Capítulo XXIX - Descoberta
Marcus caminhava calmamente para a diretoria do hospital. Precisava falar com Emmett e colocá-lo a par das últimas novidades. Já tinha uma forte desconfiança de quem seria o fotógrafo misterioso e precisava que Emmett ficasse mais atento a qualquer movimento suspeito. Tudo não tinha passado de um golpe de sorte em que ele conseguira ver a máquina fotográfica dentro da bolsa que ela tinha deixado aberta em um breve momento de descuido.
A ante-sala da diretoria estava silenciosa. Marcus parou sorrateiramente à porta observando o que se passava lá dentro. Tânia manuseava uma máquina fotográfica e parecia trocar o filme usado por outro novinho em folha. Ele esperou até que ela acabasse o procedimento e entrou na sala sem ser percebido.
_ Onde está Jéssica? – ele perguntou preenchendo a sala com sua voz grave.
Tânia se sobressaltou. Seu primeiro impulso foi tentar ocultar a máquina que ainda estava em sua mão, mas ao ver que se tratava de Marcus ela relaxou e lhe deu seu sorriso mais largo.
_ Jéssica foi até o departamento de recursos humanos. Não deve demorar a voltar. Posso ajudá-lo em alguma coisa? – ela disse recolocando a máquina na bolsa de onde ela a havia tirado.
_ Eu gostaria de falar com Emmett. Será que você poderia me anunciar? – ele perguntou sorrindo de volta enquanto observava Tânia deixar o filme na primeira gaveta de sua mesa e caminhar sensualmente até a porta de Emmett.
Tânia bateu suavemente à porta e entrou para falar com Emmett. Assim que ela fechou a porta atrás de si, Marcus correu até a gaveta e pegou o filme escondendo-o no bolso de seu paletó. Segundos depois, ela abriu novamente a porta dando-lhe passagem para a sala da diretoria ao mesmo tempo em que Jéssica retornava ao seu posto.
_ Quem entrou na sala do Sr. Cullen? – Jéssica perguntou curiosa.
_ O auditor do Ministério da Saúde, o Sr. Marcus! – Tânia respondeu aliviada.
Por pouco não tinha sido surpreendida por Jéssica com a máquina nas mãos. Não saberia como explicar o que estava fazendo com aquele objeto caso Jéssica lhe perguntasse e, então, tudo estaria perdido, todo o esforço que ela tinha feito até agora teria ido por água abaixo.
Narrado por Marcus
Emmett queria demiti-la, mas eu tive que demovê-lo daquela ideia. Seria mais fácil vigiá-la se a mantivéssemos por perto. Agora que sabíamos quem era a fotógrafa misteriosa poderíamos usá-la para chegar até Michael. Só teríamos que seguir seus passos vinte e quatro horas por dia. Qualquer deslize seu, por menor que ele fosse, poderia nos levar até ele.
_ Emmett, eu preciso que você mantenha a calma! A partir de amanhã, Bella estará segura em casa e nós poderemos voltar a nossa atenção para a nossa amiga aí fora. Desfaça essa cara de assassino porque ela não pode perceber que nós desconfiamos dela. – eu pedia com medo de que ele não conseguisse disfarçar sua raiva.
Emmett respirou fundo várias vezes tentando recobrar o controle. Seu rosto ainda estava vermelho e ele mantinha as mãos fortemente fechadas em punho para conter o nervosismo. Esperei por longos minutos antes de abrir a porta da sala e dar de cara com o sorriso brilhante de Tânia que nos olhava atentamente. Ela era realmente uma mulher lindíssima. Dei-lhe o meu sorriso mais largo e passei pela sala em direção ao corredor sendo seguido de perto por Emmett. Ainda pude ouvir a voz de Jéssica perguntando aos sussurros.
_ O que será que deu nele? – ela se referia à expressão carrancuda de Emmett.
_ Tudo indica que o auditor achou alguma irregularidade na pediatria. – Tânia sussurrou de volta. Ela era realmente uma excelente atriz.
Emmett insistiu em ir comigo até a loja onde mandaríamos revelar o filme. Só teríamos que esperar uma hora para confirmarmos de vez nossas suspeitas. Meu único medo era de que ele perdesse completamente o controle quando víssemos o conteúdo das fotos. Ele não quis dar uma volta, preferiu esperar que a revelação fosse feita dentro da loja. Assim que abri o pacote e vi a primeira foto, minhas suspeitas foram confirmadas. O filme não tinha sido totalmente usado, mas todas as fotos que estavam ali mostravam Bella e Edward chegando e saindo do hospital. Ao ver as fotos, Emmett quase surtou. Queria voltar ao hospital e fazer um escândalo. Foi difícil controlá-lo, se fosse preciso eu usaria a força de Felix para detê-lo, mas não poderíamos perder a oportunidade que se abria à nossa frente.
_ Emmett, me ouça com atenção. Estamos cada vez mais perto de encontrar Michael agora que sabemos quem o está ajudando. Eu preciso que você finja que nada está acontecendo! – Emmett me olhava com a expressão furiosa – Eu sei como está sendo difícil pra você, mas eu realmente preciso da sua ajuda.
_ Você não faz ideia do quão difícil está sendo pra mim. Você não estava lá quando meu irmão quase enlouqueceu quando a Isa morreu, você não estava lá quando a Bella passou mal por causa dessas malditas fotos. Você não faz ideia do que vai acontecer ao meu irmão se alguma coisa acontecer com a Bella. Ele não vai conseguir se levantar de novo... – ele andava de um lado para o outro como um leão enjaulado - ... e tudo por causa daquela miserável.
Emmett socou o tronco de uma árvore da praça onde estávamos e sentou-se ofegante no chão levando as mãos ao rosto. As costas de sua mão direita sangravam, mas ele parecia não sentir o ferimento. Deixei que ele ficasse ali sentado até que sua respiração se normalizasse. Eu precisava que ele se controlasse antes de voltarmos para o hospital. Estava preocupado com a reação de Edward ao saber a verdade. Se Emmett tinha ficado naquele estado, eu não conseguia imaginar como Edward ficaria ou o que ele faria.
_ Emmett, eu vou precisar da sua ajuda para contar a verdade ao seu irmão. Por isso, eu preciso que você se controle. Se ele reagir mal eu vou precisar que você o segure, que o impeça de fazer qualquer bobagem, entendeu? – eu perguntei me agachando ao seu lado e tocando no ombro de Emmett.
Ele ergueu a cabeça e me olhou assustado. Eu sabia o que se passava em sua mente. Ele também temia a reação do irmão.
_ Ah, droga! – ele falou simplesmente levando as mãos novamente ao rosto.
Depois que Emmett se acalmou, seguimos de volta para o hospital. Ele permaneceu calado durante todo o trajeto e isso me preocupava. Emmett era o tipo falante e seu silêncio podia significar problemas.
_ Você está bem? – perguntei-lhe quando paramos diante da porta do consultório de Edward. Ele apenas assentiu com a cabeça.
Entramos. Assim que olhou no rosto de Emmett, Edward percebeu que alguma coisa errada estava acontecendo. Levantou-se de repente da cadeira caminhando em direção ao irmão como olhar assustado.
_ O que houve? Aconteceu alguma coisa com a Bella? Onde ela está? – ele perguntava alarmado ameaçando sair pelos corredores em busca da mulher.
_ Edward, Bella está perfeitamente bem! Aconteceu uma coisa sim, mas não foi com ela. E antes que você entre em pânico, Brian está a salvo em casa. – eu disse segurando-o pelo braço para que não saísse.
_ Então, o que foi? Por que Emmett está com essa cara? – ele perguntou agora confuso.
_ Sente-se. Precisamos conversar! – eu o guiei para as poltronas que havia em seu consultório.
Troquei um olhar preocupado com Emmett antes de começar e, com calma, contei a Edward tudo o que havíamos descoberto enquanto observava suas reações. Contei dos meus planos de vigiá-la e segui-la para saber onde Michael se escondia. Ele ouviu tudo o que eu tinha a dizer sem me interromper. Depois que terminei, ele não disse nada, apenas manteve o olhar fixo em algum ponto na parede atrás de mim. Permaneceu assim por cinco longos minutos até que seu rosto se contorceu numa expressão de dor e ele chorou abraçado às próprias pernas com o rosto escondido nos joelhos. De todas as reações que eu havia predito aquele choro convulsivo não era uma delas. Assustei-me ao ver a intensidade do descontrole de Edward e pela primeira vez em meus vinte anos de carreira eu não sabia o que fazer. Emmett, que durante toda a nossa conversa tinha permanecido de pé encostado na porta do consultório provavelmente para impedir a saída do irmão, correu em sua direção e o abraçou apertado sem dizer nada. Estava apenas oferecendo o colo de irmão mais velho para que Edward chorasse. Aquele homem forte e determinado que havia meses lutava para proteger a esposa agora chorava diante de mim como um menino com medo do escuro. Ele havia atingido o seu limite. Edward havia desmoronado.
Narrado por Edward
Eu tentei me controlar, mas não agüentei. Consegui ouvir tudo o que Marcus tinha pra dizer sem interrompê-lo, mas o que me desesperou foi pensar em quantas vezes Bella esteve próxima a ela, em quantas vezes eu tinha falhado em protegê-la e em quantas vezes o pior poderia ter acontecido. Eu estava com muito medo e me sentia impotente. Várias imagens passavam diante dos meus olhos como em um filme: Bella deitada na cama com o rosto abatido depois da crise no dia em que recebemos as primeiras fotos; seu rosto assustado quando acordou em meus braços ao entrarmos no carro no parque Yost; a expressão preocupada com que ela se aproximou de mim no aniversário de Brian depois do meu sumiço; as diversas noites em que ela acordava chorando e assustada por causa dos pesadelos ...
Apesar do meu descontrole eu sabia que no fundo tínhamos feito uma descoberta importantíssima que nos colocaria mais perto de pegar aquele monstro. Eu seguiria com o plano de Marcus, mas naquele momento tudo o que eu queria fazer era chorar. Precisava aliviar aquela pressão horrível que eu carregava no peito há tantos meses e sabia que poderia contar com meu irmão pra segurar a minha barra. Ele não me decepcionou. Deu-me seu abraço como fazia quando éramos crianças e eu apanhava na rua dos meninos mais velhos. Ele não precisava dizer nada. Bastava estar ali ao meu lado e me permitir ser o lado frágil pelo menos aquela vez. E assim ele o fez. Deixou-me arruinar sua camisa com minhas lágrimas até que elas secassem e eu conseguisse me acalmar. Não sei quanto tempo fiquei daquele jeito, mas quando as lágrimas acabaram eu me sentia como se toda a energia do meu corpo tivesse sido drenada. Um cansaço enorme tomou conta de mim e tudo o que eu precisava era ir embora para casa e dormir ... ou pelo menos tentar. Eu não queria que Bella me visse daquele jeito. Não teria como me explicar sem deixá-la alarmada. Levantei-me da poltrona e comecei a juntar minhas coisas.
_ Emmett, será que você poderia dar uma carona para a Bella quando ela for para casa? Eu não quero que ela me veja assim. Preciso me recompor antes de vê-la de novo. – eu pedi e Emmett entendeu minhas razões.
_ Deixe comigo, Edward. Se ela perguntar por você, eu digo que você estava com uma forte enxaqueca e foi embora para casa mais cedo. – ele respondeu tocando meu ombro.
_ Eu vou tomar um remédio pra dormir. Não quero falar com ela hoje. Não vou conseguir ser forte. Hoje não! – eu disse tentando segurar as lágrimas que já queriam voltar.
Despedi-me de meu irmão e de Marcus e saí dali o mais rapidamente possível acompanhado por Demetri. Pedi que ele guiasse o carro, não tinha cabeça para dirigir ou acabaria enfiando o carro em um poste. Assim que passei pela porta de casa, minha mãe correu em minha direção preocupada com minha expressão.
_ Filho, o que aconteceu? Por que você está assim? – ela perguntou acariciando meu rosto.
_ Eu estou bem agora, mãe. Não se preocupe. É só uma dor de cabeça muito forte. Vou tomar um banho e engolir um remédio para tentar dormir. – eu respondi tentando acalmá-la.
_ Eu vou preparar um lanche pra você comer antes de se deitar. – ela me olhava ainda preocupada.
_ Não precisa, mãe. Eu não estou com fome. Eu só quero descansar mesmo. Preciso de uma longa noite de sono ininterrupto. – beijei sua testa e subi para o meu quarto antes que ela dissesse mais alguma coisa.
Debaixo do chuveiro deixei que o choro voltasse, mas dessa vez ele não veio descontrolado. A água quente caindo sobre meus ombros não foi o bastante para aliviar a tensão dos músculos e eu sabia que não conseguiria dormir sem os remédios. Engoli dois comprimidos e me deitei. Agarrei-me ao travesseiro de Bella inspirando seu perfume. Aquele remédio me garantiria pelo menos doze horas de sono pesado. Precisava estar dormindo antes que ela chegasse ou minha máscara de homem forte desmoronaria. O remédio não demorou a surtir efeito e não percebi quando caí na inconsciência.
Narrado por Bella
_ Mas o que ele tem, Emmett? – já era a quarta vez que eu fazia a mesma pergunta.
_ É só uma enxaqueca, Bella. Ele vai ficar bem, só precisa dormir um pouco. – Emmett repetia sempre a mesma coisa, mas algo me dizia que era mentira.
Preferi não insistir. Estávamos a caminho de casa e eu poderia confirmar o que Emmett dizia. Eu tinha ficado preocupada quando ele me informou que me levaria embora porque Edward tinha saído mais cedo. Ele jamais faria isso se não fosse por um motivo grave. Edward era muito obcecado com a minha segurança para me deixar para trás. Se fosse somente uma enxaqueca, como dizia Emmett, ele teria me chamado para ir para casa com ele.
Assim que o carro estacionou na garagem desci correndo em direção à casa. Ainda pude ouvir a voz de Emmett me repreendendo por correr antes de desaparecer porta adentro. Esme estava na sala lendo uma revista de decoração e me recebeu com um sorriso quando entrei.
_ Onde ele está, Esme? – perguntei preocupada.
_ Ele está dormindo, filha. Eu acabei de vir do seu quarto. Não se preocupe. É só uma dor de cabeça. Amanhã ele estará bem. – ela respondeu acariciando meus braços na tentativa de me acalmar.
Eu precisava vê-lo com meus próprios olhos. Subi para o nosso quarto e abri a porta com cuidado para não acordá-lo. Edward dormia profundamente enquanto Brian, sentado de pernas cruzadas ao seu lado, acariciava suavemente seus cabelos. Meu anjinho sorriu ao me ver entrar. Beijei sua testa e me aproximei de Edward. Ele tinha olheiras escuras sob os olhos e parecia pálido e seu rosto mostrava uma expressão carregada, como se realmente estivesse com dor ou extremamente cansado. Dei-lhe um beijo suave nos lábios, ele não se mexeu. Brian continuava acariciando seus cabelos.
_ Toma conta do papai pra mim? Eu vou tomar um banho. – pedi sussurrando e ele assentiu com a cabeça.
Entrei no banheiro e me despi tomando um banho quente e rápido. Depois de me trocar, desci com Brian para jantar deixando Edward descansando no quarto. Todos já estavam à mesa quando chegamos e conversavam descontraidamente. Todos, menos Emmett que estava calado demais. Ele parecia alheio a tudo o que era dito à mesa, somente seu corpo estava ali, sua mente voava longe e pela ruga de preocupação que se formara entre seus olhos algo de ruim estava acontecendo.
Depois do jantar subi com Brian para colocá-lo para dormir. Depois de escovar os dentinhos e vestir o pijaminha branco estampado de estrelinhas azuis ele deitou-se na cama e ficou me observando calado.
_ O que foi, anjinho? Por que você está me olhando desse jeito? – eu perguntei intrigada com sua expressão. Parecia que ele queria me perguntar alguma coisa.
_ O papai está doente? – ele perguntou franzindo o cenho.
_ Não, meu amor! Ele só sentiu uma dor de cabeça muito forte, mas ele já tomou um remedinho e agora vai dormir até amanhã de manhã. Quando ele acordar vai estar novinho em folha, você vai ver! – eu disse me deitando ao seu lado e abraçando seu corpinho cheiroso.
Brian sorriu satisfeito e soltou um enorme bocejo coçando os olhinhos que já estavam com as bordas vermelhinhas e inchadas de sono.
_ Soninho, amor? – eu perguntei.
Um segundo bocejo foi a resposta que ele me deu. Brian fechou os olhinhos e não demorou muito já ressonava tranqüilo. Saí do quarto deixando a luz do abajur acesa em baixa intensidade assim que percebi que ele dormia profundamente. Voltei para o quarto onde Edward dormia na mesma posição em que o tinha deixado mais cedo. Ele estava realmente cansado. Enfiei-me debaixo do edredom depois de me trocar e fiquei velando seu sono até que o cansaço também me levasse para o inconsciente.
