Disclaimer I do not own Harry Potter and everything recognisable belongs to J K Rowling. Also this story is inspired by 'A Shattered Prophecy' by Project Dark Overlord.
Disclaimer: Harry Potter não me pertence e tudo que vocês reconhecem pertence a J.K. Rowling. Essa história também é inspirada em "A Shattered Prophecy", do Project Dark Overlord.
Chapter Twenty Nine – Trusting with Secrets
(Confidenciando Segredos)
Ginny e Hermione estavam procurando por Ron e Damien. Era meio-dia de um sábado ensolarado, mas os dois não estavam em lugar algum. Elas tinham verificado no Salão Principal, no campo de quadribol, na sala comunal da Grifinória e até mesmo no dormitório de Damien, mas os dois estavam misteriosamente sumidos.
- Eles estão aprontando alguma – disse Ginny.
- Seja o que for, não deve ser coisa boa – acrescentou Hermione.
Elas se dirigiram ao dormitório de Ron.
- Com esses dois, sempre envolve problema! – Ginny deu uma risada abafada.
Elas abriram a porta e, de fato, Ron e Damien estavam lá, reunidos em torno da mesa do ruivo. Um papel de embrulho marrom rasgado jazia sobre a mesa. Ambos ergueram as cabeças depressa para fitar as duas visitantes inesperadas e Rony imediatamente escondeu algo às suas costas.
- Ei! Vocês não batem! – repreendeu ele.
Ginny arqueou uma sobrancelha.
- E qual é o problema? – perguntou ela.
- Eu poderia estar trocando de roupa! – respondeu Ron.
- Certo! – disse Ginny, estirando a língua. – Acredite, Ron. Se algum dia eu entrasse e me deparasse com você sem roupa, eu arrancaria meus olhos.
Ron corou, mas manteve a mão nas costas, chamando a atenção de Hermione.
- O que você está escondendo? – perguntou ela.
- Não é nada! – responderam os dois garotos.
Ginny e Hermione trocaram um olhar antes de adentrarem o quarto, indo na direção deles.
- O que você tem aí? – perguntou Ginny.
Ron e Damien trocaram olhares, comunicando-se silenciosamente.
- Não tem nada a ver com vocês duas – respondeu Ron.
- Mostre – ordenou Hermione.
Ron fez uma pausa, mas depois balançou a cabeça.
- Não.
Hermione pareceu surpresa.
- Ron? O que deu em você? – perguntou ela. - Por que não vai me contar?
- É segredo – disse Damien.
- Então, por que você está aqui? – perguntou Ginny.
Damien parecia perplexo, sua expressão mostrando a batalha para inventar uma boa mentira.
- É... um... segredo... coisa de... garoto.
Ron gaguejou e se virou para fitar o amigo.
- Quê? – Ele se virou para elas. – Não! Não é nada desse tipo! – protestou.
- Então, o que é? – questionou Ginny. De repente, ela foi até o irmão, correndo em volta dele para ver o que escondia.
- Ginny! Pare com isso! – Ron se moveu, virando-se para que ela não pudesse ver o que era, mas ele acabou dando as costas para Hermione, que puxou depressa o pequeno frasco redondo de sua mão. - Ei! – gritou ele em surpresa.
Hermione leu o rótulo impresso no frasco e depois voltou os olhos arregalados e acusadores para Ron.
- Tinta Inteligente? – perguntou ela. - Ron, o que você está fazendo com tinta autocorretiva?
- Ron! – Ginny suspirou. – Seu trapaceiro...!
- Não é nada disso! – começou o ruivo. – Eu não ia usar. Bem, quero dizer, eu ia usar, mas não nos exames, só nos deveres e outras coisas.
- Assim não estaremos trapaceando! – alegou Damien. – Estão vendo? É legal. Nada demais!
- Ah, eu não penso assim! – Hermione balançou a cabeça. – Ninguém vai usar isso, esse truque sujo e repugnante! - Ela virou-se para a porta, pronta para sair.
- Hermione! Me devolva! – Ron agarrou a mão dela, impedindo-a.
- Não vou devolver! – respondeu ela. – Vou dar fim nisso imediatamente! Não é ético usar tinta autocorretiva no dever de casa!
- Hermione, é minha. Eu vou fazer o que quiser! Agora, me dá isso aqui!
Ron tentou pegar o frasco de tinta de volta, mas Hermione o tirou de seu alcance. O garoto lutou com ela, tentando puxá-lo de sua mão. Ele conseguiu agarrar os dois braços da garota, as costas dela pressionadas contra ele.
Ron! Me solte! – Hermione tentou, mas não conseguiu sair do aperto surpreendentemente forte.
- Damy, pegue! – gritou Ron, já que só conseguia agarrar os pulsos dela, não tirar o pote de sua mão.
- Damien, não se atreva! – advertiu Hermione.
O mais novo foi na direção dela, mas Ginny foi mais rápida. Ela veio por trás de Ron, roubou o frasco da mão de Hermione e disparou, passado por Damien, que imediatamente foi atrás dela.
- Acho que não! – Ginny sorriu quando se abaixou, desviando-se de Damien. Ela alcançou a porta e destampou o tinteiro.
- Gin! Não! – gritou Damien, mas a ruiva se virou e jogou a tinta no ar, diretamente pela porta, esvaziando o frasco.
A garota não tinha como saber que Harry apareceria naquele exato momento, virando a esquina, na direção de seu dormitório. A tinta o atingiu, salpicando espetacularmente em seu peito, manchando a frente de sua camisa.
Todos no quarto congelaram, Hermione ainda nos braços de Ron, a mão de Damien esticada na direção de Ginny.
A ruiva contemplava com horror o que tinha feito. Ela engoliu em seco, aterrorizada, e ergueu os olhos para o rosto de Harry. O rapaz olhou de sua camisa arruinada para Ginny, seus olhos verdes imobilizando-a. Ele parecia completamente furioso.
Ron se moveu tão rápido, que quase jogou Hermione do outro lado do cômodo.
- Tudo bem! Olhe, foi... foi um acidente! Ela não quis fazer isso! O.k.? Foi um acidente. – Ele estava ao lado da irmã em um segundo, dando uma explicação a Harry.
Harry olhou para ele, mas não disse nada. Seu olhar se desviou e recaiu sobre Ginny novamente.
- Eu... – Ginny gaguejou. – Eu... foi... eu não sabia que você estava... eu... – Ela o encarou nos olhos e a mudança neles pegou-a desprevenida. A raiva se fora. Em vez disso, ele parecia estar se divertindo. – Eu... Eu sinto muito... Eu... desculpa – disse ela, olhando para a camisa dele, coberta de tinta azul.
Harry não disse uma palavra sequer, mas foi na direção dela. Ron rapidamente agarrou o braço da irmã, puxando-a para longe dele, e ficou na sua frente.
- Ela não quis fazer isso – disse ele novamente, embora desta vez sua voz tenha tremido um pouco.
Harry sorriu e passou por eles, indo para a cama. Ele passou por Damien e Hermione, ignorando-os completamente. Tirou as vestes, que ele deixara desabotoadas, razão pela qual sua camisa sofreu a maior parte dos danos. Retirou a gravata e começou a desabotoar a camisa suja.
- Eu... hum... – Ginny saiu de trás do irmão, nervosa demais no momento para repreendê-lo por agir de forma protetora. - Se você me der sua camisa, eu vou... eu vou limpá-la – ofereceu. Era o mínimo que podia fazer. Era culpa sua que estivesse manchada.
Harry a encarou, seus olhos encontrando os dela. Ele deu de ombros.
- Tudo bem – concordou.
Ele tirou a camisa, revelando seu peitoral nu, o pingente de prata repousando orgulhosamente em seu peito. O rapaz estendeu a camisa para a ruiva.
Um rubor quente foi subindo pelo rosto de Ginny fazendo suas orelhas queimarem. Queria parar de olhar, mas não conseguia tirar os olhos do garoto à sua frente. A visão surpreendente de seu peito definido, braços musculosos e pele macia tirara seu fôlego. Com imensa dificuldade, a jovem desviou o olhar e o encarou. Ele sorriu de lado, seus olhos brilharam e ela desviou o olhar.
Nervosa, ela olhou ao redor e viu que até Hermione olhava para Harry.
Percebendo que o rapaz ainda estendia a camisa para que ela pegasse, Ginny andou depressa e a pegou.
Harry sorriu de uma maneira que lhe disse que ele sabia exatamente o que ela estava pensando. Ele pegou outra camisa do malão e vestiu. Quando a abotoou, a ruiva deu um suspiro de alívio e lamentou com um gemido silencioso.
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Os treinos de quadribol eram, Harry descobriu, imensamente cansativos e irritantes. Ele odiava. A capitã, Angelina, falava demais, os artilheiros não voavam rápido o suficiente, a goles era derrubada com demasiada frequência, os goleiros eram muito lentos e ele estava extremamente entediado.
O garoto pairou no ar, mais uma vez usando a Nimbus 3000 de Damien. Harry tentara devolver a vassoura ao seu legítimo proprietário, mas o menino insistiu que ficasse com ela. Ele argumentou que era vital o apanhador ter uma vassoura rápida para pegar o pomo.
Harry não conseguia ver a bola dourada em lugar algum, e não se incomodava de procurar também. Viu a equipe começar a arremessar a goles e Ron se esforçar ao máximo para bloquear os três aros em sua extremidade do campo. Observou Damien zunir pelo campo na Cleansweep 500. Mesmo a vassoura sendo velha e claramente desgastada, Damien a conduzia muito bem. Harry sentiu uma sensação esquisita crescer dentro de si com a visão do menino de doze anos. Em seguida percebeu o que era. Estava sentindo orgulho de Damien. Sacudiu-se mentalmente. O que estava acontecendo com ele? Começou a vasculhar a área em busca de qualquer sinal das vibrantes asas douradas do pomo, para não ficar olhando para o irmão.
Do canto do olho, avistou algo vindo até ele. Mal conseguiu sair do caminho quando um balaço veio disparado em sua direção. Virou-se e viu o rosto sorridente de Fred Weasley. O irmão gêmeo, George, voou para seu lado e os dois garotos zombava silenciosamente dele, os bastões de batedores ameaçadoramente em suas mãos. Os irmãos voaram para longe, indo em direções opostas. Eles pairaram no ar, um de cada lado de Harry.
O moreno não era burro, sabia o que eles estavam fazendo. Parecia que os gêmeos Weasley queriam vingança. Afinal, o rapaz os usara para tentar escapar do quartel-general da Ordem. Depois, ele os incriminou pela destruição do Salão Principal, fazendo com que eles ainda estivessem sendo perseguidos pelos demais alunos. Parecia que entrar para o time de quadribol foi a gota d'água para eles.
Harry ouviu o primeiro balaço cortando o ar atrás de si, lançado por Fred. Ele abaixou-se e a bola errou sua cabeça por poucos centímetros. Quase instantaneamente, o segundo balaço veio até ele, desta vez lançado por George. Harry voou para fora do caminho, também desviando desse. George e Fred, estando em extremidades opostas, alcançaram os balaços um do outro e os mandaram de volta para o alvo que estava no meio, Harry. Desta vez, um deles quase pegou o rapaz, roçando seu ombro. Harry atravessou o campo, evitando os balaços que Fred e George continuaram lançando em sua direção.
O moreno girou para fora do caminho, esquivando-se dos ataques. Mas não conseguiu escapar de todos. O balaço de George o atingiu, batendo dolorosamente em suas costas, bem entre as omoplatas. A força do balaço quase o arrancou da vassoura. Ele foi impulsionado para frente, o impacto o fazendo se curvar e deixando uma dor ardente no local afetado.
Harry se endireitou de imediato e quase instantaneamente teve que desviar de outro balaço, que mirava sua cabeça. O som de um apito ecoou ao seu redor, e percebeu que Angelina interrompera o treino. Mas isso não impediu os gêmeos Weasley. Eles continuaram lançando balaços em Harry, que desviava, evitando-os por pouco.
- Ei! O que estão fazendo?! – a voz irritada de Damien chegou até Harry, e ele viu o menino voando em direção a Fred, enquanto Angelina disparava até George.
Antes que a capitã pudesse alcançá-lo, George enviou um último balaço para Harry.
Harry desviou, evitando a bola. O som de madeira partindo e um grito terrível fez o rapaz girar depressa. Seu coração quase parou. Ginny tinha sido atingida pelo balaço que era para ele. O balaço chocou-se com a vassoura dela, partindo-a em dois pedaços, e jogando a garota no ar.
O grito de Ginny perfurou os ouvidos de Harry e ele reagiu sem pensar. Saiu correndo em sua direção. Uma sensação de déjà vu se apoderou dele, e ele acelerou em direção à ruiva que despencava. Se não a tivesse segurado a tempo, teria sofrido um grave acidente junto com ela, já que não conseguiria interromper o mergulho. Assim que chegou perto o suficiente, ele estendeu a mão e agarrou-a pela cintura, cessando o mergulho imediatamente. A vassoura sacudiu, passando a poucos centímetros do chão.
A ruiva fechou os olhos, uma reação involuntária por ser jogada violentamente para fora da vassoura. Ela não os abriu, nem mesmo quando as mãos a agarraram, puxando-a contra um peitoral forte, um braço protetoramente ao seu redor. Instintivamente, ela jogou os braços ao redor da pessoa, segurando-se nela, por medo de cair. Só então foi que abriu os olhos. Ela ergueu o olhar e encontrou os olhos preocupados de Harry, seus brilhantes olhos verde-esmeralda. Ele olhava para ela, da mesma maneira que fizera há cinco meses.
O coração de Ginny saltou. Não havia nenhuma dúvida agora, Harry era seu herói misterioso. Tinha sido ele que arriscara sua própria vida, por duas vezes agora, para salvá-la. A ruiva fechou os olhos, sem querer olhar para ele. Eles chegaram ao chão e o rapaz desmontou da vassoura, puxando-a para fora também. A garota não percebera o quanto estava tremendo até ter que ficar de pé. Suas pernas tremiam, de modo que caiu no chão.
- Ginny! Ginny!
Seus três irmãos tinham voado para o chão. Jogaram as vassouras de lado e correram até a irmã. Eles a tomaram em seus braços.
- Ah, Merlin! Sinto muito, Gin! Sinto muito! – dizia George repetidamente, quase em pranto.
Damien e Angelina estavam ao lado dela, e a abraçaram assim que os três irmãos a soltaram.
- Ginny! Você está bem?
A ruiva ergueu os olhos para a nova voz e encontrou James Potter de pé à sua frente, seu olhar preocupado fixo nela. Atrás dele, Kingsley e Tonks olhavam para ela também.
- O que vocês estavam fazendo? – perguntou James a George, irritado. – Eu vi vocês, vocês dois! – Ele olhou para Fred. – Por que estavam atacando Harry?
Os gêmeos pareciam profundamente envergonhados. Não ofereceram qualquer explicação, só ficaram lá, de cabeça baixa e com vergonha.
- Sua irmã quase morreu hoje por culpa de vocês! – continuou James. – O que estavam pensando, exatamente?
Ginny percebeu que James e o restante dos aurores tinham visto o que estava acontecendo. Eles tinham que vigiar Harry, então viram o que seus irmãos estavam fazendo com ele, apenas não conseguiram impedir a tempo.
- Cadê Harry? – perguntou Damien, olhando ao redor.
- Eu o vi caminhando para os vestiários – disse Kingsley, acenando com a cabeça na direção.
- Eu vou ver se ele está bem – disse Angelina, e correu para os vestiários. Precisava ter certeza de que seu apanhador não estava ferido, tanto pelo comportamento dos batedores, quanto pelo ousado resgate.
Assim que Angelina estava fora de alcance, Ginny agarrou o braço de Rony.
- Foi... foi ele – gaguejou ela.
- Quê? – perguntou Ron, esfregando seus ombros, tentando fazer a irmã trêmula se acalmar.
- Ele... Ron, foi ele... Harry! Ele me salvou.
- Eu sei Gin, todos nós vimos – disse Ron. - Ele disparou em sua direção. Eu nunca vi ninguém voar tão rápido – disse boquiaberto.
- Não, eu... Eu não estou falando de hoje. – Ginny balançou a cabeça. – Foi Harry. O garoto que me salvou... do telhado, em Hogsmeade. Era ele. Era Harry.
Os Weasley se entreolharam em choque e descrença. James e Damien trocaram um olhar também.
- Gin, você provavelmente teve uma sensação de déjà vu. Quero dizer, você esteve no mesmo tipo de situação, então é natural pensar que as duas pessoas que te salvaram são a mesma. Está tudo bem, Ginny. – Fred tentou consolá-la.
Ginny empurrou suas mãos para longe, olhando feio para ele.
- Estou dizendo! Foi ele! Eu o reconheci na primeira vez que o vi, mas depois de perceber quem ele era, pensei que não fosse possível. Mas agora, a forma que olhou para mim e jeito que ele me segurou... – sua voz falhou ao se lembrar da forma que ele a segurara, de modo protetor, próximo ao seu peito, o braço ao seu redor. Ela se sacudiu mentalmente. - Agora não tenho mais dúvida. Foi ele. Foi Harry que me salvou em Hogsmeade!
- Tudo bem. – Kingsley adiantou-se, erguendo uma mão para silenciá-la. – Não é o lugar ideal para discutir isso. – Ele olhou para o castelo. – Venha.
Todos eles foram para o castelo, dirigindo-se aos aposentos disponibilizados para a estadia dos membros da Ordem em Hogwarts.
Assim que os quatro Weasley, Damien, James, Kingsley e Tonks estavam sentados confortavelmente, James pediu a Ginny para explicar tudo, começando com o ataque em Hogsmeade. Depois de ouvi-la, os três aurores trocaram um olhar silencioso.
- Você tem certeza que o menino estava usando uma máscara prateada? – perguntou-lhe Tonks.
Ginny confirmou com a cabeça.
- Então, com certeza era Harry – disse Kingsley.
- Como podem ter tanta certeza? – perguntou George.
- O Príncipe Negro usava uma máscara prateada – respondeu Kingsley. – Ele a usava sempre que saía. É por isso que ninguém sabe como ele é.
Os cinco adolescentes trocaram olhares surpresos entre si.
- Não posso acreditar! – Ron sacudiu a cabeça. – Foi Harry que salvou Ginny. – Ele franziu a testa. – Mas, eu não entendo. Por que ele a ajudaria? Quero dizer, por que salvá-la quando Comensais da Morte estavam atrás dela?
- Os filhos de Madame Pomfrey! – gritou Damien de repente.
- Como? – perguntou Ron, parecendo confuso.
Damien virou-se para ele, repentinamente animado.
- Harry fez o mesmo com os filhos de Madame Pomfrey! Ele entrou em uma casa em chamas para salvar as vidas deles!
- Ele... quê? – As sobrancelhas de Ron dispararam para cima e a boca se abriu.
- Quando foi que isso aconteceu? – perguntou Ginny.
- Eu... – Damien olhou para o pai. – Eu não sei, mas aconteceu! Minha mãe e meu pai me falaram no dia que me contaram sobre Harry.
- Então, Ginny não é a primeira pessoa que ele salvou dos Comensais da Morte – disse Fred. – Ele faz isso com frequência?
- Não sabemos – respondeu Tonks –, até agora, pensávamos que os filhos de Pomfrey fossem o único caso em que ele se opôs aos Comensais da Morte. – Ela olhou para Ginny. - Mas agora... – A auror parou de falar.
- Isso é bom – disse James. – Temos dois incidentes em que Harry agiu para ajudar os outros. Pode haver mais casos como estes. – Ele olhou para os colegas da Ordem e os aurores. – Precisamos comunicar a Dumbledore.
"E quando chegar a hora, o Ministro Fudge saberá de tudo isso também!" acrescentou silenciosamente. Ele sorriu, não se sentia esperançoso assim há algum tempo.
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Ginny encontrou Harry na ala hospitalar. Ela não tinha ido até lá procurar por ele. Na verdade, tinha sido arrastada por Ron, que insistiu que a enfermeira da escola devia dar uma olhada nela depois do acidente quase fatal. Quando atravessou as portas, o irmão a guiando firmemente para dentro, os dois pararam de andar.
Harry estava sentado em uma das camas, sem camisa, enquanto Madame Pomfrey examinava suas costas. A enfermeira da escola dava muxoxos altos enquanto acenava a varinha sobre as profundas marcas vermelhas e aparentemente dolorosas entre as omoplatas do rapaz.
- Eu trato mais lesões relacionadas a quadribol que qualquer outra coisa! – dizia ela a Harry. - Eles deveriam proibir esse esporte de vez!
Harry riu.
- Como você ganharia a vida, então? – perguntou ele.
- Eu viveria uma vida mais tranquila! – respondeu a enfermeira.
- Mais tranquila? – Harry se virou para fitá-la. - Eu sou seu único paciente! – Ele gesticulou para a enfermaria vazia. – Toda vez que eu venho aqui, o que é muito frequente, você está sozinha.
Poppy estendeu a mão e passou-a pelo cabelo de Harry carinhosamente.
- Isso me lembra… e as dores de cabeça? Teve mais alguma?
Harry estava prestes a responder quando avistou os ruivos atrás de Poppy. Seu comportamento mudou instantaneamente. O sorriso brincalhão desapareceu. Ele olhou para a enfermeira, inclinando silenciosamente a cabeça na direção da porta.
Ela se virou para os dois Weasley, seus olhos penetrantes disparavam rapidamente de um para o outro, tentando ver qual deles estava necessitando de cuidados médicos.
- Entrem e se sentem – disse ela, acenando para Ginny e Ron. - Eu atendo vocês em um minuto.
Ela retornou para Harry, mas o menino já havia saltado de pé e vestia a camisa.
- Harry...?
- Está tudo bem – respondeu ele, seu humor notadamente mais sombrio. – Eu já vou.
Poppy ergueu a mão, impedindo-o.
- Eu não terminar seu tratamento – disse ela.
- É só uma contusão – argumentou o rapaz. Ele se afastou antes que Poppy pudesse responder. O moreno estava quase na porta quando Ginny gritou por ele.
- Espere, por favor.
Harry parou.
Ginny se afastou de Ron e caminhou até ele. Ela não sabia o que lhe dizer, não sabia sequer como começar. Passara meses procurando por ele, para agradecer por ter salvado sua vida. E nos últimos dois meses ele estivera ali, e ela não tinha feito nada a não ser desprezá-lo.
- Por que você não disse nada? – perguntou Ginny em voz baixa.
Harry olhou para ela, sustentando seu olhar.
- Qual era o sentido disso?
Os olhos da ruiva se arregalaram.
- O sentido? – repetiu. - O sentido é que você salvou a minha vida! Eu queria lhe agradecer.
Harry sorriu de lado para ela.
- Isso parece completamente inapropriado – disse ele. – Talvez você devesse me lançar outro insulto. Se isso não funcionar, é sempre possível atirar tinta em mim.
Ginny baixou o olhar, suas bochechas ruborizadas de vergonha.
- Eu já me sinto suficientemente culpada, Harry – disse ela. – Você me ajudou, mesmo sem saber quem eu era. – Ela olhou para ele. – E hoje, mesmo depois da maneira que Fred e George te trataram, você ainda assim me ajudou.
Harry bufou.
- Eu não sou como você – disse ele. - Eu não coloco todo mundo no mesmo saco. Seus irmãos idiotas terão o que lhes aguarda – ameaçou. – Mas por que eu deveria descontar a raiva deles em você?
Ginny sentiu o coração saltar várias vezes. Não queria o Príncipe Negro atrás de seus irmãos. Por mais tolos que fossem, não suportava pensar neles se machucando.
- Fred e George são idiotas – disse ela depressa. – Eles estão se sentindo tão mal agora...
- Não é nem a metade do que vão sentir – interrompeu Harry.
Ginny vacilou.
A porta diante deles se abriu de repente, quase atingindo Harry. James entrou correndo, felizmente parando antes de esbarrar no rapaz.
- Harry! – ele arfou. – Estive te procurando em todos os lugares! Você está bem?
Harry olhou feio para ele.
- Por que? – perguntou.
- Eu queria ter certeza de que você estava bem – explicou James. - Vi o balaço te acertar. – Ele olhou para Harry com preocupação nos olhos.
Harry, por sua vez, lançou-lhe um olhar frio.
- Ainda respirando – respondeu e passou por ele, saindo da ala hospitalar, deixando James e Ginny para trás.
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Harry saiu pelo buraco do retrato, mais tarde do que o habitual naquela manhã. Quase todos já tinham ido para o café.
- Bom dia, Harry!
O jovem, como de costume, ignorou James e continuou andando pelo corredor.
- Uau, você certamente sabe como ignorar alguém – disse James, caminhando ao seu lado. – Nunca vi ninguém aguentar por tanto tempo! Você é bom nisso! – Ele riu.
Harry continuou sem dizer nada. O homem suspirou, o sorriso forçado escorregando por seu rosto. Apressou o passo e de repente ficou na frente do filho, bloqueando-o.
- Tudo bem, que tal uma trégua? – sugeriu. – Vamos começar de novo.
Harry o contornou e continuou em direção à escadaria principal. James seguiu atrás dele.
- Vamos lá, Harry! – implorou. - Quanto tempo você vai ficar me evitando? – perguntou.
Ainda sem resposta.
- Nunca se sabe, se você me der uma chance, pode descobrir que gosta de mim! – brincou James.
Harry virou-se para encará-lo, mas, ainda assim, não respondeu.
- Tudo bem, tudo bem. – James fingiu admitir a derrota. – Me evite o quanto quiser. Isso não muda nada. Eu ainda serei seu pai e você será meu filho, quer você goste ou não.
Finalmente, ele conseguiu uma reação.
Harry parou de andar e virou-se para James.
- Eu não sou seu filho! – vociferou.
James sorriu.
- Ei, eu te fiz falar! – ele riu.
Harry olhou feio para ele e virou-se novamente para prosseguir.
- Ah, vamos lá, Harry! – James correu para alcançá-lo. – Olhe, eu sei que ainda está com raiva, mas você tem que admitir que está ficando um pouco excessivo agora. Você tem estado comigo por, sei lá, dois meses, e ainda fica irritado quando eu digo que é meu filho.
- Porque eu não sou seu filho! – sussurrou o rapaz novamente.
- Pode negar o quanto quiser – respondeu James. – Mas não pode esconder a verdade. Tudo que precisa fazer é olhar no espelho para ver que é meu filho. Você é igualzinho a mim.
Harry parou subitamente e virou-se para James.
- Eu não sou nada parecido como você! – opôs-se veementemente.
- É sim; seu rosto, seu cabelo, até mesmo sua raiva é como a minha. – James sorriu. - É realmente muito surpreendente quão parecidos nós somos.
Harry parecia lívido.
- Semelhanças físicas são uma coisa – disse ele –, mas como pessoa eu não sou como você!
- Como é que sabe? – perguntou James. - Você não me deu nem uma chance. Primeiro me conheça, então você pode decidir se gosta de mim ou não.
O olhar de Harry pousou sobre James.
- Conhecer você? – perguntou o rapaz.
- Sim - James assentiu. - Não me evite, Harry. Somos uma família, pelo menos, tente conosco.
Harry não disse nada, mas se virou para ir embora. James se recusou a deixá-lo ir. Tinha conseguido fazê-lo falar com ele, depois de semanas tentando. Não ia desistir agora.
- Vamos começar devagar, o.k.? Que tal... que tal chegarmos a um acordo? – perguntou, caminhando ao lado dele novamente. - Você me dá alguma coisa e eu te dou algo em troca.
Harry não parou, mas desacelerou.
- Como o quê? – perguntou.
- Que tal você me dar uma chance. – Ele estendeu a mão e segurou o braço de Harry, parando-o. - Se você passar uma noite comigo e com Lily, só uma, em troca eu te deixo ter um dia inteiro só para você.
Harry olhou intrigado.
- O que você quer dizer? – indagou.
- Eu não vou segui-lo – disse James. - Você pode ter um dia para si mesmo, sem eu estar em seus calcanhares, mas para isso, você tem que jantar comigo e com Lily.
Harry o avaliou, parecendo tentar entendê-lo.
- Só uma refeição? – perguntou ele.
- Só uma – respondeu James, sentindo o coração pular de esperança.
Harry estava ponderando, o auror podia ver em seus olhos apertados e expressão pensativa.
- E em troca você vai me deixar em paz por um total de 24 horas? – confirmou.
- Completamente sozinho e sem supervisão. – James assentiu.
Os Aurores ainda o estariam observando de longe, James sabia que Harry estava ciente disso. Eles estavam falando sobre sua guarda pessoal.
- Quantos pratos? – perguntou Harry.
- Três – respondeu James imediatamente.
- De jeito nenhum. – Harry balançou a cabeça. – Só um.
- Que tal dois? – sugeriu James.
Harry considerou e, em seguida, balançou a cabeça lentamente.
- O.k., dois pratos, mas não pode demorar mais que uma hora.
James assentiu, incapaz de conter o largo sorriso que se espalhou em seus lábios.
- Combinado! – respondeu.
Harry assentiu.
- Está bem.
James estava sorrindo tanto, que estava doendo.
- Quando você quer que seja? – perguntou o auror ansiosamente.
Harry deu de ombros.
- Assim que possível – respondeu.
- O.k., que tal... amanhã à noite? – perguntou James.
Harry concordou com a cabeça.
- O.K., legal
- Por volta das seis? – perguntou James.
Harry balançou a cabeça.
- Na verdade, poderia ser mais tarde? Eu nunca estou com fome tão cedo. Marque por volta das... nove.
- Nove? É um pouco tarde. – James fez uma careta.
- Tudo bem, esqueça, então. – Harry se virou para sair.
- Não, não, está bem. Nove está bom. – James rapidamente concordou.
Harry se virou e sorriu para ele.
- O.K., legal.
Foi a primeira vez que James o vira sorrir e adorou a visão.
- O.K... bom. – James não sabia mais o que dizer.
Harry virou-se para ir ao Salão Principal tomar café da manhã. James o seguiu, ostentando um sorriso que ia de orelha a orelha.
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- Você acha que eu deveria ter feito torta de amora em vez de torta de maçã? – perguntou Lily ao examinar os pratos sobre a mesa.
- Acho que sua torta é perfeita – respondeu James, arrumando os pratos sobre a mesa. - Você acha que Harry deve se sentar à nossa frente ou do mesmo lado que a gente? – perguntou ele.
- Ao nosso lado – respondeu Lily. - Entre nós dois. – Então, ela parou para pensar e balançou a cabeça. - Não, em frente seria melhor, para conversar.
- Foi o que pensei – disse James, mudando a posição dos pratos.
Lily tornou a lançar um olhar crítico sobre os pratos. Ela tinha passado a maior parte do dia cozinhando nas cozinhas de Hogwarts, enquanto os elfos domésticos ficavam olhando, torcendo as orelhas em aflição e implorando que ela os deixasse cozinhar. Mas Lily não deixou. Era a primeira vez em quinze anos que seu filho se sentaria com eles para jantar. A ruiva queria fazer tudo sozinha.
- Espero que as tortas de caramelo tenham ficado boas – disse ela, mordendo o lábio ao estudar a sobremesa. - Harry gosta delas, então quero que fiquem boas.
- Como sabe que Harry gosta delas? – perguntou James.
- Eu o vejo no jantar. Ele sempre pega uma quando são servidas – respondeu Lily, trocando a prato de batatas assadas com o de frango, e dando um passo para trás para examinar a mesa.
James riu, arrumando os talheres ao lado dos pratos.
- Anda o espionando? – brincou ele.
- Como se você não fizesse o mesmo! – respondeu ela.
James deu de ombros, já que não podia se opor à declaração. Quando Harry estava no Salão Principal, o auror só conseguia olhar para ele. Nunca era intencional, mas seus olhos pareciam procurá-lo e passava as refeições apenas olhando para o filho de dezesseis anos, uma parte dele ainda sem acreditar que Harry estava vivo e bem.
- E aí, como está? – perguntou Lily, dando um passo para trás e olhando para a mesa.
Havia doze pratos alinhados ao longo da mesa. James balançou a cabeça com a visão.
- Harry disse que ficaria no máximo uma hora - ele lhe lembrou.
- Eu sei, eu sei – disse ela. – Eu me empolguei.
- Posso ver! – James sorriu. – Frango assado e costeletas de cordeiro?
- Eu não conseguia decidir! – explicou.
James riu, colocando os braços em torno da esposa, abraçando-a.
- Estou animado também – admitiu.
- Eu só quero que tudo seja perfeito hoje à noite – disse Lily. - É a primeira vez que Harry nos dá a oportunidade de nos sentarmos com ele. Se hoje ocorrer tudo bem, será o primeiro passo para a reconstrução de nosso relacionamento.
James sorriu e beijou-a no rosto.
- Vamos dar pequenos passos de cada vez – sugeriu ele. – Eu estava pensando sobre assuntos para abordar com ele. - Lily virou-se, ficando em frente ao marido. – Obviamente, alguns assuntos estão fora de questão...
- Como Voldemort ou Comensais da Morte – concordou ela.
James fez uma pausa.
- Eu estava me referindo ao tempo e à escola.
Lily olhou severa para ele.
- James!
- Quê? Eu não quero falar sobre coisas chatas e mundanas – defendeu-se. – Então, eu estava pensando em começarmos com se ele está gostando dos treinos de quadribol...
- Certo, porque isso não é mundano nem chato? – ela interrompeu.
James suspirou.
- Tudo bem, vamos abrir com outro assunto e, em seguida, entramos no quadribol...
- Sem quadribol! – disse Lily severamente a ele. – Eu quero conversar com meu filho, não ouvir você divagar sobre quadribol, sobre voar, sobre pomos e sabe Deus mais o quê!
- Tudo bem, você sugere algum assunto, então? – desafiou James.
Lily sorriu.
- Que tal, qual é seu livro favorito? Ou o que ele gosta de fazer nas horas de lazer? Quais são seus hobbies? Qual é o seu prato favorito? Qual é a sua cor favorita? – Ela ergueu os olhos e viu o esposo a olhando com uma expressão de tristeza. – Eu quero saber tudo sobre Harry. Eu quero me atualizar, aprender tudo o que há para aprender sobre o meu filho.
James assentiu, estendendo a mão para arrumar os óculos.
- Eu gosto mais da sua ideia – admitiu.
Lily sorriu novamente. Ela virou-se para dar uma última olhada na mesa. Satisfeita por estar colocada o mais perfeitamente possível, ela se virou para olhar para o relógio. Eram nove horas e dois minutos.
- Ele vai chegar aqui a qualquer minuto! – disse ela entusiasmada.
James sorriu também, incapaz de se conter.
- Finalmente! Estou morrendo de fome! – Ele caminhou até sua cadeira e sentou-se, olhando avidamente para a comida.
- É por isso que Damien não se juntou à gente – disse Lily, sentando-se ao lado dele. – Nove da noite é muito tarde para ele comer.
- Provavelmente seja melhor ser apenas nós e Harry – disse James –, de início, pelo menos. Quando Harry se acostumar com a gente, então podemos ter uma família de verdade reunida.
Lily sorriu com o pensamento.
- Sim, eu gosto de como isso soa! – ela riu.
Ela olhou para a porta, esperando a batida que estava prestes a acontecer a qualquer segundo.
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Nove e quinze, e ainda não havia sinal de Harry. Lily olhou da porta para o relógio. Seus olhos encontraram os de James e ela sorriu levemente para ele.
- Ele virá – disse ela, pelo que devia ser a décima vez no espaço de quinze minutos.
- Eu vou ver o que o está atrasando. – James se levantou da cadeira.
- Não. – Lily o impediu depressa. - Se ele disse que vem, deixe-o vir – disse ela. – Além disso, só se passaram quinze minutos. Ele provavelmente está se sentindo um pouco ansioso de nos encontrar. Dê um tempo a ele. Ele virá.
James sentou-se e continuou a esperar, observando calmamente a esposa.
Nove e meia e Harry ainda não tinha aparecido.
Quinze para as dez.
Dez e cinco.
James olhou para o relógio e então olhou para a mesa, para os pratos de comida que agora estavam frios. Seu apetite acabara, já não estava com fome. A decepção pesava na boca do estômago em vez disso. Ele olhou para a esposa, que tinha os olhos fixos na porta, ainda esperançosa de que Harry viria. Ele fechou os olhos.
Dez e meia foi quando a paciência de James finalmente acabou. Ele levantou-se da mesa com raiva e saiu pela porta, ignorando os chamados de Lily para que ficasse. Ele saiu correndo dos aposentos, subiu as escadas e passou por Tonks, que estava vigiando as portas de entrada com Moody.
- James? – chamou ela. – O que houve?
- Nada! – retrucou ele, subindo dois degraus de uma vez.
Ele correu para a torre da Grifinória, vociferando a senha para o retrato da Mulher Gorda. O auror disparou para dentro e viu que a sala comunal estava deserta, exceto por um garoto de cabelos bagunçados sentado confortavelmente em uma poltrona, ao lado do fogo baixo.
Harry ergueu o olhar quando a porta se abriu e encontrou os olhos de James. Ele sorriu para o auror, largando a pena sobre o pergaminho em seu colo.
- Potter? Qual é o problema? – perguntou ele inocentemente. – Você não parece bem. Pulou alguma refeição?
James disparou até Harry, ficando diante dele.
- Eu pensei que tivéssemos um acordo! – rosnou.
- Você acreditou mesmo em mim? – indagou o rapaz, sorrindo. – Cara, você é estúpido.
As mãos de James se fecharam em punhos.
- Por que você mentiu? – perguntou. - Você poderia ter simplesmente dito não, se você queria jantar com a gente! Por que fingiu? – indagou, incapaz de afastar a mágoa de sua voz.
Harry afastou a lição de casa de seu colo e se levantou, encarando o olhar furioso de James com seus calmos olhos verdes.
- Eu ia dizer não – respondeu –, mas, então, pensei sobre o que você tinha dito momentos antes. Sobre como eu era parecido com você. Meu cabelo, meu rosto, até meu temperamento era como o seu. – O jovem sorriu. – Então eu pensei, por que não? Eu posso ser como você. Eu posso ser um mentiroso, um falso - seus olhos endureceram –, eu também posso fingir.
James sentiu sua determinação romper.
- O que diabos há de errado com você? – perguntou ele. – Por que está tão empenhado em tornar isso tão malditamente difícil!?
- Porque eu não quero ficar aqui! – rosnou Harry para ele. – Eu não quero ficar com você! Então, por que está me forçando?
- Porque você é meu filho! – trovejou James. – Meu filho! Seu lugar é aqui! Comigo e com Lily!
- Meu lugar é com o meu pai! – sibilou Harry.
James deu um passo adiante, as mãos fechadas com tanta força que suas unhas afundavam em sua pele.
- Se disser isso mais uma vez, que Deus me ajude...!
- O que vai fazer? – perguntou Harry. – Me bater? Vá em frente! – desafiou. – Eu não tenho medo de você, não mais.
James parou mortificado, seus olhos se arregalaram e seus punhos se desenrolaram. Ele olhou para Harry.
- O que quer dizer? – perguntou o mais velho, sua voz quase um sussurro. – Não mais? Quando... quando foi que teve medo de mim?
- O que você acha? – perguntou o rapaz friamente, seus olhos brilhando com uma raiva tão pura que causou calafrios em James.
- Eu não sei do que você está falando - disse o pai, balançando a cabeça. – Harry, o que...?
Passos barulhentos vieram da escada e, de repente, dois rapazes apareceram nos degraus que levavam aos dormitórios masculinos.
- O que está acontecendo aqui? – perguntou um setimanista sonolento.
- O que são todos esses gritos? – perguntou o segundo rapaz, irritado.
James de repente percebeu onde estavam e quão tolo tinha sido, falando sobre isso na sala comunal, onde toda a Grifinória poderia escutá-los. Ele olhou para os dois garotos.
- Desculpa, não percebi que estava falando tão alto – disse ele, conseguindo soar um tanto calmo. – Desculpe por acordá-los.
Os meninos se viraram para ir embora, resmungando infelizes sobre pessoas sem noção e sono arruinado. James olhou para Harry, mas ele já tinha agarrado a mochila e o dever de casa. Com um último olhar mordaz para o auror, ele saiu da sala comunal, dirigindo-se ao dormitório.
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Desde o treino desastroso, os quatro Weasley estavam se comportando muito bem com Harry. Os gêmeos e Ron tinham até tentado se desculpar com o rapaz, que ignorou. Não os deixaria escapar tão fácil. Sabia a irmã devia ter advertido os gêmeos sobre sua promessa de vingança e lhe empolgava ver os olhares desconfiados de Fred e George. Faria com que pagassem, mas ainda não. Era divertido o quanto conseguia deixá-los perturbados, esperando por um ataque que jamais viria.
Quanto a Ginny, ela fazia um esforço consciente para cumprimentá-lo sempre que se cruzavam. O rapaz ignorou, assim como fez com os demais.
James Potter tornou-se um novo tipo de pesadelo para Harry. Ele continuou tentando falar com o filho, perguntando repetidamente sobre a conversa daquela noite. Isso frustrou muito Harry, mas ele retomara seu plano de ignorar o outro, então não respondia a nada que perguntasse.
Mas dois dias antes do grande jogo entre Grifinória e Sonserina, aconteceu algo que tirou James e tudo o mais da mente de Harry. Ele tinha problemas maiores.
Tudo começou com uma dor chata logo após o jantar. Sua cicatriz continuou a formigar durante o treino, mas Harry a bloqueou. Enquanto voltava à sala comunal naquela noite, a cicatriz começou a queimar.
O jovem fez uma pausa, achando melhor ir ver Poppy. Não tinha nenhuma poção para aliviar a dor e sabia que precisaria de algumas muito em breve.
- Harry? Onde você vai? – perguntou Damien, vendo o irmão se virar para seguir na outra direção.
- Eu estarei lá... num minuto... – conseguiu dizer, mas a voz denunciou sua dor.
O queimor piorou progressivamente. Sua visão ficou turva, fazendo-o tropeçar.
- Harry? – Damien foi em sua direção, preocupado.
O rapaz gemeu quando sua cicatriz repentinamente queimou com a dor, que intensificou rapidamente. Sua mão subiu para agarrar a testa, assim que suas pernas cederam e ele caiu de joelhos.
- Harry! – gritou Damien e correu na direção dele. Ron correu atrás.
Harry grunhiu de dor, os dedos cravando na testa. Podia ouvir a voz em pânico de Damien, perguntando-lhe o que estava acontecendo, mas não conseguia responder. Sua mandíbula estava cerrada no esforço para lidar com a dor. Em seguida, ele sentiu o gotejamento lento escorrer de uma de suas narinas. Harry baixou a cabeça, a testa tocando o chão frio, e abafou todos os sons de agonia. Não queria que Ron ou Damien vissem seu nariz sangrando, sabia que não manteriam segredo sobre o assunto.
Mas os dois garotos já estavam alarmados o suficiente. Damien tentou, mas não conseguiu fazer o irmão se levantar, ele entrou em pânico e se virou para o ruivo.
- Ron! Vá chamar meu pai!
- Não! – Harry se levantou. Sua mão agarrou o braço de Damien. - Não o chame!
- Ah, Deus! – Damien engasgou ao ver o irmão; pálido e tremendo, sangue saindo de seu nariz, manchando seus lábios. – O que está acontecendo com você? – gritou.
Ron estava de pé diante dos dois irmãos, sem saber o que fazer.
Harry se levantou, lutando para ficar em pé. Sua visão escureceu e ele temia desmaiar a qualquer momento.
- Poppy! – conseguiu dizer, uma mão apertando a cicatriz. - Eu preciso de... Poppy!
Damien agarrou o braço livre dele, colocando-o por cima de seu ombro para ajudar a apoiá-lo.
- A ala hospitalar parece uma boa ideia, companheiro – disse Ron para Damien, olhando para Harry com os olhos arregalados e preocupados.
Damien rumou para a enfermaria com o irmão o mais rápido possível.
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Poppy afastou os fios de cabelo escuros da testa úmida, acariciando a pele suavemente. Ela assimilou a cicatriz vermelha e irritada em forma de um raio. A enfermeira esfregou o bálsamo refrescante sobre ela, sentindo o calor sob seus dedos. Baixou o olhar e encarou os olhos verdes que a observavam. Ela sorriu.
- Está melhor? – perguntou a mulher.
Harry assentiu, girando o frasco vazio de poção para dor em seus dedos.
- Sim – acrescentou ele em voz baixa. – Obrigado.
Poppy sentou diante dele, seus olhos cansados fixos no garoto.
- Com que frequência as hemorragias nasais ocorrem? – indagou.
Harry se remexeu, sem encará-la.
- A primeira vez foi hoje.
- Não minta, Harry. – Poppy o repreendeu.
Harry ergueu os olhos para ela.
- Por que acha que eu estou mentindo?
Poppy sorriu.
- Sou enfermeira que cuida de crianças há quase duas décadas – ela balançou a cabeça –, eu sei quando estou sendo enganada.
Harry desviou o olhar, mas não respondeu.
- As hemorragias acontecem toda vez que tem uma dor de cabeça? – perguntou Poppy.
Harry balançou a cabeça.
- Não, só quando a dor é extrema.
- Entendo – respondeu ela. – Com que frequência isso acontece?
- Não o bastante para que seja preocupante – respondeu o garoto.
- Você não deveria estar tendo nenhuma hemorragia nasal, Harry – disse a enfermeira. – É preocupante o suficiente que isso ocorra, ainda mais com dores de cabeça. – Ela respirou, preparando-se. – Essas dores de cabeça, elas têm conexão com essa cicatriz em sua testa?
Harry olhou para ela, mas não respondeu. Por um longo momento, ninguém falou. Então, com um suspiro, ele sacudiu as pernas para fora da cama e se levantou.
- É melhor eu ir. Damien ainda está esperando por mim lá fora. – Ele não a olhou nos olhos. - Obrigado por isso. – O jovem ergueu o frasco da poção.
- Sente-se, Harry – ordenou Poppy. – Eu ainda não terminei.
- Sim, terminou.
A resposta seca do rapaz pegou-a de surpresa. Ele sempre foi educado com ela.
- Por que você não fala comigo? – insistiu ela mesmo assim.
Harry começou a caminhar para a porta.
- Te vejo mais tarde – disse ele, ignorando sua pergunta.
- Harry. – Poppy se levantou. – Por favor, espere.
Harry parou.
Poppy correu até ele.
- Eu só estou tentando ajudá-lo – disse ela. - Mas como posso te ajudar se você não deixar?
Harry lhe lançou um sorriso tenso.
- Eu não preciso de ajuda, sério, estou bem.
Poppy arqueou uma sobrancelha, seu temperamento explosivo saindo de seu controle.
- É mesmo? Então, você sabe por que está tendo hemorragias nasais junto com dores de cabeça? Você sabe do que está sofrendo? Qual é o tratamento? – Sua voz tornou-se mais afiada a cada pergunta. – Porque eu vou te dizer uma coisa, Harry. Tomar poções para aliviar a dor e passar bálsamo refrescante em sua cicatriz não é a maneira de tratar isso! Isso só cuida dos sintomas, não da causa!
Harry encontrou seu olhar irritado de cabeça erguida.
- Eu não preciso de um sermão, está bem? – disse ele. - Eu sei o que é, eu sei como lidar com isso, então me deixe em paz.
Ele a contornou para sair.
- É uma cicatriz produzida por feitiços, não é? – indagou-lhe Poppy.
Harry parou com a mão na maçaneta da porta. Lentamente, ele se virou para encará-la, seus olhos em chamas.
- Não é de dores de cabeça que você sofre – continuou Poppy –, é a cicatriz que lhe causa dor, estou certa?
Harry não respondeu, mas só sua expressão disse à mulher que seu palpite estava certo.
- Não pode provar isso – disse ele de repente. - Cicatrizes produzidas por feitiços são raras e não se sabe quase nada sobre elas, e mesmo que você conte a ele sobre isso, ele não pode...!
- Espere, espere! – Poppy ergueu a mão, olhando confusa para o rapaz. - Do que está falando? Conte a quem?
- Dumbledore! – Harry cuspiu o nome com veneno.
Poppy piscou para ele.
- Por que eu envolveria o diretor nisso? – perguntou ela.
- Você não vai contar a ele? – indagou Harry, seu tom sugerindo uma pergunta retórica.
Poppy balbuciou, indignada.
- Eu não faria uma coisa dessas! – negou de imediato. – Como ousa sequer sugerir que eu divulgaria informações médicas confidenciais?! A única pessoa com quem vou falar sobre isso é você.
Harry pareceu surpreso, mas não completamente convencido.
- Então, você não vai sair correndo até Dumbledore para contar sobre minha cicatriz? – questionou ele.
- Claro que não! – respondeu Poppy, irritada. – Por que eu faria isso?
- Para que ele use isso contra mim – respondeu o garoto.
Poppy cerrou os olhos para ele.
- Caso você não tenha notado, eu não tenho nenhum interesse em usar você! – respondeu exaltada.
- Então, você é a única.
Poppy parou, sua raiva a abandonando completamente. Agora entendia a reação dele, e viu-se ficando irritada com o diretor. O bruxo não conseguira mostrar a Harry razão alguma para confiar nele.
- Mesmo que eu não fosse curandeira e eu não estivesse obrigada por minha profissão a não discutir qualquer histórico clínico dos meus pacientes, eu não repetiria nada do que você me disse – disse Poppy calmamente.
Harry olhou para ela e um pequeno sorriso finalmente abriu caminho.
Poppy o levou de volta para a cama e os dois se sentaram.
- Então, essa cicatriz – ela apontou para a testa dele –, foi feita em você por... por Você-Sabe-Quem?
Harry fez uma pausa, parecendo ainda nervoso em discutir seu segredo. Ele olhou para Poppy e balançou a cabeça lentamente.
- Sim.
Poppy assentiu com firmeza, o rosto empalideceu um pouco, mas ela tentou agir com calma.
- Quando foi que começou a doer? – perguntou.
Harry sorriu, erguendo a mão para traçar a cicatriz com os dedos.
- Desde que consigo me recordar – respondeu o rapaz. - A maior parte dos dias é só uma dor chata, não me incomoda.
- Você sabe por que a dor piora? – indagou a enfermeira.
Harry afastou as mãos da testa.
- Tem algo a ver com como meu pai está se sentindo – confidenciou. - Se ele estiver muito zangado ou chateado, ou mesmo se ele estiver muito feliz, faz minha cicatriz dar trabalho.
Poppy parecia intrigada e assustada ao mesmo tempo.
- Consegue descrever a dor para mim?
Harry levou um instante para pensar.
- É intensa – admitiu. – Inicialmente, ela começa como uma espécie de queimação. Normalmente, só fica assim durante alguns minutos, e em seguida torna a ser uma dor chata. – Ele se remexeu na cama. – Mas se meu pai estiver muito irritado, a queimação começa a ficar pior. A dor é como... como um desconforto, só que mais forte. – Ele olhou para a mulher, para ver se ela entendia o que ele queria dizer. Ela assentiu, parecendo muito preocupada. Harry prosseguiu. – Então, ela meio que explode e a dor fica aguda. Só aconteceu algumas vezes, mas quando acontece, parece que minha cabeça está prestes a rachar.
Poppy manteve a calma e fez a próxima pergunta, a que mais a preocupava.
- Quando foi que as hemorragias nasais começaram?
- Muito recentemente – respondeu ele. – Aconteceu pela primeira vez quando fui capturado e levado ao quartel-general da Ordem.
- Nunca aconteceu antes disso?
- Não.
Poppy o encarou, estudando-o atentamente.
- Quantas vezes teve hemorragias desde então?
- Algumas vezes – respondeu Harry.
Poppy balançou a cabeça.
- Isso não me agrada, Harry – disse ela com honestidade. – Como você disse, cicatrizes produzidas por feitiços são raras e praticamente não há nenhuma informação sobre elas. É amplamente aceito que às vezes elas doem, mas não devia estar causando hemorragias nasais e dor tão extrema.
Harry deu de ombros.
- Não há muito a ser feito – disse ele.
Poppy não parecia contente. Ela sentou-se, ponderando tudo que Harry lhe dissera em sua mente. Quanto mais pensava sobre aquilo, mais preocupada ficava.
- Eu vou pesquisar – prometeu ao garoto. - Vou ver se consigo descobrir por que sua cicatriz está agindo desta forma. Talvez haja uma maneira de fazê-la parar de doer.
Harry olhou-a com desconfiada.
- Você pode fazer o que quiser, desde que não conte a ninguém.
- Eu não vou repetir! – disse Poppy. - Eu já te disse que eu não vou contar. Porém, você tem que me procurar imediatamente se sua cicatriz doer. Eu não quero você tentando lidar com ela. – Ela fez uma careta para mostrar o que pensava dessa ideia.
- Está bem, eu vou te procurar. – Harry riu.
- Estou falando sério, Harry. Se eu descobrir que você está sofrendo em silêncio...!
- Você vai fazer o quê, exatamente? – O jovem sorriu de forma marota.
Poppy estreitou os olhos
- Você não vai querer saber.
Harry riu.
Do lado de fora da enfermaria, James estava com o coração batendo freneticamente. Ele ouvira tudo que Harry dissera a Poppy. Tinha corrido às pressas para a ala hospitalar quando Ron o encontrou e lhe contou sobre Harry ter adoecido de repente. Chegou e encontrou Damien esperando do lado de fora. Mandou o filho mais novo embora e ia entrar na enfermaria quando ouviu a discussão furiosa entre Harry e a enfermeira da escola. Ficou ouvindo, com a intenção de entrar assim que a conversa se acalmasse. Mas, em vez disso, ouviu cada palavra que Harry e Poppy trocaram.
Ele se virou e começou a se dirigir ao escritório do diretor. Dumbledore saberia sobre cicatrizes produzidas por feitiços e como fazê-las parar de doer. James tinha certeza disso.
N/T:
Liza: Oi, Liza! Então, não sei se você já leu a original, mas por seu posicionamento eu suponho que não. Será mesmo amor? Beijos e obrigada por comentar.
