Capítulo Vinte e Nove
Falling Into Place
(Voltando ao Normal)
Era bastante claro que ninguém queria ficar sozinho, mas ninguém falava muito. O resultado era que todos os alunos da Grifinória estavam no Salão Comunal, mas além dos murmurinhos baixos, estava tudo tão quieto, que Draco achava que conseguiria ouvir o som de uma varinha caindo.
Até mesmo quando Potter e Weasley voltaram, acompanhados por McGonagall, ninguém falou muito; em vez disso, todos se voltaram para a Chefe da Casa.
— As aulas da tarde também serão canceladas — disse ela e sua resposta foi o silêncio. — Lanches serão enviados à Torre na hora do almoço, mas o jantar será no Salão Principal, como sempre. Pedimos que fiquem aqui até que eu venha buscá-los.
— Professora — chamou Parvati, parecendo chateada —, eu queria ver Padma...
— Peço que não o faça, senhorita Patil — disse McGonagall gentilmente.
— Professora, e se o monstro vier até aqui? — perguntou uma das garotas do time de Quadribol de Potter. Draco não ficou surpreso com a pergunta; todos tinham percebido que, até agora, três vítimas do monstro eram da Grifinória. Ouvira os burburinhos a manhã toda. Ao seu lado, a Garota-Weasley se remexeu, e um dos gêmeos colocou os braços ao seu redor.
— Então aconselho que saiam daqui — disse McGonagall —, mas não acho que chegará a tanto. — Olhou ao redor, como se perguntasse se mais alguém tinha dúvidas.
— E amanhã? — perguntou Weasley. — Vamos ter aula? — Era pergunta tão típica de Granger, que Draco não pôde evitar imaginar se esse era o motivo de ele tê-la feito.
— Nesse momento, parece que a escola continuará aberta. — Draco sentiu um gosto azedo. — O Conselho está preparando tudo com o diretor, preparações sobre as quais os manterei atualizados, e o Ministério encontrou um substituto para as aulas de Feitiços do professor Flitwick. Nós, isso é, os professores, provavelmente os acompanharemos para as aulas e de volta, mas isso ainda será discutido e, de novo, eu os manterei informados. — Olhou ao redor do Salão Comunal e assentiu uma vez, de um jeito quase-triste-quase-orgulhoso, antes de ir embora.
O burburinho das conversas voltou, mas não era alto, e Weasley e Potter passaram pelo amontoado de alunos para se juntarem a Draco e aos outros Weasley. Draco ficou aliviado por ver que Weasley estava com sua mochila — a que Granger pegara emprestada. Não se surpreenderia se eles a esquecessem.
— Aonde vocês foram? — perguntou a Garota-Weasley, soando quase desconfiada.
— Ao banheiro da Murta — respondeu Potter em voz baixa. — Achamos estranho Percy estar lá...
— O Percy, no banheiro das meninas? — perguntou Weasley Dois, arqueando uma sobrancelha. Sua mão ainda estava no ombro da Garota-Weasley, e ela parecia precisar; ela estava mais pálida do que Draco já vira e não parecia capaz de desviar os olhos de Potter.
— Acalme-se, Ginny — disse Weasley. — Só queríamos dar uma olhada...
— O que encontraram? — perguntou ela com a voz trêmula.
— A Murta — disse Weasley, torcendo o nariz. Draco pegou sua mochila e olhou dentro. O mapa e a capa não estavam lá (assumiu que estivessem com Potter), mas havia alguns livros e um pedaço de papel rasgado.
— Ela foi morta pelo monstro na última vez que a Câmara foi aberta — contou Potter. — E Percy foi atacado lá... parece um padrão. McGonagall disse que vasculharam o banheiro da última vez e que não encontraram nada, mas ela falou que vai conversar com a Murta e que ela e os outros professores vão vasculhar de novo.
— Mas se não encontraram nada da última vez...
— Exatamente — disse Potter, parecendo desgostoso. — Mas McGonagall disse que os ataques pararam depois da Murta, exceto que agora ainda estão acontecendo... talvez algo esteja diferente. Talvez, dessa vez, haverá algo lá.
— A Murta sabe qual o monstro é? — perguntou Draco.
— Não — respondeu Weasley. — Ela não foi muito útil.
— Granger foi. — Draco estudou o papel que ela deixara para eles. — Ela acha que é um basilisco. — Ao seu lado, a Garota-Weasley se remexeu. — Seria bom se a Murta confirmasse, mas faz sentido; um olhar letal, mas só se olhar diretamente; caso contrário, será petrificado... é uma cobra, então faz sentido, Potter, você ter escutado... — Passou a página para Potter e Weasley, que se debruçaram sobre ela por vários momentos.
— O canto do galo é fatal — disse Weasley, cutucando a página. — Isso pode ser útil, certo?
— Aí está, Ginny. Vou mandar uma coruja pra mãe, e ela pode mandar nosso galo. — Weasley Um a cutucou, sorrindo.
— Você pode levá-lo na mochila — adicionou Weasley Dois. Eles eram os únicos que pareciam se sentir divertidos com isso; a Garota-Weasley parecia ser a menos impressionada e apenas os olhava.
— E lembra dos galos, Ginny? — perguntou Potter de repente.
— Não — respondeu ela. — Deveria?
— Depois de termos encontrado a Madame Nora, McGonagall falou que alguém matou os galos de Hagrid... não que ela tenha dito que eram dele, mas ele me contou depois, naquela vez que fomos tomar chá, lembra, Ron?
— Sim, lembro — disse Weasley, e a Garota-Weasley também assentiu. Potter balançou a página arrancada.
— Acho que Hermione estava certa, como sempre — disse ele. Draco só conseguia pensar em como ela estivera imóvel naquela manhã na Ala Hospitalar e no quanto ela parecia assustada. Se houvesse a acompanhado não teria, necessariamente, a mantido segura (Astoria, uma Sonserina de sangue-puro, era prova disso), mas e se tivesse? Será que um dia saberiam? A tristeza de Draco se fez notar em seu peito, junto da raiva que sentia por seu pai. Era uma combinação desagradável. — Digo para entregarmos isso a McGonagall no jantar...
— Não para o Dumbledore? — perguntou Weasley Um.
— O pai disse que ele será afastado antes do jantar — disse Draco em voz baixa.
— Dumbledore me disse algo parecido — falou Potter. Ele e Draco se entreolharam. Potter, Draco ficou aliviado ao notar, parecia amargurado e preocupado, mas não parecia culpar Draco.
— Isso é loucura! — disse Weasley. — Não podem mandar o Dumbledore embora!
— Podem — garantiu Draco, infeliz.
— Mas é o que Riddle quer — protestou Weasley. — Sem a proteção de Dumbledore...
— Mas não estamos seguros — disse a Garota-Weasley. — Veja o Percy.
— Estamos mais seguros com ele do que sem — falou Weasley Dois, firme. — Ninguém morreu, o que já é melhor do que da última vez. Veja a Murta.
— Mas sem o Dumbledore — disse Weasley em voz baixa —, a única pessoa que pode fazer alguma coisa é o... — Apesar de não ter terminado o que ia dizer, Draco soube, pelo caminho que seus olhos fizeram e por sua expressão preocupada, que o nome de Potter seria a próxima palavra.
— Lockhart — terminou Potter com um sorriso que ele não parecia conseguir conter. Os gêmeos e Weasley riram, mas a Garota-Weasley não, e Draco sentiu o menor dos sorrisos puxar os cantos de sua boca.
— Estamos condenados — disse ela.
-x-
Os irmãos gêmeos de Ginny tinham ido para o dormitório há muito tempo, mas Potter e seus amigos — menos Granger — ainda estavam sentados ali perto, conversando enquanto comiam alguns sanduíches. Tom focou os ouvidos de Ginny na conversa deles. Ela ficara estranhamente quieta. Imaginou que ela estava exausta por não ter dormido muito na noite anterior, e ainda havia o trauma emocional e tudo o mais. Pobre Ginny. Tom riu em sua mente, mas ela não respondeu. Satisfeito, ele voltou a ouvir.
— ... falar algo na frente deles, né? — dizia Malfoy, parecendo triste. Ele pegou o sanduíche em seu prato, mas não tentou comê-lo. — Ele merece, mas...
— Eu não te culpo — falou Potter, e Weasley assentiu. — Você está bem? Eu vi Snape...
— Conversamos um pouco — falou Malfoy. — Eu quase contei para ele, também, mas... Eu não sei o que ele faria...
— E nós não sabemos quão envolvido ele está — disse Potter. — Ele pode não...
— O fato de ele sequer estar envolvido é mais do que o suficiente pra mim, obrigado — falou Malfoy.
— Não comece a brigar com o Harry — disse Weasley, abaixando o sanduíche.
— Não ia começar — ralhou Malfoy. — Só estou tentando encarar algumas coisas, Weasley, então me desculpe se eu acidentalmente ofendi...
— Meu irmão está na Ala Hospitalar com Hermione — disse Weasley. — Você não é o único que está tentando encarar...
— Calem a boca — disse Potter, cansado.
Tom abaixou a cabeça, temendo que sua alegria aparecesse no rosto de Ginny. Naquela manhã, vira como o pequeno grupo de Potter era funcional, e algumas teorias deles estavam chegando perto demais para seu gosto. Esse tipo de briga era exatamente do que precisava; se conseguisse fazê-los brigar, mantê-los distraído, então seria muito mais fácil fazer as coisas. Perguntou-se se ou como poderia usar Ginny... Talvez pudesse fazê-la começar um rumor sobre Malfoy ou...
Não sei por que você quis um monstro, disse Ginny. Você sozinho já é um monstro.
Ah, você está falando de novo, disse Tom.
— ... precisamos encontrar o objeto em que ele está se escondendo — disse Potter. — Ele não pode estar morando em uma pessoa por todo esse tempo, ou a pessoa teria morrido quando ele veio conversar — desgosto apareceu na voz de Potter — comigo no outro dia. Lembram da coruja do Morton? — Tom guardou essa informação para depois. Cutucadas de medo vieram de Ginny.
Esse é seu plano, né?, perguntou ela.
Não, respondeu. Você terá uma morte longa e demorada, para garantir que a maior parte da sua força venha para mim. Permitir que ela morresse no segundo que saísse dela não ajudaria em nada o seu plano. Teria de tomar cuidado com isso.
Você não vai conseguir nada de mim, ralhou ela. Tom ergueu a mão dela e a enrolou no cabelo, só para provar que conseguiria, e deleitou-se com a tristeza e fúria de Ginny.
— ... encontrar? Disse achar ser um anel, Harry? — Tom perguntou-se se eles estavam falando do anel do seu tio e, se sim, perguntou-se como eles sabiam disso. Ginny tomou vantagem de sua distração para tentar gritar "diário!" e quase conseguiu; no último momento, Tom criou uma jaula mental ao redor do controle de Ginny e a colocou em um canto, onde ela não seria um incomodo. E fechou a boca com tanta força, que sentiu o gosto de sangue. Ginny gritou, frustrada, e balançou a jaula.
— ... o que mais poderia ser — disse Potter.
— Eu sei como podemos descobrir — disse Malfoy. Ele pigarreou e disse: — Dobby! — Potter e Weasley se ajeitaram e olharam ao redor, ansiosos. Quando nada aconteceu, Malfoy pareceu bravo. — Aposto que ele pensou nisso — disse. — Ele certamente tem ordens para me ignorar até que eu me comporte adequadamente. — Olhou para o Salão Comunal com raiva.
— Ele provavelmente nem saberia responder mesmo — falou Potter. — Ele não soube da última vez...
— Dessa vez é diferente — falou Malfoy —, porque eu estou chateado, e Dobby odeia quando estou chateado. Mas não tem problema, eu vou falar com ele de outro jeito.
— Posso tentar mandar o Monstro atrás dele — falou Potter, incerto. — Ou podemos mandar a Hedwig...
— Vou encurralar o Hydrus — falou Malfoy, como se não houvesse escutado Potter. — O pai não vai ter previsto isso, porque ele é um idiota.
— Malfoy não vai chamar o Dobby para você — falou Weasley, parecendo apologético.
— Ah, ele vai — respondeu Malfoy, e Tom acreditou nele.
— E o Dobby vai ajudar? — perguntou Potter. — Sei que ele vai querer ajudar — adicionou quando Malfoy o olhou feio —, mas da última vez...
— Eu já te disse, dessa vez é diferente. — Malfoy ficou em silêncio por um momento, antes de uma expressão calculista aparecer em seu rosto. — E você não estará comigo, Potter; assim, se Dobby se recusar, terei um plano 'b'; vou falar que você foi atacado. — Malfoy pareceu satisfeito e culpado ao mesmo tempo. — Ele vai ceder. Acho que ele gosta mais de você do que de mim; ele sempre foi um pouco estranho. — Malfoy deu um sorrisinho afetado, e Potter e Weasley só riram.
— Então, vai fazer isso no jantar? — perguntou Weasley.
— Vou fazer agora — respondeu Malfoy. — E aí isso tudo pode terminar no jantar; já sabemos qual monstro é e que devemos usar galos, sabemos sobre o banheiro e sabemos que é Riddle... se conseguirmos descobrir no que exatamente ele está se escondendo, podemos contar à escola... alguém tem que ter visto alguma coisa...
— Malfoy, você...
— Você e Potter foram ao banheiro, então você não pode me dizer...
— Cara — disse Weasley, erguendo as mãos —, acha mesmo que nós vamos te impedir? — Malfoy o olhou. Tom xingou silenciosamente; esperara que o impedissem. Isso, pelo menos, lhe daria mais tempo para decidir o que fazer. Potter e Weasley, e até mesmo Malfoy, entenderiam tudo no segundo que esse tal de Dobby mencionasse o diário. Tom não acreditava que alguém soubesse, mas eles pareciam confiantes, e Tom aprendera a não subestimar Potter e seus amigos. — Só ia perguntar se você quer companhia.
— Ah — disse Malfoy. Ele ficou em silêncio por um tempo. — É melhor não. Hydrus já vai ser um pé no saco sem você lá. — Ele e Weasley se observaram por um momento, depois Malfoy fez um gesto estranho e disse: — Irmãos. — Weasley assentiu.
— Leve a varinha — falou Potter.
— É claro, Potter, não sou um idiota.
— Se você vir algum professor...
— Vou contar o que sabemos. De novo, Potter, não sou idiota. — Malfoy sorriu, e Potter fez uma careta para ele. — A gente se vê em uma hora.
E agora, Tom?, perguntou Ginny, arrogante, enquanto Tom xingava e tentava pensar.
Continua.
