DOCE DEZEMBRO

Capítulo 29

FINAL ALTERNATIVO

3ª PARTE

Ikki não soube dizer ao certo quanto tempo permaneceu ali, sem reação. Parecia querer se assegurar de que seus sentidos não o estavam traindo. Por isso, seus olhos sequer piscavam, percorrendo cada linha daquela fisionomia de que ele se lembrava tão bem... Ao mesmo tempo, as poucas palavras pronunciadas pelo jovem russo ainda estavam sendo absorvidas pelo executivo, que as ouvia repetidamente em sua mente, buscando certificar-se de que aquela era, de fato, a voz outrora tão conhecida por ele.

E aquele perfume... céus, não estava enganado! O aroma que recendia daquele homem a sua frente era inconfundível! Seus sentidos iam confirmando, um a um, o que Ikki ainda hesitava em acreditar.

Finalmente, dirigiu-se àquela figura que permanecia estática na varanda de seu apartamento. Parou apenas quando já se encontrava muito perto do outro, que nada dizia ou fazia. E então encontrou aquele olhar... aquele olhar azul-celeste.

Ikki agora observava mais de perto o belo rosto de mármore... Estava muito pálido, mas ainda assim, dono de uma beleza arrebatadora. Durante todo esse tempo em que estiveram separados, Ikki não havia se enganado. A saudade não o fez exagerar em absolutamente nada. Sempre fora capaz de lembrar-se de Hyoga exatamente como ele era...

Foi com algum receio que levou a mão, um tanto trêmula, em direção àquele rosto de alabastro. Tocou-o de leve e sentiu a suavidade e calidez de sua pele. A mão do outro colocou-se por cima da sua, tranformando o gesto em uma carícia real, o que fez Ikki sentir um arrepio percorrer-lhe o corpo.

O jovem loiro, então, entreabriu os lábios como que se preparando para dizer algo, mas esse gesto foi irresistível demais para o moreno que, no mesmo instante, puxou Hyoga para si e, sem dar a ele a chance de completar um pensamento, impediu-o de pronunciar qualquer palavra, calando-o com um beijo quente e sôfrego.

Sim, agora era mais do que certo: o gosto de seu beijo, o calor de seu corpo não deixavam dúvidas...

- Hyoga... – sussurrou ao ouvido do russo.

- Ikki, eu... – tentou balbuciar, mas foi novamente impedido pelo moreno, que parecia temer alguma palavra que pudesse acabar com aquele momento.

Depois de tanto tempo apenas sonhando com a possibilidade de rever Hyoga, Ikki não poderia desperdiçar a oportunidade de vivenciar esse momento de forma plena. Agora que podia tocá-lo e senti-lo novamente, não queria pensar em mais nada; desejava somente retomar o amor que tinha por Hyoga como se ele jamais houvesse partido.

Esse beijo teria durado uma eternidade, mas infelizmente para Ikki, o rapaz russo interrompeu-o afastando-se bruscamente dele:

- Ikki, assim você não me deixa falar porque vim aqui!

- E eu não quero saber por que... Só me interessa que você está aqui. Meu Deus, Hyoga... Você não imagina como eu senti sua falta. – Ikki falava enquanto tentava aproximar-se novamente.

- Olha eu... – falou Hyoga, esquivando-se de um novo contato - ... Eu preciso falar sério com você.

Ikki não gostava quando aquela expressão fria vinha à tona, fazendo com que uma máscara de gelo acobertasse o rosto de Hyoga, escondendo seus verdadeiros sentimentos.

- Muito bem. – disse olhando fixamente para o russo – Se é isso que veio fazer aqui, está bem... Fale.

- Bem, eu... – virou-se em direção à bancada da varanda e ficou de costas para o moreno. Não conseguiria falar o que tinha para dizer se Ikki continuasse a encará-lo daquela forma – Eu... Vim aqui porque preciso da sua ajuda.

- Ajuda?... Minha ajuda? Mas... é claro, Hyoga. O que você quiser... - Ikki demonstrava preocupação em sua voz.

Hyoga olhava perdido para as estrelas que brilhavam no céu. Sentiu uma mão receosa pousar sobre seu ombro. Ikki realmente se preocupava com ele, realmente... o amava. Seria justo? Mas a quem mais ele poderia recorrer?

- Ikki, eu não vim para ficar. Preciso que me ajude, mas não posso oferecer nada em troca, além da minha gratidão.

O moreno não esboçou reação. Hyoga sabia que soltara a informação de modo abrupto, bem diferente da forma como imaginara que faria. Tinha chegado a ensaiar o que dizer, mas não conseguiu manter-se calmo e frio o suficiente para que as coisas ocorressem como o planejado.

Ikki segurou o braço de Hyoga fazendo que este voltasse a olhar para ele. O olhar confuso do executivo dizia muito mais que qualquer palavra. Hyoga já não era capaz de se perdoar... "Como pude ser capaz de fazer isso? Já não basta o sofrimento que o fiz passar uma vez?"

- Eu... sinto muito, Ikki. Não sei onde estava com a cabeça quando vim aqui. – desvencilhou-se do moreno e começou a caminhar em direção à porta.

- Você não vai a lugar algum. – Ikki segurou Hyoga pelo braço. Sua mão estava trêmula, mas havia segurança em sua voz. – Você disse que precisa da minha ajuda.

Hyoga encontrou novamente o olhar daquele que fora, outrora, seu amante. Não imaginava que seria tão difícil encará-lo mais uma vez. Mas conhecia Ikki. Conhecia aquele olhar. Agora que já tinha começado, não poderia voltar atrás. Suspirou.

- Sim, eu preciso. E não tenho a quem recorrer...


Início do Flashback

Depois que deixara a cabine telefônica de onde ligara para falar pela última vez com seu pai e Milo, Hyoga deu ainda algumas voltas sem rumo pela cidade. Caminhar sempre fora uma excelente forma do jovem russo se acalmar, colocar as idéias em ordem. Quando conseguiu, por fim, sentir-se melhor consigo mesmo – na verdade, quando conseguiu enganar-se bem o suficiente para acreditar que estava melhor – percebeu que se encontrava próximo a uma rodovia. Não demorou muito e conseguiu uma carona. O motorista perguntou-lhe para onde iria e Hyoga, que não tinha um destino definido, disse que qualquer lugar lhe serviria. E assim, o escritor foi se afastando de seu passado cada vez mais, pegando mais uma carona a cada parada. Com o pouco dinheiro que trazia consigo, fez basicamente quatro refeições durante os três dias em que ficou na estrada. Parou, finalmente, quando se deu conta de que estava perto do mar. Era incrível como a proximidade com o oceano fazia bem a ele. Decidiu então que ficaria por ali. Agradeceu à senhora que o levou até aquele local e dirigiu-se à praia, por onde ficou caminhando sabe-se lá quanto tempo. Estava já escurecendo e foi então que começou a chover. Hyoga precisava encontrar algum abrigo e, enquanto pensava no que fazer, escutou um grito abafado pela chuva e, voltando-se na direção de onde vinha a voz, sentiu um forte empurrão que o deixou desacordado.

Quando finalmente despertou, estava um tanto perdido. Não conseguia reconhecer o local onde se encontrava. Estava deitado em uma cama bastante confortável em um quarto aconchegante. Havia uma janela aberta com uma cortina que balançava ao sabor da brisa que adentrava o cômodo. Era dia e a agradável luz do sol trazia uma sensação de conforto a Hyoga.

- Mas como foi que vim parar aqui? – perguntou-se enquanto buscava levantar-se da cama. Mas foi uma tentativa em vão, seu corpo estava fraco.

- Ah! Até que enfim acordou! – disse um homem que entrava nesse momento no quarto. Hyoga o olhou desconfiado:

- Quem é você? Onde eu estou? – perguntou de forma ríspida, até para disfarçar sua fragilidade naquele momento.

O homem sorriu gentilmente para Hyoga, como se compreendesse sua confusão:

- Meu nome é Claude, mas todos da redondeza me conhecem como mestre Cristal. Isso porque sou dono de uma oficina que trabalha e vende peças de cristal, esculturas de vidro e artigos do tipo. Você está na minha casa, que fica acima dessa oficina.

Apesar da gentileza com que Claude respondeu às perguntas de Hyoga, o rapaz louro continuou com a rispidez em sua voz:

- E como foi que eu vim parar aqui?

- Bem... Não sei se está lembrado, mas ontem à noite caiu uma chuva forte. – Hyoga acenou positivamente com a cabeça – Um dos meus hobbies é atrair raios e relâmpagos para a areia da praia para conseguir transformar areia em vidro. É dali que normalmente saem as mais belas esculturas de vidro. Muitas vezes, eu nem coloco essas peças à venda; ficam na minha coleção.

Hyoga olhava fixo para seu interlocutor sem entender aonde ele queria chegar com essa conversa. Percebendo a impaciência nos olhos do rapaz mais jovem, o homem de cabelos lilases foi direto ao ponto:

- Então... creio que você, meu jovem, sem se dar conta, estava andando em meio às estacas que eu havia fincado na areia. E ali era muito perigoso, já que eu estava justamente tentando atrair algum raio... gritei para que saísse de lá, mas acho que você não me ouviu. Acabei tendo que correr até você para retirá-lo logo dali. E estava certo; assim que o empurrei para um local mais seguro, caiu um raio bem onde você estava...

Hyoga ficou um pouco chocado, pois nem imaginava que a morte tinha passado tão perto dele. Mas o choque foi passageiro; logo ele se lembrou de que a presença da morte era uma constante em sua vida. Inclusive, chegou a se questionar se não teria sido melhor morrer ali, de uma vez. Essa espera, esse não saber é que o atormentava.

- ... Fiquei preocupado, porque não achava que o tivesse empurrado assim tão forte. Mas você ficou desacordado desde aquele momento. – continuava a falar o mestre Cristal.

Hyoga sabia que um empurrão como esse descrito pelo homem que o tinha socorrido não o deixaria inconsciente normalmente. Mas ele estava fraco; a viagem de 3 dias fora cansativa e ele sentia muita fome.

Claude, parecendo adivinhar o que se passava na cabeça do rapaz a sua frente, sorriu-lhe mais uma vez e disse:

- Imagino que deva estar com fome. E que espécie de anfitrião eu seria se não lhe oferecesse algo para comer, não é mesmo? Espere só um minuto que vou buscar uma sopa que acabei de preparar.

- Obrigado, mas não é necessário. – falou Hyoga, com um meio sorriso enquanto tentava novamente se levantar. Entretanto, Claude o impediu:

- Meu jovem, você não está em condições de ir a lugar algum nesse estado. Por favor, estou me sentindo mal pelo ocorrido e o mínimo que posso fazer é oferecer-lhe meus préstimos até que você fique completamente curado.

Hyoga sabia que o homem tinha razão. Seu corpo estava cansado, e ele estava faminto... resolveu aceitar a oferta.

Durante a refeição, as reservas que Hyoga tinha com o homem de mirada cálida e gentil iam se dissipando. Assim, o rapaz deixou um pouco a atitude defensiva, apresentou-se como Hyoga Yukida e contou que era um viajante sem destino. Preferiu não entrar em detalhes e Claude não o importunou com perguntas desagradáveis.

- Já que não tem pressa de chegar a qualquer lugar, sinta-se à vontade para ficar o tempo que quiser. Moro só e um pouco de companhia não faz mal a ninguém, certo?

Hyoga ouviu a proposta de bom grado. Agradeceu, mas disse que não pensava em ficar. Contudo, Claude lhe perguntou se o rapaz sabia aonde pretendia ir. Como Hyoga não soubesse responder, o mestre Cristal lhe falou para que ficasse até decidir para onde iria. Assim ficou acordado entre eles.

O tempo passou e Hyoga continuava a viver com Claude. Os dois ficaram amigos e Hyoga ficou conhecido pelas pessoas dos arredores como o pupilo do mestre Cristal, pois aprendeu a criar também belas esculturas de vidro. Continuava a escrever poemas e outras coisas sempre que tinha tempo e, por sinal, Claude gostava muito de ler e discutir poesia com Hyoga, uma vez que o mestre Cristal tinha também a sensibilidade de um artista. E todos os dias, ambos gostavam muito de caminhar pela praia durante o pôr-do-sol enquanto conversavam sobre suas impressões a respeito da vida. Tudo isso fez com que o pensamento inicial de Hyoga – de ficar lá por curto espaço de tempo – fosse abandonado e ele simplesmente permaneceu ali, sem se preocupar com o dia seguinte. De fato, a vida que levava lá era muito agradável, entretanto o semblante triste nunca abandonava o belo rapaz louro e Claude não deixou de perceber tal fato. Certa vez, num dos passeios que faziam, o mestre Cristal disse:

- Meu jovem, você não precisa ficar comigo todo o tempo. Não seria melhor fazer alguns passeios, sair à noite, buscar outras companhias?

Hyoga olhou para o amigo sem compreender.

- Claude, eu não sei do que está falando, mas se estiver achando que devo partir, é só me avisar que...

- Não, não! – interrompeu-o, rindo – Não é nada disso, Hyoga. É que já reparei em como você vive triste e pensei no que poderia alegrá-lo. Como ainda é jovem, achei que gostaria de estar na companhia de gente da sua idade, algo assim. Não me entenda mal; aprecio tê-lo ao meu lado, mas não quero que fique achando que me deve algo e por isso precisa ficar comigo o tempo todo.

- Não penso isso. Gosto da sua companhia e não preciso de outra amizade que não seja a sua.

Claude olhou com o canto dos olhos para Hyoga enquanto caminhavam. Havia tanto que esse rapaz escondia em seu interior... e isso não poderia fazer bem a ele.

- Fico feliz que tenha apreço pela minha amizade, mas será que você não precisa de nada mais?

- Como assim? – respondeu Hyoga, que já começava a sentir-se desconfortável com essa conversa.

- Hyoga, eu leio os seus poemas e vejo ali tanta paixão... entretanto, não consigo enxergar esse mesmo sentimento quando olho para você agora. Onde está todo aquele sentimento, todo o amor que permeia seus textos?

- Está onde você viu. No papel. Claude, procure entender... Minha vida já não me permite tanto. Tudo aquilo que eu gostaria de ter e ser, eu vivo através do que escrevo. E aqui, no mundo real, tenho de me resignar; assim são as coisas.

- E você não sente falta de viver, em vez de simplesmente escrever?

- Não.

- Eu não acredito. Você não escreveria daquela forma sobre algo que não deseja ou sente falta. É tão jovem, Hyoga! Por que se condena a não viver?

- Você não entenderia. Vamos encerrar essa conversa, por favor?

Claude olhou triste para Hyoga. Estava claro para ele agora. Já desconfiava disso pelo que lia nos textos do rapaz, apesar de nunca ter comentado algo a respeito com Hyoga. Esperava que o mais jovem tomasse a iniciativa. Mas isso agora estava ficando sério. Podia não saber dos detalhes, mas de algo tinha certeza: o rapaz loiro estava cometendo um erro do qual poderia se arrepender muito.

Começaram a fazer o caminho de volta quando escureceu totalmente. Caminharam em silêncio e, quando chegaram à oficina, Claude foi até a estante em que guardava sua coleção de esculturas de vidro. De lá, retirou uma maravilhosa peça e a estendeu a Hyoga:

- Bonita, não acha?

- Muito. – respondeu Hyoga.

- Se olhar bem, ela se parece com uma chama que queima ardentemente.

- Sim... Como conseguiu dar à peça um formato tão fantástico?

- Não fui eu. Esses formatos incríveis só são alcançados quando um raio transforma a areia da praia.

Hyoga examinava encantado a peça de vidro que estava em suas mãos. Claude sorriu e continuou a falar:

- Não é incrível? Essa peça hoje lembra uma chama, mas uma chama fria, congelada... e, outrora, ela já foi chama de verdade, quente, ardente...

Hyoga suspirou contrariado:

- Aonde quer chegar com isso, Claude?

O mestre Cristal puxou uma cadeira para sentar-se. Respirou fundo e prosseguiu:

- Quero lhe contar uma história, Hyoga. – sua voz era séria.

O rapaz então sentou-se em frente ao mestre e ouviu com atenção:

- Há muito tempo, um jovem tinha muitos sonhos e a convicção de que ninguém poderia impedi-lo de alcançá-los. A vida lhe sorria e ele sorria de volta. Era tudo perfeito: Um futuro profissional assegurado, a paixão de sua vida correspondia a seus sentimentos... Ah, como tudo era belo!

Hyoga sorria; os olhos azuis de Claude brilhavam enquanto ele narrava a história:

- Porém, em um dia como outro qualquer, esse jovem recebeu uma notícia devastadora. A vida o traiu e tudo o que ele tinha pareceu desaparecer de sua frente. A vida não parecia mais interessada em sorrir para ele e colocou em xeque sua felicidade.

- O que houve? – perguntou Hyoga.

- O jovem recebeu a notícia de que havia uma grande possibilidade de que sua vida pudesse ser... mais curta do que ele esperava.

Hyoga engoliu em seco. Claude estava falando dele? Mas como poderia...?

- Essa notícia acabou com ele. Todos os seus sonhos dourados transformaram-se em cinzas. E então ele desistiu de viver.

- Como assim? O que ele fez?

- Ele abandonou tudo e foi para um lugar distante de todos que conhecia. Lá, ele construiu uma outra vida, mas sem criar grandes expectativas em torno dela. Uma vida que se bastava em si mesma, sem sonhos, desejos ou esperanças. Uma vida que ele ia vivendo e que, se acabasse de uma hora para outra, não lhe faria diferença. Uma vida solitária que se acabasse repentinamente, não faria falta a ninguém.

- Ora, mas isso não significa que ele desistiu de viver.

- Desistiu sim, Hyoga. Desistiu de viver a vida que ele tinha escolhido. Foi um ato de covardia.

- Como você pode saber? – falou Hyoga, de forma agressiva e levando para o lado pessoal – Às vezes, essa pode ter sido a melhor solução para todos!

- Abandonar aqueles que ele amava era a melhor solução? Não creio.

- Olha, se você estivesse no meu lugar, entenderia o que estou dizendo! – disse, levantando-se agitado da cadeira.

- Essa é a questão, Hyoga. Eu já estive no seu lugar.

O jovem louro parou ao ouvir essa frase. Olhou assustado para o mestre Cristal:

- Como é?

- Eu sei pelo que está passando, Hyoga. Sei porque você me lembra muito a mim mesmo. Quem você acha que era o rapaz dessa história? Eu mesmo.

Hyoga voltou a sentar-se na cadeira. Não sabia o que dizer.

- Abandonei todas as pessoas que me queriam bem. – continuou a falar o mestre Cristal – Abandonei minha Sophie... Ah, Sophie... como sinto saudades dela...

Nesse momento, Hyoga não pôde deixar de lembrar-se de Ikki. Olhou compreensivo para Claude e perguntou:

- Há quanto tempo você abandonou... Sophie?

- Vai fazer uns... dez anos.

Hyoga arregalou os olhos. Claude continuou:

- Sim, nem eu esperava que fosse tanto assim. E na maior parte do tempo, eu procuro não pensar em tudo que poderia ter feito se tivesse sido menos covarde.

Hyoga parecia perdido em seus próprios pensamentos. Claude segurou sua mão em um gesto de cumplicidade e lhe disse:

- Mas ainda não é tarde para você, Hyoga. Nos seus poemas, eu pude perceber quão grande é o amor que você sente pela pessoa que seu coração escolheu. Não deixe que isso se perca, meu rapaz.

Hyoga nada disse. Estava cansado, sua cabeça estava dando voltas. Havia muito tempo, não se sentia assim. Desde que passara a viver com Claude, sua saúde parecia ter melhorado bastante. Mas, pelo visto, confrontar antigos problemas traziam de volta todas aquelas sensações de mal-estar. Concluiu que abandonar o passado, no seu caso, era o melhor. Ao fim de alguns longos segundos, tomou fôlego e disse:

- Não é porque nossas histórias se assemelham em certos pontos, que você sabe o que é melhor para mim, Claude. Minha escolha foi a mais apropriada. Abandonar meu passado tem me ajudado a melhorar. Antes de vir para cá, eu estive muito mal. Isso deve significar que eu fiz a escolha certa.

- Bem, meu jovem... Você pode acreditar no que lhe for mais conveniente. Eu vou me retirar agora. Preciso descansar um pouco.

Hyoga então estendeu a peça de vidro para que Claude pudesse guardá-la. Mas este fez um gesto para que o rapaz russo mantivesse a escultura consigo:

- Fique com ela. Afinal, é sua, mesmo.

- Minha?

- Sim... eu recolhi essa peça no dia em que socorri você. Lembra-se do raio que quase o acertou? Ele foi o responsável por essa peça. Afinal, creio que você é que atraiu aquele raio... – e saiu, deixando Hyoga só na oficina com aquela peça fria em suas mãos.

Na manhã seguinte, Hyoga foi despertado da pior maneira possível. Acordou com a chamada do telefone, que vinha de um hospital ali perto. Claude havia sofrido um acidente. O rapaz louro saiu desesperadamente em direção ao hospital, temendo pelo pior.

Lá chegando, foi logo informado de que o acidente não fora assim tão grave, mas também não era qualquer coisa. Claude teve alguns ferimentos um pouco mais sérios e precisaria ficar no hospital alguns dias. Hyoga ficou um pouco mais aliviado, mas sabia que só conseguiria se acalmar definitivamente depois de falar com o amigo.

Horas mais tarde, quando Claude finalmente despertou, viu Hyoga a seu lado, sorridente.

- Olá, meu amigo. Como está se sentindo? – perguntou o rapaz.

- Já estive melhor. – respondeu Claude, esboçando um meio sorriso – Minha nossa... estou aqui há muito tempo?

- Desde de manhã.

- E já é quase noite... – falou o mestre Cristal, olhando pela janela o céu que escurecia – Você ficou aqui esse tempo todo?

- Claro! Não saí do seu lado.

- Não precisava, Hyoga. – sorriu Claude – Mas fico agradecido por você ter ficado.

- Disponha. E agora, que tal você me contar como foi que conseguiu se acidentar dessa maneira?

- Eu havia ido comprar umas frutas no mercado perto de casa. Mas estava muito distraído e acabei não vendo o carro que estava vindo...

- Claude! Tem que tomar mais cuidado! – repreendeu-o Hyoga, seriamente.

- É... – sorriu o mestre Cristal para si mesmo – Seria muito irônico que, depois de tanto tempo esperando a morte chegar, ela viesse da maneira mais inesperada...

- Não brinque com isso, Claude. Não tem graça.

- Não estou brincando. Seria mesmo uma grande ironia.

- Que seja, Claude. Mas pare de pensar demais sobre isso. A vida é assim. Não podemos ficar prevendo tudo o que vai acontecer; por isso precisamos nos prevenir sempre...

- Mas... – falou, interrompendo Hyoga – Se não podemos prever tudo quanto vai nos acontecer, então vamos nos prevenir daquilo que desconhecemos?

- Mais ou menos... Porque... Ora, você me entendeu.

- Entendi que se quisermos nos prevenir de tudo, acabamos não vivendo, Hyoga.

- Não foi isso que eu quis dizer. Nunca achei que as pessoas devam ter medo de viver.

- É mesmo? Curioso. Afinal, parece ser exatamente o seu caso. Você tem medo de viver.

- Claude, eu não acredito que, mesmo nesse estado, você vai querer voltar àquele assunto. – falou um estafado Hyoga.

Como resposta, o mestre Cristal nada disse. Fechou os olhos em silêncio e voltou a recostar sua cabeça no travesseiro. Hyoga sentiu que havia sido muito áspero em sua colocação e, tentando redimir-se de sua atitude, disse:

- É que... não é bom para você pensar nessas coisas agora. Vai deixá-lo muito agitado e isso pode atrapalhar na sua recuperação.

- Não há como não pensar. – respondeu Claude, ainda com os olhos fechados – Porque você me lembra a pessoa que fui um dia. Me lembra das escolhas que fiz... me lembra que poderia ter sido diferente...

Então, o mestre Cristal abriu os olhos e permaneceu com o olhar voltado para o teto do quarto, perdido em pensamentos. Hyoga preferiu guardar silêncio; não havia o que falar. Algum tempo depois, o amigo adormeceu e, logo e seguida, uma simpática enfermeira apareceu no quarto dizendo que Claude dormiria profundamente até o dia seguinte, devido aos sedativos. E que se Hyoga desejasse, poderia ir embora e regressar no dia seguinte. Era até melhor, pois ele seria mais útil bem disposto e para tanto, era preciso uma boa noite de sono, que o sofá do quarto daquele hospital certamente não seria capaz de oferecer. Assim, o jovem russo voltou à oficina para passar a noite.

Contudo, ele não conseguiu dormir. Tudo o que Claude lhe falara mexera com ele. Virava de um lado para o outro na cama tentando conciliar o sono. Até que, de repente, ele levantou-se de supetão. Uma idéia lhe passou pela cabeça. Seria o certo? Tentou ser racional para descobrir se o que pensara era realmente uma boa idéia ou se o sono o enganava. Mas a idéia ganhava força e, se isso fosse resultado do sono e cansaço, então que fosse. Ser impulsivo. Hyoga sempre gostara de agir assim, apesar de nos últimos tempos ter sido precavido demais. Agir dessa forma lhe deu novo ânimo. Sentiu-se bem.

Sem pensar mais a respeito, pegou sua mochila e colocou algumas roupas e dinheiro dentro. E assim, sem olhar para trás, partiu.

Fim do Flashback


Ikki olhava sério para Hyoga. Tinha prestado atenção em cada palavra do que o russo havia falado. Finalmente, perguntou:

- Então... nesse último ano, você não esteve com seu pai e Milo? É isso?

- É. E foi melhor assim.

- Mas se você esteve com Claude, isolado do mundo... Então, quem publicou aquele livro? Está no seu nome e parece ter sido escrito por você... – Ikki parecia confuso.

- Ah, sim; o livro. – respondeu Hyoga, olhando de longe para o livro que se encontrava sobre a mesa – Fui eu quem escrevi, mas não era bem um livro. Era meu diário. Meu pai deve tê-lo encontrado e resolveram publicar.

O moreno estava ainda absorvendo tudo que havia escutado quando Hyoga, depois de um breve silêncio, disse:

- Ikki, eu sei que não tenho direito de lhe pedir nada. Aliás, você tem todo direito de estar ressentido comigo. Ainda mais por eu dizer que não poderei dar nada em troca, mas... Eu preciso da sua ajuda. Claude se transformou em um grande amigo; uma pessoa que me ajudou muito nesse último ano. Devo demais a ele e queria retribuir.

- Claro, eu compreendo. – falou Ikki, por fim – Mas do que precisa? Porque, pelo que você contou, ele já está fora de perigo, repousando em um bom hospital...

- Sim, mas eu gostaria de ajudá-lo a recuperar sua verdadeira vida. Claude acha que o tempo dele já passou, mas eu discordo. E sei que se ele tornar a ver Sophie, que ele diz amar ainda... Ele se sentirá vivo, de fato.

Ikki ergueu uma sobrancelha:

- Você quer que eu encontre essa tal Sophie?

- Sim. – respondeu Hyoga – Sei que dispõe de meios para conseguir.

- E disponho mesmo. Assim como seu pai.

Hyoga virou o rosto, visivelmente contrariado.

- Eu sei. Enfim, vai me ajudar ou não?

- Por que não foi falar com seu pai, Hyoga? Ele deve estar preocupado. Se durante todo esse tempo em que viveu com Claude, não deu notícias a ele, seu pai deve...

- Ikki, eu perguntei se vai me ajudar ou não. Se não quiser, fale logo para eu não perder mais tempo.

- Pato, seja menos arrogante, está bem? Eu não disse que não vou ajudar! Só perguntei do seu pai porque imagino que ele esteja angustiado. Eu sei bem como é ficar assim. Vivi isso na pele.

Hyoga percebeu que Ikki estava ressentido. Mas não viera para falar sobre isso com ele. Seu único objetivo era ajudar Claude; estava ali apenas para isso.

- Está bem, Ikki. Já entendi. Mas e então? Posso contar com você?

- Claro, Hyoga. Você sempre vai poder contar comigo... – respondeu o executivo, melancolicamente.


- Enfermeira, que horas são? – perguntou o homem de cabelos lilases.

- Já passa das 20:00, senhor. – respondeu a mocinha.

O mestre Cristal ficou pensativo. "Por onde anda Hyoga? Já faz uma semana que não o vejo... Será que passei dos limites com aquela conversa...?"

- Boa noite! – e essa voz acordou Claude de seus pensamentos.

- Hyoga! Estava justamente pensando em você! – sorriu o homem.

- Desculpe ter sumido sem deixar notícias. Fui resolver uns problemas...

- Imagine! Não precisa se desculpar; eu já estou acostumado com a solidão. Foi o tipo de vida que escolhi para mim, não é mesmo? – disse Claude, apesar de, no fundo, sentir-se feliz em voltar a ter companhia.

- É, Claude, mas... a solidão não faz bem. E você sabe disso.

Mestre Cristal olhou de volta para Hyoga, com um sorriso discreto. Depois, baixou os olhos e suspirou. Era verdade; e durante o tempo em que teve a companhia de Hyoga é que percebeu como fazia falta conviver com alguém.

- Mas você não precisa mais ficar só. – disse o jovem russo.

Claude voltou a levantar os olhos para dizer algo, mas, nesse momento, entrava pelo quarto uma mulher de cabelos da cor do fogo. Sua súbita aparição deixou Claude sem palavras.

- Olha só quem eu encontrei por aí. – gracejou Hyoga.

- Olá, Claude. – disse a moça.

- So... Sophie? – gaguejou Claude.

- Acho melhor deixá-los a sós. – falou Hyoga, retirando-se do quarto.

Lá fora, Ikki esperava pelo russo sentado na sala de espera. Hyoga aproximou-se em silêncio e sentou-se ao lado dele. O rapaz louro parecia bastante agitado; estava ansioso para saber se fizera o certo, se tudo acabaria bem. Ikki percebeu a agitação do outro e, carinhosamente, segurou em sua mão e disse:

- Calma, Pato... Vai dar tudo certo.

E, nesse momento, os dois se deram conta de que acabavam de reviver seu primeiro encontro. No hospital, quando Shun quase se afogara, Ikki tinha ficado muito mal, mas Hyoga o reconfortara. Agora, viviam a mesma situação – com papéis trocados. Hyoga sorriu com os olhos para Ikki que sentiu, mais uma vez, como aquele olhar tinha ainda um poder imenso sobre ele. E então, sentiu-se desconfortável com tudo aquilo. Retirou a mão bruscamente e levantou-se:

- Bom, acho que meu trabalho por aqui terminou. Se precisar de algo mais, estarei no hotel. Amanhã, eu volto para o Japão. – e partiu, sem dar chance para Hyoga dizer qualquer coisa.


Mais tarde, em um hotel à beira-mar, Ikki observava o movimento das ondas e a noite estrelada que fazia. Havia uma paz imensa ali... Estava com o olhar perdido quando ouviu baterem à sua porta. Encaminhou-se até ela e a abriu:

- Você não é o serviço de quarto. – disse ele, muito sério, ao ver quem era seu visitante.

- Oi, Ikki. Eu posso entrar?

Ikki apenas deu passagem, sem dizer nada. Hyoga, para acabar com aquele silêncio, começou a dizer:

- Eu resolvi passar aqui porque achei que você gostaria de saber como ficaram as coisas. Deu tudo certo; Claude ficou muito surpreso ao rever Sophie, mas muito feliz também. Eles... vão voltar a ficar juntos.

- Bom para eles. – respondeu Ikki, friamente.

- Ele tinha ficado receoso a princípio, mas depois que Sophie revelou que tinha um filho dele... Claude desmoronou. Incrível, não? Ele tinha um filho de 9 anos e nem imaginava...

- É. – falou Ikki, sentando-se no sofá e abrindo uma revista.

- Sabe, Ikki, demonstrar um pouco de humanidade e ficar feliz pelos outros não faz mal a ninguém.

- Estou feliz por eles, Pato. De verdade. Só não estou de bom humor.

Hyoga continuava em pé, olhando fixo para o executivo. Colocou as mãos nos bolsos de sua calça e falou:

- Desculpe, eu não havia percebido. Quero dizer; nos últimos dias as coisas pareciam ir bem. Você parecia estar bem.

Ikki permanecia calado. Já não virava aleatoriamente as páginas da revista; seus olhos pareciam presos a uma página qualquer, que ele definitivamente não estava lendo.

- É, mas acho que me enganei. Tinha esquecido que seu humor é altamente instável. – falou um provocativo Hyoga, que não gostava de sentir-se ignorado, especialmente por Ikki. Racionalmente, ele sabia que o executivo estava no seu direito de fazer isso, inclusive repetia para si mesmo que não podia cobrar nada do outro. Mas era mais forte que ele. Hyoga não sabia por que, mas a súbita frieza com que agora era tratado por Ikki o machucava. E logo depois de terem passado uma semana tão agradável! É certo que o único motivo que os ligava era a procura por Sophie, mas durante todo o processo viram-se muito. Caminharam pelo parque, pela praia – Hyoga sentia saudades de lá – almoçaram juntos, conversaram bastante. Obviamente, sempre como amigos, nunca como amantes – ou ex-amantes. Evitaram falar sobre o passado. Apenas apreciaram a companhia um do outro, sem maiores expectativas. Afinal, Hyoga havia deixado claro desde o princípio: Ele não viera para ficar.

E agora que haviam concluído a busca, Ikki resolvera agir assim? Era essa a imagem que ele gostaria de deixar? Era assim que eles deveriam lembrar-se um do outro a partir de agora? Todas essas questões passavam pela cabeça de Hyoga sem que ele se desse conta; ele apenas sentia uma revolta incontrolável.

Tornou a olhar para Ikki. Hyoga não podia ver seus olhos, pois ele tinha abaixado a cabeça e mantinha a revista apoiada em seus joelhos.

- Maravilha, Ikki. Então é assim que vai ser? Ótimo. Eu também não faço questão de falar com você. Só passei aqui para dar a notícia porque achei que se importasse com algo, mas já que é assim, eu vou emb...

- Cala a boca, Pato! – gritou Ikki, interrompendo Hyoga – Será que dá para você descer um pouco do seu pedestal e olhar ao redor? Será que você consegue deixar sua arrogância de lado para enxergar o que está bem na sua frente, russo?

Hyoga engoliu em seco. Olhava para Ikki, que estava com os olhos cheios de lágrimas. A dor estampada em seu rosto era comovente, mas Hyoga prosseguiu:

- Como... como assim? O que eu não estou enxergando?

- Não está enxergando o que está acontecendo! Está achando que não quero sua companhia? Que não gosto de ficar com você?

- Eu achava que você gostava, mas já não tenho tanta certeza. – respondeu Hyoga – E tudo bem, eu compreendo. Você provavelmente está zangado comigo porque eu pedi um favor que não poderei retribuir. Deve estar chateado porque sente que eu apenas usei você para conseguir o que queria. Só que não é nada disso, Ikki. Eu...

- Que droga, Pato! Por que você acha que sempre tem que ser o motivo de tudo? Não passou pela sua cabeça que talvez eu esteja agindo assim por minha causa? – gritou Ikki, levantando-se do sofá e encarando Hyoga.

Dessa vez, o rapaz louro ficou calado, apenas fitando o outro. O que Ikki queria dizer com isso?

- Eu não estou com raiva de você, Pato idiota. Não tenho motivos para isso; mas bem que gostaria, porque assim as coisas seriam mais fáceis... – Ikki estava já perigosamente perto de Hyoga, a ponto de sentir sua respiração acelerada. Suas mãos enlaçaram o corpo delgado daquele homem russo com desejo e, sem dar a ele chance de reação, beijou sua boca com paixão.

- Quando é que você... vai entender... que eu te amo...? – sussurou Ikki em meio a beijos que devoravam os lábios de Hyoga.

- Ikki, não... – e Ikki beijava o pescoço alvo do escritor – A gente não pode... – e mordiscava sua orelha – Não foi por isso que eu vim... – e beijava deliciosamente sua boca – ...aqui... – dizia Hyoga, tentando lembrar-se do que havia prometido a si mesmo... Não ceder à tentação... Não se deixar envolver pela sedução natural de Ikki...Não antes de esclarecerem algumas coisas...

Mas era tarde.

O corpo de Hyoga já desejava Ikki, por inteiro. As palavras negavam o que o corpo deixava claro que desejava. O executivo ouvia o que Hyoga dizia e ficava ainda mais excitado, não pelas palavras em si, pois ele já não prestava atenção nelas, mas por causa do modo como o russo falava... em meio a gemidos, com a voz rouca, entrecortada.

Tratou de livrar-se logo daquele incômodo jeans que Hyoga vestia. Tirou-lhe também sua peça mais íntima, deixando à mostra o órgão intumescido de desejo. Acariciou-o gentilmente, arrancando mais gemidos de Hyoga:

- Ikki... eu... ahhh...

Ikki sabia o que Hyoga queria. E ele também estava desesperado para dar ao outro o que ele desejava. Começou a deslizar a língua suavemente por toda a extensão do membro, fazendo com que Hyoga se retorcesse de prazer. Quando finalmente colocou todo o pênis em sua boca, o russo soltou um gemido de alívio e começou a movimentar o quadril no mesmo ritmo em que Ikki subia e descia com a boca sobre seu falo. A excitação ia crescendo e Ikki já havia aberto sua própria calça para masturbar-se enquanto abocanhava com vontade o sexo do outro.

- Ah... isso, Ikki, isso... assim... ahhh, assim...!

Sentindo que Hyoga estava muito perto de gozar, Ikki retirou sua boca do membro do russo de forma abrupta, de modo que este, desolado, olhava para Ikki pedindo que ele continuasse.

- Calma, Pato... – falou Ikki, enquanto livrava-se da camisa que ainda vestia – Eu ainda não estou satisfeito...

Olhou para Hyoga com um sorriso tentador, voltou a beijá-lo sofregamente e começou a penetrar seu amante com um dedo, cuidadosamente. Seu corpo roçava selvagemente no de Hyoga, deixando-o mais excitado e facilitando a penetração. Ikki então colocou mais um dedo, depois outro e os gemidos de Hyoga deixavam claro que ele ansiava por mais.

Então, Ikki posicionou seu membro e foi forçando a entrada, devagar, para não machucar Hyoga. Queria ser cuidadoso, mas o louro gemia cada vez mais forte e com o quadril parecia puxar o corpo de Ikki para si, de forma que o executivo já não era mais capaz de se segurar e acabou dando uma forte estocada em Hyoga, colocando de uma vez todo seu pênis dentro do outro. O rapaz russo gritou de dor, fazendo com que Ikki evitasse qualquer movimento; mas pouco depois, Hyoga já voltava a ditar o ritmo com seus gemidos e movimentação de quadril, demonstrando que o prazer já se sobrepunha à dor. Ikki então aumentou ainda mais o ritmo, dando embestidas cada vez mais fortes, enquanto Hyoga massageava seu próprio membro em harmonia com os movimentos de Ikki. E enquanto buscavam o máximo de prazer no corpo um do outro, beijavam-se desesperadamente, apaixonadamente. Finalmente, o louro sentiu que ia atingir o clímax e chamou pelo nome de Ikki uma, duas, três vezes, com muito ardor. Escutar seu nome com tanta paixão na voz rouca do homem que tanto amava enlouqueceu Ikki que, logo após Hyoga, derramou-se dentro dele. Em seguida, deitou seu corpo suado e ofegante ao lado do russo, buscando acalmar sua respiração. Naquele momento, sentiu que Hyoga o abraçava.

Ficaram assim, em silêncio, abraçados por algum tempo, até que adormeceram.


Na manhã seguinte, Ikki despertou um pouco perdido. Demorou a recordar-se de que não estava no Japão, e sim na França. Lembrando-se disso, sorriu ao pensar em tudo o que havia acontecido e, ainda com os olhos fechados, esticou o braço para o lado da cama onde deveria estar Hyoga.

Mas ele não estava lá.

O executivo então levantou-se de supetão. "Não é possível! Ele não pode ter feito isso! Ele não pode ter me abandonado assim! Não de novo..."

Escutou baterem à porta. Sentiu um raio de esperança. Correu para a porta implorando em pensamento para que, da mesma forma que na noite anterior, fosse Hyoga. Mas não; era o serviço de quarto.

Ikki deixou que o homem entrasse com uma bandeja e a depositasse na mesa enquanto, mecanicamente, pegava algum dinheiro em sua carteira para dar a ele de gorjeta. Depois que o homem saiu, deixando a porta encostada, o executivo sentou-se em frente à bandeja e viu, ao lado de uma rosa, um cartão. Ikki ficou gelado diante daquele cartão. Tinha medo do que podia estar escrito ali.

Pegou o pequeno envelope branco nas mãos. Algumas lágrimas já vinham à tona, antecipando o que estava por vir.

Finalmente, abriu a cartinha. Antes mesmo de ler as palavras ali escritas, reconheceu a letra. Era de Hyoga. E estava escrito: "Eu também amo você".

Ikki sentiu que aquilo era crueldade. Então era assim que ele se despedia? Sentiu vontade de amassar aquele papel, mas não teve forças. Simplesmente deixou que caísse novamente sobre a bandeja, que continha um reforçado café da manhã.

- Você não vai comer isso tudo sozinho, vai? – ouviu uma voz bem-humorada atrás de si.

- Hyoga? – disse, ao virar-se e deparar com o escritor.

- Você nem ia me esperar para comer? Que fome, hein? – disse Hyoga, tranqüilamente, enquanto caminhava em direção à mesa para sentar-se junto de Ikki.

- Hyoga? Você... você não foi embora? – falou Ikki, que ainda sentia o coração bater muito forte devido a tantas emoções misturadas.

- Eu acho que não. – respondeu Hyoga, rindo, enquanto comia algumas uvas – Quero dizer, pode ser um sonho, porque essas uvas estão boas demais para serem de verdade!

- Hyoga, eu estou falando sério. – falou Ikki, segurando o braço do escritor – Eu acordei e não vi você aqui. Fiquei desesperado; achei que você tivesse partido... Quero dizer, eu sei que você vai partir, eu sei... – soltou um suspiro – Eu sei disso, mas achei que tivesse me deixado de repente, como da outra vez e eu..e eu...

- Ikki... – começou a dizer Hyoga, enquanto apertava a mão do moreno – Eu só dei uma saída porque precisava fazer uma ligação.Não quis ligar do quarto porque não queria acordar você. Mas antes, parei na recepção e pedi que lhe mandassem um bilhete junto com o café. Achei que fosse gostar... – sorriu o rapaz russo.

- É, agora que sei o que aconteceu, eu gostei... mas para quem ligou? Para o Claude?

- Não. Para meu pai e Milo.

Ikki ficou sem reação. Hyoga, percebendo, continuou:

- Falei para eles onde eu estava. E expliquei mais ou menos o que aconteceu nesse último ano.

Ikki continuava sem conseguir falar. O que isso tudo significava?

- Escuta, você não vai comer? Porque eu vou acabar devorando todas essas uvas sozinho. – brincou Hyoga.

- Não, não. Pode comer. – falou Ikki, um tanto nervoso – Mas... e aí?

- Ah, eles acharam que a tática deles para me encontrar deu certo.

- Que tática?

- Ele acharam que publicando meu diário, eu voltaria a entrar em contato. Era a última esperança deles.

- E... foi o diário que levou você a ligar para eles?

- Não, mas eu deixei acreditarem que sim. Eles ficaram felizes desse jeito.

- E agora? O que você vai fazer?

- Bem... eu vou visitar meus pais. Falei para eles que vou partir daqui hoje à tarde. Tem muito que precisamos conversar ainda, mas é preferível fazê-lo pessoalmente, não acha? – falou Hyoga, enquanto passava geléia em uma torrada.

Ikki sorriu tristemente. Pelo menos, Hyoga não ficaria sozinho. Afinal, Claude também ia embora e...

- Você vem comigo, Ikki?

O belo rapaz moreno ergueu os olhos espantado. Será que ele tinha ouvido direito?

- Ir com você... ver seus pais?

- Sim. Mas não se preocupe, não precisamos ficar lá mais do que o necessário. É só o tempo de explicar tudo o que aconteceu nesse ano, matar a saudade...

- E para onde vamos, depois?

- Para onde você quiser. – disse Hyoga, e depois bebeu mais um gole de suco.

- Hyoga, olha só... Não quero ser grosso nem nada, mas... Dá para você ser um pouco mais claro? É porque eu já perdi você uma vez, depois você voltou, então achei que perdi de novo e então você volta mais uma vez... Eu tenho receio de me alegrar com uma ilusão.

- Eu não quero me separar mais de você, Ikki. Está claro o suficiente? – falou Hyoga, olhando fixamente para o moreno.

- Sério? - perguntou apreensivo.

- Sim. Eu andei pensando em muitas coisas, Ikki. Desde que Claude começou a me falar de como havia sido a vida dele, eu me questionava a respeito de minhas escolhas. No final, cheguei à conclusão de que o mais importante era viver, a qualquer custo. Tudo bem que cheguei à essa conclusão achando que isso valia apenas para a situação de Claude... É que ainda não estava preparado para admitir certas coisas para mim mesmo. Mas, no fundo, eu sabia que precisava mudar. Por que acha que vim pedir ajuda para você?

- Porque você sabia que eu tinha como ajudá-lo. E porque você não queria que seu pai e Milo descobrissem onde você estava. Então, eu era sua única alternativa.

- Na verdade, não. Eu podia ter pedido ajuda ao Isaak.

Ikki fez cara de quem não gostou do que ouviu. Apesar de tanto tempo e de todo o ocorrido, ainda tinha ciúmes do empresário musical.

- Mas eu inventei diversas desculpas para mim mesmo, para acreditar que Isaak não seria de grande serventia. Quis acreditar que só você poderia me ajudar. Eu estava muito confuso, tudo aquilo estava me deixando louco, eu já não sabia de mais nada... Só sentia um desejo incontrolável de ver você de novo.

Ikki sorriu. Ficou feliz em saber que Hyoga também sentira sua falta.

- E então, passamos aquela semana tão agradável... Percebi que junto de você eu sempre me sinto bem, me sinto vivo... Mas aí, ontem você mudou de repente... ficou frio, me tratou mal... Óbvio, você estava chateado comigo, não entendia o que eu estava fazendo...

- Hyoga, pare. Deixe eu explicar melhor o que aconteceu... Ontem você não me deu oportunidade de falar a respeito...

- Foi você quem interrompeu nossa conversa, Ikki... – gracejou Hyoga.

- Certo, certo. Que seja. – falou Ikki, sorrindo, mas tentando manter-se sério. Depois, soltou um suspiro e continuou:

- Eu não achei que você estivesse errado, Hyoga. Eu... só queria o seu bem e, se você dizia que as coisas seriam melhores daquele jeito, eu acreditava, claro. O único problema é que eu iria sofrer com a sua partida; isso é fato. Então, fiquei num beco sem saída: não podia pedir que ficasse, porque eu sinceramente desejava que você estivesse bem. Mas, para isso, você precisava partir e eu só poderia aceitar. Foi aí que me dei conta de que a única coisa que poderia fazer para tentar sofrer um pouco menos era me apegar o mínimo possível. Sei lá... Parte de mim queria acreditar que se eu abandonasse você em vez do contrário seria menos doloroso.

Hyoga levou a mão ao rosto de Ikki e fez-lhe uma carícia. Sorria compreensivo.

- E eu estava enganado, Pato. Não interessava quem fosse abandonar quem nessa história. Eu iria sofrer de qualquer maneira porque amo você mais do que a minha sanidade me permite...

- Ikki, eu também te amo...

- Então, dessa vez... Você vai ficar comigo?

- Vou. - e fez uma pausa para apreciar o belíssimo sorriso que despontava no rosto do rapaz moreno. Lembrou-se de como esse sorriso lhe fazia bem... de como iluminava sua vida... - Eu já estava entendendo que tinha feito algumas escolhas erradas, mas meu orgulho me impedia de enxergar isso. Foi preciso Claude me dar um último conselho.

- O que ele disse?

- Que ele tinha duas lições para me passar. A primeira era que não podemos ser assim tão arrogantes a ponto de achar que podemos viver sós. A segunda era que não podíamos ser tão covardes para acreditar que só temos uma chance de sermos felizes e que se ela passar, não há volta. Ele disse que a primeira lição ele já sabia há algum tempo, mas que aprendeu a segunda ao rever Sophie e descobrir que tinha um filho. E eu pude presenciar o que ele disse, Ikki. Eu compartilhei da vida que ele levava e pude ter uma boa noção de como será o futuro dele daqui para frente. Foi então que compreendi tudo o que fiz, o que estava fazendo e o que devia fazer a partir daquele instante. E aí, vim correndo para cá... Afinal, é como eu eu escrevi no meu diário. A melhor coisa que o futuro pode nos reservar é a possibilidade de um futuro. Apenas agora fui entender que o futuro só se torna possível a partir do momento em que decidimos vivenciá-lo. Não podemos ficar esperando que o futuro chegue para finalmente desfrutar dele; é preciso querer viver para que ele possa chegar.

- Você pensou isso tudo antes de vir para cá?

- Na verdade, vim sem pensar muito, deixei-me guiar mais pelo que estava sentido... Mas depois que você começou a me beijar daquele jeito... depois dessa noite... Não restaram mais dúvidas.

Ikki puxou Hyoga para sentar mais perto dele. Beijou-lhe de leve nos lábios e o mirou com carinho. Então, disse:

- Nós vamos ser muito felizes, meu Cisne...

- Cisne? – riu Hyoga.

- Sim, parece que finalmente você se encontrou.

- É... eu me encontrei... Descobri que meu lugar é ao seu lado.

E enquanto Hyoga acariciava o rosto do executivo, este olhou para um calendário sobre uma mesinha que ficava ali perto e disse:

- Você viu? Amanhã começa o mês de dezembro...

Hyoga olhou para onde Ikki apontava. Sorriu e disse:

- Sim, e como da última vez, será um mês maravilhoso...

- Só um mês?

- Não, Ikki. Porque agora, nosso mês de dezembro vai durar para sempre...

E, de fato, aquele mês de dezembro durou meses, anos...

Durou a eterna felicidade de uma vida.

FIM


N/A: Espero que tenham gostado. Fiz o melhor que pude – afinal, a história toda tinha sido criada para um final. Conseguir construir outro não foi nada fácil. Então... sejam gentis na hora de julgarem. É a primeira fic que escrevo – então, obviamente, é a primeira fic lemon que faço. Com o tempo, a gente vai melhorando, não é mesmo?

Obrigada a todo mundo que acompanhou a fic até aqui! Sei que a fic ficou grande e o final alternativo bem maior do que eu imaginava. Mas é como eu já disse... não sei escrever pouco. hehehe!

Beijão e até a próxima!

Lua Prateada.