Capítulo Vinte e Nove
REVISITING THE PAST
(Revisitando O Passado)
— Mas, mas, senhor... — Severus balbuciou.
— Você já concordou, não foi? — Dumbledore perguntou com sua calma costumeira.
— Sim — Severus respondeu, tenso. — Eu não tive escolha...
— Manterá sua palavra. O futuro do jovem senhor Malfoy será cheio de perigos e ele os enfrentará melhor com sua orientação.
— É exatamente isso, diretor — Severus disse, irritado, virando-se sobre os calcanhares para que pudesse andar de um lado para o outro. — Não vejo por que ser modesto sobre o fato de que eu sou, possivelmente, o melhor em Oclumência ainda vivo. Qualquer um dos meus alunos pode ser melhor do que eu, particularmente se forem treinados desde a infância...
— É possível, sim — Dumbledore disse, pegando uma carta do Ministério; uma carta que provavelmente era do próprio Fudge.
— E quer que eu dê isso para o outro lado?! — Severus quis saber. — Quer que eu mesmo treine alguém que espiará você e o pi... Er, o menino Potter...
— Está assumindo que Sirius permitirá que Harry frequente Hogwarts. — Dumbledore suspirou, observando Severus por sobre a carta. — E que ele será selecionado para Grifinória.
— É claro que será — Severus zombou. — O filho de James Potter na Sonserina... A ideia de que ele irá para qualquer casa que não seja a Grifinória é ridícula...
— E o filho de Lily? — Dumbledore perguntou, interrompendo-o de novo. — Ele poderia acabar na Sonserina?
— Ele é filho do Potter — Severus sibilou, fazendo Dumbledore suspirar. — E é o afilhado de Black. Ele será um Grifinório...
— Espero que sim. — Dumbledore suspirou. — Mas se esquece do fato que o menino conseguiu nos enganar ao fingir ter bebido a Veritaserum... — Os olhos de Dumbledore brilharam; Severus sabia que ele tinha parado de responder às cartas do Ministro em setembro como uma punição por essa violação moral, pelo menos até que ele percebesse o dano que poderia ter causado. Ele voltara a responder às cartas se essa em sua mesa era alguma indicação, mas Severus sabia que ele ainda estava furioso. — E escapou de um quarto fortemente protegido, enquanto dois Aurores estavam guardando a porta.
— Black deve ter ajudado — Severus disse, sabendo que essa era a verdade, já que o próprio Black tinha admitido.
— Provavelmente — Dumbledore respondeu, pensativo. — Mas o chá nos lençóis foi ideia de Harry.
— Sim, mas... — Severus parou de falar. — A questão não é essa! — exclamou, furioso, enquanto Dumbledore ria e voltava a ler a carta. — A questão é que está me dizendo para dar aulas especiais a Draco, que eu lhe ensine minha habilidade, para que ele possa usá-la contra nós!
— É exatamente o que estou pedindo, Severus, sim.
Severus xingou Dumbledore com todos os palavrões que conhecia — infelizmente, o velho parecia se sentir divertido com isso, especialmente quando precisou convocar um dos dicionários para saber o que uma dessas palavras significava. Severus não sabia qual delas pois as falara muito rapidamente. Com um último resmungo para o diretor, cuja barba tremia enquanto ele consultava o dicionário, Severus saiu do escritório e bateu a porta.
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Monstro entrara e saíra da sala de treino o dia todo, servindo-lhes chá e chocolate quente — para Padfoot, por precaução — e bolinhos, biscoitos e sanduíches e o que mais eles quisessem. Ele parecia entender que aquilo era tão difícil para eles quanto organizar as relíquias da família Black fora para ele. Por outro lado, dessa vez eles estavam rindo mais.
Já tinham organizado várias fotos; havia algumas de James bebê, algumas dele com duas pessoas que Padfoot dissera serem os avós de Harry e algumas fotos muggles de Lily quando bebê. A tia Petunia aparecia em algumas delas — Harry notou que sua mãe e sua tia pararam de aparecer juntas nas fotos quando Lily tinha por volta de nove anos.
Havia uma foto de uma Lily muito nova — ela não tinha mais de dez anos — remando em um pequeno riacho com um chapéu enorme na cabeça e um sorriso ainda maior nos lábios. Ao seu lado, com o rosto bloqueado pela aba do chapéu de Lily, estava um garoto de cabelos escuros. Sabia que era um garoto pelas roupas. Padfoot e Moony achavam que devia ser um primo ou algum vizinho, mas sem poder ver seu rosto, era difícil saber.
A maior parte das outras fotos era de seus pais durante Hogwarts; havia uma de James sendo seguido por uma armadura em seu primeiro ano — que Padfoot orgulhara-se de assumir o crédito por ter tirado — e uma de Moony parado perto de uma porta, sorrindo e segurando uma vassoura.
— Olha isso — Padfoot disse, apontando para o cômodo atrás do Moony da foto. Harry apertou os olhos e viu o que parecia ser um cômodo de ponta cabeça; o chão era estrelado e o teto era de pedra, com mesas presas a ele. Algumas pessoas ainda comiam às mesas e, voando ao redor deles, estavam dois garotos em vassouras.
— Isso foi brilhante — Moony disse com um sorriso largo. — Levamos nossas vassouras para o jantar; ainda não acredito que ninguém mencionou isso...
— Já sabiam que não ia adiantar — Padfoot comentou.
— ... nós comemos e, quando terminamos, eu usei um feitiço para virar o salão e outro que funcionava como um feitiço escudo enorme nas paredes e no chão.
— A melhor parte — Padfoot gargalhou — é que só foram perceber quando pulamos em nossas vassouras e saímos voando! Eles ficaram presos no salão por horas até os professores descobrirem como tirá-los de lá... Não sabiam por que os contrafeitiços estavam sendo desviados! Eles acabaram usando um feitiço ao mesmo tempo e quebraram o feitiço escudo, mas eles demoraram algumas horas, não foi, Moony?
— Acho que já era manhã quando conseguiram — Moony concordou, sorrindo. — E controlamos a escola por algumas horas. Todos estavam tão cansados que as aulas foram canceladas!
— Aposto que todo mundo gostou disso — Harry comentou com um sorriso.
— Acho que tivemos detenções por todas as noites, durante duas semanas...
— Três — Moony corrigiu.
— Oh, três então — Padfoot disse timidamente. — E perdemos vinte pontos cada um, mas valeu a pena. Qual é a próxima foto?
A próxima foto era de uma Lily de doze anos em algum tipo de festa — Moony disse algo sobre o "Clube do Slug" — e depois havia uma dos quatro Marotos — com seus treze anos — e uma garçonete bonita em algum pub. Uma era de Lily — também com treze anos — deitada na ponta da cama, fazendo cócegas em uma garota loira com as pontas de seu cabelo vermelho, enquanto uma garota de rosto redondo e uma Marlene jovem riam.
Depois, era uma de James e Padfoot em uma guerra de bolas de neve — as bolas acertavam sempre a câmera, que parecia ser segurada por Moony; uma de uma partida de Quadribol, com James e Padfoot voando ao redor do campo, e uma de Lily — que devia ter catorze ou quinze anos — com a mesma garota loira das outras fotografias. E, com um dos braços de Lily ao redor de seus ombros, estava um Snape muito mais novo, com um meio-sorriso no rosto.
— Essa é Mary MacDonald — Moony disse, apontando para a garota loira. — E você conhece o Snape.
— Eles eram amigos? — Harry perguntou, observando Lily soltar Snape e Mary para que pudesse acenar para Harry. Snape a observava com uma expressão irritada no rosto, antes de olhar feio para Harry. Mary apenas sorria e olhava para Snape com cautela a cada pouco. Moony e Padfoot trocaram um olhar.
— Foram amigos por alguns anos — Padfoot disse por fim. — Não diria que eram próximos; os amigos dela o toleravam e os amigos dele nem a olhavam, o que dificultava um pouco as coisas. Mas, sim, acho que podemos dizer que eram amigos. Ou, pelo menos, ele não era tão idiota com ela quanto era com o resto do mundo. E aí ele fez uma coisa que a chateou e ela percebeu o verdadeiro idiota que ele era; tudo acabou indo para o ralo depois disso.
Moony pigarreou e começou a explicar a próxima foto; era uma de James e Moony em um cômodo cavernoso — alguns elfos domésticos apareciam nas beiradas da fotografia, ansiosos, e Harry achou que era uma cozinha —, parados à frente de pelo menos setenta homenzinhos feitos de pão de mel de tamanho humano. Enquanto Harry observava, Padfoot e Peter, carregados nos ombros de dois dos homenzinhos — com os detalhes em vermelhos ao invés dos detalhes em brancos dos de James e Moony —, iniciaram o ataque.
— Batalhamos pela escola toda — Padfoot contou, nostálgico. — Mas foi apenas uma distração; à noite, mandamos nossos soldados aos Salões Comunais e aos quartos dos professores para que levassem todo mundo aos jardins.
— O que tinha nos jardins? — Harry perguntou.
— Cobertores e fogueiras. E um show de fogos de artifícios — Moony respondeu, sorrindo. Ele fuçou numa pilha de fotos e selecionou uma que mostrava fogos de artifícios explodindo no céu escuro e estrelado. Na parte debaixo, cercados pelas fogueiras que Moony mencionara, estavam os funcionários e os alunos de Hogwarts assim como o exército de pães de mel.
Harry notou Dumbledore em um canto, conversando amigavelmente com vários pães, e riu. A cada pouco segundos, um braço aparecia na frente de quem estava segurando a câmera e apontava para Lily, que estava sentada e sorrindo com outras três garotas, enquanto observava os fogos de artifício.
— É o braço do Prongs, caso não tenha notado — Padfoot disse como se lesse a mente de Harry. — E lá estão Mary, sua mãe, Alice e Marlene.
— Vocês acabaram em detenção por causa disso?
— Uma por pão de mel — Moony disse ironicamente. — Mas foram divididas entre nós quatro... Acabamos com umas quarenta cada um. E McGonagall ficou tão impressionada com nossos feitiços que ela não descontou pontos.
— Ah, a boa e velha Minnie — Padfoot disse com carinho. — Essa é ela. — Apontou para as costas de uma bruxa que usava um roupão de tartã. — Tem uma foto melhor dela por aqui... — Fuçou numa pilha de fotos e pegou uma. — Aha! Final do sétimo ano.
A foto mostrava os quatro Marotos, Lily — que usavam cachecóis vermelhos e dourados — e McGonagall; ela estava espremida entre Padfoot e Moony — que sorriam loucamente. James, Peter e Lily estavam na frente — James estava abaixado porque era alto demais —, rindo; Padfoot estava tentava passar um cachecol da Grifinória pelo chapéu de McGonagall. Ela tinha uma expressão que Harry vira no rosto de animais quando brincavam com crianças pequenas.
Depois de todas as fotografias — descobrira que aparecera na maioria das últimas que tinham sido tiradas —, encontraram as varinhas de James e Lily, e Padfoot passara meia hora girando a de James em seus dedos, contando histórias que explicavam cada arranhão, risco e lasca que surgira na superfície.
Quando Padfoot as soltou, Harry as pegou e ergueu-as com cautela. Conseguia ver as marcas de dedos antigas nas duas varinhas e perguntou-se se eram as marcas dos dedos de seus pais ou da pessoa que as colocara na caixa.
Padfoot e Moony começaram uma discussão amigável sobre a varinha de James; tentavam se lembrar o que causara o pequeno buraco na base: se tinha sido Lily ao jogar a varinha pela janela da sala de aula quando James fizera chover lírios, ou se fora daquela vez que James e Padfoot irritaram um Tronquilho na aula de Herbologia; a pequena criatura quebrara o dedão de James e tentara quebrar sua varinha antes de Padfoot conseguir contê-lo.
O álbum de Cartões de Sapinhos de Chocolate de James apareceu logo em seguida. Padfoot o pegou e folheou-o com impaciência, antes de colocá-lo na mesa com um suspiro.
— Nunca achamos a Morgana — comentou com tristeza. Moony e Harry trocaram um olhar confuso, mas Padfoot se recusou a explicar e continuou a fuçar na caixa. Havia um Pomo de Ouro velho, que tentou bater as asas e desistiu. Sirius o pegou e murmurou algo que pareceu ser um feitiço, mas a bolinha não reagiu. Padfoot assentiu como se não esperasse algo diferente.
Em seguida, havia uma fotografia, separada das demais. Era dos cinco — Lily, James, Moony, Padfoot e Peter — nos jardins com o castelo de Hogwarts e o Campo de Quadribol ao fundo. Os três quiseram uma cópia dessa foto, o que Padfoot providenciou com um aceno de sua varinha. Harry e Moony trocaram um olhar quando Padfoot usou a varinha para tirar o Peter da sua cópia da foto, mas não falaram nada.
Foi quando Padfoot começou a sentir os efeitos da Poção do Dementador, então ele fora se sentar na cozinha com Monstro — assumiram que ele fora beber chocolate quente —, enquanto Harry e Moony se deitaram no chão da sala de treino e conversaram. Quando Padfoot voltou parecendo mais calmo, eles se sentaram e voltaram a mexer na caixa.
Havia uma enorme pilha de livros — Harry achou que a caixa tinha sido enfeitiçada para que coubesse tudo dentro dela, pois havia pelo menos vinte livros — que pertencera aos seus pais. Alguns eram livros gerais, enquanto outros eram claramente da escola; vários deles tinham o nome Lily Evans marcado na capa ou conversas dos Marotos rabiscadas nas margens das páginas.
Harry pegou um pedaço dobrado de tecido verde que Padfoot disse ser as vestes de Curandeira de Lily. Harry as segurou com cuidado, incapaz de acreditar que sua mãe as usara; que ela passara a mão pela manga, que ela guardara a varinha no bolso. Incapaz de se parar, levou o tecido ao nariz, mas não conseguiu sentir nenhum cheiro além da poeira. Deixou as vestes de lado, ignorando os olhares de pena de Padfoot, e apressou-se a pegar outra coisa.
Era uma pequena caixa de madeira com um fecho de metal. Algo se mexeu dentro dela quando a balançou, mas não conseguiu abri-la. Entregou-a a Moony que tentou forçar o fecho, antes de xingar e derrubar a caixa.
— Prata — disse com os dentes cerrados, mostrando a pequena queimadura em seu dedo que se espelhava rapidamente. Padfoot se levantou e correu para fora da sala.
— Por que está ficando preto? — Harry perguntou, preocupado. — É o que sempre...
— A prata fica mais forte perto da lua cheia — Moony disse, segurando sua mão. — Ouch. Como é hoje à noite...
— Aqui — Padfoot disse, entregando um pequeno frasco a Moony, que pingou algumas gotas na queimadura e soltou um suspiro aliviado. Enquanto Moony cuidava de sua queimadura, Padfoot estudou a caixa. Virou-a de ponta-cabeça várias vezes e franziu o cenho, antes de sorrir largamente e murmurar: — Aut viam inveniam aut faciam. — Moony soltou um resmungou irritado.
— Devia ter pensado nisso.
Padfoot sorriu e levantou a tampa; dentro estava uma confusão de joias. Havia uma corrente de ouro simples com um pingente enorme de rubi, que Moony disse lembrar-se de ver Dorea Potter usar em ocasiões formais; um relógio com um mostrador complicado que pertencera a Charlus Potter antes de ter sido de James; e uma coleção de anéis.
Um deles era a aliança de noivado de Lily; um rubi cercado por diamantes. Outro, era de prata e Padfoot disse que ele e James tinham ganhado esse anel quando se formaram no treinamento de Aurores. Moony decidiu não tocar nesse. O último anel era simples, de ouro, e claramente pertencera a um homem.
Decidiram que devia ser de Harold Evans já que Moony e Padfoot tinham certeza de não ser de James; aparentemente, Lily mandara gravar "Malfeito Feito" na aliança de James, enquanto ele mandara gravar "1307" na aliança dela, que era o número de vezes que ele a convidara para um encontro antes dela aceitar. Mas as alianças não estavam lá.
— Não vai achá-las — Moony disse em voz baixa quando Padfoot começou a procurar na pequena caixa.
— Por que não?
— Eu... Eu me garanti de que estivesse com eles — Moony disse e sua voz falhou. Os olhos de Padfoot se encheram de lágrimas.
— Obrigado — murmurou e Moony assentiu.
— Com eles? — Harry perguntou, hesitante.
— Nos túmulos, garoto — Padfoot respondeu, antes de olhar para Moony. — Assumo... — Padfoot pigarreou e hesitou por um momento. — Que foram enterrados?
— Em Godric's Hollow — Moony confirmou com um assentir.
Onde morávamos, Harry pensou. Perguntou-se se a casa ainda estava lá e, se estivesse, se o levariam para vê-la. Uma parte sua estava curiosa, querendo ver o local onde tantas histórias engraçadas tinham acontecido, enquanto a outra parte não queria nem chegar perto por causa do que acontecera lá.
— Podemos... — Harry começou e mordeu o lábio. — Será que poderíamos... Quero dizer, se não for... — Respirou fundo. — Podemos ir visitar, por favor? — disse num tom apressado.
— É claro — Padfoot respondeu na mesma hora. — Agora que sabemos onde encontrá-los, podemos ir quando quiser.
— Terão que ter cuidado — Moony comentou. — Malfoy mandou vigiarem a região o tempo todo.
— Halloween — Padfoot decidiu, estalando os dedos. — Todos estarão fantasiados, aí ninguém irá nos olhar duas vezes.
— Perfeito — Moony disse e Harry concordou; o Halloween era dali três semanas. Esperava que até lá Padfoot já estivesse melhor e que Moony já tivesse se recuperado da lua cheia.
— Você pode ir de lobisomem — Padfoot disse, sério, olhando para Moony.
— Oh, que engraçado. — Moony riu, aliviando a tensão. — Não é ruim o bastante eu ter que passar a noite de hoje como um?
— Moony — Padfoot respondeu, preocupado —, você é um lobisomem sempre...
— Não foi... Eu não quis dizer que eu não sou... Eu... — Moony jogou as mãos para cima. — Eu desisto.
Padfoot riu e tirou uma pequena caixa de distintivos da caixa maior; havia o distintivo de Monitor, de Capitão do time de Quadribol, dois distintivos de Monitor-Chefe e um distintivo de Auror. Cada distintivo tinha pelo menos três histórias associadas a ele, as quais Padfoot ficou feliz em contar; Moony parecia se fechar cada vez mais conforme as horas passavam e só fazia alguns comentários vez ou outra.
Quando o sol se pôs, Moony estava extremamente mal-humorado — estava deitado de costas, com um braço sobre os olhos, de frente para o teto — e rosnava se Harry ou Padfoot chegassem muito perto ou falassem alto. Padfoot, por outro lado, ficara mais animado conforme a tarde passava e, quando ajudou Moony usar a lareira da cozinha para ir para casa, estava praticamente saltitando.
— Bastardo sádico — Moony resmungou e, então, segurando as coisas de Lily e James que ficaram para ele, disse seu endereço e sumiu.
— Por favor, tente ficar aqui hoje — Padfoot disse a Harry quando subiram as escadas para que pudesse pegar suas coisas. — E se alguma coisa acontecer, pode tentar me contatar pelo espelho... — Harry ficara com o espelho de James, o par para o de Padfoot. — Ou pode me mandar uma mensagem pela Hedwig, está bem?
— Tudo bem — Harry murmurou, corando. Padfoot sorriu e colocou uma troca de vestes na mochila, antes de pendurá-la no ombro.
— Eu te vejo pela manhã, então.
— O quê? Nenhuma lista de regras para eu seguir? — Harry perguntou.
— Nah — Padfoot respondeu, abraçando-o. — Aquilo foi a Poção do Dementador falando.
— O que, ela te deixou responsável? — Harry brincou.
— Não, ela me fez pensar que sou um péssimo guardião, então criei as regras para fazê-la calar a boca. — Padfoot bagunçou o cabelo de Harry e saiu do quarto, cantarolando.
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— McKinnon — Arabella Figg disse brevemente.
— Arabella — Marlene respondeu educadamente.
A expressão da mulher mais velha se contorceu e ela continuou caminhando, indo em direção à ala em que seu irmão estava. Marlene a observou ir, um pouco irritada; depois de todos esses anos, Arabella Figg ainda não a perdoara por ter ficado com Tufty. Marlene não se importara na época e não se importava agora, apesar de achar que Arabella estava sendo infantil. Além do mais, ela conhecera melhor Lily do que Arabella e a mulher mais velha já tinha uma dúzia de gatos, enquanto Marlene não tinha ninguém.
Tufty morrera no ano anterior, na idade avançada de onze anos, e ela o enterra sob a Bétula que ficava no quintal do sobrado dos Potter em Godric's Hollow; lembrava-se de que o gato gostara de escalar a árvore por diversão — ele tinha uma visão privilegiada do ponto de aparatação e também gostava de observar os muggles vivendo suas rotinas — e sobrevivência; Lily sempre dizia que ele subia na árvore para fugir da magia acidental do bebê Harry e que ele passara o dia lá quando Sirius comprara uma vassoura de brinquedo de presente de aniversário para Harry.
Marlene o encontrara na árvore, faminto — pouco depois de ter sido dispensada de St. Mungo's —, quando fora salvar o que podia dos pertences de Lily e James com Dumbledore, Arabella, Hagrid e Lupin. Havia várias coisas em sua vida das quais Marlene se arrependia, mas adotar Tufty não era uma delas.
Olhou para Arabella, balançou a cabeça e continuou caminhando pelo corredor. Ela conhecia St. Mungo's melhor do que conhecia sua casa, por isso, conseguiu chegar no lugar certo mesmo sem prestar muita atenção ao caminho.
— Oi — disse suavemente, sentando-se na cadeira entre as camas de Alice e Frank. — Como vocês estão hoje? — Esperou um momento. — Isso é bom. — Outra pausa. — Eu estou bem, obrigada. Olho-Tonto manda lembranças. Oh, sim, o Programa está ótimo, obrigada, Frank. — Algumas vezes, ela não falava com eles. Apenas se sentava ao lado da cama deles, esperando que eles começassem uma conversa. Outras, sentava-se ao lado de Alice e tagarelava sobre tudo e qualquer coisa.
Mesmo agora, Marlene não guardava segredos de sua melhor amiga, exceto pelo fato de Sirius ter aparecido na sua casa. Em dias como aquele, Marlene começava uma conversa unilateral; uma pequena parte sua esperava que, por dentro, Alice e Frank ainda estivessem sãos; que estivessem apenas presos dentro de seus corpos e tentava contar-lhes coisas que eles gostariam de saber.
— Não, Alice — disse com uma risada. — Eu não trabalhei com isso ainda. Assumo que seja algum tipo de planta. — Pausou. — Porque é sempre uma planta, bobinha. — Riu.
Alice suspirou levemente e soltou um leve som.
— Está bem — Marlene falou. — Nem sempre é uma planta. Só na maior parte do tempo. — Alice olhou para o teto. — Está rindo por dentro — murmurou, dando um tapinha em sua mão. Alice choramingou e afastou a mão, olhando ao redor, procurando por Marlene, sem vê-la. — Desculpe — sussurrou. — Como? — perguntou, voltando-se para Frank. — Eu já te disse — comentou com um sorriso. — Gawain. — Esperou. — Sim, Gawain Robards. Conhece algum outro Gawain? — Alice se mexeu na cama.
— Não, só na minha cabeça. Na frente dele, eu o chamo de "senhor". Acho que ele não se importaria se eu o chamasse pelo primeiro nome; já estamos trabalhando juntos há um mês. Eu sei. O tempo voa, né? Já é outubro... Não, não estou nem perto de capturá-lo.
Sirius idiota. Os traços da aparatação dele tinham sumido na estrada de Hogsmeade. Os Aurores procuraram no vilarejo — e encontraram um par de sapatos encantados para andarem sozinhos — e nas florestas dos arredores, mas não encontraram nada. A não ser que ele estivesse morando na região, ele tinha aparatado de novo, mas ninguém pôde determinar o ponto de origem e, portanto, não tinham como saber para onde ele tinha ido.
Para piorar ainda mais a situação, o Rastreador de Harry não tinha registrado nenhum sinal de magia a tarde toda — nem nenhum outro dia —, o que queria dizer que o garotinho ou não era Harry (o que era improvável) ou que Sirius tinha encontrado uma maneira de erguer uma proteção contra o Rastreador. O número doze provara não ter nenhum significado e, por mais que Marlene tivesse se precavido e vigiado a casa desde então, ninguém usara a porta para entrar ou sair.
Supôs que as pessoas podiam visitá-los quando ela estava com Gawain ou no Ministério, mas não podia fazer nada sobre isso. Ela considerou erguer um feitiço de vigilância, mas não conseguira se forçar a fazer isso; não era tão paranoica assim...
Algo cutucou seu ombro.
— Marlene? — Ela sacou a varinha e virou-se para ver... Neville. O coitado parecia aterrorizado. Ele olhou para sua varinha e abaixou a mão.
— Desculpe — pediu, piscando. Alice e Frank não pareciam ter notado sua distração. Sorriu e abraçou Neville rapidamente. — Devo ter me distraído. Faz tempo que está aqui?
— Foi a terceira vez que te chamei — respondeu, tímido.
— Desculpe, querido. Olá, Augusta — disse, assentindo para a mãe severa de Frank. A bruxa mais velha passou pelas portas da Ala (com seu chapéu de abutre e bolsa vermelha) e assentiu em resposta. Prewett entrou depois dela e sorriu tristemente quando viu Marlene.
— Você não vai para casa? — Prewett perguntou, indo parar ao seu lado.
— Só para dormir — respondeu com um pequeno sorriso. Nas últimas semanas, sua consideração por Prewett aumentara; vira sua dedicação ao Programa e a determinação de se sair bem; vira-a ficar cada vez mais confortável perto dos outros recrutas (bem, de Clarke e Tonks, pelo menos) e vira a maneira que ela tratava os quatro Longbottom.
Prewett tinha a tendência a se preocupar com Neville e Augusta em particular — o que fizera tanto nos últimos dias que até ficara doente — e isso fazia Marlene — que também se preocupava com eles — gostar um pouco mais dela.
— Oi, mãe — Neville sussurrou. Os olhos vazios de Alice foram de um lado para o outro até pousarem em seu filho. Ela resmungou alguma coisa e indicou o criado-mudo. Neville sorriu, abriu a gaveta e pegou a embalagem amarela de um doce. As lágrimas cutucaram os olhos de Marlene quando Neville murmurou um agradecimento, guardou a embalagem no bolso das vestes e juntou-se à sua avó ao lado da cama de Frank.
Marlene decidiu que estava na hora de ir embora. Como Prewett estava visitando, não ficou surpresa ao ver a Auror Finch esperando no corredor. Shacklebolt, seu Auror parceiro, estava lá e Wellington também estava lá, parecendo zangado; ele ainda era bastante impopular no Departamento dos Aurores depois de sua briga com Tonks sobre Sonserinos e Grifinórios.
— Olá — disse aos três, antes de franzir o cenho. — Onde está Clarke?
— A senhora Longbottom queria chá — a Auror Finch suspirou.
— Ah — Marlene respondeu, os lábios se contorcendo. — Bem, vou deixá-los aos seus afazeres.
— Robards veio com você? — O Auror Shacklebolt perguntou.
— Não — respondeu, sem oferecer maiores explicações. Ainda não tinha certeza de quanto os Aurores podiam saber das missões dos outros. — Vou encontrá-lo agora.
— Mas já são quase seis horas — Wellington disse, surpreso.
— Vamos trabalhar no turno da noite hoje. — A missão atual de Gawain era ficar de olho na Travessa do Tranco, procurando a pessoa que cobrava uma taxa significativa para reviver as pessoas. O que ele fazia, entretanto, era criar um Inferi que atacava os clientes no momento que o pagassem.
Ele operava à noite e era incrivelmente esperto; enquanto Marlene e Gawain sabiam a verdade do que ele estava fazendo, nenhum de seus clientes parecia disposto a entregá-lo e aqueles que estariam dispostos, acabavam mortos antes de terem a chance. Era cada vez mais provável que precisassem se infiltrar, fingindo serem clientes, mas isso era difícil, pois teriam que achar um corpo.
— É melhor você ir, então — Auror Finch disse. Olhou para o relógio e colocou a cabeça dentro da ala de Alice e Frank. — Florence, você está dispensada.
— Vou ficar aqui com eles — Prewett murmurou. Finch assentiu e fechou a porta.
— Também estou dispensado? — Wellington perguntou. Shacklebolt o estudou por um momento, antes de assentir.
— Eu te espero amanhã cedo no meu cubículo.
— Sim, senhor. Vai por aqui também, McKinnon?
— Por um tempo — respondeu. — Mas preciso fazer uma parada antes de ir embora.
— Por que todos ainda estão bravos comigo? — Wellington perguntou, enquanto caminhavam.
— Porque é preconceituoso — Marlene disse sem rodeios. — As pessoas não vão simplesmente mudar de ideia e subitamente decidir que você era legal desde o começo. Você não está certo. — Wellington parecia irritado de novo. Marlene resistiu à vontade de perguntar se ele tinha quatro anos ou vinte e quatro. — Você era um Grifinório. Seja corajoso o bastante para admitir que estava errado e comece a mudar a forma que vê o mundo.
— Por que eu tenho que mudar?
— Ou você muda ou vai ficar para trás — disse, guiando o caminho pelo corredor que conhecia tão bem. — Eu sei o que eu escolheria.
— Como sabe que eu estava errado? — Quis saber.
— Você disse que Sirius Black não era da Grifinória. Ele era. Você devia saber disso já que ele é apenas alguns anos mais velho que você. — Revirou os olhos. — Vocês dividiram o Salão Comunal por três anos, pelo amor de Godric. — Os lábios de Wellington se moveram silenciosamente.
— Espere — ele parou. — Não o Sirius, como em Sirius e James?
— Sim — disse. — Esse Sirius. Jogava como batedor e tinha um irmão na Sonserina. Honestamente, quantos Sirius Black você acha que existem na Grã-Bretanha?
— Era ele? — Wellington repetiu, parecendo surpreso.
— Como em nome de Merlin conseguiu a nota para participar do programa se não se deu conta nem disso? — Marlene perguntou, revirando os olhos.
— Mas... Mas ele era legal!
— Sim, ele era.
— Como sabe tanto sobre ele? — perguntou.
Marlene o olhou por sobre o ombro.
— Vou deixar você descobrir isso sozinho. — Bateu uma vez e abriu a porta. — A gente se vê na sexta. Sugiro que repense algumas coisas até lá.
— É — Wellington concordou, esfregando a nuca. — E, ei, obrigado.
— Pelo quê?
— Falar comigo. Ninguém mais falou desde a briga.
Marlene sabia que isso não era verdade, mas decidiu que já tinha pegado no pé dele o bastante por um dia. Apenas assentiu, entrou no quarto de Mary e fechou a porta.
— É uma má hora? — perguntou, observando Mary arrumar a cama do hospital.
Mary ergueu os olhos, inexpressiva, e então lembrou-se de sorrir; durante o sétimo ano de Marlene, a família de Mary — apesar de todas as proteções do senhor e senhora MacDonald — tinha sido atacada por Comensais da Morte. Seus pais tinham sido mortos, mas Mary e sua irmã mais nova sobreviveram, apesar de isso ter-lhes custado; Susan transformara-se num Aborto, enquanto a maldição usada para parar o coração de Mary só tinha acertado seu coração figurado, arruinando sua habilidade de sentir emoções fortes.
Ela não conseguia ficar chateada nem amar ou odiar; não conseguia ficar animada ou agir como tola sobre coisas pequenas e não conseguia se lamentar. Ela mantivera apenas o bastante de sua personalidade para fazer a diferença ao se tornar uma Curandeira. Sua natureza profissional — por falta de palavra melhor — garantira seu sucesso, mas ainda assim, ela era uma paciente de longo-termo nesta Ala do hospital e estava sempre sendo supervisionada.
Susan MacDonald era a supervisora e, como sempre, estava a apenas alguns metros de sua irmã — sentada em sua cama —, usando as vestes negras que pareciam engolir sua figura pequena. Ela ofereceu um pequeno sorriso a Marlene.
— Chegou na hora certa — Mary respondeu, alisando uma dobra da fronha do travesseiro. Ela deu um passo na direção de Marlene e na mesma hora Susan se levantou e parou atrás dela. — Está com fome? Vou levar o jantar de Frank e Alice...
— Não, acabei de sair de lá — Marlene contou. — Neville e Augusta estão visitando. — A expressão cuidadosa de Susan ficou um pouco mais alegre, mas Mary não se afetou.
— Acho que isso é bacana. Não tenho tempo para conversar se não for junto, Marlene.
— Não tem problema — respondeu, acostumada ao comportamento duro de Mary para se sentir ofendida. — Já estou indo embora. Só queria dizer um oi.
— Bem, já disse.
— Disse mesmo — Marlene concordou com um sorriso. — A gente se vê na próxima. — Mary acenou a varinha para o kit de Curandeiro, que flutuou até ela de uma mesa no canto.
— Estaremos aqui — Mary respondeu com um sorriso. Marlene sabia que ela não estava realmente ansiosa pelo encontro (ela não conseguia), mas quando queria, Mary era convincente. Ela aprendera uma variedade de expressões amigáveis que deixavam as pessoas confortáveis ao seu lado. Ela e Susan passaram por Marlene (Susan assentiu brevemente, porque Susan raramente falava com alguém que não fosse sua irmã), deixando-a sozinha no quarto.
Achou que Wellington podia ter esperado, então decidiu perder alguns minutos. Cruzou o quarto até a pequena mesa de Mary e estudou a coleção de fotografias que Susan colocara ali; esperara conseguir alguma resposta emocional de sua irmã, mas nenhuma das três fotografias causara tal resposta.
Uma era da família MacDonald, provavelmente no começo do quarto ano de Mary — e o terceiro de Marlene — se o corte de cabelo de Mary era alguma indicação. A segunda era de Mary, Lily e Snape no quinto ano — Lily usava o distintivo de Monitora e ainda era amiga de Snape — e a terceira era a cópia de uma fotografia que Marlene tinha em sua casa. Era de Mary, Marlene, Alice e Lily no final do quinto ano de Marlene — portanto, o sexto de Mary — em uma das carruagens da escola.
Ela pegou a foto, olhando tristemente para as garotas que tinham sido tão despreocupadas, inocentes e — no caso de Lily e Alice — tão vivas.
Mary sorria timidamente para a câmera — ela já tinha se recuperado do incidente com Mulciber —, Alice acenava alegremente e jogava beijos — a foto tinha sido batida por Frank, afinal —, Lily sorria antes de olhar pela janela, assumir uma expressão carrancuda e de trocar de lugar com a Marlene da foto; Sirius e James passaram a cabeça pela janela da carruagem — James conversou com Lily, que revirou os olhos, enquanto Sirius roubava um beijo de Marlene...
Alguém bateu na porta. Colocou a foto na mesa de Mary e virou-se.
— Sim? — perguntou. A porta foi aberta e, para sua surpresa, quem estava lá era Lupin.
— Estou procurando pela Curandeira Mac... McKinnon?
— Lupin — respondeu, assentindo. Antigamente, teria confiado sua vida a ele (e provavelmente ainda o faria se fosse necessário), mas apesar disso, nunca foram próximos nem se tratavam pelo primeiro nome. Era realmente estranho, principalmente se fosse pensar em como tinha sido amigável com James e Sirius. — O que está fazendo aqui?
— A lua cheia foi há duas noites — respondeu com uma careta. Ela sabia sobre a condição dele, é claro. Todos os membros da Ordem souberam. Ele hesitou, antes de aventurar-se mais para dentro do quarto. — Eu me curei o melhor possível, mas preciso de algo para a dor e esse tipo de poção está além das minhas habilidades... — Ele encolheu os ombros.
— Mary acabou de ir visitar Alice e Frank — Marlene contou.
— Oh — disse. — Obrigado.
— Sabe como chegar lá? — perguntou.
Ele lhe ofereceu um sorriso gentil.
— Posso não vir tanto quanto você, mas vim vezes o bastante.
— Certo — falou. Lupin sorriu e saiu. Ela se apressou a segui-lo. — Fiquei sabendo que faz parte das buscas. — Ele inclinou a cabeça. — Também estou procurando. Eu me juntei aos Aurores. — Não tinha certeza do por que estava contando a ele. Talvez fosse por que sabia que ele entenderia; ele também conhecera Sirius. Ele sabia como era ser traído. — Eu vou encontrá-lo e matá-lo.
— Não sabia que os Aurores podiam...
— Não podem.
— Oh — Lupin disse.
-x-
Azkaban estava do jeito que ele se lembrava. Havia a praia tempestuosa e rochosa e o caminho que levava à lateral do penhasco, antes de se dividir em três. Havia a sala dos guardas — onde encontrara sua varinha e espelho —, o prédio principal — onde os prisioneiros eram levados para serem questionados — e, então, à esquerda, estava a prisão.
Azkaban estava tão cinzenta quanto se lembrava e os Dementadores, pretos, enquanto passavam por sua cela. Essa, também, era a mesma, com as marcações na parede, as grades enferrujadas e a janela minúscula que dava visão ao cemitério da ilha e ao oceano agitado.
Merlin, isso aqui é minúsculo, pensou, andando de um lado para o outro na cela minúscula. É incrível que eu não tenha enlouquecido...
Outro Dementador passou. Essa tinha sido a primeira parte do processo; prender a Poção do Dementador numa forma física — bem, não física, mas não havia outro jeito de descrever — para que pudesse, pelo menos, diferenciá-la dos próprios pensamentos. Essa tinha sido a parte que lhe fora mais difícil por um bom tempo, especialmente por não existirem livros que lhe mostrassem como fazer isso. Talvez escrevesse um.
A segunda parte de seu plano tinha sido criar Azkaban. Era lógico por que — até onde sabia — era o lar dos Dementadores. Além disso, estava familiarizado com Azkaban e, enquanto havia muitos lugares para se esconder nela, havia também muito espaço para se mover.
A terceira parte do plano tinha sido se colocar em sua cabeça; os livros que lera diziam que os cenários, na Oclumência, eram vistos como uma fotografia — e quem estudasse a mente, veria as imagens de cima ou de lado, mas nunca estaria na mente. Sirius, entretanto, precisava estar dentro de sua mente para isso. Essa tinha sido a parte mais difícil e precisara do mês de setembro inteiro para conseguir; era muito estranho andar pela própria mente.
Depois de conseguir entrar, precisava controlar suas habilidades mágicas; começara ao tentar se transformar em Padfoot. Era algo que lhe era natural em Azkaban e algo que não precisava de varinha. Precisava apenas de sua magia. Ele demorara um pouco, mas conseguira na primeira semana de outubro, depois de tentar por dois dias. Então, começara a criar uma varinha para si, o que conseguira — e conseguira até conjurar algumas fagulhas — criar na quinta-feira antes da lua cheia de outubro.
Já era a quinta-feira seguinte — tinha sido uma lua cheia difícil, e ele e Remus precisaram de um tempo para se recuperarem —, quase na segunda quinzena de outubro, e ele estava pronto para tentar a última parte de seu plano.
Sirius, ainda em sua cela, sacou sua varinha e pensou: Alohomora. A porta da cela estalou e abiu, o que era promissor. Ele saiu da cela, esticando-se. Era incrivelmente libertador poder entrar e sair de sua cela como bem entendesse.
Como esperado, os Dementadores sentiram que ele estava em movimento — como teria acontecido na Azkaban de verdade — e flutuaram até onde ele estava. Tinha separado suas lembranças felizes para esse momento, então não se preocupou; pensou em Harry concordando em morar consigo, em Moony se desculpando, em Moony tirando Harry de St. Mungo's e levando-o para casa, em Monstro sendo legal, em James e Lily e Reg — porque, maldição, não precisava ficar triste sempre que pensava neles.
Expecto Patronum, pensou e esperou que funcionasse mesmo tendo sido um feitiço não verbal.
Seu Patrono ainda era Padfoot — não era de se surpreender, considerando quantas vezes sua forma canina tinha o protegido dessas criaturas durante sua estadia em Azkaban. O cachorro enorme, brilhando num tom azul tão forte que era quase branco, pulou para fora de sua varinha e correu até os Dementadores, afugentando-os. Padfoot voltou com o rabo balançando tão rápido e tão brilhante que era estonteante.
O Dementador voltou a se aproximar. Sirius permitiu que o Patrono visse todas as lembranças felizes que tinha; estavam em sua mente, afinal. Haviam lembranças felizes por todos os lados — espalhadas, sim, e algumas mais felizes do que outras —, mas lá estavam. Padfoot estava emitindo um forte brilho branco. Sirius quis fechar os olhos para protegê-los, mas não sabia o que tal ato poderia causar, então apertou os dentes e aguentou; certamente não machucaria seus olhos de verdade já que isso tudo acontecia dentro de sua cabeça.
O Dementador começou a sumir.
Sim, Sirius sibilou. Se possível, o brilho de Padfoot ficou ainda mais forte ao ser alimentado pelo triunfo de Sirius. Os Dementadores não sumiram de verdade. Padfoot simplesmente brilhou tão forte que eles não estavam mais lá. A luz espantará a escuridão, pensou ferozmente feliz; era como se sua capacidade de ser feliz tivesse sido jogada para o canto mais escuro de sua mente — que agora parecia o Mar do Norte — e tivesse sido libertada.
Alegria, animação, amor, esperança, confiança, júbilo, convicção e vida voltaram para ele.
Padfoot brilhou tanto que Sirius não conseguia ver mais nada, mas estava feliz demais para se importar.
Continua.
N/T: Obrigada pelos comentários no capítulo anterior! Espero que tenham gostado desse capítulo, também; me contem nos comentários! (:
Até a próxima!
