E tudo é sempre agora. As palavras se distendem,
estalam e muita vez se quebram, sob a carga,
Sob a tensão, tropeçam, escorregam, perecem,
Apodrecem com a imprecisão, não querem manter-se no lugar,
Não querem ficar quietas.
- T. S. Eliot
Era uma sensação diferente, ouvir o barulho dos saltos contra o piso amadeirado do Átrio depois de tanto tempo; passar pela fonte medonha e lembrar-se de quantos cigarros já fumou sentada junto a ela, ou quantas horas extras renderam delícias quando Augustus visitava-a às escondidas. Valkiria passou a língua pelos lábios antes de chamar o elevador e aguardar com toda a dignidade o retorno ao gabinete de Crouch; não havia espaço para nostalgias. A astúcia da resistência começava a incomodar a loira, e era melhor retornar ao seio deles de uma vez para ser capaz de cortar o mal pela raiz e abrir espaço para o governo definitivo. Já não podiam aguardar mais, especialmente depois da estapafúrdia profecia.
Quatro anos sem entrar naquele lugar em horário de expediente e a quantidade de rostos desconhecidos que a cercaram dentro do elevador era imensa. Apenas uma feição se destacava entre as outras, e o olhar outrora vivo de Elizabeth Bones demorou-se analisando Valkiria como se o reconhecimento pudesse traí-la; não que a alemã tivesse mudado tanto, mas certamente muitas coisas se passavam na mente da senhora agora que a deixavam confusa e sem saber se podia confiar até em si mesma.
- Bones. – A loira disse a ela num cumprimento e sorriu enfim, acabando com a agonia do momento.
- Oh, é você mesma, Adler! – Ela sorriu, o rosto mais enrugado e sulcado do que Valkiria se lembrava. – Irá retornar ao Ministério, então?
- Na verdade agora é Rookwood. – Corrigiu num murmúrio constrangido, se aproximando de Bones. No fundo ainda preferia o nome de solteira e aquelas confusões a cansavam. Prosseguiu, retomando o tom afetado: - Irei conversar com Crouch, não é nada certo ainda, não sei se estou preparada para deixar a companhia de balé e meu filho pequeno. Você deve ter ouvido...
A voz no elevador anunciou o segundo nível, interrompendo a pequena mentira conveniente que ocultava as sinceras motivações da loira. Valkiria saiu logo após Bones, acompanhando sua recém-adquirida vagareza ao caminhar.
- Rookwood... então eu estava correta, não é mesmo? Quando brinquei com você sobre agradá-lo, tantos anos atrás... engraçado que me lembro disso como se fosse ontem. Bem, certamente eu ouvi algo sobre você em tom de fofoca, mas minha cabeça não é mais a mesma e não posso dar atenção a essas falas pequenas. Ouvindo de sua boca eu sei que me recordarei agora. Quanto ao filho, te digo que criei Edgard, Andrew e Amelia trabalhando aqui, e são os melhores filhos que uma mãe poderia desejar. Já quanto ao balé, eu sinceramente acho que o trabalho com os papéis combina mais com você!
- Obrigada, Bones, você é sempre tão solícita!
Valkiria estendeu a mão para a mulher, tentando despedir-se dela o mais rapidamente possível quando chegaram até a porta de seu gabinete. No entanto, Bones puxou-a para um abraço e desejou a ela tudo aquilo o que desejava para si mesma. A guerra havia deixado a velha terrivelmente sentimental e temerosa, e se a outra fosse desejar-lhe qualquer coisa em resposta, seria que seus filhos se mantivessem longe de confusões e de atos temerários. A loira sabia que a definição de "melhores filhos" daquela gente incluía uma boa dose de insubordinação e desrespeito.
Mas, ainda uma vez, não havia espaço para pensamentos breves sobre coisas pequenas e sem importância. Pouco tempo depois ela era chamada formalmente para adentrar o escritório do chefe do Departamento de Execução das Leis de Magia, e estranhamente Millicent Bagnold já ocupava uma das cadeiras em frente à mesa de Crouch. A mulher empertigada observou Valkiria de baixo para cima antes de se levantar e cumprimentá-la com uma formalidade tão glacial quanto a da loira. Para uma populista, a alemã pensou, ela era demasiado orgulhosa e esnobe.
- A Sra. Bagnold é o meu braço direito agora, Sra. Rookwood, espero que vocês se dêem bem. – Crouch anunciou, perante as introduções.
No entanto, as esperanças de Valkiria não condiziam com as dele.
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Tudo estava silencioso demais quando abriu a porta da mansão. Valkiria passou a percorrer o primeiro andar com um leve mal-estar, Augustus ficaria em casa naquele dia, e geralmente quando permanecia uma tarde inteira a sós com Caesar, o mínimo que ela encontrava ao retornar era o caos instaurado em seu lar. Paredes riscadas, objetos quebrados pelo chão, pergaminhos flutuando, brinquedos animados soltos pelo corredor; porém nada daquilo era visto.
As fotografias se moviam solitariamente sobre estantes e lareiras, todas tiradas e expostas somente para afirmar o quão perfeitamente normal era sua família. Em uma moldura, o pequeno bebê olhava curioso e esticava a mãozinha tentando apanhar a lente que o retratava, então ria de alguma coisa aleatória e esquecida; em outra o irlandês conduzia a alemã em uma dança lenta, certamente bonita, em alguma comemoração que foram juntos e era com certa vergonha que ela se via sorrindo sinceramente enquanto girava nos braços dele, entre outras várias cenas frugais, perfeitas e inócuas.
Nenhuma música tocava e nenhum filho tagarelava inocentemente. Apenas o silêncio, a organização e a paz reinavam.
Saiu para os jardins e cerrou os olhos perante o sol forte para averiguar se estavam por ali aproveitando o dia ou voando de vassoura. Nada. O coração já retumbava aos ouvidos deixando-a tonta; racionalmente sabia que havia uma explicação simples e tranquila para aquilo e que logo teria novamente a presença deles a lhe aporrinhar, mas era a remota possibilidade de algo grave ter acontecido que fazia com que ela tremesse de leve quando entrou na sala de estar e se postou de frente para o retrato dos avôs de Rookwood.
- Gaius, Ailís, onde eles estão? O que houve?
- Acalme-se, mulher! E boa tarde, primeiramente, sentimos sua falta, sabia? Antigamente você conversava mais conosco... – Gaius tomou a frente, com um certo olhar de desdém pela preocupação dela.
- Eles estão no porão com Reiniger, Valkiria. – A esposa dele interveio rapidamente, mais compreensiva com a loira. – Está tudo bem. Mas devo concordar com meu esposo, há tempos não ouvimos sua voz. Deveria tentar relaxar um pouco, até onde eu saiba estão do lado que está ganhando, não é mesmo?
A alemã realmente queria sair dali direto para o porão sem ter que ficar presa naquelas conversas amenas. Mordeu os lábios, formando um sorriso levemente torto no rosto apolíneo antes de responder, invocando boa parte de sua paciência:
- Estamos, Ailís, mas nada está ganho ainda. É bom permanecer em alerta e trabalhando pelo futuro. Quando tudo for certo eu me darei ao prazer, de passar mais tempo com vocês.
Gaius cochichou algo no ouvido da esposa, no entanto ela o repeliu com um leve tapa no peito, fazendo-o rir e permanecer calado em seu canto. Com olhos de santa compreensiva, a avó de Augustus falou:
- Eu entendo, você estar afoita para vê-los, também... mas, Valkiria, – ela interpôs antes que a loira se afastasse, – por que nunca mais usou o colar que meu neto te deu? Ele me pertenceu também, sabia? Seria muito bom ao menos vê-lo em seu pescoço mais vezes, significa muito para mim.
- Eu irei me lembrar com mais carinho dele a próxima vez que me vestir, Ailís. Com a licença de vocês. – Reverenciou, e finalmente conseguiu se retirar.
Na medida em que descia as escadas escuras até o porão o timbre grave de Reiniger, misturado à voz rouca do marido e às exclamações infantis do filho se fazia ouvir com mais volume e, quando alcançou o lugar onde os três formavam um quadro bizarríssimo, eles estavam demasiados absortos em conversa para notarem sua presença.
- Por Loki, vocês! – Falou alto e irritada, se anunciando de modo que os dois adultos olharam-na surpresos e a criança encolheu os ombros e largou na hora o que tinha em mãos.
Ela se aproximou furiosa e tomou as mãos do filho nas suas, porém não pode reclamar de nada quando constatou que elas estavam devidamente enluvadas. Apoiou-se na mesa e respirou fundo, ainda que o cheiro de podridão invadisse suas narinas, ela ignorava-o junto com o corpo do morto-vivo aberto, exposto e ligeiramente pulsante abaixo dela. O coração que bombeava fraca e inutilmente estava fora do lugar, posto que o filho simplesmente largou-o quando a viu.
- Não vejo o que estamos fazendo de errado, Valkiria! Há algum mal em Caesar conhecer a anatomia de um cadáver e ouvir sobre o fabrico de Inferi? Seu marido é genial, e eu não me incomodaria se seu filho seguisse os mesmos passos! – Reiniger falou, em tons de avô que censurava severamente a neta que sofria de algum ataque histérico.
- Não é isso! É só que... – o olhar dela alcançou o do marido, que lhe lançava um sorriso torto como se soubesse perfeitamente o motivo do pequeno ataque dela. – Não importa.
Augustus retirou as luvas das próprias mãos e se aproximou dela, abraçando-a e beijando-a na testa com o sorriso ainda brincando nos lábios, o que a fazia interpretá-lo como um cínico.
- Da próxima vez eu te deixo um aviso, assim você não fica preocupada imaginando o pior, tudo bem?
- Não é isso! – Ela prosseguiu em negação insistente, olhando-o incomodada perante o silêncio que se seguiu nos próximos segundos antes dela se voltar para o filho e encontrar a desculpa para sair dali logo: - Caesar, você tocou em algum livro hoje?
- Eu... o papai e eu... ele disse que eu podia não fazer nada hoje... – o menino hesitou, tentando encontrar as justificativas para a arte feita.
- Bem, nem sempre seu pai tem razão. Vem comigo. – Pegou-o no colo somente para evitar que o garoto empacasse na escada e se retirou dali com o máximo de orgulho que conseguira.
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- Quando?
- Não hoje, Valkiria.
Ela bufava perante a negativa, ele também olhava-a com impaciência.
- Por que a pressa? Já decidiram por alguém?
- Não, mas quanto mais cedo nos livrarmos dele, melhor. Você não entende?
- Não, não entendo. Você realmente acha que Scrimgeour tem algum poder?
- Eu estou lá dentro, Augustus, eu sei o quão terrível é aquela Bagnold, Crouch sem ela não é absolutamente nada, mas há algo nela que me incomoda profundamente, como se ela fosse uma influência poderosa sobre ele. Eles tramam muito, me parece que estão tentando provar o quanto são capazes de se sobreporem a nós e instituir o que pensam muito mais ofensivamente. Scrimgeour obviamente apoia...
- E daí?
Ele perguntou de maneira hostil, e observou o lábio dela tremer levemente antes que ela cerrasse os olhos.
- Você ainda pensa que é fácil? Se é, por que não conseguiu dominar o Departamento de Mistérios ainda?
- Uma coisa é a política, Valkiria, outra coisa são os Mistérios... não confunda...
- O que você quer dizer com isso?
- Que pouco importa quem governe com leis, é a magia que prevalece. Você é uma bruxa, por Merlin, deveria saber que essas convenções todas que você se mata para manter e controlar são lixo perto do poder do Lorde! Eu vou conseguir o que quer que ele precise, mas é muito mais complicado do que fazer médias diplomáticas, querida.
- Não encoste em mim!
Ela repeliu o toque dele enfurecida. Por algum motivo ainda via cinismo nas aproximações dele, mesmo que o sorriso torto fosse exatamente o de sempre. De todos os anos que passaram juntos, com exceção do período da gravidez, aquele momento estava sendo o pior. Desde que retornara ao Ministério, o estado dos nervos de Valkiria era crítico, e há semanas Augustus era repelido daquela maneira por ela.
- Profecias são poderosas também, não se esqueça. – A loira completou, em um murmúrio.
Ele soltou um muxoxo desdenhoso. Perdera a vontade de transformar qualquer pensamento em palavra, uma vez que todas elas seriam rebatidas de qualquer maneira.
- Não pode passar do próximo fim de semana, Rookwood, é melhor garantir o poder do Ministério do que sermos...
- Tudo bem, Sra. Rookwood! – Interrompeu, conclusivo.
Eles se entreolharam em silêncio por longos momentos antes que ela se levantasse e caminhasse até o espelho, começando a arrumar os cabelos como se tivesse passado por uma baforada de vento, quando na verdade eles estavam perfeitos.
- Chamarei Sig para jantar conosco no sábado, acho um dia muito propício.
Augustus cobriu o rosto com a mão por um momento, esfregando os olhos no final como se aquilo pudesse fazê-lo compreender melhor a lógica da esposa. Optou por não questionar, em todo o caso.
- Excelente, querida, chame. Caesar vai gostar de ver os tios dele.
Valkiria rolou os olhos e cerrou as feições novamente, mantendo-se em silêncio. Era cinismo novamente o fato dele não entendê-la, quando nunca antes apresentara nenhum tipo de dificuldade? Não se importaria em fazer nada sozinha, começando por dormir aquela noite.
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Eles seguravam da mesma maneira o copo de whisky de fogo na mão direita, com o cigarro apoiado entre o indicador e o médio enquanto o silêncio pesava entre os cinco adultos presentes na sala de estar após a janta. Caesar era o único que falava, incessantemente, em um canto mais afastado com Ziggy, o elfo que tremia ligeiramente sem entender exatamente se a ordem era ficar ali ouvindo o senhorzinho ou fazer algo das coisas fantásticas que ele narrava. A loira depositava de leve a cinza em um cinzeiro; o irlandês tragava profundamente a fumaça; o loiro batia o calcanhar incessantemente no tapete felpudo; o grisalho observava a criança com um sorriso nostálgico no rosto e Igor assistia a tudo pensando em como era bom estar em família.
Madame Karkaroff nunca aceitara muito bem o próprio filho, suas preferências e aspirações. Não sabia se era pelo fato de ser filha de ex-prisioneiros de Grindelwald e ter o primeiro marido morto graças a ele, ou pelo fato de ter a natureza tão fria quanto a Rússia inteira e o espírito praticamente seco depois de décadas de incessantes feitiços e poções rejuvenescedoras, como se buscasse desesperadamente a juventude mal-aproveitada em uma época devastada, fato era que sua capacidade de se importar com o filho era inexistente. Valkiria era, de longe, uma mãe muito mais atenciosa e calorosa com Caesar, e acabava sendo uma cunhada em potencial extremamente agradável, afinal nunca questionara, interferira, julgara ou se metera de qualquer maneira em suas vidas. Era o mesmo com Augustus e Reiniger, então mesmo o silêncio entre eles era confortável.
- O que está acontecendo? – Sigurd, ele sim incomodado, questionou em voz alta e diretamente para o casal quando eles sopravam juntos a fumaça do cigarro em direções opostas. – Há dias vocês andam nesse silêncio, com estas caras horríveis, minha irmã nunca teve olheiras! Pelo menos nunca deixou que elas aparecessem tanto...
Augustus coçou de leve o queixo com o polegar, onde a barba por fazer despontava áspera e chegou a abrir a boca para responder algo pacientemente quando Valkiria adiantou-se, perplexa com a quebra brusca da quietude:
- Entschuldigung? Nichts ist geschieht! Dumm... [1] – ela respondeu com ênfase, abaixando a voz na última sentença e apagando o cigarro no gelo do whisky como se aquela interrupção significasse o fim da noite.
- Ich verstehe seine Sorge. – Karkaroff segurou firme no joelho do companheiro, inclinando o corpo sobre o dele de maneira protetora. – Der Dunkle Lord ist etwas verbergen. [2]
- Und du bist einfach zu neugierig... [3] – Valkiria rolou os olhos, cruzando os braços e passando a bater com o salto da bota no tapete tal qual o irmão.
Quando Sigurd finalmente revidou e Reiniger entrou na conversa, Augustus cansou de ser tão descaradamente excluído e levantou-se do sofá, imitando o gesto da esposa em apagar o cigarro no copo de whisky e entregando-o a Ziggy, dispensando-o, antes de sentar-se ao chão com o filho e passar a mão pelos cabelos dele.
- Faça-me um favor, sim? – Dirigiu-se sério à criança, que vagava o olhar entre ele e os outros adultos falando como se fossem generais em campo de batalha. – Nunca fale em alemão na minha presença. Aprenda, afinal sua mãe não vai te deixar em paz enquanto não aprender, mas use somente quando necessário.
Caesar deu de ombros, entendendo que o problema seria somente aquele, concordou com um gesto afirmativo e voltou a atenção para o que só então o pai percebeu que eram dragões, trasgos, e outras espécies de bestas em miniatura, agitando-se ameaçadoramente e emitindo gritos proporcionais aos seus tamanhos. O filho não estava simplesmente a tagarelar com Ziggy, mas a inventar uma história com os pequenos personagens. Ele elevou um pequeno centauro de feições animalescas e colocou-o na mão do pai com naturalidade.
- Você fica com este. Se quiser o Olho-de-Opala, os duendes e, hum... – ele observou as peças por um momento antes de empurrar para ele um trasgo particularmente desanimado, – mais este aqui, fica com eles! – Concluiu.
Augustus não evitou rir, observando o garotinho começar a posicionar seu pequeno exército com toda a calma do mundo enquanto os nórdicos continuavam a gritar logo ao lado. Era um portal de ar fresco em um ambiente completamente abafado.
- Isso não é roubo? – Indagou descontraído, entrando no jogo do pequeno.
- Não, na próxima você escolhe. – Respondeu como se fosse uma obviedade. – Seu exército está pronto? O meu vai ser liderado pelo Lord Sombrio e ele não terá piedade enquanto você não devolver o que é meu! - Caesar posicionou um gigante de armadura na frente das outras pecinhas e anunciou cheio de pompa.
- O que é seu? – O pai questionou jocoso, fazendo o menino olhá-lo como se tivesse acabado de levar um balde de água fria sobre a cabeça.
- Ah... – ele perscrutou a sala, buscando alguma inspiração para responder de maneira digna, e acabou parando o olhar nas quatro pessoas que ainda exaltavam-se em discursos em alemão. – O coração da donzela!
- Donzela?
Ele deu de ombros, desanimando visivelmente perante a falta de compreensão natural de Augustus. Não era assim que a brincadeira deveria ser.
- Da mamãe?
O irlandês riu tão alto que os nórdicos se calaram por menos de um segundo para tentar descobrir o motivo de tamanha hilaridade, concluindo que não deveria ser nada, voltaram a conversar calorosamente.
- Olha, filho... – ele hesitou um instante, considerando melhor não tentar explicar os vários motivos pelos quais a mãe dele passava longe de representar a figura de uma donzela, preferiu usar aquilo em proveito próprio: - Ela não está brincando conosco. Acho que você deveria chamá-la.
- Ela não vai nem olhar pra mim. Ela não olha pra nada, quando fica desse jeito. – Ele murmurou, com cada vez menos ânimo.
- Então chame seus tios e eu cuido da sua mãe, pode ser? – O homem piscou para o filho e sorriu abertamente, colocando-se de pé e puxando-o logo em seguida, fazendo cócegas em sua barriga para tentar fazê-lo sorrir também.
- Espera!
O pequeno exclamou, voltando para pegar alguns dos bonequinhos nas mãos e então seguir entre os adultos que pareciam estar levemente mais dispersos em alguma reflexão; ainda que Reiniger parecesse estar prestes a estuporar Valkiria, com rancor no olhar, e Sigurd estivesse realmente concentrado em tentar entender alguma coisa com seus próprios botões enquanto era abraçado por um Igor superprotetor. Caesar se colocou entre os tios e deu para o russo um Dragão Leonino e, para o loiro, um Agoureiro, passando a tentar convencê-los de brincar enquanto Augustus se aproximava o mais sorrateiramente possível da esposa, tocando-a no pulso, um gesto para tentar afastá-la dos outros.
- O que está havendo aqui, Valkiria?
Ela olhou enigmaticamente para ele, meneando a cabeça lentamente antes de voltar a se dirigir ao irmão de maneira hostil, ignorando completamente a figura do filho na frente dele.
- Wusstest du das Sein Minister wird sterben heute nacht? – Ela iniciou o gesto de retirada, virando-se para Augustus, e, no entanto, murmurando ainda de maneira audível: - Mit Glück, der Auror wird auch sterben. Und Crouch, und dass schreckliche Frau... [4]
- Ich werde nicht zulassen. – Sigurd respondeu com seriedade. - Das ist nicht richtig. [5]
Por um momento o irlandês imaginou que fosse ver a esposa cuspir no irmão, mas então ela somente trocou um olhar silencioso e desafiador com Reiniger e soltou o pulso de sua mão, passando por ele como se fosse insignificante. Augustus não resistiu seguir ao encalço dela, enquanto Caesar olhava para tudo confuso.
Sigurd analisava em silêncio o pequeno Agoureiro em sua mão cantando baixinho, e Karkaroff tentava falar algo para ele em um tom que o menino não entendia. Menos de um minuto depois eles desapareceram em um estalo, e então Reiniger puxou-o delicadamente e ele encarou os olhos do bisavô com mais curiosidade do que receio pelo que acabara de presenciar.
- Está tudo bem, vovô? O que aconteceu?
- Sua mãe deveria ter se mantido em silêncio, só isso...
[1] Perdão? Nada está acontecendo! Estúpido...
[2] Eu entendo a preocupação dele. O Lorde das Trevas está escondendo algo.
[3] E você é muito curioso...
[4] Você sabia que seu Ministro morrerá hoje à noite? Com sorte, o auror morrerá também. E Crouch, e aquela mulher horrível...
[5] Eu não vou permitir. Isso não está certo.
Die Irrungen = Os Erros
