Epílogo.
– Odeio chuva!
Sirius bufou e deixou-se cair em uma poltrona da sala comunal, entre James e Peter, que riram diante de sua irritação. Mesmo de dentro do aconchegante Salão da Grifinória era possível escutar a chuva que caía incessantemente lá fora; da grande janela, via-se o céu negro repleto de nuvens carregadas e a escuridão melancólica de um dia que mal havia começado.
– Idiota! – James exclamou em resposta, afastando-se para dar lugar ao amigo e batendo com a almofada nele. – Cancelaram as aulas de campo e você continua reclamando como uma velha!
– Não deixe a Evans te ouvir. – murmurou Peter entre risinhos, ao que James corou levemente e olhou em volta.
– Ela deve estar monitorando os corredores agora.
– E por falar em Evans – Sirius colocou as pernas sobre James e espreguiçou-se sobre Rabicho, ao que ambos riram – o que diabos aconteceu na festa de ontem? Você e a Lily se beijaram?
Black encenou uma cara de nojo e Peter caiu na gargalhada definitivamente enquanto Pontas corava, esforçando-se ao máximo para não alterar a expressão neutra.
– Quero dizer – Sirius prosseguiu calmamente –, eu só me lembro de ter sido assediado por uma garota da Sonserina; depois disso, bebi tanto que de alguma forma acordei na cama da Alicia no dormitório das garotas. Ela disse que dormiu no sofá porque não conseguiu me tirar de lá, mas sinceramente, quem acredita?
– Eu acredito. – James deu de ombros. – Lils me contou que você subiu com elas e que caiu no sono enquanto as duas pintavam o seu rosto, por isso tiveram que sortear quem perderia a cama.
– Desperdiçando a sorte.
– E por acaso o que você tinha pensado, seu pervertido? Acha que Alicia estuprou você ou coisa do tipo?
– Quando acordei o botão da minha calça estava estourado e meu camisão alargado! Alguém se aproveitou de mim e se não foi a Alicia então só restam...
– Não diga o que eu acho que vai dizer, seu cachorro!
– Você beijou a Lily ou não, Potter?!
James revirou os olhos e apoiou o rosto nas mãos, corando mais uma vez. Ele fez menção de dizer alguma coisa, mas não conseguiu falar nada de concreto e sorriu; por fim, depois de procurar as palavras certas e decidir-se por simplesmente ser sincero, murmurou:
– Lily disse que também me ama.
Sirius gritou como uma menina e pulou para ficar de pé, dançando em torno de James como uma garota enquanto urrava de alegria.
– Eu sou – ele berrou enquanto pulava, sem importar-se com os quartanistas que o olhavam do outro lado do salão – o maior gênio do Universo!
– Por que você? – James franziu a testa.
– Quem armou a detenção com o Hagrid? Quem descobriu sobre o sequestro dos pais da Evans? Quem atraiu os Comensais para a Casa dos Gritos? Quem montou o plano da invasão do Ministério? Quem desmascarou Squalor e acionou a Ordem da Fênix? Quem, com todas essas coisas, fez a Evans ver que você é um cara legal e finalmente perceber que está apaixonada? Eu, eu, eu, eu, eu e, ops, eu de novo!
James fez uma careta, mas não desmentiu nada. Desde que Sirius havia decidido unir ele e Lily, todas as coisas haviam mudado e estavam conspirando ao seu favor, apesar das brigas casuais que estavam gradualmente diminuindo ao ponto de quase se extinguirem. Sua ruivinha podia até estar bêbada quando havia dito todas as coisas que dissera para ele na festa da noite anterior – e não haviam sido poucos os elogios –, mas o importante é que bêbados não mentem jamais e isso significava que ela não havia exagerado, que todas as suas palavras haviam surgido do coração.
E isso o extasiava.
– E você, Sirius? – Peter arrancou Pontas de seus pensamentos e interrompeu a dança da vitória de Six. – Com quem ficou ontem à noite?
– Pamela Strauss, Ingrid O'Neil, a irmã mais nova da Karin que eu não sei o nome e Yah Ernani. E talvez uma sonserina, mas eu não lembro de mais nada do que aconteceu depois de ela ter dado em cima de mim. – ele deu uma piscadela, uma pirueta e desabou no sofá mais uma vez. – Eu sou tão irresistível que isso já está perdendo a graça.
– Namore. – sugeriu James.
– Apaixone-se. – apoiou Peter sabiamente.
Sirius sorriu de leve, mas sua aura mudou de água para vinho diante daquelas palavras. Seus amigos não pareceram perceber, mas seus olhos anuviaram-se de repente.
– Não posso. – ele sussurrou, meio em tom de riso e olhando para o chão como se pudesse prever a reação que seus amigos teriam.
– Ah, não! – James revirou os olhos, exasperado, e Peter dobrou-se em risadas novamente. Ele fez uma careta para Sirius, ignorando o fato de que o amigo não olhava para ele, e sim para os próprios pés. – A velha história da garota dos sonhos pela milionésima vez!
– Desencana, Sirius. – Peter acrescentou. – Tantas meninas atrás de você e você com essa idéia fixa de anjo de asas negras...
– Eu não falei nada! – Black defendeu-se, de repente irritado. – Eu só comentei que não posso namorar ou me apaixonar, seus idiotas. É perda de tempo e eu tenho muitas preocupações com vocês pra pensar em me incomodar com alguma garota fresca e complicada.
– O que você acha da Alice?
A pergunta brusca de James fez Sirius franzir a testa e desfazer a cara amarrada. No mesmo instante, o buraco do retrato se abriu e cabelos flamejantes entraram no campo de visão dos três marotos, mas não foi possível enxergar mais do que um brilho fugaz dos fios ruivos de Lily – sem olhar para ninguém e deixando as amigas e Remo para trás, a jovem correu a subir as escadas para o dormitório das garotas, a cabeça baixa e os livros apertados contra o peito.
Diante de tal aparição, James sentou-se mais reto no sofá, o rosto vermelho e os músculos moles como esponja. Ele esqueceu-se de respirar e seus olhos arregalados fixaram-se no ponto exato onde Lily havia desaparecido em sua tentativa desesperada de passar despercebida; Lupin, Alice e Lana aproximaram-se e se acomodaram por perto dando risada e cumprimentando os marotos, mas Pontas nem mesmo chegou a escutar.
– Esqueça. – Sirius aconselhou quando Lana cutucou Pontas na tentativa de fazê-lo ouvir suas zombarias sobre a festa da noite anterior. – Ele não vai escutar até o perfume de Lily tenha desaparecido completamente do ambiente.
– Ele não vai escutar até que ela diga alguma coisa. – riu Alice. – Lily também não está muito coerente hoje. A cada vez que lembra de ontem, se agarra nos pilares e bate com a cabeça na parede, cai na risada ou quase vai às lágrimas.
– Hilário. – Lana comentou com um sorriso maldoso, revirando os cabelos castanhos muito curtos e lançando um olhar rápido para Sirius. – E do que vocês estavam falando, aliás?
– James estava me perguntando o que eu acho de Alice. – Almofadinhas respondeu descuidadamente, fazendo O'Connel corar. – Só não entendi o objetivo. Acho que Evans deixou-o senil.
O silêncio de Potter provocou mais uma onda de risadas, mas Sirius não disse nada. Olhava para a janela do Salão Comunal, através da qual se via a chuva torrencial que caía violentamente lá fora, tão silencioso e pensativo como só os dias de chuva levavam-no a ficar. Lupin percebeu o olhar de Black e calou-se também, deixando as duas garotas comentando com Peter detalhes da festa que só mesmo garotas podiam perceber e discursando orgulhosamente sobre os casais formados durante as músicas mais melosas; aproveitando-se da empolgação delas com suas novidades quentíssimas, Remo ficou de pé e sentou-se no braço da poltrona de Sirius.
– Sonhei com ela. – ele murmurou, ciente de que essa seria a única coisa no mundo que faria Black tirar os olhos da janela.
Estava certo.
– Com o meu anjo? – ele retrucou imediatamente, os olhos brilhantes de empolgação. – O que ela disse?
– Que quer ver você.
Black pulou para ficar de pé e quase derrubou Lupin em sua empolgação, o coração rufando dentro de seu peito que permanecera sempre tão silencioso e vazio. Pensou por um momento que perderia o controle das cordas vocais e se esvairia em gritos de histeria, mas no último segundo conseguiu conter a própria voz e segurou o braço de Remo com as mãos trêmulas e de repente geladas.
– Não brinque comigo. – ele murmurou, vagamente consciente de que aquilo pareceria uma briga.
– Não estou brincando. – Remo retrucou, e em seu rosto um sorriso inevitável formou-se no lugar da seriedade, derretendo a desconfiança de Sirius por inteiro e levando-o a abraçar o amigo, segurando-se para permanecer em silêncio.
Lutava há meses para conter seu coração palpitante e sua agonia que atingira o auge nos últimos dias. Sua vida havia tomado um rumo inesperado desde que havia sonhado com seu Anjo pela primeira vez, quase seis meses depois da invasão insana ao Ministério da Magia e a luta cara a cara contra Lorde Voldemort; passara a vida inteira arriscando-se e jogando-se na direção da morte o tanto quanto podia, o peito inundado da solidão, de desespero e de saudades inexplicáveis que acompanhavam sua existência desde o instante em que sua vida em Hogwarts havia começado. Todas essas dores subitamente haviam se acalmado diante do Anjo de seus sonhos; sabia que estava irremediavelmente envolvido em uma loucura, em uma fantasia, mas tinha igual certeza do amor imenso que sentia pelo Anjo de quem jamais soubera o nome e que sempre, sempre e sempre havia desejado acima de qualquer coisa.
Sirius sabia que permanecia vivo apenas por ela.
o/\o
– Ele só não morreu ainda porque você interfere o tempo todo.
Ergui os olhos para Lucy, tão profundamente distraída que demorei pelo menos cinco segundos inteiros para focalizar seu rosto e entender a superfície do significado de suas palavras. Minhas asas abertas agitaram-se; no meio da clareira que eu conhecia tão bem, a imaterialidade de minha existência e a imagem trêmula e fantasmagórica com que eu me apresentava feriu-me mais do que eu pensei que poderia.
– Está falando de Sirius, Lucy? – perguntei baixinho. Dizer o nome dele em voz alta, como sempre, me causava pânico.
– Eu sei que é tabu comentar sobre isso – a loura pulou do tronco caído em que estava sentada e aproximou-se mais do círculo que os Mestiços, calados como se ninguém estivesse dizendo coisa alguma, formavam ao redor da clareira –, mas eu não aguento mais fingir que estamos todos envolvidos em uma simples missão que Bruma diz ser urgente. Portanto é de Sirius, sim, que eu estou falando, Angely; Sirius é o único motivo pelo qual estamos aqui e eu não suporto mais vê-la esconder a comoção que isso lhe causa!
– Estamos há quase seis meses recebendo ordens de Bruma para transportar os Elfos para Valinor. – Adam disse, repentinamente quebrando um silêncio que havia durado muito tempo. Não olhei para ele; tinha consciência de que sua voz materializava os pensamentos que todos os outros Mestiços estavam lutando para não expressar. – E desde que ela ordenou que você abandonasse sua vida, seus amigos e principalmente Sirius Black, Angely, tudo o que você faz é obedecer a ela como se nada mais importasse.
– Nada mais importa. – resmunguei, mas ele fingiu não escutar.
– Na noite em que apagou a memória de toda a comunidade bruxa que um dia teve contato com você, Bruma mandou que nós observássemos Sirius. Todos – e aí ele fez um gesto englobando os Mestiços, cujos olhos, antes perdidos, agora se fixavam em mim – percebemos a sua agonia em assistir, impotente, o rumo que a vida de Black, Lupin, Potter e os outros tomou sem a sua presença. Nós vimos a sua dor diante do instinto auto-destrutivo que Sirius adotou, diante da tristeza que ele disfarça bem o bastante para enganar o mundo inteiro, mas não a você e com certeza não a Mestiços. Você está tão infeliz que sua beleza angelical desvaneceu-se em linhas de desespero e ao mesmo tempo letargia, Angely.
– Por que está dizendo isso? – me esforcei para murmurar.
– Porque não há sentido nas ordens de Bruma, Angely!
Foi a vez de Doug explodir. Fechei os olhos diante de sua voz forte que ecoava na clareira como um trovão.
– Como ela pode mandar você fazer Sirius esquecer de sua existência para depois mandá-la fazer com que ele saiba de sua existência?! – ele socou o ar. – Toda aquela história de que vocês pertencem a mundos diferentes e que o lugar dele é em Hogwarts e o seu em Valinor é verdade, mas qual o sentido disso tudo se você não é capaz de esquecê-lo e ele, mesmo sem lembrar de tudo o que viveu com você, ainda te ama e prefere morrer a não tê-la? Por que é isso o que nós temos visto nesses meses! Tudo o que Sirius tem feito é tentar se matar!
– Já chega! – gritei. Eu não pretendia falar tão alto ou ser tão emocional, mas perdi o controle de minhas cordas vocais, quase como se meu coração tivesse tomado o lugar de minha mente. – Eu não quero mais nenhuma palavra sobre isso. Bruma concluiu que o único modo de manter Sirius Black vivo é fazendo-o ter esperanças de ficar ao meu lado um dia, e eu não posso fazer nada além de obedecer. O mundo bruxo depende da sobrevivência de Sirius e é de mim que ele precisa para sobreviver o tempo que for necessário.
– Mas isso não significa que vocês vão ficar juntos! – Lucy exclamou, ainda muito revoltada. – Você está alimentando o seu coração e o dele com mentiras! Isso é cruel, é doloroso, é revoltante, mas é a verdade: vocês dois não podem sequer tocarem-se!
– Ele só poderá vê-la em sonhos, como um fantasma, Angel. Você sabe que isso não mudará. – Doug fechou os olhos mais uma vez. Suas palavras passavam por mim como facas afiadas. – Bruma quer que você seja a babá de Sirius para que ele sobreviva pelo tempo que o destino pede; Bruma quer que você diga a Sirius que, se for bonzinho e seguir a vida sem mais tentativas de suicídio, ele poderá ficar ao seu lado. Pare de agir como se essa mentira não te rasgasse por dentro!
– O que quer que eu faça? – exclamei, mais uma vez emocional demais. – Quer que eu desobedeça todas as ordens que recebi e deixe Black morrer?! Bruma percebeu o quanto Sirius é importante para futuro deste mundo, e, como guardiã de Ilúvatar, ela não pode deixá-lo entregar-se à morte de forma tão banal! Ela pensou que se eu não existisse mais para os marotos, para os Hogwarts, para os bruxos, eles se libertariam de minha imagem e viveriam a vida que deveriam ter vivido, mas Sirius não foi capaz de apagar seus sentimentos por mim e esse é o único fato que toca o meu coração agora que eu o perdi para sempre!
Eu tomei fôlego, lutando com toda a força para conter o desespero que jorrava de dentro de mim e ameaçava roubar qualquer réstia de sanidade que eu ainda possuísse. Havia dado o melhor de mim para não encarar todos aqueles fatos desde que Sirius tombara ao meu lado, sem memórias sobre mim; havia batalhado com todas as forças, até exaurir-me, para não morrer de dor quando fora forçada a assistir sentada aos rumos que a vida dele e dos marotos tomara sem minha presença mística; havia sido primordialmente profissional diante das ordens de Bruma para salvá-lo incontáveis vezes, e igualmente fria ao ouvi-la discursar sobre minha obrigação em fazê-lo ver-me em sonhos para finalmente parar de tentar se matar.
Eu não contara a ninguém, nem mesmo a mim mesma, o quanto – egoistamente – deliciara-me ao ver Sirius jamais se apaixonar de novo e perseguir um ideal de mulher que era puramente eu. Ele não era capaz de se lembrar conscientemente de mim, verdade; mas as áreas de seu cérebro, danificadas para esquecer-me, não haviam sido eficientes para arrancar minha imagem de sua alma, seus sentimentos de seu coração. Esquecer, simplesmente, não bastara para Sirius não lembrar mais de mim, como eu sabia que jamais bastaria para mim; ele ainda me amava, tanto quanto antes, e, inconscientemente, desesperado com a minha ausência, ele perseguira a morte para não sufocar-se ainda mais diante da minha falta.
Bruma não pudera supor que minha ligação com Sirius seria tão forte – eu tampouco crera em algo assim –, mas tanto ela quanto eu estávamos erradas. Ele me amava, no sentido mais pleno, intenso e insano possível; nenhuma amnésia seria suficiente para apagar isso.
– Lupin já passou a Black o recado que você deu a ele. – Ísis quebrou o silêncio. Seu tom despreocupado, quase feliz, me fez erguer os olhos em sua direção: ela olhava-me, a boca meio torta em um sorriso desajeitado, lembrando-me de sua recém-adquirida habilidade de ser extremamente gentil comigo. – Não falta muito mais para que os dois venham pra cá.
– Os dois? – ecoei. Já seria ruim o bastante ter que ver Sirius sem poder tocá-lo; encontrar Remo me levaria a perder as forças que restavam. – Eu pensei que só veria Black.
Ísis deu de ombros.
– Ordens de Bruma.
E de repente eu soube que não seria capaz de sobreviver.
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– Você não vai sobreviver nem uma semana!
Peter e Remo riram. James estreitou os olhos na direção de Sirius, como se estivesse ameaçando-o em silêncio, ao que Black sorriu e piscou marotamente para o amigo.
– Evans vai acabar com você na primeira semana de namoro, Pontas, escute o que eu estou dizendo. Eu aposto dez galeões nisso!
– Nós não estamos namorando! – James sibilou com raiva. Estava esforçando-se ao máximo para não começar a gritar como uma criança mimada; era frustrante ter que falar baixo na mesa da Grifinória mesmo quando todos já estavam acostumados com as discussões dos marotos. – Lily nem ao menos olhou para mim depois da festa! Ela estava bêbada ou enfeitiçada e provavelmente não sabe como retirar as coisas que disse por que talvez esteja com receio de magoar meus frágeis sentimentos quando, é claro, eu nem ao menos me importo mais, afinal, se ela não me quer o problema não é mais meu e...
– Bláblábláblá! É só isso que eu estou escutando jorrar da sua boca, Potter!
– Cala a boca, Black! Me deixe em paz!
– Vamos lá, pelo menos seja sincero! Você continua caidinho por ela! – Sirius riu, malicioso, e inclinou-se ligeiramente na direção do amigo. – Agora me conte um segredo de maroto para maroto, James... Lily beija tão bem quanto dizem?
– EU VOU TE MATAR!
– Eu ouço isso desde o primeiro ano, veadinho! Estou há séculos esperando atitudes!
– Já chega, Sirius. – Lupin interferiu, o tom de voz meio entediado. Peter havia se levantado para segurar James, mas Remo apenas revirou os olhos.
– E sabe por que você não me mata? – Black prosseguiu, ignorando completamente o pedido de Aluado – Pelo mesmo motivo pelo qual você ainda não foi até o outro lado da mesa e puxou Lily Evans para fora do Salão: porque você não tem coragem, James!
– O que sabe sobre coragem?! – James exclamou em resposta, livrando-se de Peter com facilidade. Os calouros em volta do grupo haviam se afastado discretamente; o resto do salão ignorava a discussão por completo. – Foi você quem passou os últimos sete anos fugindo de qualquer coisa que pudesse trazer algum pingo de seriedade e juízo para a sua vida! Foi você quem fez de mim, de Remo e Peter os seus brinquedinhos particulares para substituir a família que você não teve! Foi você quem empenhou toda sua energia em atirar-se a situações de risco como se tudo o que quisesse fosse a morte! Foi você quem tornou cada segundo nesse castelo uma brincadeira, Sirius, e é você quem não percebeu ainda que nós estamos a um passo de ir embora daqui para sempre, que toda a graça da irresponsabilidade da juventude já está mais do que na hora de nos abandonar e que você precisa crescer e tomar alguma decisão ao menos razoável sobre o seu futuro!
– Sim, senhora McGonagall! – Sirius zombou. Ele e James se encararam por mais um momento, e de repente James deu as costas aos marotos e trotou na direção do outro lado da mesa da Grifinória, na direção de Lily.
– Você não deveria ter feito isso. – Remo murmurou enquanto fazia um gesto convidando Peter a sentar-se mais uma vez. – James ficou realmente furioso.
– É, mas ele foi até ela, não foi? – Black sorriu e apontou para Pontas, que estava inclinado na direção de uma garota de cabelos ruivos sentada bem no meio da mesa. – Lily não ia vir falar com ele e ele não iria até ela depois do tanto que se humilhou para tê-la. Raiva é bom para sufocar o orgulho!
– Mesmo quando a raiva e de você, Sirius?
Almofadinhas sorriu para Peter e deu um longo gole no copo de suco de abóbora do amigo.
– Mesmo quando a raiva é de mim. – ele concordou, e com uma piscadela ergueu-se e saiu do Salão.
"Foi você quem passou os últimos sete anos fugindo de qualquer coisa que pudesse trazer algum pingo de seriedade e juízo para a sua vida!", a voz de James ecoava na mente de Sirius enquanto seus passos soavam altos demais contra o mármore, "Foi você quem empenhou toda sua energia em atirar-se a situações de risco como se tudo o que quisesse fosse a morte!". Ele viu-se correndo para as portas de saída do castelo, a mão na varinha antes que a chuva pudesse encharcá-lo; a noite fria oprimia seu coração como se lançasse sobre ele uma mão invisível, o cheiro de terra molhada confundia seus sentidos com um golpe de saudade, o céu cheio de nuvens negras causava-lhe um tipo de dor que nem mesmo suas risadas e atitudes irresponsáveis poderiam aliviar. Sim, James!, Sirius tinha ímpetos de gritar para a noite, Não há sequer um pingo de seriedade em minha vida! Eu não tenho juízo e eu nunca vou ter! E tudo porque eu me recuso a viver sem ela! Isso era tudo o que Black teria a responder, e, no entanto, ele sabia que jamais diria nada.
– Ele não estava falando sério! – a voz de Remo gritou logo atrás dele.
Sirius virou-se para o amigo e forçou um sorriso.
– Não importa, Remo.
– Eu sei que importa sim, Sirius. E James também sabe. Nós somos seus amigos, somos a sua família, e isso nunca foi uma brincadeira para ninguém. James só estava irritado.
– Ele e Lily saíram do Salão?
Lupin fez que sim e Black alargou o sorriso.
– O que vem agora? – ele perguntou exultante, pousando a mão sobre o ombro de Remo. – Já está na hora de fugirmos para a Floresta?
– É por isso que eu vim atrás de você, obviamente. – Aluado riu também, um pouco mais tranquilo embora ainda estivesse preocupado. – Vamos encontrar nosso anjo!
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– É isso aí. Eles estão vindo.
Eu respirei fundo inutilmente. Meu coração, por tanto tempo tão silencioso e passivo, agora batia descompassado dentro do peito como se estivesse ansioso para bombear vida para dentro de mim. Olhei para Ísis, tão bem humorada, postada na maior entrada da clareira em que estávamos, logo à minha frente; para Lucy, de braços cruzados e expressão vazia, postada do meu lado direito; para Doug, inegavelmente irritado e do meu lado esquerdo; e para todos os outros Mestiços, um a um, que formavam um grande círculo em torno de mim, alguns entediados, como Jenny e Lis, outros preocupados, como Adam, Aaorn, Lummy, Tad, Seth e Bright, e ainda alguns impassíveis, como Britteny e Meybi. Nenhum deles aprovava o que estava se passando ali, talvez à exceção de Ísis, disso eu tinha certeza: as ordens de Bruma não haviam agradado a ninguém.
Mas, eu começava a pensar, inebriada por uma esperança irracional, talvez eu estivesse feliz com tudo aquilo. Eu veria Sirius de novo, não através de um véu diáfano, mas de modo à quase ser capaz de tocá-lo. Eu respiraria novamente depois de tanto tempo, vê-lo me traria fôlego, força, esperança; eu suspirei, sorri e chorei por dentro, e então esperei por Sirius.
