SASHA – PDV
Seis meses depois...
- Ei. – me cumprimenta a loira assim que abre a porta da frente.
- Nossa que entusiasmo em me ver. – provoco passando pela porta e dando-lhe um abraço.
- Desculpe, é que eu ainda estava dormindo. – ela responde apontando para sua roupa de dormir.
- Jessica Capshaw dormindo até... às 11:00 da manhã – brinco olhando para o relógio confirmando a hora. – Quem é você e o que fez com minha amiga?
- Nossa, isso tudo? – ela questiona. – Nem queira saber o que fiz com ela. – ela diz se jogando no sofá e cobrindo seus olhos com o antebraço.
- Não tem gravação hoje? – pergunto tentando descobrir seu real estado de humor.
- Não, entramos na primeira parte dos hiatus. – responde. – Então queria aproveitar o dia pra apagar, tomei remédio ontem pra facilitar. – responde e ficamos em silêncio. Inevitável não pesar meu olhar sobre ela.
- Cheguei tem pouco tempo, só passei em casa pra um banho e vim te ver. – digo me sentando no outro sofá a sua frente.
- Como foram as férias? – pergunta ela.
- Férias? – digo irônica. – Passei 3 meses viajando pra gravar, e os outros 3 foram uma loucura. – explico com uma careta.
- Imagino, quando se tem filhos e marido as férias nunca são pleno descanso. – ela provoca e n contenho um leve sorriso.
- Jessy... – chamo preocupada e meio sem jeito sobre como começar o assunto.
- Hum. – ela apenas resmunga.
- Eu sei que conversamos sobre isso, mas sempre tinha algo interrompendo nossas conversas... – hesito esperando um sinal para continuar. Mas ela apenas permaneçe deitada com os olhos tampados.
Desde que tudo havia acontecido, não pude estar presente com ela fisicamente como gostaria. Estava atolada em eventos e gravações fora da cidade. E depois vieram minhas férias que eu precisava passar com minha família. Mesmo tentando aproveitar toda tecnologia e tudo que nos possibilitasse contato, era diferente de quando estamos assim... juntas. Eu sabia que aquilo não era suficiente. Ela já havia resumido a história e dito apenas que estava chateada, nada mais. Mas eu sabia que não era só isso.
- Foi horrível. – ema quebra o silêncio que havia tomado conta do cômodo. – Ela simplesmente foi embora com outra pessoa. – ela conclui desobstruindo os olhos para me encarar.
Eu podia ver que algo estava diferente nela. Quero dizer, ela ainda era minha Jessy. Mas agora, as olheiras profundas marcavam seus belos olhos azuis. Seu semblante era... sem vida.
- Me conte exatamente o que aconteceu. – peço cautelosamente.
- Eu não sei. – ela responde se sentando no sofá para me olhar mais diretamente. – Quero dizer, faço uma leve ideia. – ela diz sarcástica.
- Como assim? – tento aprofundar o assunto para ter um pouco mais dela.
- Não sei Sasha. – dificilmente ela me chamava assim, ainda mais com esse tom seco. – Quero dizer, passamos uma semana ótima apesar de tudo e quando foi no dia da viagem, pedi a Shonda dispensa das gravações por dois dias para ir ao México com ela e quando foi na hora da viagem ela disse que havia cancelado minha passagem e que Érica iria com ela. – ela explica e eu podia vê-la revivendo aquele momento.
- Mas isso não faz o menor sentido Jessy... – digo confusa. – Alguma coisa não se encaixa.
- Eu vou te dizer o que não se encaixa. – ela diz aumentando seu tom de voz. – No dia que fizemos a entrevista e não passamos, ela deixou claro pra mim que a única a perder alguma coisa era ela... seu amado trabalho. – ela diz com zombaria as últimas palavras.
- Isso não é algo fácil pra ninguém. – respondo e logo me arrependo ao sentir o olhar de fúria da mulher sobre mim. – Só estou dizendo... – tento corrigir, mas me calo antes de piorar as coisas.
- MAS ELA NÃO PERDEU O TRABALHO. – ela grita e me assusto. – Ela não perdeu... consegui com o Sr. Fast Food uma chance de fazê-la continuar com seus trabalhos, mesmo estando fora. – ela diz baixando seu olhar. – Ela não perdeu nada Sáh.
A dor da minha amiga era tão óbvia e gritante, que poderia ser sentida por qualquer um em um raio de 200m. Mas nada de lágrimas. Eu podia sentir o nó em sua, por sua voz embargada, mas as lágrimas pareciam ter secado. Aquela não me parecia minha doce, sensível e meiga Jessica.
- Sr. Fast Food? – pergunto confusa e ela apenas faz um aceno para que eu esquecesse isso.
- Era apenas o trabalho que ela queria. – ela continua voltando a me encarar. – Aquele desconforto todo com o casamento, era apenas medo de não dar certo e, não deu. – ela dá de ombros. – Ela aceitou tudo por que queria se manter aqui, como conseguiu manter o trabalho sem precisar estar fingindo comigo, simplesmente me deu as costas e foi embora.
- Mas Jessy... Não entendo, tem algo inexplicado. – digo confusa com tudo que ela me dizia.
- Meu Deus, Sasha... – ela se irrita se levantando do sofá. – O que é tão difícil? Eu não era mais útil e ela me descartou. – ela fala exasperada.
- Sim Jessy, mas dava pra ver que ela amava você. – digo aumentando o tom da minha voz também tentando fazê-la entender minha confusão.
- Era tudo fingimento. – ela diz. – Ela sempre esteve com Érica, e eu sempre desconfiei daquele profissionalismo excessivo daquela songa monga. – ela continua. – Ela até foi uma das opções que o Mike sugeriu para Sara casar.
- Se fosse assim, por que ela não aceitou casar com Érica em vez de você? – pergunto tentando encontrar resposta pras minhas dúvidas.
- Porque não era com Érica que meio mundo a via como casal... – ela começa. – Porque não era com Érica que ela teria a visibilidade que precisava para afirmar sua mentira... Porque, provavelmente, ela não queria que Érica corresse o risco de ser presa... – ao terminar um suspiro triste sai de seus lábios.
- Eu sinto muito... – é tudo que consigo dizer depois de levantar e caminhas até para abraça-la. Um sorriso forçado sai de seus lábios.
- O que foi? – pergunto desfazendo nosso abraço e olhando-a novamente.
- A ironia foi ela querer fazer-se de vitima jogando na minha cara o fato de eu ter ficado com a Tessa e não ter contado a ela. – ela ri sarcasticamente.
- Ela não sabia? – pergunto.
- Não... tentei dizer algumas vezes, mas sempre acontecia algo. – ela diz e começa a caminha em direção à cozinha. – Mas, independente disso, não estava namorando ela quando aconteceu, você sabe disso. – ela diz enquanto liga a cafeteira.
- Ainda sim, devia ter contado. – digo dando de ombros sem olhar diretamente para ela.
- Se eu tivesse contado, ela arrumaria qualquer outra coisa para se vitimizar. – ela diz pegando duas xicaras no armário. – Acredita que ela disse eu tive toda a publicidade que queria? – ela diz com um riso debochado.
- Oi? – pergunto não acreditando naquilo.
- Isso mesmo... Como foi que ela disse mesmo? – ela pergunta para si tentando lembrar. – Ah, sim... "Para Jessica, já chega desse fingimento. Você já tem toda a publicidade que queria com essa história. Você não precisa mais de mim para ficar no topo por mais algumas semanas até achar seu próximo alvo." – ela diz imitando a fala da latina.
- Ela não disse isso? – pergunto completamente incrédula. Como Sara poderia dizer isso a Jessica, depois de tudo que ela tinha feito, dos riscos que correu.
- Pois é... ela disse. – ela responde nos servindo o café que já estava pronto.
- Ela nem ao menos teve o bom senso de te agradecer por ter falado com o tal Sr. McDonalds? – pergunto e vejo a loira dar seu primeiro sorriso sincero desde que eu havia chegado.
- Ela não sabe que fui eu. – ela responde tomando um gole do café fumegante. – Ela pensa que foi Shonda e Betsy... Quero dizer, elas fizeram o trabalho pesado de convencer os donos da emissora e patrocinadores do show, mas isso só foi possivel porque eu falei com o Sr. McDonalds. – ela explica e tenta imitar minha voz o que nos faz rir um pouco.
- E porque você não contou a ela? – pergunto confusa.
- Que diferença faria Sáh? – ela pergunta. – Depois do que ela me disse sobre eu não perder nada, eu entendi que ali não existia nós, apenas ela e seu trabalho. – ela responde tristemente. – Não queria e nem quero um muito obrigada, queria outra coisa que Érica já possui... O amor da Sara.
Apesar de tudo que Jessica me contou. Todos os detalhes daqueles últimos dias com Sara até a bombástica ida dela para o México com Érica, ainda sim não conseguia acreditar. Não era possivel que eu estivesse tão errada. Não era possivel que ela tivesse conseguido enganar a todos nós. Ainda sim... Não podia negar minha raiva por saber o que havia feito, ainda mais diante da tristeza da minha amiga.
- Preciso de um banho... – diz ela enquanto se serve de mais uma xícara de café. – Pode ir ao meu quarto pegar uma roupa pra mim? – ela pergunta e eu estranho completamente.
- O que? – pergunto sem entender. – O banheiro é dentro do quarto não é? – pergunto e ela ignora completamente.
- Por favor? – ela pede com olhos quase de súplica. – Eu... eu... – ela começa a gaguejar tentando se explicar. – Evito entrar lá sempre que posso. – ela diz baixando o olhar para encarar o liquido preto na xícara em suas mãos.
- Como assim? – pergunto já entendendo do que se tratava.
- A casa inteira me lembra ela... – ela começa a dizer e volta a me olhar. – Estávamos dividindo rotina de casal... o quarto... banheiro... cozinha... - ela diz séria.
- E como você fez pra se virar? – pergunto.
- No começo fiquei na casa da minha mãe, mas aquilo começou a me irritar... Você como minha mãe é superprotetora, no começo foi muito bom, eu precisava, mas depois queria me isolar...ai voltei – ela explica num só fôlego. – Tomo banho no banheiro social, durmo no sofá e quando a empregada chega de manhã, peço para deixar minhas roupas no armário do quarto de hospedes.
- E porque não dorme lá? – indago boquiaberta.
- Lá está uma entulhado de coisas... – ela responde dando de ombros. – Então, pode pegar roupa pra mim ou vou passar o dia de pijama? – ela diz com ironia em sua voz.
Ao entrar no quarto, percebo que de fato ali não via pessoa há muito tempo. Tudo impecavelmente limpo e arrumado. A cama sem nenhuma dobra no lençol. Passaram-se seis longos meses e Jessica ainda dormia no sofá por não conseguir suportar a lembrança da latina em sua cama... seu quarto... sua casa... sua vida. Me vejo tomada por uma fúria ainda maior ao ver o estrago que ela tinha feito na vida na loira.
Enquanto ela tomava banho, sigo até a sala para espera-la e só então me dou conta da real situação do ambiente. O sofá que antes ela estava deitada a minha frente, estava todo improvisado em uma cama. Travesseiros... Lençóis... Edredom. Ela estava realmente acampando dentro da própria casa.
Dou uma rápida organizada em tudo e deixo um bilhete avisando que iria ao mercado comprar comida. Havia deixado meus filhos com minha mãe e meu marido estaria fora o dia todo. Nós precisávamos aquele dia inteiro para pôr os assuntos em dia e eu precisava saber como poder ajuda-la. Então nada mais justo que eu aproveitasse aquele dia para estar ao lado de Jessica.
Quando retorno ela já havia terminado de se aprontar e estava a minha espera. Já sabendo o quanto sou excelente cozinheira, ela logo pega as compras da minha mão e as leva até a cozinha para preparar o almoço.
- Não precisava arrumar a casa e muito menos fazer compras, devo ter algo comestível aqui. – ela diz passando a vista rapidamente pela cozinha.
- Bom, eu precisava fazer alguma coisa pra poder você ficar me devendo e cozinhar pra mim sem reclamar. – provoco e ela sorri.
- Vai ficar aqui? – ela pergunta. – Não quis soar rude, desculpe... Quis dizer... – ela tenta se explicar, mas a corto.
- Ow, relaxa... Sou a Sasha, certo? – digo apontando o dedo pra cima como se quisesse deixar claro minha presença. – Vim passar o dia aqui com você ou em qualquer outro lugar que você quiser. – explico e ela sorri agradecida.
- Muito obrigada. – ela diz me abraçando forte depois de por as compras em cima do balcão. – Senti muito sua falta.
- Eu também. – digo retribuindo o abraço. – Agora trate de cozinhar antes que eu morra de fome. – brinco e ela da um leve beliscão em meu braço.
- Auuuu... isso dói sabia? Vai me deixar marcada. – brinco passando a mão sobre o local. Percebo imediatamente seu sorriso morrer.
- O que foi? – pergunto ainda massageando meu braço.
- Nada... só lembrei de uma coisa. – ficamos ali caladas um tempo, eu sabia que ela havia lembrado da latina.
Na tentativa de manter os pensamentos de Jessica ocupados, trato de conversar sobre coisas aleatórias. Minhas férias, o período que passei trabalhando fora. As trapalhadas do meu marido. Qualquer coisa que a fizesse ser um pouco ela mesma naquele momento. Hora ou outra eu percebia que ela sumia completamente dali e vagava sem sombra de dúvida em memórias relacionadas à latina. Seu olhar escurecia e seu semblante se endurecia de imediato.
- Antes que eu me esqueça... – digo na tentativa de fazê-la voltar ao mundo. – Você voltou com o Christopher? – pergunto incrédula.
- Claro que não, enlouqueceu? – ela logo se defende. – É tudo especulação. Fotografaram ele aqui na porta uma noite e ai, começaram a falar. – ela explica.
- Mas como assim aqui na porta? Achei que estavam brigados. – digo confusa.
- Em um dos eventos que me atolei em participar, fui atacada pelos repórteres abutres e ele meio que me salvou da loucura toda. Se ofereceu pra me deixar em casa e só. – ela explica como se não fosse nada.
- E só? – pergunto ainda mais perdida. – Desde quando ele se satisfaz em apenas deixar uma mulher na porta de casa? – pergunto conhecendo o passado do homem.
- Pior que foi só isso. – ela explica enquanto terminava de preparar um risoto. – Por incrível que possa parecer, ele tem sido um "bom amigo" – ela diz com dedo em sinal de aspas.
- Amigo? Aquele ali? – zombo sarcasticamente.
- Pois é, até eu me vejo surpresa. – ela diz. – Temos estado praticamente nos mesmos eventos e festas, ai tiram fotos nossas juntos e começaram a dizer que votamos, mas é tudo mentira. – ela conclui apagando o fogo da panela.
- E você confia nele? – pergunto enquanto vou ao armário pegar os pratos e talheres. – Quero dizer, ele é o Christopher né? – completo em um tom que deixava óbvio o que eu queria dizer.
- Eu sei... Por isso eu digo, somo apenas amigos. – ela diz usando um tom diferente na última palavra. – Não quero minha vida mais bagunçada do que já está. – ela diz.
- Jessy? – chamo depois de um longo período de silêncio. – Já pensou em como vai ser quando ela voltar?
- Pior que já. – ela responde com um suspiro longo. – E não faço a mínima ideia do que fazer quando isso acontecer. – ela responde antes de levar mais uma garfada a boca.
Assim que terminamos o almoço, lavei os pratos e os deixei no escorredor. Jessica foi até sua pequena adega e buscou uma garrafa de vinho. A tarde passou voando e logo o entardecer nos brindou com um pôr do sol magnifico. A convidei para dar uma volta, mas ela preferiu ficar em casa. Sentamos na varanda do andar de cima e continuamos a conversar.
- Alô? – ela diz assim que atende seu celular. – Ei Mike... – ela cumprimenta o homem e eu estranho, afinal ele era o melhor amigo da latina que partiu seu coração.
- Ah, não sei... Sasha está aqui e ela estava fora da cidade... – ela explica algo a ele.
- Sasha o Mike quer falar com você. – ela diz revirando os olhos e passando o telefone pra mim.
- Hey Mike. – cumprimento. – É eu estava fora, mas já estou de volta para por ordem na casa. – brinco e olho para a loira a minha frente que apenas revira os olhos em reprovação. – Por mim está ótimo, até mais então. – respondo e desligo.
- Mas que droga foi essa? – ela pergunta com seus olhos azuis arregalados fumegando de raiva. – Te passei o telefone pensando que você diria não ao convite, já que chegou hoje e deve estar cansada.
- Devia ter avisado antes. – digo dando de ombros e virando o restante da bebida em minha taça. – Ah qual é, seremos só nós três. – falo tentando animá-la.
- Ok. – ela responde ainda contrariada.
- Mas então... – começo a dizer e percebo o olhar dela sobre mim já sabendo o que eu perguntaria. – Você e Mike agora são amigos?
- É, digamos que sim. – ela diz e se serve mais uma vez. – Mas só com a condição de nunca tocar no nome dela. – ela explica e um murmúrio compreensivo sai dos meus lábios.
