Disclamer: Saint Seiya não me pertence, nem seus personagens.

Esta é uma fic yaoi, ou seja contém relacionamento homossexual entre homens.

Extra: Hyoga IV (parte II)

Hyoga PVO

"Caro camarada,

Somos Pandora.

Começou.

Tudo pelo que trabalhamos, tudo para o que treinamos, tudo pelo que nos sacrificamos está pronto. Uma alvorada depois da longa escuridão. Os objetivos definidos enfim serão alcançados. As promessas feitas serão cumpridas.

Sabemos de sua preocupação. Sabemos de sua cautela. É isso o que o torna um sábio general. Pois pode acreditar que ouvimos seus conselhos e encaramos seus alertas com seriedade. Não vamos sair das sombras para lutar essa guerra amarga e justa em batalhas que possamos perder. Estamos bem equipados, nossa causa está bem financiada e todos os passos e opções foram considerados.

Enviamos essa mensagem ao senhor, velho camarada, enquanto nos preparamos com alegria para dar continuidade à nossa missão. Os clarins da batalha já soaram. O primeiro golpe já foi dado. Os primeiros alvos já caíram, e nos regozijamos com isso.

Seu sábio aconselhamento nos dirigiu até aqui. Convivemos com estes peões patéticos criados por uma sociedade fraca e sem fibra, exibindo para eles a nossa máscara sorridente de puro escárnio não só pela sociedade, mas também pelo seu sistema repressor e decadente. Fingimo-nos de cegos para nos tornarmos como eles. Ninguém nos questiona enquanto nos movemos por essas ruas imorais e sujas. Somos invisíveis, sombras entre as sombras, como o senhor nos ensinou a ser: soldados ardilosos.

E quando destruirmos, um por um, os símbolos dessa sociedade superalimentada, demonstrando nosso poder e nosso hábil plano para a nova ordem das coisas, eles tremerão.

Acredito que os informes que lhe enviamos já tenham chegado e que sejam do seu agrado. Os próximos passos do nosso plano estão em seu curso. Como nos jogos de xadrez que costumávamos jogar naquelas noites longas e silenciosas, os peões às vezes são sacrificados pela rainha.

Devemos ser breves em nossos contatos. Lembre-se de nós na reunião desta noite. Cite o nosso nome.

Somos Pandora."

Meu irmão tirou os óculos, levantando os olhos do papel, e olhou para os policiais.

— O que isso significa?

— Essa é a cópia de um e-mail que foi interceptado pelo sistema de segurança do governo algumas horas após os atentados ao Pentágono e às Torres Gêmeas em 11 de Setembro de 2001. - Saga contou. - Infelizmente não foi possível rastrear o destino ou origem da mensagem.

Camus olhou por um tempo para os policiais, então assentiu.

— Hum… E vocês acreditam que esse grupo, Pandora, é o verdadeiro responsável por trás dos atentados ao Old Trade Center, é isso?.

— Não apenas nós acreditamos, - Kanon disse - como apostamos todas as nossas fichas nisso. Assim como o FBI e a Cia, nós da Interpol, com a colaboração das polícias secretas de diversos países, seguimos os rastros de Pandora há quase dez anos.

Meu irmão apenas assentiu outra vez, pensativo.

Eu balancei a cabeça, incrédulo. Poderia viver mais mil anos e nunca me acostumaria à calma apatia do Camus.

O mínimo que se esperaria de qualquer outra pessoa àquela altura seria perplexidade. Quer dizer, atentados terroristas? Interpol? Old Trade Center?

Qualquer outra pessoa que não o meu irmão. Ele apenas mantinha sua expressão imperturbável de sempre, sinalizando com a cabeça para que os policiais prosseguissem.

— Depois dos atentados em 2001, - Saga continuou - e em face dos indícios que tinham em mãos, nosso comandante e o parceiro dele, com a ajuda das inteligências de vários países, correram incansavelmente atrás de Pandora. Sempre se deparando com muros e becos sem saída. Até finalmente conseguir uma pista, ou melhor, um nome: Radamanthys Wyvern, o Juiz.

— Não demorou pra que cavassem a história de que o cara andava interessado na receptação de jóias francesas e antiguidades roubadas. - Kanon contou - Foi quando o Dhoko, o parceiro do Comandante Shion, que atuava infiltrado no Bronks na época, junto as gangues que assolavam o cais, resolveu que seria uma boa entrar no negócio das jóias roubadas. Foi lá que ele conheceu o Ladrão fantasma.

Uma mão do meu irmão se fechou em punho sobre a mesa. O primeiro sinal de nervosismo que ele demonstrava.

— Ladrão Fantasma? - Eu ecoei. Conhecia toda a história que os gêmeos vinham contando até ali, mas aquela era primeira vez que eu ouvia falar nesse Ladrão fantasma.

A mão do meu irmão relaxou outra vez.

— Você era muito pequeno, Oga. - Ele falou - Mas o caso do Ladrão Fantasma realmente sacudiu a mídia sete anos atrás. Um ladrão muito habilidoso, especializado em jóias, e que nunca era apanhado.

Ele suspirou e os gêmeos se entreolharam, como que compartilhando um segredo.

— Eles tentaram fechar o cerco - Kanon retomou seu relato -, mas Radamanthys parecia pressentir seus passos. Ele era como uma sombra, e do mesmo jeito que surgira pareceu desaparecer no ar outra vez. Foram precisos quase seis anos pra que se ouvisse falar dele novamente.

— Nós já integrávamos a equipe de Investigação Especial por essa época. - Saga falou - Viéramos transferido de Atenas em 2004, por ocasião do caso do Ladrão Fantasma, e acabamos na equipe. Foi quando recebemos um telefonema de um dos nossos contatos na polícia japonesa que atuava infiltrado na Yakuza investigando crimes ligados ao tráfico internacional de armas e entorpecentes. Havia então a suspeita de que a Corporação Kido, responsável pela Fundação Graad, uma mega empresa de destaque na economia do Japão, pudesse estar envolvida em negócios ilícitos e dívidas com a máfia desde o afastamento de seu patriarca e principal acionista Mitsumasa Kido. A morte trágica do filho e da nora de Mitsumasa em um acidente de carro, colocavam seu neto, o jovem Seiya, na linha direta de sucessão, e a polícia japonesa logo tratou de manter um olho no garoto.

Meu irmão suspirou outra vez.

- Eu sabia que a companhia passava por problemas, mas non imaginei que fosse tão grave. - Ele falou.

— Infelizmente era muito grave, sim. - Kanon disse. - E foi nesse contexto que Radamanthys reapareceu. Figurinha carimbada no submundo, o Juiz de Wyvern, como ele gosta de ser chamado, gozava e ainda goza de influência junto à máfia de diversos países, chegando a trabalhar como assassino de aluguel por algum tempo. E, obviamente, também ajudando a apertar os botões de Pandora.

— E, conforme informara nosso contato, - Saga continuou - parecia vir usando dessa influência junto a máfia japonesa, especificamente, pra conseguir se aproximar do jovem herdeiro dos Kido. Nós obviamente não fazíamos idéia, então, de qual poderia ser o interesse dele ou de Pandora no garoto, mas uma pista de Pandora é sempre alguma coisa. Logo, tratamos de colocar um dos nossos pra vigiar o rapaz. Na época ambos, Seiya e a irmã, Saori, já cursavam Harvard, em tempo integral, e moravam nos alojamentos. Por isso nossa opção foi por infiltrar Shiryu, um dos nossos melhores garotos e sobrinho do Dohko, na universidade com objetivo de se aproximar dos irmãos.

— Shiryu non é aquele seu amigo chinês? - Meu irmão me perguntou.

Eu assenti.

— O próprio. - Disse, e então, percebendo o brilho de desconfiança naqueles olhos avermelhados, acrescentei depressa. - Mas eu não sabia de nada. Eu juro.

— Bem, como você pode notar, nós fomos felizes na infiltração. - Saga retomou, ignorando nosso pequeno intercurso, e atraindo a atenção do meu irmão outra vez - Shiryu se aproximou dos meninos, e por um ano nós mantivemos esse arranjo sem, no entanto, conseguir qualquer notícia sobre Pandora. Nós já estávamos começando a achar que Radamanthys desaparecera de novo, quando seu irmão apareceu na delegacia.

— O Hyoga? - Camus se voltou pra mim surpreso, e eu suspirei entre culpado e resignado antes de começar a me explicar.

— Sim. - Eu confirmei - Eu estive na delegacia com o Shun, um pouco antes da noite de Ação de Graças. Nós falamos com os detetives encarregados e eu finalmente contei a verdade sobre o que de fato aconteceu comigo em Boston.

— A verdade? - Camus falou - O que você quer dizer com a verdade?

— Eu menti no depoimento que dei em Boston, Cami. Eu sabia quem era o cara que tinha atirado em mim o tempo todo. Eu o havia conhecido aquela noite mesmo em uma boate. Seiya nos apresentara. Seu nome era Radamanthys.

— Radamanthys? - Meu irmão estremeceu de leve, depois balançou a cabeça, confuso. - Como…? Por que você non me contou?

Eu encolhi os ombros.

— Eu tive medo de contar. - Confessei. - Não queria decepcionar você. Não queria que soubesse que andara me embebedando em boates suspeitas, envolvido com pessoas estranhas e jogos clandestinos.

— Jogos clandestinos! Par Dieu, Hyoga. Em que diabos você estava pensando?

— Eu sei! Eu sei, tudo bem? Eu também estou arrependido. - Eu falei, me sentindo péssimo.

Saga tossiu pra chamar nossa atenção, e meu irmão endireitou os ombros, se recompondo.

— Pardon. - Ele disse - Vocês já podem continuar.

Saga inspirou fundo, tomando fôlego, ante de prosseguir.

— Nós meio que já sabíamos do incidente com seu irmão por meio dos relatórios do Shiryu. Mas não víamos ligação disso com as atividades de Pandora... Até então. Até Hyoga aparecer com o namorado pra prestar depoimento aquela manhã.

— O Shun não é meu namorado. - Eu me vi na obrigação de informar.

Kanon franziu o cenho.

— Tem certeza? - Ele soltou, recebendo um olhar de advertência do irmão. - Tudo bem, como vocês quiserem, não está mais aqui quem falou.

Eu bufei, meu irmão revirou os olhos, e Saga prosseguiu.

— Quando Hyoga citou o nome de Radamanthys foi como se a sorte finalmente voltasse a sorrir pra nós. Mas ainda ficava a pergunta: O que Pandora poderia estar querendo com um Chevalier? E por que atirar no garoto?

— A resposta veio alguns dias depois. - Kanon continuou - Quando um rapaz procurou pelo Dohko no cais. Ele tinha ouvido falar da antiga ligação do Dohko com o Ladrão Fantasma, e queria contratá-lo para um serviço. De acordo com o jovem, o Fantasma seria regiamente recompensado se fosse capaz de roubar uma certa jóia. Uma tiara de diamantes famosa, que fora dada a sua irmã pelo noivo dela.

— Seiya! - Meu irmão exclamou atônito. - Meu Deus, a pessoa que contratou o Milo pra roubar a tiara foi o Seiya! Mas… Por que?

— Ele disse que o objetivo do roubo era um golpe no seguro, mas nós sabíamos que tinha o dedo de Pandora nessa história. - Kanon falou.

Meu irmão continuava balançando levemente a cabeça, como se não conseguisse entender.

— A Saori, ela… - Ele não terminou de falar. Seus olhos se fixaram nos meus, e eu vi seu rosto ir perdendo a cor conforme ele lia a verdade ali dentro. - Ela sabia!

Ele levantou da cadeira e se pôs a andar de um lado para o outro pela sala.

— Mon Dieu, ela sabia! Foi tudo armado. Uma grande teatro pra me impressionar. - Ele estacou os passos e olhou para os gêmeos outra vez - Vocês disseram que o tal Radamanthys chegou a trabalhar como assassino de aluguel, não foi?! Ele sabia bem o que estava fazendo! Ele non errou a mira. Ele nunca quis matar o Hyoga, na verdade. Queria apenas feri-lo. Feri-lo para que a Saori pudesse encontrá-lo depois, e socorrê-lo. Pra que eu me sentisse eternamente grato a ela. Grato o bastante pra me casar com ela!

Kanon sorriu.

— Eu sabia que você não era só um rostinho bonito, cunhadinho. - Ele falou, e então continuou mais sério - Foi isso mesmo que aconteceu. Radamanthys é um exímio atirador, já trabalhou como assassino de aluguel e, como viemos a descobrir recentemente, também atuou durante dois anos como atirador de elite para CIA. Se ele quisesse Hyoga morto naquela noite em Boston, acredite, o loirinho aqui não estaria mais entre nós pra contar a história.

Meu irmão perdeu a pouca cor que ainda lhe restava.

— Mon Dieu! É tudo tão… sórdido. Eles poderiam ter matado o Hyoga… E tudo por causa de uma jóia. Uma maldita jóia!

— Na verdade, não foi apenas por causa de uma jóia. - Kanon disse - Eles não querem apenas um jóia valiosa. Querem a La Lermes De Marie, especificamente. A jóia pela qual o curador do Louvre vem oferecendo o rim esquerdo pra ter em exposição, não é?

Camus piscou.

— Oui… - Ele começou, então parou - Espera. Isso non pode realmente ter a ver com o Louvre, pode?

— Mais ou menos - Saga falou - Há fortes suspeitas, não só nossas como de toda a Inteligência, de que depois das Torres Gêmeas e do Pentágono em 2001, o Louvre seria o próximo grande alvo de Pandora. A próxima grande catástrofe da História Moderna. Não é de hoje que a polícia francesa vem recebendo cartas com ameaças de Pandora, e pelo menos dois ataques frustrados foram tentados contra o Louvre nesse período.

— Oui. - Meu irmão confirmou outra vez, voltando a ocupar sua cadeira - Eu soube disso. Mas vocês non podem mesmo estar sugerindo que alguém usaria uma tiara pra explodir o Louvre. Isso é impossível! A quantidade de explosivo necessária pra causar um estrago ao menos considerável é enorme. Nunca passaria desapercebida em uma jóia.

— De fato isso seria impensável. - Eu me manifestei. - Pandora, no entanto, está muito bem financiada e conta com recursos técnicos e tecnológicos fabulosos.

— Uma perícia em um prédio industrial que eles colocaram abaixo na madrugada do último dia 31, revelou resquícios de um tipo desconhecido de explosivo. - Saga explicou - Uma análise técnica da perícia, assim como algumas das nossas investigações, apontam para uma nova espécie de explosivo cuja fabricação Pandora vem financiando. Algo com um poder de destruição nunca visto. Apenas uma pequena quantidade disso unida a um micro detonador, acionado via celular, e camuflado na jóia, e boa parte do Louvre iria pelos ares com seus milhares de turistas dentro.

Camus estreitou os olhos, como se finalmente começasse a perceber tudo.

— E então eles precisavam de uma forma de colocar a jóia lá dentro sem que ela fosse submetida aos rigorosos testes de segurança padrão do museu. - Meu irmão falou - E obviamente que algo como uma doação feita pela própria Saori, estaria acima de qualquer suspeita, n'est ce pas?

— Exato. - Kanon confirmou. - Se a tiara fosse doada ao museu de maneira limpa e idônea, por uma pessoa legitimada pra tal e conhecida na sociedade francesa, ninguém veria necessidade de submeter a jóia aos procedimentos de segurança.

— E tudo que ela precisava pra isso era se casar comigo. - Camus falou outra vez. - A Las Lermes de Marie é tradicionalmente presenteada a primeira esposa de cada geração de primogênito da nossa família. Eles deviam saber disso. Qualquer pesquisa no Google sobre a história da jóia revelaria essa informação.

Os policiais assentiram, e meu irmão balançou a cabeça.

— Mas eles non precisavam ter ido tão longe. - Ele falou. - Non tinham que ferir o Hyoga no processo. Saori é uma mulher bonita. Eles não precisavam de um plano tão sórdido pra atrair minha atenção.

— Não precisavam mesmo? - Kanon retrucou com um sorriso irônico - Porque me parece que o meu irmão vêm tentando isso pelos meios convencionais há algum tempo, sem sucesso, não é? E olha que o Milo é praticamente um especialista no assunto.

Camus fechou o rosto.

— Seu irmão têm tido mais da minha atenção do que ele certamente merece. - Ele disse de maneira fria, e eu o fitei intrigado.

O que ele queria dizer com aquilo?

Kanon aparentemente sabia a que ele se referia, porque apenas concordou com a cabeça em silêncio antes de dizer.

— Eu não vou discutir quanto a isso. Até porque se alguém tivesse feito comigo o que você acredita que o Milo fez pra você, ele dificilmente ficaria vivo pra se arrepender dos seus atos. No entanto…

— O que esse Milo fez para o meu irmão? - Eu não consegui mais me segurar.

— Longa história, petit, nós conversamos sobre isso depois. - Camus falou para mim de forma branda, e então se voltou para os gêmeos outra vez. - Eu espero que os senhores non tenham vindo até aqui com a intenção de defender seu irmão.

— Não viemos. - Foi Saga quem falou.

— Viemos capturar um fugitivo. - Kanon olhou enfaticamente na minha direção, depois desviou os olhos para o meu irmão outra vez. - Mas eu me sinto na obrigação de dizer que essa provavelmente é a primeira vez na vida dele que o Milo é de fato inocente das encrencas que o cercam.

Camus prendeu o ar, ponderando, depois o soltou lentamente.

— Prossigam, s'il vous plaît…

Os dois policiais se entreolharam, então Saga começou.

— Pandora sabia que a tiara teria que desaparecer por um tempo. Tempo esse que eles levariam pra "aperfeiçoá-la", por assim dizer. Depois ela poderia ser milagrosamente recuperada por algum bom samaritano anônimo qualquer, e a Srta. Kido agradecida a doaria ao Museu como patrimônio cultural da humanidade, ou algo do gênero. Ainda não estamos bem certos dessa parte.

— E nada melhor pra justificar o período de sumiço da jóia do que um roubo por um ladrão desconhecido, embora já famoso por atividades similares. - Meu irmão deduziu.

Saga confirmou com a cabeça.

— E quando o Louvre finalmente fosse abaixo a Srta. Kido ainda poderia alegar inocência, dizendo ter sido tudo obra da pessoa que a roubou.

— E como se não fosse o bastante, sairia dessa com uma indenização milionária da seguradora nos bolsos. - Kanon completou.

— Mas o Milo se recusou a participar do esquema. - Saga contou. - Incrivelmente parecia que a bronca que havíamos dado nele, anos atrás, surtira o efeito esperado.

— Então nós tivemos que apelar. - Kanon falou. - Nós forjamos alguns papéis que supostamente provavam a forma como havíamos burlado a lei e encoberto o caso do Ladrão Fantasma anos antes para beneficiá-lo.

Saga suspirou e olhou pra baixo.

— Milo acreditou que corríamos perigo, e que esses papéis acabariam com nossa carreira caso caíssem nas mãos erradas. O que nosso homem lhe garantiu que aconteceria se ele não roubasse a tiara.

Agora as duas mãos do meu irmão estavam cerradas em punhos sobre a mesa. Os lábios contraídos. Eu mesmo estava de boca aberta.

— Como... Como vocês puderam…? - Camus acusou - Ele é seu irmão!

— Cara, isso foi podre. - Eu me manifestei também, aturdido com aquela parte que ainda não conhecia da história.

Milo Scorpion era o tal Ladrão Fantasma, então? E ele havia sido chantageado pelos próprios irmãos pra roubar a tiara? Pra enganar Pandora?

— Ei, não é como se nós tivéssemos escolhido envolver nosso irmão nessa merda toda. - Kanon falou na defensiva. - Ele já estava metido até o pescoço nessa história independente da nossa vontade.

— Nós não podíamos deixar que Pandora suspeitasse que estávamos na pista deles, ou poderiam desaparecer de vista. - Saga explicou - Não seria a primeira vez que isso aconteceria. Além disso, fazê-los pensar que o Ladrão Fantasma estava sob controle, ao mesmo tempo em que mantínhamos Milo sob nossa vigilância, era a melhor forma de mantê-lo seguro.

— Aparentemente non seguro o bastante pra evitar que ele quase tivesse a garganta cortada! - Meu irmão despejou em um rompante. Os olhos chamejantes, como dois vulcões em atividade.

Aquilo era tão incomum em se tratando dele, aquela fúria mau controlada, que eu só consegui ficar olhando pra cena abismado.

Ele não havia se alterado assim ao saber sobre Pandora.

Seus olhos não tinham brilhado dessa forma terrível ao descobrir toda a trama sórdida da Saori pra conseguir a tiara.

Qual era a relação dele com esse Milo, afinal, e por que ele parecia ser tão importante para o Camus?

Ou melhor, quem era aquele ruivo na minha frente, e o que ele havia feito com meu irmão?

Os policiais se entreolharam, e Saga falou.

— Você tem razão. Pandora nunca deveria ter sido capaz de se aproximar dele. Isso foi um erro, e nós nunca vamos poder nos perdoar por isso. Mas, felizmente, esse erro já foi consertado.

Meu irmão respirou fundo uma vez, e então de novo, e mais uma vez. Abaixando a cabeça nas mãos e apertando as têmporas como sempre fazia quando se sentia atormentado.

Eu reparei melhor em seu rosto. A palidez excessiva, as marcas escuras sob os olhos… Pelo jeito eu não era o único naquela família com problemas.

Estariam os problemas do meu irmão relacionados aquele Milo Scorpion?

Aparentemente muita coisa havia acontecido naquele mês que eu passara "sob custódia". Era tão pouco tempo, mas tanta coisa coisa parecia haver mudado.

Será que o Shun tinha mudado também?

Talvez, quando voltássemos nos reencontrar, eu nem fosse mais capaz de reconhecê-lo.

Ou talvez fosse ele que não me reconhecesse.

Quem sabe ele não usara esse tempo pra repensar seus sentimentos, e concluíra que se enganara, afinal? Que gostava mesmo da Misuki?

A simples idéia do Shun apaixonado por outra pessoa me deixava louco. Não que eu quisesse que ele fosse infeliz, é claro. Mas eu também não queria pensar nele sendo feliz com outra pessoa.

Isso fazia de mim um egoísta?

Eu ouvi meu irmão murmurar alguma coisa que me pareceu com: "Ele estava tentando proteger a família". E depois: "Eu só queria que ele tivesse me contado"

Então balançou a cabeça como que pra afastar pensamentos indesejados, e respirou fundo novamente, antes de erguer o rosto.

E de repente, ela era o Camus inabalável outra vez. Olhando firme para os policiais a sua frente.

— E o que vai ser agora? - Ele perguntou.

— Agora nós fazemos o jogo deles. - Kanon falou - Você retoma seu noivado com uma desculpa qualquer. Milo usa de suas habilidades pra colocar as mãos na jóia durante o casamento, como o próprio Seiya, a mando de Pandora, sugeriu ao nosso homem que ele o fizesse. E, quando e barra estiver limpa, ele entrega a tiara a nós, que implantaremos um micro rastreador na peça.

— Pandora provavelmente fará uma varredura na jóia, e eventualmente acabará descobrindo o dispositivo. – Saga continuou - Mas até que isso aconteça nós esperamos conseguir por as mãos em uma boa parte da gente deles.

— Vocês sabem que ela non passa de uma réplica da original, não sabem? - Camus falou, e eu arregalei os olhos surpreso.

— Uma réplica? - Eu falei - A tiara que você deu pra Saori é uma réplica?

— Oui. - Ele confirmou. - Papa e eu pensamos que seria muito arriscado que ela usasse a original no casamento, então mandamos fazer uma réplica. Uma imitação perfeita, claro. Eu nunca havia contado isso a ninguém até algumas semanas atrás. - Então seus olhos se voltaram para os gêmeos outra vez - Mas vocês já sabiam disso, certo?

— Sabíamos. - Saga falou. - Mas Pandora não sabe. E pra segurança dos envolvidos, é melhor que continue sem saber.

Camus assentiu e o Kanon continuou.

— O nosso comandante vai ficar vigiando a paisana, em um furgão de monitoramento, na hora da entrega da tiara. Então vai ser só seguir o rastro eletrônico emitido pelo aparelho e armar o flagrante por roubo. Com alguns de seus homens em nossas mãos, estaremos mais próximos de Pandora. E, depois, com o interrogatório certo, e os meios de persuasão adequados, acreditamos ter boas chances de cavar mais informações sobre sua estrutura, seus planos, seus líderes. E quem sabe conseguir chegar ao homem por trás de tudo.

— Provavelmente esse não é o resultado ideal – Saga falou -, mas certamente vai ser o mais perto que alguém já conseguiu chegar dessa organização.

Meu irmão assentiu outra vez, e eu o imitei. Ainda não tivera conhecimento de todo o plano da polícia pra por as mãos em Pandora até aquele momento, mas ele me pareceu muito bom.

— E até lá você nos devolve o loirinho fujão, e retoma a sua vida como se nada tivesse acontecido pra não levantar suspeitas. - Kanon completou.

Camus piscou.

— O Hyoga?

Saga confirmou com um gesto de cabeça.

— Enquanto ele for a única testemunha capaz de implicar Seiya e Radamanthys no caso, sua vida corre perigo. - Ele explicou - Se o garoto Kido souber que ele ainda está respirando pode tentar concluir o que não conseguiu fazer na noite de Natal.

— O que non conseguiu fazer na noite de Natal? - Meu irmão repetiu confuso.

Saga inspirou fundo antes de dizer muito sério.

— Seu irmão foi vítima de outro atentado no Natal, Camus.

O silêncio que se seguiu a essa afirmação foi ensurdecedor.

Meu irmão continuava olhando para os gêmeos como se não tivesse entendido.

Então seus olhos buscaram os meus, como a procura de uma explicação lógica pra aquilo. As mãos apertando com tanta força a mesa que os nós dos seus dedos já estavam brancos. A boca se abrindo e fechando um milhão de vezes, antes que ele conseguisse balbuciar.

— O-outro?

Eu confirmei com a cabeça.

— Na saída da boate. - Eu contei. - Seiya pensou que eu estivesse bêbado, mas não estava. Eu sei que foi ele, Cami. Ele estava bem atrás de mim, com uma mão no meu cotovelo, me ajudando a entrar no táxi. Então eu escorreguei, e acho que isso salvou minha vida. A mira estava alta demais. O disparo estourou bem ao lado da minha orelha, me deixando surdo, mas não explodiu minha cabeça como eu imagino que era a intenção dele.

Um levíssimo tremor percorreu o corpo do meu irmão quando eu falei sobre a bala explodindo a minha cabeça, e eu imediatamente me arrependi de ter usado aqueles termos.

— Ele literalmente desabou na frente da nossa delegacia. - Kanon falou - E nós o temos mantido em uma espécie de "programa de proteção à testemunhas" desde então.

— Mon Dieu…! - Foi tudo o que o meu irmão foi capaz de dizer.

Os detetives continuaram falando sobre como eu passara alguns dias surdos por conta do disparo e como era importante que eu permanecesse fora de circulação, pelo menos por mais uma semana, até o casamento, e sobre como eu também estava ajudando nas investigações. Mas meu irmão não parecia mais escutar.

Seu olhar estava fixo no horizonte, em algum ponto entre as cabeças dos policiais, e eu quase podia ouvir as engrenagens do seu cérebro trabalhando.

Então ele piscou, como se despertasse de um transe, e endireitou as costas.

De repente sua postura havia mudado. Seus olhos brilhavam de uma forma diferente. E quando ele falou dessa vez, não era mais o meu irmão falando, era o vice presidente da Invoice Finnancial and Factoring Corporate.

— Muito bem. - Ele anunciou decidido - Eu vou ajudar.

— Como? - Kanon interrompeu o que estava dizendo pra perguntar.

— Eu disse que vou ajudar. - Ele espalmou uma mão sobre a mesa como se estivesse para acertar os trâmites de alguma negociação bilionária. - Eu vou ter maior acesso que o Milo à tiara, uma vez que ela estará na cabeça da minha noiva e que é do meu casamento que estamos falando. - Meu irmão explicou. - Portanto, eu vou por as mãos nela sem que ninguém perceba e a entregarei ao Milo. Pandora nunca saberá. E a Saori, ao notar o sumiço da jóia, provavelmente acreditará que o Ladrão Fantasma cumpriu com sua parte no acordo. Tudo o que o Milo terá que fazer será levá-la até vocês. - Ele franziu a testa. - Eu non quero mais ele correndo risco nessa história.

Os policiais se entreolharam hesitantes e Camus continuou.

— Pensem, o Milo é uma personalidade famosa agora. Será difícil pra ele passar desapercebido aonde quer que seja.

Os gêmeos ainda pareciam em dúvida.

— Não sei, não. - Kanon disse. - O Milo vai querer arrancar nosso couro se a gente envolver você nesse negócio.

— Mas eu já estou envolvido, n'est ce pas? - Meu irmão sorriu de lado - Ou será que eu preciso lembrar aos senhores que é da tiara da minha família que estamos tratando aqui.

— Tudo bem… - Saga suspirou resignado. - Vamos fazer assim, nós vamos pensar a respeito e depois…

— Pardon… - O sorriso do meu irmão se ampliou - É possível que eu não tenha me feito entender com clareza. Essa non é uma pauta aberta a discussões. O senhores precisam que eu retome meu noivado. Eu quero ser colocado no caso. Vocês mantém meu irmão em segurança. Eu deixo o irmão de vocês seguro. É pegar ou largar.

Os detetives se entreolharam por alguns instantes, então Saga soltou:

— Nós pegamos.

O policial estendeu a mão sobre a mesa, e eles selaram o acordo com um aperto.

Eu sorri.

Camus havia blefado, é claro. Ele provavelmente ajudaria a polícia de qualquer maneira.

Mas ainda não havia nascido no mundo alguém que jogasse aquele jogo melhor do que o meu irmão.


Olá de novo, aqui estou eu com a continuação do POV do Oga pra vcs ;)

E eu sei que esse ch está mais pra um extra de Aprendendo a Seduzir do que de O Garoto do Andar de Cima, mas eu tinha que dar essas informações de alguma forma, e como muita gente queria ter visto essa cena na outra história, o momento em que o Camus descobre tudo, eu resolvi fazer esse presentinho para os fãs. Sim eu poderia ter optado por dar as mesmas informações quando o Shun descobrisse a história toda, mas achei mais legal assim. Espero que gostem ;).

Para os navegantes de primeira viagem, espero que tenha dado pra esclarecer a coisa toda sobre Pandora e os atentados do Oga, mas se ainda ficaram dúvidas é só perguntar, ok?! ;)

Enfim, é isso. Meus agradecimentos a todos que acompanham, em especial à Dark. ookami, Tharys e Raixander, pelos reviews. Brigadão de coração ˆˆ.

Bjos e até a próxima

PS: Próximo ch Shu-Shu estará de volta. Estão com saudades do verdinho? ;)

PPS: Respondendo aos reviews que ainda não foram respondidos

Raixander: Kkkk…. Dont't apologize yourself, i understand how you feel about this story, and about prince Camie, of course XD Oh, i would like writing more things from the twins *_*… my beloved Konon 3. Really, this is something about which i think frequently, but i don't know if it will happen. My lacke of time is a drug u.u. Anyway, thank you so much for the comment , i loved to know you enjoyed this ch, and… have more Camie in the next ;) Kisses