SAVE ME

Capítulo 29. Parceiro?

Exasperado. Miyavi não poderia se definir de outra forma naquele momento.

Mordeu os lábios, nervoso tentando controlar suas emoções, latentes. Tudo estava ali: a tristeza, a raiva, a culpa. Bastava lembrar, e lembrar era muito fácil.

Conteve seus impulsos, tentando deixar qualquer crise para depois, julgando que não era hora nem lugar.

"Espero que tenha ficado satisfeito, Yukkun" sussurrou, pensando em seu namorado como se ainda fossem capazes de conversar. Se Kai era uma parte de sua consciência, seu grilo falante, deveria ser um ato natural. "Espero mesmo que tenha ficado satisfeito porque não vai acontecer de novo."

Respirou fundo, voltando pouco a pouco à normalidade. O velho Ishihara Takamasa assumindo o comando. Na delegacia, esse era o seu papel e não ia deixar que isso mudasse e nem podia. Não quando tudo o que mais queria dependia do seu controle e apenas disso.

Quando recuperou o domínio sobre seu temperamento, viu em sua mesa tudo aquilo que dizia respeito ao trabalho. Viu também a pasta com os documentos da transferência de Naoyuki. Embora sua vontade fosse outra, fez como havia prometido. Jogou a pasta para a mesa do novato: agora a decisão era com ele. Já fizera bem mais do que pretendia. Talvez fosse realmente melhor que ele se afastasse. Só não podia deixar que isso terminasse sem qualquer palavra a mais, nem que fosse uma mísera tentativa de pedir desculpas.

Murai não demorou a chegar. Apenas alguns minutos. Assim que chegou, encontrou o pretenso ex-parceiro aparentemente absorto no trabalho burocrático e sem função, sem parecer notar sua chegada. Olhou para a própria mesa e encontrou a pasta. O outro cumprira a promessa e deixara os documentos ali, para que tomasse sua própria decisão.

Murai desejara muito aquilo, mas agora que tinha os papéis bem ao alcance das mãos e apenas algumas assinaturas a frente para separá-lo da liberdade tão esperada, restava a dúvida.

Por que Miyavi lhe pedira desculpas? Por que aquele homem arrogante e auto-suficiente quis tanto ser ouvido antes que qualquer decisão fosse tomada?

Quem era aquela pessoa capaz de mudar os gestos e atitudes de alguém aparentemente sem algo ao qual se apegar? De despertar o amor de alguém que muitos poderia acreditar ser incapaz de sentir.

Olhou bem para a pasta. Aquilo poderia esperar mais um pouco. Guardou o objeto dentro de uma gaveta, de onde sairia apenas quando o seu trabalho terminasse.

De soslaio, Miyavi percebeu aquele gesto. Conteve o ímpeto de dizer algo e limitou-se a um repuxar de lábios, que talvez pudesse ser interpretado como um riso.

Talvez não tivesse sido em vão tentar uma conversa. Ficou satisfeito por isso.

O resto do dia passou sem que ambos voltassem a trocar qualquer palavra. O silêncio entre eles, ao contrário do que pudessem pensar, não fora opressivo.

Assim que se deu o fim do horário de trabalho, Miyavi já estava pronto para sair. Não parecia disposto a perder mais que poucos minutos no lugar que outrora sentia como se fosse sua casa. Algo que já não era mais.

Saiu sem se despedir. Em silêncio. Apenas poucos acenos e gestos avisaram sobre sua partida. Não houve palavras sequer para seu parceiro. Nem o considerava dessa forma, e de qualquer modo estava tenso demais para pensar nisso e também já fizera sua parte. Nem mesmo seu grilo falante poderia reclamar, embora isso não significasse grande coisa.

Nunca reclamaria por ouvir a voz de Kai, nem mesmo em uma bronca.

ooOOoo

A campainha soou irritante pelo apartamento, acordando o rapaz alto que estava jogado na cama. Não demorou para que despertasse, pois seus reflexos falaram por si. Demorou apenas para se dar conta de que era a campainha, afinal ninguém lhe visitava, muito menos batia em sua porta. Quem poderia ser?

Cogitou pegar sua arma. Por precaução, quem poderia condená-lo? Era um policial envolvido na investigação de crimes escabrosos. Havia inimigos e sempre haveria.

Pensou também em não se defender, aceitando o atentado que fosse. Cogitou milhares de possibilidades em poucos segundos que sequer fizeram a diferença, já que a arma logo foi para suas mãos durante o caminho até a porta. Conferiu pelo olho mágico e o que viu foi surpreendente. O espanto foi visível em seu rosto quando abriu para o seu visitante.

– Murai? O que está fazendo aqui?

– Posso entrar? – disse, sem esperar a resposta e entrando, deixando o outro estupefato. O jovem ergueu a sobrancelha ao ver a arma na mão do outro, como se estranhasse a atitude. – Não pretende descarregar isso em mim, pretende?

– Talvez eu devesse.

– Achei que já tínhamos passado dessa fase.

– Eu só te paguei um café, e acho que já falamos tudo. Pelo que lembro, isso não lhe dá o direito de bater a minha porta e ir entrando sem ser convidado.

– Estou aprendendo com você. Aliás, está com uma cara péssima.

– E quem pensa que é pra falar assim comigo?

– Seu parceiro, isso não conta?

– Já falei que trabalho sozinho, moleque. E pelo que me consta deixei a pasta da transferência na sua mesa. – disse, guardando a arma sem se importar se o outro saberia o esconderijo. Acendeu um cigarro logo em seguida.

– Eu não assinei, pelo menos por enquanto.

– Por enquanto? Está esperando mais alguma coisa de mim? Se está, pode esquecer. Acabe com isso enquanto ainda há tempo.

– Talvez eu nem precise esperar tanto. Sua cara está péssima e esse cigarro vai acabar te matando.

– Foda-se.

Notou que o parceiro tentava controlar a tensão. Naoyuki parecia nervoso e não era difícil entender a razão. Devia mesmo estar pavoroso, mas Miyavi não fazia questão de estar apresentável, mas sentia-se desconfortável por ser flagrado em um momento de fraqueza.

– Quem te mandou aqui?

– Ninguém me mandou. Eu vim porque quis.

– Ah, você quis? E qual a razão para um desejo tão sádico?

– Eu só quero saber porquê.

– Por que o quê?

– Pediu desculpas.

– Eu já disse a razão, não me faça repetir. Você não saiu da delegacia deixando aquele trabalho importantíssimo sobre a mesa pra saber disso. Seria muita perda de tempo.

– Nosso trabalho é uma perda de tempo. – disse, sem parecer magoado pela constatação.

– Fale por si, garoto. Aquele não é o meu trabalho.

– Então o que faz lá todos os dias? É algo tão importante que nem se importaram em te dispensar hoje.

– Não foi pela natureza do meu trabalho indispensável que estou aqui, garoto. – inalou a fumaça, sentindo a nicotina acalmá-lo de modo falso. Era assim desde a morte de Kai e nem pensava que aquilo acabava com sua saúde. Simplesmente não se importava – E o que você tem a ver com isso?

– Só gostaria de saber que espécie de pessoa precisa de um parceiro para lidar com burocracia.

– E eu queria saber o que deu em mim pra ainda estar ouvindo tanta asneira.

– Só estou preocupado. Foi muito estranho ver o todo poderoso dando sinais de humanidade.

– Imaginei. – respondeu, sorrindo de modo triste, mas não foi algo que durou muito – Não pense que vai acontecer de novo. Não pense que é meu amigo, bochechudo. No máximo é meu parceiro, e nem vai durar muito.

– Você me arrastou para um café e me pediu desculpas. – disse, como se quisesse lembrá-lo.

– Eu não te implorei pra ficar, implorei? Se for um pouquinho inteligente, um pouco que seja, vai assinar aqueles papéis e acabar logo com isso.

– Se é assim por que me pediu desculpas afinal? – Nao queria entender aquilo, mas as coisas não se encaixavam. Miyavi não ajudava em nada.

– Uma questão de consciência.

– Não foi o que disse ontem. De qualquer modo você não é o tipo de pessoa que parece ter consciência. Disse que fez isso por alguém.

– É, eu disse, mas esse alguém é a minha consciência. Eu tenho, por incrível que pareça. Pode entender isso? É capaz de entender isso, garoto? Duvido muito... você é jovem, muito jovem – seus dedos ficaram trêmulos de repente, atrapalhando-se para manter o cigarro, mas não se importou e tragou novamente. – Nunca deve ter perdido alguém, não deve saber como é. Tomara que nunca precise entender. Só pedi desculpas para não ouvi-lo me dando bronca, só pra deixá-lo mais tranqüilo. Eu não quero decepcionar Kai mesmo que ele não esteja mais aqui.

– Kai?

– Meu namorado. – explicou, sem se preocupar se aquilo era se expor demais. Simplesmente estava acostumado a chocar as pessoas ao seu redor – Chocado? Isso te incomoda?

Ie, não me incomoda.

De soslaio, enquanto consumia o resto daquele cigarro e o deixava no cinzeiro, viu-o olhar ao redor discretamente. Na certa Nao estava procurando vestígios daquele rapaz cujo nome acabara de pronunciar, porém ele não encontraria nada. Miyavi nunca deixava nada que pudesse denunciar sua vida pessoal a mostra: uma precaução como policial, uma forma de proteger aqueles por quem sentia afeto. Com Kai não era diferente. Todas as fotos estavam guardadas, longe de olhares alheios e indesejáveis.

– Foi por Kai que pedi desculpas. Nada mais que isso, entendeu? Ele não ia gostar de saber que não me esforcei para ser educado, e mesmo que não esteja mais aqui ainda sou capaz de ouvi-lo reclamar. – pegou o maço que estava sobre a mesa e acendeu outro cigarro. – Não aja como se não soubesse, garoto. Com certeza alguém já deve ter te contado o que aconteceu.

Ie, ninguém me disse nada a seu respeito.

– Jura? – riu nervosamente e surpreso pela resposta quase ficou sem palavras.

– Disseram apenas que você era experiente e eu deveria ter muita paciência porque estava passando por uma má fase. – as palavras vacilaram em sua voz e o fato não passou despercebido por Miyavi.

– Bondade deles chamar isso de má fase. Não é uma fase e isso nunca vai acabar. Ninguém volta a ser o mesmo depois de uma dor dessas.

– E... onde ele está?

– Kai? – perguntou, sentindo a garganta doer pela simples idéia de ter de falar sobre isso. – Está morto.

Miyavi estava tão concentrado em tentar controlar suas emoções, que deixou de prestar atenção no outro rapaz. Sequer notou que ele parecia ter parado de respirar, nervoso demais com o que poderia ouvir. O tatuado apenas continuou.

– Ele morreu. Foi atacado por uma gangue, assassinado. – hesitou, fechando os olhos com força. A simples lembrança já era dolorosa e falar disso apenas piorava as coisas – Ele foi trucidado, Murai. Você já deve imaginar do que estou falando, não é? Pois foi isso que fizeram. E sabe... Kami-Sama deve ter um senso de humor muito grande porque estamos na pista desse bando há anos. Foi por isso que me colocaram pra fazer aquele trabalho importantíssimo e indispensável para a corporação.

O sarcasmo na voz de Miyavi foi quase um veneno, e sequer se deu conta de que o novato ouvia cada palavra com atenção, compreendendo quase todos os gestos e atitudes dos últimos tempos.

– Eles temem que eu vá atrás dos assassinos e faça alguma besteira. Me tiraram do caso e acabaram com o meu acesso às informações, como se isso pudesse diminuir minha raiva. Só estão tentando adiar o inevitável. Eu vou fazer justiça e é apenas uma questão de tempo. Vai acontecer mais cedo ou mais tarde.

Cada palavra sua tinha o tom de uma premonição. E era. Isso já estava em sua mente e era um fato concreto. Irrevogável.

– É essa a grande história, Murai. E acredite: é melhor pra você que assine a merda dos documentos e se afaste. É o que fará se tiver um pingo de juízo. Agora vá embora. – falou alto, para o rapaz que parecia paralisado – Vá embora!

Viu o novato recuar, como se tivesse por acaso saído de um transe. Achou que deveria usar a força, mas não foi preciso. Viu-o recuar lentamente, não como se temesse um ataque, mas sim esperasse uma palavra. De qualquer modo, essa palavra não veio então não restou outra alternativa que não fosse ir embora.

Viu-o partir. Ouviu os passos dele se afastando. Sentiu que ele hesitara em se afastar da porta, mas nada que durasse muito tempo. Segundos apenas.

A garganta doeu mais do que poderia suportar e as lágrimas novamente vieram aos seus olhos. Simplesmente deixou-se cair no chão e chorar. Não se importava com seu estado ou em como acordaria no dia seguinte. Não havia mais com quem ou com o que se importar. Qual seria a diferença?

ooOOoo

Miyavi chegou pontualmente na delegacia. Sua aparência e expressão não eram das melhores, mas recusou a oferta de seu superior de mais um dia de folga. Sabia que suas olheiras chamavam a atenção, mas pouco se importava. A cafeína o manteria acordado.

Foi para sua mesa e surpreendeu-se ao encontrar Naoyuki. Não esperava que ele estivesse ali, mas permaneceu calado, pelo menos durante o tempo que durou o seu choque.

– Pensei que tivesse sido bem claro, Murai.

– Bom dia, Ishihara, - fez uma pausa, parecendo jocoso apesar do seu tom de voz sério – E sim, você foi bem claro. Não tenho do que me queixar.

– Então o que ainda está fazendo aqui?

– Trabalhando, oras. O que mais eu poderia fazer? – continuou digitando, como se nada tivesse acontecido.

– E sua transferência?

– Ainda não assinei.

– Pensei que tivesse juízo, bochechudo.

– É uma decisão que só cabe a mim. – fechou uma das pastas e abriu outra, como se a conversa não fosse um impedimento para o trabalho. – De qualquer modo, assinando ou não, não serei nenhum empecilho pra você ou seus planos. Não se preocupe.

Surpreendeu-se com aquelas palavras. Era a primeira pessoa que falava dessa forma. Sempre pediam para que pensasse melhor e não fizesse uma besteira. Murai era o primeiro que lhe declarava alguma forma de apoio.

Calou-se. Não teve coragem de lhe dizer qualquer coisa, ainda mais algo irônico. Optou pelo silêncio, apenas ocupando seu lugar na mesa e pegando a parte que lhe cabia do trabalho. Precisava pensar sobre isso.

Pensar muito. Planejar para agir.