Uma segunda chance
Capítulo 29 – Quinto mês
Ele se olhou no espelho e suspirou desanimado.
-Eu estou ridículo! – reclamou, tentando fechar o blazer cinza claro que usava.
-É claro que não está – disse Melissa, não o convencendo nem um pouco, enquanto tentava arrumar seu cabelo.
-Ridículo e travestido – ele falou, ao desistir e tirar o blazer, a única peça masculina fora sua cueca.
-Nem é tão ruim assim – ela disse, e ele lhe devolveu um olhar incrédulo – É uma calça e uma camisa, Peter.
-Uma calça e uma camisa de gestante! – ele falou, jogando as mãos para o alto, claramente indignado. Melissa riu – Ele já chegou?
-Não, mas com certeza não vai demorar já que ele só tem que atravessar a rua - Melissa revirou os olhos.
-Ele deve ter visto o futuro marido vestindo roupas de mulher, mudou de ideia e fugiu – ele resmungou, roendo as unhas.
-Por isso que você fica doente. É muito ansioso – ela ralhou com ele, ao lhe dar um tapa na cabeça, bagunçando seu cabelo novamente – E você não sabe, mas talvez ele até se anime ao te ver com roupas de mulher – comentou despreocupada – Pense nas possibilidades – completou com um sorrisinho safado e mexendo as sobrancelhas sugestivamente.
Foi o suficiente para Peter ficar parecendo um tomate e sair do quarto totalmente sem graça.
Ele desceu as escadas e deu de cara com John que acabara de chegar.
John estava usando uma calça jeans com lavagem clara, sapatos marrom, uma camiseta branca com decote em V profundo e um blazer azul escuro. Seu cabelo estava todo arrumado, seus olhos brilhavam e tinha um sorriso imenso no rosto.
Ele nunca o tinha visto tão lindo. E não pôde evitar pensar em como ele ficaria melhor sem nada. Ele abaixou o rosto ao sentir seu rosto queimar novamente.
Abriu os olhos quando sentiu uma mão em seu rosto.
-Você está... – John disse olhando sua barriga que parecia bem maior graças ao corte da camisa.
-Enorme – Peter completou, revirando os olhos – Eu sei - ele suspirou.
-Eu ia falar lindo – retrucou John sorrindo, fazendo Peter ficar ainda mais vermelho.
Melissa, que tinha descido correndo atrás de Peter, falou rindo:
-Viu? Seu príncipe encantado não fugiu.
Peter olhou para ela com os olhos estreitos. Ela se afastou dos dois e levantou as mãos em rendição.
-Só vim trazer seus sapatos – ela falou com uma expressão inocente ao mostrar o par de sapatos pretos novinhos e meias – Você não pode casar descalço – ele pegou os sapatos, sentou na escadaria e John o ajudou a calçá-los, já que sua barriga o atrapalhava.
-E o juiz? Já chegou? – perguntou Peter.
-Ansioso para ser o mais novo Sr. Stilinski? – John falou brincando e se aproximando do outro.
-Sim – respondeu o mais novo, timidamente. E aproveitou para roubar um beijo de John, antes que este se afastasse – E as crianças?
-Os adolescentes delinquentes estão arrumando as mesas no quintal – John respondeu, dando um beijo mais profundo no outro.
-E o resto? – ele se afastou e perguntou.
-Devem estar chegando. Vai dar tudo certo. Relaxe – John falou dando mais um beijo e o levantando em seguida.
Ele guiou Peter para o quintal de trás, e o lobisomem não pôde deixar e ficar surpreso com a decoração.
Era tudo muito simples, mas de extremo bom gosto. Obviamente obra de Lydia. Nem sequer lembrava sua pequena quadra de basquete.
Havia mesas espalhadas pela quadra. Um arco decorado, e os adolescentes estavam simplesmente fofos.
Isaac estava com uma camisa justa azul clara, de manga curta e uma bermuda social cáqui. Seus cachos estavam domados, e ele claramente estava desconfortável. Jackson usava uma calça social clara com uma blusa polo listrada de marcas famosas, e parecia arrogante como sempre. Seu cabelo como sempre estava impecável e ele poderia passar facilmente por um modelo fotográfico famoso. Até mesmo Stiles, com seu estilo despojado tinha feito um esforço, e usava uma camisa de mangas curtas com uma gravata e uma calça social. Scott estava com uma calça jeans e uma camisa preta de mangas compridas e dobradas até os cotovelos.
-Espero que tenha gostado da decoração – comentou Lydia, trazendo um pirex de ponche da cozinha. Peter assentiu com a cabeça – Não está batizado – ela disse revirando os olhos, quando viu Peter olhando desconfiado para o líquido vermelho.
-Você está linda – falou o lobisomem sorrindo.
E ela estava mesmo, com seu vestido azul curto com estampa florida e corte retrô. Ela estava impecável.
Ela sorriu, e colocou uma mecha do cabelo atrás da orelha.
-Você também não está nada mal – ela disse dando uma piscadinha e saindo em seguida para finalmente colocar o pirex numa mesa.
-Eu não vi o Derek – Peter comentou para John, que riu.
-Ele estava tendo alguns problemas com a roupa – o xerife comentou com um sorriso maroto – Mas nós o ajudamos – ajudaram tirando todas as opções e deixando somente a que ele deveria usar - Não se preocupe – ele falou, levando Peter até uma mesa e puxando uma cadeira para ele, já que ele ainda não tinha sido liberado do repouso.
-O que vocês fizeram? – perguntou Peter, preocupado.
-Nada – respondeu John ao mesmo tempo em que Derek chegava ao quintal, com uma cara emburrada.
Ele estava usando uma calça de sarja creme, com uma blusa branca com decote em V e uma camisa aberta xadrez de mangas curtas em tons pastéis e um sapato marrom.
Aos poucos, o restante dos poucos convidados foi chegando. Adam fora com sua mãe, que não desgrudou de Peter assim que o viu, e de sua irmã Adélia e seus terríveis e endiabrados sobrinhos. Deaton apareceu com Morell, que foi extremamente educada, apesar de ainda dar calafrios em Peter. Alguns policiais que trabalhavam com John também foram. Danny também fora. E Allison chegou depois, linda em seu vestido curto rosa, acompanhada de seu pai, Chris, que fora levá-la.
O caçador fez questão de cumprimentar os noivos antes de ir embora e pareceu aprovar a união dos dois, por mais que não tenha proferido uma palavra a respeito. E Peter não pôde deixar de se alegrar com isso. Tinha esquecido a última vez que fora alvo de qualquer atitude positiva do caçador. E querendo ou não, o caçador tinha sido a única figura paterna que ele tivera, por mais triste e bizarro que isso fosse.
Quando o juiz chegou, eles trocaram os votos e Peter passou a ser oficialmente Peter Hale Stilinski.
E assim que o juiz saiu, os adolescentes aumentaram o som e a festa começou. John e Peter não puderam fugir da primeira dança, não por falta de tentativa de Peter. E logo os outros casais dançavam também. Peter se sentou para descansar um pouco, e era muito bom ouvir as risadas, ver a felicidade de John, ouvir os adolescentes conversando e rindo despreocupados e ver até mesmo as crianças da Adélia correndo a bagunçando.
Ele viu Martin, do outro lado da quadra, olhando-o. Tentou ignorar, já que o irmão parecia não importuná-lo quando estava próximo a outras pessoas. E suspirou aliviado quando piscou e não o viu mais.
-Você sabe que não pode fugir de mim – Martin o provocou, murmurando em seu ouvido. E Peter teve que se policiar para não um pulo com o susto.
-Posso tentar – Peter respondeu no mesmo tom.
-Eles não estarão sempre ao seu lado – ele o alertou com um sorrisinho maligno.
Isso fez Peter se preocupar.
-Vem tirar uma foto com a gente, pai – falou Isaac ao chamar Peter de longe.
Ele olhou em volta e Martin tinha sumido.
A festa durou quase o dia todo e as pessoas só começaram a ir embora quando já estava começando a escurecer.
John viu que Peter parecia exausto, e pediu para os adolescentes darem um jeito na bagunça, enquanto ele levava o outro para descansar.
Eles subiram e John preparou um banho de banheira para o mais novo. Ajudou-o a se despir. E quando ia ajudar o outro a entrar, parou quando viu que o outro começava a despi-lo.
Sentiu os beijos leves que o outro dava em seu pescoço, seu peito. Mas não eram beijos lascivos, era só uma demonstração de carinho.
E entrou na banheira quando o mais novo o puxou consigo.
A banheira era pequena, mas eles se ajeitaram. Peter fez com que John sentasse primeiro e se sentou no meio de suas pernas, aconchegando-se em seu peito. John o abraçou, adorando a visão que tinha da barriga do outro, que ficava fora da água.
Peter entrelaçou sua mão com a do seu marido, vendo as duas alianças. Estavam realmente casados.
Ele se afastou e virou, olhando nos olhos de John e disse:
-Amo você.
-Também te amo – John respondeu, puxando-o para um beijo, que logo se tornou urgente.
John afastou Peter, que o olhou confuso e se levantou, puxando-o para si. Ele secou os dois o mais rápido que conseguiu, vestiu um roupão e enrolou Peter numa toalha. Aproximou-se do mais novo e colocou os braços dele em volta do seu pescoço.
-Segure-se – disse, no ouvido do outro, fazendo arrepiar-se.
E antes que Peter pudesse perguntar algo, ele o levantou, segurando como uma donzela.
-O que está fazendo? – ele perguntou assustado.
-A gente acabou de se casar. Você não achou que eu deixaria de te carregar quando chegássemos à nossa casa, não é?
-Eu já moro aqui – Peter disse, revirando os olhos.
-Prometo que quando mudarmos, eu carrego você de novo – John falou e lhe deu um beijo – Mas o que vale aqui é intenção – ele disse ao abrir o escritório que havia sido transformado num quarto provisório para os dois até que pudessem mudar para a Mansão.
-Combinado – Peter disse rindo, quando o outro o colocou na cama com todo cuidado.
John tirou o roupão, jogando-o numa cadeira, e tirou a toalha do mais novo, contemplando-o em seguida. Peter corou com o olhar intenso do outro.
Ele então se deitou na cama, puxando Peter com ele.
John juntou sua licença gala com suas férias e passava boa parte do tempo curtindo o marido, que pareceu melhorar drasticamente com a companhia. Ele parecia o Peter de quando eles se conheceram, antes de ataques e múltiplas personalidades. E estava sempre sorrindo.
O fotógrafo que tirou as fotos do casamento vendeu as fotos para os tabloides e logo toda a cidade soube da união dos dois, mas agora, ao contrário do tom pejorativo de antes com relação ao lobisomem, eles eram tidos como o casal do momento e todos os seus passos eram seguidos.
Não era raro ver uns paparazzi no jardim ou até mesmo com a câmera em alguma janela, tentando capturar algum momento indiscreto de Peter e John. Mas o máximo que conseguiram foi inúmeras fotos de Peter dormindo no sofá, já que ainda não estava liberado do repouso.
Com duas semanas de casados, eles conseguiram finalmente se mudar para a Mansão, depois que Lydia acabou de mobiliá-la e deixar à prova de crianças. Obviamente, a mídia não ficou muito contente em ter que se deslocar até o meio da reserva para conseguir fotos e por isso passaram a acompanha-los quando Peter tinha consulta na obstetra e precisava ir até a cidade.
-É por isso que não deixam a gente em paz. Você fica dando tchauzinho – falou John.
-Só estou sendo educada – Pi respondeu, sorrindo para um fotógrafo – A gente pode passar no shopping antes de voltar? – ela perguntou esperançosa.
-Não – ele disse não dando brecha para discussão.
-Eu faço um boquete – ela disse, ainda fazendo pose para os fotógrafos.
-O quê?! – perguntou John, olhando para ela.
-Eu disse que faço um boquete para você se me levar no shopping – ela explicou, olhando para ele e lhe dando uma piscadinha.
-Você tem dezesseis! – ralhou John.
-E? Somos casados, esqueceu? – ela deu de ombros.
-Eu sou casado com o Peter, não com você – ele retrucou, se remexendo no banco. A proposta descarada da garota, tinha mexido com ele e suas calças estavam um pouco justas no momento.
-Você casou com o pacote todo – ela respondeu, massageando seu membro por cima da calça. Quando ele gemeu, ela abriu seu zíper e pegou seu membro.
Ele tentou se focar no trânsito para não matar ninguém e procurou ignorar o que a garota fazia. Mas era difícil. Ela sabia o que estava fazendo. E ele não pôde deixar de gemer alto quando gozou.
Ele estava parado num semáforo, quando ela acabou de engolir até a última gota e uma sucessão de flashes disparou. Era melhor ignorar e seguir para a consulta.
Para a surpresa dos dois, Peter não só fora liberado do repouso como ainda ganhou parabéns pelos cuidados. Ganhou o peso esperado, os exames de rotina estavam ótimos, e sua pressão estava excelente. Mesmo assim ele ainda não tinha sido liberado de todas as restrições. A Dra. Janice achou melhor não liberar esportes nem atividades muito pesadas, mas a boa notícia é que os dois finalmente estavam liberados para consumarem o casamento.
-Só tentem se ater ao básico, ok? Nada de posições mirabolantes que exijam demais. Deixem o Cirque du Soleil para depois que o bebê nascer – falou a doutora em tom de brincadeira, fazendo Peter corar. John não pôde deixar de suspirar desanimado.
John ficou enrolando e insistiu em comemorar a liberação do outro de suas restrições. E os dois acabaram indo num restaurante no shopping.
-Por que aqui? Achei que não gostasse de shopping – estranhou Peter.
-Promessa é dívida – respondeu John com um sorriso sem graça.
Eles começaram a comer e Peter teve que se segurar quando viu John verificando seu celular pela nona vez durante a refeição. E deve ter feito soltado algum muxoxo, porque John o olhava atentamente.
-O que foi? Não está se sentindo bem? Você não comeu quase nada.
-Estou meio enjoado – O lobisomem respondeu – Com um gosto estranho na boca – ele comentou, fazendo careta. John, que estava bebendo água, engasgou.
-Tenho certeza que se beber alguma coisa, vai melhorar – John falou tossindo.
Eles continuaram comendo com calma. Depois da refeição, John fez questão de pedir sobremesas, por mais que Peter ainda estivesse enjoado. Peter só queria ir embora e descansar. O celular de John vibrou e ele correu para verificar o que era, e quando ele sorriu para o celular e deu um sorrisinho triunfante, Peter sentiu seu sangue ferver. Afinal, o que teria deixado tão feliz?
-Quem era? – ele perguntou num tom calmo, tentando não mostrar o quanto estava se roendo por dentro de tanta curiosidade.
-Ninguém – John respondeu e Peter pôde perceber a mentira – A conta, por favor – John pediu apressado, e Peter suspirou triste.
John praticamente o arrastou restaurante afora e ele não pôde deixar de pensar que quem quer que tenha sido, devia ser bem importante para tirá-lo de lá em tão pouco tempo, coisa que nem ele mesmo conseguiu.
O caminho todo de volta foi feito em silêncio. John reparou que o outro estava calado, e parecia irritado, mas quando ele perguntava, Peter dizia que não havia problema nenhum.
Quando chegaram, Peter estranhou ver toda a Mansão apagada e em silêncio. A Mansão, apesar de ser bem maior que sua antiga casa, estava sempre num total caos com os adolescentes, que não mudaram em nada suas rotinas, além do fato de que agora Stiles morava realmente junto com eles.
E antes que John pudesse falar alguma coisa, Peter correu para a casa. John foi atrás dele quando viu seu desespero, mas não era páreo para o lobisomem, que mesmo grávido, ainda era bem mais ágil que ele.
Ele abriu a porta e não viu ninguém. Tudo estava em silêncio. As luzes estavam apagadas e somente havia um ponto de luz vindo do andar de cima. Ele subiu as escadas correndo. Estava com um mau pressentimento.
Lá em cima ele viu que um quarto, o que era ligado ao dele e o de John, com as luzes acesas. E ele pôde ouvir um barulho baixo vindo de lá. Seu coração estava batendo tão rápido que ele não conseguia discernir o que vinha do quarto.
Ele seguiu com passos trêmulos e colocou a mão na maçaneta, respirou fundo e abriu de uma vez. E ficou surpreso quando viu o quarto todo montado, sendo que estava vazio quando eles saíram.
Era quase uma cópia do antigo quarto de Charlie. Um azul claro adornava as paredes, os móveis, os bichos de pelúcia. Sentiu um aperto no peito e seus olhos encheram de lágrimas quando viu que aquele era o berço dele.
Ele ouviu o barulho de novo. Era o barulho de uma criança, um bebê. Ele se aproximou do berço, aterrorizado com o que encontraria dentro. Seria a mais nova forma de tortura de Martin?
Deu passos hesitantes até o berço e suspirou aliviado quando viu que o berço estava vazio.
Alguém segurou seu pulso e ele tomou um susto. Olhou e viu John olhando-o preocupado.
-Você está bem? Você saiu correndo – perguntou John, preocupado.
-Achei que algo tinha acontecido a eles – ele respondeu sinceramente. Seu coração ainda estava disparado.
E John quis se chutar por não ter adivinhado que o outro reagiria mal a uma surpresa assim naquela casa.
-Só quisemos fazer um suspense. Não queríamos te assustar – explicou Derek meio sem graça. Afinal, tinha sido dele a ideia.
-Não vai dizer nada? – Jackson perguntou ansioso. Era a primeira vez que tinha colocado a mão na massa e não gostava disso não ser reconhecido.
-É rosa? – Peter perguntou, olhando o quarto com uma expressão confusa.
Alguns riram da sua reação.
Não parecia mais o quarto de Charlie. Era rosa com detalhes em tons pastéis. A única coisa que tinha dele era o berço e algumas fotos dele e de Peter ampliadas e penduradas nas paredes. Mas não era azul há um minuto?
-E aí, gostou? – Jackson perguntou novamente. Parecia uma criança que precisava da aprovação do adulto.
Peter inclinou a cabeça e analisou o quarto. Todos os detalhes que eles se preocuparam em colocar, as fotos dele e de Charlie sorrindo, felizes, o berço do menino. Ela sabia que o intuito era que ele ficasse feliz em ver um pouco do filho naquele quarto, mas não era assim que ele se sentia. Aquilo era tortura. Todas aquelas lembranças de momentos que nunca mais voltariam.
-Eu não sei – ele finalmente respondeu com uma voz fraca, e aquilo foi como um balde de água fria para todos que ficaram trabalhando no quarto – Está lindo – ele tentou consertar quando viu as expressões tristes dos filhotes.
-Mas você odiou mesmo assim – Jackson acusou.
Peter olhou para John em busca de apoio, mas ele parecia não entender sua reação também.
O lobisomem saiu do quarto, não aguentando os olhares desapontados. Lydia o seguiu com o olhar.
Os dias passaram. E ele voltou a ver Martin por todos os cantos. Era só ele se ver sozinho num ambiente, que o outro aparecia para atormentá-lo com suas ameaças e grosserias.
John reparou que ele parecia comer bem menos que o normal. Os adolescentes também.
De todos, somente Lydia pareceu prestar atenção em como ele parecia nervoso e procurava não ficar sozinho.
Num almoço de domingo, Peter e Lydia estavam arrumando as coisas na cozinha para levar para a mesa que os meninos colocaram do lado de fora, quando ela ouviu um barulho de criança correndo pela casa. Quando olhou para Peter, percebeu que ele também ouvira, e que saiu andando, ainda segurando o pirex com salada, na direção da criança.
Ela foi atrás dele, com medo do que poderia ser. Ele continua a andar, e os dois viram o garotinho de cabelo loiro e cacheado parado na frente da tevê. Ele lhe parecia familiar, mas ela não conseguia se lembrar de onde o conhecia. Lydia sorriu quando viu o menino fofo sorrindo para eles. Ela escutou um barulho de vidro quebrando e viu que o pirex de vidro se quebrou no chão, quando Peter o deixou cair.
-Charlie? – ele falou num fio de voz, e Lydia finalmente se deu conta de quem era o menino.
Aquele menino era o filho de Peter que morrera há mais de doze anos? Mas isso era impossível.
-Você não me pega, papai – o menininho falou rindo e saiu correndo pela casa.
E logo em seguida, Peter saiu atrás dele.
-Cuidado onde pisa, Peter – ela alertou, ao vê-lo pisar num enorme caco de vidro e nem perceber.
Ela o viu correr, e foi atrás. E ficou ainda mais confusa quando saíram da sala de estar e apareceram no meio da reserva de Beacon Hills. Como aquilo era possível?
Há alguns metros de onde estavam, ela pôde ver o menino preso nas ferragens de um carro capotado. E se ela tinha alguma dúvida de que aquilo não era nada bom, nessa hora ela teve a certeza. Sem pensar duas vezes, ela gritou:
-Socorro!
-Oh, meu Deus. De novo, não – pedia Peter, enquanto tentava tirar o menino de lá.
-Tá doendo! – o menino gritava chorando.
Não demorou muito para que todos viessem ajudar. Ela viu John e Derek tentando segurar Peter, e Peter arremessando John longe. Isaac e Jackson vieram ajudar a segurá-lo.
-Me solta! Me solta – ele parecia desesperado, e eles não entendiam o motivo. Mas ela via.
O carro onde o menino estava preso estava pegando fogo. Eles não estavam escutando os gritos da criança?
Ela ouviu um estrondo absurdo e foi jogada ao chão pela força da explosão. Ela podia ouvir os gritos desesperados de Peter. Ela abriu os olhos e viu uma pequena mão em seu colo, a mão do garotinho, chamuscada. Ela gritou.
Ela piscou quando alguém a sacudiu. Não estava mais na floresta. Estava na sala de jantar, a mesa estava destruída e Peter ainda gritava e tentava se soltar.
Dizer que aquele episódio acabou com o clima do almoço era ser gentil.
Após esse dia, Peter começou a fazer terapia. E eles tiraram e guardaram toda e qualquer coisa que o lembrasse de Charlie da casa.
Eles estavam sentados na mesa VIP discutindo os eventos dos últimos dias.
-Realmente, ele anda meio calado esses dias – Stiles comentou pensativo.
-Meio? Ele não fala há dias! – Isaac falou, preocupado.
-Mas ele deve melhorar agora, não é? Pelo que vocês falaram ele começou a fazer terapia – Allison tentou animá-los.
-E o que você tem com isso? Você sumiu! – Derek falou rispidamente.
Allison olhou para o irmão que a olhava recriminando.
-Eu estava ocupada - ela se defendeu ofendida.
-Nós também, se não notou – ele rebateu. Seus olhos brilharam por um segundo.
Ela respirou fundo, tentando se acalmar.
-Olha, eu estava ajudando no que sou boa, ok? Eu gosto do Peter – ela disse.
Ele a olhou com descrença.
-É verdade. Eu gosto dele. Eu sinto muito por ele. Eu realmente sinto. Mas o fato é: os alfas ainda estão aqui e estão agindo. E eu não posso ignorar isso - ela falou, levantou-se e saiu da mesa.
Scott fuzilou Derek com o olhar e foi atrás da namorada.
-Não é porque ela não sabe demonstrar que ela não goste dele - Stiles falou, tentando acalmá-lo - Ela está tentando ajudar do jeito dela, garantindo que os alfas fiquem longe. O que já é bem mais do que estamos fazendo - Derek olhou para ele indignado -Nós nem sabemos por que ele está assim. Ele estava ótimo.
-Não sei, mas acho que ver seu filho explodindo faz isso com você - Jackson falou, num tom seco.
-Talvez devêssemos seguir o exemplo dela - Lydia falou, num tom baixo.
-E abandoná-lo? - Isaac perguntou irritado.
-Não estamos ajudando - ela tentou explicar. E os adolescentes começaram a reclamar.
Não queria de jeito algum abandoná-lo, e nem pretendia sair desbravando as florestas de Beacon Hills com uma arma, mas achava que era boa ideia manter certa distância do lobisomem até que ele melhorasse um pouco. Nenhum dos outros tinha a ligação que ela tinha com ele. Não sabiam que ele era uma bomba relógio prestes a explodir. E ela achava prudente manter-se a salvo quando isso acontecesse. Sabia que Peter nunca se perdoaria caso algo saísse de controle e ele machucasse um deles.
Vendo que não conseguiria expor seus argumentos, ela deu uma desculpa e se levantou.
Não ficou surpresa quando viu que Jackson estava ao seu lado. E suspirou. Peter era a cola que os mantinha grudados. Sem ele, a alcateia estava se desfazendo.
John estava preocupado com Peter, ligara diversas vezes e Peter não respondera. Todas suas ligações caíam na caixa postal. Estava cheio de serviço acumulado dos dias que ficou fora, e só por isso não tinha ido até sua casa. Olhou o relógio e relaxou. Estava quase na hora da terapia, e os meninos o acompanhariam. Caso houvesse algum problema, ele tinha certeza que não hesitariam em ligar.
Stiles estacionou o jipe e os três adolescentes desceram desanimados.
-Peter! Vamos logo, a gente vai se atrasar – Stiles falou cansado enquanto se apoiava no jipe.
Quando viu que o lobisomem não dava nem sinal de vida, perguntou para os outros:
-Vocês conseguem ouvi-lo?
Derek e Isaac se entreolharam preocupados. Não conseguiam escutar barulho algum vindo da casa.
Stiles percebeu a tensão dos dois e saiu correndo para a casa.
-Ai, caramba - ele falou, tirando o celular do bolso e ligando para seu pai, pedindo que voasse para casa.
Os dois não demoraram a ir atrás dele.
Peter estava no banheiro, com uma expressão assustada. Seu corpo ainda pingava do banho que tomara as pressas, e ele tentava vestir uma bermuda, o que era difícil, já que tremia bastante.
Martin o seguira o dia inteiro, infernizando-o. Ele estava cansado. Ele não aguentava mais.
Odiava seus toques nojentos e seu cheiro podre que nem a água mais quente conseguia tirar.
Ele piscou quando ouviu um barulho vindo do andar debaixo e correu para o quarto.
-Acho que estou ouvindo alguma coisa - falou Derek, tentando se concentrar.
-Uma respiração. Acho que vem dali - concordou Isaac, subindo as escadas e indo em direção ao banheiro.
-Peter! - chamou Stiles, subindo atrás de Isaac.
-Ele não está aqui - falou Derek, que alcançara os dois, ao olhar o banheiro.
Isaac saiu de lá e foi na direção do quarto. Os dois foram seguindo-o.
Ele parou na porta do closet e suspirou. Peter estava lá dentro.
Seu coração disparou quando percebeu que Martin voltara e estava do lado de fora do closet. Peter se encolheu mais, na tentativa de passar despercebido.
Mas sua tentativa falhou. A porta do closet abriu e Martin estava lá, com sua expressão maníaca e rindo de seu sofrimento.
Ele implorou para que o outro o deixasse em paz, mas o outro ignorava seus apelos, puxando-o pelos pés.
Por reflexo, ele acertou um soco em Martin, que parecia surpreso com sua reação. E ele aproveitou essa hesitação do outro para revidar.
Toda a frustração e raiva do terror psicológico que sofrera nos últimos tempos eram exorcizadas por seus punhos. Quando Martin parou de se mexer, ele se sentiu aliviado. Estava livre.
-Se sente melhor agora? - perguntou Martin, agachando em sua frente e secando seu rosto com a costa da mão.
Peter se assustou com o movimento e recuou, caindo sentado. Ele acabara de dar uma surra em Martin. Como ele poderia estar ali em pé sem arranhão nenhum?
-E eu achei que você gostava desse aqui - comentou Martin, dando um chute num corpo estirado aos seus pés.
O coração de Peter disparou. Ele ignorou a presença do irmão e se aproximou da pessoa caída.
Seu coração deu uma falhada quando viu os cachos sujos de sangue. E o rosto quase irreconhecível de Isaac. Ele viu suas próprias mãos sujas de sangue, e sabia que era o culpado. Ele tinha machucado uma das pessoas que mais amava e de quem era responsável.
Quando John finalmente parou o carro em frente a casa, o único barulho que ouviu foi um uivo alto e agoniado.
Os dias passaram, mas o clima da casa não mudou. John pegou mais uma vez um afastamento do serviço para tentar animar Peter, que passava boa parte do tempo abatido e chorando escondido no quarto. Ele ficou arrasado com a distância que Isaac impusera no relacionamento dos dois. E John sequer podia culpar o garoto, que se aproximara mais dele nos últimos dias. O garoto estava claramente assustado e confuso. John chegou a encontra-lo até dormindo encolhido debaixo da cama.
-Se ao menos os dois conversassem – ele pensou ao abraçar Peter que estava deitado na cama quase dormindo.
Ele não sabia mais o que fazer. Os últimos dias tinham sido uma tortura.
Tudo parecia estar desmoronando e ele não tinha ideia do que fazer para consertar. Ele via mortos andando pela casa e atacava os vivos que ainda o aguentavam.
Jogara seu marido longe durante um surto e atacara seu filho durante outro. Ele era um perigo ambulante.
Só John não via isso e o perdoara de pronto e se negava a ficar longe. Mas Isaac era diferente. Ele se encolhia cada vez que Peter se aproximava demais, como se esperasse outro surto a qualquer momento.
Os hematomas dele tinham sumido em horas, mas as marcas que Peter deixara eram para sempre.
E ele estava certo. Ele poderia ter outro surto a qualquer momento. A não ser que ele se certificasse de que não aconteceria.
Ele não fazia de propósito. Era mais forte do que ele. Não queria se encolher cada vez que Peter se aproximava. Era só o instinto de sobrevivência adquirido depois de anos de abuso com seu pai. Mas ele sabia que Peter não era como ele.
Ele não sentia prazer em vê-lo mal. Não descontava nele e nem em ninguém. Sabia que lutava com demônios bem piores que os seus.
Aquilo tinha sido apenas um acidente, um infeliz acidente. Mas mesmo sabendo disso não era fácil lidar com a situação.
Ele via o quão arrasado Peter ficava cada vez que suas tentativas de se reaproximar eram refutadas. Nos primeiros dias, ele sentia uma pequena e mesquinha parte de si se regozijar ao ver a dor do outro. Mas com o passar dos dias, com a cabeça mais calma e o coração apertado, ele se sentia péssimo por isso. Ele queria as coisas como eram antes. Queria seu pai de volta. E faria questão de deixar claro isso no dia seguinte.
Quando todos acordaram no dia seguinte, Stiles, como sempre foi o primeiro a levantar.
Ele desceu as escadas rumo à cozinha e ficou surpreso quando viu a mesa do café posta.
-Você acordou animado hoje, hein? – falou Isaac ao entrar se espreguiçando.
-Não fui eu quem fez tudo isso – respondeu Stiles, antes de Derek o puxar pelos ombros e esconder o rosto em seu pescoço – Bom dia, pra você também Lobo azedo.
-Hn – respondeu Derek, ao se afastar e sentar – Brócolis! – comemorou, ao lotar o prato com a verdura.
-Como pode comer isso no café da manhã? – resmungou Stiles – Chega a ser heresia preferir brócolis a panquecas – completou quando Isaac e ele se sentaram também.
Derek, revirando os olhos, pegou duas panquecas, recheou com uma pilha de brócolis e deu uma mordida.
-Feliz agora? – falou com a boca cheia, fazendo Stiles balançar a cabeça.
-Vocês viram o Peter? – John perguntou meio afobado, ao entrar na cozinha.
-Achei que ele tivesse com você – respondeu Isaac desapontado. Tinha planos de falar com Peter antes de sair para a escola.
-Acho que deve ter ido dar uma volta depois que fez o café, pai.
-É, relaxa Sr. Xerife. Ele é meio maluco, mas não é feito de açúcar – falou Derek despreocupado – E a minha irmã está com ele, esqueceu? Ela não vai deixa-lo fazer alguma bobeira.
Mas o que era para ter acalmado John, o deixou ainda mais tenso. O medo que tinha não era de Laura não impedir que Peter fizesse alguma bobeira, era incentivá-lo a fazer uma.
Ele saíra decidido de casa. Aquilo era o melhor para todos. Era o único modo de ter certeza absoluta de que acidentes daquele tipo nunca mais aconteceriam. Mas por que ele suas mãos estavam suando daquele jeito?
Ele parou o carro em frente à casa, respirou fundo e saiu. Suas pernas pareciam não querer obedecer. O caminho era curto até a porta, mas parecia interminável com suas pernas bambas. Mas estava lá, não tinha mais jeito.
Ele respirou fundo e tomou coragem. Com a mão trêmula, ele tocou a campainha.
-O que você quer, Hale? – Chris Argent falou ao vê-lo quando abriu a porta.
-Eu preciso da sua ajuda – falou Peter, num tom derrotado, olhando nos olhos do caçador.
-Não é mais problema meu, Hale. Vá reclamar com o seu marido e me deixe fora de qualquer porcaria que tenha aprontado – falou Chris, tentando fechar a porta na cara do outro.
Mas o lobisomem tinha reflexos bons e travou a porta com seu pé.
-Por favor, me escuta – implorou o mais novo, desesperado e o caçador abriu a porta quando ouviu o tom do outro. Ouviria o que ele tinha a dizer antes de dizer 'não' – Eu preciso que fique com os filhotes e que os proteja.
-Não. Seu marido é o xerife, ele pode fazer isso – ele negou e tentou fechar a porta novamente.
-Não, não pode. Ele não conseguiria – ele insistiu com os olhos cheios de lágrimas.
-Como não? Eu vou ligar pro seu marido vir te pegar, você deve ter tomado muito sol ou sei lá o quê – Chris falou, se virando, mas parou quando o outro segurou seu pulso.
-Preciso que os proteja de mim – Peter falou com a voz embargada evitando o olhar do outro.
Eles iriam odiá-lo por fazer isso, mas pelo menos estariam a salvo. Salvo dele e dos Alfas. Era um plano perfeito. Mas se era perfeito, por que doía tanto pô-lo em prática?
Fim do cap. 29
