lábios e minhas mãos estavam frios e pela expressão do meu pai meu rosto transparecia meu mal estar e meu desconforto com a situação.
- Você não sabia não é? – meu pai perguntou parando de me rodar.
- Você mentiu pra mim! – o soltei e me afastei dele. – Você nunca tinha mentido pra mim pai! – minha visão já estava turva por conta das lágrimas.
Ele se aproximou de mim e segurou minhas mãos.
- Meu anjo, fizemos isso por você. Eu aceitei a sociedade do Robert pra poder ficar próximo de você e eu o estou pagando, por isso ele tem mais do que eu dos lucros... – o cortei.
- Pagar 2 milhões pai? – ele assentiu – Nem se trabalhássemos a vida inteira a gente ia conseguir pagar isso a ele.
- Kristen por favor, não leve isso tão a sério. – ele pediu – Está tudo dando certo... a sua vida, a minha vida... e estamos juntos meu anjo... isso que importa.
Só então eu entendi porque ele confessou tudo quando eu disse que o neto dele seria o herdeiro da transportadora... claro que seria, Robert era um dos donos.
Veio em minha mente todas as conversar do meu pai com Robert, todas as vezes que ele ficavam trancados naquele escritório sozinhos... desde quando voltei pra Chicago achei essa amizade "repentina" muito estranha.
- Kris, você está bem? – a voz do meu pai me resgatou.
- Você não devia ter mentido pra mim pai. – me afastei e fui até a mesa onde antes estávamos sentados.
Peguei minha bolsa e me virei pra sair, mas Robert alcançou minha mão.
- Está tudo bem pequena? – ele perguntou ainda rindo de alguma coisa engraçada que conversava com Bobby.
- Está! – forcei um sorriso – Vou ao banheiro... – sussurrei no seu ouvido.
Ele sorriu e soltou minha mão.
Andei quase correndo até a saída e chamei um táxi. Eu precisava sair dali, precisava ficar sozinha.
Peguei meu celular e liguei pra Ashley, mas é claro que deu caixa de mensagem.
"Minha prima desculpe sair da sua festa sem avisar, mas não estava me sentindo bem. Curta bastante e quando chegar me avisa. Te amo. Está tudo bem."
Desliguei quando ouvi um bipe.
Meu telefone tocou e era Robert. Eu ignorei.
Cheguei em casa e fui direto pro meu quarto, tirei o vestido e coloquei uma camisola.
Fui até o banheiro, lavei meu rosto e desfiz meu penteado.
Quando eu sentei na cama a realidade me atingiu.
Meu pai e Robert haviam mentido pra mim. O pior, Robert tinha usado seu dinheiro e eu sempre deixei bem claro que não queria seu dinheiro, muito menos que usasse comigo.
2 milhões! Deus!
Ele tinha prometido nunca mais mentir pra mim... mas mentiu, de novo.
Lágrimas invadiram meus olhos sem permissão e eu deixei que elas saíssem.
Ouvi passos no corredor e sai do quarto. Tinha até me esquecido que tinha deixado Angel com Robert na festa.
Fui até o quarto dela e ele a colocava no berço. Sai de lá antes que ele percebesse minha presença.
Voltei pro quarto e fiquei em pé de frente pra janela. A noite estava escura, não tinha lua, nem ao menos uma única estrela.
- Não era pra você ter descoberto assim pequena. – ouvi sua voz atrás de mim.
- E seria como? 4 meses Robert! – perguntei friamente.
- Eu ia te contar pequena, eu juro!
- Não jure Robert! Você jurou nunca mais mentir pra mim e olha onde estamos agora. – me virei pra ele.
- Seu pai quis te contar, mas eu o impedi. Eu sabia que você não ia gostar... – o cortei.
- Ai resolveu mentir? – perguntei com ironia. – Você tudo bem Robert, mas meu pai? Ele nunca havia mentido pra mim, nunca! Nem quando eu tinha 6 anos e perguntava da onde vinha os bebês. Ai você aparece e o força a mentir pra mim?
- Me desculpe Kris. – seu rosto caiu.
- Já te disse que você pede desculpas de mais Robert! – fui até a cama e me sentei.
- Eu fiz isso por você baby. Eu sabia que sua felicidade estaria completa se seu pai estivesse por perto, por isso me ofereci pra ajudá-lo...
- Com 2 milhões? – seu rosto caiu. – Por favor, não me chame de baby! – pedi fechando os olhos.
- Pequena, me perdoe! Eu devia ter te contado, eu prometi te contar tudo, mas eu sabia que você não deixaria que eu ajudasse o John, por isso pedi pro seu pai não te contar. Ele não tem culpa, por favor, não fique chateada com dele. – ele disse se agachando na minha frente.
- Eu não estou chateada Robert. A palavra certa seria raiva... talvez mágoa ou rancor, traída... – ele tentou segurar minhas mãos, mas eu as puxei.
- Você não vai me perdoar, não é? – ele me encarou.
- Não. – me levantei deixando ele agachado onde eu estava.
- Kris, por favor? – ele pediu.
Eu estava tão magoada que só pensei em fazer uma coisa.
Tirei o anel de noivado que ele havia me dado meses atrás e estendi pra que ele pegasse, mas ele não pegou.
- Ele é seu... por favor, por favor, coloque de novo no dedo! – ele pediu com lágrimas nos olhos.
- Não Robert! – coloquei o anel em cima da cama. – Casamento se constrói com cumplicidade, lealdade e sem mentiras... infelizmente não vejo isso entre a gente.
Fui até a cama e peguei meu travesseiro.
- Aonde você vai pequena? – ele perguntou com a voz embargada.
- Vou dormir no quarto da Angel. Amanhã quando você acordar eu venho pegar minhas coisas. – me virei pra sair, mas ele me alcançou segurando meu braço.
- Kristen não faça isso! – ele pediu – Sei que mais uma vez eu fui um idiota, mas não posso viver sem você.
- Tenho certeza que encontrara um jeito Robert. – disse chorosa puxando meu braço e fechando a porta atrás de mim.
Fui pro quarto de Angel e tranquei a porta.
Eu estava exausta e não queria discutir mais hoje.
Eu sinceramente não sabia o que fazer amanhã... mas algo forte em mim me mandava ir embora. Dizia que não ia mais dar certo, forma duas grandes mentiras e pra mim havia chegado no limite.
Mas ao ver minha princesa dormindo meu peito se apertou. Eu não teria coragem de largá-la. Eu me sentia a mãe dela, eu era a mãe dela e ela precisaria de mim.
Puxei a poltrona branca pra perto do berço e me sentei de frente pra ela segurando sua mãozinha na minha.
- Você é mesmo a cara do seu pai. – sorri – Angel, eu quero que você saiba que eu te amo querida, muito. Mais do que eu já amei alguém... mas talvez eu vá embora e um dia seu pai arrume outra mamã pra você. – voltei a chorar com esse pensamento. – Ma-mas pra mim...eu..eu sempre serei sua mamã e se seu pai permitir eu...eu vou estar por perto pra cuidar de você... – me levantei e dei um beijinho na sua testa – Só não esqueça de mim docinho, porque eu nunca, jamais me esqueceria de você.
Fitei seu rostinho e ela deu um sorriso.
Devia estar tendo um sonho bom, ao contrário de mim.
Me sentei de novo na poltrona e ainda fiquei um tempo zelando seu sono.
Em poucos minutos a inconsciência me tomou.
