29. Um Simples Vestido de Festa

"Então... o que achou?" Lea desfilava de um lado pro outro no apartamento, enquanto Jon admirava-a.

"Linda... maravilhosa!... mas, Lea, não acha que é um pouco demais?"

"O que... demais? Nem está tão decotado assim..."

"Em cima... mas e embaixo? Eu to quase vendo..."

"Por favor Jon, não seja conservador! Já usei tantos vestidos com decotes que dava pra ver os seios, transparências... esse só tem uma abertura em uma das laterais!"

"E que abertura!"

"Não seja bobo, vamos senão chegaremos atrasados"

"E o sr. Monteith?"

"Combinamos de não nos cruzarmos hoje, pra ver se nos esquecem um pouco, aquele dia do Golden Globes meio que exageremos, então hoje vamos ficar meio separados"

"Quero saber o que ele vai achar de você usando um vestido tão provocante como esse"

"Ah, o Cory não é tão conservador e chato como você, ele sempre me elogia quando uso algo assim, diz que fico sensual... fora que ele adora tirar depois"

"Me poupe desses detalhes, eu ando na maior secura ultimamente, mais largado que material escolar no fim das aulas..."

"Ah, vamos achar alguém pra você hoje a noite!"

Lea e seu amigo saíram em direção ao Sag Awards, apesar dos protestos dele, ela estava se achando o máximo, segura e incrivelmente sexy, jamais iria mudar de roupa.

Logo na chegada, a multidão de fotógrafos, como sempre, cobriu-a de flashes. Mesmo eles estarem acostumados em ver as estrelas de Hollywood e seus desfiles com vestidos elegantes, alguns não muitos, sempre tinha um ou outro que causava o 'frisson' da noite, mas naquela noite não era só o vestido, quem estava usando um modelo tão... destacado, também chamava atenção. Lea sempre usava modelos únicos, lindos, elegantes, que realçavam sua beleza, curtos, transparentes, sempre tinham algo diferente, algo que marcava, mas sem dúvida, o dessa noite superou. Os fotógrafos chegavam a se contorcer pra pegar todos os ângulos dela, ela parecia mesmo uma diva com seu vestido esvoaçante pelo vento, o cabelo em um penteado sensual, e o principal destaque... a abertura mostrando mais do que sua perna, chegava quase no limite do final da sua coxa. Alguns fotógrafos tentavam ainda alguma foto ainda mais picante... eles se questionavam se ela estaria usando ou não roupas íntimas, devido a silhueta revelada pelo vestido, por isso, muitos se desdobravam pra fotografar além das poses sensuais habituais que ela sempre fazia.

Alguns minutos depois de Lea, Cory chegou na festa. Ele percebeu um certo alvoroço na entrada, mas não deu muita importância, pois era típico desses eventos com tantas celebridades. No meio de uma conversa entre algumas pessoas, porém ele acabou escutando o porquê daqueles burburinhos...Lea! Todos comentavam sobre o vestido que ela usava, alguns aprovando, outros repudiando, mas o certo era que ela estava presente em quase todos os grupinhos. Ele não entendia, Lea sempre teve bom gosto, gostava sim provocar, inventar, mas nunca fez nada que causasse qualquer tipo de constrangimento ou falatório. Quando Cory avançou o tapete vermelho, logo após ser surpreendido pelos cumprimentos de George Clooney e sua namorada, ele avistou Lea. Ela estava linda, como sempre, ele sorriu como bobo vendo-a distante, mas não demorou muito pro seu sorriso ser coberto por uma nuvem cinza, quando ele desceu os olhos percebendo que ela estava com uma das pernas nuas. Ele foi se aproximando e ficando ainda mais espantado ao ver até aonde ia a abertura do vestido... ia além da coxa dela, quase revelava... Ele teve vontade de correr cobri-la, ainda mais ouvindo o pessoal e seus comentários pervertidos perto dele. Teve vontade de sair batendo em meia dúzia. Aquela não era uma dessas mulheres desfrutáveis que tinha aos montes por aí, principalmente no meio deles em Hollywood... aquela era sua mulher! Ele se controlou ao máximo. Lea não demorou muito pra entrar, e ele foi logo atrás.

Os lugares foram demarcados de forma que Lea e Cory ficaram separados, longes um do outro, como eles mesmos pediram. Cory ficou a noite toda olhando pra ela, não conseguia desviar o olhar, nem sequer prestar atenção no que acontecia, no evento, nas pessoas, só desejava pra aquilo tudo acabar e ele pegar Lea, carregando-a pra fora dali. Ela não precisava se expor assim, como qualquer uma que está desesperada por atenção, pelos holofotes... ela é talentosa, famosa, querida... se vestir assim era como que quisesse ser vista apenas pelo seu corpo, ela era linda, Cory pensava, não entendia o por que dela tomar uma atitude assim. "Com certeza ela exagerou", ele dizia pra si. E as piadinhas sobre a forma que ela estava vestida não terminavam... Cory escutou vários comentários, a noite toda, de gente até que ele nem imaginava que podia fazer isso... várias vezes se pegou quase a ponto de levantar da cadeira e distribuir socos pra todo lado.

"Cory, está bem? Parece tenso" Harry perguntou ao ver o amigo tão inquieto na cadeira.

"Nada... eu só... o que se passa na cabeça de uma mulher maravilhosa ao se vestir como uma vadia?... me diga"

"Calma cara, isso ta só na cabeça de quem pensa bobagem"

"Então está na cabeça de quase todo o salão! Eu já escutei tanta merda..."

"Esse povo não tem do que falar, por isso, nem ligue"

"Nada disso, tem que ficar de olho" Mark entrou na conversa.

"Cala boca Mark, não coloque lenha na fogueira" protestou Harry.

"Eu só to falando a verdade, a mulher dos outros é uma coisa, a da gente tem que se preservar, tem que respeitar o namorado!"

"Mark!"

"Deixa Harry, a mim é uma coisa, ninguém nem sabe, mas sinto por ela mesma, ficar na boca de qualquer um sendo julgada por causa de uma roupa!" Cory olhava pra ela, indignado. "Eu preciso falar com ela, chamem o Kevin, vou sentar no lugar dele". Dois minutos, Kevin saiu e Cory sentou-se do lado de Lea pra surpresa dela.

"Cory, o que está fazendo aqui? Não combinamos que hoje não iríamos nem nos cruzar?" Lea falou intrigada.

"O que passou na sua cabeça quando pensou em vir com um vestido desses pra cá?" ele disse impaciente, bravo.

"Hã? Vestido? O que...?"

"Não acha que essa abertura na perna está demasiada ridícula?"

"Como?"

"Você está parecendo uma dessas atrizes que fazem aqueles filmes de quinta categoria... por favor Lea, você é mais do que isso! parece que ta querendo apelar... passou longe do bom gosto que é sua marca!" Cory despejava furioso, não tanto pelo modelo que a namorada usava, ela estava linda, ele tinha que concordar, mas pelo monte de besteiras que ouviu a noite inteira.

"Por que você está tão bravo...não entendo...só por causa do meu vestido? eu fiz alguma coisa?"

"Não fez, mas ta na boca do povo, ouvi já cada baixaria..."

"E você vai ligar pro que falam? Por favor!"

"Não é essa a questão... não me importo com o que as pessoas falam, mas também não gosto de dar motivo pra que falem mal de mim"

"E alguém está falando de você? Até onde eu sei, eu e você não temos nada, como vão falar de você?" Lea falou sem pensar.

"Não temos nada?"

"Aos olhos dos outros, não! Já que ninguém sabe do nosso namoro, então... pra eles eu sou solteira"

"Solteira, talvez seja isso mesmo... acho que levou a sério mesmo essa questão"

"Não seja sarcástico! É só um vestido, daqui uns minutos eu vou tirar!"

Eles foram interrompidos por Jon, que até então ficou de lado. Alguns fotógrafos que estavam fotografando nas mesas vinham na direção deles. Cory tentou se desvencilhar, mas acabou saindo em algumas fotos e possivelmente em alguma gravação, já que havia também câmeras de filmagem. Não adiantou nada todo o planejamento, todo o cuidado que tiveram antes... foram pegos juntos outra vez!

Cory esperou um pouco a confusão em torno deles diminuir e voltou ao seu lugar.

"Eu te falei" Jon lembrava a Lea.

"Cale-se!" ela xingou-o.

"Pós-festa? Claro que vamos!" a turma foi convidada de última hora pra uma festa após a premiação. Todos ficaram eufóricos, claro que iam. Lea não pensou duas vezes, logo disse que ia, nem sequer pediu a opinião do namorado, se ele queria ir, já que Cory não gostava dessas festas. Ele imediatamente sentiu-se deixado de lado, como se não tivesse importância, como se ela estava mesmo 'solteira' aquela noite. Assim como ela fez por impulso, ele também disse subitamente que ele não ia. O pessoal viu que tinha um clima estranho no ar, e deixaram o casal sozinho.

"Não vai então?" Lea perguntou.

"Eu não vou, você como está 'solteira' essa noite... como não influo nas suas decisões... faça o que quiser!" ele disse mordido de ciúme.

"Não acredito... já sei...é ciúme, não é? Adimita"

"Seja o que for, o que importa é que hoje você está decidindo por si só, não interessa se tem mais alguém contigo, nem que seja sob segredo..."

"Pare de ser tão dramático! Vamos baby, vamos pra festa, chega disso!"

"Hoje já não tenho mais clima pra isso, se quiser vá você"

"Ok, eu vou" ele não acreditou quando ouviu ela afirmar que iria, parecia que havia sido possuída, não era sua namorada aquela mulher na sua frente. Cory deu de ombros e saiu pisando forte.

"Lea, o que foi isso? Por que vocês dois estavam brigando?" Di que viu a conversa de longe, percebendo que discutiam, resolveu intervir.

"O Cory, ta morrendo de ciúmes por causa do meu vestido, ta bravo porque tem gente falando besteiras sobre como me vesti hoje, e mais um monte de coisas, parece que ta na TPM!"

"Pudera né Lea, você exagerou hoje!"

"Até você!"

"Ok, espera aí, vou atrás dele, vi que ele foi transtornado, vou falar com ele" Lea assentiu, mas não esperou por ela, a turma foi pra festa, e ela foi junto, não iria entregar os pontos, ainda estava ofendida, desde quando Cory mandava nela!

"Cory, espera"

"Di, me deixe, eu to azedo, vou embora"

"Calma Cory, ela só está iludida, apesar da roupa, é a nossa Lea"

"Essa é minha esperança... mas hoje chega, esgotei minha paciência, ela ta agindo como se fosse só ela...Di, poxa vida, claro que é só ela pra todo esse mundo de gente, mas pra nós...até parece que eu não tenho importância ...quem se veste assim, sua atitude, quer que teçam os mais variados comentários, pode ter certeza dos piores até, e quem está com ela? Não importa o que vai ter que escutar de graça?" Cory estava transtornado. Di ouvia enquanto tentava de alguma forma acalmá-lo.

"Amanhã é outro dia! Vocês conversam... ei, aonde você vai?"

Ele já ia saindo quando alguns fotógrafos abordaram os dois. Di puxou-o novamente pra perto de si, forçando ele a dar um sorriso. Um meio torto saiu a muito custo. Assim que eles saíram, Cory se desvencilhou dela.

"Cory, não faça nada de cabeça quente!"

"Tarde demais Di" ele sumiu no meio da multidão.

"Di, onde ele foi?" Lea perguntava preocupada.

"Não sei, espero que só arejar a cabeça... Lea, ele saiu mordido de raiva, nunca vi ele assim!"

"Nem eu, não sei o que deu nele!"

Di sorriu ironicamente.

"Ah Di, para, não fiz nada. Agora quando for me vestir vou ter que pedir pra ele? Vou ter que pedir permissão pra sair? Como você quer que eu compita com esse bando de mulheres fantásticas daqui? Eu tenho que aparecer, não posso ser só mais uma"

"Cale-se! Você não é a minha amiga, a hora que a Lea que eu conheço voltar, diga pra ela que ela tem que pensar um pouco antes de magoar as pessoas que ela diz que ama"

"Di, por favor, o Cory é bem grandinho..."

"Estava falando de mim" Di saiu deixando Lea perdida.

Apesar das confusões, brigas, e clima tenso, a turma se divertia na tal festa. Não tardou pra que um deles puxassem a morena pro meio da roda, pra dançar. Lea resolveu esquecer o que havia acontecido e se divertir dançando com Harry, quando do nada foi abordada por alguns paparazzis, invadindo seu espaço, tirando mil fotos, fazendo brincadeiras pervertidas, se deitando no chão, apostando pra ver quem tirava uma foto dela por baixo pra descobrir se estava ou não de calcinha. Ela ficou desesperada. Apesar dos amigos intervir, lhe salvando, Lea se sentiu devastada, finalmente havia acordado do 'transe', o que ela estava fazendo ali, com aquela roupa, naquele lugar? Ela procurava por segurança, mas não via Cory em lugar nenhum. Seu desespero só aumentava. Por fim, saiu correndo do lugar.

A campainha do apartamento tocou, Cory pensou em não atender, mas acabou abrindo a porta, não fazia muito que havia chegado, foi em uma boate, mas não conseguiu ficar, queria que aquela noite acabasse o quanto antes, por isso foi pra casa.

"Acabou cedo sua festa... esqueceu as chaves?" ele falou sarcasticamente ao ver Lea escorada na porta.

"Chega! Pare de brigar comigo!"

"Eu não estou brigando contigo... o que foi? Voltou brava porque não conseguiu nada?"

"O que você quer dizer com isso? Está por acaso me chamando de ..."

"Eu não falei nada"

"Mas pensou!"

"Não coloque palavras na minha boca"

"Ah, cala a boca! Estou cheia desse seu ciuminho chato! Não se garante?"

"Não me mande calar a boca, o que eu te disse sobre isso?" ela deu as costas, resmungando.

"Talvez não se garanta mesmo!"

Cory ficou furioso.

"Vou te mostrar!" ele voou na direção de Lea, pegou-a pela cintura erguendo-a sem qualquer delicadeza, jogando em cima do balcão da entrada do apartamento, derrubando vasos e outras coisas que estavam sobre ele. Sem olhá-la nos olhos, ele rasgou aquele vestido da discórdia, deixando pendurado no corpo dela. Ele parecia um animal com raiva, irracional. Ela estava com medo daquele jeito dele que até então não conhecia, apesar da excitação e desejo que aquele homem insano e suas ações intensas provocavam nela. Dessa vez sem beijos, sem olhos nos olhos, sem qualquer caricia ou preliminar, Cory a fez sua, penetrando com intensidade e raiva, quase a forçando. Alguns minutos, ele voltou a si, antes mesmo de qualquer prazer, percebeu a loucura que estava fazendo. Ele se afastou dela ao vê-la tensa, tremendo, provavelmente de medo. Ela era tão pequena, tão delicada, e ele mais parecia um animal selvagem. Cory caiu no chão, chorando. "Como ele podia ter chegado naquele ponto?" ele pensava.

Lea por um instante ficou paralisada, estava ainda assimilando o que estava acontecendo. Quando ela olhou pra si, seu vestido todo rasgado, seu namorado no chão, chorando, ela entendeu. Ele havia ficado mais assustado do que ela. Lea pulou do balcão e sentou-se no lado de Cory, tirando as mãos do seu rosto lavado de lágrimas. Finalmente seus olhares se encontraram. A noite toda, desde o primeiro instante, eles não haviam se olhado nos olhos, por isso agiam como dois estranhos. Se abraçaram, chorando muito, e juntos, sem perceber, sem planejar, eles pediram perdão, um ao outro, pelas suas atitudes. Os dois continuaram ali no chão abraçados por um longo tempo, em silêncio. Por fim, Lea o convidou pra irem pra cama, descansar, a noite havia sido mais longa e cansativa do que eles podiam imaginar. Cory concordou. Ela tirou os pedaços de vestido que ainda estavam no corpo dela. Ele tirou também sua roupa. Ambos deitaram, um em frente ao outro, sem perder aquele olhar, mãos juntas, pernas entrelaçadas, rostos colados. Nenhuma palavra mais foi dita, nenhum beijo, nenhum toque. O que eles estavam resgatando era o olhar compartilhado, de comunhão, de compromisso, de entrega sem esperar nada em troca que haviam deixado esquecido longe deles naquela noite.

O dia amanheceu. Lea acordou já encontrando o rosto de quem ela tanto amava na sua frente. Mas ele não estava sorrindo como ela gostava.

"O que foi amor?" ela pediu assustada ao ver que ele parecia ainda estar chorando.

"Nunca vou me perdoar" ele passava a mão no braço dela onde havia uma marca.

"Ah, isso? acalme-se, não foi você" ele olhou-a intrigado. Lea contou toda a história dos paparazzis. "Foi aí que me dei conta da onde eu estava, do que fazia, de tudo. Fiquei perdida, com medo, daí procurei por você e não o achei, então me desesperei" Cory beijou seu rosto.

"Bem feito!" ele não poupou-a.

"Concordo... mas eu não tinha intenção..."

"Eu imaginei, sei que não tinha, mas você tem que pensar sempre além, você é um espelho, o que faz, o que diz, vai repercutir... mas confesso que o que mais me deixou com raiva foi a forma que passava por cima de mim, sem dar importância pros meus sentimentos, parecia que quanto mais eu ficava bravo, com ciúme, mais isso te instigava a me machucar...Lea, eu não sou teu dono, mas acho que respeito é fundamental!"

"Você tem razão... me perdoe... acho que quando vi aquele vestido fiquei vislumbrada"

Ele sorriu, beijando-a docemente.

"Hum, eu tava com saudade de seus beijos..." ela falou sorrindo.

"Eu também... tem certeza que não te machuquei?"

"Não, fique tranqüilo... aliás, ta me devendo, porque parou antes de sentir prazer...eu tava quase"

"Não acredito... é uma pervertida mesmo! Eu achando que tava te forçando!"

"Não me entenda mal, adoro nossos joguinhos, nossas preliminares, mas vou te dizer... aquele seu jeito selvagem me incendiou... no começo tava com um pouco de medo, mas depois fui ficando tão excitada..." Cory ria do jeito que ela se contorcia, relembrando. "Temos que repetir, mas dessa vez vamos até o fim!"

"Ok, qualquer hora dessas... mas por agora, podia ser do jeito tradicional... eu estou ficando louco com você se contorcendo grudada no meu corpo... por agora vamos apenas..."

"... apenas fazer amor!" ele sorriu concordando.

O despertador tocou, tocou, tocou, e acabou desistindo. Por mais compromissos que tinham, os dois não pararam. Toda tensão, briga, tudo o que aconteceu na noite anterior tinha que ser compensada da melhor forma possível, com muito amor.