"Como sabe, o Treinamento dos Aurores tem sete seções básicas," Hestia Jones começou numa voz seca. "Antes da guerra, essas seções, combinadas com o Treinamento de Auror Básico e a Fase de Tutelado levava-se três anos para se completar. Agora o processo inteiro é espremido em um período de um ano porque perdemos Aurores mais depressa do que conseguimos treinar os substitutos. Com você, o processo será ainda mais curto."
"A maioria dos Aurores que deixaram o campo nunca voltaram. A maioria não está nem mesmo viva para fazê-lo," ela continuou. "Então, você é de certo modo um caso único, principalmente considerando-se você ter ficado longe por tanto tempo. Além disso, acho que sua magia básica sofreu bastante enquanto era um prisioneiro, então vamos ter que voltar mesmo ao início."
Sirius remexeu-se ligeiramente na cadeira, mas ficou em silêncio, mordendo de volta uma resposta impaciente. Jones, é claro, continuou como se não tivesse visto nada.
"Assim, passaremos duas semanas trabalhando em feitiços simples, lentamente adiantando para magia mais avançada. Depois disso, organizei um curso ultra-rápido de uma semana para cada uma das sete seções, começando com Cobertura e Disfarce e terminando com Maldições de Combate. Aí você será testado em cada uma das seções para nos certificarmos de que está nos padrões dos Aurores. Assumindo que isso funcione," (e nada na voz dela fez Sirius achar que ela acreditava que ia) "você fará parceria com um Auror experiente por seis meses."
"Então vamos pôr assim," Sirius disse devagar. "Passarei quase três meses de re-treinamento, e aí me submeter a um novo Tutelado por outros seis?"
Ele tentou tirar a irritação da voz, mas não tinha certeza se Jones teria notado mesmo assim. Sua resposta foi simples: "Precisamente."
"Não tenho nove meses."
Só então ela pareceu notar que ele não estava feliz com aquilo. "Como?"
"Eu disse que não tenho nove meses para perder," Sirius replicou com uma precisão gélida. "E nem a Divisão."
"Perdoe-me por crer que sua contribuição não vai fazer diferença entre a vida e a morte de toda Duvisão de Aurores," ela comentou com sarcasmo.
Sirius engoliu o mau humor; agora, era a última coisa que ele precisava. "Nunca disse que seria assim," ele retorquiu. "Mas há algumas coisas que posso dizer com certeza. Um: Voldemort me quer, e está disposto a arrebentar qualquer coisa para isso. Dois: minha magia básica não precisa de ser relembrada. Lutei dois duelos diferentes nos últimos três dias e saí vencedor dos dois. Três: não estou doido nem inepto, e não há nada de errado com minha memória. Posso ter passado os últimos dez anos como prisioneiro, mas me lembro como se luta."
"Acabou?" Jones perguntou com frieza.
"Deveria?" Sirius retorquiu, nem querer ceder nem um pouco, e foi recompensado por raiva faiscando nos olhos dela.
"Na verdade, não me importa o que você sabe ou não," Jones explodiu. "Meu trabalho é re-treiná-lo e isso significa que faremos do meu modo ou de modo algum. Se não gostar, pode ir embora agora."
Sirius levantou-se e saiu do cubículo sem dizer palavra.
"Então, o que temos aqui, Perkins?" Arthur perguntou curioso, tendo acabado de aparatar na cena.
"Uma coisa interessante, na verdade," seu colega respondeu. "Parece que o velho Martook encantou um iate trouxa junto com todos os seus brinquedinhos."
"Sim, mas o que faremos com ele?" Arthur perguntou preocupado, coçando a cabeça. "Não é como se pudessemos voar com ele para o Ministério. Onde o poremos?"
Arthur e Perkins estavam atualmente investigando o inventário do falecido Dennis Martook, e o processo estava levando dias. É lógico que desde a promoção de Arthur ele não fora muito necessário em campo, mas ele achava aquilo simplesmente fascinante. O inventário de Martook certamente não era exceção, na verdade, estava se tornando a batida mais incrível de que Arthur já ouvira falar. Primeiro fora telefones explosivos e televisões que mudavam os canais aleatoriamente. Aí os dois começaram a achar ventiladores de teto mordentes e latas de lixo que vomitavam; as coisas só ficaram piores quando Perkins tropeçara na pá que cavava sozinha. Depois disso Arthur tropeçara numa porta que o chutara para fora da casa, e nesse ponto sua atenção fora chamada para Perkins, que gritava perto da fonte.
Martook vivera em Aberdeen antes de sua morte, bem na praia. Não era muito popular entre os bruxos, o que provavelmente explicava como ele conseguira sai ileso por ter enfeitiçado quase todos os itens trouxas da casa inteira. Isso e qualquer bruxo saberia que barcos -- Como Perkins o chamava, ieti? Arthur perguntou-se -- não eram exatamente normais.
"Não sei. Podíamos talvez deixar aqui," Perkins respondeu com um dar de ombros, mas a inspiração atingiu Arthur de repente e não escutou aquilo.
"Será que ele tem um motor?" ele se perguntou sem fôlego.
Perkins riu (ele nascera trouxa e entendia dessas coisas melhor do que Arthur). "Claro que tem motor. Esse barco luxuoso parece ter nadadeiras?"
Arthur ignorou o sarcasmo e pulou no barco. Isso ia ser interessante!
"James, nós temos um problema."
Sirius encaminhou-se diretamente para a sala do amigo sem se incomodar em bater e fechou a porta atrás de si. Ele se sentou na cadeira diante de uma mesa de madeira de aparência bem bonita -- Sirius nunca estivera na sala de James, mas decidiu que essa serviria -- e olhou o amigo diretamente no olho. De sua parte, James olhou para Sirius como se ele tivesse duas cabeças.
"O que é?"
"Jones," Sirius disse bruscamente.
James respirou fundo antes de olhá-lo cuidadosamente. "O que aconteceu, Sirius?"
"Ela!" Com esforço, ele freou a irritação. "Hestia Jones e o programa de 're-treinamento' de nove meses."
"Ela -- como é? Nove meses? Do que, em nome de Merlin, você está falando?"
"É," ele respondeu de forma amarga. Estava tão cansado das pessoas o tratarem como se fosse feito de vidro. "Aparentemente, sou incapaz, além de lelé."
"Sei Hestia nunca diria isso," seu amigo comentou.
"Certo, ela não disse. Mas ela com certeza deixou implícito."
"É possível você ter entendido mal?"
Sirius suspirou. "Olha, sei que você disse que ela é uma boa Auror e não duvido disso. Na verdade, aposto que até é uma mulher legal também." Fria como um peixe, mas darei o benefício da dúvida. "mas ela quer que eu faça um curso intensivo de três meses seguido de uma Tutelagem de seis meses. Pelo amor de Deus, James, eu estava para começar a Tutelar pessoas antes de eu me tornar seu Fiel do Segredo!"
"Eu sei, Sirius, eu sei," James reassegurou-lhe. "Não comece."
"Desculpe." Ele freou o temperamento de novo. Ficava cada vez mais difícil e Sirius não sabia o que faria se James começasse a duvidar dele também.
Seu amigo acenou a desculpa. "Tudo bem. O que Hestia disse exatamente?"
"Em suma, acho que ela acredita em tudo que Skeeter disse." Sirius balançou a cabeça e resistiu ao impulso de usar uma linguagem bem chula. Se ela seria para a irritante Auror ou para a repórter mexeriqueira ele não sabia muito bem; contudo, ele não se importava. "Ela começou a falar em voltar ao básico e rever todo processo de treinamento do Auror... um punhado de baboseira de que não preciso. Estive estudando sozinho e sei de minhas fraquezas. Meus reflexos foram para as cucuias e estou fraco com magias complicadas. Também tenho que trabalhar nas reações de combate e simplesmente descobrir como reagir sob pressão. Não preciso ler o Livro de Feitiços Padrão de Miranda Goshawk."
James riu. "Você já chegou a lê-lo alguma vez, cara?"
"Claro, quando eu tinha uns seis anos." Sirius finalmente abriu um sorriso. Pessoas como Jones simplesmente o punham doido; ele não conseguia mais agüentar não ser acreditado. Não escapara de Azkaban para ser chamado de mentiroso e aquilo estava começando a irritá-lo.
Eles sorriram, ambos lembrando-se dos dias passados sob uma árvore, alguns dos quais foram mais bobos que outros, mas todos eles memoráveis. Mas a nostalgia compartilhada não podia durar para sempre, havia uma guerra acontecendo agora, e nenhum deles era mais criança. Infelizmente, a realidade sempre intervinha. Enfim, James respondeu,
"Irei falar com ela, Sirius. Está certo quando diz que ela está pegando bem pesado quanto a isso, mas Hestia está certa em dizer que você precisa de uma revisão." Sirius franziu o cenho, mas James não o deixou objetar. "No mínimo, precisamos revisar e testar para reassegurar pessoas como Arabella de que você está pronto, e que não perdeu os miolos."
"Bom saber que Figg acredita tanto em mim," Sirius resmungou, incapaz de tirar a amargura da voz. James, porém, não ia aturar aquilo.
"Ela tem motivos para duvidar de você, entende. 'Bella não o conhece tão bem quanto eu, e isso parece quase um milagre. Então faça os testes o mais rápido que puder e talvez possamos começar a trabalhar em Azkaban."
Aquela era a primeiríssima vez que um deles se referia à prisão nesse contexto, e Sirius viu os olhos de James centrarem-se nele de forma preocupada. Era óbvio que seu amigo não pretendia mencioná-la assim mas Sirius assentiu com convicção. "Com certeza."
Alívio brotou no rosto do amigo, mas uma sombra de dúvida manchou-o. "Não quero pressioná-lo," James disse baixinho.
"Está preocupado com a idéia de que eu não quero nada que me lembre daquele lugar, não é? Que eu queira ficar longe a todo custo?" Sirius perguntou.
"Já aconteceu antes," o Auror comentou.
"Não sou Dung Fletcher, James," ele respondeu, inspirando para se concentrar de uma maneira que ele esperava que o amigo não visse. "Apesar de entender a escolha dele, acho que foi errada. Nunca me recuperaria se me escondesse. E não posso me esconder para sempre, de jeito nenhum."
Não do modo que Voldemort me quer, ele não disse, mas a questão era a mesma. E talvez James viu a inspiração e a pausa que ele fizera para se reassegurar. Aquilo não importava. Amigos, Sirius aprendera tempos atrás, não o desprezavam pelo que você teve que ser. Nos caminhos que precisavam tomar, ansiavam por andar ao seu lado -- não importava quão longa ou quão sombria a estrada fosse. Sorriu ligeiramente, e ficou surpreso em sentir que não era forçado.
"Tinha que me certificar," James disse.
"Eu entendo."
Arabella Figg entrou com tudo na sala do Ministro da Magia, parecendo um furacão. Sua chegada abrupta assustou até mesmo Lily, e fez Fawkes piar irritado quando ela invadiu a sala de Dumbledore, batendo a porta atrás de si. Se fosse possível, ela tinha certeza de que fumaça estaria saindo de suas orelhas.
"Ele se foi," ela sussurrou. A fúria tornava suas palavras curtas e entrecortadas e definitivamente prendiam a atenção de Dumbledore. O bruxo venerável espiou-a cuidadosamente por sobre o aro de seus óculos.
"Sente-se, Arabella," ele disse baixinho. "Quem se foi?"
Ela permaneceu de pé, balançando a cabeça e resistindo ao impulso de quebrar algo. "Crouch. Junior," ela explodiu. "Meu pessoal o trouxe em custódia hoje e agora ele se foi. Desapareceu. Direto de uma cela de segurança máxima."
"Minha nossa."
"É tudo que pode dizer?" ela quis saber, olhando furiosa para seu superior. "Um Comensal da Morte se foi e você diz é 'minha nossa'?"
Albus olhava para ela com olhos azuis de repente alertas. "Sente-se, Arabella," ele repetiu baixinho, mas agora sua voz estava mais dura e não aceitava discussão. Ela o fez, e os olhos dele concentraram-se nela. "Tenho muito a dizer, minha amiga, como bem sabe," ele replicou. "Contudo, prefiro não me adiantar em conclusões. Conte-me o que aconteceu."
Ela respirou fundo e organizou seus pensamentos zangados. De todas as pessoas, Arabella Figg sabia que perder a cabeça não era uma boa maneira de cuidar das coisas; infelizmente, isso não mudava o fato de ser difícil controlar-se. Quando criança, ela tinha um temperamento explosivo, principalmente nos dias em que seus pais tinham se convencido de que ela era um aborto. Um acidente aleatório a ajudara a enitar esse destino, contudo, e anos lutando contra bruxos das trevas a ensinaram a perder o controle de sua raiva. Em momentos como esse, porém, entrar em fúria seria muito bom.
"Uma equipe de Aurores experientes trouxe Crouch bem cedo de manhã liderados por Alice Longbottom. Ele foi encarcerado pouco depois da conferência de imprensa de Black" -- Arabella não teve que dizer o que ela achava disso -- "e posto na nossa cela de maior segurança. Pouco depois do meio-dia, o pai dele apareceu, exigindo ver as evidências contra ele."
O rosto de Dumbledore fechou-se. "E o que aconteceu então?"
"Permitiram que ele visse a mesma evidência que te mostrei noite passada," ela respondeu imediatamente. "Como sabe, os fatos são enormes. Crouch não ficou contente, mas não podia discutir. Infelizmente, ele aí exigiu o direito de visitar seu filho, o que os Aurores garantiram" -- ela fez uma careta -- "e partiu logo depois."
"E então o filho escapou," o Ministro terminou de forma grave para ela.
"Sim. Duas horas contadas depois que o pai saiu." Ela mordeu o lábio para conter o comentário sarcástico que a coincidência permitia. "O que foi cerca de quinze minutos atrás."
"Entendo."
"É, eu também," 'Bella comentou sombriamente. "Não acredito em coincidências, Albus."
Dumbledore franziu bastante o cenho e ela sabia o que ele estava para dizer. Barty Crouch era o Vice-Ministro da Magia e um bruxo de poder magnífico por si só. Aquele poder não era somente mágico também; muito dele derivava-se da influência e autoridade política que ele possuía. Não faria nada bem a Dumbledore sair perseguindo seu vice com acusações falsas; em vez disso, isso só daria a Crouch a desculpa que ele queria para remover o Ministro e tomar o lugar dele, o que ambos sabiam que causaria desastre ao mundo bruxo. Contudo, também haviam certas coisas que não se podia permitir em continuar. Enfim, Dumbledore suspirou.
"Investigue calmamente, 'Bella," ele disse. "Use os recursos da Ordem quando puder. Prefiro evitar escândalos."
"Considere feito."
Dumbledore assentiu, de repente parecendo muito mais velho do que era. Sua voz era baixa e pesada. "Obrigado."
Naquela tarde, um Sirius Black exausto dirigiu-se para as lareiras do Ministério. Estivera fazendo exercícios o dia todo nas Salas de Teste cuidadosamente designadas da Divisão dos Aurores, forçando a memória e reflexos ao limite. Estava muito grato por aquelas câmaras de prática, cada uma contendo uma rede de feitiços cuidadosamente trabalhados que podiam ser ativados em inúmeros níveis de dificuldade, permitindo a um Auror (ou aprendiz) concentrar-se das magias, reflexos de duelo e técnica de combate. Na ausência de Hestia Jones, quem ele suspeitava bastante estar com raiva dele, ele trabalhara duro. Duro demais, provavelmente.
Mas era bom, de uma maneira estranha. Embora Sirius agora tivesse que pôr noventa por cento de sua concentração em não favorecer demais da perna direita, uma sensação de realização o preenchia. A dor, ele sabia, não duraria para sempre, e o suor no treinamento era igual a menos sangue no combate. Portanto, Sirius conseguia lidar com muito suor.
Ele sorriu um pouquinho, lembrando-se das muitas vezes em que Alastor Moody martelara aquelas palavras na sua cabeça. É claro, Sirius tinha uma cabeça anormalmente dura, mas Moody passara a mensagem com sua eficácia costumaz. Simplesmente treinara Sirius sem parar, forçando cada vez mais até que a importância de treinar fosse algo que seu aluno conseguisse entender até no sono. Sua influência não diminuíra também; Sirius ainda se esforçava o máximo que podia, sabendo que precisava agora saber de seus limites, e que descobri-los em combate seria um desastre. Mesmo morto, a influência de Alastor "Olho-Tonto" Moody permanecia.
Estava preocupado demais com as lembranças para notar a aproximação da bruxa até ser tarde demais.
"Doris Macintosh, Semanário das Bruxas," ela se apresentou, adiantando-se. Ele reconheceu o cabelo loiro encaracolado e os olhos azuis da conferência de imprensa daquela manhã, é lógico, mas estava sem idéia de como ou por que ela o procurava agora. Mas Macintosh imediatamente estendeu a mão, que Sirius apertou sem pensar muito.
Instintos cultivados em Azkaban lhe disseram que era hora de fugir, mas resistiu ao impulso. Estava no mundo real agora, e não podia fugir de repórteres -- apesar de preferir enfrentar um Comensal da Morte. Pelo menos sabia exatamente o que eles queriam.
"Srta. Macintosh," ele respondeu com cuidado, afastando a mão da dela da forma mais educada que pôde. Sirius queria estranhos não fizessem se sentir tão desconfortável. E ele não gostava de ser tocado.
"Estou rão contente por tê-lo alcançado, Sr. Black," ela soltou, lançando um sorriso deslumbrante para ele. Os dentes eram brancos demais, Sirius pensou; eles brilhavam. "Falei com meus editores após a conferência de imprensa e decidimos premiá-lo com o Prêmio de Sorriso Mais Chamoso do Semanário das Bruxas."
"Como?" Sirius fitou-a, certo de ter ouviso errado.
Macintosh empurrou uma foto na sua direção. Fora tirada naquela manhã, capturando o instante em que ele sorrira torto em resposta à pergunta sobre sua vida amorosa. "O Prêmio do Sorriso Mais Charmoso," ela sorriu. "Com certeza já ouviu falar."
"Estive fora por dez anos," ele lembrou-a secamente. "E antes disso, não passava meu tempo lendo revistas de bruxas."
"Sinto muit--"
"Não importa." Sirius dispensou a desculpa com um aceno de mão. Estava ficando enjoado de ouvir aquilo. Ela sorriu agradecida, sem saber que outro daqueles sorrisos cegantes o tornava enjoado.
"Bom, de qualquer forma, só queria que você soubesse que aparecerá na capa da edição de amanhã do Semanário das Bruxas," Macintosh continuou alegremente.
Posso me recusar? Sirius perguntou-se acidamente. Em vez disso, porém, respondeu o mais educado que pôde. "Obrigado."
Aos seus ouvidos, a resposta não soava nada agradável, mas evidentemente fora boa o bastante para ela. Com outro sorriso brilhante (fazendo Sirius querer vomitar os restos não-digeridos de seu almoço), Doris Macintosh afastou-se depressa, alheia às preocupações do resto do mundo e bem satisfeita consigo mesma. Sirius observou-a ir-se com uma expressão estupefata no rosto, finalmente dando de ombros e continuando seu caminho. Em alguns minutos, voltaria a Hogwarts e poderia fingir que aquilo tudo era só outro sonho ruim.
"Ainda se pergunta sobre o mundo lá fora?" Frank perguntou baixinho.
Bill piscou os olhos com a pergunta inesperada. "Sim. Por que pergunta?"
"Só queria saber," sua companhia respondeu. "É um modo de me certificar de que você ainda está são... os loucos não pensam muito sobre a casa."
Imagens de sua família lampejaram na sua mente. Uma a uma, Bill viu os rostos dos pais, então o de Percy e os dos gêmeos, depois Ron e Ginny -- e no fim o de Charlie. Charlie. A tristeza inchou-se dentro dele, mas Bill afastou-a. Com freqüência os dementadores concentravam-se naquela lembrança horrível, do dia em que Arabella Figg viera contar aos Weasley que seu filho tinha sido assassinado... Às vezes ele se perguntava porque o próprio James não viera, mas agora Bill entendia. Tendo passado a conhecer o Auror durante os os longos dias que levaram à Operação Quebragelo, ele passara a saber bem mais sobre James Potter do que era aparente à sua imagem pública. Ele sabia que, sendo o Tutor de Charlie, James ficara arrasado por sua perda.
Às vezes perguntava-se se Charlie podia vê-lo agora. Se pudesse, Bill esperava que conseguisse torná-lo orgulhoso.
"Esquecer-se deve ser um inferno," ele enfim sussurrou.
"Quanto mais fica aqui, mais difícil é se lembrar," Frank comentou. Sua voz rouca estava amarga agora.
"No que pensa?" Bill perguntou num impulso.
Uma longa pausa seguiu-se à pergunta, e por um instante ele começou a desejar não tê-la feito. Frank, ele sabia, estava em Azkaban há mais tempo que ele; talvez ele estivesse falando por experiência própria e tivesse dificuldade em lembrar-se de tempos melhores ou do mundo lá fora. Talvez Frank estivesse tão quieto porque temesse estar enlouquecendo--
"Penso na minha família," o outro replicou suavemente. "Me pergunto como meu filho está..."
A meia-noite, no mundo bruxo, normalmente era considerada uma hora augorenta. Desde o início da guerra, as profundas horas da escuridão significavam maldade e as bruxas e bruxos bons temiam a noite. Do mesmo modo, a maioria ficava dentro de casa em horas tão sinistras, adormecidos, se possível. Coisas ruins aconteciam à meia-noite, e poucos queriam fazer parte daquilo. A meia-noite, dizia-se, era quando os Comensais da Morte saíam para brincar.
A meia-noite definitivamente não era a hora ideal para uma limpeza de primavera.
"KREACHER!"
A paciência de Remus finalmente explodira, e sua varinha estava em mãos, apontada para o elfo doméstico degenerado como uma ameaça precisa. "Se chegar a pensar em soltar esse bicho-papão, juro por tudo que é sagrado que azaro você até o próximo século!"
Bem à esquerda e ocupado lutando com um porta-guarda-chuva, Sirius riu. "Inacreditável ele, não é?"
"Achei que você estivesse brincando," Remus resmungou, ainda apontando a varinha para Kreacher, que murmurrava furioso.
"O lobisomem está falando com Kreacher como se Kreacher se importasse com o que um monstro tem a dizer--"
"Kreacher, se dizer outra coisa, vou dar roupas a você!" Sirius berrou, interrimpendo o elfo doméstico. Grandes olhos aquosos concentraram-se nele então, mas ele olhou-o com raiva, dirigindo-se a passos largos para o serviçal da família Black. Deixou o porta-guarda-chuva cuidando de si mesmo. "Experimente."
"Meu senhor deve fazer o meu senhor desejar." Kreacher curvou-se bem baixo e então começou a murmurrar. "Ah, a pobre senhora de Kreacher odiaria ver isso. Traidores e aberrações e monstros manchando sua cada..."
"Ah, me cansei disso," Remus explodiu de repente, mais impaciente do que Sirius jamais o vira. "Já volto."
Crack. Remus aparatou, deixando Sirius olhando fixo e Kreacher resmungando. Finalmente, Sirius voltou-se para o elfo. "Você realmente sabe lidar com as pessoas, não é?"
Kreacher fitou-o furioso com um silêncio estóico.
"Pra onde Remus foi?" James perguntou, entrando com Peter. Ambos estavam cobertos de poeira e lodo, tendo aberto guerra com o número 12 da Grimmauld Place pelas últimas quatro horas e tendo feito tão pouco progresso quanto Sirius e Remus tinham feito na sala de estar.
"Boa pergunta," Sirius respondeu enquanto Kreacher encolheu-se pela porta que os amigos dele tinham passado. "O monstrinho deve tê-lo irritado bem. Ele disse que voltaria já."
"Remus, zangado?" Peter riu. "Quer pena que perdi isso."
"Acho que Kreacher ofende o sentido de ordem dele," James respondeu com um sorriso. "Merlin sabe, eu não agüentaria um elfo doméstico como ele."
"Eu disse que minha mãe era birutinha, cara."
"É, foi o que percebemos pelo quadro berrando no corredor," Peter comentou. "Lily ainda está brigando com ele."
"Lily contra minha mãe?" Sirius riu largo. "Quase tenho pena da morcega velha. Quase."
"Eu não," James respondeu sombriamente. "Já teria explodido o maldito quadro se Lily não tivesse me detido. Devia ter ouvido do que ela chamava Lily..." Um olhar capisbaixo cruzou o rosto de James. "Mas Lily ria dela. Sem ofensa, Sirius, mas sua mãe era uma biruta."
Mas Sirius só bufou. "Eu avisei você, mas isso foi idéia sua, pelo que me lembro."
"Você concordou, Almofadinhas."
"Com reservas."
"Reservas, uma ova!" Peter riu. "Isso vai se tornar uma casa ótima assim que for limpa um pouco."
"Um pouco?" James bufou.
Sirius rolou os olhos e respondeu a Peter. Sua voz era sombria. "Você não precisava viver e crescer aqui, Rabicho. Era diferente na época."
Tudo era diferente na época. Sirius ainda se lembrava de fugir de casa aos dezesseis e jurar nunca retornar. Odiava esse local, por mais bonita, antiga e esplêndida que a casa fosse. Para Sirius, Grimmauld Place, 12 representava uma história familiar com a qual ele estivera lutando por toda sua vida para superar: preconceito, arrogância e trevas. Ele não quisera voltar, mesmo quando soubera da morte da mãe e do fato de ter herdado a casa. Só a insistência de James e Remus o trouxera de volta e quando os cinco a visitaram pela primeira vez mais cedo naquela noite, Sirius quase desistira. Não só o local estava uma bagunça, mas também o lembrava de coisas que eram melhor ficarem esquecidas.
Ele respirou fundo e olhou a tapeçaria na parede oposta. A Nobre e Antiga Casa dos Black. Não podia negar que havia pessoas boas ali também, e boas lembranças misturadas com as más -- mas ambas eram diminuídas pelas trevas e pela maldade. Sirius suspirou. Talvez deixasse a tapeçaria ali. Talvez a deixasse como um lembrete do passado que ele escolhera superar e da história que tornou o que ele era. As forças que o modelaram e modificaram por sua vida e nem todas elas boas. Quem sabe a história de sua família fosse uma boa lição para se lembrar.
De qualquer forma, sua família era uma boa tradição a se quebrar.
Pop. Remus de repente apareceu na frente deles; as proteções Anti-Aparatação pela casa eram tão velhas que Sirius as removera completamente. Ele as consertaria quando se mudasse, junto com todas as outras defesas decadentes que a casa possuía. Contudo, até ele não podia discustir as vantagens de ter um lar que não fosse fácil de localizar, principalmente com Voldemort o caçando feito louco. E ele apreciava a ironia de retornar para ali como o último dos Black, principalmente depois de sua mãe jurar que ele nunca receberia nada.
"Bem vindo," Sirius disse divertido. "Pra onde foi?"
"Recrutamento."
Crack.
Os outros três olharam de forma estranha para Remus.
Crack.
Sirius franziu o cenho, tentando descobrir o que estava acontecendo. No fundo, ele ouvia o quadro da mãe berrando para Lily, que obviamente ainda vencia.
Crack. Crack. Crack. Crack.
Um verdadeiro exército de elfos domésticos apareceu em torno do amigo, que sorria feito louco. "De repente tive uma idéia," Remus explicou gravemente. "E percebi que iamos fazer um esforço desnecessário."
"Foi para Hogawarts." A percepção surgiu no rosto de James.
"Foi o que fiz." Remus sorriu largo. "Na quarta, esta casa estará pronta para habitação."
"Remus, você é um gênio," Sirius declarou com fervor.
O diretor de Hogwarts riu. "Sou, não é?"
"Ah, ótimo. Agora ele vai ficar se achando por causa disso," Peer resmungou. Mas sorria também. Qualquer coisa que lhes libertasse de várias semanas de trabalho naquela maldita casa valia a pena celebrar.
"Então." Sirius estalou os dedos. "Por que não vamos atacar minha mãe? Afinal, não acho que o quadro dela consegue superar os Marotos."
Título Original: Promisses Unbroken -
Chapter 28: Considerable Chances
Autora:
Robin
Tradução: Rebeka
