História Vinte e Oito: O homem de Touro
O céu da noite estava nublado, mas o que chovia era destroços.
Não havia mais Casa de Áries. Frágeis pilares tombavam com os ventos frios da noite. Apenas havia alguns pedaços de parede em pé. A nuvem de poeira erguida estava sendo lentamente tragada para outros locais do Santuário. Por todas as ruas as batalhas haviam parado repentinamente. A grandiosa explosão distraiu a todos, não só pelo tremor que causou, mas por onde havia sido. Uma das majestosas Casas do Zodíaco havia tombado, juntamente com parte da esperança dos protegidos de Atena. Ares havia vencido uma batalha, ou será que não?
Em meio à poeira remanescente via-se uma aura de luz. Flutuando a poucos centímetros do solo, um arco composto dourado ainda permanecia de pé, totalmente estruturado. Sua luz era reconfortante para aqueles que lutavam em uma guerra perdida por todos. Correndo a vista pelos destroços da morada tombada, percebe-se um intruso. Um braço ensangüentado emerge sob os escombros, anunciando que alguém ali ainda estava vivo. Remo ergueu-se por completo de seu túmulo forçado. Ferido em diversos pontos, os pequenos filetes de sangue formavam um vasto rio abaixo dos seus pés. Não havia mais armadura em seu corpo, apenas alguns pequenos pedaços da roupa que trajava por baixo. Caindo de joelhos, à frente de sua arma, olhou ao redor. Não havia sinal da presença de qualquer ser ali perto, mas ainda sim duvidava do que sentia. Estava tão ferido que poderia não ter forças nem ao menos para sentir o Cosmo. Esticou seu braço em direção ao arco dourado para se apoiar, mas errou o alvo e caiu no chão. Deixou-se lá, na mesma posição. Não disponibilizava de muita energia, preferindo utilizar a que restava para tentar viver.
Entretanto, algo lhe arrancou a concentração. Acompanhou com o olhar um grupo de raios de luz erguer-se dos escombros e montarem um cordeiro dourado próximo a si. Percebeu que toda a armadura estava rachada em vários pontos. Diversos pequenos buracos de agulha que haviam trespassado o poderoso traje dourado. "Incrível. O traje resistiu ao meu ataque apenas recebendo pequenos arranhões. Além disso, sinto uma enorme energia emanando da armadura. É como se o cavaleiro ainda a estivesse usando". Enfraquecido, desmaiou onde estava.
Escadarias da Casa de Touro.
Os guerreiros de Ares haviam chegado à próxima casa, Touro. Entretanto, a pouco tinham sentindo um fluxo poderoso de Cosmo. Olhando para trás, todos se impressionaram com o poder destrutivo da batalha abaixo, mas agora tudo era paz. Ignorando os acontecimentos, Liath prosseguiu com seus guerreiros. "Remo, espero que esteja bem, mas não olharei para trás. Sei que não voltaria por mim, e não farei o mesmo com você".
Há pouco em sua caminhada conseguiu absorver por completo o que Deimos o havia dito. Agora se encontrava de bem consigo e com as lutas. Ansiava por chegar logo na próxima Casa para destruí seu guardião. O objetivo de seu Amo seria concretizado, e a cabeça de Atena estaria em suas mãos em breve. Porém, havia ainda onze moradas a atravessar.
A morada de Touro era mais simples que a anterior. Sua fronte era formada por colunas grosseiras e muito próximas, conferindo-a um aspecto de gaiola para algo ameaçador. Na frente da morada estava um ser pouco alto que trajava uma armadura dourada. Dois longos chifres dourados brotavam de seu elmo, e sua longa capa tremulava com o vento. Estava a pouco observando a casa mais abaixo, mas agora tinha olhos firmes para as escadas, para os intrusos. "Aquele deve ser o cavaleiro de Touro, lorde Edmond", pensou Liath. "É muito famoso por ter derrotado diversos inimigos em incontáveis guerras travadas pelo Santuário, mas nunca derrotou alguém a altura de nós, espartanos. Veremos se é forte o bastante, cavaleiro".
Liath e os outros correram na direção de Edmond. Esse apenas estava de braços cruzados, esperando. Liath olhou para dois de seus guerreiros, um de cada lado, e confirmou com um gesto seu plano. Sacando sua espada, e dispondo de pouco tempo, aplicou um ataque poderoso contra o cavaleiro. Esse, por sua vez, desfez a posição e segurou com as mãos uma rajada de ventos negros que saiu da espada de Fobos. "Isso é um ataque?". Arremessou o pesado golpe para frente, de volta para o seu dono. Entretanto, ele não estava mais lá. Liath havia distraído o cavaleiro tempo o suficiente para passar por ele despercebido, juntamente com três de seus guerreiros.
- Não sabia que os Generais de Ares eram covardes – gritou para Fobos, indo em seu encalço.
- Eles não são – uma voz repentina cruzou o ar.
Edmond se virou a tempo de não ter sua cabeça decepada por um ataque devastador. Pondo os braços cruzados a sua frente, defendeu por pouco o ataque de um dos guerreiros que ficou para trás. Voltando a sua posição de combate, percebeu que ali restavam ainda dois guerreiros. "Esperto, General. Para não perder tempo e evitar que o alcançasse deixou dois de seus combatentes para me enfrentar".
Analisou as feições de seus adversários. Era um guerreiro e uma amazona. O guerreiro trajava uma armadura amarronzada com detalhes brancos e vermelhos alaranjados. Suas braçadeiras possuíam o que parecia ser penas de uma ave de rapina estiradas para fora, assemelhando-se muito a lâminas. Seus olhos negros demonstravam a decisão em destruir sua presa. A amazona trajava uma armadura naturalmente anormal. Longas e finas patas de aranha saiam de suas costas. Não dava para ver seu rosto, pois seu elmo possuía como complemento uma máscara terrivelmente feia, cheia de olhos e duas prezas, similar a uma aranha. Edmond acreditava que já havia visto algo semelhante antes, mas não lembrava com exatidão. Ela não possuía uma das melhores formas corporais, mas se deve julgar o fato de trajar uma armadura exótica como essa.
- Guerreiros de Ares, peço que dêem meia-volta e retornem para Esparta. Os Cavaleiros de Ouro do Santuário de Atena não são guerreiros quaisquer. Esse é meu único aviso! – falou de forma direta e séria.
O Lorde colocou-se novamente de braços cruzados, enquanto os guerreiros de Ares apenas ficaram parados. "Quem ele pensa que é? Dá-nos um aviso infundado e ainda nos subestima ao cruzar os braços dessa forma". Eles se entreolharam. Estavam dispostos a passar adiante, mesmo que perdessem suas vidas em combate. Não retornariam, pois seria sua desgraça. Se não morressem aqui, morreriam em Esparta por traição. Não tinham escolha, e nem desejavam ter outra opção.
A amazona tomou a dianteira. Correndo em investida até o cavaleiro dourado, direcionou todos os seus tentáculos de aranha na direção do mesmo. Atacaria com toda a sua força. Desviou seu Cosmo para o ataque, emergindo de seu corpo com uma coloração escura e roxa. O guerreiro veio logo depois. Andando calmamente, esperou que a amazona tomasse a distância necessária e concentrou seu Cosmo para os punhos. Fez um gesto de bater de asas e saltou.
- Lorde dourado, não nos subestime. – disse a amazona – Somos os guerreiros mais fortes de Ares, a elite de seu esquadrão. Nenhum guerreiro dourado deve achar que não somos nada!
- Prepare-se para sentir as garras das Feras de Ares, cavaleiro de Atena.
Edmond apenas esperou com seus braços cruzados. Seu olhar era vago, nada concentrado. Não concentrado nos guerreiros. No seu interior, um poderoso Cosmo começou a crescer e emergir. Uma aura dourada começou a se intensificar ao seu redor. Finalmente encarou seus adversários seriamente, sem sair de sua posição.
- Pois muito bem, guerreiros. Meu aviso foi dado e fizeram sua escolha. Por seus atos sujos contra a honra e integridade do Santuário de Atena, eu, Edmond de Touro, os banirei para o Tártaro. A atitude de Esparta contra nós é algo que não merece nenhuma piedade. Várias vidas inocentes foram tomadas por essa guerra inútil. Agora é a hora de mostrar ao deus da Guerra que sua rixa com Atena não deve afetar os planos mortais, pois senão seus protegidos pagaram com a vida. Que o deus da Morte tenha piedade de suas almas.
Os guerreiros sentiram um imenso Cosmo brotar do fundo da alma do lorde dourado. Era tarde demais. Deviam destruí-lo ou pereceriam diante de sua presença. A amazona chegou a seu alvo e aplicou seu ataque.
- Morra guerreiro de falsas ideologias, SPIDER TENTACLES! – gritou a amazona. Todos os seus tentáculos e mãos acertaram o guerreiro dourado. Sua armadura ficou intacta, entretanto este sangrou em alguns lugares, mas não abandonou sua posição.
Saltando para trás, a amazona deu espaço para o seu parceiro. Este estava se aproximando pelo ar até o cavaleiro de ouro. Quando ia tocar o chão bem à frente do inimigo, este brandiu os braços e aplicou seu ataque.
- HAWK TYPHOON! – bradou o guerreiro. De seus braços fortes rajadas de vento saíram, quase erguendo o cavaleiro dourado. Os ventos torrenciais o acertaram diversas vezes, causando vários ferimentos a cada vez que passavam. O lorde dourado não se mexeu, mantendo-se da mesma forma.
Assustados por constatar que seus ataques de total efetividade nem sequer moverem o cavaleiro de sua posição, os dois guerreiros se puseram lado a lado, à frente de seu inimigo. Este apenas sangrava um pouco em alguns lugares. Por trás da escuridão do seu elmo brotou um brilho místico assustador. Os dois guerreiros sentiram um medo crescente a mesma proporção do Cosmo do inimigo. Foi um Cosmo terrivelmente devastador que brotou do cavaleiro dourado. Os dois guerreiros não puderam fazer nada. Edmond surgiu de seu transe.
- Aqueles que recebem o ataque do touro sempre quebram alguns de seus ossos. O ataque do Grande Touro Dourado brota das profundezas de seu espírito selvagem, concedendo-o o poder de destroçar as mais terríveis bestas. Seu olhar vermelho de fúria causa medo até entre os mais poderosos deuses. A combinação perfeita de intimidação e força bruta mora em minhas estrelas. Sou o guardião do Solo deste Santuário, e é meu dever expulsar os invasores que tentam derramar sangue por ele. Adeus, guerreiros do senhor da Guerra. GREAT HORN! – gritou Edmond, sem abandonar sua posição.
Uma intensa rajada de luz cobriu os invasores. Arremessados com uma intensa brutalidade para trás, ambos sentiram suas armaduras se deteriorarem imediatamente. Atravessaram dois conjuntos de paredes de pura rocha até caírem no chão. Não havia mais vestígio de Cosmo neles. Sua presença evaporou junto com suas armaduras.
Ignorando o que possa ter ocorrido com seus adversários, Edmond deu a batalha como ganha. Foi andando tranqüilamente até a entrada de sua casa. Chegando lá, voltou a aguardar por novos invasores e contemplou a paisagem da casa de Áries a sua frente. "Mesmo que fracamente, ainda posso sentir sua presença entre os vivos, lorde de Áries. Rezo para que não siga ao Tártaro tão rapidamente. Erga-se onipotente como sempre fez, e mais uma vez queime seu Cosmo em nome da justiça, meu amigo".
