Olá, caras leitoras de "O Labirinto". Sinto terrivelmente por ter deixado de atualizar esta fic como eu gostaria, mas este ano tem sido bastante diferente. Eu estou cursando uma nova faculdade, para aprimorar a minha carreira. Então tenho as aulas, meu trabalho, meu filho pequeno para criar, um marido para dar atenção e, para completar, um dos meus gatos de estimação está muito doente e requer muitas idas ao veterinário. Enfim, foram muitos os empecilhos que fizeram com que eu não continuasse a escrever. Peço desculpas por isso. Mas eu não esqueci da história, então aproveitei a tarde livre de compromissos hoje e atualizei a história. Eu poderia ter levado mais alguns dias para ajustar uma ou outra coisa, mas se eu fizer isso, não sei quando terei tempo novamente para mexer na história. Por isso, decidi publicá-la assim mesmo, espero que me perdoem por eventuais erros. Gostaria de ter mais tempo, mas está realmente difícil. Espero que, após a leitura, deixem seus comentários sempre encorajadores, saibam que eles me animam muito a continuar escrevendo. Às vezes passo por aqui somente para ler os comentários, pois assim me lembro que ainda tenho leitores que querem muito que essa história chegue a um final. E nos dias mais tristes, principalmente por causa do meu gatinho doente, gosto de saber que tem gente que aprecia o que eu escrevo e que espera que eu conclua o que comecei há tanto tempo, isso realmente faz a diferença para mim. Vou agradecer nominalmente quem deixou reviews no último capítulo:

Querida Guest: obrigada por seu comentário. Espero que volte e deixe outra review, porém deixando seu nome ou pseudônimo, acho mais interessante poder me dirigir a alguém de um modo mais pessoal. Bem, neste capítulo você verá que Helen está conseguindo manter as aparências para sua família, mas por dentro, um vulcão a atormenta. A história teve vários pontos de virada e, como vê, está perto de chegar ao fim. Volte outra vez e me diga o que achou deste capítulo. Com carinho, Claire.

Érita, minha querida irmã de alma: eis o tão aguardado capítulo. Creio que poderia ter sido mais longo, mas acho que foi bom fazê-lo mais enxuto, assim consigo desenvolver o final da história em mais uns poucos capítulos, talvez um ou dois, ainda não sei. Espero que, assim como os outros, este capítulo também a surpreenda. Me perdoe por ainda não ter respondido ao seu último e-mail, mas é que só o farei quando terminar de ler o seu capítulo, coisa que, nos últimos dias, não consegui fazer. Espero corrigir essa injustiça em breve, assim, te mando uma review detalhada, tudo bem? Espero que escreva por aqui o que achou do capítulo 29. Um grande beijo, Claire.

Jill-Bean, muito obrigada por outra review inspiradora. De fato, Helen está sentindo que algo está faltando em sua vida e ela sabe muito bem o que é. Só que ainda sofre por isso, pois sente muita culpa por tudo o que aconteceu, a traição ao seu marido e também ao seu povo e às suas crenças, pois Amon representa tudo o que é mais odioso em um ser humano. Seus crimes sempre serão imperdoáveis, mas, mesmo assim, não se pode dizer que o que ele sente não seja verdadeiro. Eu acho que é um dilema muito difícil de se lidar. E como Helen vai superar tudo isso? Muita coisa aconteceu durante o cativeiro. Espero que este capítulo te incentive a deixar outra review tão interessante quanto a última, sempre me inspiram em meu próximo capítulo. Obrigada por tanto carinho, Claire.

Kajsa, mais uma vez agradeço pela review precisa e muito motivadora. Peço desculpas por ter demorado mais do que gostaria na atualização da história, mas realmente não consegui, este ano está sendo realmente complicado. Concordo com você sobre o quanto é difícil para Helen admitir para si mesma que teve uma conexão especial com o homem que ela mais odeia, mas que, ao mesmo tempo, mais a entende. E concordo também que nenhuma punição vinda de Helen poderia fazer com que Amon pagasse por todos os seus crimes odiosos. E, realmente, a vida desses dois está tão irremediavelmente unida que agora é a vez de Helen se sentir uma pária por trair todas as suas convicções ao ter se unido, ainda que por um breve momento, ao perpetrador de tanta violência contra ela e o seu povo. É extremamente contraditório e algo muito difícil de lidar. Por favor, volte aqui e deixe uma nova review tão interessante quanto essa. Um grande abraço, Claire.

Julia - Acredito que esta tenha sido sua primeira review em minha fic. Fico muito lisonjeada que tenha gostado da trama e de tudo o que aconteceu até então. Como você, também penso que Helen sofra mais do que Amon, justamente por antes ser inocente e não uma alma perdida como Amon sempre foi. Ele está relacionado às trevas e ela à luz, como Hades e Perséfone na mitologia grega. Espero que volte a deixar uma nova review e que goste deste capítulo. Com carinho, Claire.

LadyHermioneMalfoy - Faço das suas palavras as minhas, acho que Helen e Amon estão ambos condenados por tudo o que essa relação representa. Também fico triste por estar aos poucos me despedindo dessa história, mas também sinto orgulho por estar conseguindo levá-la até o final. Espero mesmo terminá-la com a qualidade que vocês leitores esperam e merecem. E, sim, tenho em mente qual será o final dessa história, espero que seja o mais adequado possível. Por favor, volte aqui e deixe uma nova review sobre este capítulo. Um grande abraço, minha querida, com carinho, Claire.

Ylva - Muito obrigada por sua review. De fato, o que você escreveu em sua review me inspirou a escrever alguns dos pensamentos de Helen neste capítulo. Concordo quando diz que por ser paciente psquiátrica ninguém acreditaria na sua história, achariam que ela está louca, ainda mais por Amon supostamente ter passado por um julgamento e ter sido enforcado. Acho que esse também é um dos motivos pelo qual ela decidiu não falar nada para ninguém, por mais que isso custe sua própria sanidade. Por favor, deixe sua review também para este novo capítulo. Obrigada pelo carinho, Claire.

Mimi - Obrigada por sua longa e precisa review. Concordo com tudo o que você disse, Helen está realmente dividida entre dois homens muito diferentes e não sabe o que fazer com esse sentimento que a consome. Realmente, eu no lugar dela também sentiria muita dificuldade em escolher entre a segurança de um amor bondoso e a força de um amor violento como uma tempestade, porém muito forte, ainda que ela não queira admitir isso. Por favor, volte novamente e deixe outra review. Um beijo para você, com carinho, Claire.

Eszti - Que bom que você novamente deixou sua review, eu adorei, pois concordo com tudo o que você escreveu. O sofrimento íntimo e interior de Helen é algo que ninguém sabe, mas que é extremamente doloroso para ela. Sabemos que ela não gostaria de esconder de sua família que foi sequestrada, mas quem daria crédito a uma pessoa que passou por uma internação psquiátrica? E como contar que ela traiu Sam e tudo o que mais acredita por ter se entregado a homem tão odioso? Espero que goste deste capítulo. Por favor, deixe sua review. Com carinho, Claire.

Segue o capítulo 29. Por favor, deixem seus comentários. Espero não demorar tanto no próximo capítulo. Beijo grande, Claire de Jour


Após mais uma rodada de depoimentos à polícia austríaca, na qual mantive a versão de Madre Gerta em todas as ocasiões, finalmente deram-se por satisfeitos e não mais pediram por novas explicações. Foram quatro longas e exaustivas semanas em que comparecíamos à delegacia para confirmar ou fornecer novos depoimentos sobre o meu desaparecimento. Tudo o que precisavam saber havia sido dito. Concluíram que eu não estava preparada para retornar à Europa após os acontecimentos ocorridos durante a guerra e que é provável que por este motivo eu tenha sofrido um colapso nervoso ao chegar à Viena, que levou ao meu sumiço, à confusão mental e à perda de memória, o que dificultou ainda mais as minhas buscas. E o fato de eu ter sido resgatada por freiras que fizeram votos de silêncio e que não tinham contato com o mundo exterior tornaram as coisas ainda mais difíceis para que eu pudesse ser encontrada. Estou tão cansada disso tudo que acho até melhor que pensem assim. De qualquer forma, o fato de eu ter mesmo sido internada em um hospital psiquiátrico não colaboraria caso eu tentasse falar o que realmente aconteceu. A verdade nessa história toda é tão surreal que ninguém acreditaria. Nem mesmo Anna ou Sam.

Por falar neles, ambos não tiram os olhos de mim. Sinto que estou sendo observada o tempo todo. E, como na maior parte do tempo me mantenho calada, percebo pela maneira como me olham que tentam adivinhar o que se passa comigo. Tenho certeza que adorariam poder ler meus pensamentos.

Por mais que eu tente manter uma postura passiva diante disso e por mais que eu entenda que eles só querem o meu bem, essa atenção excessiva tem me feito muito mal. Detesto ser o centro das atenções e, pior: sinto que no fundo eles não me veem mais como alguém digna de confiança. Acho que temem que a qualquer momento eu sofra um novo surto e inspire novamente por cuidados psiquiátricos. Por isso que me sinto aliviada ao sair pela última vez da sala de depoimentos da Polícia da Áustria. Ao passar pelo batente da porta de saída da delegacia, sinto-me parcialmente livre. Isso porque da polícia eu consegui me livrar, mas não dos frequentes olhares de preocupação de Anna e de Sam.

- Finalmente não precisaremos mais voltar aqui. – Ouço Sam dizer ao também passar pela porta de saída, logo atrás de mim.

- Bem, meu querido cunhado, foi o preço que tivemos que pagar por termos sido tão insistentes com eles. Não nos deixariam ir para casa sem antes nos atormentar um bocado. De alguma forma tínhamos que pagar por nossa impertinência, por nossas dúvidas e por nossas exigências em relação ao desaparecimento de Helen... – Anna não conclui a frase e lança um olhar afetuoso em minha direção enquanto acende um cigarro.

- Tudo bem. Agora que acabou, podemos ir para casa? – Pergunto, olhando diretamente nos bondosos olhos escuros do meu marido.

- Sim, Helen. Sabia que tudo terminaria hoje e já providenciei nossas passagens. Sairemos amanhã de manhã daqui de Viena e seguiremos de trem até Londres. Depois, em Londres, pegaremos um avião rumo à Nova York no dia seguinte. Meus pais estão nos esperando.

- Beth não virá mesmo?

- Não, prefere nos encontrar em Nova York mesmo.

- Vou me lembrar de bater bem a sola dos meus sapatos quando entrar no trem rumo à Londres. De Viena, não quero nem o pó! – Observo minha irmã falar sobre a Áustria com uma nota de desprezo em seu rosto e em sua voz.

Mais uma vez, não digo nada. Não tenho vontade de falar sobre este assunto, pois ele me custou um alto preço. Às vezes acho que o excesso de zelo que Sam e Anna estão tendo comigo tem também a ver com a necessidade de ambos de que eu fale alguma coisa. No fundo, talvez sintam ou mesmo saibam que eu talvez tenha passado por mais coisas do que eu fui capaz de dizer. Ou temam que eu faça algum tipo de revelação que destrua a imagem que ambos têm de quem eu sou. Ou de quem eles pensam que eu sou.

Entro no táxi com a cabeça cheia de pensamentos que me levam à milhas de onde estamos. As vozes de minha irmã e do meu marido vão se afastando da minha compreensão à medida que me imagino percorrendo solitária as ruas de Viena, em busca de uma paz de espírito que não mais me pertence. Meu devaneio é bruscamente interrompido quando sinto Sam me tocar levemente no braço.

- ... Certo, querida? – Consigo entender apenas o final da frase dita por ele.

- Desculpe, Sam, meu ouvido esquerdo... – Novamente, recorro à minha surdez parcial para não precisar justificar que não ouvi nada do que foi dito porque simplesmente não estava prestando atenção.

- Acho que seria interessante darmos um passeio, relaxar um pouco, o que acha?

- Eu não sei, e a imprensa? – Pergunto, insegura, pois até então tivemos sorte, a imprensa austríaca tem sido gentil quanto à nossa privacidade.

- Não se preocupe com isso, Helen. Já faz um mês que você foi reencontrada. Outras histórias mais interessantes já devem estar tomando toda a atenção da imprensa. – Anna diz, para me tranquilizar.

- Sem muita alternativa, concordo com eles.

- Certo, e para onde gostariam de ir?

- Como editora de livros, eu adoraria passear em uma livraria para ver as novidades editoriais, saber que tipo de lançamento literário faz sucesso aqui na Áustria, enfim, coisas que podem enriquecer o meu trabalho.

- Você se importa, Helen? Podemos tomar um café depois.

- Por mim, tudo bem? Quando iremos?

- Agora, minha querida, já estamos chegando.

O táxi para em uma rua estreita, repleta de edificações que certamente têm mais de 200 anos. São edifícios baixos, de característica rococó, que abrigam apartamentos residenciais em cima e comércio embaixo. Caminhamos em direção a uma bela fachada. Escuto Anna dizer.

- Pelo menos posso dizer que vou aproveitar alguma coisa nesta cidade! Vamos! – Ela apressa o passo e entra na livraria.

A livraria, que de acordo com Anna, é uma das maiores de Viena, é belíssima, assemelha-se a uma velha biblioteca, com suas paredes de madeira e escadas com rodinhas que podem ser movimentadas por praticamente todas as estantes. A profusão de livros faz com que Anna se adiante à nossa frente e, por um momento, esqueça que precisa ficar ao meu lado feito um cão de guarda. Sam, no entanto, não se afasta muito, finge me dar certa liberdade para caminhar entre os estandes e as prateleiras, porém, ainda mantém o foco em mim. Ansiosa em ter um pouco de privacidade, resolvo dizer à Sam que quero percorrer a livraria para ver se escolho algo para ler na viagem de volta para casa.

- Oh, claro, minha querida, por favor, fique à vontade para circular. Se precisar de mim, estarei por perto, certo? – Sam diz, parecendo entender que preciso respirar um pouco sem tanta atenção direcionada a mim.

- Obrigada, querido. – Me afasto devagar, e, aos poucos, ganho certa distância de Samuel.

Tento me concentrar nos títulos em alemão, mas, de fato, sinto como se estivesse outra vez pronta para mergulhar em meus pensamentos e novamente ser levada dali. Estava tão distraída que mal percebo quando, de repente ouço a voz de uma mulher falar baixinho.

- Terceiro livro, segunda prateleira à esquerda, página 25.

Não consigo ver o rosto da mulher, porque ela mal falou comigo e continuou a caminhar, e, sem olhar para trás, virou por um corredor e eu a perdi de vista. Olho para o lado e vejo que Sam está não muito longe de mim, finalmente distraído com um livro aberto nas mãos. Me afasto rapidamente de onde estou e viro no corredor em que a mulher virou, na esperança de vê-la novamente. Porém, a sala está cheia, ao que parece está acontecendo uma tarde de autógrafos ali e tentar identificar a mulher que falou comigo em meio a tantas pessoas parece ser uma tarefa impossível.

Sem entender direito o que aconteceu, retorno para onde estava. Sam permanece absorto com o livro em mãos. Então lembro que a mulher misteriosa parecia ter me indicado algo para ler. Digo a mim mesma, em voz alta:

- Terceiro livro, segunda prateleira à esquerda, página 25.

Caminho para a prateleira indicada pela mulher e conto os livros. Não sei exatamente por quê, mas sinto minhas mãos tremerem ao tocarem o exemplar de capa verde e letras douradas. Ao ver o nome "Pablo Neruda" na capa, imediatamente me lembro dele ter dito que assistiu uma vez a um sarau desse poeta chileno quando estava escondido na Argentina e que o havia marcado profundamente. Olho novamente em direção a Sam, que continua absorto em sua leitura. Imediatamente procuro pela página 25. Quando a abro, leio o seguinte poema:

TE AMO

Te amo de uma maneira inexplicável,
de uma forma inconfessável,
de um modo contraditório.
Te amo, com meus estados de ânimo que são muitos
e mudar de humor continuadamente
pelo que você já sabe
o tempo,
a vida,
a morte.
Te amo, com o mundo que não entendo
com as pessoas que não compreendem
com a ambivalência de minha alma
com a incoerência dos meus atos
com a fatalidade do destino
com a conspiração do desejo
com a ambiguidade dos fatos
ainda quando digo que não te amo, te amo
até quando te engano, não te engano
no fundo levo a cabo um plano
para amar-te melhor
Te amo , sem refletir, inconscientemente
irresponsavelmente, espontaneamente
involuntariamente, por instinto
por impulso, irracionalmente
de fato não tenho argumentos lógicos
nem sequer improvisados
para fundamentar este amor que sinto por ti
que surgiu misteriosamente do nada
que não resolveu magicamente nada
e que milagrosamente, pouco a pouco, com pouco e nada,
melhorou o pior de mim.
Te amo
Te amo com um corpo que não pensa
com um coração que não raciocina
com uma cabeça que não coordena.
Te amo incompreensivelmente
sem perguntar-me porque te amo
sem importar-me porque te amo
sem questionar-me porque te amo
Te amo
simplesmente porque te amo
eu mesmo não sei porque te amo…

Leio tudo de um fôlego só, muito rapidamente, e, com medo de ser surpreendida por Sam ou Anna, levanto novamente meus olhos e vejo que continuam sem prestar atenção alguma em mim. Então volto os meus olhos novamente para a página do livro para ver que, embaixo, escrito a lápis, em alemão e com a letra bem pequena, algo que quase faz com que eu derrube o livro das mãos.

Sei que irão partir amanhã pela manhã da estação Viena Meidling. Eu sei o horário do trem. E eu sei também que, caso não queira embarcar, estarei em meu carro, em meu velho Mercedes preto que você conhece tão bem esperando no estacionamento. Hans circulará pela estação para levá-la até mim. Não há como se perder. Fique comigo!

Muito nervosa, fecho o livro e o derrubo no chão. Quando me abaixo para pegá-lo, vejo com horror a mão de Sam pegar o livro antes que eu possa alcançá-lo.

- Opa, vamos ver o que você deixou cair... "Sonetos de amor", Pablo Neruda. Hum, o título é interessante, gostou?

Rapidamente, tiro o livro das mãos de Samuel e encosto-o junto ao meu peito.

- Sim... Sim, acho que vai ser uma leitura interessante.

- Claro, deixe-me levá-lo, eu vou pagar os que eu escolhi também e...

- Não, pode deixar que eu levo e eu mesma pago, Sam.

Sam me olha um pouco surpreso.

- Está tudo bem, amor?

- Sim, está! É que eu mesma quero pagar por este livro. Posso?

- Claro que sim, Helen, claro que sim. Oh, veja sua irmã, acho que vai precisar de uma mala extra para levar tudo.

Aproveito que Sam se distrai com a pilha de livros que Anna vem trazendo desajeitadamente e, enquanto ele a ajuda, me encaminho para o caixa da livraria com o coração aos saltos e um único pensamento em minha cabeça.

- Fique comigo!

Essa mensagem me faz concluir que, enquanto circulávamos essas semanas em Viena, ele novamente pagou pessoas para me vigiar, para não me perder de vista! E eu que havia pensado que muito provavelmente ele estaria longe de Viena, longe da Áustria, com medo que eu o delatasse às autoridades... Como eu estava enganada! Ele ficou aqui o tempo todo, não sei se esperando que eu contasse o meu calvário à polícia, esperando para ser preso, não sei. Tudo o que sei é que eu me lembro muito bem que vi os olhos dele mudarem de esperançosos para miseravelmente tristes ao perceber que eu não entraria com ele naquele velho carro, que eu iria ficar no convento e aguardaria pelo reencontro com a minha família. Eu pensei que ali ele tinha desistido de vez... Eu pensei que...

Mas como é atrevido! E presunçoso ao escrever não um pedido, mas sim uma ordem... "Fique comigo", sem nem ao menos um "por favor", nada... Somente a ordem imperiosa, como tudo o que ele faz. E o poema? O amor que ele diz sentir ficou restrito somente às palavras do poema e, até mesmo a beleza das palavras de Neruda tem algo de pessoal, como se ele tivesse escrito aquilo tudo... "Melhorou o pior de mim"... Eu...

Deus, como esse monstro consegue estar em toda a parte... Eu realmente preciso sair dessa cidade maldita, tenho que me afastar dos domínios desse demônio para poder respirar normalmente outra vez, eu...

- Dinheiro, cheque ou cartão? – A moça do caixa gentilmente interrompe meu delírio e me lembra que eu preciso voltar a agir normalmente antes que Anna ou Sam desconfiem de algo e intensifiquem seus olhares em cima de mim.

Entrego o livro à garota, que o examina.

- Vou pagar em dinheiro. – Digo.

- Um momento, senhora. Helmut, Helmut, pode vir aqui um momento?

- Há algo errado? – Fico ainda mais nervosa quando vejo a garota folhear o livro.

- Não, é que esse livro não está com a etiqueta da loja. Estranho!

Um garoto muito loiro e com dentes grandes e tortos se aproxima.

- O que foi, Ingrid?

- Este livro... Do Neruda. A moça o encontrou na prateleira, mas ele está sem a etiqueta da loja. Não sei quanto custa. Pode verificar, por gentileza?

O rapaz pega o livro das mãos da atendente e o meu sangue parece congelar instantaneamente. Não quero que levem o livro para longe de mim. Mais do que antes, minha certeza sobre Goeth estar me vigiando aumenta ainda mais... Este livro não faz parte do acervo da loja! Ele entregou àquela mulher que entrou na loja e o deixou ali, ao acaso. Aquela mulher misteriosa agiu à mando dele! E agora meu receio é que Helmut ou outra pessoa abram o livro na página 25 e leiam o recado. Meu coração está batendo tão acelerado que tenho medo que a mocinha do caixa o esteja escutando.

- O que está acontecendo? – Pergunta Anna, jogando sob o balcão uma considerável pilha de livros.

- Não sei... Faltou a etiqueta da loja no livro que escolhi.

- Bem, enquanto aguarda, pode ir passando esses livros, por gentileza? Sou irmã dela. Quando o garoto voltar, coloque o livro dela nesta pilha, sim? Eu pago por ele...

A cara que fiz não deve ter sido das melhores, pois Anna na hora perguntou.

- O quê? O que foi, Helen? Só estou tentando agilizar as coisas. Logo o garoto retorna com o seu livro... Deixe que eu pago.

- Eu...

Helmut retorna com o livro, devidamente etiquetado.

- Tudo certo, senhora. Desculpe pela nossa falha. Não sabemos como esse livro foi parar ali sem a etiqueta. Foi um descuido.

Anna o pega das mãos de Helmut e o coloca na pilha dos livros que havia selecionado para si.

- Não tem problema, garoto. Pode passar este livro junto com os dessa pilha, certo? Obrigada!

Enquanto a atendente continua a pegar os livros e os coloca em sacolas, fico com os olhos grudados no livro de capa verde, para ver em qual sacola seria depositado. Não posso deixar que Anna ou Sam o folheiem enquanto eu não apagar a mensagem escrita a lápis.

Anna mal terminou de pagar pelos livros e eu pego a sacola em que eu vi o Neruda ser depositado. Tinha que ter certeza que não o perderia de vista. Sam veio ao meu lado.

- Que lugar incrível. Separei alguns livros que com certeza não encontraria em Nova York.

- Eu também. Aliás, acho até que posso entrar em contato com algumas dessas editoras austríacas para tentar traduzir e até mesmo publicar alguns desses autores nos Estados Unidos. Nem tudo o que vem desse lugar é desprezível, afinal!

Pegamos um táxi e voltamos para o hotel. Rapidamente tiro o livro de poesias da sacola de Anna e o coloco dentro da minha bolsa. Ao entrarmos no saguão, Sam diz.

- Querida, vamos aproveitar que estamos aqui no lobby e vamos ao restaurante? Podíamos jantar agora, afinal, vamos ter que sair bem cedo amanhã. O que acha?

- Ótima ideia! – Anna diz. – Só vou subir para deixar esses livros no meu quarto...

- Se importam se eu não for? – Estou sem fome, quero tomar um banho demorado na banheira.

- Ok, quer que eu peça alguma coisa para você comer no quarto?

- Sim, o mesmo que você escolher. Prefiro comer no quarto mais tarde. Estou cansada.

- Tudo bem, querida. Você pode levar os meus livros para cima?

Me aproximo de Sam e beijo-o rapidamente nos lábios.

- Sim, claro que sim, meu amor! Até depois!

- Até depois! – Sam diz.

Entro com Anna no elevador.

- De onde você descobriu Pablo Neruda? – Anna faz a pergunta antes mesmo que a porta do elevador se feche.

- Ao acaso, na livraria. É uma antologia poética. Quero ver se é bom!

- Está brincando? "Eu amo seus pés, porque eles caminharam sobre a terra, a água, o vento, até que me encontraram". Isso é fantástico! Alguém que saiba o que é isso com certeza só pode ser um gênio...

- Ou um tolo desesperado! – Não consigo evitar dizer.

- Pois eu adoraria que um tolo desesperado escrevesse ou pelo menos sentisse algo que se aproximasse a um dos poemas desse chileno encantador. Gosto quando há sangue de verdade correndo nas veias de um homem, minha querida!

A porta do elevador se abre e nos encaminhamos, cada uma para um quarto.

- Eu acho que é muito perigoso sentir dessa forma...

- Que forma, Helen?

Giro a chave na porta, abro-a e olho nos olhos da minha irmã.

- Amar alguém ao ponto do desespero.

- Ah, minha querida! – Anna também abre a porta do quarto dela. – Vê-se bem que você amou muito pouco em sua vida. Sam é ótimo, mas é uma rocha! E às vezes o amor é abismo! – Ela sorri de uma maneira divertida, pisca um olho para mim e fecha a porta.

Eu faço o mesmo e, ao entrar no quarto, corro para a escrivaninha à procura de uma borracha para apagar a mensagem escrita no livro. Abro na página 25 e leio novamente o que está escrito: o meu abismo pessoal.

Sei que irão partir amanhã pela manhã da estação Viena Meidling. Eu sei o horário do trem. E eu sei também que, caso não queira embarcar, estarei em meu carro, em meu velho Mercedes preto que você conhece tão bem esperando no estacionamento. Hans circulará pela estação para levá-la até mim. Não há como se perder. Fique comigo!

Encontro uma borracha e, mais do que depressa, apago as palavras perturbadoras escritas a lápis para deixar a página apenas com a poesia de Pablo Neruda. Mas sei que certas coisas, por mais que se passe uma borracha sobre elas ficam impressas de tal forma em nossa alma, como o carvão em brasa que queima a pele de uma ovelha, marcando-a para sempre com as iniciais de seu proprietário.

Com desdém, fecho o livro e o coloco novamente na bolsa, agora mais tranquila por saber que só eu li os disparates que estavam escritos ali. Toda a loucura daquelas palavras rapidamente deixaram de existir, não irão mais me perturbar. Posso ir tomar o meu banho, pois nada aconteceu. Não há nada com o que se preocupar. Logo, Viena terá sido apenas um pesadelo em minha vida, nada mais.

Termino de encher a banheira e mergulho em suas águas cálidas, relaxando todo o meu corpo. Fecho os meus olhos e tento me concentrar na deliciosa sensação que a água morna em contato com a minha pele é capaz de proporcionar.

De repente, involuntariamente, sou transportada outra vez para o chão de um quarto com manchas de mofo no teto e na parede. Um quarto que aos poucos é invadido pelas primeiras luzes da manhã, mas que ainda conserva consigo o peso de uma madrugada que se estende além do esperado... Sinto também o peso do corpo do homem que eu mais odeio em todo o mundo estreitar o meu corpo contra o chão... E sinto saudades. Uma saudade odiosa, que me faz sentir repugnância de mim mesma, mas que ainda assim não deixa de ser uma saudade. Sinto falta do cheiro, sinto falta dos beijos, sinto falta do calor...

Rapidamente a vergonha e o peso imperioso das palavras do bilhete me puxam para o fundo da banheira.

- Fique comigo!

Levo quase um minuto para voltar à superfície para respirar novamente. Respiro com dificuldade enquanto saio rapidamente da banheira.

As palavras a lápis foram apagadas apenas do livro.

*Por favor, deixem uma review. Obrigada!