Reencontro

Um sentimento de perda começou a oprimir o meu coração, aumentando dia após dia, e no entanto, não me incomodava. A princípio considerei a hipótese de meu pressentimento ser devido à guerra, mas abandonei-a imediatamente, visto que os fatores externos já não me importavam tanto. À noite, eu passava horas trancado em um aposento de minha nova casa, que eu tomara como escritório. Costumava ficar olhando o céu, procurando a estrela de Sirius. Tonks acusava-me de abandono para com ela e o menino, e despreocupação quanto à guerra. Eu, sinceramente, não me importava.

Fazia outra noite de junho, quente como aquela, há séculos. Eu estava sentado à mesa da cozinha, o olhar perdido no mármore frio. Ouvi Tonks chamar-me, mas a sua voz me parecia demasiadamente distante.

— Remus — ela chamou mais uma vez, e então, eu me virei com certa dificuldade — é a terceira ou quarta vez que eu te chamo.

— Desculpe — eu disse vagamente — eu estava distraído.

— Quando é que você não está?

— Já pedi desculpas.

— Desculpas, Remus? Novamente desculpas? O seu filho está crescendo, uma guerra está em seu auge lá fora, e você continua apático!

— Eu dou o melhor de mim, Nymphadora.

Ela se calou e ficou apenas a me fitar com um olhar de incompreensão. Eu tentava manter o controle, mas desde que Sirius partira, eu deixara de ser a pessoa serena que sempre fora.

— Isso é o seu melhor? — ela disse quase desdenhosa — Parece que me casei com uma estátua. Sim, uma estátua! Foi isso que você se tornou depois que Sirius morreu!

Tonks conseguira atingir o meu ponto fraco.

— Uma estátua! — gritei — Eu acho que essa analogia é minha, Nymphadora! Porque é assim que eu a sinto quando a toco!

— PORQUE EU NÃO SOU UM HOMEM!

— PORQUE VOCÊ NUNCA CHEGARÁ AOS PÉS DE SIRIUS!

Ted começou a chorar ao ouvir os nossos gritos, e Tonks irrompeu em lágrimas.

— É dessa forma que você ama a sua família, Remus? Ofendendo a sua esposa e fazendo o seu filho chorar?

O choro estridente de Ted foi a gota d'água para que eu percebesse o tipo de pessoa que eu havia me tornado. Corri para fora de casa, sem um destino pré-determinado. Eu queria apenas ficar longe de Tonks, de Ted, de toda aquela opressão. Corri incessantemente, até atingir o bosque que havia perto de casa. Eu queria apenas ficar só com os meus sentimentos, as minhas dores. Fiquei em meio às árvores, e através de suas copas eu podia ver a lua minguante e as estrelas. Procurei novamente a estrela de Sirius na constelação Cão Maior, e a encontrei depois de anos sem vê-la. Era como se ele estivesse lá, brilhando por mim. As lágrimas caíram, eu finalmente conseguira chorar depois de meses. A inspiração veio misteriosamente, então conjurei pergaminho e pena e me pus a escrever:

"Você foi o meu único companheiro, você era tudo o que importava. Você foi um amigo e um irmão até o meu mundo se quebrar. Queria que, de algum modo, você estivesse aqui outra vez. Queria que, de algum modo, você estivesse próximo. Às vezes parece que, se eu apenas sonhar, de algum modo você estará aqui. Queria poder ouvir a sua voz outra vez, mesmo sabendo que nunca mais poderei. Sonhar com você não me ajudará a fazer tudo o que você sonhou que eu faria. Sinos e anjos esculpidos, frios e monumentais parecem a você os companheiros errados — você era tão delicado e quente. Queria que, de algum modo, você estivesse aqui outra vez. Tente perdoar, ensina-me a viver, dá-me força para tentar. Ajude-me a dizer adeus." ¹

Reli duas vezes e decidi clamar, mais uma vez, pelo improvável. Gritei o nome de Ártemis aos quatro ventos, e em menos de um minuto ela estava à minha frente.

— Ártemis — eu disse, enquanto a bela ave inclinava a cabeça para o lado, tentando compreender-me — sei que o que peço pode ser impossível, e talvez acarrete em seu suicídio, mas eu preciso que você encontre Sirius Black e entregue isso a ele — estendi o pergaminho, que Ártemis pegou com o bico, gentilmente — por favor.

Ela assentiu com a cabeça uma vez e se preparou para levantar voo.

— Feito isso, você estará livre para procurar outro amo. Eu já não sirvo, Ártemis, não há mais nada que eu deseje. Obrigado por tudo, você foi fundamental.

Ártemis assentiu outra vez e levantou voo, cortando o céu como um raio. Senti remorso, eu a havia enviado a uma missão suicida, uma vez que, como Dumbledore dissera, o Pterón Aktis costuma cometer suicídio quando não consegue realizar o desejo de seu amo. Mas de alguma forma, por mais louco que parecesse, eu sentia como se o meu pedido tivesse um fundamento. De qualquer forma, eu estava ciente de que jamais saberia.

Caminhei lentamente, refazendo o caminho de volta à minha casa. Eu sabia que Tonks me esperava ainda magoada, sustentando nos braços o filho que, segundo ela, eu não ligava importância. Eu queria não ter de voltar.

— Remus Lupin.

A voz ecoou por toda a extensão do bosque, aterrorizando-me, porque a reconheci. A voz que habitara os meus pesadelos e, de alguma forma, tornara-se indiferente, uma vez que o meu maior medo fora concretizado: Perder Sirius.

— Remus Lupin.

Virei para trás, para a direção de que vinha a voz insistente, e lá estava ela, com suas roupas de cigana comida por traças. Estava ainda mais velha e sinistra.

— Eu o avisei — disse a cigana sombriamente — desde o começo, eu o avisei que se estivesse preparado para amá-lo, deveria estar preparado para perdê-lo.

— Eu sei — respondi simplesmente, e percebi que não experimentava mais nenhuma espécie de rancor por aquela mulher que outrora odiara — mas eu o teria amado mil vezes.

— Tive uma visão, Remus — ela disse sem hesitar.

— Conte-me.

Percebi a admiração passar rapidamente por seus olhos. Eu jamais aceitara ouvi-la de imediato. Na verdade, eu jamais aceitara ouvi-la, de qualquer forma.

— Haverá uma batalha no castelo daqui a sete luas. Você estará lá e lutará com um homem encapuzado. O jato verde de sua varinha será a última luz que os seus olhos verão.

A visão que deveria me assustar, aliviou-me. Eu já tinha provas suficientes para acreditar nas habilidades da bruxa cigana, para crer que ela estava certa quanto à sua mais recente visão, que decretava o fim de minha vida.

— Obrigado.

Satisfeito, eu dei as costas à cigana, sabendo que não tornaria a vê-la.

Ao voltar para casa naquela noite, eu pedi perdão a Tonks e passei o resto da madrugada embalando Ted em meus braços. Passei os sete dias mais serenos desde que Sirius morrera, e quando Arthur veio avisar a mim e a Tonks que precisávamos levar Ted à Andrômeda, para que então partíssemos para Hogwarts, eu decidi encerrar este escrito sem destinatário, que começara há exatamente uma semana. Como o falecido Dumbledore me dissera uma vez, quando escrevemos nos aproximamos do passado, voltamos a viver tudo o que um dia foi a nossa maior felicidade. Antes de selar estes pergaminhos, devo acrescentar que vi um pássaro negro cruzar o céu velozmente. Talvez ela tenha realmente encontrado o seu corpo, mas já não me interessa.

Ao ir para a batalha em Hogwarts, sabendo que para mim ela será fatal, eu deveria sentir-me como um prisioneiro no corredor da morte, agonizando por ter finalmente chegado o momento de sua execução. Mas eu, para falar a verdade, sinto-me da mesma forma que há tantos anos, quando no último dia de férias, eu contava as horas para chegar à plataforma nove e meia e rever o seu rosto, tê-lo novamente em minha direção. É dessa forma que eu me sinto. Ansioso por rever Sirius Black.

"O FIM DE UM CICLO DECRETA O COMEÇO DE OUTRO, E A VIDA SEGUE ESSA LINHA PERFEITA, RUMO AO INFINITO."

¹ - Wishing You Were Somehow Here Again (Andrew Lloyd Webber/ Charles Hart). Extraído de "O Fantasma da Ópera" e devidamente adaptado.