Part XXIX: Sora

Seu papel no filme terminou como deveria terminar: sem emoção alguma. Era maravilhoso assisti-la nas telas grandes fazendo acrobacias incríveis e mostrando a força que sempre tinha, dentro e fora do palco, mas a ele, a seqüência de cenas não passou de uma produção caríssima e pouco desafio para si mesma. Afinal, o que era dar alguns saltos e decorar algumas falas? Nada, se comparado às emoções que o Kaleido Star lhe trazia, e o que era melhor, ao vivo, todos os dias e sem nunca parecer uma rotina, diante dos desafios que ocorriam sempre.

No entanto, se por um lado não ganhou desafios, ganhou um perfeito mala para aturar. Seu nome era Ian, um rapaz de seus 20 e tantos anos (francamente, não lhe fazia a mínima diferença saber a idade dele) que já era considerado um queridinho da América e que, por algum motivo, encantou-se com as habilidades dela, tanto nos momentos de filmar uma cena de ação, quanto na maneira de atuar - e também fora das câmeras. Mas o problema foi justamente esse: encantou-se tanto que agora não largava do pé dela, insistindo para que fizesse um filme cujo produtor seria ele e que seria uma oportunidade única na sua vida. Graças a Deus, seu contrato com o Kaleido Star já havia sido retomado para a próxima peça e Kalos já lhe atribuíra responsabilidades, como supervisionar o palco junto dele e de Yuri e um novo papel principal. Além disso, finalmente Kalos parecia ter voltado a si quando a ajudou a afastar o tal Ian e sua insistência para que continuassem seus afazeres em um dado dia. Só que era pura ilusão pensar que Kalos mudaria em apenas duas semanas uma opinião tão bem concretizada.

Não durou 1 hora entre a decisão de Kalos de expulsar Ian do Kaleido Star e a de tornar Sora sua nova parceira de palco. Depois de se maravilhar com a primeira experiência de andar em uma corda bamba móvel sobre um barco para a próxima peça, essa notícia nada agradável lhe veio aos ouvidos, e ainda lhe veio através de Yuri, que não parecia nem um pouco incomodado com a idéia de não ser o parceiro dela desta vez. Pior, a idéia havia sido do patrocinador, o Sr. Kenneth, e não apenas de Kalos. Ou estavam todos cada vez mais loucos, ou ela é que estava fora de sua realidade, porque "só podiam estar de brincadeira", era o que pensava. Era um grande desafio realizar uma luta sobre aquele barco se movendo já para ela, imaginava Sora caindo no primeiro segundo que tentasse.

- Tanto você quanto o Sr. Kenneth ficaram loucos - precisou dizer logo de imediato. Não agüentava mais essa situação em que todos pensavam que Sora era um gênio, enquanto ela pensava que era apenas uma garota de sorte, mas que acabava com os retornos financeiros do Kaleido Star com os seus erros no palco - A peça da Pequena Sereia não foi um grande sucesso.

- O Sr. Kenneth diz que a rivalidade entre vocês vai trazer melhores resultados para o Kaleido Star.

- Isso é o cúmulo... - disse quase entre os dentes. Que tipo de rivalidade eles viam? Só porque, com um pouco de treino pesado, Sora conseguia realizar as mesmas acrobacias que ela, não significava que fosse uma estrela à altura. Provaria isso ali e agora, na frente de Kalos e também de Yuri, que parecia se simpatizar com a mesma idéia - Sora. Acha que vai conseguir? Se não, é melhor falar logo. Dessa forma, o Sr. Kenneth vai entender. Kalos, é muita responsabilidade para essa menina, não é certo pressioná-la demais. Yuri e eu vamos adaptar o roteiro, principalmente a cena da luta.

Leonina como era, sabia jogar bem as palavras. Jogou a responsabilidade sobre a Sora, a falta dela sobre Kalos e puxou Yuri na conversa para que ele considerasse a idéia. Sabia que faltava esse domínio em Sora com relação a responsabilidades e pressão, e era com isso que jogava naquele momento. Pensou que seria uma batalha ganha pela expressão de Kalos e o que ele disse a seguir, mas mais uma vez a imprevisibilidade de Sora roubou a cena.

- Ah, que pena, o Sr. Kenneth terá uma grande decepção, mas se não há remédio...

- Esperem... Srta. Layla, me deixe tentar, por favor...! - De repente, a voz de Sora interrompeu a de Kalos e todos se voltaram para ela desacreditados.

- Mas o que está dizendo?

- Eu só peço uma oportunidade! Por favor...

- Está falando sério, Sora? - a voz de Layla era quase um sussurro. Espreitava Sora como um felino pronto a dar o bote. Não era possível que mesmo com tudo o que disse, ela ainda não se sentisse intimidada a tentar. Havia algo de errado com aquela garota, e agora havia algo de errado consigo mesma: irritação.

- É claro! Eu... Ainda não estou totalmente segura, mas se ainda duvida, pode me por à prova!

- Se você vai desistir depois do teste, é melhor fazer isso agora. As suas atuações medíocres só nos criaram problemas. - O que estava entalado, desde quando viu aquela garota roubar a cena com uma apresentação falha e péssima em Romeu e Julieta, finalmente saiu. Era como a via, afinal, e aquela decisão de Kalos havia sido a última gota. Iria sim desafiá-la e agora só por cima do seu consentimento é que Sora subiria no palco para ser sua rival. Foi saindo, na companhia de sua nova mala chamada Ian, sem esperar por respostas posteriores, apenas deixando um aviso, inclusive a Kalos. - Me avisem quando chegarem a uma conclusão.

Apesar de ter tomado as rédeas da situação, aquele incômodo dentro de si se mantinha. Mesmo em meio aos seus treinos da tarde, mesmo com Ian ainda insistindo para que ela fizesse o filme (mas finalmente conseguindo fazê-lo desistir), ainda sim ficava se perguntando "por que escolheram a Sora? Por que sinto sempre essa preocupação quando se trata dela? Por quê?" e se lembrando do que não devia. Lembrou-se de Kalos, no primeiro dia em que viu aquela garota estragar a peça com uma improvisação medíocre e depois ver Kalos admitindo-a para o Kaleido. "Um dia não muito distante o público virá ao Kaleido Star para ver esta menina, Layla", foi o que ele lhe disse. Não podia acreditar, estava vendo os desejos dele ali, na sua frente, e parecia que todos o apoiavam, até mesmo o pai dela. Por que, então, não conseguia aceitar isso? Por que era tão difícil crer que aquela garota que veio de tão distante pudesse ser tão boa quanto ela? Não era possível... Não era possível que fosse tão boa.

Passou a tarde toda se remoendo em silêncio por culpa daquela situação. Não sabia o que fazer. Aceitá-la, simplesmente, era impossível. Não importava o quanto tentasse, jamais conseguiria fingir que estava tudo bem. Acabava pensando que o teste para a peça estava sendo aplicado nela, não em Sora.

Treinou até anoitecer e, assim que saiu do banho e se trocou, a campainha tocou e Macquarie avisava que tinha visita.

- Você precisa falar com alguém?

E lá ele estava, o ''príncipe encantado'', encostado no próprio carro com o ar de gentil de quase sempre. As últimas vezes que dirigiu a palavra a ele, havia sido em momentos de tensão ou irritação. De repente, viu-me sorrindo fraco para aquele homem que vivia querendo lhe puxar as informações, a fim de lhe fazer melhor. Sentiu-se aliviada por tê-lo ali, ao mesmo tempo em que envergonhada pelo quanto havia sido estúpida ao se dirigir a ele toda vez, nas últimas semanas.

- Obrigada, Yuri... - foi apenas o que disse, ao atravessar os portões de casa e fechá-lo.

- Eu ia mesmo sugerir que déssemos uma volta - comentou ao vê-la fechar a grade, desencostando-se do seu belo e notável carro vermelho para abrir a porta para ela. Apenas quando começou a pegar uma pista mais aberta foi que o assunto começou.

- Eu acho isso um erro, colocar tanta responsabilidade em cima de uma garota tão inexperiente e pouco treinada... - usou o tom baixo, já que estavam a sós, ele dirigia e ela não estava mais tão explosiva como quando recebeu a notícia pela manhã.

- Ela tem 16 anos, não é isso? É dois anos mais velha do que quando nós começamos com o trabalho pesado. - ele comentou de volta no mesmo tom, olhando para a rua.

- Mas Yuri, por Deus, nós tínhamos treinado feito loucos, éramos os melhores da turma. Ela não chega nem perto do que Charlotte, Julie ou mesmo Mia, que se dá tão bem com todas as acrobacias. Compará-la a nós é... O cúmulo.

Ele podia não estar olhando para ela, mas ouviu o suspiro, seguido de um leve recostar sobre o banco do carro e um breve silêncio que a ele era normal, as para ela era sufocante.

- É a primeira vez que me sinto assim... E eu não sei por quê. - ela retomou, enquanto voltava a observar a rua conforme ele passeava com o carro. Não tinham um destino ao certo ainda, a menos que ela decidisse ou ele tivesse uma idéia.

- Diz isso pela Sora? Olha, ela tem algo que você não tem - Sentiu-a imediatamente desviando seu olhar da rua para ele, e antes que pudesse protestar, ele prosseguiu - Ela se esforça demais. Nem você, nem eu... Bem, ninguém da equipe do Kaleido Star chega a esses extremos.

- Bom, e o que esperava? - disse um tanto mais irritada. Era óbvio que havia ficado ressentida com o que escutou e também era óbvio que Sora fosse tão esforçada, diante das circunstâncias. Foi admitida sem fazer nenhum teste, por ordem do dono do Kaleido. Não tinha treinamento nenhum e fazia de tudo para provar que merecia estar ali. Era claro que precisava se esforçar

- Tem razão. Mas eu receio que seja isso que o Kalos vê nela. - Ele comentou de volta. Mais uma vez transparecia o seu desgosto pelo seu proprio "chefe", assim Layla pararia de pensar que ele estava de acordo com o que Kalos dizia. E ainda completou a idéia, para que não houvesse mais dúvidas. - É claro que eu apoio a sua decisão.

- Yuri, me leve para o Kaleido Star. - Não foi preciso mais do que alguns segundos para ela decidir tal coisa. Se queria testar aquela garota, teria que fazer isso por conta própria.

- Como você quiser. - Ele respondeu de forma cordial. Iria fazer o jogo dela, por que não? Suas intenções já estavam empíricas com a rivalidade das duas e seus planos estavam maquinalmente preparados para entrarem em prática, então bastava se manter no jogo como peão até ter a oportunidade de ser quem move as peças.

- No que está pensando, Layla? - ele retomou a conversa quando estacionou o carro e abriu a porta para ela. Se não a conhecesse, e se não fosse tão indiferente quanto ela, o olhar que ela lhe deu ao sair do carro teria sido fatal. Ele apenas conteve o próprio sorriso quando ela começou a caminhar. Talvez tivesse ficado irritada com o que ele disse, ou talvez apenas estivesse pensando no que dizer quando chegasse até Kalos, mas de qualquer forma, era melhor não demonstrar nada que pudesse parecer um deboche.

- Já que querem tanto que sejamos parceiras de palco, aquela garota terá de mostrar o quanto vale. - respondeu-lhe conforme andavam em direção à sala de Kalos - Ela é capaz de aprender técnicas difíceis, mas agora o que vai contar é outra coisa. Não v...

Parou de falar quando chegou próxima à sala dele e escutou a voz de Sora. Chegou no momento certo de interromper e impedí-la de desistir. Por mais que não quisesse Sora como parceira por não achá-la boa o suficiente, os interesses do cliente deveriam ser levados em conta, e portanto seria melhor Sora aceitar do que desistir do papel.

- Espere. - Disse, entrando na sala, seguida de Yuri - Kalos, vamos fazer um teste. Eu também farei. isso vai servir para você ver se nós duas podemos trabalhar juntas

- Por mim, tudo bem - ele respondia como quem já tivesse pensado naquela possibilidade e já a tivesse aceitado.

- Você só terá 1 semana para treinar. Quero ver se a sua atuação é boa mesmo. - Layla disse no seu tom menos amigável possível. Sora teria que mostrar o quanto poderia inovar e ser ela mesma na peça, uma vez que todos os seus outros grandes feitos eram, até então, cópias de Layla ou idéias de outras pessoas.

- A minha... Atuação?

- Quero que me mostre a sua atuação. E que seja boa. - Layla completava, antes de fitar Sora até que ela percebesse que queria conversar com Kalos em particular. Yuri saiu junto, já que parecia ser tão bem-vindo quanto Sora naquela sala, e não era apenas pela irritação de Layla. Kalos o fitava com certo interesse aparente, mas nada dizia, já havia algumas semanas. Mas como não falava nada, Yuri não tinha por que se explicar também. O silêncio tomou conta por alguns segundos depois que ambos saíram e só então Layla retomou a fala.

- Que isso seja definitivo. Que o sucesso ou o fracasso de Sora seja o último, porque essas suas idéias e do Sr. Kenneth estão ficando cada vez mais absurdas.

- Está sugerindo que dois visionários, que por acaso são seus chefes, estão errados, Layla? - Kalos perguntava calmamente, mas em um tom que deixava claro as intenções dele com aquela pergunta. Ela o desafiou; então ele fez o mesmo.

- Kalos, sabe muito bem que eu sou alguém igualmente sonhadora e gosto de pensar grande, mas isso está ridículo! Estão colocando esperança nas mão de uma garota que só é esforçada demais, e para quê? Por quê? Há semanas eu estou sentindo ares diferentes por aqui, como se tudo estivesse para mudar. Já falam da minha saída, de novas estrelas, de futuros negócios! Por que é que ninguém me diz o que está acontecendo, a não ser qual será o enredo da próxima peça?

As suas perguntas eram definitivamente um ponto sensível, o qual Kalos não pensou que ela fosse perceber tão cedo. Mas, pelo visto, não havia percebido tudo, ou não faria tais perguntas. "Que bom", ele pensava, já que não era exatamente um assunto que se redirecionava a ela, então tudo o que precisaria fazer seria cortá-la.

- Porque não é algo que concerne a você, Layla. - Não havia como dizer aquilo de forma mais amena. Mas ele não parecia se importar em ser delicado - Não há nada de errado em querer mais de uma estrela para um mesmo circo. E Sora parece responder perfeitamente aos requisitos e provavelmente preencherá esse seu próximo desafio da sua forma mais imprevisível de ser, por mais insegura que esteja. Então, eu sugiro que você se dedique aos seus treinos para fazer uma bela apresentação, assim saberemos se vocês duas estão no mesmo nível.

Layla saiu daquela sala como se tivessem-lhe arrebentado uma das pernas e ela agora precisasse mancar para caminhar. Mesmo tendo colocado Kalos contra a parede, ele ainda sim parecia no comando, além de não parecer se incomodar nem um pouco em ser estúpido, não importava com quem fosse. Ainda sim, faria o que lhe foi sugerido: treinaria com todas as suas forças e com toda a garra de sempre. Mostrar-lhes-ia que estavam enganados com relação àquela garota e que só havia uma pessoa boa o suficiente para ocupar o trono do Kaleido Star: ela mesma.

Aquela semana passou muito rápido. Treinou como se já fosse sua coreografia oficial para a peça, ou seja, estava querendo aperfeiçoá-la o quanto antes. Dava-se muito bem com a corda bamba, então não foi preciso mais do que algumas vezes saltando por uma em movimento para se acostumar a ela. Escolheu usar uma espada para simbolizar seus movimentos no ar, e já que se tratava de uma luta entre piratas, a escolha se tornava melhor ainda.

Por outro lado, ignorou completamente as pessoas à sua volta. Estava tão focada e tão irritada, que não quis saber de ninguém. Nem mesmo de Yuri. Seus últimos comentários a fizeram querê-lo bem longe de si, até que aquela situação entre Sora e ela estivesse resolvida. Ele, por sua vez, pareceu não insistir em falar com ela aquela semana, e tão pouco pareceu querer ir assisti-la no dia do teste. Já sabia dos seus anseios pela perfeição e já sabia que faria uma bela apresentação; depois, era só perguntar sobre o resultado de Sora.

Sua apresentação, como previsto, fora perfeita. Nenhum erro, nada fora do programado. Suas técnicas eram concisas e maturas e o uso do barco em movimento havia sido perfeito. Havia até uma dose já do seu personagem pirata, técnicas mais fortes e seguras para se parecer com um. Mas, como sempre, a imprevisibilidade de Sora roubou a cena. Saltou tão alto na corda bamba que Layla tinha certeza de que ela cairia no final, sendo que na verdade Sora havia previsto aquele salto e o finalizou de uma forma totalmente inesperada. Ninguém acharia que ela seria capaz de usar o diabolô que tinha em mãos, junto de sua corda, para deslizar até o final do barco e finalizar sua apresentação da melhor forma possível. Layla ficou tão abismada, que sentiu como se necessitasse morder a própria língua. Sora não era só boa com bastante esforço, como sabia ser original. Ainda que não admitisse que a apresentação tivesse sido perfeita, ela admitia que com um pouco mais de treinos, a Sora e ela poderiam realizar um belo espetáculo.

O que era, afinal, aquela conspiração? De início, pensou que fosse apenas diversão da parte de Kalos. De repente, o Sr. Kenneth e até Yuri começou a concordar sobre aquela garota especial de nome Sora. E agora, ela própria tinha de admitir, em uma semana, Sora fez quase tanto quanto ela, só tirando alguma experiência com técnicas na corda bamba. Admitiu a ela, logo depois, que ela possuía algo que ela própria não tinha, mesmo que deixasse Sora sem entender. Apertou as mãos delas como quem fechasse um negócio e então se despediu para continuarem com os afazeres do dia. Mas, o que estava por trás disto tudo, afinal? Não era Sora o centro das atenções, finalmente descobrira. Ela era o mais pobre dos peões a ser usado. Mas sua maior preocupação era que ela própria também fosse apenas um peão, e não a rainha como pensava ser, afinal de contas.


Nota da autora: muito bem! Estou pegando o ritmo de escrita novamente, então a cada novo capítulo que eu escrever, postarei mais um em seguida. Estou 3 capítulos adiantada e pretendo continuar assim! haha

Bom, além de independente, Layla está começando a perceber Sora de uma maneira que não aquela tão irritada, ao mesmo tempo em que está com medo de perder o "trono" para ela. Mas é claro que Layla Hamilton não deixa isso transparecer, não é? Enquanto isso, Yuri vai se tornando cada vez mais distante para a sua vingança, a qual está bem próxima, como vocês podem se lembrar.

Só uma coisa: o tempo no anime é muito incerto, então não sei quantos dias ou meses se passam de uma coisa para outra... Mas eu juro que tento rs. Enjoy it and review, please!