Quando voltei a ficar sozinha com os meus pensamentos compreendi que ele tinha razão numa coisa, eu não queria estar ali e precisava de ir para um sítio calmo, onde conseguisse colocar os meus pensamentos em ordem. Desci a escadaria e comecei a caminhar ao lado do trânsito que se movia num ritmo quase parado. No fundo da rua, vi um táxi livre, caminhei na sua direcção e quando o alcancei entrei.
- Boa noite senhora. - cumprimentou-me o taxista encarando-me com alguma suspeita, afinal estava de vestido de noite, sem um casaco no meio de uma noite de inverno.
- Boa noite. – respondi-lhe, sentando-me na banco de trás.
- Para onde deseja ir? – nesse momento a porta de trás, do lado oposto onde estava sentada, abriu-se de rompante e entrou um Oribe Junpei ofegante. – Senhor o táxi já está ocupado, vai ter de esperar por outro.
- Eu estou com a senhora. – o taxista fintou-me pelo retrovisor para ver se eu confirmava o que ele dizia, mas eu estava tão apática que o homem continuou sem compreender. – Leve-nos até à escola Eitoku. – o homem voltou a encarar-me e estranhamente eu acenei a cabeça afirmativamente, foi o suficiente para ele encolher os ombros e decidir que definitivamente hoje devia ser o dia dos doidos e o melhor que ele fazia era ignorar-nos.
- Trouxe-te o casaco. – disse-me, passando o para mim.
- Obrigado. Não sei o que esperas conseguir com isto, mas estou preocupada demais para descobrir. – vesti o casaco e senti-me melhor com o seu aconchego quente contra a minha pele gelada.
Demorámos muito tempo até chegarmos ao nosso destino, as ruas estavam lotadas, contudo estivemos sempre em silêncio. Não fosse o rádio barulhenta do táxi e apenas se iriam ouvir as buzinas e a azáfama normal do trânsito.
- Ora aqui estamos. – afirmou o homem quando parou em frente do edifício vazio, apenas iluminado pelas lâmpadas que cercavam o seu impotente jardim. O Junpei pagou e saímos os dois para a rua.
Quando entrei para o táxi, não sabia para onde haveria de ir, mas quando o Oribe sugeriu aquela morada, compreendi que era mesmo aí que queria estar. Ali onde tinha conhecido o F4, onde me tinha apaixonado pelo Hanazawa Rui, onde tinha sido torturada e amada quase até à exaustão.
- Vamos entrar?
- A escola está fechada, só cá deve estar o guarda-nocturno e duvido que nos deixe entrar.
- E alguém vai barrar a entrada à senhora Domyouji? - perguntou-me ele com o seu típico tom de voz cínico e sarcástico. Revirei os olhos e cruzei os braços. – OK, já que não queres usar o teu poder, eu tenho um plano B.
- É claro que tens, afinal tu és o homem dos planos. – comentei mordazmente.
- Deixa-te disso e anda. – agarrou-me pelo cotovelo e encaminhou-me para o lado lateral da vedação da escola.
- Não estás a pensar fazer o que eu estou a pensar, pois não?
- Como queres que saiba no que estás a pensar.
- Sabes muito bem ao que me referia. Vais saltar a vedação?
- Não. Vamos os dois.
- Nem penses, não posso. – o Tsukasa matava-me se soubesse que eu tinha feito isso, ainda para mais acompanhada pelo Junpei. De certa forma, era bem feito para ele, quem mandou contrata-lo. Esta presença fazia-se sempre sentir nas nossas vidas e o Tsukasa ia compreender isso quando descobrisse que eu tinha invadido uma escola com a ajuda dele.
- Ninguém precisa de saber.
- Claro, como se a tua especialidade fosse guardar segredos escandalosos, sobretudo os que envolvem o Domyouji.
- Deixa-te de coisas e anda lá. – o meu coração batia descompassadamente, o medo de sermos apanhados e o receio do escândalo falavam mais alto, no entanto por uma razão que desconhecia não era capaz de virar costas e vir-me embora. Aproximei-me dele e apoiei o meu pé direito nas mãos dele, que estavam posicionadas em forma de concha. Ele içou-me e eu agarrei-me com força na vedação. Precisava de mais apoio para conseguir transpor a perna para o outro lado.
- Chega-te mais, assim não consigo. – ele aproximou-se e eu sem vergonha pisei-lhe a cabeça com um pé e impulsionei-me para o outro lado.
- Mais um pouco furavas-me a cabeça com os teus saltos.
- Está mas é calado que ainda nos ouvem. – estendi-lhe uma mão que ele agarrou para se içar. – Anda lá.
- Ai…espera lá. – queixei-me, as lanças pontiagudas da vedação estavam-me a magoar o braço com a força que ele fez para se içar.
- Pronto, já está. – disse ele, quando aterrou no chão do outro lado.
- Não podias ter esperado um bocado. Magoei-me.
- E tu esperas-te quando quase me furaste a cabeça?
- Não foi de propósito.
- Eu também não.
- Pronto, está bem. Vamos mas é sair daqui. – comecei a caminhar em direcção às escadas de incêndio. Ali era o meu porto de abrigo, tinha vivido tantas coisas naquele cenário que ainda hoje me emocionava quando pensava naquele lugar.
- Foi aqui que o Rui nos encontrou juntos. – disse o Junpei, quebrando o silêncio, enquanto contemplávamos a noite do alto das escadas.
- Foi aqui que eu o vi pela primeira vez. – disse-o mais para mim, do que para ele. Estava no fundo a falar alto comigo, a lembrar os dias em que não haviam tantas preocupações nas nossas mentes e eu não tinha tantas dúvidas quanto ao meu futuro.
- Devias ter ficado com ele. – aquela afirmação caiu como uma bomba. Fiquei muda e surpresa.
- Que te interessa isso?
- Não interessa, mas sei que terias sido mais feliz. Ninguém pode ser feliz com um homem como o Tsukasa, cuja única coisa que sabe fazer é tirar e exigir.
- Alguma vez fizeste alguém feliz, Oribe? – ele fintou pensativamente a noite, mas não me respondeu. – Então deixa-me colocar a questão de outra maneira, alguma vez alguém te fez feliz?
- Já, já me fizeram feliz. Não vais acreditar, mas tu foste uma dessas pessoas. Os momentos que passei contigo foram genuinamente felizes. Tu eras minha amiga e gostavas de mim pelo que eu era e não pelo que eu parecia ser. Nunca te importaste que eu aparecesse nas revistas ou que fosse rico. Foste minha amiga e os momentos que passávamos a contemplar o lago, nos dias de sol, foram os melhores da minha vida.
- Eu gostava de uma pessoa que não existia, de um falso amigo.
- Não fui um falso amigo, fui teu amigo. Apenas usei a nossa amizade para atingir o Tsukasa.
- Se não vês o quão retorcido e perverso isso é, só mostra o quão louco tu és. – ele virou-se para mim e agarrou-me os pulsos.
- Perverso e retorcido? Tu que dormes com um todas as noites e pareces gostar, falas de mim como se fosse o bicho mais repelente do mundo. O que raio vês nele, que o torna tão diferente de mim? – a voz dele e a expressão era tão intensas, que por momentos amaldiçoei a minha estupidez por estar ali sozinha com ele sem mais ninguém saber.
- Larga-me. - disse-lhe dando um puxão para me soltar. Ele largou-me, mas não me deixou de fintar com o seu ar intenso.
- Vá lá diz-me qual é a diferença entre ele e eu? – fiquei a pensar uns momentos, mas não sabia o que responder. Afinal ambos eram ambiciosos, ambos tomavam medidas drásticas para terem o que queriam, ambos eram pouco escrupulosos, ambos tinham caracteres fortes, mas no fim tinha de existir algo que os tornasse diferentes ou eu não estaria casada com um e a odiar o outro.
- Ele ama-me. – esta era a grande diferença entre os dois, um era capaz de amar outro ser humano, sem se importar com a própria integridade física.
- E achas que eu não amo?
- Só amas-te o teu amigo e por vezes acho que nem isso. Acho que apenas ficaste cego com o desejo de vingança. No fundo, o que tu amas é a vingança.
- Estás enganada. Admirei muito o meu amigo e não se trata de vingança, trata-se de justiça. Caso fosse com um dos teus amigos, irias querer o mesmo. – nesse ponto ele estava certo, afinal o que me levou a conhecer o Tsukasa foi o facto de estar a defender uma amiga dele.
- Mas jamais iria usar pessoas inocentes, para atingir o meu fim.
- Tu não eras assim tão inocente. Se fosses inocente, nunca te terias envolvido com ele. Sempre soubeste o tipo de homem que ele era e mesmo assim aceitaste-o. – ele falava-me com um rancor que me assustou.
- Achas que eu escolhi? Achas que se consegue escolher quem devemos e não devemos amar. Fiquei tão chocada como tu, quando descobri que gostava daquela rapaz cruel, que tanto mal me tinha feito. Mas no fim não havia mais nada que eu pudesse fazer, o meu destino estava traçado.
- Ora aí está a desculpa mais velha do mundo: o destino. – ele riu-se cinicamente de mim e eu voltei a pensar que estava bem melhor se estivesse sozinha.
- Ouve Junpei, agradeço-te por me teres trazido até aqui. Mas queria estar um pouco sozinha com os meus pensamentos.
- Sabes que não me posso ir embora, precisas de mim para saltar a vedação. – fechei os olhos em desalento.
- Vamos ficar então em silêncio. Por favor.
- Como queiras. - respondeu-me ele com um ar quase amuado.
