Do capítulo anterior…

Eles desceram a elevação onde se encontravam, animados com a perspectiva de estarem mais próximos de seu objetivo.

- Então, pequena, essa echarpe é um artefato de cura? - Gandalf perguntou, enquanto caminhava ao lado de Kibil Nala.

- Eu não sei, Gandalf.

- Por que você a usou em Thórin?

- Eu… sabia o que precisava fazer algo para ajudá-lo. A echarpe sempre esteve comigo e me ajudou… então…

Gandalf sorriu. Sua intuição sobre aquela criaturinha estava certa, afinal. O mago tomou a frente da comitiva, guiando-os pelos caminhos que deveriam tomar. As terras nas quais iriam entrar poderiam não ser tão perigosas quanto as montanhas que deixavam para trás, mas tampouco poderiam ser consideradas seguras.


Kibil Nala seguia bem atrás, quando Thórin aproximou-se.

- Não deveria ficar aqui sozinha. Precisa tomar cuidado - ele disse mais ríspido do que pretendia. - Quer ser surpreendida por um warg?

Ela o olhou como se as palavras dele não fossem dirigidas a ela.

- Como estão seus ferimentos?

- Como pode estar preocupada com os meus ferimentos? Você não ouviu o que eu disse? Imagina o que poderia ter acontecido se a tivéssemos trazido conosco? Se não tivesse ficado com o mago em Valfenda você poderia estar jogada em algum buraco daquela montanha!

Kibil Nala parou de caminhar. Uma lembrança golpeou sua mente e ela levou as mãos à cabeça.

- O que houve?

A moça ajoelhou-se. Thórin ficou preocupado. O olhar de Kibil Nala expressava um desespero quase palpável, como se estivesse diante do maior dos horrores.

- Kibil Nala, o que está acontecendo?

- Um buraco escuro - ela sussurrava. - Eles estão uivando alto! Estão famintos!

Thórin observou-a. Ela parecia estar em outro lugar, falando sobre uma realidade que não era aquela. Ela fechou os olhos.

- Saiam daqui! Saiam daqui!

Ele também se ajoelhou e a segurou pelos ombros. A expressão de terror no rosto dela o fez compreender que se tratava de algo mais sério do que ele imaginara.

- Abra os olhos - ordenou.

- Estão uivando!

- Não há uivo nenhum aqui! Abra os olhos!

- Vão embora! Me deixem em paz!

- Você está comigo, Kibil Nala! Não está com eles!

- Os uivos – ela sussurrava e tremia.

- Olhe para mim! - ele apertou os ombros.

Ela abriu os olhos e mirou ao redor. Aos poucos a consciência de onde realmente estava se impôs e ela mirou seu interlocutor e após um suspiro de alívio, abraçou o anão.

Thórin não soube como reagir. Seus braços não foram treinados para aquele tipo de interação. Há muito tempo a espontaneidade dos anões o havia deixado. Ele pousou a mão hesitante sobre a cabeça dela.

- Está segura agora - ele sussurrou-lhe ao ouvido a fim de acalmá-la.

Balin aproximou-se.

- Thórin, o que houve? Precisamos prosseguir!

O anão mais velho externou sua preocupação através de uma expressão grave em seu rosto.

- Está tudo bem, Balin - Thórin respondeu. - Estaremos logo atrás de você - ele disse, ajudando a moça a levantar-se.

- Está tudo bem, pequena? - Balin estava preocupado.

Ela assentiu.

- Foi só o cansaço.

Balin alternou o olhar entre Thorin e Kibil Nala e decidiu fingir que acreditava.

Eles continuaram caminhando.

Ela estava calada.

A lembrança que havia se acercado parecia terrível. Thórin estava cada vez mais convencido de que seria um erro seguir com ela pelos ermos.

- Por isso digo que você deveria ter ficado em Valfenda. Como espera poder seguir conosco se teme o simples uivo de um warg?

- Não temo o uivo - ela fitou o anão. - Temo as lembranças que perdi.

- Você não viu o que aconteceu sob aquela montanha? – Thórin retrucou. -Não sabe o inferno que a espera se continuar conosco.

- Não pode ser pior do que o inferno que se esconde em minhas lembranças.

O anão mirou nos olhos dela. Uma coisa ele precisava admitir. Havia um grande terror escondido neles. Thórin silenciou e Kibil Nala aproveitou para desviar o assunto. Precisava mandar embora aquelas recordações sombrias.

- Mas você não me respondeu - ela prosseguiu. - Como estão seus ferimentos?

O anão meneou a cabeça. Ela não desistiria tão facilmente.

- Já não me recordo deles - o anão garantiu. - Foi sua echarpe que me trouxe de volta, não foi?

- Sim. Ela... já me curou algumas vezes... então eu pensei em...

- Em usá-la em mim...

Kibil Nala baixou os olhos.

Embora não agradasse a ele admitir, estava, de certa forma, em dívida com ela. E ele, Thórin, sempre honrava suas dívidas.

- Sua ajuda não será esquecida - Thórin afirmou e o diálogo entre eles chegou ao fim.

A moça, contudo, mesmo sem saber por que, sorriu para si mesma. Aquelas palavras soaram como qualquer coisa parecida com gratidão e isso era muito mais do que se poderia esperar de alguém orgulhoso como Thórin Escudo de Carvalho, pelo que ela já havia podido observar.

Depois de percorrerem uma distância considerável, Bilbo foi mandado para verificar se seus caçadores estavam muito longe, pois sabiam que Azog não desistiria tão facilmente de suas presas. Todavia, os wargs não eram o maior problemas dos anões naquele momento. Um urso gigante havia sido visto por Bilbo. Ganfalf o identificou como Beor, o troca-peles. Às vezes um homem grande e forte, outras vezes um urso. O mago orientou a companhia a se dirigir a uma casa onde eles poderiam encontrar abrigo e passar a noite.

O rugido do urso fez-se ouvir, anunciando a perigosa proximidade. Ainda que não fosse, de fato um animal, segundo Gandalf, o troca-peles em forma de urso poderia ser bastante imprevisível.

Os uivos dos wargs que se aproximavam ficaram mais fortes e a comitiva precisou correr contra o tempo para chegar até a casa. Depois de mais uma fuga desesperada, conseguiram. Só então o mago revelou que aquela residência pertencia ao próprio Beor.

Os anões estavam exaustos. Fosse em um monte de feno, fosse em um canto do chão de madeira, cada um deles encontrou depressa o caminho do sono. Cada um deles, exceto a pequena portadora da echarpe élfica.

Kibil Nala postou-se junto a parede de madeira, enquanto tentava olhar para fora através de uma brecha. Ela observava a noite e tentava discernir a luz de alguma estrela, quando sentiu uma respiração quente próxima ao seu rosto recostado na madeira. O troca-peles em forma de urso estava lá, quieto, observando-a.

A jovem não tinha lembrança de quem era, não sabia de nada sobre seu passado antes de ser encontrada por Bilbo e não tinha absolutamente nenhuma certeza sobre seu futuro. Porém algo Kibil Nala sabia melhor do que qualquer daqueles que ali se encontravam. Ela sabia reconhecer o bem e o mal nas criaturas de Arda e aquele Urso não trazia consigo nenhuma maldade. Ela estendeu a mão para que ele pudesse cheirá-la através da brecha e sorriu ao sentir a língua do animal em sua mão.

- Obrigada por nos deixar ficar aqui - ela sussurrou baixinho. - E obrigada por nos proteger dos wargs.

O urso pareceu se retesar e se afastou. A jovem não entendeu até que viu Thórin aproximar-se com o cenho franzido.

- Era o urso? - ele indagou, incrédulo.

Ela assentiu.

- Acho que você o assustou.

Ele sentou-se na frente dela.

- Eu o assustei? De certa forma, acho difícil de acreditar nessa possibilidade.

Ela o olhou, ele parecia... estar brincando...?

- Então o sisudo líder da companhia dos anões sabe fazer comentários bem humorados?

- Meu povo é um povo alegre, Kibil Nala - ele disse, fitando o chão.

- Mas você é triste.

Thórin não ergueu a cabeça, nem respondeu ao comentário dela.

- E agora parece que carrega uma montanha sobre ombros. Está preocupado com o futuro desta demanda.

- Tudo está contra nós - ele ergueu a cabeça, mirando a mesma brecha pela qual o urso havia se apresentado.

- Às vezes a ajuda pode vir de onde menos esperamos...

- Se acredita mesmo nisso, deve ser a criatura mais ingênua que já conheci.

- Acredito no que vivi...

- O que quer dizer?

- Há algumas semanas eu fui abandonada na estrada para morrer por um anão que agora conversa comigo e que me protege...

A intenção dela havia sido mostrar a ele que aquilo que muitas vezes parece ser um mal, pode revelar um lado bom. Todavia, o espírito de Thórin não recebeu de bom grado as palavras de Kibil Nala. O anão levantou-se com o olhar cheio de mágoa. Ela percebeu e levantou-se também.

- Thórin eu não quis...

O anão afastou-se, mas ela o segurou pela mão. Thórin não se reconheceu. Em outras ocasiões ele jamais teria parado, porém o toque dela tinha algo de familiar, de irresistível.

Sem soltar a mão do anão, ela postou-se na frente dele, sem conseguir perdoar a si mesma por havê-lo magoado.

- Por favor, não se zangue comigo... - ela sussurrou.

Ele a olhou. O ressentimento palpitando no peito.

- Nunca é agradável quando nos mostram o que temos de perverso... e eu fui perverso com você naquele dia.

- Apenas naquele dia - ela tentou sorrir.

- Eu a tratei de forma bastante precária desde que a conheci.

- Forma bastante precária? Você foi... grosso algumas vezes... intolerante outras tantas vezes... me acusou de espioná-lo... de distraí-lo de sua missão... de mentir... - ela prosseguiu sorrindo.

Thórin sentiu empatia.

- E parece que você gostou, pela forma como exibe esses dentes...

Ela se aproximou, quase o suficiente para sentir o calor que emanava dele.

- Gostei quando me olhou e fingiu não olhar, quando conversou comigo, quando me abraçou para que eu me sentisse protegida... e gostei quando... - ela baixou os olhos.

- Quando o quê? - ele quis saber.

- Quando brincou com a echarpe, fazendo com que ela cobrisse meu rosto, apenas com sua voz.

O queixo de Thórin quase atingiu o chão. O sorriso de Kibil Nala alargou-se.

- Você viu?

- Vi isso e muito mais. É para isso que estou aqui, Thórin - ela sussurrou.

- Para quê? - ele sussurrou de volta.

- Para você...

Ele engoliu seco. O instinto gritou dentro dele, mas a prudência o conteve, Mahal sabe a que custo.

- Você é apenas uma criança - ele disse mais para si mesmo do que para ela.

O sorriso irresistível estava lá novamente.

- Thórin Escudo de Carvalho! - a voz de Gandalf os tirou daquele transe quase mágico. - Pare de distrair essa pobre moça e vá dormir. Teremos um dia cheio amanhã.

O olhar de Thórin queimou em direção ao mago. O anão soltou a mão da jovem e se afastou relutantemente. Gandalf aproximou-se dela, com uma expressão preocupada no rosto.

- Está tudo bem, pequena?

Kibil Nala sentou-se novamente e voltou a olhar as estrelas.

- Não poderia estar melhor - ela respondeu, sorrindo.

Gandalf olhou para trás, na direção na qual Thórin havia seguido e fechou os olhos. 'Por Ilúvatar! Já não me basta um dragão?'