Não virás a êste amor de beduíno e maldito,

Em cuja fronte pesa a aflição do destino,

Em cujo beijo amarga a areia dos desertos.

Beduíno-Hermes Fontes XXIX Capítulo

Shoran despertou com o peso de Sakura sobre suas costas. Ela quase não pesava e parecia ter adormecido. Temendo acordá-la permaneceu naquela posição... Era incômoda, mas valia o sacrifício. Há anos que sonhava com um momento como aquele... No qual acordava e tinha a mulher amada adormecida em seus braços.

Mesmo sendo uma ilusão passageira sabia, porém, que aquele interlúdio amoroso ficaria para sempre em sua memória. Naquele momento por mais que quisesse colocar o pé no chão não conseguia. Era mais forte do que ele... Era mais forte que a razão. Queria poder congelar aquele momento eternamente. Tê-la consigo para sempre, mas sabia que era impossível. Ela pertencia a outro e tinha uma filha deste relacionamento. Tudo seria diferente se Hanako fosse sua filha... Tudo teria sido diferente se ele tivesse assumido seus sentimentos e impedido que ela se refugiasse no Japão.

Tinha por demais arrependimentos em sua vida. Poderia viver mais cem anos que não pagaria o mal que ele havia cometido contra a família Kinomoto... Nunca o tempo passaria uma borracha onde ele havia cravado o punhal. Viveria com a dor te ter matado uma parte de Sakura, e por isso iria procurar até no inferno o único rebento de sua amada.

Virando o corpo delicadamente não querendo acordar a amada, Shoran a contempla com o olhar cheio de ternura e amor. Mais uma vez rezou para todos os deuses que não deixasse que aquele tempo acabasse. Queria tê-la sempre assim... Delicada e tranqüila em seus braços. Seria eternamente grato a ela por ter proporcionado a ele o momento mais feliz de sua vida.

- Talvez tenha demorado a enxergar a verdade, mas você anjo, é a melhor coisa que já aconteceu na minha vida... - Sussurrou retirando as mexa rebeldes que caiam pela face limpa. - Viveria eternamente de momentos roubados como esse se isso significasse a sua felicidade...

Sentindo os toques doces de Shoran em seu rosto, Sakura despertou. Não pôde deixar de pensar como era bom ser acordada duas vezes pelos toques da mão dele... Era um sonho, ou melhor, aquilo era realidade. Estava ao lado de seu grande amor e havia acabado de se amar. Se Mai ou Tomoyo soubesse com certeza a recriminariam... Mas ela não se importava mais com a opinião alheia... Queria viver cada momento de cada vez. Naquele Momento estava feliz como há anos não ficava.

- Acordou anjo... - Ele sussurrou dando um termo beijo na fronte dela. - Esperava que descansasse mais... Afinal esse dia não foi fácil...

Como era reconfortante acordar com um beijo dele. Ele tinha o poder de fazer seu mundo brilhar mesmo tendo em vista uma grande tempestade pela frente. Havia sido infiel a seu marido... Não que Yukito merecesse sua consideração, mas havia feito votos perante as leis de Deus, como iria encarar o marido de agora em diante? Mas mesmo assim não se arrependia de nada que houvesse feito... Yukito nunca se importara com a sua felicidade. Sempre fora distante... Teve uma época em que julgara que poderia a vim gostar do marido, mas o tempo só mostrara que Shoran era e sempre seria o primeiro e único em sua triste vida.

- Como posso dormir? Uma parte de mim esta perdida... Mesmo tentando esquecer não consigo apagar esse pressentimento horrível que espalha no meu peito sempre que imagino minha filha perdida nessa maldita cidade.

Sabia o quanto ela estava sofrendo. Sentia o desespero dela... Queria fazer algo, mas não sabia o que fazer. Tinha um homem do qual mal confiava que estava na rua atrás da jovem. Mas ele mal sabia qual era aparência da jovem. Temia muito que a jovem já tivesse caído nas mãos de algum indivíduo mal intencionado. Afinal a jovem havia herdado a beleza de Sakura.

- Shhh, não aconteceu nada a sua filha...- Disse acariciando o rosto dela. - Eu sinto isso... E se isso não te acalmar, pode ter certeza de que irei achar Hanako até no inferno...

Como era fraca... Devia falar logo para ele. Já não tinha motivo para esconder a verdade sobre Hanako. Ele estava ali em sua cama e era a hora certa para conta a verdade. Será que tinha esse direito? Isso talvez fosse apenas prejudicar mais Hanako.

- Eu confio em você...- Sakura sussurrou triste. - Mas...mas

Sakura foi interrompida pela a boca faminta de Shoran. Aos poucos foi se entregando ao momento de loucura. Novamente se sentia entorpecida pelo carinho dele... Naquele exato momento teve certeza de que não poderia trair Shoran. Tinha que falar a verdade a ele mesmo que isso machucasse a ambos. Era um pedaço dele que poderia está sofrendo naquele exato momento, enquanto ambos estavam na cama.

- Não... Não podemos fazer isso.- Sakura sussurrou tentando afastá-lo. - Preciso muito contar algo de estrema importância para você...

Shoran não queria a confissão de Sakura. Tinha necessidade de amá-la... De tirar aquela expressão triste do rosto dela... Tinha vontade de devolver a ingenuidade e a tranqüilidade que ela tinha no passado. Queria fazer mais do que o possível para devolver tudo o que ele havia tirado dela. Pois precisava dela para viver...

- Não se negue a se entregar a minha pessoa novamente, anjo. - Implorou ele beijando o pescoço dela.

Mais uma vez o desejo cegou seu coração. Odiava-se por esta sendo tão fraca. O tempo era duro e impiedoso... Mas não podia se negar ao desejo... Ele era mais forte do que ela. Como era bom sentir os toques da mão dele em seu pescoço... Como era bom se sentir amada novamente.

- Olhe para mim...- Shoran deitou a cabeça de Sakura sobre seu travesseiro. - Olhe para mim... Sakura. - Falou novamente erguendo a cabeça dela. - Olhe para mim... Veja o tamanho do meu amor. Não sou mais um garoto confuso que conheceu no passado e nem estou disposto a ser um palhaço... Para mim nada que aconteceu no passado importa a não ser esse momento... Não quero viver uma ilusão...- Concluiu ele beijando-a com paixão. - Não quero ter que sofrer novamente. Por isso peço apenas mais uma noite... E nada mais...

Sentiu as mãos dele descendo até suas pernas. Via nos olhos lacrimejantes de Shoran uma súplica silenciosa... Ele precisava dela, e ela não iriam viver se o recusasse. Não podia negar o que sentia... Não podia se negar... Nunca... Jamais.

- Só preciso de mais um tempo...Quero tomar tudo o que o destino me tirou. - Ele beijou as lágrimas que escorriam pela a face da amada. - Eu te amo, anjo...

O amava muito... Muito que nem era preciso falar seu corpo já se expressava por ela. E sabia que Shoran entendia seu silêncio. Ambos precisavam apenas um do outro naquele momento... Apenas um do outro. Pela a primeira vez Sakura escutou os soluços de Shoran. Em seguida sentiu o gosto das lágrimas do amado em seus lábios. Aquele foi o momento mais emocionante de sua vida... Foi a primeira vez que viu seu grande amor chorar de emoção.

- Marta me informou seu endereço Tao.- Chang falou sentado numa poltrona. - Mas se estou te atrapalhando faço questão de sair pela mesma porta que entrei.- Concluiu olhando para prostituta enrolada num pedaço de pano escondida no batente da porta.

Estava com presa. Já se passaram duas horas desde de que deixara Hanako sozinha no quarto em que morava. A essa hora ela já devia estar acordada... Ou o que era pior já teria até mesmo fugido. Sabia muito bem que a jovem japonesa não demoraria a perceber que ele fora atrás de um médico. Mas ao mesmo tempo tinha certeza de que ela não tinha forças nem mesmo para falar quanto mais para andar. Mas ao mesmo tempo não queria perder seu tempo como o amigo. Sabia que ele trabalhava demais e nas horas de descanso tinha que ter uma diversão... Mesmo que fosse comum a mulher de baixa índole.

- Não posso dizer que tenha chegado em boa hora, mas Chang pode ter certeza de que não estou incomodado com isso.- Disse sorrindo tranqüilamente. Mas o que o trás aqui? Ainda mais com Marta de acompanhante... Aconteceu algo de especial?

Tao mal quantia a própria irritação. Depois de varrer as ruas que intercediam a casa de Shoran não conseguira encontrar nenhum rastro da tal moça... A menina da forma que chegara, desaparecera. Algum tempo depois resolvera interromper as buscas... Era um desperdiço procurar a jovem naquele momento. Prometera a si mesmo que retornaria as buscas assim que o sol nascesse. Mas no caminho encontrara uma linda senhorita e não fora capaz de resistir ao seu encanto. Mas Chang teve que atrapalhá-lo no momento crucial... Às vezes seu irmão era inconveniente.

- Não, Marta está comigo apenas porque precisava do seus conhecimentos... Afinal apenas essa santa menina sabia onde o senhor morava. - disse sarcástico. - Mas o que me traz aqui é algo bem mais grave... Preciso de sua ajuda Tao.

Iria jogar sua última carta. Quem sabe Tao tivesse piedade da pobre alma que habitava sua casa naquele momento. Um elfo perdido que precisava da ajuda dele agora... Era um idiota sentimental, mas mesmo sabendo que era assim não se envergonhava. Afinal estava fazendo algo que poucas pessoas em Pequim teria coragem de fazer.

- Do que se trata, Chang? - Perguntou intrigado.

- Hoje quando voltava do trabalho aconteceu algo que não esperava...- Respirando fundo Chang prosseguiu. - Bem, conheci uma garota... Ela estava na rua e chorava muito... Logo percebi que ela precisava de auxílio por isso estou aqui. - Chang preferiu omitir algumas partes da longa história que cercava o encontro dele com Hanako. - A garota tem muita febre e já não sei o que fazer... E mal tenho dinheiro para comer quanto mais pagar um médico. Você sabe o quanto caro está uma consulta. – Concluindo falou. - Sabendo dos seus conhecimentos medicinais e como último recurso que tinha procurei Marta e vim até sua nova residência... Mesmo sabendo do risco que era não encontrá-lo.

Tao coçava o queixo. Não era médico e duvidava que fosse de grande ajuda... Mas tinha algo naquela história maluca e mal contada que o intrigava profundamente. Quem era essa garota? O que estava fazendo àquela hora na rua? Algo lhe dizia que pela primeira vez seu irmão caçula o estava ajudando.

- Bem, Chang antes de tudo confesso que não sou médico, mas posso te ajudar. - Falou seriamente. - Mas pelo menos posso saber o nome dessa garota misteriosa...?

Agia como um cego no escuro. Literalmente estava entre a cruz e a espada... Falar o nome da menina talvez fosse um risco, mas Tao com certeza não iria fazer nenhum mal para ela... O que Tao poderia vim, a saber, sobre Hanako Kinomoto? Duvidava muito que a jovem perdida e desesperada fosse do meio social em que ele e Tao costumavam freqüentar. Afinal confiava no amigo...

- Hanako Kinomoto.- Falou ele com firmeza.

Tao Olhou assustado para Chang. Era milagre ou providência divina? pensou em êxtase. Duvidava que ouvesse duas Hanakos perdidas em Pequim naquela noite... Ainda se lembrava com perfeição da voz de Shoran lhe comunicando a missão que teria que cumprir.

"A senhorita Hanako Tsukihiro desapareceu misteriosamente da minha casa hoje."

Sim... Só podia ser ela... Talvez estivesse fugindo e por isso adotara novo sobrenome. Finalmente algo de bom estava acontecendo... Sua missão não havia ido por água abaixo como havia imaginado.

- Aconteceu algo, Tao? - Perguntou o amigo preocupado.

Não podia dar margem ao irmão, pois assim só despertaria nele a curiosidade, o que menos precisava no momento era da desconfiança do irmão. Mesmo Chang não tivesse conhecimento do seu laço consangüíneo com ele não se importava. Crescera sabendo que tinha um irmão e quando descobrira que era Chang uma grande alegria alojara em seu peito... Amava Chang sem interesse algum.

- Nada... Apenas pensando em algo sem muita importância nesse momento. - Disse levantando e colocando o casaco. - Vamos Chang... Não temos muito tempo para conversar. - Concluiu abrindo a porta sendo que logo em seguida deu dinheiro para a sua bela acompanhante.

Chang pensou em contestar as palavras do amigo. A explicação não fora nada convincente... Havia no rosto dele uma expressão de vitória. Conhecia Tao há muito tempo, sabia muito bem quando o amigo estava ansioso e feliz. Mas a questão era de que não havia motivo para ser feliz naquela hora...

- Fique tranqüilo, Chang... - A voz calma de Marta soou tirando ele de seus desvaneios. - Tao sempre foi assim... Não se preocupe e confie nele... Afinal ele é o único que tem o poder de ajudar a sua amiga nesse momento.

Praticamente esquecera da presença de Marta. O que era justificado... Seus pensamentos estavam na bela japonesa que estava deitada em sua cama doente. Realmente podia apenas contar com Tao e jamais poderia duvidar do amigo. Afinal, o pouco que tinha devia a ele e à ninguém mais.

- Nunca duvidei disso Marta. - Sussurrou encarando ela frente a frente.

Amava Chang e não gostava nada de saber que outra mulher estava em seu apartamento. Afinal que mulher gostaria de ler nos olhos do homem amado o nome de uma desconhecida. Não precisava ser um gênio ou muito menos Deus para perceber que a tal Hanako Kinomoto dominava o pensamento dele. Essa constatação serviu apenas para deixá-la mais enciumada do que já estava.

Kaho olhava para a nova Pequim da janela de seu novo apartamento. Tinha duas certezas naquele momento: Uma de que Pequim nunca foi nova e que nem mesmo os demônios ocidentais tiveram o poder de tirar a magia e a beleza daquele lugar, e a outra era a certeza de que estava perto da morte.

Voltara a morar em Pequim a pouco tempo. A saudade do amado era maior do que ela poderia supor... Seu coração ainda doía todas as vezes que percebia que Touya não estava mais vivo. Passara-se quase vinte anos... Tinha consciência disso. Mas o amor às vezes poderia ser cego e burro.

Tivera varias chances de ser feliz como mulher, mas não aceitara, pois não havia mais vida para ela sem Touya. E por isso decidira passar os últimos anos de sua vida na cidade aonde ele estava repousando pela a eternidade. A única coisa que a deixava viva era a certeza de que sua hora estava chegando. Depois de tanto sofrimento iria se encontrar com o seu Touya.

- Madame Kaho, com licença, mas preciso muito falar com a senhora...- A voz doce e delicada de Marien chamou sua atenção.

A jovem era seu braço direito no pequeno negócio que havia montado. Embora não estivesse na meia-idade sabia que lhe restava pouco tempo de vida e não podia deixar a pequena Marien sem amparo depois que partisse. Por isso montara uma pensão... Não rendia muito, mas o que entrava já ajudava. Para uma doente e sozinha nem toda a fortuna do mundo tinha valor. Além do mais não podia deixar a pequena filha de Touya sem amparo... Havia prometido a mãe da criança em seu leito de morte que nunca abandonaria a criança.

- O que foi querida? Algum hospede a tratou mal? - Perguntou virando para a menina.

- Não, mas algo de estranho aconteceu agora pouco...- Falou sentando aos pés da senhora. - E por isso achei prudente te avisar.

Marien era idêntica a Sakura. Se via ao longe que era uma Kinomoto... Filha de Touya. A única herança que seu amor deixara para ela. Não tinha seu sangue, mas quem se importava! Às vezes tinha dúvidas sobre sua conduta de esconder a existência de Marien à família Kinomoto, mas outras vezes tinha certeza de que fazia o certo. Conhecendo Fujitaka como conhecia sabia que jamais ele assumiria aquela garota descendente de chineses como neta. Até hoje ele relutava em aceitar a pobre filha de Sakura.

- O que aconteceu dessa vez, meu anjo? - Perguntou passando as mãos sobre os cabelos da menina.

- A mais ou menos duas horas atrás aquele moço do qual o senhor Tao nos apresentou e trouxe para mora no apartamento ao lado entrou com uma moça desmaiada nos braços. - Relatou a menina roendo as unhas. - Logo em seguida saiu as pressas... E à poucos minutos atrás voltou acompanhado do senhor Tao e uma mulher estrangeira.

Kaho não admitia que a jovem se metesse na vida dos hóspedes, mas daquela vez dava razão para a menina ficar intrigada. Ela própria estava... O que Chang, filho daquele ser intragável que era Meiling Li tinha aprontado. Era pelo menos uma movimentação suspeita.

- Isso é estranho anjo, mas nada podemos fazer... Esse é um assunto pessoal do senhor Chang.- Falou ela séria.

- Mas... Mas isso está acontecendo sobre nosso teto senhora.

- Eu sei, mas vamos dar tempo ao tempo. - Disse sorrindo. - Amanhã como não querendo nada, pergunto o que esta acontecendo para o senhor Chang, mas agora trate de se arrumar e deitar. - Ralhou ela. - A essa hora já devia está dormindo.

- Mas...

- Nada de mais Marien.- Disse Kaho fingido estar nervosa. - Vá... Se retire.

Kaho sorriu ao perceber que a jovem se retirava a contra gosto. Ela tinha o mesmo gênio do pai. Se levantando com dificuldade Kaho se dirigiu até a porta. Iria perguntar a Chang o que estava acontecendo. Era o mínimo que podia fazer, mas mesmo sabendo que poderia dar com a porta na cara tinha que tentar. Afinal se sentia responsável por aquele menino também.

Shoran olhava para o sol que nascia da janela do quarto de Sakura. Depois da noite passada hesitara em abandoná-la antes de falar com ela novamente... Tudo o que acontecera mexera profundamente com ele.

Todas as barreiras criadas pelo o seu coração desde a morte de seu pai caíra como uma carreira de dominó. Havia se entregado de corpo e alma e sabia que fora correspondido com a mesma intensidade. Embora Sakura tenha ficado calada em todo momento em que ele havia a tocado. Não precisava da voz dela... Mas sim da presença do corpo dela junto ao seu...

Havia cometido tanta burrada em sua vida que uma simples palavra já não o mais afetaria. Por isso não a deixaria falar o que queria. Pois nada mudaria o que sentia... Nenhuma palavra ou revelação teria o poder de apagar o que ambos haviam feito um para outro.

Nada e nem gestos bonitos poderiam fazer ele voltar a ser um jovem arredio que destruíra a própria vida e todas as chances de ser feliz num momento impensado. Sakura jamais seria livre novamente... Nem mesmo se o marido morresse. Sua vida estava acabada e por isso tivera essa ânsia em possuí-la... Sakura era tudo para ele...

Chang sentiu um grande alívio no momento em que abriu a porta e percebeu que Hanako ainda estava ali a sua espera. A garota ainda estava na mesma posição que ele havia deixado horas atrás. O que dava a ele a certeza de que ela nem notara sua ausência, mas ao mesmo tempo o preocupava já que isso era mais um indicio que ela não estava nada bem.

- É essa a garota, Chang? - Perguntou Tao ajoelhando ao lado da menina.

- Sim...- Respondeu incomodado com aproximação de Tao.

Tao não pôde deixar de reparar na beleza da garota. Olhando para a face da menina teve certeza de que aquela era filha de Yukito... Não que a jovem fosse a cara do pai, o que já seria um castigo para a pobre garota, mas pelo o fato de ter traços típicos japoneses. Além do mais confiava em seu sexto sentido. Agora só tinha que pensar no próximo passo que daria. Afinal não entregaria o paradeiro da menina sem antes ter certeza de que receberia uma grande quantia em dinheiro para isso.

- Ela é muito bonita. - Falou zombeteiro. - Quem me dera ter a sorte de encontrar uma dama assim na rua.- Concluiu passando a mão no rosto da jovem.

Chang sentiu a face arder de raiva... Nunca esperava ter uma reação tão violenta ao ver Tao tocando o rosto daquela desconhecida.

- Tem a pele macia como a de uma princesa. - Disse aproximando o rosto da face avermelhada dela.- E tem uma suave fragrância de rosas silvestres.

Não pôde deixar de sentir o estômago se contorcer. Era nojento ver aquela cena... Sentia-se profundamente decepcionado com Tao. Se não se afastasse da garota naquele instante não sabia do que era capaz de fazer.

- Bem, acho melhor examiná-la logo. - Tao falou recuperando o bom senso.

Durante todo o processo Hanako manteve-se dormindo. Não se mexia o que o desesperava cada vez mais. Era difícil dar um diagnóstico e nem mesmo Tao podia prever... Era como se ela estivesse em um estado de coma...

- Coitadinha...- Marta sussurrou sentando em uma cadeira. - Meu querido avô ficou desse jeito... Quando não queria mais viver... Mas com muito custo minha mãe o tirou do coma.

Tao também havia presenciado um caso parecido há anos atrás. Um homem, cuja guerra havia tirado tudo decidira se fechar para o mundo, mas em vez de se matar como um manchu de honra... Virara um morto-vivo. Tinha certeza de que esse era caso da garota... Nem mais febre tinha.

- Então Tao? Qual é o diagnóstico? - Perguntou Chang sem escutar as palavras dramáticas de Marta.

- Não sei o que lhe dizer. - Tao falou em um suspirou não tirando os olhos de cima da garota.- Ela já não tem mais febre. A respiração está melhor, mas ao mesmo tempo ela não demonstra nenhum sinal de que está melhor... Ela não reage.- Concluiu ficando de pé novamente.- Talvez ela precise de descanso. Creio eu que não seja nada grave, mas se for, acho melhor chamar um especialista.

Chang não disse nenhuma frase ou palavra que expressasse o que estava sentido naquele momento, mas seus olhos demonstravam o quanto preocupado estava com estado da menina. Fora um erro ter chamado Tao, mas não tinha nenhum arrependimento... De uma certa forma se sentia mais tranqüilo. Embora de um parâmetro tudo continuava na mesma.

- Sei... - Sussurrou sentando aos pés da cama.- Muito obrigado pela ajuda novamente Tao...

À distância Marta observava com ódio e ciúmes como Chang tratava a garota. Ele não a tocava com as mão, mas sim com os olhos. Ela sofria com isso... Sempre ficara ao lado dele e nunca fora olhada com tanta ternura e compaixão como ele olhava para aquela desconhecida. O seu ressentimento era tão grande que a surpreendia.

- Poderia ter feito mais, mas isso já não está ao meu alcance. - Falou indo até a porta. - Eu preciso sair por alguns instantes... Mas volto assim que possível.

Tinha alguns assuntos de grande importância para resolver. Tinha o mapa da mina em suas mãos, mas tinha pouco tempo para correr atrás do que precisava. Tinha novos planos em mente...

- Por mim tudo bem, Tao. - Disse Chang depositando toda a sua atenção no corpo adormecido da jovem. - Marta poderia acompanhá-lo... Acho que já passou da hora dela estar em casa...- Disse olhando pela primeira vez para garota. – E não fica nada bem para uma dama ficar a até a essa hora no quarto de um homem solteiro.

Tao praguejou para si próprio. Havia esquecido da garota... Por alguns momentos esquecera dela... Não estava gostando nada de ter que banca a babá para a namoradinha do irmão. Mesmo que esse trabalho não lhe ocupasse nem dois minutos.

- Acho que não há necessidade Chang. - A jovem falou. - Posso ficar aqui... Não tenho família e nem ao menos sou uma puritana. Além do mais, não me importo com que digam o pensam de mim. - Disse sorrindo. - O que quero nesse momento é ajudar essa jovem.

Não iria deixar seu Chang sozinho com a doente jamais. Não se importava se isso a levasse a ruína já que perderia o emprego. Para ela, Chang representava tudo até mesmo o dinheiro que ele herdaria quando o velho tio morresse. Por isso tinha que lutar por ele. Afinal ele era sua única saída.

- Mas...- Chang falou tentando desuadir a garota.

- Ela está certa, Chang. - Tao interrompeu-o. - Precisará ajudar. Além do mais, Marta é uma ótima enfermeira. - Concluiu malicioso.

Não gostava em nada de ter que ficar ao lado de Marta. Não confiava em si mesmo quando estava perto dela, mas ao mesmo tempo toda a ajuda era bem vinda. Além de tudo Marta era uma boa pessoa e ele até já havia presenciado como era boa para tratar de convalescentes.

- Certo, mas acho melhor...

- Não se preocupe como meu emprego Chang.- Disse eufórica. - Se perdê-lo, arranjo outro.

Não estava a fim de discutir com Marta. Tinha certeza de que a jovem se cuidava muito bem sozinha e sabia muito bem o queria da vida. Afinal das contas ela não se mantia sozinha por providência divina. Naquele momento precisava da ajuda de Marta... Talvez fosse a hora de engolir o orgulho e o preconceito.

Meiling mal engolia o próprio despeito e a grande vontade que tinha de entrar naquele quarto e acabar com a festa do primo com aquela mezalina. Odiava Sakura com todas as suas forças por causa disso. Ela tinha o poder de agradá-lo como nenhuma mulher um dia tinha tido. Ninguém podia ter a dimensão de seu sofrimento.

Sabia que fizera tudo errado desde o começo. Nunca deveria ter aceitado o absurdo que fora seu casamento com Chao... Embora tivesse dado à luz a uma bela criança, mas não podia deixar de pensar de que seu belo filho poderia ter sido filho único de seu primo. Havia odiado aquela menina dez vezes mais depois que ela ficara grávida... E agora odiava-a mais ainda pelo o fato de ter voltado. Não mediria esforços para matá-la... Iria destruir Sakura, mesmo que fosse preciso ela se transformar em uma assassina.

O tempo passava, a cada minuto e segundo que passava ele ficava mais e mais desesperado. Hanako não dava sinal de vida ou de alguma melhora por pequena que seja... Apenas respirava e a face pouco a pouco ia perdendo o brilho. Não queria acreditar que ela estava em coma. Mal conhecia a garota, mas sabia que já tinha um lugar especial em seu coração. E essa simples constatação o deixava cada vez mais nervoso. Nunca havia se apegado à uma pessoa em tão pouco tempo e sabia o quando seria doloroso perdê-la. Por isso segurava as mãos dela com tanta força...

Marta havia pegado no sono. Não a culpava, pois devia ser desgastante ficar ali sem fazer nada. Assim era até melhor, pois se sentira tão figiado... Não gostava em nada do olhar de censura que ela havia lançado nele no momento em que havia pegado na mão da jovem. Vira um sentimento horrível como o ciúme. Talvez... Talvez devesse ter uma longa conversa com ela... Mas não naquele momento.

Naquele momento precisava apenas ficar figiando o sono de Hanako. Era a única coisa de bom que fazia. Segurando firmemente as mãos dela, Chang escutou batidas na porta... Praguejando mentalmente rezou para que fosse Tao. Não queria ter mais dor de cabeça... Embora pouco lhe importava naquela altura esconder Hanako. Apenas queria que a bela garota acordasse.

... Apenas queria ver aqueles lindos olhos verdes novamente ...