Capítulo 29

Victoria colocou a correspondência em dia escrevendo cartas à irmã Feodora e à prima Maria, rainha de Portugal, dando conta dos acontecimentos das últimas semanas.

William estava no berçário outra vez, num número de vezes que ele não saberia contar, e observava Alice a dormir tranquilamente no berço coberto por cortinas brancas translucidas. Ele gostava de ficar lá sozinho, em silêncio, apenas a observá-la.

Victoria espreitou à porta. Era fácil saber onde ele estava quando não estava no escritório. Lá estava a silhueta elegante de costas! De calças, camisa, colete e botas de montar. Nem sequer se descalçara depois de regressar do passeio a cavalo!

Ela caminhou até ele e abraçou-o encostando o rosto às costas acetinadas do colete. Respirou fundo, inspirando-o. Haveria de ter nela o cheiro dele para sempre… Depois passou para o seu lado direito, enquanto ele lhe colocava o braço sobre os ombros.

Ficaram os dois entrelaçados em silêncio a olhar Alice.

O batizado dos recém-nascidos devia ocorrer com poucos dias de vida, mas, nas classes altas, para que a mãe pudesse assistir à cerimónia, esperava-se entre seis semanas a dois ou três meses. O batizado da bebé iria decorrer no dia do primeiro aniversário do casamento de William e Victoria, a 8 de fevereiro.

- É preciso finalizar a escolha dos padrinhos. – Disse William.

- Então… nós já concordámos com os seus irmãos, Emily e Frederick, o meu tio Sussex e a minha tia Adelaide.

- E a sua mãe, Victoria! – Ele acrescentou num tom de ligeira repreensão, pela tentativa dela de que a duquesa de Kent ficasse fora da lista.

- Sim, e a minha mãe…

Ele suspirou, olhou para ela e explicou:

- Eu compreendo a sua angústia com o passado, mas eu acho que você deve promover uma relação diferente com ela no presente e no futuro. Na medida que for possível, Victoria…Eu também não espero que vocês se tornem as melhores amigas.

Victoria acenou afirmativamente com a cabeça.

- E eu acho que há outra pessoa que você devia convidar. – Ele introduziu.

- Quem?

- O seu tio Leopold…

Victoria libertou-se de William, fez um ar surpreso e perguntou:

- O rei dos belgas? Até parece que você não sabe qual foi a posição dele quanto ao nosso casamento e como ele saiu zangado de Londres a última vez que aqui esteve porque eu não lhe fiz a vontade e me casei com o seu sobrinho favorito…

- Você não sabe, mas ele foi a minha casa antes de nós nos casarmos… - Contou William.

Ela estava perplexa quando perguntou:

- O meu tio foi a sua casa? E você nunca me contou? O que é que ele queria?

- Pedir-me para que eu desistisse e não me casasse consigo.

- E o que é que você fez?

- Eu casei consigo! – Disse ele sorrindo.

Victoria riu desconcertada. Ele conseguia sempre fazer baixar a ebulição quando os nervos dela começavam a subir!

- Isso, eu sei, William! Mas que argumentos é que ele usou e como é que você lhe respondeu?

Ele suspirou. Naquela época não tivera coragem de repetir aquela conversa com Victoria, mas agora já passara muito tempo. Afastou-se do berço para evitar que a conversa acordasse Alice e explicou:

- Ele disse-me que eu devia pensar bem no que estava a fazer porque eu era demasiado velho e que isso não seria bom para si. Se eu vos amava não devia trazer-vos o transtorno da idade e … da solidão… Além disso, também disse que você era muito jovem e por isso volúvel nos seus sentimentos. Que estaria apenas encantada por mim e que isso poderia passar rapidamente…

William não podia contar a Victoria que Leopold tinha chegado a insinuar que ela o poderia trair, o que a deixaria furiosa.

- Como é que ele pôde dizer-vos essas coisas? - Victoria perguntou chocada.

- Eu disse-lhe que não desistiria, pois acreditava nos seus sentimentos e queria partilhar o máximo que me fosse possível da vida consigo. – William terminou.

- E depois disso você ainda quer que eu o convide para padrinho de Alice? – Ela perguntou indignada.

- No fundo ele gosta de si! Você sabe que isso é verdade. O que ele estava a fazer era por gostar de si, embora isso estivesse a cegá-lo…E ele nunca esqueceu Charlotte…

Victoria olhou para William surpreendida.

Ele continuava:

- Você e Albert eram a incorporação do sonho dele de reinar na Inglaterra em conjunto com a princesa Charlotte.

- Como é que você sabe isso? – Ela perguntou admirada.

- Porque nós falámos sobre isso.

- Estou a ver que a sua conversa com o meu tio foi profunda…

- Foi. Por isso lhe digo: convide-o para padrinho de Alice e vai ver que ele aceita. A esta hora ele já percebeu que a pressão que fez foi exagerada, a birra por causa de Albert já passou e ele precisa de uma forma de reatar o relacionamento com a sobrinha que adora.

Victoria ficou pensativa. Disse:

- Eu gostava dele. Durante anos ele era a única figura mais próxima de um pai que eu tinha. Nós escrevíamo-nos com regularidade. Ele acompanhou a minha vida e era um bom conselheiro. Mas a questão do casamento separou-nos…Ele sempre quis que eu casasse com Albert…

- É bom que você se reconcilie com ele pois um dia ele pode ser necessário por motivos políticos ou familiares. E eu não quero que você tenha a relação com o seu tio quebrada por minha causa…

- Não é por sua causa, William! Foi por minha causa! E por causa da incompreensão dele…

- Tem razão, mas você entende o que eu quero dizer. O pior que pode acontecer é ele recusar… Mas, nesse caso, a culpa da vossa relação continuar deteriorada não é sua…

- Você tem razão. Pode ser uma boa ideia. Eu vou escrever-lhe. – Victoria concordou sorrindo.

Naquele outro dia a meio da tarde Victoria estava no banho. A banheira no meio do quarto e ela dentro dela, de costas para a porta. Vestia uma camisa comprida de tecido fino, que lhe preservava a nudez total, mas que lhe expunha os ombros, e descansava, de olhos fechados, num momento de evasão.

Sentada num banco atrás dela, Skerrett passava-lhe o cabelo molhado com um pente…

William, apenas de calças e camisa, entrou sem fazer barulho.

A camareira pressentiu alguém entrar e olhou para trás.

Ele sorriu para ela e fez-lhe sinal com a cabeça para que saísse.

Ela levantou-se e ele estendeu-lhe a mão para que lhe desse o pente.

Skerrett entregou-lhe o pente – enquanto ele voltou a sorrir em agradecimento – e saiu do quarto. Não pôde deixar de sorrir para si própria.

William tomou o lugar da camareira e principiou a passar o cabelo de Victoria com o pente.

Ela notou que Skerrett parara e que depois a força que era exercida sobre o seu cabelo mudara. Era gentil, mas mais vigorosa.

Mas antes que ela pudesse fazer alguma observação William disse:

- Tem de providenciar uma banheira maior, meu amor.

Ela abriu os olhos e, de imediato, virou o corpo de lado e a cabeça para trás a sorrir para ele:

- William!

- Victoria… - Ele pronunciou calmamente com uma expressão de adoração.

- Porque é que eu tenho de providenciar uma banheira maior? – Ela perguntou curiosa.

Ele olhou para os lábios dela. Ansiou por desalinhar-lhe o desenho perfeito daqueles lábios com o ardor dos beijos.

- Porque nesta não cabemos os dois…- Respondeu, aparentemente imperturbado.

Ela sorriu divertida e movimentou-se, sentando-se dentro da banheira, virada para ele, com as pernas dobradas debaixo do corpo.

Ele olhou para o torso dela molhado, visível através do tecido ensopado que se lhe colava à carne e a fazia transparecer. O volume dos seios salientes e evidentes por baixo do tecido…

- Você queria tomar banho comigo? – Ela perguntou com ar provocador.

Ele movimentou a cabeça em sentido afirmativo e ela viu-lhe o olhar de desejo que lhe lançava e que lhe incendiava os sentidos. Mesmo agora, molhada e dentro de água.

- Então eu providenciarei uma banheira com tamanho suficiente para nós dois… - Victoria sugeriu.

Ele continuava imóvel a apreciá-la com o mesmo olhar abrasador.

- Mas se você não pode entrar, eu posso sair. - Ela concluiu enquanto se colocou de pé dentro da banheira com a intenção de se retirar do seu interior.

Ele levantou-se de rompante, acompanhando o movimento dela e agarrou-a de forma impetuosa, ao que ela correspondeu de igual maneira. Abraçaram-se e beijaram-se descontroladamente! A boca dele nela era inesperada e quente!

Alguma da água da banheira saltou sobre a tapeçaria do quarto.

O cabelo e o corpo dela a escorrer água que passava para o corpo dele, ensopando-lhe a camisa e as calças ainda lhe inflamava mais a vontade. Enquanto continuava a beijá-la ele fez rolar o tecido encharcado da camisa para cima, passando-lhe as mãos pelas coxas molhadas, de onde escorriam gotas de água, numa urgência sequiosa de se fundir nela.

William agarrou Victoria pela cintura e elevou-a no ar retirando-a da banheira e pousando-a no chão, enquanto ela lhe segurava rosto com ambas as mãos e se beijavam.

Mais água foi derramada na tapeçaria.

Aquela imprevisibilidade e toda aquela ânsia dele deixavam-na extasiada.

Ele encaminhou-a de costas até à cama, beijando-a e palpando-lhe todas as partes do corpo à sua mercê.

Sentir as mãos dele na coxas e nas nádegas era uma coisa sublime!

- Eu tive tantas saudades suas… - Victoria confessou numa voz que se lhe sumiu.

William arrastou com a mão direita a colcha da cama para baixo, expondo os lençóis, e fê-la deitar sobre a mesma na diagonal.

Ela era tão deliciosa assim! Totalmente molhada! Uma sensação nova! Passava-lhe as mãos pelo corpo e beijava partes da pele dela completamente expostas e outras partes através do tecido molhado e pegado à carne. Não sabia qual era, das duas, a melhor sensação. Queria possui-la de qualquer maneira, com ou sem camisa! Puxou os ombros da camisa para baixo violentamente, expondo-lhe os seios para poder mergulhar o rosto neles. Inevitavelmente, da força exercida, o tecido rasgou-se.

Victoria ardia de desejo por aquele homem extasiante! Agora ela estava livre, tinha o seu corpo de volta só para si. Sentia que amava a filha de ambos, mas os últimos meses tinham sido um desconforto e o seu corpo reclamava por William! Abandonava-se à loucura de tanto o amar!

As solas das botas, que ele não tivera oportunidade de descalçar, deixavam traços de terra e pó nos lençóis brancos.

Ele elevou o corpo, ajoelhou-se e despiu a camisa.

Ela ergueu-se na cama e desbotou-lhe as calças.

Ele arrastou-se para fora da cama para se descalçar e despir o resto da roupa. Depois voltou a deitar-se sobre ela desfrutando-lhe dos seios com a boca. Empurrou-lhe a camisa para cima até ao baixo-ventre. Agora tinha o melhor de dois mundos! O contacto direto com a pele dela nos seios, nos ombros, nas pernas e nas nádegas e o tecido molhado na barriga e nos braços. Ela cheirava a uma manhã de Primavera, quando o Sol desperta após a chuva ter caído sobre um campo de flores! Elevou o corpo e meteu a mão direita no meio das pernas dela. Não foi gentil na abordagem. Pressionou-a bruscamente, empurrando-a alguns centímetros para cima ao longo da cama.

Victoria contraiu os músculos pélvicos em exaltação.

Ele questionou-se se toda a humidade que sentia na mão era da água do banho ou dela. Percebeu que eram ambas misturadas. Queria enfiar-se inteiro dentro dela, fazê-la gritar debaixo dele!

Ela tinha as pernas abertas e fletidas. A boca aberta numa súplica sem palavras, enquanto ele lhe palpava e beijava o corpo todo.

William agarrou as ancas de Victoria, levantou-as um pouco do colchão e num único movimento brusco enterrou-se nela. Agora ela estava liberta e ele podia usá-la sem reservas!

Victoria soltou um grito baixo e abafado pela entrada de rompante, que a fez sentir cada polegada a abrir em segundos de uma forma algo arrepelada. Mas ela aguentaria tudo, queria que ele a fodesse memoravelmente. O corpo dela aceitou-o!

O fervor dos beijos!

- Você é tão bom! – Ela exclamou.

Ele emitiu um ronco no ouvido dela cuja vibração excitante Victoria sentiu na pele da orelha.

- Oh, é tão grande! – Victoria murmurou no ouvido dele.

- Você gosta? Hum? Você está a gostar? – Perguntou ele enquanto se movimentava dentro dela. A voz rouca de desejo.

- Eu adoro! É tão grosso…eu estou tão dilatada…

Ele adorava senti-la à volta dele, ela sabia tão bem! E era tremendamente excitante que ela lhe contasse ao ouvido o que sentia pelo prazer que ele lhe dava.

- E o que mais você sente? – Ele perguntou enquanto voltava a embater nela.

Ela estava a senti-lo todo! Agora de uma forma mais macia. Enchendo-a! O corpo dela em regozijo numa doce agonia…

- E é longo…está todo dentro de mim…lá, naquele sítio…

Ele voltou a embater nela, penetrando-a até ao limite.

- Onde?

- No topo! No mais profundo de mim… Onde é melhor sentir-vos…

- Aqui? É aqui? – Ele perguntou voltando a entrar nela completamente em cada novo impulso das ancas.

- Oh! Por favor! Mais, mais, mais… - Ela implorou.

- Você quer mais? – Ele perguntou trespassando-a violentamente.

Cada vez mais rápido! Cada vez mais forte! A impetuosidade, a paixão com que William sempre devorava o corpo dela…

William pensou que não podia esvaziar-se nela! Não podia!

Victoria pousou a mão esquerda aberta sobre a almofada ao lado da cabeça.

Ele entrelaçou a mão direita na dela apertando-a.

Ela beijou-lhe o ombro esquerdo. Sabia que ele iria sair dela antes do fim.

A carga enérgica dele sobre ela e a energia propagada entre eles crescia. Era tão carnal, tão cru!

Não, neste momento ela não queria que ele saísse! Não era a mesma coisa! Não era completo! Não era uma troca justa nem uma entrega total! E ela queria sentir a vibração dele dentro dela naquele momento final! E o bálsamo quente que a inundava e que escorreria dela…

Ela percebeu que estava vindo, lento e gradual, e que quando chegasse seria forte!

- Vem aí William…Eu estou a chegar lá! – Ela avisou sorrindo de olhos fechados.

- Venha-se, meu amor…- Ele incentivou-a. – Para mim…só para mim…- Voltou a pedir.

- Finalize dentro de mim! Por favor! – Ela pediu.

Dentro dela? Na realidade as sensações de William eram desordenadas e o pensamento caótico naquele momento. Isso seria tão bem vindo!

Ele desenfreou o corpo e sobretudo a mente.

Victoria sentiu-se atingir o topo da elevação e correr sobre o planalto!

- Oh, Deus! William! - Ela gritou espetacularmente, apertando-lhe o ombro esquerdo com força e beliscando-lhe a carne.

William sentiu-a retesar-se à volta dele sugando-o, levando-o a um clímax intenso que lhe fez perder a noção de si mesmo, perdido nela, esgotando-o.

Era estelar!

Ela apertou o corpo dele com as pernas, prendeu-o dentro de si e ficou a tremer em réplicas…

O rosto dele era de satisfação. No dela havia gratidão!

Momentos depois ela movimentou as pernas soltando-o.

Ele permaneceu sobre ela durante algum tempo a normalizar a respiração. A cabeça apoiada sobre o travesseiro, encostada ao lado esquerdo do rosto dela.

Com o corpo de William no meio das suas pernas fletidas, ela sentia-se deliciada com o toque e o calor da pele dele ao longo do corpo. Mesmo nas partes onde o tecido da camisa ainda se interpunha entre eles. O cheiro familiar e inebriante da transpiração… Beijou-lhe o pescoço transpirado e colocou a mão direita na cabeça dele afagando-a carinhosamente. Adorava dar-lhe mimo depois dele a ter possuído. Amava-o ainda mais no fim de cada sessão em que ele a deixava completamente saciada. Como poderia não amá-lo ainda mais depois disto?

Ele adorava que ela fizesse aquilo. Aquele gesto simples tinha sobre ele um efeito confortante inexplicável.

Ela pensou que esta era uma espécie de outra primeira vez. Uma renovação, um reinício.

Passados uns instantes ele saiu de dentro dela e deitou-se de costas na cama ao seu lado esquerdo.

- Desculpe… - Ele pediu quando conseguiu falar.

- Pelo quê, meu amor? – Ela perguntou elevando o corpo e colocando-se de lado apoiada no cotovelo para olhar para ele.

- Se fui demasiado brusco… eu não pensei em si…

- Pareceu-lhe que eu me sentia incomodada?

- Não… - Ele respondeu pegando com a mão esquerda numa madeixa de cabelo dela e enrolando-a no dedo indicador.

- Então…E se eu estivesse desconfortável teria dito, não?

- Claro. Mas foi um pensamento que me ocorreu, agora, de repente. É a primeira vez que o fazemos depois do parto…Mas eu estava louco de desejo para vos ter outra vez…

- E eu estava doida para vos sentir em mim de novo. Só pensei que isso podia acontecer logo à noite…

Ele sorriu.

Ela continuou:

- Mas assim foi bastante mais surpreendente… e excitante…

Beijaram-se.

- Foi... – Disse ele. – E eu não podia aguardar até logo…Mas não esperava que você quisesse… tudo…

- É mais gratificante assim! E as minhas regras ainda não voltaram, eu ainda não devo poder conceber novamente…

William entendeu a lógica subjacente, embora não tivesse a certeza de que ela estivesse certa…

Victoria continuou:

- Não há nada mais belo do que isto! Nada mais belo do que você!

- E nunca existiu nenhuma mulher que eu pudesse amar e desejar mais do que você, Victoria!

Acariciando-lhe o rosto com a mão direita e perscrutando minuciosamente a beleza de cada vinco do rosto dele, ela disse:

- Não há nada melhor do que quando você me toca por dentro…

Beijaram-se de novo.

- Vou ter de chamar a Skerrett, o meu cabelo deve estar uma lástima, tem de ser desembaraçado e já começou a secar… - Victoria disse de volta à realidade da situação.

- Você está linda! Como sempre…

- E há uma bagunça molhada para secar neste quarto… - Ela acrescentou sorrindo.

A resposta que chegou de Leopold era positiva como se nada tivesse acontecido no passado. William tinha razão!

Poucos dias depois chegou Leopold!

Victoria esperava-o sozinha nos seus aposentos para tornar as coisas mais íntimas e mais fáceis de gerir. Recebê-lo na sala do trono seria demasiado formal e constrangedor. Fizera isso quando ele viera a Londres dizer barbaridades sobre o seu casamento, mas nessa altura precisava da majestade que o trono lhe dava para se impor sobre a vontade do tio. Um trono que William tão carinhosamente fizera substituir porque o do seu velho tio William IV era demasiado alto para ela!

Leopold foi anunciado e entrou sorrindo, embora fosse notório que o fazia para disfarçar o nervosismo.

Dirigiu-se a Victoria dizendo:

- Minha sobrinha!

Enquanto ele beijava Victoria na face ela retornou:

- Tio Leopold.

- Parabéns à jovem mãe! Não imagina como fiquei feliz quando recebi a sua carta e… o convite…

- Obrigada! Fico feliz que tenha aceitado.

- Eu gostaria muito de conhecer a sua filha, também é minha sobrinha, e calculo que seja um bebé adorável…

- Ela é!

Ficaram uns segundos em silêncio. Então para quebrar o momento Victoria perguntou, apontando para um canapé:

- Não se quer sentar?

O rei da Bélgica acenou afirmativamente com a cabeça.

Victoria sentou-se e ele imitou-lhe o movimento.

Leopold achou que não podia mais evitar aquela conversa. Começou:

- Victoria, minha querida, você sabe que eu sempre quis o melhor para si…

- Eu sei tio. – Ela respondeu com sinceridade na voz.

- Por isso…Você sabe…Eu fui renitente em apoiar o seu casamento com…Lord Melbourne. Existiam todas as contrariedades, que você também conhece…Mas hoje eu já ultrapassei esse facto e eu acho que eu talvez tenha exagerado…Bem, eu queria pedir-lhe desculpa…

- Sabe, você só está aqui porque o meu marido me pediu para que eu o convidasse… - Victoria esclareceu vincando a expressão "meu marido".

Leopold abriu ligeiramente a boca, surpreso.

Ela continuou:

- Se fosse apenas por mim, não me teria lembrado de vos convidar. Mas porque William é um homem bom, sensato e com mais capacidade de perdoar do que eu, falou comigo sobre si e mostrou-me como o gesto mais nobre e cristão seria eu fazer alguma coisa para que pudéssemos reatar o nosso relacionamento.

Leopold estava sem palavras. Afinal a ideia do convite não tinha sido da sobrinha e, além disso, ainda tinha de suportar o facto de ter sido uma ideia de Melbourne.

Victoria terminou:

- No entanto, eu considerei que ele tinha razão e senti em mim também essa vontade, de que pudéssemos retomar a nossa relação suspensa. Afinal já passou muito tempo…E, antes da questão do casamento, nós fomos muito próximos…

Leopold sentiu-se mais tranquilo. E tinha de dizer algo simpático. Com o qual até sentia que concordava neste momento:

- O seu marido parece ser mesmo um bom homem!

Victoria sorriu.

Leopold retribuiu agarrando as mãos dela.

Ambos notaram que ele tinha acabado de reconhecer qualidades em William.

- Bem, agora eu gostaria de ver Alice. – Leopold pediu, para terminar a conversa e, enquanto se levantava, acrescentou: - E também Lord Melbourne…

Victoria levantou-se do canapé e informou-o:

- Alice está no berçário, eu vou mostrar-lhe, e William deve estar no jardim…

William estava, de facto, no jardim. Neste momento, de pé junto do lago observando os cisnes. Saíra do palácio, pois além de querer deixar Victoria sozinha para se reconciliar com o tio também considerava que se Leopold quisesse falar com ele tinha de o procurar. Não lhe ia facilitar a tarefa com um encontro casual num qualquer corredor do palácio.

Após ter conhecido Alice no berçário, Leopold apareceu sozinho ao encontro de William e, um pouco constrangido, disse:

- Lord Melbourne…

- Vossa Majestade!

- A minha sobrinha disse-me que o encontraria aqui…

- Já me encontrou, então…Espero que tenha feito uma boa viagem.

- Ah, sim, eu fiz…Vim agora do berçário. Dou-lhe os meus parabéns, tem uma filha adorável…

- Obrigada, Majestade!

Leopold ganhou fôlego e depois continuou:

- Lord Melbourne, eu acho que lhe devo um pedido de desculpa…Da última vez que nos vimos eu descontrolei-me, disse coisas que não devia…Mas eu só queria o melhor para Victoria e você sabe, tão bem como eu, que havia muitas condicionantes entre vós…

William suspirou e disse:

- Embora a sua posição me dificultasse o casamento com a sua sobrinha, e ainda que ela se estivesse a tornar extremada, acredite que, no fundo, eu compreendi o que o movia… Hoje nós já estamos casados, já temos uma filha… Já não há motivo para que não se possa superar esse momento do passado.

- Eu também acho que não… - Leopold concordou aliviado e continuou: - E…também agradeço que tenha promovido a reconciliação entre mim e Victoria…Ela contou-me…

- É como lhe digo, já não há motivo para manter a distância. – William rematou.

O pintor Charles Robert Leslie tinha perguntado a William se podia pintar o batismo. Ele colocou o assunto à decisão de Victoria que concordou que o artista o fizesse.

O vestido de batismo de Alice foi encomendado em cetim branco adornado com rendas finas de Honiton, a mesma localidade que tinha fornecido as rendas do vestido de noiva de Victoria.

Mas a peça mais esplendorosa, encomendada propositadamente para o batismo, foi a Lily Font, uma fonte batismal em prata dourada pedida aos ourives Edward Barnard and Sons. Estruturada como uma taça com pé, na base distribuíam-se três "putti" sentados a tocar arpa e o bordo da taça estava adornado com nenúfares, símbolo da pureza.

O batismo aconteceu à noite na sala do trono. Este foi removido para a ocasião e foi substituído por um altar temporário feito a partir de uma placa proveniente da Capela Real. A fonte foi colocada em cima de uma mesa do tempo de George IV e distribuíram cadeiras da mesma época.

A cerimónia foi presidida pelo Arcebispo de Cantuária e a água usada era proveniente do rio Jordão.

Estavam presentes os padrinhos: Emily Palmerston e Frederick Lamb, a duquesa de Kent, o duque de Sussex, a rainha viúva (Adelaide) e o rei Leopold. Também os cônjuges destes: Lord Palmerston, Alexandrina e a duquesa de Inverness. E ainda outros convidados entre os quais Robert Peel e o duque de Wellington; Frances e Robert Jocelyn; Emma Portman, a duquesa de Buccleuch, Harriet Sutherland e os respectivos maridos; e Lehzen.

Charles Leslie foi admitido na cerimónia para fazer um esboço a partir do qual pintaria o retrato do batismo, mas o artista teria de continuar a fazer estudos sobre a bebé, a rainha e os padrinhos nos meses que se seguiriam.

A bebé foi nomeada Alice Victoria Elisabeth. Alice era o nome preferido de William. Victoria era o nome da mãe e poder-se-ia dizer que também homenageava a avó materna. Elisabeth era o nome da falecida mãe de William, com quem ele, ao contrário de Victoria, tivera uma relação próxima.

Seguiu-se um jantar.

Mais tarde, depois de já todos terem saído, William resolveu passar no berçário para ver Alice antes de ir dormir.

Quando se aproximava da porta teve a sensação de que um anjo cantava em alemão no berçário:

"Guten Abend, gute Nacht,
mit Rosen bedacht,
mit Näglein besteckt,
schlupf′ unter die Deck!
Morgen früh, wenn Gott will,
wirst du wieder geweckt..."

("Boa noite, boa noite,
com rosas coberta,
com cravos adornada,
deslize sob as cobertas.
Amanhã de manhã, se Deus quiser,
você vai acordar mais uma vez. …")

William sorriu e não entrou.

Quando Victoria chegou ao quarto, em camisa de dormir e robe, ele já estava metido na cama recostado nas almofadas com um livro aberto na mão.

Ao vê-la entrar ele fechou o livro que colocou-o em cima da mesa-de-cabeceira.

Ela despiu o robe, que atirou para cima de uma cadeira, descalçou os chinelos e lançou-se-lhe nos braços ficando deitada sobre ele.

William envolve-a pela cintura e disse:

- Pareceu-me ter escutado um anjo a cantar no berçário…

Ela levantou a cabeça para olhar para ele e perguntou sorrindo:

- Você ouviu-me cantar para Alice?

Ele movimentou a cabeça afirmativamente.

- É uma antiga canção popular alemã que a Lehzen costumava cantar para mim. E você não entrou?

- Não, eu quis deixá-la sozinha a desfrutar da nossa filha…Eu já passo muito tempo no berçário…

- Mais do que eu você quer dizer…

- Sim, mais do que você… Mas isso é porque a nossa filha foi um sonho impossível para mim durante muitos anos e eu tenho um passado de perda de filhos que você não teve…Então, eu preciso muito dela…

Victoria beijou-o ternamente e disse:

- Eu não desejei a nossa filha tanto quanto você, não passo muito tempo no berçário, mas eu gosto muito dela…

- Eu sei, Victoria!