Capítulo XXIX – Duas moças

Depois da janta, Sakura e Tomoyo conversam no quanto a respeito do ato na catedral...

Uma menarca só ocorre uma vez na vida. Da mesma forma um primeiro beijo e uma confissão de amor também. Tudo o mais que viria de agora em diante seria uma primeira vez, como cada dia é um dia diferente do anterior, cada etapa de um relacionamento é como se fosse uma primeira vez, uma eterna primeira vez, a cada dia, cada hora, a cada olhar, a cada gesto. Depois desse acontecimento, as duas se banharam, vestiram quimonos novos e foram jantar. Sonomi se sentia tão orgulhosa pela filha e por Sakura, que nessa altura do campeonato praticamente era uma filha ou uma sobrinha que nunca teve, e, por um instante, não teve ódio de Fujitaka. Se não fosse por Fujitaka os seus dois orgulhos seriam pela metade ou até mesmo não existiria! … quem sabe.

As três estavam na sala de jantar. Sonomi deu ordens para os empregados não interromperem de forma alguma a conversa das três, nem mesmo se for telefonema da empresa, pelo menos naquela hora, naquele momento, ela os retornaria depois. Os empregados trouxeram a comida e se retiraram:

– Itadakimasu!

– Ufa! Finalmente eu posso ter um tempo só com e pra vocês Sakura-chan, Tomoyo minha filha; afinal eu sou a presidente de uma grande empresa, mas eu, pelo menos, como mãe tenho que ter um tempo para as minhas filhotas, participar das etapas de crescimento delas…

– Arigatou Sonomi-san, obrigado por me fazer parte da família também…

– Tudo bem Sakura-chan, você de qualquer forma já é parte da família mesmo, não preciso nem citar a sua mãe aqui, só do fato de a sua amizade por Tomoyo ser uma coisa tão bonita de se ver você é digna de se sentar a mesa, como parte dela – Sonomi sorri.

– Eu falo o mesmo de você Sonomi-san, por minha mãe, pela Tomoyo-chan; pena que você não se dá bem com o meu O-tou-san…

– Éh… isso é uma infelicidade que eu ainda não consegui resolver, mas quem sabe um dia Sakura-chan eu me sente à mesa com o seu pai, tudo é possível, afinal se não fosse por ele você não estaria aqui conosco, partilhando desse momento lindo.

– Pois é, eu me lembro quando a Tomoyo-chan participou da reunião da minha família na escola, nos jogos escolares, ela se sentia tão desconfortável que achou que estivesse atrapalhando alguma coisa, eu via isso nos olhos dela…

– Parece que você também consegue ler os meus pensamentos só de olhar nos meus olhos Sakura-chan; hehe! – As três sorriem.

– Hehe! Então meninas, é isso o que a amizade faz com a gente, ela nos une, nos fortalece, mas nem tudo são rosas, temos momentos bons e ruins também…

Sakura e Tomoyo entendem o que Sonomi quis dizer. Sakura fica cabisbaixa e Tomoyo também, mas Sonomi toca novamente na "ferida"; algumas vezes a melhor maneira de se resolver o problema é encará-lo de frente, e ela queria mostrar isso para as garotas:

– Garotas, o que seria uma amizade sem brigas? Uma pessoa só é nossa amiga de verdade se ela tem a capacidade de nos suportar, aguentar os nossos defeitos, os nossos problemas, isso só ajuda a gente a se conhecer melhor, as nossas emoções, nossos sentimentos pelo outro…

Sakura respira fundo e começa a falar:

– Sonomi-san, eu nunca pensei em fazer nenhum mal para a Tomoyo-chan, eu nunca quis levantar a mão para ela, eu nunca imaginei que faria isso, mas eu fiz…

– Eu nunca também nem pensei em apanhar de você Sakura-chan, eu poderia evitar, mas não me arrependo disso, eu me arrependeria de colocar as mãos em você, eu te amo demais para isso…

– Eu acho que você deveria sim ter posto as mãos nela Tomoyo; você tem a capacidade de suportar os defeitos da Sakura-chan, mas ela não teve a capacidade de suportar os seus defeitos naquele instante, não é Sakura-chan?

– É sim Tomoyo-chan, eu tinha dúvidas a respeito da Tomoyo-chan, eu desconfiava dela, ela nunca desconfiou de mim, mas agora eu não tenho mais dúvidas dos sentimentos dela…

– Então resolveu Sakura-chan? Conseguiu esclarecer as suas dúvidas?

– Sim Sonomi-chan, doeu, mas consegui sim, vou procurar não mais fazer isso…

– Não jure Sakura-chan, de modo algum, pois você não pode mudar a cor dos seus olhos, do seu cabelo, apenas viva Sakura-chan, viva cada dia como se fosse o último, você não consegue prever o futuro não?

– Não Sonomi-san, mas quem sabe com o Tarô, ou os sonhos…

– Nem mesmo com as cartas e os sonhos Sakura-chan, eles apenas indicam tendências, mas não falam com clarezas coisas como o "sim" e o "não" e que clima vai fazer amanhã; eles oferecem orientações e nada mais, o futuro é feito em cada ato, em cada gesto seu Sakura-chan…

– Estou vendo que a senhora conhece bastante de cartas mamãe…

– Pois é minha filha, eu e a Nadeshiko adorávamos tirar a sorte no tarô, mas eu falo pra vocês, se o tarô me falasse tudo eu seria a mulher mais rica do planeta hahaha!

– Isso é verdade… – as três sorriem.

– Meninas o que eu quero falar é isso: não fiquem desanimadas com os defeitos de cada uma das duas, procurem viver um dia de cada vez, procurem brigar entre si, abraçar entre si, discutir entre si, chorar entre si; é só vivendo que aprendemos como as coisas funcionam, se soubéssemos tudo seríamos deuses e não humanos…

– Verdade mamãe, a gente ainda tem muito pra brigar mamãe, eu quero brigar ainda bastante com esse dinossauro…

– Tomoyo-chan, eu apenas quero escutar a sua voz… sua baka! – as três sorriem.

– É isso meninas! Vivam, nem sempre ganhando, nem sempre perdendo, mas aprendendo a jogar o jogo da vida! Sabe meninas eu achei tão bonitinho ver vocês duas abraçadinhas na catedral das flores, já estava querendo demolir aquilo e construir uma estufa, mas imagina se eu tivesse feito isso, eu perderia a cena!

As duas ficam vermelhas. Sakura e Tomoyo se entreolham e perguntam-se dentro de si se Sonomi tinha visto o beijo das duas. Nem precisaram usar palavras, os olhos já falavam isso. Cochicharam baixinho uma para a outra:

– Sua baka, ela nos viu, eu falei que a gente fazia isso mais tarde…

– Seu dinossauro, quem manda ser tão gostosa assim!

– Meninas o que vocês estão cochichando? Por que estão vermelhas desse jeito? O que aconteceu na catedral que vocês não querem me contar?

– Nada não Sonomi-san! A gente só tava comentando sobre o que a gente falou uma pra outra lá dentro…

– E o que foi então pra fazerem tanto mistério?

– Mamãe a gente apenas estava esclarecendo uma pra outra os nossos sentimentos, sabe tirando as dúvidas sobre a amizade e o amor que sentimos uma pela outra e pelos outros…

– Tomoyo-chan… – diz Sakura com os dentes colados.

Sakura dá um leve beliscão em Tomoyo enquanto ela falava. Um aviso pra amiga não falar demais. Tomoyo entendeu o recado e não prejudicou a amada.

– Gente pra que tanto mistério por uma coisa tão simples? Vocês são jovens e já vão começar a se relacionar! Daqui pra frente vão ser confidências e confidências! Agora é tocar o barco pra frente e pilotar nesse mar desconhecido chamado futuro, agora mais do que nunca unidinhas uma com a outra! Como vocês são fofas!

– Hehe! Mamãe, agora sou eu que estou ficando envergonhada…

– Não precisa ficar não filha, daqui a pouco vocês serão duas moças, vocês duas não vão ser mais crianças e vão precisar ter a sua privacidade, o espaço de vocês duas, pra conversarem à vontade sobre o futuro, sobre as carreiras e o mais importante, sobre o amor, não é?

As duas dão um leve sorriso. Quase por terminar o jantar, Somoni dá a sua mensagem final:

– Garotas eu só posso desejar sorte pra vocês de agora em diante, o futuro a gente constrói a cada dia, mas façam dele algo digno de ser vivido, sem arrependimentos, frustrações ou mágoas, amem bastante, apaixonadamente, tá?

– Hai Sonomi-san!

– Hai O-ka-san!

– Gotsousama!