Capítulo 29 – O medo de Harry

Harry, que estivera o tempo todo vendo a cena da janela, escorregou pela parede até que seu corpo batesse com um baque no chão. Escondeu seu rosto com as mãos e se encolheu no jardim florido que iria morrer em breve.

Já se acostumara a ver essas imagens em sua cabeça, era corriqueiro compartilhar a felicidade do Lord ou sua infelicidade, não fazia muita diferença, Voldemort descontava tudo da mesma forma.

Crueldade

Matança

Orgia

A única diferença era que quando estava nervoso, com raiva e ódio, aquela sensação passava para o grifinório, ele o sentia em seu corpo, sentia suas emoções aflorarem e via a luz deixar os olhos de mulheres, homens e crianças.

Mas, por mais que fossem reais, nunca havia visto com seus próprios olhos, para ele aquilo em sua cabeça era apenas um filme que havia assistido na noite anterior, ou assim ele queria.

Aquela casa, aquela mulher, aquele grito, não eram frutos de imagens em sua mente, era a morte ao seu lado, era uma vida deixando de ser vida para se tornar uma morte, era uma luz que sumia, era...

- Fique longe de mim! – Pediu ao sentir as mãos geladas de Snape encostarem em seus braços.

- Potter!

- Não, não encoste em mim, não.

- Potter! Pare de ser criança ao menos uma vez na vida.

Harry começou a se balançar sentado com as mãos tapando os olhos.

Em sua mente conseguia ver a casa de seus tios nitidamente, a casa que estava agora a poucos metros, na rua de trás, a casa em que vivera anos de sua vida antes de saber quem era de verdade, sua história.

A casa em que crescera, a casa em que fora criado, a casa em que fora maltratado e trancado em um pequeno armário de baixo da escada.

Tinha a esperança de jamais ver ou se lembrar daquela época, de jamais ver o olhar de seu tio, o olhar que era dirigido à ele. Mas nem sempre a vida lhe dá o que quer e ali estava aquele olhar novamente. Possuindo o negro dos olhos de seu professor, mas novamente olhando para si.

Revivera hoje os tempos em que as mãos gordas do tio pegavam-lhe pelo queixo e o apertava. Os tempos em que precisava ficar dias trancado em seu armário sem comida nem água, os dias em que sofreu, chorou, sangrou. As não idas ao hospital quando precisava, quando seus ossos estavam fraturados ou quando tinha uma doença.

Estava tudo ali, tudo naquele olhar, sua vida, sua maldição.

- Potter, olhe para mim.

- Não, não consigo, não posso.

- Claro que pode, pare com isso menino.

- Não. Você é ele, você é ele.

- Ele quem, está ficando louco agora.

- Você é ele, meu tio, você é ele, não posso, não posso.

- Deixe de criancice.

Snape afastou os braços de Harry e olhou em seus olhos lacrimejantes. Não foi preciso fazer esforço para ler aquela mente tão transparente.

Via a vida mais profunda que Harry tinha, seus maiores medos e desolação, seus tremores e suas dores, seu sangue tirado pelas mãos de seus tios, seu medo do olhar cruel dele, do desprezo de sua tia e da maldade de seu primo.

- São os mesmos olhos, você é ele – Sussurrou olhando para o chão, corando pela vergonha de chorar na frente de Snape.

O professor soltou lentamente os braços magros ao perceber que Harry não estava com medo da situação, não estava com medo de ter que ir resgatar Ana e enfrentar Voldemort, não tinha medo do perigo que estava logo em frente. Tinha medo dele, de seu olhar, de sua maldade, sua loucura.

Passou os dedos em seu próprio rosto e sentiu as gotas de sangue que escorriam contrastando com seu rosto pálido.

- Não vou machucar o senhor – Garantiu ao vê-lo se encolher mais fugindo dele – Infelizmente preciso do senhor para encontrá-la, mesmo já sabendo onde ela está, mesmo já tendo essa informação. Eu preciso do senhor ao meu lado para garantir que o lugar é aquele.

- O que... o que fez com a mulher?

- Coisas que o senhor não iria querer saber, coisas que é melhor ficar no oculto, coisas que a coragem grifinória não seria capaz de fazer.

- Mas que a frieza sonserina consegue.

- Sim.

Harry abaixou a cabeça entre os joelhos e suspirou alto.

- Então é assim que as pessoas ficam quando são comensais?

Snape não respondeu. Sabia que era exatamente assim que as pessoas ficavam. Elas passavam a não ter medo de fazer o mal, não ter medo de machucar o outro, ter crueldade em seu coração.

- Está pensando em desistir senhor Potter? Depois de todos esses anos em que as pessoas depositaram confiança no senhor?

Harry pensou em falar, chegou a abrir a boca para contar, mas lembrou-se que a pessoa que falava com ele não era Rony, Hermione e nem nenhuma outra pessoa de sua confiança, era Snape, o professor que odiava, o morcego que o humilhava por não saber responder uma pergunta ou o injustiçava por ser da Grifinória.

- Acho melhor continuarmos professor. Ela ainda está sei lá onde.

Harry levantou-se devagar e enxugou as lágrimas com a manga da camiseta. Cruzou os braços para se proteger do frio e foi caminhando pela rua escura de cabeça baixa. Seus passos estavam pesados e vacilantes. Sua cabeça girava e logo sentia o chão mais perto.

Snape tentava acordá-lo, mas Harry continuava inconsciente.

- Droga moleque, acorde.

Snape olhou para todos os lados da rua, não havia ninguém que pudesse vê-lo pegar o grifinório nos braços e se preparar para aparatar.

Concentrou-se no lugar de destino fornecido pela mulher que logo seria encontrada morta dentro de sua cozinha com o pescoço cortado por uma faca desaparecida.

Apertou o menino em seus braços e girou o corpo sentindo seus pés deixarem o chão. Tudo sumiu e transformou-se em um lugar frio e molhado