CAPÍTULO #28


LOCAL: BUNKER SUBTERRÂNEO NA PROPRIEDADE ARGENT

IMEDIATAMENTE DEPOIS

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Dean deixa a cela subterrânea sem que Allison, olhos apaixonados fixos em Scott e sorriso bobo no rosto, perceba. Ele não consegue evitar um meio sorriso cúmplice. Uma Argent e um garoto lobisomem. O amor pode juntar as pessoas mais improváveis. Ou pessoas e criaturas. O surpreendente era que Christian Argent aceitasse esse romance numa boa. Ele devia amar muito a filha para passar por cima de séculos de tradição.

Scott McCall podia não ter matado um humano .. ainda. Mas, isso não significa que não o fará no futuro. Seja como for, é inútil especular a respeito. O que ainda está por acontecer só pode ser resolvido no futuro. Quando acontecer. Scott McCall passa a ser responsabilidade de Allison Argent. Um dia, ela talvez se arrependa amargamente pela responsabilidade que assumiu. Mas, esse dia ainda está no futuro. O certo é que, se tivesse deixado o namorado morrer, o arrependimento começaria no dia de hoje.

As voltas que o mundo dá. Dean Winchester lembrou-se de quando era bem jovem e de como lhe parecia fácil naquele tempo distinguir o certo do errado. Havia o preto e havia o branco. Homens e monstros. A vida bagunçou esses conceitos. Monstros são monstros. Mas, existem monstros e monstros. Assim como existem homens capazes de cometer monstruosidades, existem monstros que lutam para preservar sua humanidade perdida. A vida acontece numa infinidade de tons de cinza.

Ter ou não matado talvez não seja o elemento decisivo. O mais importante talvez seja a visão de futuro que humanos e monstros tenham para as suas vidas. Como a vampira Lenore ou Kate, a garota transformada em lobiswoman. Scott McCall não seria o primeiro monstro a quem concederam o benefício da dúvida.

Era importante, no entanto, que ele e Sam estivessem de acordo em casos assim. Em se tratando de monstros, não matar era a decisão mais difícil. A que exigia mais reflexão. A que podia ter mais consequências. No caso de Scott McCall, decidiram escutar o que Christian Argent tinha a dizer. Allison era uma garota apaixonada e os irmãos sabiam o quanto o amor pode cegar.

O problema é quando os irmãos não se punham de acordo. E isso vinha se tornando cada vez mais frequente.

Ter passado por cima dos sentimentos de Sam e matado a kitsune Amy quase custou a Dean sua relação com o irmão. Quase custou sua vida nas mãos do deus Osíris.

Enganar Sam, fazendo-o acreditar que Amelia Richardson corria perigo e obrigando-o a dirigir desesperado da Louisiana até o Texas para salvá-la, era a causa da tensão que existia no momento entre eles. Do ponto de vista de Dean, ele não tivera alternativa. Sam estava irredutível. Aquela fora a única forma que encontrara para afastar Sam e, desta forma, proteger Benny. Sam dizia que Dean voltara mudado do Purgatório. Talvez fosse verdade. E Benny tinha muito a ver com essa mudança.

Benny é um vampiro. Matou inúmeros humanos antes de ser morto e, agora, revivido e solto no mundo, talvez volte a matar. Talvez, sim. É provável que sim. Mas, sentia-se em dívida com ele. Uma dívida tão grande que talvez nunca possa ser paga. Demorou muito, mas Benny acabou por conquistar por completo a sua confiança e, até aquele momento, não o decepcionara. Pensava nele como um amigo. Podia, portanto, entender perfeitamente Allison e o conflito que vivia. Mas, também sabia que se Benny saísse do controle, o caçaria e mataria. E, depois, choraria sua morte. Talvez fosse este também o destino de Allison Argent.

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Dean reuniu-se a Sam e a Chris Argent na cela vizinha, para onde os dois tinham acabado de trazer, com muito esforço, o corpo do lobisomem negro. Sam já tinha se adiantado e contado para Chris em linhas gerais as circunstâncias da morte do lobisomem. Dean deu mais detalhes e falou do homem atacado e do estado desesperador em que se encontrava. Dean pediu e Chris prometeu ligar para seu contato no hospital para obter notícias.

Chris examina o corpo inerte com instrumentos médicos em busca de sinais de vida ou de regeneração celular. Nada. O lobisomem estava completa e definitivamente morto. O que só confirmava algo que já sabiam. Não havia salvação para um lobisomem atingido por uma bala de prata num órgão vital. Mesmo nos casos que um homem com um ferimento equivalente poderia sobreviver.

A prata neutralizava o fator de cura dos lobisomens e os matava por envenenamento. Mesmo o contato prolongado com a pele podia matar.

- Reconhece a criatura?

- Vernon Boyd. Um dos três estudantes do Beacon Hills High School transformados por Derek Hale.

- High school? Ele não parece ser assim tão jovem.

- Não estranharia se tivesse repetido um ou mais períodos. Mas, até onde sei, ele ainda está na faixa dos vinte.

- O homem que ele atacou dificilmente sobreviverá. Eu o deixei no hospital em estado crítico. Acredito que já esteja morto neste momento. Se aconteceu mesmo, serão duas as mortes na conta de Derek Hale. O homem e o lobisomem. Hale criou o monstro e é responsável por ele e pelas mortes que ele causar. Concorda comigo, Chris?

- Totalmente.

- É bom saber que estamos de acordo quanto à necessidade de matar Derek Hale antes que ele decida recompor suas fileiras após essa baixa. Não podemos permitir que o faça. Isso de transformar adolescentes é monstruoso. Não é algo que possa ser relevado. É mais do que simplesmente matar. É roubar-lhes a humanidade. Condenar suas almas. Nós vamos atrás dele. Vamos caçá-lo como o monstro que é e não descansaremos até vê-lo morto.

Chris Argent estranhou o viés religioso do argumento de Dean Winchester. Roubar-lhes a humanidade. Condenar suas almas. Não imaginava que aqueles garotos agissem motivados por tal fervor religioso. Conhecia o lema dos Winchester. Algo sobre proteger pessoas ser o negócio de família. Entendia isso de salvar vidas. Essa de salvar almas era novidade.

O que Chris jamais poderia imaginar é que Dean Winchester não estava falando em tese. Que o que dissera não era simplesmente uma convicção religiosa pessoal. Dean falava com o conhecimento de causa de quem esteve pessoalmente no Inferno e no Paraíso e viveu todo um ano no Purgatório, cercado por almas de monstros mortos. Lobisomens tinham almas, mas o Paraíso estava fechado para elas.

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Boyd morrera na forma de lobisomem, mas já começava a retornar à forma humana. Os caninos já não chamavam atenção e os olhos não estavam mais amarelos. O único problema passava a ser a marca de bala na testa. Se o corpo fosse encontrado, passaria a ser um caso de polícia. E, com uma morte confirmada e suspeita de múltiplos desaparecimentos, um assassinato podia atrair a atenção da imprensa.

Isso criava um grande problema para todos. O corpo não podia aparecer, mas Boyd não podia simplesmente sumir do mapa. Ele não era um lobisomem errante, um ômega. Ele estava estabelecido há vários anos em Beacon Hills. Acabariam dando por falta dele.

- Sabe se ele tinha família?

- Uma mãe e duas irmãs. Mas, creio que moram no Alabama. Boyd vivia sozinho num trailer na parte pobre de Beacon Hills.

Foi Allison quem respondeu à indagação de Sam Winchester. Ela se aproximou do corpo e ficou um bom tempo olhando em silêncio para o rosto novamente humano do rapaz. Ele fora seu colega de turma, mas nunca foram amigos. Trocaram umas poucas palavras. Saber que ele fora transformado em lobisomem só aumentara a desconfiança que já existia por ele ser negro e vir de uma classe social mais baixa.

Não sabia ao certo o que sentia ao vê-lo ali, na sua frente, morto. Acertara Boyd com flechas e o vira sendo torturado. Não fizera nada por ele. Essa lembrança a fazia sentir-se desconfortável. Tinha consciência de que agira errado com ele. Mas, se fosse chorar por alguém naquele momento, choraria por si mesma. Por olhar para o ex-colega morto e não sentir dor nem piedade. Por ter se tornado essa pessoa fria e preconceituosa.

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De volta à residência, sentados em torno da mesa da sala num clima mais descontraído, os homens com copos de whisky na mão, Winchesters e Argents trocam informações.

- Como está sendo com o xerife Stilinski?

- Não tivemos problemas. Ele está cooperando. Parece ser um bom homem.

- Ele é. Meu pai preferia um homem nosso à frente da delegacia, mas talvez seja melhor alguém neutro. Tem funcionado bem nos últimos anos.

- Tive acesso ao inquérito policial sobre a série de mortes ocorrida na cidade no ano passado. Passei a manhã e boa parte da tarde analisando o material. Não houve tempo de repassar o que descobri para o Dean, que passou a tarde fazendo suas próprias .. descobertas.

Sam fez uma pausa e lançou um olhar enigmático a Dean como se o desafiando a revelar o que fizera naquela tarde. Dean fica sério e sustenta o olhar, mas não diz nada. O clima pesado entre os irmãos não passou despercebido pelos Argent.

- Continuando .. Foram essas mortes que nos trouxeram aqui. Está claro no inquérito que a motivação para o assassinato de membros da equipe de natação de 2006 de Beacon Hills High School foi vingança e que o mentor e executor dos crimes foi Matthew Daehler, outro colega de turma de Allison.

- Sabemos disso. Foi realmente o Matt buscando vingança. Eu o conhecia bem. O Matt tentou se aproximar de mim no período em que o Scott e eu fingimos ter terminado o namoro. Cheguei a sair com o Matt umas poucas vezes. Foi assim que descobri que ele vinha tirando fotos minhas sem autorização desde que cheguei à cidade. Ele dizia gostar de mim. Mas, dava para perceber que ele tinha problemas. Ele se descontrolava toda vez que era contrariado. Tinha mudanças súbitas de humor. Parecia que ia partir para a violência a qualquer momento. O Matt chegou a atirar em Scott e a ameaçar com uma arma o xerife, o filho dele e a enfermeira McCall, que é mãe de Scott.

- Mas, Matthew Daehler não agiu sozinho. O inquérito tenta fazer crer que foi obra isolada de Daehler, mas um olhar mais atento percebe furos nesta tese. Matthew não poderia ter agido sozinho. Havia uma criatura sobrenatural envolvida.

- O kanima.

- Kanima?

- Uma criatura com aparência réptil que respondia aos comandos de Matt. Com a morte de Matt, a criatura passou a obedecer ao assassino dele. Meu avô, Gerard Argent.

- Meu pai estava com um câncer terminal e, para ganhar mais alguns anos de vida, não hesitou em passar por cima de tudo o que nossa família sempre acreditou. Ele forçou Derek Hale a mordê-lo pensando em depois matá-lo e tornar-se ele próprio um alfa. Ele não hesitou em ameaçar a vida de Allison e, ao final, descontrolado por falhar em seu intento, ordenou ao kanima que nos matasse a todos. A mim, seu filho. A Allison, sua neta. Estaríamos mortos se Derek e Scott não nos ajudassem a detê-lo.

- E o que aconteceu com o kanima?

- Desapareceu. Nunca mais foi visto.

- E Gerard?

- Não sabemos ao certo. Não o considero mais meu pai. Não depois dele ameaçar a vida da minha filha.

A voz de Christian Argent denuncia toda a confusão de sentimentos que aquele episódio lhe trouxe. Mágoa, raiva, dor de amor traído, inconformismo e até orgulho, por saber que fez o que era certo. Ouvindo o relato emocionado de Christian, foi inevitável que os irmãos Winchester lembrassem que precisaram matar o próprio avô, Samuel Campbell que, retornado da morte, não teria hesitado em entregá-los a Crowley para ter de volta a filha Mary, a mãe deles. Samuel tentara matá-los controlado pelo verme Khan, mas já vinha agindo contra eles há muito tempo. Conheciam as cicatrizes que a traição de um parente próximo deixa.

- Então, Derek Hale não foi responsável por nenhuma destas mortes?

- Não. Uma destas ironias do destino nos fez aliados contra o kanima e, no final, contra meu próprio pai. Mas, Derek mordeu Victoria e isso a levou à morte. Não é algo que se esqueça.

- Eu nunca vou perdoá-lo. Ele tem que pagar pela morte de minha mãe.

- Fique tranquila, Allison. Ele VAI pagar.

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Sam aproveita que Dean está entretido escutando Christian discorrer sobre o efeito em lobisomens e outras criaturas sobrenaturais de plantas como a sorbus scopulina, mais conhecida como mountain ash, e o aconitum napellus, o popular wolfsbane, para inquirir Allison sobre Danny.

- Allison, o que pode me dizer a respeito de Daniel Mahealani?

- Ele não é um lobisomem, se é isso que está querendo saber.

- Não. Não é isso. Sei que ele não é um lobisomem. Eu o testei encostando uma lâmina de prata na pele dele.

- Fora isso, a única coisa que merece registro especial é que ele é abertamente gay. É algo que ele nunca escondeu de ninguém. E o legal é que as pessoas o respeitam. Talvez por estarmos na California. Não sei se seria a mesma coisa se estivéssemos no Kansas ou no Texas.

- Isso das pessoas o respeitarem. Como acontece na prática?

- Ele é goaler do time de lacrosse. O lacrosse é um esporte bruto, que favorece o contato físico. O comum nestes casos é que mesmo jogadores que não sejam homofóbicos mantenham distância de alunos abertamente gays. Aquele lance de afirmação adolescente da identidade sexual. Rivalidades entre grupos. Esportistas versus nerds. Era assim em outras escolas que eu estudei. E olha que eu mudei muitas vezes de escola.

- Sei bem como é isso de viver mudando de escola. Foi assim também comigo. E concordo que o mais comum é que alunos que praticam esportes coletivos formem grupinhos fechados que excluem os gays.

- Mas, pelo que sei, o Danny foi bem recebido pelo grupo de lacrosse, e por todos os outros grupos desde o início. Nunca soube que tenha sido discriminado ou que tenha passado por constrangimentos. Nunca ouvi nem mesmo aquelas piadinhas que os amigos fazem na base da brincadeira. O Jackson, que sabe ser bastante desagradável quando quer, é um dos melhores amigos dele. Danny era um amigo próximo até mesmo do Matt. O que eu achei mais surpreendente foi saber pelo Scott que os jogadores não mudam a forma de agir em função dele estar ou não presente no vestiário. O Danny foi realmente aceito sem reservas como parte do grupo.

- É. Dá o que pensar.

- Acredita que o Scott tirou o Danny para dançar em pleno baile do colégio, na frente de todos? Só mesmo o Danny para ser essa unanimidade.

Samuel Winchester se dá por satisfeito. Estava mais do que claro que Daniel Mahealani era capaz de influenciar o comportamento das pessoas a seu favor. E para mudar tanto o irmão, só sendo alguém muito poderoso. Não tinha nenhuma dúvida que Danny era a causa do estranho comportamento de Dean. Mas, ia matá-lo e libertar Dean da sua influência.

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Danny Mahealani ameaçava tornar-se mais um elemento de discórdia entre os irmãos. Como Amy. Ou Benny.

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NO PRÓXIMO CAPÍTULO: SAM - E SUA FACA DE LÂMINA DE PRATA - NO APARTAMENTO DE DANNY MAHEALANI.


ESCLARECIMENTOS:

Aqui fica claro que a razão do estranhamento entre Dean e Sam é o inconformismo de Sam em aceitar a amizade de Dean com o vampiro Benny. O presente capítulo situa a fic pouco tempo após o episódio 8x8 (Citizen Fang), em que Dean age contra o irmão para proteger o vampiro, e antes do encontro dos dois com o avô paterno Harry Winchester, no episódio 8x12 (As Time Goes By).

No capítulo #4, Dean referiu-se à kitsune Amy como a "amiguinha devoradora de cérebros" de Sam. Amy é THE GIRL NEXT DOOR do episódio 7x3 de SPN.


08.02.2014