Lágrimas que jurei nunca mais ver

{Grimmjow Jagguerjack}


É terminar isso agora, ou terminar isso agora. Quando a poeira baixou, eu não esperei nem um segundo mais. Naquela forma, ganhava o triplo da minha velocidade. Antes que Ulquiorra pudesse se mover, investi com as garras no rosto dele que defendeu-se usando uma das asas, me forçando a recuar.

– KUROSAKI! – gritei. – MEXA-SE!

O retardado estava parado, atordoado e só olhando para nós. Quando gritei, ele pareceu sair de um tipo de hipnose e se colocou em posição de ataque.

– Sua habilidade na forma Ressurección aumentou. – falou Ulquiorra tranquilamente. – E o tempo em que Kurosaki Ichigo pode manter a máscara também aumentou. No entanto, – ele apontou para o rosto do Kurosaki. – não achei que ela quebraria tão facilmente. – antes que meus olhos pudessem acompanhar, Ulquiorra já estava preparando um ataque com aquele raio verde em sua mão. – Que pena.

Aquela arma funcionava como um tipo de lança. Estava apontando para o Kurosaki, se ele não saísse dali, iria acabar sem a cabeça. Eu não estava ali para servir de babá do Kurosaki, então aproveitei o momento em que Ulquiorra lançou o ataque para contra-atacar enquanto ele estava ocupado. Assim que ele lançou o raio verde, a posição em que ele estava de pé poderia ser facilmente desfeita. Usei o Sonido e mirei na asa dele, mas no mesmo instante ele voltou o olhar para mim.

– Ingênuo. – ele disse. E com a mesma asa que eu queria arrancar, ele me repeliu. – É obvio que numa luta de dois contra um, enquanto eu estiver ocupado, o outro oponente tentará atacar. Essa é a regra mais básica de uma luta.

– Eu não quero saber, Ulquiorra!

A pressão do raio verde que o Quarto Espada havia lançado no Kurosaki havia feito o fez recuar extremamente. Ulquiorra avançou até ele num veloz vôo rasante. Eu também me adiantei, porém ele era mais rápido do que eu e tive que parar com a areia que subiu com o choque das armas dos dois.

Tentei me aproximar pela lateral e consegui ouvir algo que Ulquiorra disse:

– Kurosaki Ichigo, use o Getsuga.

"Ele é louco."

– Essa sua forma pode lutar de igual para igual com um Espada, é a sua forma mais forte. E o Getsuga é a sua técnica mais forte. Use-o contra mim agora. – ele falou tranquilamente. – E mostrarei a você a diferença entre nossos poderes.

Não esperei que a poeira baixasse. Investi com o corpo inteiro para empurrar Ulquiorra. Ele foi afastado e logo usou as asas para ficar suspenso no ar, olhando para nós.

– Se vai usar, use logo! – ordenei.

– Brincando comigo desse jeito...! – o Kurosaki posicionou a Zampakutou. – Mesmo que você não dissesse, era o que eu pretendia fazer! – gritou para o Ulquiorra.

Naquele instante eu tive uma idéia. Enquanto o poder do ataque dele estava se formando como um enorme redemoinho negro-avermelhado, sabia que Ulquiorra estaria distraído olhando para aquilo. Não custava tentar fazer a mesma coisa que antes. O raciocínio é de que se ele me advertiu uma vez, vai achar que não farei isso novamente.

– Getsuga, TENSHOU!

A enorme redemoinho de energia foi lançado diretamente no Ulquiorra. Eu estava me esgueirando pela lateral, quase acompanhando o Getsuga. Pude ver que o ataque não surtiu efeito. Sem mover uma única mão, o Getsuga simplesmente não atingiu Ulquiorra, a Reiatsu dele serviu de escudo.

– Como eu pensei, no fim das contas, você é só um humano. – no instante em que ele usou as asas para repelir o Getsuga, eu estava bem atrás dele.

– Pena que você se distraiu demais pensando nisso. – falei.

Ele não teve tempo de reagir, consegui feri-lo nas costas com um golpe das garras. O impacto do meu golpe o obrigou a se afastar de onde eu estava. Vi o sangue dele escorrer pelas costas, no meio do local de onde saem as asas. Quatro linhas maiores e uma menor do polegar.

Ulquiorra olhou para mim surpreso, como se tentasse encontrar a resposta por ter sido atingido.

– De fato, você ficou mais forte, Grimmjow. – ele comentou. – Kurosaki Ichigo, devo dizer que o seu Getsuga se parece muito com o Cero. – ele voltou o olhar para o outro no chão.

– Cero? Não compare com essa coisa! – ele reclamou.

– Entendo.

Num instante Ulquiorra estava lá e no outro ele estava mais acima de onde eu estava, apontando o indicador para nós.

– Você ainda não viu?

"Merda..." eu já sabia o que ele iria fazer, e se não saíssemos dali agora, estaríamos enrascados.

– Então eu lhe mostrarei uma única e última vez. Aproveite, Sexto Espada, também lhe mostrarei algo que só os Espadas em suas formas liberadas podem fazer. – na ponta do indicador dele, uma pequena bola de energia negro-esverdeada estava se formando rapidamente. – Cero Oscuras.

Num piscar de olhos, aquela energia se transformou num Cero tremendamente forte que veio na nossa direção. Inutilmente eu tentei desviar, mas o alcance daquela coisa era grande demais e ainda conseguiu me atingir por completo. Tentei me proteger colocando os braços como escudo, mas senti que alguma coisa rachou na minha testa.

Aquele ataque foi tão poderoso que fez o chão desabar. Meu corpo estava queimado por causa do Cero Oscuras, não estava conseguindo me mexer e fui arremessado para algum lugar. Com os olhos tentei encontrar onde estavam o Kurosaki e o Ulquiorra, mas só encontrei o Quarto Espada me encarando e com a asa, me repeliu como se eu fosse um inseto.

Fui jogado contra uma coluna. Um buraco na parede foi aberto e eu estava lá dentro, tentando me levantar o mais rápido possível.

– Não importa o quão fortes vocês tenham ficado. – falou Ulquiorra. – Ainda há uma diferença como o céu e a terra entre os nossos poderes.

Eu estava cansado, quase sem fôlego algum. Meu corpo estava dolorido. Mal consegui erguer o rosto para Ulquiorra.

– Podemos não ter tanto poder sozinhos, mas nós somos o suficiente para acabar com você! – bradou o Kurosaki.

Quando finalmente consegui levantar a cabeça, Ulquiorra estava defendendo o ataque do Kurosaki apenas com a asa, sem sequer olhar para trás. Mesmo que ele estivesse ali atacando, o garoto estava tão fodido quanto eu. Maior parte das roupas de Shinigami dele foi destruída. O corpo dele estava machucado em cada centímetro.

– É normal que os humanos e Shinigamis, para ganhar poder, imitem os Hollows. Mas quando um Hollow se rebaixa ao nível de um humano... Isso é vergonhoso.

Aquilo estava me dando nos nervos. Quem ele pensa que é para estar falando assim? Como se ele fosse superior a mim... Com se ele fosse mais forte que eu... Se ele é ou não, eu não quero saber...

Me forcei a ficar de pé e encarar o Ulquiorra. Inutilmente o Kurosaki desferiu outro golpe com a Zampakutou que foi facilmente defendido. Ulquiorra agarrou o pescoço dele e o jogou na minha direção. Mesmo que eu não quisesse, impedi que ele se espatifasse nos pedaços quebrados da parede.

– Pelo o que estão lutando? – Ulquiorra perguntou, nos encarando friamente. – É por causa daquela mulher?

Nenhum de nós respondeu. O Kurosaki mal podia ficar de pé, e nem posso reclamar, eu também não conseguia. Percebi que a máscara do Kurosaki já não estava mais no rosto dele e mesmo assim, ele tentou novamente:

– Getsuga...

– Já disse que é inútil! – bradou Ulquiorra.

Ele usou as duas asas para nos jogar para trás. O impacto dos nossos corpos na parede do outro lado abriu outro buraco e passamos diretamente para fora. Se tem algo que eu notei, é que em momento algum o Kurosaki soltou a Zampakutou. E em momento algum, eu deixei de flexionar os dedos em posição de ataque.

Nenhum de nós estava ali só para brincar. Estávamos ali para lutar.

A pressão do ar ao redor do meu corpo impediu que eu me mexesse. Forcei os olhos e vi o Kurosaki sendo arremessado para cima pelo ataque da asa de Ulquiorra. E depois ele veio cuidar de mim. Antes que ele se aproximasse, arrisquei usar um dos meus ataques. Usei a minha habilidade de lançar espinhos pelo cotovelo. (N/A: WTF? –q) Cinco de uma vez, mais rápidos que as balas de um revólver. Fiquei feliz por pelo menos dois deles atingirem os ombros de Ulquiorra, mas essa felicidade durou menos que um segundo. Logo estava eu sendo lançado bruscamente para baixo por um ataque daquele raio verde que cortou do alto da minha testa até metade do abdômen.

Cai na areia com violência e não consegui mais me levantar. Aos pés de uma das colunas.

Sangue. Tinha sangue escorrendo do meu corpo para a areia. Não consegui ver o que acontecia lá em cima. Kurosaki e Ulquiorra estavam lá. Eu tentei me levantar usando a parede de apoio. Alguns instantes depois, algo aconteceu lá em cima.

Uma Reiatsu terrível estava se formando... Não... Aquela era a Reiatsu do Ulquiorra aumentando. Uma enorme penumbra negra cobriu quase todo aquele lugar. Eu estava dentro da Reiatsu do Ulquiorra...

Não era possível existir algo tão grande como aquilo. Era intensa demais. Tão pesada que eu mal conseguia olhar para cima. Como se meus ombros estivessem sustentando o peso de um mundo inteiro. Logo que aquilo se desfez, eu tive que me apressar. Meu corpo poderia não estar mais agüentando, mas eu tinha que ir até lá.

Impulsionei com os pés e usei a minha Reiatsu como apoio para subir, algumas vezes pegando mais impulso cravando as garras na parede da coluna. Rapidamente cheguei ao topo e vi algo que me deixou realmente surpreso.

Eu só sabia que aquele morcego gigante era o Ulquiorra, por causa do estigma no rosto, como se estivesse chorando. Ele estava diferente. Parte do corpo estava coberta com pelos negros. Ele ganhou uma calda comprida e fina, orelhas pontudas e asas um pouco maiores que antes. Mas eu não tinha tempo de ficar olhando para aquela outra forma dele. Ou ele não me viu, ou me ignorou. Estava segurando nas mãos algo parecido com aquele raio verde, mas esse poderia ser mais forte. O Kurosaki estava atordoado de joelhos olhando fixamente para o Ulquiorra. Antes que ele pudesse lançar aquele raio contra o idiota ali, usei o Sonido e cheguei pela lateral e segurei o raio com a mão.

– Gostei da nova cara, Ulquiorra! – falei.

Usei o raio dele como apoio e girei os pés pés, contra o abdômen do Ulquiorra. Ele recuou um pouco.

– LEVANTA, KUROSAKI! – ordenei.

Eu pude ver que ele se forçou a ficar de pé.

– Vocês ainda acham que podem me vencer? – perguntou Ulquiorra, nos encarando.

– Eu não estou lutando... Porque acho que vou vencer. – falou o Kurosaki, de pé, ainda cambaleante. Ele avançou alguns passos até se aproximar. E ele ainda não havia soltado a Zampakutou. – Eu estou lutando porque tenho que vencer.

Tinha algo que eu devia admitir no Kurosaki. A coragem.

– Não importa se o seu poder é maior ou não que o de nós dois juntos. – falei. – Eu não vou parar até te ver em pedaços.

Ulquiorra estava nos encarando como ele sempre faz. A falta de expressão no rosto dele indicava que ele não compreendia o que estávamos dizendo.

– Quanta besteira. – ele disse.

Foi mais rápido do que eu imaginei. Ele voou até nós numa velocidade absurda. Não tive tempo nem de piscar os olhos. Ele segurou na minha cabeça e na do Kurosaki com cada uma das mãos e nos arremessou como brinquedos contra outra coluna.

A parede do lugar foi destruída e os pedaços caíram aos poucos. Eu não consegui me apoiar, mas o Kurosaki segurou o meu braço e me puxou. O rosto dele estava tão machucado quanto o meu, mas ainda assim, ele conseguiu sorrir como se eu fosse um companheiro.

– Não pense que eu vou te agradecer. – falei.

– Eu sei disso.

Mal tive tempo para respirar e Ulquiorra nos golpeou com aquela calda. Eu consegui me apoiar num pedaço da parede que estava sendo arremessado, mas o Kurosaki parecia estar na pior. Ele ficou inconsciente. O Quarto Espada veio até mim e desferiu outro golpe direto com aquele raio verde, fazendo um outro corte horizontal no meu peito.

Eu cai outra vez...

– Se isso é por causa do que vocês chamam de coração, – ainda consegui ouvir Ulquiorra falar, aos poucos a voz dele estava ficando cada vez mais distante. – então esse é o mesmo coração que os machuca. Possuir um coração significa jogar fora sua vida.

Ulquiorra jamais poderá entender. Eu vi de perto esse coração do qual esses humanos falam. E se eu tiver um, o entreguei para aquela garota.

Minha consciência se apagou no instante em que colidi contra o chão. Meu corpo não queria mais se mover. Eu estava cansado demais.

Eu falhei...

Sou um inútil mesmo...

Prefiro morrer a ter que encarar aquela garota como um perdedor...

Quando eu pensei que nada poderia ficar pior, minha consciência voltou por um momento e quando olhei de lado, vi a garota correndo na minha direção.

Tentei ficar de pé, mas não consegui. O meu sangue estava formando uma poça abaixo de mim. Só consegui ficar de joelhos. Olhei para ela. E como antes, ela estava assustada.

– Saia daqui... – minha voz mal saiu. – Agora...

– Grimm...jow... – ela sussurrou ao me ver.

– Você veio, mulher? – a voz de Ulquiorra veio de lá de cima.

Ela olhou para cima lentamente.

– Kuro... saki-kun...

– Ótimo, olhe bem. – ouvi Ulquiorra dizer novamente. – O Espada que ama está caído. E o momento em que tiro a vida do homem em que você tinha esperanças.

Mas o que é que estava acontecendo lá em cima?

O Kurosaki perdeu também?

Não tinha ninguém para protegê-la?

"Levante..."

Eu tinha que ir até ela.

"Levante seu inútil...!"

Eu estava rastejando como um derrotado, quando consegui ficar de pé, olhei para cima e vi o Ulquiorra apontando o indicador para o peito do Kurosaki desmaiado e preso pela garganta.

– ULQUIORRA! – gritei.

O Cero dele se formou na ponta do indicador.

– PARE! – a garota gritou. Tão alto que a voz dela ecoou naquele lugar.

Eu sei o quanto ela se importa com o Kurosaki. Eu não poderia fazer nada. E não poderia deixar que ela visse aquilo.

Usei todas as forças que consegui juntar naquele instante e usei o Sonido para chegar até ela. Quando olhei em seus olhos, ela estava chorando. Puxei-a para perto de mim e escondi o rosto dela no meu peito.

Pude sentir as lágrimas quentes.

Aquilo estava me enfurecendo...

Ulquiorra... Ele a fez chorar...

Um disparo.

Depois daquele disparo, ela começou a soluçar. Por cima do ombro olhei para cima. O corpo do Kurosaki estava caindo. Eu não conseguia sentir nenhuma Reiatsu vinda dele. Quando percebi que a garota não estava sozinha, eu a deixei e saltei.

Alguma coisa tinha acontecido comigo. Depois de vê-la chorar, alguma coisa dentro de mim estava diferente. Eu sentia uma raiva terrível. Uma raiva que nunca senti antes. Uma raiva tão grande que me deu forças novamente.

Agarrei o corpo do Kurosaki e o que vi era horrível. Tinha um buraco no peito dele. Aquela não era a primeira vez que eu via aquilo acontecer com o Kurosaki, mas dessa vez era pior. Ele nem sequer estava respirando.

Quando pousei no chão, deitei o corpo dele na areia. Quando olhei para trás, a garota estava correndo até onde eu estava. Num piscar de olhos, Ulquiorra surgiu na frente dela.

– É inútil. Com o seu poder você não poderá salvar a vida dele.

Vê-lo tão perto dela me corroeu por dentro.

Não era ciúmes.

Era fúria.

Ele a fez chorar.

Ele vai pagar...

– SAIA DE PERTO DELA, ULQUIORRA! – gritei.

Ele olhou por cima do ombro. Um raio azul foi na direção dele no mesmo instante. Eu conhecia aquele ataque. Era o Quatro Olhos. Ele tinha vindo junto com ela. Aquela flecha foi facilmente defendida pela asa de Ulquiorra. Aproveitando a chance, a garota desviou e veio.

Uma chuva de flechas azuis caiu sobre Ulquiorra.

– Rihito Regen! – bradou o Quatro Olhos.

Dessa vez foi uma cachoeira de flechas azuis que caiu sobre Ulquiorra. Sem parar.

Eu não olhei mais.

Assim que a garota se aproximou, ela criou aquele escudo ao redor do corpo do Kurosaki. Quando ela se chegou perto de mim, pude ver a expressão no rosto dela.

Era terrível ver aquilo. Eu não sabia decifrar o que ela estava sentindo. Mas o pior de tudo... Era ver as lágrimas dela... Algo que eu jurei jamais ver novamente.

Ela olhou para mim, diretamente para o meu peito. As lágrimas dela escorreram mais ainda.

Foi quando lembrei que eu havia prometido que não iria me machucar...

Nós dois quebramos as nossas promessas...

E a culpa... É do Ulquiorra...

Ele vai pagar por fazê-la chorar...

Para poder acabar com ele, eu teria que me transformar no animal que eu sou. Um animal sem pensamento. Eu estava lutando por ela, e vou continuar lutando por ela, mas agora, serei um animal.

Não vou parar até vê-lo virar pó.

Toda aquela raiva agora se tornou a minha força. E com essa força, eu o farei cair.

Ferido ou não, aquilo não importava.

Nada mais importava.

Avancei em meio a um rugido estridente, a caminho de terminar tudo aquilo, para que aquela garota saia desse pesadelo.