Estes dois capítulos são meus preferidos. Tenho o maior carinho por eles.

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Capítulo 57 – Escute o arquiatro

Tema: Rivendell

Severus Snape finalmente desviou os olhos de seu pesseguinho. Só então notou que havia pelo menos uma dúzia de pessoas no quarto: Hermione Granger, Ronald e Molly Weasley, Sirius Black, Remus Lupin, Rufus Scrimgeour, Kingsley Shacklebolt e Percy Weasley, além de duas enfermeiras e dois medibruxos. Seu instinto era de imediatamente expulsar todo aquele pessoal dali, mas ele se controlou. Não pôde evitar, porém, passar o seu olhar patenteado sobre a multidão como se varresse um local particularmente empoeirado. Quando falou, só o que disse foi, em um tom seco:

– Se nos derem licença, pretendo remover Potter o quanto antes e aparatar daqui mesmo.

– Quanto tempo pretende ficar fora? – quis saber Black.

– Isso ainda não ficou determinado – respondeu Severus. – Procurarei mandar notícias, se puder. Agora, por favor, se puderem sair...

– Mas uma pessoa deveria testemunhar isso! – protestou Scrimgeour. – Para ter certeza de que você não vai simplesmente fugir com o rapaz.

Temendo a reação de Severus, Hermione Granger chegou-se até seu ex-professor e cochichou algo no ouvido, enquanto os demais olhavam, em expectativa. Severus ouviu a moça, concordou e disse:

– A Srta. Granger sugeriu que o Bruxo-Chefe do Wizengamot seja testemunha. Ele poderá testemunhar que não estou agindo de má-fé em relação ao Garoto-Que-Sobreviveu.

– O Escolhido – corrigiu uma enfermeira.

– Na verdade, os jornais têm chamado de O Conquistador – disse a outra.

Severus olhou o teto, tentando controlar-se, enquanto disse:

– Seu precioso herói não vai ficar mais saudável enquanto ficarem discutindo epítetos. Por favor, queiram se retirar. Agora, de preferência.

As pessoas foram saindo, e Severus fez um sinal para Hermione ficar também. Quando ficaram apenas os quatro no quarto, ele chamou:

– Plonk?

A criatura apareceu, ajoelhada, curvada:

– Chamou, Alteza?

– Poderia nos transportar para o Reino, por favor?

– Imediatamente, Alteza. Já está tudo pronto para sua chegada. O transporte será providenciado por silfos que ficaram encantados em poder ajudar o Casal Real.

– Boa viagem, professor – desejou Hermione. – Por favor, cuide bem de Harry.

– Obrigado por tudo, Srta. Granger. Se pudermos, mandaremos notícias por Plonk. – Ele virou-se. – Sr. Bruxo-Chefe.

Ogden fez uma mesura, desejando apenas:

– Boa viagem, Sr. Snape.

– Alteza – pediu Plonk –, por favor, se puder pegar o Rei, para o transporte...

Severus ergueu Harry em seus braços, alarmando-se com o pouco peso. Então começou a ventar dentro do quarto, como um redemoinho invulgar e inusitado. Apesar de o vento ter velocidade, ele não tinha fúria. Os cabelos de Hermione rodopiavam, bem como as vestes do Bruxo-Chefe do Wizengamot. Severus sentiu que o vento o carregava, suavemente, erguendo-o do chão, enevoando a visão à sua frente.

Em pouco tempo, ele também se sentiu leve como o ar, e apertou Harry contra seu corpo. A sensação era agradável. Tão agradável que Severus sentiu uma espécie de exaustão tomar conta de seus músculos. Temendo deixar seu submisso numa posição arriscada, Severus lutou contra o sono, até o vento suave soprar em seu ouvido:

– Descanse, Alteza. – Uma voz suave chegou a seus ouvidos. – O Rei está em boas mãos.

Com isso, ele não pôde mais resistir e deixou-se levar pelas suaves asas da brisa convidativa.

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Severus despertou de repente. Seu corpo estava pesado, e um cheiro estranho impregnava o ambiente noturno. Ele se viu num quarto amplo, numa cama grande, e a seu lado, Harry parecia dormir, mas não parecia muito bem. Severus sentiu os olhos pesados, como se não tivesse dormido o suficiente.

– Alteza, por favor, procure descansar.

Severus se virou na direção da voz, os olhos mal conseguindo se manter abertos:

– Harry... Harry está... bem?

Ele vislumbrou o que parecia ser uma criatura muito alta e esguia, que se curvou, dizendo:

– O Rei está se recuperando. Vossa Alteza também precisa cuidar da saúde. Tudo está sob controle. Descanse e acordará melhor.

Severus pareceu se tranqüilizar com aquelas palavras e deixou-se levar por um sono reparador.

Quando acordou, Severus imaginou que não tivesse dormido muito, pois ainda era noite. Olhou para o lado e Harry parecia dormir. Contudo, Severus podia sentir que não era exatamente um sono tranqüilo. Ele ainda parecia muito pálido, pálido demais. O coração de Severus se contraiu.

– O Rei está bem, Alteza – disse uma voz ao seu lado.

Severus se sobressaltou, e a criatura logo assegurou:

– Alteza, não se alarme. Agora que já se acostumou ao Reino, não deveria se exceder.

– Onde estamos? O que houve?

– Este é o Palácio Real, restaurado especialmente para a sua visita. Vocês passaram três dias debilitados demais para se erguerem. Essa transição é normal para seus corpos, que são densos demais para o reino.

– E Harry?

– O Rei sofre mais do que a mera descompensação de seu corpo humano no ambiente do Reino – explicou a criatura. – Ele sofreu um atentado contra sua vida e sua magia. A medicina humana o ajudou, mas ele precisa de mais do que isso.

Severus olhou para seu pesseguinho antes de indagar:

– Quem é você?

A criatura, um ser esguio muito pálido, com cabelos louros quase brancos e olhos verdes muito claros, fez uma reverência respeitosa:

– Eu sou Domovoy, major-domo real. Fui designado para ser responsável por seu bem-estar no Palácio, tarefa que muito me honra. Os Arquiatros, médicos que tratam do Rei, pediram que eu os chamasse assim que Vossa Alteza acordasse. Posso fazê-lo agora, Alteza?

– Só um minuto. Onde exatamente nós estamos?

– Na Alcova Real, claro. O Palácio foi construído no alto de uma montanha, por isso nós, silfos, ficamos mais à vontade que nossos irmãos gnomos. Aliás, o Mais Velho manda lembranças e votos de pronto restabelecimento ao Casal Real.

– Berenkor? Ele está aqui?

– Não, no momento ele está liderando a cadeia de orações do povo do Reino pelo restabelecimento de Sua Majestade. Sizz, o ígneo, está ajudando nisso. Entendo que Vossa Alteza tenha requisitado a presença de Plonk, ser das águas, para comunicação com o mundo humano.

– Sim, isso é verdade. Plonk, Berenkor e Sizz foram fundamentais na vitória.

– Eles já estão sendo reverenciados como heróis entre nosso povo. Suas histórias sobre a batalha têm fascinado os pequenos.

– Eles merecem. – Severus se ergueu e olhou em volta. – Este lugar é seguro?

– Não há ameaças no Reino, Alteza. É nosso dever e nosso prazer proteger o Casal Real.

Severus assentiu e olhou para Harry:

– Harry... Ele vai ficar bom?

Domovoy respondeu:

– Lamento não ter informações médicas a transmitir sobre o Rei. Mas posso ir agora mesmo chamar os arquiatros que estão cuidando dele, se lhe aprouver.

– Por obséquio, Domovoy, faça isto.

O silfo fez uma reverência respeitosa antes de deixar o quarto, atravessando uma ampla porta dupla. Severus olhou o aposento e viu que ele era todo branco, mas tão rodeado de verde que havia uma sensação grande de amplidão. Na verdade, o local parecia ser construído dentro de uma árvore. A brisa suave da noite, o ar, o ambiente denunciavam que eles estavam realmente em algum lugar longe do mundo que conheciam. Se Harry não estivesse naquela situação, ele poderia apreciar bem mais aquele lugar.

Severus deu a volta na cama e lá sentou-se, junto de seu pesseguinho. Ele não pôde evitar acariciar a pele pálida, sentindo que o contato o confortava. Ele amava tanto Harry. Mal podia esperar pelo momento em que aqueles olhos se abririam e o saudariam, verdes, brilhantes, uma luz que o iluminava até a alma.

Um pigarro o interrompeu.

– Alteza?

Ele se virou. Domovoy retornara com quatro criaturas, todas em postura respeitosa.

– Estes são os encarregados da saúde de Sua Majestade e Vossa Alteza: Dab Tshuaj, Hidup, Muni e Chepi.

Severus foi sincero:

– Desculpem-me, todos vocês, por não prestar atenção às gentilezas da corte, mas eu primeiro gostaria de saber notícias de Harry, por favor.

Uma criatura, um ser alto como Domovoy, mas de coloração mais próxima do cinza, adiantou-se:

– Eu sou Dab Tshuaj, o Arquiatro-Major, ou Curador Real. Vossa Alteza e Sua Majestade precisaram agüentar a transição para o Reino. Entendemos que a terra dos humanos é mais densa e, quando chegaram aqui, precisaram desse tempo para que seus corpos se adaptassem.

– Só esse período – ajuntou um outro, baixinho e avermelhado – já trouxe algumas melhoras à condição do Rei.

– O que ele tem?

– Ele foi vítima de uma energia muito maligna, que desejava se instalar em seu corpo e ir gradualmente retalhando seu coração. Ao mesmo tempo, esse parasita iria retirando sua magia e sua bondade, até deixar somente uma casca vazia de ódio e desconfiança.

– Mas vocês podem curá-lo – quis confirmar Severus. – Não podem?

– Já estamos fazendo isso – garantiu o número três, um ser marrom. – E o senhor também, Alteza, necessita de cura.

Severus espantou-se e ganrantiu:

– Não, eu só fui atingido por um feitiço básico de imobilização. Estou bem.

– Lamento discordar, Alteza. Aqui no Reino as condições são diferentes do reino dos humanos, especialmente para seres celestiais. Todos aqui somos unânimes em concordar que ambos necessitam do Tanque de Regeneração, além do Lago de Mundificação.

O Arquiatro ajuntou:

– Os dois ainda não estão em condições de irem ao Tanque de Regeneração. Precisam de maior purificação.

O quarto médico, uma criatura ligeiramente esverdeada, abriu a boca pela primeira vez, para reforçar:

– Precisam passar algum tempo no Lago de Mundificação, primeiro. Talvez umas duas sessões sejam suficientes.

Antes que eles começassem a falar entre si, Severus os interrompeu – apenas erguendo a mão:

– Esperem um pouco. O que é esse Lago de Mundificação?

– É um local na sala de banho aqui mesmo, no Palácio. Servirá para a purificação de seus corpos para este mundo. Somente depois dessa purificação vocês estarão em condições para entrar no Tanque de Regeneração.

– Um banho?

– Sim, um banho conjunto. Ou mais banhos, até que estejam purificados. Depois dessa etapa, vocês poderão ir para o Tanque de Regeneração, para novas imersões. Esperamos que após o Acrisolamento o Rei retorne à consciência, dando início à Nitescência.

O palavrório não impressionou Severus, mas ele estava começando a ficar ansioso, e indagou:

– Então nós poderemos ir em breve para o Lago de Mundificação?

– Esperamos poder fazer isso o quanto antes.

– De manhã, então? Entendo que não seja possível realizar o procedimento a essa hora da noite.

Os quatro se entreolharam, intrigados. Domovoy deu um passo à frente e explicou:

– Alteza, agora passam das duas horas da tarde. O Reino está em trevas desde que o Rei aqui chegou, e o Sol só deverá voltar brilhar quando ele se recuperar.

Um dos médicos ajuntou:

– A recuperação completa só se dará na Nitescência, com certeza. Até lá, não há como o Sol brilhar, se o Rei estiver doente.

Embora ele não entendesse exatamente do que aquelas criaturas falavam, Severus lembrou, com um suspiro:

– Eu consegui ajudá-lo indo a um lugar em que ele se sentia bem. Será que isso pode ajudá-lo agora?

– O Rei não conseguirá ir ao lugar de poder. Aqui ele já tem a força do ambiente a ajudá-lo. Lamento, Alteza, mas vocês dois estão fracos demais para essa viagem.

Severus queria ficar mais admirado, mas não pôde. Naquele momento, ele sentiu uma grande fraqueza, cambaleando.

Ele mal pôde acompanhar a correria dos elementais, que tentaram acudi-lo, antes de perder os sentidos, ao lado de Harry.

Próximo capítulo: Não é a Suíça, mas o que não falta são lagos

Capítulo 58 – No Reino das Águas Claras

tema: balneoterapia

Durante dois dias, Severus ainda estava fraco demais para enfrentar o tal Lago da Mundificação. Ainda que não estivesse totalmente recuperado, o Koboldine Sharaman era crucial para a saúde do seu parceiro Arati. Portanto, mesmo no repouso terapêutico, Severus ajudava Harry.

Orientado pelos quatro arquiatros (médicos do rei), Severus tocava Harry o máximo que podia, mantendo simples contato de pele. Também conversava com ele, falando coisas sem importância, simplesmente deixando claro que sentia a sua falta. Naquele estado, Harry estava sensível a qualquer manifestação de amor – sua energia essencial. Lá fora, o povo do Reino continuava em vigília.

Severus olhava pela janela, observando uma lua estranha e os pirilampos que iluminavam a noite de temperatura agradável. Depois de ser alimentado com comida élfica e sucos de ervas, ele se sentia mais forte. Não lhe permitiram usar outra roupa que não um camisolão azul, e sua higiene era feita por banhos de esponja com uma água especial. Ele também se encarregara de banhar Harry.

O quarteto de arquiatros só permitiu a ida ao Lago da Mundificação após absoluta certeza de que Severus estava apto para o tratamento. Severus quis carregar Harry, mas os arquiatros não permitiram. Severus imaginou que Harry foi flutuando, quando na verdade os silfos explicaram que fizeram as moléculas de ar se moverem embaixo do corpo do Rei.

O Lago da Mundificação, na verdade uma piscina natural de águas muito límpidas e rochas lisas, ficava dentro do Palácio, numa espécie de pátio coberto rodeado por muitas árvores e flores, cuja entrada era um arco pontiagudo, pontilhado pelos pirilampos que iluminavam o Reino em trevas. Severus ultrapassou o arco, e sua pele inteira formigou. Ele retirou o camisolão azulado e desceu os degraus para a água. Assim que ele entrou, sentiu a água morna e agradável contra a sua pele, aliviando a sensação de formigamento. Conforme instruído, ele mergulhou completamente na água, que se tornou acinzentada e opaca, com um cheiro acre e persistente. Ele mergulhou pela segunda vez, de olhos fechados, e quando voltou à superfície, a água tinha voltado a ficar clara e límpida como ele a encontrara. Sua pele exalava a ervas variadas.

Então Severus saiu do lago e foi receber Harry, que passara por baixo do arco flutuando no ar. Severus o pôs em seus braços e entrou com ele dentro da piscina. A água instantaneamente tornou-se negra e espessa, como se tivesse virado um óleo cru. O cheiro exalado também era medonho. Severus mergulhou Harry completamente uma vez, e de novo. A água clareou pela segunda vez, tornando-se cinzenta e escura. Severus mergulhou Harry de novo, e água clareou um pouco mais. Foram necessárias cinco imersões até que a água se tornasse clara como antes, e o mesmo cheiro de ervas exalasse de seu submisso.

Só então Severus pegou Harry em seus braços e o retirou do lago, o cheiro de ervas mais forte em todo o ambiente. Suaves brisas secaram os dois, e então eles voltaram para a Alcova real. Os arquiatros estavam muito satisfeitos. Todos os quatro consideraram que eles não precisavam de uma nova sessão no Lago da Mundificação. Eles fizeram Severus cobrir Harry de ungüentos e loções antes de fazer o ex-professor ingerir uma refeição reforçada, para que ele pudesse passar pelo Acrisolamento no Tanque de Regeneração.

Severus entendia aquelas palavras, pouco usadas no cotidiano, mas que no fundo queriam dizer apenas purificação. Ele ficava tranqüilo pelo fato de os médicos reais não usarem ingestão de poções ou remédios. Medicina elemental usava precisamente os elementos: o ar, a água, a terra e o fogo interior de seus corpos. Severus ficava fascinado, fazendo muitas perguntas.

Só o que o angustiava é que Harry não acordava. Ele podia ver a cor da pele de seu pesseguinho mudando, parecendo mais saudável, e isso o confortava. Mas o jovem não acordava, e ele se exasperava. Os arquiatros garantiram que Harry despertaria após o Acrisolamento, quando ele chegasse à fase de Nitescência. Eles pareceram surpresos em ter que explicar que a Nitescência era a época em que o Rei e seu Consorte devolviam o equilíbrio ao Reino e a todas as outras coisas. Não pela primeira vez, Severus pediu desculpas por sua ignorância, mesmo sem entender direito a tal Nitescência. Aquele lugar era mesmo fascinante, e Severus adorava saber mais sobre sua cultura.

Ao contrário do Lago da Mundificação, o Tanque de Regeneração ficava numa sala mais apertada, embora fosse uma piscina de água opaca, de um verde muito escuro. Como no lago anterior, primeiro Severus entrou sozinho e mergulhou. A sua pele começou a formigar, e uma areia muito fina cobriu seu corpo. Ele sabia que ele deveria mergulhar fundo. Foi o que fez, submergindo totalmente. Então um redemoinho começou a se formar sob os seus pés. Os arquiatros explicaram que ele poderia ter uma sensação desorientadora, mas na verdade, ele temia ficar sem ar. Estranhamente, isso não aconteceu. Quando voltou à superfície, porém, o redemoinho havia retirado toda a areia.

A imersão de Harry na água verde começou tranqüila. De repente, porém, Severus notou algo no corpo de seu pesseguinho. E qual não foi sua surpresa ao sentir a pele sob seus dedos se endurecer. Alarmado, Severus puxou Harry para cima e o viu totalmente envolto numa camada de calcário.

– O que é isso? Ele vai sufocar! Ajudem!

– Está tudo bem, Alteza. Vocês dois podem submergir agora. Juntos.

Ele obedeceu, receoso, com Harry em seus braços como se fosse uma múmia de cal. O redemoinho logo se formou e tornou-se bem mais intenso do que antes. Com isso o revestimento de rocha começou a se desprender da pele de Harry. Em poucos minutos, Severus sentiu que o corpo de seu pesseguinho estava novamente livre do revestimento.

Mas nova surpresa o esperava ao retirá-lo da água verde. Harry estava totalmente livre da casca de cal, mas seu pênis estava negro, bem como as gônadas e a região entre as pernas. Severus não era um homem de assustar facilmente, mas qualquer coisa concernente a seu pesseguinho o deixava fora de si. Portanto, ele estava alarmado:

– O que é isso? O que está havendo com ele?

– Alteza – disse o chefe do Arquiatro –, está tudo bem. Podemos passar à segunda etapa, a do Acrisolamento em si. Cabe apenas a Vossa Alteza proceder à retirada das impurezas.

– Como?

– Ora, por sucção do Falo Real.

– Suc...

– Sucção do Falo Real – repetiu o Arquiatro. – É a tradição, uma honra permitida apenas ao Consorte do Rei. Está tudo esperando no quarto para o Ritual do Acrisolamento.

E foi assim que Severus descobriu que o Acrisolamento consistia em chupar o veneno do corpo de Harry e cuspi-lo numa bacia ritual, alternando com um líquido especial para purificar a boca, enquanto os quatro realizavam cânticos tradicionais, e o povo do Reino se unia em vigília especial de Acrisolamento. Severus preferiu não pensar que a situação beirava o surrealismo, com aquele bando de gente reverenciando algo perigosamente próximo à prática de sexo oral. Sem mencionar a denominação de Falo Real.

Fosse como fosse, estava dando certo. A pele de Harry aos poucos ia começando a clarear. Severus fazia bochechos, a pedido dos arquiatros, para não se envenenar com o líquido peçonhento. Contudo, ele também sentia que suas energias se esvaíam. Por menos que ele quisesse admitir, o cântico parecia dar forças para que ele continuasse a sugar o veneno.

Severus não soube dizer quando ele perdeu os sentidos. Mas ele teve a impressão de que a pele de Harry estava quase normal quando desabou sobre a cama.

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Tão cansado ele estava que nem a luz do dia o animou a se levantar. Ele rolou na cama, sentindo o calor do sol e entreabriu os olhos.

E viu um par de olhos verdes a encará-lo.

Se isso não tivesse sido o suficiente para acordá-lo, o cheiro de pêssegos o atacou com uma intensidade inacreditável.

Harry estava vivo. E bem. E com um sorriso dos mais safados a encará-lo enquanto se enroscava em seu dominante.

– Até que enfim você acordou.

– Eu posso dizer a mesma coisa. Harry... – Severus acariciou o cabelo de seu pesseguinho. – Harry...

– Shh. – Harry pôs um dedo nos seus lábios. – Não sei que lugar é esse. Nem me importa. Só sei que preciso de você em mim. Agora.

Um fogo irresistível apossou-se de Severus, que sorriu de modo lascivo:

– Seu desejo é uma ordem.

Nem parecia que Severus tinha passado a noite anterior chupando o Falo Real, pois ele se atirou de boca no referido falo sem pensar duas vezes. Os gemidos e suspiros de seu pesseguinho eram música em seus ouvidos. Severus parecia estar no céu, com aqueles sons maravilhosos e o cheirinho inebriante de pêssegos a embriagá-lo.

Em tempo recorde, seu pesseguinho jogou a cabeça para trás e, com um grito inarticulado, despejou-se na boca de seu dominante, que engoliu tudo com sofreguidão. Mas aparentemente Harry estava muito longe de se satisfazer, pois ainda ofegava quando exigiu:

– Severus... você não fez o que eu pedi... Por favor!...

Também ansioso pela união, sentindo o sangue Koboldine cantando em suas veias, Severus engatinhou, sua boca passeando pelo abdômen do rapaz, depois pelo peito, enquanto Harry suspirava, lânguido. Severus então separou seus joelhos e, com mãos libidinosas, acariciou-o nas coxas, no meio das pernas e por trás das bolas, observando o rosto de seu pesseguinho ficar mais vermelho, o desejo estampado em todas as suas feições. Com cuidado, ele escorregou um dedo para dentro da aberturinha, só para atiçar o parceiro. Para sua surpresa, encontrou o local já lubrificado.

Se estivesse raciocinando, Severus teria percebido que a doença de Harry e a vinda deles ao Reino haviam alterado o ciclo de acasalamento Koboldine, e os dois estavam no auge do seu cio. Era pena que Severus não tivesse antecipado que, em se tratando de Koboldine, qualquer cura provavelmente implicaria algum componente sexual, mais cedo ou mais tarde.

Contudo, Severus não estava em condições de pensar em nada disso e simplesmente deixou Harry pronto, enquanto ele se posicionava na sua entradinha. Olhando o rosto que tanto amava, indagou:

– É o que você quer, Harry?

– Severus... por favor!...

Com um movimento fluido, Severus enterrou-se por completo em seu suculento pesseguinho, a magia a seu redor praticamente vibrando. Num movimento brusco, ele se curvou para capturar os lábios de Harry, selando a união completa entre os dois.

Abraçados, eles iniciaram a dança do acasalamento, perdidos do espaço e do tempo. A dança de amor do Casal Celestial prolongou-se por horas, até que, exaustos, ambos se entregaram ao descanso.

Severus não sentiu ter dormido muito tempo. Quando ele abriu os olhos, o sol tinha mudado de posição e parecia fazer um ângulo sobre Harry, adormecido a seu lado. Os cabelos negros ganharam um leve tom dourado, e os sinais Koboldines que ele tinha no couro cabeludo pareciam irradiar a luz do sol. Severus admirou seu parceiro, e só então sentiu o quão perto estivera de ficar sem seu pesseguinho. Ele procurou empurrar esses pensamentos para o fundo de seu mente, tamanha a dor que subitamente surgiu em seu peito. Severus amava Harry além de qualquer coisa que tinha imaginado.

Seus pensamentos foram interrompidos por uma batida suave à porta. Domovoy entrou, carregando duas bandejas e saudando:

– Boa tarde, Alteza. Trouxe sua refeição especial de Nitescência, conforme instruído pelos Arquiatros. Esta é sua bandeja e aquela é a do Rei.

Severus colocou um roupão (dourado, reparou) e foi até as bandejas, notando:

– Não é comida élfica.

– Oh, claro que não. É especial para a época da Nitescência, assim como suas Vestes Ritualísticas. Os Arquiatros e todo o Reino também, claro, estão transbordando de alegria com tal período tão auspicioso para Vossas Majestades. E, se me permite o comentário, estou particularmente excitado em poder ser seu major-domo durante a Nitescência fora de época. Os Arquiatros deixaram claro que a próxima Nitescência só seria daqui a alguns anos, nunca agora. Isso pode ser muito auspicioso para uma gravidação.

Só então Severus se deu conta do que ele estava falando: o que eles chamavam de Nitescência era o ciclo de reprodução de nove anos, alterado com os procedimentos médicos que curaram Harry. Domovoy continuou tagarelando, alegre como jamais se mostrara antes:

– Estamos todos torcendo por uma fecundação bem-sucedida, claro. Mas quando quiserem passear pelo Reino, talvez se dirigir ao povo...

Severus só então ouviu:

– Você falou fecundação? Tipo... gravidez?

O rosto do elemental se iluminou num sorriso:

– Oh, sim, a gravidação. Seria um sonho! Um Filho Celestial! Com sorte, seria o início de um novo sóbole! Há milênios não se ouve falar de um. Nem o Mais Velho conheceu um Filho Celestial legítimo, gerado no Reino! O povo ficaria extasiado, Alteza.

– Não me leve a mal, Domovoy, mas já pensou que Harry ainda se recupera de um grave atentado contra sua vida? Talvez não seja a época mais propícia para ele enfrentar uma gravidez...

"Sem mencionar que nós sequer conversamos sobre isso e Harry pode ter um surto psicótico diante da idéia", pensou Severus.

O elemental retornou a seu ar mais reservado de sempre e inclinou-se:

– Oh. Sim, claro, Alteza. É seu dever proteger a saúde do Rei. Contudo, Alteza, se me permite a sugestão, o povo ficaria imensamente feliz com sua presença no Reino. Uma aparição pública talvez...

– E não haveria multidões atrás de Harry?

– Está pensando como um humano, Alteza. Elementais podem ser bem inconspícuos, se vocês preferirem discrição.

– Mas você me lembrou de uma coisa: preciso falar com Plonk. Podia pedir que ele venha aqui, por favor?

– Lamento, Alteza. Durante a Nitescência, ninguém além do major-domo pode visitar o Casal Real Nitente. Mas posso repassar o recado que quiser a Plonk.

Uma terceira voz opinou:

– Eu gostaria de ver Plonk.

– Harry! – Severus correu para junto dele, que não tinha se erguido da cama. – Como se sente?

– Sozinho na cama. – Harry olhou para o elemental, curvado respeitosamente. – Hum, olá.

– Conhece Domovoy? Ele está tomando conta de nós aqui no Reino.

– Estamos no Reino? – Harry sorriu. – Aqui é lindo. Muito prazer. Domovoy, pode me fazer um favor?

– Sim, Majestade?

– Dê um recado a Plonk. Diga que estamos bem e não deixe ninguém entrar nesse quarto, você incluído, nas próximas seis horas ou até ser chamado. Está bem?

– Servi-lo é meu prazer, Majestade. – O major-domo fez uma profunda reverência. – Que todas as bênçãos caiam sobre o Casal Celestial.

Domovoy se retirou, e Harry sorriu para Severus, reparando:

– Dourado… Esta é a nova cor da moda?

– Segundo eu ouvi – disse Severus, retirando o roupão e escorregando nos braços de seu submisso –, é obrigatório para Casais Reais Nitentes...

Harry franziu o cenho:

– Casais o quê?

Severus distribuiu beijos no seu pescoço, enquanto dizia:

– Esqueça isso agora. Você precisa se atualizar com muitas, muitas coisas...

– Vamos começar primeiro com as mais importantes.

Próximo capítulo: Tudo que é bom dura pouco, mas tem que acabar