Cerco
Hermione entrou no Ministério da Magia no dia seguinte sentindo-se bem como há muito tempo não sentia. A presença de Scabior ao seu lado lhe deixava confortável, mas os sentimentos ainda conseguiam se embaralhar quando seu corpo reagia ao fato de ele estar ali.
Quem lhe recebeu foi Harry. O amigo estava no seu Departamento quando eles saíram do elevador e caminharam pelo corredor, e sorriu logo quando a viu, andando em sua direção e tomando-a nos braços para um abraço. Ele adorava abraçá-la, e o abraço dele passava uma sensação de calma para ela, como se ela soubesse que ele sempre estaria ali para quando ela precisasse.
- Você está melhor?
Ele perguntou, os olhos verdes fitando o rosto da amiga em busca de uma possível mentira, mas ela limitou-se a sorrir.
- Estou ótima, Harry. Não se preocupe.
O amigo voltou a sua atenção para o homem que a acompanhava.
- Você tem cuidado dela?
Scabior deu um sorriso mínimo, uma demonstração que ele nunca dava a ninguém. Hermione soube naquele momento que o marido tinha um pouco de simpatia agora pelo seu amigo. A vida podia ser engraçada e pregar peças nas pessoas. E pensar que anos atrás o snatcher havia praticamente entregado Harry e ela à morte. Mas ela não pensou muito naquilo. Não queria...
- O bem-estar dela é minha maior preocupação.
Ouvir aquilo da boca dele soou estranho, como se fosse irreal. Nunca imaginara ouvir aquilo de forma sincera. Sarcástica sim, mas nunca sincera. Hermione procurou uma mentira entre as palavras, mas não achou. Scabior voltou à sua fisionomia séria. Quando ela estava junto de seus amigos, ele preferia não conversar muito, e ela perguntava-se mentalmente o motivo disso. Será que ele se sentia ressentido por algo?
- Ginny fará um jantar no fim de semana lá em casa. Você está convidada.
O convite obrigou-a a sair da sua linha de pensamentos. Ela olhou para o amigo e sorriu.
- Sim, Harry. Estarei lá, obrigada.
Os olhos verdes voltaram-se para Scabior.
- Você também será bem-vindo.
O homem assentiu, não dizendo mais nada, mas ela sabia que aquilo era o mais próximo de um agradecimento que Harry iria ganhar, e seu amigo sabia disso também. Abraçou-a novamente para se despedir, dando as costas para o casal e entrando no elevador. Ele atraía muitos olhares quando estava no Ministério da Magia. Infelizmente sua fama iria lhe acompanhar em qualquer lugar que ele fosse pelo resto da vida dele, e Hermione sabia que o amigo odiava aquilo.
Com ela não era diferente. Sabia que quando Scabior estava ao seu lado, conseguia atrair muitos olhares. Ela se vestia casualmente, mas com uma seriedade absurda, para o trabalho. Os cabelos estavam presos no dia em uma trança, apesar de ele sempre falar para deixá-los soltos. Já ele sempre usava calças surradas, blusas escuras e botas. Os cabelos eram um emaranhado de fios. Hermione já havia desistido há muito tempo de tentar melhorá-lo. Pensando melhor, não queria admitir para si mesma, mas adorava o jeito dele se vestir.
Então o casal era visto como duas pessoas completamente divergentes. E eram, mas ela não estava dando muita importância a isso, e pelo rosto de tédio do marido, ele nem ao menos havia percebido os olhares que atraía.
Seus pensamentos foram voltados para o jantar que Ginny iria dar. Sabia que Luna e Rony estariam lá, e sabia que o amigo ruivo tinha no mínimo ódio pelo homem que estava ao seu lado, e com razão. Para Rony, não era fácil simplesmente esquecer tudo o que Scabior havia feito anos atrás, e como ele a manipulou por prazer próprio. E para Rony, ela havia sido sequestrada por culpa do snatcher. Se conhecesse seu amigo como conhecia, ela poderia dizer que o jantar seria no mínimo desastroso.
- Você não precisa ir ao jantar caso não queira.
Ela disse um pouco baixo, quase temendo a reação dele. Scabior olhou para ela por um momento, antes de voltar sua atenção ao corredor.
- Eu acho que eu gostaria de ir.
A resposta a pegou de surpresa, mas ela não respondeu. Não teve tempo. Archie caminhava em direção aos dois e parecia um pouco nervoso.
- O que está fazendo aqui? Eu te dei uma semana de licença! Você melhorou? Sente alguma dor? Sabe que pode sair caso se sinta mal. Onde você estava com a cabeça de voltar?
A enxurrada de palavras deixou Hermione tonta, mas ela apenas levantou a mão para ele lhe dar tempo.
- Eu estou bem e pronta para trabalhar. Quero o relatório inteiro perdido.
Archie olhou de forma assustada para Scabior procurando algum apoio, mas o homem limitou-se a dar de ombros e enfiar as mãos nos bolsos da calça jeans escura.
- Você deixou-a sair?
- Sabe como é, Archie, minha esposa é um diabrete quando o assunto é trabalho.
O chefe olhou para Hermione como se ela fosse um extraterrestre. Depois também deu de ombros e passou a mão nos cabelos ralos.
- Todos os relatórios já estão na sua mesa. Mas achei que voltaria na próxima semana...
- Eu estou bem.
Archie se perguntou de onde a garota tirava energia para trabalhar depois do que havia passado. Ela não havia ficado nem mesmo uma semana de licença. Mas não ousou questioná-la, apenas assentiu e deu espaço para o casal passar.
Ela andou pelo corredor em direção à sua sala com Scabior ao lado. Não entendia ainda a mania que ele adquirira desde que o incidente havia acontecido. Uma mania irritante e ao mesmo tempo prazerosa de segui-la em qualquer lugar que ela fosse, como se em um piscar de olhos aquele homens fossem voltar e tirá-la novamente de perto dele.
Entrou na sala, vendo os pergaminhos arrumados em cima da sua mesa. Sentou-se em sua cadeira, jogando a pasta e a bolsa que carregava sobre a mesa. Suas mãos pegaram o relatório final. Os olhos castanhos correram pelo pergaminho com cuidado, lendo tudo com atenção.
Percebeu que o número de cargas de artigos proibidos interceptados estava maior. Muitas fronteiras tinham atingido o máximo de vigilância, como se alguém ali dentro do Departamento tivesse trabalhado incansavelmente para isso. Fazendo o trabalho dela.
Em um instinto, seus olhos foram em direção ao homem que estava à sua frente, mas ele desviou o contato dos olhos no mesmo momento, interessando-se em demasia pelos artigos que ficavam em cima de uma mesa de canto. Hermione limitou-se a sorrir.
Voltou sua atenção para o mapa. Pontinhos vermelhos diziam onde havia bruxos de seu Departamento. Pequenas pegadas roxas circulavam a fronteira, indicando onde os assistentes faziam sua ronda. Ela lembrou-se do Mapa do Maroto de Harry.
Suas mãos apertaram um pouco o pergaminho. Queria muito que aquilo fosse o mapa do amigo. Indicaria nomes estranhos e onde estavam. Seria muito mais fácil se Hermione tivesse controle de quem andava por ali e em que momento isso acontecia.
Onde aqueles malditos estariam?
Antes de sair de casa, prometeu a si mesma que não pensaria muito naqueles trasgos, mas era inevitável. Queria pegá-los, queria mandá-los diretamente a Azkaban. De repente sentiu a presença de Scabior ao seu lado. Ele apoiou-se na mesa, fazendo o seu cheiro peculiar chegar ao nariz dela. Um cheiro que ela apreciava em qualquer circunstância. Sentiu seu corpo se arrepiar.
- Você conseguirá achá-los aqui.
O dedo longo dele apontou para um ponto do mapa. Um ponto vago e distante de tudo. Um ponto que Hermione nunca iria pensar. De repente ela percebeu a informação valiosa que ele estava lhe dando e o olhou de forma surpresa. Ele desviou os olhos e ela percebeu que ele estava claramente envergonhado por finalmente ajudá-la. Ajudar o Ministério da Magia, algo que ele jurou que nunca iria fazer.
Ele se afastou um pouco, caminhando em direção à janela enfeitiçada e olhando o tempo falso lá fora. Hermione fitou o mapa, o lugar onde o dedo dele apontara. Levantou-se e caminhou em direção a ele, mas ele não olhou. Ela parou em frente a ele.
- Você tem certeza disso?
Dessa vez ele lhe deu atenção. A cor dos olhos azuis estava mais nítida por causa da claridade da janela. Ele travou o maxilar.
- É claro que eu tenho.
Hermione continuou o fitando por alguns segundos.
- Você fica aqui.
Praticamente ordenou, e antes que Scabior abrisse a boca para protestar, ela já havia saído da sala e caminhado em direção à sala de Archie. Michael a encontrou, mas antes que ele pudesse perguntar como Hermione se sentia, ela abriu a boca.
- Chame quem estiver por aqui. Quero o maior número de bruxos que puderemreunir. Bruxos bons em duelos. Vou até a sala de Archie, quero todos lá. Precisaremos desaparatar e o único local em que todos podem fazer isso é lá.
Michael engoliu a pergunta e assentiu, dando as costas para fazer o que lhe foi solicitado. Hermione entrou na sala de Archie. Seu chefe estava escrevendo em um pergaminho, mas lhe fitou quando escutou o barulho da porta.
- Algo aconteceu?
- Sim. Preciso de uma autorização para vistoria de uma área.
Archie conhecia aquele olhar dela. Um olhar de certeza e determinação. Sabia que sempre quando ela desconfiava de algo, normalmente estava certa. E aquele brilho de descoberta estava nas orbes castanhas quando ele a fitou.
- Como quiser...
Michael bateu na porta e Hermione a abriu. Estava acompanhado de cinco bruxos. Ele soube escolher bem, ela sabia que todos ali haviam sido grande duelistas e combateram diversos Comensais na época da guerra. Não que os homens que iriam capturar fossem terríveis como Comensais. Pareciam mais trasgos, mas eram mortais quando viam vulnerabilidade em alguém.
Ela esticou o mapa e apontou a varinha para o local onde queria ir, fazendo um círculo vermelho. As coordenadas apareceram no mesmo momento.
- Quero que todos aparatem para esse local.
Os bruxos assentiram e no mesmo momento um som de 'crac' foi ouvido. Haviam sumido. Archie olhou para Hermione com atenção.
- Onde está Scabior?
- Trabalhando.
Ele passou a mão no rosto cansado.
- Quero que fique longe caso aja uma possível luta.
Hermione olhou para o seu chefe e Archie pôde ver um resquício de maldade naqueles olhos. Mas antes que pudesse dizer a ela o que queria, ela já havia sumido.
Sentiu o cheiro da maresia no momento em que abriu os olhos e lembrou-se do cheiro que ficara impregnado nos seus cabelos no dia em que fora sequestrada. Tudo indicava que estava no local certo. Os bruxos a fitavam, esperando ordens.
- Peguem as varinhas.
Eles puxaram as varinhas dos bolsos e começaram a andar.
- Com quantos homens estamos lidando?
Alguém perguntou. Hermione estava ao lado de Michael, mas era a última do grupo.
- Caso eu esteja certa, cerca de dez.
O número maior não deixou os bruxos sobressaltados, eram treinados para duelarem com duas ou três pessoas de uma vez. À medida que foram caminhando, uma silhueta do que parecia uma casa velha ficou mais visível. Era pequena, e parecia prestes a desabar, julgando pela madeira apodrecida que era vista até mesmo de longe. Hermione não sabia se fora ali onde que ficara por dias, não se lembrava muito do tamanho do local.
- Invadam a casa. Prendam qualquer pessoa que estiver ali dentro.
Ela ordenou e os bruxos andaram mais rapidamente, deixando Michael ao seu lado como se fosse um escudo. O silêncio predominou. Apenas o vento parecia vivo naquele lugar estranho, trazendo consigo um cheiro leve de maresia que ela não apreciou por lembrar-se de momentos ruins que passara há dias.
Ela viu um clarão sair de uma janela. Olhou para Michael em alarme.
- Vamos.
Andaram lado a lado até chegar à casa, ela ignorando completamente o pedido de Archie. Não poderia ficar de fora daquilo, queria ajudar. E no momento em que pisou no chão mofado da casa, viu todos os homens que desejara ver desde que fora resgatada. Alguns jogavam feitiços atrás de feitiços, alguns com feixes verdes e outros amarelos. A estrutura da casa não iria aguentar caso os feitiços continuassem a ricochetear nas paredes de madeira.
Ela semicerrou os olhos e viu um bruxo de aspecto estranho correr. Acenou com a varinha e um feixe vermelho o atingiu nas costas, imobilizando-o. Um a um foram caindo, e no momento em que isso acontecia, os bruxos do Ministério conjuravam cordas fortes e algemas para amarrá-los.
Ela se aproximou. Reconheceu diversos rostos ali. Conteve um sorriso.
- Leve-os para fora.
O grupo de homens sujos foi puxado para fora. Um bruxo do Departamento estava com todas as varinhas recolhidas e enfiou-as em uma bolsa prateada, selando-a com um feitiço. Hermione o olhou.
- Chamem a equipe mais próxima deste local. Há muita coisa aqui. Recolham todas as cargas que conseguirem achar nessa casa.
Ele assentiu e pediu ajuda para dois bruxos. Ela saiu da casa despedaçada com outros dois. Michael estava com o grupo de homens acorrentados. Ela percebeu ali olhares surpresos e até mesmo de medo. Perguntou-se por um momento o motivo de Scabior realmente ter delatado aquele grupo grande de homens. Eram onze ao total.
Ela se aproximou de um em específico, reconhecendo-o de imediato. Era o homem que havia jogado a maldição Cruciatus em seu corpo até que ela gritasse e cuspisse sangue, e era o único ali que a olhava com ódio, e não com medo.
Os homens estavam ajoelhados no chão, e Hermione teve que apoiar as mãos nos joelhos, agachando-se um pouco para fitá-lo diretamente nos olhos. Sorriu ao vê-lo.
- Como descobriu a gente, puta?
Ouvir aquilo fez o corpo dela tremer, sua vontade era a de aplicar a mesma maldição naquele homem e fazê-lo cuspir sangue igual ela havia feito. Mas não o fez. Controlou-se.
- Eu já estive aqui.
- Você nunca esteve aqui.
- Eu senti o cheiro de maresia. Sei que esse é o lugar certo.
- Sua imbecil, você esteve do outro lado da Inglaterra!
Ela parou por um momento, apenas pensando em tudo. Havia tirado a sorte grande por ter um marido que conhecia o local exato onde os acharia.
- Eu tenho certeza de que foi aquele maldito homem que nos delatou.
Ouvir aquilo ser falado com uma fúria anormal dessa vez fez Hermione sorrir. Ela ignorou o homem, não dando mais informações. Não diria que fora realmente Scabior quem indicara o local certo. Ela voltou a ficar de pé, dando as costas e afastando-se.
- Você deve ser uma trepada muito boa para que Scabior tenha se tornado um bruxo patético igual se tornou.
Ela parou de repente, virando-se com fúria para o homem. Aproximou-se novamente.
- O que você disse?
- Eu disse que você deve no mínimo deixá-lo louco na cama para fazer com que ele virasse um bruxo patético.
Hermione apontou a varinha diretamente para o rosto do homem. Sentiu a apreensão de todos à sua volta. O homem piscou algumas vezes, assustado com aquilo apontado para si. Mas ela abaixou a varinha, direcionando todas as suas forças para seu punho. O homem recebeu um soco diretamente no nariz, que ficou visivelmente quebrado. O sangue começou a sair pelas narinas e ele gemeu.
Ela lembrou-se que aquele era o segundo nariz que quebrava com um soco. O primeiro fora de Draco Malfoy.
- Puta.
O homem deu um sorriso cínico quando viu o rosto dela em fúria quando a xingou. Hermione abaixou-se novamente e o olhou com intensidade.
- O seu inferno está apenas começando.
O sorriso do homem morreu e ela gesticulou para Michael.
- Leve-os para Azkaban.
Seu assistente assentiu, desaparatando com os bruxos presos e alguns do Departamento. Alguns bruxos de outra equipe já haviam chegado ao local e estavam vistoriando a área. Olhavam para ela com admiração. Sem dúvida aquela havia sido uma apreensão grande.
Mas ela estava exausta.
Abaixou a cabeça e fechou os olhos, pensando no tipo de humilhação que aguentava por causa de seu casamento anormal. Queria ir para casa, tomar um longo banho de banheira e dormir uma boa noite de sono.
Andou em direção ao bruxo para quem haviadito as ordens.
- Fique no comando. Vou voltar ao Ministério.
Ele assentiu e Hermione fechou os olhos, aparatando diretamente para sua sala. O cheiro de maresia já estava impregnado no seu corpo.
Archie foi o primeiro a entrar.
- Seu marido foi embora cerca de uma hora atrás.
Hermione assentiu, pegando a bolsa e a pasta.
- Vou para casa. Depois mande bruxos para interrogar os presos em Azkaban. Michael está por lá.
Archie apenas gesticulou com a mão e saiu. Ela fechou os olhos e pensou no seu apartamento, aparecendo diretamente em sua sala. Sentiu-se confortável no mesmo momento. Já estava anoitecendo, a sala estava em um tom alaranjado. A noite trazia consigo o frio.
Ela percebeu que Scabior estava dormindo no sofá e andou vagarosamente até ele, colocando a bolsa e a pasta em cima do balcão da cozinha no processo. Fez o mínimo de barulho que conseguiu.
Bichento estava deitado em cima das pernas dele, enrolado em uma bolinha. Olhou-a atentamente quando Hermione se aproximou e se ajoelhou em frente ao sofá, fitando o homem atentamente.
Sua mão foi em direção ao peito dele, que subia e descia compassadamente por causa da respiração tranquila. Correu a mão ali, sentindo a textura da camisa, subindo até o rosto. A barba estava por fazer e os lábios estavam fechados em uma linha fina. Algumas mechas do cabelo estavam jogadas perto do rosto. Ela passou os dedos pelo rosto dele, ouvindo-o resmungar um pouco, mas ainda entregue ao sono.
Sorriu com carinho, pensando no favor que aquele homem lhe fizera naquele dia, mas a seriedade lhe atingiu rapidamente de volta. Assustou-se com os próprios gestos e levantou-se de onde estava.
Chamou Bichento, mas o gato limitou-se a bocejar e virar-se de costas, enrolando-se novamente em uma bolinha e caindo no sono em cima do homem pela segunda vez.
Ela franziu o cenho. Desde que voltara do sequestro, o gato estava mais apegado a Scabior do que a ela. Revirou os olhos, pensando em quão temperamental o animal era.
