O Voo do Passarinho

Capítulo XXIX - Banquete Para Lobos

Com todo aquele azar de ter se deixado ser pego pela puta vermelha do Stannis e servido como moeda de troca para a Irmandade Sem Estandartes que quase custou a sua vida quando Beric Dondarrion decidiu duelar com ele com o maldito truque da espada flamejante que aprendeu com Thoros de Myr, Sandor Clegane se viu o homem mais sortudo de Westeros por ter encontrado a garota-lobo, Arya Stark, que estava desaparecida e dada como morta desde que Lorde Eddard Stark fora acusado de traição e mais tarde perdeu a cabeça no Septo de Baelor.

Claro que não foi tão fácil quanto pareceu capturar aquele animalzinho. Bom, capturar ela foi realmente fácil, levando em consideração que ela já estava semi-inconsciente quando ele se aproximou dela. Não era para menos, Arya havia despencado de uma altura considerável ao tentar escapar do Septo de Pedra. Arya é mais esperta do que a irmã, observou. Se Sansa estivesse no lugar dela, com toda a certeza o passarinho teria se conformado com a sua captura e não procuraria meios de fugir. Entretanto, manter a menina sobre sua custódia era outra história.

Nos primeiros dias a garota-lobo tentou escapar de Sandor através de violência física e verbal, o que o levou a tomar medidas drásticas, como enrolá-la na manta de seu cavalo e amordaçá-la durante a noite e amarrar os pés e as mãos dela durante o dia com as cordas que ele mesmo criara a partir do tronco de árvores presentes nas terras fluviais. Aquilo não era confortável para Arya, porém era a única forma que garantiria a permanência dela ao seu lado. Se eu a devolver para o Jovem Lobo ele verá que eu sou confiável e me recompensará e se ele aceitar que eu entre para o seu exército, então poderei participar do resgate de Sansa das mãos do filho da puta do Stannis. Esse era o seu plano desde o princípio, ele iria procurar Robb Stark, o Rei do Norte e iria conseguir homens o suficiente para buscar Sansa, com ou sem a filha mais nova da antiga Mão do Rei Robert, custe o que custasse. Sansa era cativa em Pedra do Dragão e ele prometera resgatá-la. Sandor sabia que o seu passarinho não estava sendo maltratado por Stannis como fora por Joffrey, todavia aquela mulher vermelha que o manipulava poderia criar problemas para Sansa e ele esmagaria o pescoço dela com a mesma facilidade que ele quebrara o pescoço do frango que comia agora.

- Você deve comer - Ordenou, com a boca cheia de carne e gordura escorrendo pela barba.

- Por que não engasga com esse osso de galinha e morre de uma vez!? - Arya esbravejou em resposta.

Sandor limitou-se a encará-la com indiferença. Estava cansado de sempre receber comentários desse calibre da garota. Ela deveria ser grata por ele tê-la encontrado. Se não fosse por ele, ela poderia ter sido pega novamente por alguém da Irmandade ou então por pessoas piores que estavam rondando por aquela área onde a Guerra dos Cinco Reis era mais intensa.

- Você gostaria disso, não é mesmo? - A questionou, voltando a comer a coxa e a sobrecoxa da ave.

- É o que eu mais desejo neste momento! - A garota continuava gritando, como se eles estivessem a quilômetros de distância um do outro e não separados apenas por uma pequena fogueira.

- Mas a sua irmã bonita não ficaria muito feliz com isso - Sandor abriu um sorriso amarelo. Sabia que toda a vez que mencionava Sansa a irmã dela chegava a um nível de irritação quase incontrolável.

- Não fale da minha irmã! Você não a conhece! - Esbravejou com a voz estridente - Ela mais do que eu ficaria feliz por Westeros se livrar de um merda como você!

- Existe merda pior do que eu por aí, vadia - Respondeu o insulto na mesma moeda. Se ela continuasse a tratá-lo por nomes que uma Lady não deveria saber e muito menos pronunciar, ele também o faria.

- Você matou o Mycah e estuprou a minha irmã! Não existe merda pior do que você nos Sete Reinos! - Arya lutava contra as cordas que a prendiam. Sandor sabia que ela não tinha fome de comida e sim sede, e era sede de sangue... e no momento era o sangue dele o que ela mais ansiava.

- É, eu o matei e se você mencionar o nome daquele maldito rapaz mais uma vez eu vou lhe dar um tabefe que a fará esquecer até o seu nome - Ameaçou. Cão de Caça não se arrependia de ter matado o filho do açougueiro, afinal de contas ele estava seguindo ordens, mas ter possuído Sansa a força, isso era uma dor que Sandor Clegane carregaria consigo até a morte. Mesmo que Sansa o perdoasse pela sua ação, ele sabia que não deveria ter feito e que podia ter evitado se quisesse. Sandor tinha Alíria naquela época. Podia tê-la fodido da forma que desejasse e durante toda a viagem sem que tivesse remorso de degradar a estalajadeira de Felwood. Desgraçada, ela previu o que eu iria fazer e mesmo assim levou a caça ao caçador, recordou e no mesmo instante se sentiu aliviado por aquela criatura estar morta e no fundo do mar - Contudo, não fui eu quem deu a sentença e degolou o seu querido pai, se lembra disso? Ou vai me dizer que você o queria morto assim como já desejou a morte de sua doce irmã? - Sandor se recordava do incidente em que resultou na morte da loba de Sansa e a fuga da de Arya. A briga das duas filhas de Lorde Eddard Stark na frente da família real foi mais comentada entre os soldados do que a punição por Joffrey ter sido atacado por um dos lobos gigantes.

- Você não sabe de nada! - A garota irritou-se, revelando o seu estado de mente na cor rubra que sua face adquirira.

No fundo, Arya estava certa. Sandor não sabia de nada. Desde que deixara os serviços dos Lannister ele estava perdido em si mesmo. Quando Escudo Juramentado de Joffrey ele era o feroz Cão de Caça que não tinha vontade própria. Ele servia apenas para matar e a sua meta de vida era destruir o próprio irmão, a Montanha que Cavalga, Sor Gregor Clegane. No entanto, quando se oferecera para levar Sansa de volta para a família ele estava redescobrindo um lado seu que adormecera na infância, até mesmo as memórias de Reyla reapareceram para assombrá-lo.

- O que foi? Não vai falar nada? - A menina provocou.

- O frango está muito bom - Deu de ombros, jogando o osso fora depois de ter garantido que não havia sobrado nenhuma carne ali e se pôs a lamber os dedos.

- Você é nojento... - Arya franziu o nariz em desgosto.

Sandor limitou-se a rir sem vontade.

- Eu não estou tentando te seduzir, vadia.

- Você vai fazer comigo a mesma coisa que fez com a minha irmã, não é mesmo? - A garota-lobo rebateu, tentando mostrar valentia, mas Sandor conhecia os seus oponentes e sabia reconhecer o medo e não foi difícil encontrá-lo atrás dos profundos olhos acinzentados da menina.

Sandor esqueceu o polegar na boca e se limitou a estudar Arya, não porque ele deseja avaliar o produto e sim porque desejava atormentá-la e sabia que estava obtendo sucesso, porque a viu morder o lábio inferior em silêncio. Ela tem a mesma mania de Sansa, observou. No entanto, quando Sansa mordia o lábio ele tinha vontade de beijá-la e quando Arya o fazia ele sentia vontade de esbofeteá-la.

- Você não faz o meu tipo - Respondeu com simplicidade, voltando a tarefa de se livrar da gordura que escorrera em suas mãos - Vai comer a sua parte da caça?

- Você vai me devolver intacta para os Lannister, então? - Arya perguntou.

- Para os Lannister? - Clegane rosnou uma gargalhada - Quem é que não sabe de nada agora?

- Não foi a Água Negra que passamos alguns dias atrás? - A menina recordou, referindo-se ao rio que cruzaram dois dias atrás à bordo do Cavalo de Duas Cabeças, cujo capitão Sandor enganou ao pagar a passagem de ambos com o pedaço de papel que a Irmandade lhe entregara em troca das moedas que lhe roubaram.

O Cão de Caça aumentou o volume de sua gargalhada. A garota-lobo não era tão esperta quanto pensava que era se conseguia confundir o Tridente com a Baía da Água Negra, visto que a diferença de tamanho entre ambos era alarmante, mesmo com as cheias.

- A Água Negra... - Murmurou quando encontrou a voz depois de tantos risos - Você não sabe metade do que pensa que sabe. O rio que passamos era o Tridente!

- Mas você é o Cão de Caça dos Lannister... - Ela o recordou.

Sandor crispou os lábios ao ouvir seu antigo posto.

- O que um cão faz no meio de leões, eu me pergunto. Até um cão cansa de apanhar, por isso eu digo que fodam-se todos eles - Respondeu sem se importar em demonstrar o quão irritado estava - Foi por isso que eu resolvi resgatar Sansa das mãos dos Lannister durante a Batalha da Água Negra e acredite se quiser, mas ela decidiu vir comigo por conta própria. Eu não a forcei a isso - E não gostaria de tê-la forçado a nada, concluiu para si mesmo.

Arya hesitou em se dirigir à ele, o que era algo raro.

- E onde está minha irmã? - A garota-lobo perguntou com sua irritante voz infantil.

- Com Stannis, em Pedra do Dragão - Seus olhos estavam fixados em um ponto atrás da moça, mas seus olhos nada viam a não ser as imagens que sua mente projetavam sobre o destino de Sansa.

- Você perdeu a minha irmã... - Arya revirou os olhos.

Aquele comentário foi deveras ofensivo para Sandor. Ele fora o Cão de Caça dos Lannister e o Escudo Juramentado de Joffrey e mesmo que agora não passasse de um vira-lata qualquer, saber que perdeu Sansa para um homem como Stannis lhe dava a sensação de fracasso.

- Não perdi a sua irmã - Ironizou - Ela foi tirada de mim.

Arya o estudou com olhos ávidos, ciente de que encontrara um ponto fraco nele.

- Ela não está com você, então eu digo que a perdeu - Provocou.

- E eu digo que vou te devolver para o seu irmão e se ele for um pouco mais esperto do que você me dará um cargo em seu exército junto com uma tropa para eu comandar e então invadirei aquele pedaço de rocha no meio do mar! - Esbravejou, pondo-se em pé. Não tinha mais estomago pra comida e muito menos vontade de continuar ali com aquela conversa.

Decidido a partir, apagou a fogueira chutando terra para cima dela, enterrando junto com o fogo alguns pedaços de frango.

- E se o meu irmão não me quiser de volta? - A garota-lobo perguntou. Havia uma certa ansiedade explícita em sua voz.

Sandor franziu o cenho.

- Ele é o seu irmão, é óbvio que ele irá querê-la de volta - Deu de ombros, partindo em direção à Estranho para selá-lo novamente.

- Tem razão - Ela ponderou - Mas e se ele não te aceitar?

Parou de bater a manta de montaria para retirar a poeira da estrada antes de colocá-la sobre seu garanhão no instante em que a pergunta foi feita e voltou-se para Arya.

- Então aceitarei o máximo de ouro que eu puder carregar - Ouro seria o suficiente para contratar mercenários disponíveis para um resgate em Pedra do Dragão. Por bem ou por mal, ele tiraria Sansa das mãos do Baratheon e sabia que Arya valia o tanto que pediria. E se não valer, os Lannister me darão o dobro do valor. Aquela seria sua última opção e a usaria quando todas as suas tentativas se mostrassem falhas - Temos que nos apressar agora se quisermos chegar antes do casamento de seu tio peixe.

Sandor soubera pelos homens que fizeram sua travessia no Tridente que o Jovem Lobo e sua comitiva iriam atender ao casamento de Edmure Tully com uma garota Frey qualquer nas Gêmeas em menos de uma semana. Em um passo normal, ele demoraria cerca de nove à onze dias para chegar até o local programado para o casamento. Com um prazo tão curto, ele lamentava ter de forçar Estranho a cavalgar mais do que o recomendado para chegar a tempo.

Parando apenas para o café da manhã e para o jantar, sua jornada já progredira o tanto que esperava, ainda mais que suas horas de sono foram reduzidas drasticamente. Felizmente os caminhos que tomara estavam livres de ameaças. Se eu seguir pela estrada, isto mudará, mas ele sabia por onde andar. Embrenhando-se no meio das árvores, Sandor foi capaz de se camuflar com sucesso. Mesmo que viesse a ser abordado, ele conseguiria se virar. Seu cavalo era forte e veloz e se ele ameaçasse fraquejar em uma batalha, Estranho o levaria para longe de seus inimigos.

Arya estando mais conformada com o seu destino, limitava-se apenas a fazer comentários sarcásticos, ainda que em menor frequência. A garota-lobo optara pelo silêncio e depois de mais dois dias de cavalgada, Sandor julgara que não teria mais problema em deixá-la livre de suas amarras. Ele estava certo sobre isto. Economizando tempo em amarrá-la toda vez que abaixava sua guarda, ele progredira ainda mais na jornada.

- Como você fará a sua entrada? - Arya perguntou certa vez.

Sandor ainda não havia pensado a respeito disso, porém estava determinado a não revelar a identidade de ambos sem antes analisar o território que estava entrando. Os nortenhos eram conhecidos por todo o reino pela instabilidade de relações entre eles e se por alguma razão a sua bolsa de ouro ambulante caísse nas mãos erradas seria o seu fim, mesmo porque duvidava que o Jovem Lobo o recebesse sem nada em troca. A essa altura, o fato de Sansa estar sob os domínios de Stannis Baratheon já deveria ter se espalhado por Westeros. O Rei da Pedra do Dragão poderia estar com uma baixa de homens, no entanto entre eles ainda haviam os informantes de outras Casas.

Apesar de estar orgulhoso por ter cumprido o prazo faltando apenas um dia para que chegassem as Gêmeas, o protetor da garota-lobo optou por finalmente fazer uso da estrada do rei que estava relativamente vazia, visto que a maioria dos cavaleiros já se encontravam no local da festividade, no entanto, ele ainda estava debatendo consigo a forma de abordagem que usaria ao chegar ao casamento de Edmure Tully quando a solução de seu conflito interno foi encontrada ao se depararem com um camponês com problemas em sua carroça.

Se ele assumisse a função daquele homem, não encontraria nenhuma barragem, afinal de contas, os cavaleiros que ele tanto odiava não iriam se limitar a examinar um reles camponês.

Guardando a felicidade de sua determinação apenas para si, desmontou de Estranho e ajudou Arya a imitá-lo.

- Lembre-se o que acontece com crianças que fogem - A recordou a respeito do que ele fizera com Mycah - Eu sou o seu pai e eu falo - A avisou. A garota-lobo possuía olhos e cabelos semelhantes ao dele, já os seus traços poderiam ser uma herança da mãe. Ninguém desconfiaria de sua relação sanguínea, ainda que pudessem confundir a garota com um rapaz pelas roupas que ela vestia. Isso é indiferente, disse a si mesmo, não podem culpar um pai solteiro por ser relaxado com as roupas de sua cria. Aquele pensamento o divertiu.

Não querendo problemas com o comportamento de Arya naquele momento decisivo, encarregou-a de tomar conta de seu garanhão. O cavalo tinha um temperamento explosivo, o que fazia com que se sua ameaça não bastasse, Estranho seria o suficiente para evitar que ela tomasse uma medida precipitada. Com pouca distância entre aquele local e o seu destino final, Sandor acreditava que a garota poderia vir querer fugir dele para encontrar a família. E se isso acontecer, tenho certeza que esta vadia irá dar com a língua nos dentes.

Com uma postura solícita, Sandor se aproximou do camponês.

- As estradas estão horríveis esta manhã, já é a segunda vez que tenho problemas - O homem do campo com uma idade avançada compartilhou com ele - A Sra. Whent vai me punir se eu não entregar isto às Gêmeas a tempo do casamento.

- Precisa de uma mão? - Se ofereceu, vendo que inutilmente o homem tentava colocar a roda da carroça remendada de volta em seu transporte.

- Preciso de no mínimo oito mãos - Comentou após analisar Sandor dos pés a cabeça.

Com uma dieta limitada ao que encontrasse no caminho, o pseudo-cavaleiro perdeu uma considerável massa muscular, o que pela sua altura pudesse demonstrar fraqueza. Mas não perdi a minha força, rebateu. Para provar o que dizia para si mesmo, ergueu a carroça pela parte de trás e a deixou suspensa no ar até que o camponês tivesse encaixado a roda.

- Muito obrigado! - O homem do campo agradeceu com um sorriso de incredulidade e satisfação no rosto.

Sandor largou a carroça assim que o camponês fez o reparo necessário e tendo os braços livres, deferiu um soco no rosto do homem, arrancando com o seu punho o sorriso que ele exibia. A sua força foi o suficiente para jogar o senhor no chão e determinado a finalizar o serviço enquanto o dono da carroça estava inconsciente, retirou o punhal que carregava preso em seu cinto.

- Não! - A voz de Arya ecoou em suas costas e antes que pudesse virar para ela, a garota-lobo entrou em sua frente, ficando entre ele e o camponês e o empurrou para trás - Não o mate! - Ela implorou com uma horrível voz infantil.

Sandor a fuzilou com o olhar.

- Ratos mortos não fazem barulho - A lembrou.

Se aquele camponês fosse até as Gêmeas ou até à sua senhora e contasse o que aconteceu lhe traria tantos problemas que ele simplesmente preferiria não ter. Forçando o seu caminho até o homem caído, obrigou a garota a cambalear para trás.

Arya deu apenas dois passos hesitantes até plantar os pés no chão e se recusar a ceder passagem para ele.

- Você se acha muito assustador, não é mesmo? Dizendo coisas apavorantes para menininhas - O olhar dela trazia a mesma expressão que a dele. Nenhum recusava-se a abaixar a vista e Sandor sentia-se inclinado a ensiná-la o seu lugar com um belo tabefe - Matando velhos e crianças - Ela continuou - Você é realmente duro, não é?

- Sou mais duro do que qualquer um que você conhece - Sandor pôs sua mão esquerda no ombro de Arya a modo de empurrá-la para junto da carroça e deixar o caminho livre.

- Você está errado! - Ela exclamou, escapando da mão dele - Eu conheço um assassino, um verdadeiro assassino!

Ele crispou os lábios com desgosto. Aquela conversa não levaria a lugar algum, mas se era isso o que ela queria, que seja.

- É verdade? - Perguntou com indiferença.

- Você pareceria um gatinho para ele - A garota-lobo disse - Ele o mataria com o seu dedo mínimo.

- É ele? - Sandor indicou o camponês com a cabeça e Arya o acompanhou, com um brilho de esperança que logo foi dissipado de seu olhar.

- Não! - Ela gritou a resposta com repúdio.

Sandor abriu um sorriso amarelo.

- Ótimo - Tornou a forçar sua presença até o homem caído que aos poucos demonstrava estar readquirindo a consciência. Se ele sofrer ao morrer, será culpa desta vadia, blasfemou.

Arya o empurrou mais uma vez. Aquilo estava começando a irritá-lo.

- Não o mate! Por favor! - Ela implorou com intensidade e lágrimas ameaçavam embaçar a vista da mesma. Maldita, ele a amaldiçoou. Naquele momento ela o recordou de Sansa. O passarinho teria a mesma atitude que a da irmã e ele não conseguiria negar um pedido feito por ela - Por favor, não... - Tornou a pedir, controlando as lágrimas.

Sandor a encarou em silêncio por um momento e então, contrariado, guardou o punhal de volta em seu cinto.

- Você é muito gentil. Um dia isso irá matá-la - A avisou, sentindo que no fundo ele gostaria de estar dizendo isto para Sansa. Somente o Deus Estranho poderia dizer o que a bondade dela não havia feito por ela em Pedra do Dragão.

Atormentado pelo pensamento, examinou a carroça, sendo chamado de volta para o homem caído quando o mesmo começou a gemer pela dor que o soco lhe causara. Antes que sua visão pudesse se assentar naquela cena, Arya agiu mais rápido, pegando um pedaço de madeira que estava no chão próximo a carroça e acertando o camponês novamente, levando-o mais uma vez ao estado de inconsciência.

Afinal ela não é tão gentil assim, observou, vendo a garota retornar para junto de Estranho.

Sem utilidade para o cavalo amarrado a frente da carroça, Sandor o soltou e prendeu o seu próprio garanhão à ela. Estranho era um cavalo de guerra, mas no momento funcionaria como um de tração. Se recusava de se desfazer daquele animal negro. Em seu ponto de vista, ele era uma extensão de seu corpo.

Cobrindo o rosto com a capa retirada do camponês, Clegane e Arya partiram em rumo das Gêmeas. A desculpa que ele desejara ter para adentrar a festividade sem chamar atenção lhe foi concedida. A garota-lobo durante o restante do percurso não abriu a boca. Aparentemente ela estava zangada com ele, porém Sandor era adulto e indiferente o suficiente para não provocá-la naquela hora. Queria poder chegar ao casamento de Edmure Tully sem ter que se preocupar com a pirralha sentada ao seu lado no carro de carga. O que o camponês pretendia levar às Gêmeas eram pés de porcos salgados. Aproveitando a situação, Sandor comeu alguns e até ofereceu para a menina, mas ela com a sua típica boa-educação recusou, o alertando para não comer todos.

Quando finalmente chegaram ao seu objetivo, a noite já havia caído e o banquete já estava na metade. À porta da enorme fortaleza que cruzava o rio com uma ponte de pedras estava um soldado que não o olhou nenhuma vez, julgando-se muito superior para desferir um pouco de sua atenção a um reles camponês.

- O que tem aí? - O homem questionou.

Sandor observou que no gibão do homem estava pintado o símbolo da Casa daquela fortaleza.

- Pés de porco salgado para o casamento - Contou.

- A mando de quem? - O soldado continuou com o interrogatório, erguendo o manto que cobria a mercadoria para inspecionar o seu conteúdo.

- Da Sra. Whent - Recordou-se das palavras do camponês que Arya nocauteara.

- Heh, aquela velha está procurando reconquistar o prestígio - Se divertiu o guardião do portão - Isso é inútil para servir aos nobres, mas vai ser útil aos soldados. Leve esses pés de porco salgado para o intendente e ele saberá o que fazer - Ordenou.

- Sim, senhor - Sandor portou-se como um verdadeiro camponês. Em outra ocasião, teria mandado aquele soldadinho de merda enfiar a carroça e todo o conteúdo ânus acima.

A passos moderados, eles se afastaram do portão. No pátio das Gêmeas haviam várias barracas erguidas com os estandartes dos Senhores reunidos para a união entre os Tully e os Frey. Sandor não reconheceu nenhuma daquelas pessoas que cruzaram o seu caminho. Haviam muitos soldados e seguidoras de tropa bebendo, comendo, rindo, cantando e fodendo. A maioria estavam bêbados demais para usar os próprios pés, o pseudo-cavaleiro percebera.

- Ele nem te olhou... - Arya comentou ao seu lado de forma perplexa.

- Todos os cavaleiros se acham superiores aos camponeses - A informou com indiferença - Ele podia ter reconhecido Estranho se alguma vez tivesse me visto montá-lo.

Sandor teria desfilado com o seu garanhão na última justa do Torneio da Mão do Rei quando Robert Baratheon governava os Sete Reinos se o seu irmão não tivesse resolvido atacar o Cavaleiro das Flores quando este o venceu por um reles truque do cavalo no cio. No fim o Cão de Caça foi declarado o vitorioso por Sor Loras Tyrell ter-lhe concedido tal honra após ter a vida poupada por sua interferência. A sua luta com Gregor em contra partida foi postergada, entretanto há males que vem para bem e isso possibilitou que ele andasse pelo meio dos soldados das terras fluviais e do norte sem ser reconhecido. Um dia terei a minha vingança, decidiu. Se Robb lhe desse os homens que esperava receber, ele então resgataria Sansa e derrotaria a Montanha que Cavalga em nome do Rei do Norte e libertaria de uma vez por todas as terras do rio. Sua vingança não poderia vir de forma melhor.

Sabendo que a sua prioridade era adentrar as Gêmeas, tomou o caminho contrário do que lhe fora indicado, o que sobressaltou Arya que prestava atenção em cada detalhe de suas ações. A menina se remexeu na carroça ao seu lado, chamando sua atenção.

- Deveríamos falar com o intendente. Foi o que o soldado no portão nos disse - O relembrou.

- Foda-se aquele maldito cavaleiro e suas ordens. Nós viemos até aqui para vermos o seu irmão e não alimentar esses vagabundos - Retrucou, parando a carroça e descendo da mesma.

Não foi necessário oferecer auxílio para a garota-lobo imitá-lo. Por conta própria ela descera do veículo e observava com seus grandes olhos a fortaleza ali erguida. O prédio era enorme e condizia o seu formato de torre erguida por aglomeradas pedras dando uma aparência instável ao mesmo tempo que majestosa. Havia uma construção semelhante do outro lado do rio unida por uma ponte. Em uma das duas fortalezas estava sendo celebrado o casamento. Sandor tinha certeza absoluta que era na de frente à eles pelo barulho ecoado lá de dentro.

- Sua família está perto, garota-lobo - A avisou com um sorriso amarelo no rosto.

Era difícil determinar qual dos dois viajantes estava mais satisfeito por terem alcançado o seu objetivo. Talvez Sandor. Do outro lado da carroça, Arya entrelaçava suas mãos úmidas pelo suor em um gesto de puro nervosismo. O pseudo-cavaleiro não sabia o que se passava na cabeça dela, mas com toda certeza a garota passara por sérias merdas desde sua fuga de Porto Real para estar daquele jeito. Alguns dias atrás ela mencionara que talvez o irmão não a aceitaria de volta e estava prestes a questioná-la se havia algo que ele deveria saber antes de entrarem no local quando gritos ocuparam o lugar de alegres gargalhadas.

O homem girou sobre os calcanhares para entender do que aquilo se tratava quando foi contemplado por uma cena de guerra acontecendo no acampamento. Homens ensanguentados empunhados de armas corriam de um lado para o outro. As poucas mulheres ali presente corriam para o enorme portão da Gêmea do lado sul do rio em uma atitude de arrego, procurando ajuda de seus bravos cavaleiros. Aquelas que foram inteligentes o suficiente desapareceram pelo portão de entrada, contando apenas com as habilidades de suas pernas. O restante delas eram mantidas prisioneiras no caos ali instaurado. Elas eram invisíveis naquele conflito e ainda assim indispensáveis como testemunhas.

Guiado pelo instinto, Sandor empunhou sua espada de duas mãos que trazia nas costas oculta pelo pesado manto de camponês que roubara. O seu disfarce já não era mais necessário.

Em algumas tendas, o fogo fora invocado e consumia o tecido das instalações. Homens cobertos por fogo se atiravam ao chão ou sobre os inimigos em um ato desesperado de honra ou de vergonha, sendo difícil determinar exatamente qual dos dois se aplicava a cada situação. Sandor estava determinado a não se aproximar deles. Já havia tido sua cota de experiências com fogo o suficiente para o resto de sua vida.

Não entendia a razão daquilo estar acontecendo sendo que segundos atrás o clima de festa era predominante. Poderia até entender o fato de um bêbado ter se desentendido com outro, todavia um desentendimento jamais provocara tamanha violência envolvendo demais pessoas. Não quando os envolvidos eram miseráveis soldados presos apenas ao título que ganharam por entrar na luta de grandes Casas importantes.

- Pelas Gêmeas! - Um homem em armadura gritou ao atirar-se sobre Clegane.

De espada na mão, Sandor o cortou pondo fim na bravura do soldado que caiu estático no chão. Sua arma era afiada e o seu golpe preciso. Fazia algum tempo que não tinha uma boa luta e o seu sangue fervilhava de adrenalina para se juntar aos guerreiros. Contudo, ele deveria garantir a segurança de Arya.

- Garota-lobo, não saia de perto de mim! - Voltou-se para a direção onde sua protegida estava e não encontrou ninguém ali.

Em algum momento durante aquele caos ela fugira. Claro que a possibilidade dela ter sido levada por alguém não fora cogitada. O Cão de Caça conhecia como funcionava a guerra e para aquelas pessoas ele e Arya eram mais um na multidão. Apenas a morte deles tinham um preço e não sua vida, ninguém sabia que de fato eles tinham valor sendo mantidos como prisioneiros.

Com passos apressados valendo dois de um homem normal, Sandor trotou em direção a entrada da torre diante dele.

Os poucos soldados que saltaram sobre ele em busca de acabar com sua vida foram executados com um golpe limpo de sua espada. Todos eles gritavam Pelas Gêmeas, o que indicava que aquilo era uma armadilha armada pelos Frey. De dentro do castelo mais gritos eram abafados pelas pesadas pedras de sua construção. Aquilo definitivamente não era um bom sinal. Pelo pouco que pode perceber, os nortenhos estavam bêbados demais para se defenderem e os malditos nobres deveriam estar pior do que os simples soldados no acampamento. O mal da realeza é que eles sempre mantem a confiança alta e nunca estão preparados para o inesperado.

- Saia do meu caminho! - Gritou enquanto tirava a vida de mais uma pessoa.

Com olhos ávidos, Clegane procurou por sua protegida. A porta da Gêmea esculpida em madeira e reforçada por aço estava bloqueada e Arya não estava em lugar algum para ser vista. Os poucos que se atreviam a tentar adentrar a fortaleza eram massacrados por aqueles que a defendiam. Sandor não era heroico o suficiente para tentar resgatar os que estavam lá dentro. Sua preocupação era manter a segurança da garota-lobo. Lançando o olhar ao redor, viu a sombra dela escondida atrás de enormes barris de bebida do lado esquerdo da torre.

- Maldita menina! - Esbravejou, cortando caminho para chegar até ela, mas quanto mais se aproximava, mais ela deslizada nas sombras ao que parecia a procura de uma segunda entrada.

Quando enfim ele a alcançou, colocou sua mão livre no ombro dela a modo de mantê-la parada. Sobressaltada, ela girou nos calcanhares e tentou acertá-lo com os punhos fechados julgando que ele fosse um inimigo.

- Me solta! - Ela gritou.

- Acabou, não há nada que possamos fazer - A avisou, puxando-a pelo braço para onde havia deixado Estranho.

- Não! - Relutou em busca da liberdade - Vento Cinzento, o Lobo do Robb, temos de salvá-lo!

Sandor voltou-se para ela e o seu ouvido foi tomado pelo choro de um lobo vindo de dentro de uma jaula de madeira fechada por um trinco grosso do mesmo material. Pelo jeito ela estava tentando soltar o lobo e não tentar resgatar a família. Mais adiante, quatro homens carregando bestas corriam para onde o animal estava.

Se fosse há alguns meses atrás, ele teria evitado o esforço e feito o que era a sua obrigação, mas algo dentro de si não permitiu que ele fosse indiferente a situação. As bestas eram armas letais, contudo difíceis de serem recarregadas. Aqueles soldados estavam tão obcecados pelo seu alvo que não repararam na presença de Sandor vindo por suas costas.

Dois dos homens Clegane atingiu com um único menear do seu aço e quando o último suspiro deixaram os lábios deles, seus companheiros se voltaram atordoados para o que estava acontecendo.

- Tarde demais - Sandor murmurou matando os outros dois.

Das quatro bestas, apenas uma chegou a disparar e a flecha passou raspando por seu rosto, arrancando de sua bochecha queimada um filete de sangue. Eram tantas cicatrizes na sua face esquerda que uma a mais se perderia ali.

Não sabia se podia confiar no lobo. Lady, a loba de Sansa nunca gostara dele e na época era apenas um filhote. Que seja, disse a si mesmo, removendo a tranca que mantinha aquela criatura enclausurada.

Com um rugido animalesco a fera passou por ele e por Arya para adentrar o campo de batalha. A guerra estava próxima do fim e não restava muitas alternativas para eles ali que não fugir o mais rápido possível antes que fossem massacrados junto com os demais. Tendo Vento Cinzento sido libertado, a garota-lobo já seguia o caminho para uma porta na lateral da fortaleza onde homens com as gêmeas estampadas em suas cotas de malha entravam e saiam a todo o instante.

Sandor tornou a alcançá-la e a arrastou até a parede, atirando-a contra ela. Naquele lugar envolvidos pela penumbra estavam invisíveis aos olhos dos demais.

- Nós temos que sair daqui e agora! - Esbravejou.

- A porta está aberta... - A voz dela ecoou como a de uma garotinha. O desespero retirou da garota-lobo toda a sua valentia - Minha mãe e meu irmão estão aqui... Nós já viemos tão longe para encontrá-los... Eles estão aqui...

Por mais diferente que as pessoas consideravam Arya de Sansa, naquele momento elas pareciam idênticas. O sofrimento estampado no rosto dela despertou a simpatia de Sandor.

- Se você entrar lá não irá mais sair. Os Frey a deixarão tão morta quanto os seus familiares! - Suas palavras pesadas deveriam funcionar como um soco de realidade.

- Talvez eles estejam vivos... - Lágrimas se formavam nos olhos da menina que se apegava em suas esperanças para manter a sanidade.

- Você acha que os Frey massacrariam os soldados do seu irmão e o manteriam vivo? - Retrucou. O tempo estava passando e a pressa de sair dali o consumia. Catapultas com piche estavam sendo utilizadas no ápice da batalha e mais tendas estavam queimando. Em breve o acampamento seria um mar de fogo e ambos seriam consumidos por ele se não pelo aço - Vamos embora agora. Eu ainda não estou cansado de viver. Ficar ou entrar naquele lugar equivale a morte - Sandor parou de prensá-la contra a parede, cessando o contato entre eles. O rosto de Arya exibia um misto de emoções - Vamos! - Ordenou, indicando com as mãos o caminho que deveriam tomar.

Arya não vacilou perante suas vontades. Desobedecendo ao comando recebido, moveu suas pernas para onde o seu coração mandava. Mal havia dado dois passos em direção da porta lateral da fortaleza quando Sandor a deteve.

Sabendo que não conseguiria tirar ela de lá se não tomasse medidas drásticas, Clegane a acertou na nuca com o punho de sua arma. Como uma árvore que é cortada, a menina caiu dura no solo. Tomando-a em seus braços e jogando-a sobre o ombro como se ela não pesasse mais do que uma pena, Sandor caminhou para longe daquele lugar, sempre pelas sombras a modo de evitar combates desnecessários até onde havia deixado Estranho.

Sua carroça por incrível que pareça continuava inteira e o seu garanhão relinchava e se apoiava nas duas pernas traseiras em busca de liberdade. O cavalo tinha um instinto violento e Sandor compreendia o quão frustrante deveria ser para ele estar amarrado ali. Utilizando o seu aço, soltou o animal e jogou a garota inconsciente na garupa como um saco de farinha. Ainda havia sua armadura e o seu elmo para serem retirados do meio dos pés de porco salgado. Tentando ser o mais rápido possível, encontrou os seus pertences que foram protegidos por um saco de estopa.

Enquanto o pseudo-cavaleiro montava em Estranho com tudo o que tinha naquele momento em sua posse e galopava com toda a velocidade para fora daquele banquete que fora preparado para exterminar os lobos de Westeros, Sandor não viu em lugar nenhum o lobo gigante do Rei do Norte, mas ao longe pôde ouvir o uivo solitário da fera e por um instante sentiu que nem tudo estava perdido, embora um novo plano devesse ser criado.

Sansa Stark continuava cativa em Pedra do Dragão e iria esperar por ele e mesmo que tivesse falhado com Robb, não falharia com ela, mesmo que não existisse mais Stark algum para devolvê-la, mesmo que a irmã fosse o único parente que lhe restara, Sandor a resgataria e a manteria a salvo. Manteria as duas crias de lobo a salvo. Elas eram a sua matilha e independente de onde fossem parar, não as deixaria. Jamais. Sobre hipótese alguma. Nem os deuses seriam capazes de fazê-lo e se alguém ousasse, ele mataria. Ele era um Cão de Caça, afinal de contas. O Cão de Caça dos Stark. Deste momento até a sua morte era isso o que ele seria.