Capítulo Vinte e Nove – Após a Tempestade Vem Outra Tempestade e Depois...

- O-oi, meu nome é Harry Potter. – Ele disse passando as mãos trêmulas pelo cabelo e depois enxugando o suor na calça jeans. A mulher lhe mirou com tranquilidade, analisando cada expressão. Ela não poderia ser mais rápida?

- Boa noite, Senhor Potter . O que aconteceu? – Indagou e ele mirou o pé descalço, que não conseguira colocar no chão e já estava quase o dobro de tamanho do outro.

- Eu não c-consigo mexer meu pé, a-acho que quebrei alguma coisa. – Ela pegou um telefone e discou alguns números ainda mirando seu rosto sem cor e, céus, aquilo parecia ser tão devagar.

- O senhor veio com alguém? Vou encaminhá-lo para a emergência. – Queria poder dizer a ela que a única pessoa que gostaria estar naquele instante, havia sido completamente magoada por frases impensadas, causadas por uma dor do cão. Mas...

- Não, eu vim sozinho.

- Aguarde só mais um pouco. - Pediu colocando o telefone no gancho.

As coisas passavam muito rápido naquele hospital, tornando tudo em borrões brancos e pessoas desfocadas. Na verdade tudo girava. Segurou-se no balcão como se a qualquer momento um furacão fosse traga-lo para longe. Tentava manter-se forte e não desmaiar ali na sala de espera. Mas foi inevitável quando sua dor fez tudo escurecer e ele caiu no chão de qualquer jeito.


Quando abriu os olhos ainda enxergava tudo embaçado. Passou a mão em sua vista notando que uma agulha estava perfurada em sua veia. Tudo ali era branco e cheirava a álcool. O que raios havia acontecido mesmo?

Como num filme os flashes passavam rápido por sua mente. A festa, o quão bonita Hermione estava, a briga, a dor, as coisas que ele lhe dissera...

- Que droga. – Falou, finalmente se dando conta de que estava deitado numa cama de hospital. Seus olhos verdes e fundos miravam com cuidado tudo ao redor. Seu pé, agora engessado, não parecia que ia cair como da última vez. Aquilo que estava em sua veia era soro, suas roupas sujas de cerveja haviam sido substituídas por uma roupa hospitalar e os machucados resultantes da briga já não doíam.

- Harry, pensei que você iria dormir a eternidade! – Ouviu aquela voz conhecida ser proferida a ele e viu a figura de Ron Weasley, sentado na cadeira ao lado de sua cama. Aquilo era tão improvável. Os olhos do ruivo estavam também fundos e seus cabelos um tanto bagunçados. Apostava que ele estava dormindo quando recebeu a notícia.

Ficara feliz de o ver ali, mas seu coração se apertou quando lembrou também de tudo que aquele maldito casamento havia causado à amizade deles.

- Sinto muito por terem incomodado você. – Disse torcendo os lábios sem jeito. Parecia que lhe devia algo.

- Eles tinham meu número da vez que você quebrou o nariz e nós viemos aqui escondidos do seu pai. – Lembrou com um sorriso divertido. – Até hoje não sei como te atenderam sem nenhum responsável!

- Pois é. Como eu ia explicar ao todo poderoso James Potter que eu havia levado um soco dos garotos mais velhos? – Sorriu também. As coisas pareciam como antes, e ele ficara tão feliz.

- Por que me colocaram no soro? – Indagou mirando o líquido que pingava lentamente dentro do saco. - Eu só quebrei o pé.

- Pelo que a mulher me disse, você estava desidratado, e sua pressão também caiu. Acho que foi por causa da dor. Sei lá.

- Eu estou tão ferrado.

- Eu não liguei para os seus pais. Só para a Hermione. Não sabia o que você faria a respeito deles.

- Obrigado. Ela já chegou? – O amigo balançou a cabeça de forma negativa e um clima ruim se instalou no quarto. Afinal, Hermione Granger estava se tornando o motivo de todas as brigas de Harry. – Eu sinto muito, Ron. – Disse finalmente, fitando suas mãos, envergonhado. A pulseira de paciente parecia muito mais interessante do que o amigo que ele traíra.

- Esquece isso, cara. Eu percebi que deixar nossa amizade de lado por uma garota é besteira. Eu ia lhe falar isso uma hora ou outra. – Seu tom de voz inspirava confiança e sinceridade. E Harry sabia que, por mais magoado que Ron estivesse, nunca seria falso em relação a ele.

- Eu juro que não planejei nada. – Tentou se explicar, mas o ruivo lhe impediu.

- Deixa pra lá. Ok? – O moreno assentiu com um sorriso. – Agora me conte como você quebrou a cara do Julian!


Odiava dirigir quando estava nervosa. Guiar um carro era um exercício que geralmente lhe fazia espairecer, mas, quando tinha preocupações ou coisas gravíssimas ao seu redor, o fazer se tornava quase impossível.

Seus dedos finos e pequenos seguravam o volante de forma firme, ainda que suassem frio.

Receber a notícia através de Ron Weasley, àquela hora, formou dentro de si uma preocupação infinda. Ao juntar com a culpa de ter deixado Harry sozinho e a mágoa que sentira por causa das coisas que ouvira dele, fazia a receita perfeita para um caos interior. Por que apenas não tinham ficado em casa ao invés de irem àquela maldita festa?

As lágrimas gélidas que escorriam em seu rosto pareciam acostumar a cair, numa noite a qual o que mais fizera fora chorar.

Queria logo chegar naquele lugar, então seu pé pressionava o acelerador, enquanto a velocidade crescia rapidamente. Não se lembrava de ter atingido aquela quilometragem alguma vez, mesmo que seu carro fosse tão potente. De fato, sempre fora uma motorista atenta a tudo, que nunca quebrava regras e ultrapassava sinais. Mas não precisava juntar muitos acontecimentos para perceber que aquela noite era incomum, e uma multa por alta velocidade era um grão de areia, no furacão que lhe havia alcançado.

Quando o Audi S6 finalmente estacionou no hospital, após ultrapassagens indevidas pela direita e gritos sutis de motoristas mal educados, Hermione pôde respirar, sem deixar de correr até a recepção.

Pelo menos estava com sapatilhas confortáveis. Precisava mandar uma carta ao Marc Jacobs elogiando seus calçados.


- Eu só acho que você deveria ter acertado o chute! – Ron disse empolgado, já imaginando a cara do almofadinha sendo atingida pelo pé de Harry. Também não gostava dele. Julian sempre era um idiota com os garotos mais novos.

- Eu também acho. – Rebateu cheio de orgulho de si mesmo, mas logo se lembrou do quanto havia sido tolo.

Duas batidas leves na porta foram o suficiente para fazer a conversa morrer. Weasley se levantou em direção a ela. Já fazia ideia de quem era e sairia dali o quanto antes. Tinha certeza que o clima iria ficar muito ruim.

- Oi. – Hermione lhe cumprimentou de forma polida, como se nunca tivesse o beijado na vida. Mas não importava mais.

- E ai? Entre. – Disse dando espaço para que ela passasse e quando ela o fez, o ruivo se dirigiu até o lado de fora. – Vou deixar vocês a vontade. – Explicou sem graça, com as bochechas coradas. Aquela situação era assustadora!

- Como você está? – Indagou sentando-se no lugar antes ocupado por Ron, assim que a porta se fechou. Ele deu um meio sorriso com os lábios fechados. Seu rosto já não estava tão pálido, mas continuava um pouco abatido.

- Um tanto envergonhado por ter desmaiado como uma menina, mas tudo bem. – Tentou descontrair e ela deu um ar de riso, talvez apenas para não deixa-lo sem graça.

- Podia ser pior. – O clima estranho no ar era quase palpável e ambos não sabiam como reverter a situação em que tinham se metido.

- Pois é. – Seus olhos finalmente fitaram os âmbar. Não poderia fingir que não havia dito coisas horríveis a ela. - Olha, Hermione...

- Harry... – Falou baixo, como se falasse mais para si. Não estava pronta para relembrar tudo que havia acontecido. Não naquele hospital, com ele daquela maneira.

- Eu sinto muito. – Confessou respirando como num alívio logo em seguida. Suas bochechas coraram um tanto.

- Por que não deixamos isso pra depois? Preciso te deixar descansar. – Disse já se preparando para levantar como uma deixa de evitar qualquer conversa sobre o assunto tão temido.

- Eu quero que você fique. – Murmurou tocando sua mão com seus dedos gélidos e pela primeira vez aqueles olhos lhe passaram uma confiança incomum. - E não quero mais ser um idiota.

- Que droga, Harry! –Ela desabafou o envolvendo num abraço cheio de urgência e preocupação. O rapaz retribuiu da mesma forma. Podiam sentir ambos os corações batendo fora do compasso. - Por que você me assustou desse jeito? – Indagou com o rosto na curva de seu pescoço e a voz abafada pela sua pele. Não queria chorar, não iria chorar. Mas suas lágrimas já molhavam a roupa dele.

Os braços fortes de Harry lhe apertaram um pouco mais, cheias de segurança, e as mãos dela afagaram seus cabelos, tentando entender o que se passava entre eles.

Ele poderia dizer que já havia lhe beijado diversas vezes, mas aquele abraço havia sido único e surreal. Poderia com toda certeza se precipitar dizendo que queria estar envolvido por ela durante toda a sua vida.


Apesar de todo entendimento com Hermione, a noite havia sido muito ruim. Ligara para James avisando do seu incidente de forma superficial e levara uma bronca por causa do campeonato. Dificilmente participaria e isso tornaria sua ida a faculdade algo praticamente impossível.

Havia passado todo o tempo rolando na cama, como Hermione fazia. Mas dessa vez ela havia dormido calma como um anjo e velar seu sono foi a única coisa boa de toda aquela agonia.


Os olhos âmbar de Hermione perscrutavam um livro qualquer. Não que não possuísse nome ou algum significado, mas sim porque ela simplesmente não conseguia prestar a devida atenção.

Sempre fora uma leitora ávida. Amante fervorosa dos livros e da Literatura. Lembrava-se de, desde que aprendera a ler, devotar boa parte de seu tempo com um pouco de cultura, mas agora apenas não conseguia. Também não pudera pregar os olhos, não teve fome pela manhã e já era quase horário do almoço e ela ainda não sentia necessidade alguma por comida. Mantivera-se estática todo o tempo e os movimentos de Harry foram suficientes para fazê-la perceber que ele não dormira também. Sentira-se observada durante toda a noite.

Não iria atenuar as coisas. Era fatídico que sua mudança de estado envolvia Harry. Aliás, tudo que estava passando era apenas sobre ele. E, para ser mais precisa, todos os seus problemas nos últimos meses eram culpa dele!

Gostara da noite anterior, gostara de terem se acertado no fim das contas. Mas era tão estranho!

Sabia que as coisas ainda não estavam claras por completo, mas já havia de certo alguma definição. Eles sentiam algo um pelo outro e não precisava de muitas palavras ou informações para deduzir. Ele sentia ciúmes, ela frio na barriga. Era um acontecimento conciso, prolixo e altamente perigoso.

- Bom dia. – Ela o ouviu dizer num tom de voz baixo demais para o seu normal. Seus olhos se voltaram para ele, que estava estranhamente mais bonito naquela manhã. Ou seria a sua visão sendo aberta?

- Dia. – Respondeu lacônica e um tanto distante. Mas não assaz de não o notar contorcer o rosto em uma careta que, pelo menos para ela, não demonstrava nitidamente seu sentimento atual.

- Ham... – O moreno sentou-se de frente para a esposa distante e apoiou o rosto sobre a mão com seus cotovelos sobre a mesa. – Como foi a noite? – Questionou com as bochechas escarlates. Hermione hesitou. Por que haveria de ter vergonha de uma pergunta tão trivial. Não acontecera nada de grave pela noite, apenas se beijaram, brigaram, se ofenderam e se abraçaram. Céus, aquilo era tão estranho que ela não pode deixar de franzir o cenho pensando no que lhe responder. – Ok. Estou sendo um idiota. Eu só realmente não sei como fazer isso. – Harry lhe pareceu admitir algo que, somente para ele era real. Hermione nunca o vira sendo tão gentil e aquilo era realmente bom. Mas era tão estranho!

- Não! Não é idiota, apenas surreal. Quero dizer, é tão... esquisito. – Assumiu rindo e o rapaz também sorriu.

- Nós nunca fomos normais!

- Verdade. Mas as vezes eu queria ser.

- Pra que? Ser anormal nos faz únicos. – Falou em tom de diversão e os olhos da morena sorriram. Estava Harry Potter lhe admoestando?

- Frases de efeito! Que progresso, ogro. – Chasqueou lhe arrancando risadas. Era aquela Hermione que ele conhecia.

- Se quiser escrevo para você, bonitinha. – E era aquele o Harry. O SEU Harry. Seu Harry?

- Guarde para si suas divagações. – Ele lhe lançou uma piscadela e ela não revelaria nem em seu leito de morte, mas ele estava demasiadamente charmoso. - Irá ver seu pai hoje? – Indagou mudando totalmente o enredo antes que ele a desconsertasse mais.

- Não. Meu pai já sabe da tragédia e ele disse que viria aqui. Dessa forma tenho o programa perfeito após a provável briga! – Anunciou com uma autoconfiança que a fazia ter certeza que era um programa de índio, ou melhor, de ogros.

- E qual é? – Demandou sem demonstrar interesse, mas estava curiosa em totalidade.

- Cerveja e churrasco na casa do Draco Malfoy. Com jogos de futebol na televisão.

- Não é ele que mora com a prima vadia? – Questionou desconfiada.

- Ele tem uma prima, mas não sabia sobre seus dotes. – Ela lhe deu um tapa no braço o fazendo segurar o riso.

- E eu não sabia que era de seu feitio andar com esse tipo de espécie. – Rebateu ficando um tanto irritada. Sabia disso, pois toda vez que alguém lhe irritava suas bochechas queimavam.

- Está com ciúmes, bonitinha? – Inquiriu cheio de maldade na voz.

- Claro que não, Potter. – Ela sabia que ele usaria qualquer tipo de sentenças medíocres para lhe irritar, mas ela era maior que isso. - Sei de minhas qualidades que excedem anos luz às dela. Não preciso me auto afirmar ou temer coisa alguma.

- Uau. Parece uma daquelas frases que mulheres gordas usam para se sentirem mais bonitas. – Debochou e ela revirou os olhos. Estava tudo como antes.

- Mande lembranças à vadia. – Disse e saiu em direção a sala. Não lhe daria confiança.

Harry riu pra si mesmo. Ela estava com ciúmes? Uma pontada de orgulho nasceu em seu coração o que fez um sorriso involuntário se formar em seu rosto.

Uma expressão pachola tomara conta de si e permanecera quando a campainha tocou. Era hora de enfrentar James Potter. Pela primeira vez ele não deixaria seu pai o humilhar como sempre fazia quando era contrariado. Ele merecia todo respeito. Nunca fora um mau filho.

- O que aconteceu com o seu pé? – James indagou exasperado entrando como se a casa fosse dele.

- Chutei a parede. – Respondeu baixo. Sabia o tratamento que iria receber e isso não lhe agradava nem um pouco.

Hermione apenas ouvia tudo numa mistura de curiosidade, vergonha e pena de Harry.

- E por que alguém chutaria uma parede? – O mais velho aumentou a voz. Ele sempre fazia isso para envergonhar o filho. Como Harry odiava aquilo.

- Eu briguei com um cara. – Noticiou fitando seus pés, que pareciam bem mais interessantes que ter uma briga estúpida com seu pai. James riu incrédulo e uma raiva súbita lhe invadiu.

- Que tipo de retardado se machuca de propósito em pleno campeonato?! – Hermione notou que, pelo tom de voz, o homem começara a se irritar. Independente do que Harry havia feito, ele não tinha o direito de ser tão rude. Um bom pai apoiaria o filho por ser sensato o suficiente de imaginar que ele estava se sentindo um idiota por estragar tudo. Não conseguia entender como o rapaz conseguia conviver com alguém como James Potter. Céus, aquele homem só pensava em si mesmo!

Tinha vontade de invadir aquela sala e arrancar o marido dali.

- Não foi de propósito. – Rebateu entredentes. Começara a sentir uma quentura invadir seu corpo e sua respiração começou a ficar descompassada. Não acreditava que mais uma vez o pai estava sendo um otário.

- Será que eu sempre vou ter que pensar em algo para cobrir as bobagens que você faz?! – Questionou segurando o braço do mais novo com força e lhe mirando nos olhos verdes que pareciam tanto com o seu. Harry não sentia mais dor pelo apertão que o homem estava lhe dando. Apenas sentia raiva o suficiente para seu corpo inteiro tremesse.

- ME SOLTA! – Gritou irritado, empurrando o corpo de James para longe. -TALVEZ SE VOCÊ FOSSE UM BOM PAI, EU NÃO FOSSE O IDIOTA QUE VOCÊ TANTO FALA! – Seus olhos ardiam e ele tinha vontade de partir para cima do Potter, que lhe mirava descrente. O coração de Hermione batia acelerado. Se em algum momento um deles partisse para cima do outro ela entraria naquela sala e chamaria a polícia. Que se danassem os assuntos de família!

- VOCÊ É UM MOQUELE! NÃO MERECE O SOBRENOME QUE TEM. – Berrou de volta lhe empurrando e o garoto caiu sentado no sofá. Aquilo só fizera a ira dentro de si crescer. – QUE SE DANE O CAMPEONATO! EU DUVIDO MESMO QUE VOCÊ TENHA UM FUTURO. – Lhe provocou, arrumando o terno no corpo, ainda que não estivesse amassado.

- SAI DAQUI! SAI DAQUI AGORA! – Harry gritou com toda sua força, o suficiente para sua voz sair rouca no final.

O mais novo se levantou e empurrou o corpo do pai para fora. Duas brigas em menos de 24 horas. Que droga!

- Agora estrague o seguro também, Harry. Sem futuro e falido. – Vociferou e o rapaz bateu a porta num estrondo. Seus olhos lagrimejavam de raiva enquanto ele mirava a janela de vidro da sala.

Hermione entrou no cômodo com cuidado, indo até ele. Conseguia ouvir sua respiração ofegante de longe. Suas mãos permaneciam fechadas em punho e seu olhar se focava num ponto fixo qualquer.

- Harry. – Lhe chamou baixinho tocando a manga de sua blusa. O rapaz puxou o braço com demasiada força e aquilo assustou a menina. Seu rosto estava vermelho e ele não parecia perceber as lágrimas involuntárias que corriam de seus olhos. Nunca o vira tão nervoso.

- Sai de perto de mim, Hermione. Por favor. – Falou tentando manter o tom de voz normal, mas vociferava.

- Não fica assim. – Pediu, ainda que ele houvesse sido grosso com ela. – Seu pai estava nervoso e disse coisas sem pensar.

- Você não conhece o meu pai. – Ele riu amargo. - Será que não consegue manter essa boca fechada? – Disse ríspido e ela finalmente se calou. Não sabia o que dizer.

Harry estava nervoso o suficiente para que ela temesse que ele corresse até a porta, pegasse o carro e fosse atrás do seu pai. Sua respiração continuava tão ofegante que ela tinha medo que ele fizesse alguma besteira. E ele fez, quando sua mão atingiu com força a janela. Ele socara aquele vidro com tanta força, que Hermione pode pensar que havia quebrado algum osso. Aquela pancada deveria ter doído muito.

- Harry! Você quer quebrar a mão também?! – Lhe repreendeu assustada. Daria lhe uma boa bronca, mandando bater com a cabeça na próxima vez, mas o humor dele não era dos melhores, então preferiu se manter calada.

- Só me deixa quieto, Hermione. – Ele apoiou as mãos no batente e abaixou a cabeça respirando fundo. Hermione podia notar sua nuca suada e seu cabelo começar a ficar molhado. – Filho da mãe! – Vociferava entre fungos. Antes que ela pudesse fazer qualquer coisa, ele deu outro soco no vidro, com o dobro da força. Não sabia como ele não tinha quebrado.

Ela não sabia muito bem o que fazer, então lhe virou para si segurando seu rosto. – Para, por favor, Harry. – Pediu desesperada tomando suas mãos, puxando a direita e fitando com cuidado o estrago que os socos haviam feito. Seus dedos pareciam inchados e roxos. Tinha dúvida se tinha ficado mais assustada com os machucados ou com as lágrimas rancorosas que escorriam dos olhos do rapaz. Ela tinha que fazer algo para acalmá-lo.

- Eu não queria assustar você. – Sussurrou entre uma fungada e outra. Seu olhar permanecia fitando o chão e tentava manter a calma, mas não conseguia.

- Eu estou bem. Só não quero que fique se machucando. – Seus braços envolveram o rapaz num abraço apertado. O abraço que ele precisava.

Ela sabia o quanto ele deveria estar se sentindo constrangido por ter sido visto naquele estado, então só tinha que tentar ter a confiança dele. Harry não tinha que ter vergonha dela. Ela entendia. Jurava que sim.

Mantiveram-se daquela forma por um tempo. A menina com o rosto encostado em seu peito e ele com o queixo apoiado no topo de sua cabeça. E aos poucos a calma lhe invadiu e a dor não importava.

Nunca vira Harry Potter tão abatido. Era fato que estavam sob pressão, mas o estado atual de sua perna estava acabando com o moreno e ela sentia a extrema necessidade de cuidar dele. Ainda mais quando sua mão também estava debilitada. Sabia que, enquanto estivessem juntos, seriam inquebráveis, mas se, por um instante sequer, estivesse sozinhos, tudo poderia romper. E ela não podia deixar.

Era um sentimento tamanho paradoxal. Querer proteger "sua" família, que lhe pertencia apenas por um contrato. Todavia, estavam esperando para vê-los cair, mas eles iriam se reerguer do chão e lutar. Como uma Granger e um Potter.


Era difícil ver Harry naquele estado, em demasiada fragilidade. Desejava vê-lo implicando, lhe chateando com piadas sem graça ou até mesmo lhe surpreendendo com beijos desajeitados. Mas, nunca, nunca daquele jeito.

- Como se sente? – Questionou, sentando-se ao lado dele, mas logo se arrependeu. – Essa é uma pergunta de tamanha estupidez. – Completou lhe impedindo de responder. É claro que ele estava péssimo. Não era necessário ser graduada em Psicologia para perceber seu status quo.

- Apenas quero dormir e esquecer os acontecimentos atuais, mas não consigo. As minhas chances acabaram, Hermione. – Comentou franzindo o cenho e olhando para sua perna imobilizada sobre o banco.

- Não fale besteiras, você só perderá esse campeonato.

- É o único campeonato estadual que resta. Onde os olheiros das universidades estão presentes.

- As coisas vão se acertar. – Lhe aconselhou de maneira falha. Ela não sabia o que dizer. - Posso ficar aqui com você. – Se ofereceu falando baixinho e olhando para o carpete, que era bem mais interessante do que a situação em que se encontravam.

- Não precisa fazer isso. Essa história de casamento é mesmo uma farsa. E aquela briga foi idiota. Eu estraguei tudo.

- Não se trata de precisar e sim desejar fazer isso. E esquece o Julian. Ele não importa. – Ele não falou nada e ela mirou sua silhueta. Sabia que ele faria o mesmo, ainda que de maneira distinta. – Sabe, Harry... – Ela iniciou e ele lhe fitou. Escutar seu nome dos lábios de Hermione era estranho, mas afável. Será que era o advento de momentos agradáveis? – Eu sei que... não fomos gentis um com o outro desde o começo e, talvez nem nossos pais acreditem que possamos fazer a coisa certa, mas eu definitivamente creio que podemos ser uma ótima dupla. – Terminou com um sorriso e o moreno riu. Será que riria se soubesse o que ela realmente sentia? Ou pelo menos achava.

- Acha mesmo?

- Sim. Ninguém nunca roubou uma redação por mim. – Disse rindo.

- E ninguém nunca intimidou um cara de dois metros por mim. – Ela sorriu e segurou a mão do rapaz de forma terna. Era um daqueles sentimentos díspares, mas que aprazem. E ela percebeu que, com todas as suas diferenças, eles eram iguaizinhos.

- Ainda sobra qualquer sombra de dúvidas sobre sermos uma boa dupla?

- Não mesmo.

- Eu sinto muito por... Você sabe. Sair por aí te beijando sem dar ao menos uma explicação. É que eu realmente não sei.

- Não sabe o que?

- O que está acontecendo.

- Por que não esquecemos isso hoje? Deixe-me cuidar de você, Harry. – Pediu num sussurro e seus lábios tocaram os dele. Os olhos de Harry se fecharam e os dela também. Sempre fora Harry quem a beijara, dessa forma, tomar a iniciativa era uma situação ímpar, mas daquelas que guardaria em sua memória. Não sabia o que aconteceria no dia seguinte e, sinceramente, não se importava. Apenas queria passar seu tempo com ele, esquecer todo orgulho e tudo aquilo que os tornavam lutadores em um ringue. Estava cansada de brigar.

As mãos quentes de Harry tocaram sua cintura enquanto as dela tocavam seus cabelos rebeldes. Nunca fizeram isso com tanta legalidade. Ela se afastou rapidamente, mas não o suficiente. Seus lábios ainda estavam muito próximos.

- Estou assustada... Com medo. – Confessou num sussurro.

- Por que? – Lhe indagou acariciando seu rosto de forma terna, lhe fazendo perder o raciocínio e demorar certo tempo para responde-lo.

- Porque posso acabar... Aliás, já posso estar gostando de você, seu ogro. – Nunca, em sua existência, Hermione Granger poderia se ver tendo coragem de assumir algo do tipo. Harry entrou em confusão. Era isso mesmo que ele sentia. Era aquela resposta que tanto procurara. E era ela que lhe tinha metido em tal confusão.

- É exatamente o que eu sinto, bonitinha. Tudo estava dando certo até minha mente confundir tudo. – Confessou fitando o chão, se afastando dela e indo até a janela. O vento noturno balançava a cortina e tocava os galhos das árvores lá fora, que ressonavam como uma canção de ninar. Apoiou seus braços no local e inclinou o corpo para sentir a brisa.

Ela teve extrema certeza do que estava acontecendo. E, de alguma maneira, se alegrara por saber que ele se portava do mesmo jeito diante àquela questão.

- Estamos na mesma. – Sussurrou às suas costas de maneira honesta. Ele respirou profundo e franziu o cenho. Virou-se para ela lentamente. Aquilo lhe interessava. – Mas fico contente de não estar sozinha nisso. – Admitiu, dessa vez mirando seus olhos.

- E onde isso pode nos levar? – Indagou preocupado. Sabia que depois de algum tempo suas vidas mudariam novamente.

- Não faço ideia, mas ficarei feliz se estiver comigo. – Ele deu um sorriso tímido. Seus corpos se aproximaram em sincronia e uma das mãos do moreno segurou a nuca da menina com delicadeza. Seus dedos se confundiam entre as mechas do cabelo dela. Hermione apenas abaixou o olhar e pousou suas mãos na cintura de Harry. Seus lábios se tocaram pouco mais de duas vezes antes de seus olhos se fecharem e engatarem um beijo real. Naquela fração de tempo seus corpos pareceram flutuar, suas mentes eram vãs e o instante quimérico. Fora como se finalmente encontrassem aquilo que nunca tiveram durante toda vida. Em cada vez que os lábios dele encontravam os dela, ou que as mãos do moreno tocavam lhe os cabelos ou a cintura, parecia tão certo.

Hermione Granger estava em transe. Suas pernas tornaram-se geleias. Poderia mais tarde questionar a si se Harry gostara do beijo, pois estava sem ação. Não conseguia se movimentar muito bem, apenas seguia os passos dele, que pareciam tão seguros. Os toques do moreno, seu perfume, tudo lhe deixava torpe e a fazia sentir tão tola.

Harry Potter estava nas nuvens. Nunca pensara encontrar na menina que fizera questão de odiar durantes alguns meses aquilo que nunca soubera que procurava. Nunca, em toda sua vida, acharia sensação igual. A sentia frágil em seus braços e protegê-la era tão bom.

Seus corpos se separaram apenas quando necessitaram de ar. Ela pousou as mãos em seus ombros e ele em sua cintura. Os lábios de Harry tocaram os seus mais uma vez, de maneira gentil, antes de finalmente se separarem por fim.


Bom dia. – Ele lhe cumprimentou cheio de receios. Temia que a noite passada fosse ignorada por Hermione. Não sabia o que faria caso as coisas voltassem a ser como antes. Estava com problemas o suficiente para os próximos seis meses. Mais do que nunca precisava dela.

- Bom dia. Como está o pé? – Questionou franzindo o cenho por alguma noticia do jornal. Harry nunca desejou tanto que aqueles olhos âmbar lhe fitassem. Sabia que, com apenas um olhar, Hermione desvendaria todos os sentimentos dele.

- Está melhor. – Falou mirando os dedos, que pareciam menos inchados dentro da bota ortopédica. Arrancara o gesso em menos de 24 horas e Hermione reclamara o suficiente para ele recorrer ao hospital mais próximo novamente. Mulheres!

Caminhou vagaroso e sentou-se de frente para ela, que finalmente abaixou aquele bendito jornal. Seu semblante, apesar de um tanto sonolento, era amável.

- O que você tem? – Questionou fitando o rapaz e mordendo o lábio inferior procurando uma resposta.

- Sabe... – Começou coçando a garganta. – Não vou me chatear caso você diga que o que aconteceu ontem foi apenas para me tirar da fossa. – Confessou ainda que seus olhos dissessem o contrário.

Hermione podia ver o beijo da noite passada nos olhos dele. Harry respirou fundo e abaixou a cabeça. Encarou o silencio como a mais desagradável resposta.

- Você quer isso? – Indagou lhe mirando com atenção. Com aquele jeito que o fazia sentir a pessoa mais importante do mundo inteiro.

- Para ser sincero, não. – Respondeu sentindo suas bochechas queimarem e torcendo o nariz numa careta desproposital. A menina lhe lançou um sorriso genuíno.

- Então considere válidos os acontecimentos e palavras de ontem. – O moreno sorriu e finalmente sentiu seu coração, antes descompassado, bater tranquilo.

- Não vai ser estranho, né?

- Vai ser muito estranho. – Ele riu anasalado e Hermione pensou que, talvez, só talvez, aquilo tudo fosse valer a pena.

N/A: Vão falar que eu não estou gentil e amável ultimamente? kkkkk Mais um post grande para vocês lerem. Espero que gostem do confuso casal Potter e minhas divagações sem fundamento. Obrigada por tudo! Conto com vocês. Beijoooos.