CAPÍTULO VINTE E NOVE

Começo

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Draco desligou a chave do carro e deixou a cabeça pender até encostar-se ao volante. Os nós de seus dedos estavam brancos, tamanha a força com que ele se agarrava ao objeto, como se soltá-lo significasse ter que enfrentar o que o esperava do lado de fora. Mais precisamente, dentro da mansão.

A quem ele queria enganar? Não estava tão confiante quanto queria que Harry pensasse que ele estava. Não se achava uma pessoa corajosa, apenas teimosa o bastante para não demonstrar medo para ninguém. E como estava prestes a encarar Lucius Malfoy em seu pior humor, precisava se recompor rapidamente.

Relutantemente, ergueu a cabeça e analisou o próprio reflexo no retrovisor. Sua face direita estava avermelhada e havia se formado uma casca escura e ressaltada onde o anel de seu pai o tinha ferido. Draco tocou a própria bochecha cuidadosamente, evitando o corte, que ainda ardia. Aquela tinha sido a primeira vez que Lucius o punia fisicamente. Ele não costumava tocar em Draco, fosse para bater, dar conforto ou carinho ao próprio filho. Lucius era o tipo de pessoa que não tocava sequer a esposa em público.

E era a mesma pessoa que tinha estapeado o próprio filho na frente de Harry. Ao mesmo tempo que aquilo fazia seu sangue ferver, também fazia suas pernas ficarem bambas. Draco nunca havia visto seu pai tão furioso e uma parte dele ainda se lamentava por ter desapontado seu pai de tal maneira.

O que o esperava naquele momento? Seu pai ainda estaria furioso a ponto de agredi-lo fisicamente mais uma vez? E o que ele faria caso Lucius o batesse novamente? Reagiria? Se defenderia? Daria a cara para bater?

No entanto, pior do que qualquer punição física, Draco não sabia se estava preparado para ouvir o que seu pai tinha a lhe dizer. Sabia que Lucius não mediria as palavras. Ou pior, escolheria as que mais o ferissem.

Bem, de qualquer forma, não poderia ficar no carro o resto da noite. Depois de inspirar profundamente algumas vezes, Draco deixou o carro e entrou pela porta principal. Não havia ninguém à vista, mas Draco não esperava encontrar o pai na sala de visitas. Antes que fizesse mais algum movimento, Winky apareceu, de olhos arregalados.

- Boa noite, Sr. Malfoy. Posso ajudá-lo em algo, senhor? Quer que eu sirva o jantar?

- Onde ele está? - Draco ignorou as perguntas da mulher, já se encaminhando em direção ao corredor.

Winky seguiu-o logo atrás, com passos rápidos e curtos que dificilmente acompanhavam os de Draco.

- O Sr. e Sra. Malfoy estão na sala de estar, senhor.

Isso fez Draco hesitar.

- Minha mãe também? - perguntou, parando a poucos passos da sala de estar.

- Sim, senhor.

A realização de que Draco não tinha pensado sequer por um momento na reação de sua mãe atingiu-o como outro tapa na face. Ele até mesmo sentiu o rosto voltar a arder, como se seu corpo estivesse revivendo a reação de seu pai. Será que Lucius já havia contado a ela? O que Narcissa diria? Ela também o desprezaria por sua opção sexual?

Draco engoliu em seco diante da perspectiva, sentindo um frio nas entranhas como se estivesse despencando de uma altura absurda sem nada em que se segurar; a pele de suas mãos começou a ser coberta por uma fina camada de suor frio. Sentiu medo. Um medo terrível de ser rejeitado pela mãe. Não sabia se suportaria mais esse golpe. Seu nervosismo era tamanho que ele sentiu o estômago revirar.

Narcissa era uma mulher elegante, nobre, orgulhosa de suas origens, que apreciava artes e uma vida sossegada, coberta de jóias caras e convites para os maiores eventos sociais. Vivia de aparências, sim, mas ao contrário de Lucius, deixava sua máscara somente para as ocasiões sociais. Dentro de casa ela era esposa e mãe dedicada, apesar de nem seu marido nem seu filho darem sinal de se importarem com suas preocupações de manter o relacionamento familiar. Então todos os esforços de Narcissa eram voltados para administrar a mansão, desde os jardins até os cômodos menos utilizados.

Naquele momento, Draco se pegou repassando mentalmente todas as vezes em que sua mãe tentara estabelecer um diálogo com ele e ele a desprezara. Nem por isso Narcissa deixara de persistir, de deixar bem claro que ela ainda era sua mãe, que ainda o considerava seu filho e que sempre estaria lá se ele precisasse conversar. A possibilidade de que tudo isso mudasse foi um choque ainda maior para o loiro. O que faria se encontrasse o mesmo olhar de desprezo no rosto de sua mãe? Ainda ia insistir em permanecer na mansão, mesmo sabendo que ninguém mais o consideraria da família?

No silêncio que se estabeleceu, Draco percebeu as vozes exaltadas que escapavam da porta entreaberta mais adiante no corredor. Vinham da sala de estar, mas estavam muito abafadas para que Draco pudesse identificá-las, além do que o loiro tinha a impressão que as marteladas de seu coração eram tão barulhentas que dificultavam ainda mais sua audição.

- Winky, eu não preciso de nada, obrigado - disse à meia voz, sem se virar para encará-la. - Você já pode se retirar, se quiser.

- Sim, senhor. Se precisar de algo, é só chamar, senhor.

Draco ouviu os toques abafados do sapato da mulher contra o carpete se afastarem e só então se aproximou, silenciosamente, da grossa porta de madeira. Os sons ainda saiam abafados, o que levou Draco a espiar pela fresta entreaberta.

O coração de Draco disparou pela súbita descarga de adrenalina em seu sangue ao ver dois olhos cinza encarando-o de volta, ameaçadores. Demorou alguns segundos para sua mente assimilar que a imagem que o encarava era, na verdade, o retrato majestoso de seu pai numa das paredes.

Draco fechou os olhos e respirou fundo antes de abri-los novamente, aliviado. Nunca a pintura de seu pai lhe parecera tão austera quanto naquele momento. Seus olhos pareciam conter as acusações que ele podia ouvir claramente de onde estava:

- Eu não quis um filho para jogar meu nome na lama, Narcissa - veio à voz cortante de Lucius, mais elevada que o normal. Pela fresta, Draco só podia ver a sobra do homem, andando de um lado para o outro como um tigre enjaulado.

- Mas, Lucius, acalme-se! - pediu Narcissa, com um tom de desespero na voz. - Você deve ter se enganado, querido... talvez...

- Eu queria estar enganado, Narcissa, mas sei o que vi e o que ouvi. Se eu tinha alguma dúvida, Draco fez questão de deixar bem claro. Ele disse que não tem vergonha daquele... daquele bastardo.

Houve uma pausa em que Draco esperou que sua mãe argumentasse novamente, mas o silêncio perdurou dolorosamente, fazendo os cantos de seus olhos arderem, e só foi quebrado por Lucius.

- Eu nunca me senti tão envergonhado na minha vida. Eu já aceitei muitas afrontas de Draco, mas essa eu não vou admitir. Já o proibi de entrar nessa casa e agora estou proibindo que você o deixe entrar, ouviu bem?

Draco deu um passo para trás inconscientemente. Seu coração parecia estar na garganta. Toda aquela resolução que ele tinha mostrado a Harry, o desafio que fizera sobre não sair da mansão de maneira alguma, tudo tinha desaparecido, só deixando lugar para o desespero cada vez mais crescente.

- Lucius! Ele é seu filho! - a voz trêmula de sua mãe penetrou em meio a esses pensamentos como alguma coisa irreal, e Draco quase acreditou que tinha imaginado aquelas palavras, não fosse pela réplica gelada de seu pai:

- Não é mais. Não vou aceitar um filho bicha, Narcissa.

As palavras atingiram Draco como uma apunhalada e ele deu mais um passo para trás, sua boca se abrindo em espanto, conforme os olhos do retrato de Lucius pareciam escurecer com a acusação severa.

- Não diga uma coisa dessas! - Narcissa interveio, escandalizada.

- Por quê? - Lucius retrucou, ameaçador, sua sombra finalmente parando e Draco só podia imaginar o olhar que ele lançava à sua mãe. - Dói ouvir, não dói? Mas é o que ele é. Um bichinh...

- CALE-SE!

Draco se assustou. Nunca na vida tinha ouvido Narcissa usar um tom de voz mais alto com seu pai, muito menos tais palavras, e teve ainda mais medo da reação de seu pai. Porém agora não temia somente por si mesmo, mas também por sua mãe.

- Você não ouse... - Lucius começou com a voz baixa e carregada de ameaça, porém Narcissa cortou-o novamente.

- Eu disse CALE-SE! Não vou admitir que você fale assim de SEU FILHO! Você não tem que aceitá-lo, ele é seu filho e sempre vai ser, não importa o que ele seja, a maneira que aja ou o que ele pensa. Não importa o que VOCÊ pense dele, isso não muda o fato de que ele tem o seu sangue correndo nas veias e carrega o seu sobrenome.

- Ele vai arruinar o nome da minha família! - Lucius levantou a voz, finalmente. - Ele vai arruinar todo o prestígio que eu lutei pra conseguir durante toda a minha vida! O nome Malfoy já esteve na lama e EU o reergui. Consegui tudo o que um dia seria dele e é assim que ele me agradece?

- Em primeiro lugar, foi você quem jogou o nome dos Malfoy na lama - Narcissa agora adotava a mesma voz ameaçadora de Lucius.

- Eu não admito que você fale assim.

- Dói ouvir, não dói? - a voz de Narcissa soou tão sarcástica quanto possível. - Mas foi o que você fez quando se juntou a Riddle.

- Você apoiou minha decisão naquela época! - defendeu-se Lucius.

- Não, Lucius. Você nunca pediu o meu apoio. Eu apoiei o meu marido, porque foi para isso que eu fui criada. Para estar a seu lado quando você percebesse o quão estúpidas foram as suas atitudes e para enfrentar as conseqüências junto a você. E fiz isso pela minha família, agora é a sua vez de salvar a nossa família. Você não quer um escândalo, quer? Então não mande o seu filho para fora de casa. Isso sim seria arruinar o nome da sua família, porque as pessoas não vão achar que Draco deixou de seu um Malfoy só porque você o expulsou de casa. Você não vê isso? Ele vai carregar o seu sobrenome para o resto da vida! As pessoas vão apontar para ele na rua como um Malfoy, sempre! É isso o que você quer?

- E se eu permitir que ele fique, as pessoas vão apontar para mim também, Narcissa - disse Lucius, sarcástico novamente.

Ainda de olhos arregalados, perdido com as rápidas alterações de ânimo, Draco voltou a se aproximar da porta, agarrando-se inconscientemente no batente. O volume das vozes tinham voltado a abaixar e ele quase perdeu a resposta de sua mãe:

- Lucius - Narcissa adotou um tom calmo e racional. - Eu entendo sua preocupação. Confesso que pra mim foi um choque também. Não pelo fato de nosso filho gostar de garotos, mas pelo que ele ainda pode enfrentar por essa condição. Não vai ser nada fácil pra ele ter que enfrentar toda uma sociedade sozinho! É agora que ele precisa do nosso apoio, querido. Ninguém precisa saber sobre a sexualidade de Draco. Se nós soubermos orientá-lo...

- Orientá-lo? - a voz de Lucius tornou-se perigosa novamente. - Como, exatamente? Vamos esperar a hora do jantar, nos reunirmos à mesa e dizer: meu filho, tenha cuidado quando for dar uns amassos no seu namoradinho, viu? Certifique-se de que vocês não vão ser pegos em uma situação comprometedora - houve um barulho que indicava que Lucius tinha finalmente se sentado em uma das poltronas. - Não vai adiantar, sabe por quê? Porque eles já foram pegos. Por mim e por Severus, se agarrando no meio do vestiário da faculdade. Poderia ter sido qualquer um a vê-los! Eu não vou suportar isso. Não concordo com o que ele escolheu pra vida dele nem vou admitir que ele traga garotos para casa, quanto menos Potter!

Houve um ruído de vestes em movimento e pelas sombras Draco pôde ver que Narcissa agora se sentava junto ao marido. Logo a voz de Narcissa tornou a soar, mais aveludada e compreensiva, da maneira que ela costumava usar para falar com Draco.

- Querido, eu entendo que você não concorde com isso, mas a escolha não é sua. Quem sabe ele não está fazendo isso só pra experimentar ou mesmo pra te provocar.

Lucius estalou a língua e respirou profundamente.

- Ele consegue me tirar do sério, esse garoto, Narcissa.

- Sim, ele me lembra muito uma pessoa teimosa que fazia de tudo para contrariar o próprio pai - Narcissa ronronou. - Mas ele logo se cansa disso, querido. Você não pode se deixar atingir tanto pelo que ele faz. Muito menos agora. Você já tem tanto o que se preocupar com esse julgamento, não perca tempo se estressando dessa maneira.

Julgamento? Draco sentiu seu estômago se revirar. Outro julgamento? Mas já fazia tanto tempo que não acontecia nenhum... Draco se aproximou ainda mais, os nós de seus dedos brancos, tamanha a força com que ele se agarrava no batente da porta. Sua mãe logo continuou, mantendo a voz mansa e delicada.

- Você não precisa de outro escândalo para piorar ainda mais sua situação diante dos tribunais, querido. Eu vou conversar com Draco com calma, ele vai entender os seus motivos e vai ter mais cuidado... - nesse ponto Lucius resmungou algo, mas Narcissa não deu atenção. - Apenas não se preocupe com isso agora, está bem? Preocupe-se somente com o seu julgamento, eu cuido de Draco enquanto isso.

Houve mais alguns ruídos que indicavam movimento e um barulho característico de beijo. De repente, Draco se achou deslocado, intruso, e apressou-se a se afastar sem fazer nenhum ruído. Lutou contra o fluxo crescente de pensamentos desorganizados que se embolavam em sua cabeça, imagens que sua própria mente criara para aquela cena que acabara de ouvir, o olhar acusador de seu pai o encarando do retrato, o adjetivo pejorativo que Lucius havia empregado para descrever sua sexualidade...

Draco fechou a porta de seu quarto atrás de si e apoiou-se contra ela, só então se lembrando de respirar propriamente. Suas mãos e pernas estavam trêmulas conforme o loiro deu alguns passos no escuro e se jogou estirado na cama sobre seu estômago, escondendo o rosto entre os braços cruzados. Nunca tinha presenciado uma discussão de seus pais e pensou que continuaria sem presenciar nenhuma, não fosse o acaso.

Sempre julgara que a autoridade de seu pai era absoluta e inquestionável dentro de sua própria casa, o que lhe trouxera medo até a adolescência e revolta depois de certa idade. Por isso chegava a ser surpreendente a realização de que a maior parte do que ele assistia do relacionamento de seus pais fazia parte de uma encenação. Toda a pose subordinada que ele se acostumara a ter de sua mãe tinha sido confrontada com tamanha manifestação de poder e manipulação que ela usara na discussão de momentos atrás.

E ainda havia o julgamento que sua mãe comentara, do qual Draco não havia tomado conhecimento ainda...

Draco ouviu batidas suaves à porta, mas não se mexeu. Já sabia quem era, já sabia o que sua mãe queria lhe dizer e não estava nem um pouco interessado em ter essa conversa com ela. Novamente recriminou-se por não querer falar com sua mãe, mas não podia evitar.

Momentos depois, Draco ouviu a porta se abrindo com cuidado e tornando a se fechar. A luz do quarto foi acesa e a claridade fez-se perceber mesmo por detrás de suas pálpebras cerradas. Os passos suaves sobre o carpete alertaram-no para o fato de que alguém se aproximava de sua cama, antes de o colchão afundar ao lado esquerdo de seu corpo, indicando que ela havia se sentado e o observava atentamente. Draco permaneceu calado, de olhos fechados, até que Narcissa finalmente falou:

- Era ele que esteve aqui no domingo passado, não era? - perguntou ela com a voz suave e deu um leve suspiro, como se realmente não esperasse nenhuma resposta. - Pansy tinha me alertado para o fato de que você a tinha trocado por uma garota misteriosa de olhos verdes e que disse ter se apaixonado por ela. Eu achei que você tinha inventado isso só pra ela desistir de você - Narcissa fez uma pausa antes de continuar, sem nunca alterar o tom de voz. - Quando você me disse que estava com uma garota, eu pensei por um momento que você tivesse trazido uma qualquer para dentro de casa e isso não me deixou nada tranqüila. Achei melhor não comentar nada com seu pai, porque ele com certeza chegaria à mesma conclusão. Mas então, quando eu questionei Winky a respeito de sua companhia, notei algo muito interessante. Ela não só mudava de assunto rapidamente, como também empalidecia visivelmente. É claro que você já a tinha instruído para que não me contasse nada, mas a questão era: por que isso? O que você estava tentando esconder de mim? Quem? Certamente era alguém que eu ou seu pai desaprovaríamos, e as palavras de Pansy me voltaram à mente. Então eu comecei a cogitar a possibilidade de você estar mesmo apaixonado. Isso me deixou feliz por você, querido...

Narcissa deu uma risada fraca, quase sem emoção.

- Confesso que você me surpreendeu. Nunca me passou pela cabeça que fosse outro garoto. Muito menos Harry Potter! Mas eu acho que posso entender sua atitude.

Depois de outra pausa, Draco quase se assustou ao sentir uma carícia delicada em seus cabelos. Mas ainda assim, não se mexeu. Queria ouvir mais sobre o que sua mãe tinha a dizer, mas não queria ter que perguntar. Ficou agradecido quando Narcissa continuou com seu monólogo:

- Sabe, Draco, por mais que eu saiba que você detesta ouvir isso - como todos os filhos na sua idade - você se parece muito com seu pai - Draco conteve a vontade de torcer o nariz, já se arrependendo de ter desejado que ela continuasse a falar. - Não apenas fisicamente, mas também na sua atitude. Lembro-me bem de quando conheci seu pai. Ele sempre teve uma pose orgulhosa, fazia-se digno de um sobrenome nobre e estava prestes a noivar com uma moça de família ainda mais rica que a dele. Acontece que a moça não era muito submissa, era arredia e nem tinha os traços perfeitos que seu sobrenome deveria garantir. Quando ele colocou os olhos em mim, foi como se uma resolução se acendesse dentro dele. Lucius sempre foi acostumado a ter tudo o que quis, e estava determinado a me conseguir também. Pesquisou sobre minhas origens, e constatou que os Black não eram os mais requisitados em eventos sociais, e nossas posses não se comparavam com as de sua pretendente, na época, mas meu pai tinha muita influência em assuntos que o interessavam e eu, definitivamente, era de uma linhagem tão nobre quanto a dele.

- Lucius me quis e ele me conseguiu. Brigou com seus pais, que ainda preferiam a outra moça, e casou-se comigo, mudando de cidade com sua parte da herança, dizendo que não havia espaço na mesma cidade para dois senhores Malfoy. Eu sei que ele não demonstra isso do modo comum, mas essa, para mim, foi a melhor prova de amor que eu poderia ter sonhado. Não sou idiota de pensar que ele nunca teve outras mulheres depois que se casou comigo, mas sei que ele nunca quis outra como esposa - nesse ponto, Draco percebeu um sorriso quase petulante na voz de Narcissa. - Você pode pensar que eu me submeto demais a seu pai, mas ele se submete mais a mim do que imagina. Eu apenas faço parecer que ele está fazendo as próprias vontades quando faz as minhas. Eu diria isso à sua futura esposa, para aconselhá-la, se não estivesse incerta agora sobre se isso vai realmente ser necessário...

Narcissa fez outra pausa, aparentemente tentando não parecer contrariada com essa última constatação. Draco voltara a ficar curioso. Ele nunca tinha se interessado em saber sobre como seus pais se conheceram, afinal não era como se ele acreditasse que houvesse algo realmente a ser contado.

- Uma das minhas vontades que Lucius sempre atendeu - Narcissa continuou, interrompendo seus pensamentos - era a de fazer todas as suas vontades, Draco. É claro que seu pai sempre pedia algo em troca. "Seja o melhor da sua turma e eu te darei a melhor bicicleta", "Vença o jogo e eu te compro um home theater", "Forme-se do colégio com boas notas e eu te dou o melhor carro"... - ela soltou o ar pelo nariz, ainda acariciando seus cabelos. - Você não era o melhor da sua turma, seu time não era o campeão e não é segredo pra ninguém que você quase não conseguiu atingir a média em História, mas ainda assim, sempre ganhou o melhor que o dinheiro pode comprar. Sei que seu pai cobra muito de você, Draco, mas é porque ele acredita que essa é a obrigação dele como pai, assim como seu avô sempre cobrou muito dele.

Narcissa aguardou mais uma vez que Draco se pronunciasse, mas este somente coçou o próprio nariz, falhando em conseguir ficar imóvel. Bem, de qualquer forma, não era como se sua mãe acreditasse que ele não estava ouvindo. O loiro ouviu outro suspiro resignado.

- Dessa vez não vai ser diferente. Eu vou convencê-lo a fazer a sua vontade mais uma vez, mesmo que contrariado. Não vou permitir que você se afaste de nós somente para desafiá-lo, assim como Lucius fez um dia com seu avô. Se o que você quer é Potter, então você o terá, assim como teve sua bicicleta, seu home theater e seu carro. Veja bem, eu só quero deixar claro que isso não significa que eu ache que Potter é o melhor que você possa ter. Sinceramente, eu ainda espero que você se canse logo de sua nova aquisição. Como mãe, eu ainda espero que meu único filho me dê netos, mas não vou discutir isso com você agora.

Draco quase teve pena da mãe nesse momento. Nunca tinha pensado por esse ângulo. É claro que já tinha pensado em ter uma esposa e herdeiros, mas como algo longe demais para se preocupar - e é obvio que isso não tinha passado por sua cabeça ultimamente, já que Harry não lembrava em nada uma esposa e definitivamente não poderia lhe dar herdeiros. Mas ainda assim, não conseguia se sentir muito pesaroso por isso. Talvez com o tempo ele se lamentasse por sua escolha... talvez com o tempo ele se cansasse de Harry...

Draco não pôde evitar se sentir inquieto. Oh, não, será que era assim que Narcissa sempre conseguia convencer seu pai? Ele próprio estava quase se deixando convencer! Draco podia não entender muito a respeito do que sentia por Harry, mas sabia que não era somente provocação, nem suas vontades de garoto mimado que falavam mais alto. Era única e puramente Harry.

- Draco, olhe para mim - novamente Narcissa interrompeu sua linha de pensamentos, de uma maneira exigente e calma ao mesmo tempo, fazendo com que Draco obedecesse sem sequer pensar no que estava fazendo.

Ele abriu os olhos e virou-se de lado, para encarar melhor os olhos claros de sua mãe, o perfil impecável, as feições serenas e elegantes, as mechas loiras cuidadosamente penteadas em uma trança frouxa até a base da coluna. Draco podia entender o fato de seu pai ter desafiado seu avô para se casar com Narcissa Black depois de colocar os olhos sobre ela uma única vez. Não era muito diferente de sua obsessão por um garoto de onze anos que ele vira pela primeira vez em uma loja de roupas, comprando o uniforme para a mesma escola que ele. Talvez ele estivesse até mesmo disposto a deixar sua faculdade, a empresa, até seu sobrenome, e se mudar - caso seu pai realmente o expulsasse de casa e Harry aceitasse sair pelo mundo com ele.

Narcissa fixou os olhos em sua bochecha direita, seu olhar se tornando preocupado e carinhoso conforme ela tocava o machucado suavemente.

- Eu sinto muito por isso, meu bem - ela disse, pesarosa. - Não estou tentando dar razão ao comportamento de seu pai, nunca deixaria que ele encostasse em você, mas espero que você compreenda. Ele está passando por uma fase difícil no trabalho...

- Mãe - Draco finalmente interrompeu-a, sentando-se ao lado da mãe e limpando a garganta. - O pai vai ser julgado novamente?

Narcissa fechou os olhos com força e baixou a cabeça levemente, encarando as próprias mãos. Ela tentou não deixar transparecer seu nervosismo em sua voz, mas não obteve êxito completo.

- Sim, querido. Ele recebeu um comunicado judicial ontem. Haverá outro julgamento dentro de um mês.

Foi a vez de Draco baixar os olhos. Por mais que ele tivesse seus desentendimentos com Lucius e até tivesse chegado a ameaçar denunciar suas falcatruas, o loiro sabia que não teria coragem de fazê-lo. Nem sequer desejava ter seu pai na cadeia. Lucius era um homem orgulhoso e mesmo a menor punição que sua posição social poderia garantir seria uma humilhação sem tamanho, além de trazer sofrimento demais à sua mãe.

- Mas vai dar tudo certo - Narcissa disse, firmemente - Nós já passamos por isso muitas vezes para nos deixarmos abalar, certo? - ela deu um sorriso encorajador, antes de voltar a ficar séria. - Bem, antes de dar o assunto por encerrado, eu gostaria de te pedir uma coisa, Draco.

Draco limitou-se a acenar positivamente, tentando não parecer contrariado com a perspectiva.

- Meu bem, eu espero que você saiba a gravidade da situação em que está se metendo ao se relacionar com outro garoto, independente de quem se trata. Não vou tentar te impedir, nem seu pai vai, eu garanto. Mas eu preciso que você me prometa que vai ser cuidadoso, que vai manter isso somente entre vocês dois e o mínimo de pessoas que precisam saber. E não digo isso somente pensando no escândalo com o nome da nossa família. Sei que você conquistou muito respeito na sua vida profissional e sei também que você pode crescer ainda mais. Mas não é novidade para ninguém que pessoas com relacionamentos não-convencionais acabam perdendo muito respeito perante a sociedade e eu não quero que isso aconteça com o meu filho. Não quero que você jogue para o alto tudo o que já conquistou por um garoto que pode te largar a qualquer momento sem se importar com as conseqüências - Draco abriu a boca para protestar, mas Narcissa não permitiu, elevando a voz. - Eu não tenho vergonha de você, não estou te impedindo, nem estou te iludindo a respeito de que seu pai um dia aprovará seu relacionamento com Potter, mas estou tentando fazer o que está a meu alcance no que se trata de te proteger da nossa sociedade. Quero que você me prometa que vai preservar sua imagem de herdeiro dos negócios Malfoy heterossexual, solteiro e cobiçado. Apenas me prometa isso, querido.

Draco pensou novamente em protestar, mas os argumentos morreram em sua garganta. Lembrou-se de alguns escândalos conhecidos, inclusive alguns que ele próprio tinha condenado; lembrou-se do acontecimento recente na faculdade, das duas garotas do time feminino de vôlei; lembrou-se do desespero de Harry quando Draco descobriu sobre Lupin e Black... "Remus poderia ser expulso! E eu realmente acho que ele não merece, é um ótimo professor, você não acha? É o que ele gosta de fazer! É o que ele faz há tanto tempo... Você... você entende, Draco?"

Sim, ele entendia o que Harry queria dizer. Entendia também a preocupação de sua mãe, mas será que ele conseguiria manter seu relacionamento escondido, quando o que mais queria era gritar para o mundo todo que estava namorando Harry? Bem... ele ainda não estava namorando Harry, mas isso seria resolvido em breve...

Então Draco pensou em como Lupin e Black conseguiam curtir um ao outro mesmo sem anunciarem isso para o mundo, tendo o apoio dos amigos, sendo - aos olhos de todos os outros - não mais do que amigos de infância solteiros e felizes. Talvez não fosse tão difícil assim... Talvez fosse até mais emocionante, trocar beijos escondidos, disfarçar toques, ter que se comportar na frente dos outros e rir da cara de todos quando estivessem sozinhos e seguros. Então Harry seria só seu.

Respirou fundo, voltando a focalizar os olhos na expressão preocupada de sua mãe e assentindo.

- Eu prometo que vou ser discreto, mãe. No que depender de mim, Harry e eu seremos vistos como colegas de faculdade e de serviço. Apenas... apenas bons amigos.

- Ótimo - Narcissa sorriu, aliviada, trazendo-o para um abraço que Draco retribuiu hesitante, achando-se desajeitado. Ou talvez ele não estivesse muito acostumado a ser abraçado. Era engraçado como ele se sentia mais à vontade sendo abraçado por Natalie do que pela própria mãe. - Parabéns pelo jogo, querido - Narcissa deu um beijo em sua testa antes de levantar-se, sorrindo. - Agora vou deixar você descansar. Boa noite.

- Boa noite, mãe.

Draco observou-a deixar o quarto e percebeu que essa era a conversa mais longa que tivera com sua mãe desde seus treze anos, quando ela insistira em uma conversa constrangedora para qualquer adolescente.

Suspirou, aliviado por já ter acabado, e começou a se preparar para dormir. Será que Harry já tinha voltado para casa? Por um instante pensou em ligar para ele para tranqüilizá-lo, mas então desistiu ao pensar na possibilidade de ele já ter voltado e estar tentando entrar em casa sem chamar atenção de Black e Lupin.

Sorriu.

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Depois de tomar um bom banho, Remus saiu à caça de uma escova de cabelo pela casa, já que a porta de Harry estava fechada e Remus não queria acordá-lo. Encontrou-a no batente da janela, quando abria esta para deixar entrar a luz solar. Espantou-se ao ver que o sol já estava alto e checou o relógio caído sobre a cômoda de Sirius. Dez e meia da manhã de sábado. E o mais engraçado era que Sirius tinha passado a acordar mais cedo do que ele...

- É... acho que estou ficando velho... - Remus murmurou enquanto penteava os cabelos, tentando ignorar a bagunça do quarto.

Assim que terminou, Remus foi em direção à sala e parou no batente da porta, observando Sirius. Este assistia desenhos animados, esparramado no sofá maior com o volume baixo para não acordá-lo. Snuffles, que estava aninhado no tapete, aparentemente também assistindo desenhos, levantou a cabeça para fitá-lo e abanou o rabo. Isso fez com que Sirius percebesse sua presença e desse um sorriso radiante.

- Bom dia, meu amor - Sirius cumprimentou, se sentando.

Remus sentiu que ia corar diante daquela demonstração de afeto e resmungou um "Bom dia" de volta, indo se sentar ao lado do namorado e recebendo um beijo nos lábios.

- Quer tomar café? - Sirius perguntou, extinguindo a distância entre eles e passando os dedos por seus cabelos molhados.

- Já está quase na hora do almoço, Padfoot. Por que você não me acordou?

- Ora, você estava dormindo tão gostoso que eu não tive coragem. Além disso, quero que você se sinta à vontade na sua própria casa. Só porque eu acordei cedo não significa que você também tenha que acordar. O único problema é que o café já esfriou há essa hora. Ou talvez você prefira fazer o café você mesmo... - Sirius sugeriu, quase inocentemente.

Remus estudou a expressão do namorado.

- Eu já entendi. Agora sei porque você me chamou pra morar aqui. Você quer um cozinheiro.

- Claro que não, Moony! - Sirius fez-se de indignado. - Eu quero que nós sejamos um casal de verdade! E pra isso temos que morar sob o mesmo teto, dividir a mesma cama... - ele segurou um sorriso safado. - Mas... bom, você sabe que a única coisa que eu sei fazer é café, e ainda assim não é dos melhores.

- Sim, eu sei que é a única coisa que você sabe fazer e já está tentando passar essa tarefa para mim também - Remus levantou-se, fitando o namorado ainda sentado no sofá e ainda fazendo cara de inocente. - E vá arrumar o quarto. Agora.

- Mas Moony...

- Nada de "mas" - Remus cortou-o, mantendo o tom baixo, mas imperativo. - Já pode ir se acostumando a deixá-lo arrumado se quiser que eu me mude definitivamente para cá. Eu não vou ficar arrumando sua bagunça.

Sirius deixou o queixo pender, sem ter o que argumentar. Em seguida bufou, fez uma careta e se levantou preguiçosamente, resmungando.

Remus sorriu internamente conforme o namorado ia arrastando os pés pelo corredor. Então se sentou no sofá com um suspiro. Snuffles ainda o encarava, com o rabo abanando.

- Pois é, Nuff. Agora, ou ele desiste de vez dessa idéia de morarmos juntos, ou ele toma jeito. Qual alternativa você acha mais provável?

Snuffles levantou-se e trotou alegremente até ele, apoiando a cabeça em seu joelho como se, além de pedir carinho, estivesse tentando impedi-lo de se levantar dali. Remus sorriu e estendeu a mão para fazer carinho no cachorro.

- É, eu também acho que, agora que aceitei vir para cá, não volto mais para aquele apartamento. Mesmo se Sirius não tomar jeito. Já me privei de muita coisa nessa vida, sabe, Nuff? Não posso me privar de morar com as pessoas que eu mais amo.

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Harry não tinha acordado tão tarde, mas ficou no quarto ouvindo música por algum tempo, tentando se distrair. Estava preocupado por Draco não ter dado notícias. Mas resistiu ao impulso de ligar para ele. Draco devia estar dormindo ainda, tudo estaria muito bem, a conversa com Lucius não devia ter passado disso: uma conversa. No máximo uma discussão. Não havia motivo para se preocupar. Se tivesse acontecido alguma coisa ruim, certamente Draco já o teria avisado.

Além disso, eles já tinham combinado de se encontrar àquela tarde. Harry sentiu um friozinho na barriga de ansiedade ao pensar no que Draco tinha insinuado sobre esse encontro.

Uma surpresa? Que tipo de surpresa seria essa?

Bem, de qualquer modo, ficar deitado de nada ajudaria sua ansiedade. Ele precisava se distrair. Saiu do quarto só quando ouviu o barulho das panelas na cozinha e foi ajudar Remus a preparar o almoço enquanto Sirius fingia que fazia o mesmo. Depois de almoçar e ajudar Remus com a louça (Sirius alegou indigestão e foi para o sofá da sala com Snuffles) Harry foi tomar um banho demorado e fez um muxoxo para o relógio quando viu que ainda eram duas e cinco da tarde e ele já estava pronto para sair. Teria que ficar se distraindo e controlando a ansiedade por mais quarenta minutos.

Estava agitado demais para ouvir música, inquieto demais pra ficar no computador. Se ficasse no quarto, ficaria andando de um lado para o outro. Ouviu Snuffles latir da cozinha e saiu para o corredor. Na sala, Sirius e Remus... discutiam, pra variar. As vozes deles se misturavam à televisão ligada e aos latidos insistentes de Snuffles - que agora arranhava a porta também. Tudo isso contribuiu pra deixar Harry ainda mais nervoso. Parou antes de entrar na sala, cogitando voltar sem ser visto, mas acabou curioso sobre o assunto da discussão. Os dois homens estavam de pé, um de frente para o outro, o que não era bom sinal.

- Sirius, você ainda não esqueceu isso?

- Claro que não! Você ainda não me deu uma resposta convincente. Aliás, você não me deu resposta nenhuma! O que você ficou fazendo, heim? O que te deixou tão ocupado que você nem pôde vir me ver?

Remus fez um gesto de incredulidade e Harry teve que dar razão a ele. Sirius ainda estava insistindo no motivo de Remus ter recusado vir vê-lo na quarta-feira sem se justificar!

- Sirius, por favor, agora não - pediu o professor, com a voz cansada.

- E por que não agora? Pra dar tempo de você pensar numa resposta? - teimou Sirius, irônico.

- Deixa de ser infantil...

- Não fuja do assunto. Dessa vez você vai ter que responder.

- O que você quer que eu responda? - Remus começava a demonstrar sinais de perder a calma também. - Quer que eu diga que estava com outra pessoa? É isso que você espera que eu diga?

- Eu quero a verdade! - berrou Sirius.

Remus já se preparava para berrar também em resposta, mas ele desistiu quando finalmente notou Harry, parado na porta. Os latidos de Snuffles e o barulho da tv foram os únicos ruídos durante alguns segundos que pareceram eternos enquanto Remus passava as mãos pelos cabelos, numa tentativa de recuperar a calma.

- Eu não posso dizer - respondeu ele, por fim. - Prometi que não diria. Pelo menos por enquanto - Sirius fez menção de continuar a discussão, mas Remus o surpreendeu, abraçando-o com força. - Por favor, Padfoot. Prometo que te conto ainda hoje, ok? Será que eu mereço esse voto de confiança?

Remus beijou a nuca do namorado e os ombros de Sirius caíram quando ele se rendeu ao abraço, apesar de ainda estar um pouco carrancudo. A cena só não foi mais romântica por causa dos latidos de Snuffles, que se intensificaram ainda mais.

- O que há com esse cachorro? - impacientou-se Sirius, desvencilhando-se de Remus, aparentemente preocupado em achar outro foco para seu mau-humor. - Snuffles! Cala a boca!

- Eu vou ver o que é - Harry adiantou-se, aliviado por poder deixar os dois a sós novamente.

Snuffles resmungava e latia para a porta, que estava trancada. Harry espiou pela janela da cozinha e viu a traseira de um carro azul marinho parado na casa ao lado, recém desocupada. Ouviu vozes excitadas de crianças e mais latidos do lado de fora, apesar da vista limitada da janela lateral impedi-lo de ver algo além do carro estacionado.

- Hey, acho que já tem gente querendo comprar a casa do vizinho - Harry falou alto, de modo que Sirius e Remus pudessem ouvi-lo. - Calma, Nuff - ele acariciou o pêlo do cão, que choramingou.

Ainda espiando pela janela, Harry assistiu quando um caminhão de mudanças chegou, parando atrás do carro.

- Na verdade eles já compraram - informou Sirius, parecendo mais calmo. Ele e Remus foram até a janela também.

- Você os conhece? - perguntou Harry.

- Conheci a mulher, Jane. Ela veio conhecer os vizinhos enquanto o marido fechava o negócio com os antigos donos da casa. É bastante simpática. Ela é advogada e o marido é médico. Ele foi transferido para o hospital da cidade. Parece que vieram de longe, não me lembro de onde. Têm três filhos.

- Quanta informação, heim? - Remus lançou um olhar de esguelha para Sirius. - Parece que vocês conversaram bastante, não?

Sirius deu um sorrisinho de lado e umedeceu os lábios, jogando os cabelos para trás. Harry conhecia o suficiente o padrinho para saber que ele tinha ficado satisfeito com a reação de Remus.

- Bem, o que acham de darmos as boas vindas? - sugeriu Sirius, já se encaminhando para a porta e girando a chave. Snuffles balançou o rabo e se posicionou de lado, prestes a sair pela menor brecha. - Snuffles, você fica.

Toda a alegria de Snuffles murchou junto com suas orelhas e ele soltou um ganido agudo e longo.

- Não adianta fazer essa carinha. Espere aqui. Vamos.

Sirius abriu a porta e saiu à frente. Harry e Remus saíram, recebendo um último olhar desconsolado de Snuffles antes de fecharem a porta. Enquanto caminhavam atrás de Sirius, Harry cochichou para que somente Remus ouvisse.

- O que foi aquilo, Moony? Você com ciúmes?

Remus deu um sorrisinho de lado e enfiou as mãos nos bolsos.

- Na verdade não. Mas, sabe Harry, às vezes a gente tem que fazer um agradinho - ele deu uma piscadela para Harry.

E realmente tinha funcionado, pois Sirius parecia cheio de si, andando pomposo mais à frente de encontro ao carro estacionado, onde uma mulher de cabelos castanhos curtos e cheios arrumava uma das marias-chiquinhas de uma garotinha de cabelos compridos da mesma cor. Mais à frente, um homem baixo, os cabelos pretos já quase inteiramente grisalhos, conversava com o motorista do caminhão, que acabara de estacionar. No colo dele, um garotinho esticava os bracinhos para tentar alcançar o que parecia ser uma folha presa em seus cabelos.

- Jane? - chamou Sirius, enquanto se aproximava do carro e as duas se viraram para ver de quem se tratava.

Harry e Remus ficaram mais atrás, observando e aguardando o momento de serem apresentados.

- Oh, olá Sirius! - Jane cumprimentou, jovial, indo de encontro a ele com a garotinha logo atrás. Eles deram um aperto de mão firme. - Que bom vê-lo novamente!

- Eu digo o mesmo! Sejam bem vindos!

- Obrigada.

- E quem é essa garotinha? - ele perguntou.

A menina estava atrás das pernas da mãe, espiando com a cabecinha inclinada. Harry já tinha reparado nos olhos castanhos grandes e curiosos dela passando de Sirius para Remus e para ele, então de volta para Sirius.

- Essa é Mirella. Mi, seja educada, venha cumprimentar nosso vizinho.

Imediatamente a garota saiu de trás da mãe e posicionou-se em frente à Sirius com desenvoltura, estendendo a mãozinha e falando numa vozinha infantil:

- Olá, muito prazer, eu sou Mirella Gareth.

Sirius pareceu encantado com a garotinha e abaixou-se para ficar da mesma altura que ela, aceitando seu cumprimento de mão.

- Muito prazer, Srta. Gareth - ele disse, no mesmo tom polido que a garotinha tinha usado. - Será que eu poderia ter a honra de te chamar de Mi?

- Pode - a garotinha deu de ombros.

- Eu sou Sirius Black - ele abaixou a voz, aproximando-se mais dela como se fosse contar um segredo, despertando ainda mais a curiosidade de Mirella: - mas você pode me chamar de Padfoot.

A garotinha franziu a testa, intrigada.

- Padfoot?

- Sim, é meu codinome.

- Codinome? - Mirella arregalou os olhinhos castanhos e grandes. - Assim como Superman é o codinome de Clark Kent?

- Isso! - disse Sirius com seriedade e Jane sorriu observando. - Mas é um segredo que eu só conto para meus melhores amigos. Quem sabe um dia eu não te conte a história toda, ok? - ele piscou para a garotinha, que abriu um sorriso entusiasmado, revelando uma covinha em cada bochecha.

- Ok. E quem são seus amigos?

Só então Sirius se lembrou de que não estava sozinho e voltou a se endireitar.

- Oh, me desculpe, mas que indelicadeza a minha. Jane, Mi, esse é Harry Potter, meu afilhado.

Harry sorriu e estendeu a mão para cumprimentá-las, depois foi a vez de Remus.

- E esse é Remus Lupin, professor de Estatística de Harry, amigo, e mais novo vizinho de vocês.

Remus disfarçadamente lançou um olhar reprovador a Sirius, mas este estava sorridente e satisfeito e nem pareceu notar. Ou, pelo menos, fingiu não notar.

- Sério? - encantou-se Jane. - Você também está se mudando para cá?

- Humm, na verdade... bem, talvez nas próximas semanas. Sirius e Harry me chamaram para morar com eles ainda ontem. Eu ainda não tive tempo de me organizar.

- Os três são solteiros, então! Que interessante - disse Jane, sorridente. - Bom, seria um prazer tê-lo como vizinho também, Sr. Lupin.

- Remus, por favor.

- Tudo bem, Remus. Podem me chamar de Jane também. Que Ryan não me ouça, mas detesto Dra. Gareth. Já basta ter que ouvir isso no escritório todos os dias.

Sirius sentiu um puxão em sua calça e olhou para Mirella, que fez sinal para que ele se abaixasse novamente e aproximasse o ouvido dela.

- Eles também têm codinomes? - ela cochichou.

- Sim! - disse Sirius, enfático. - Remus é Moony e Harry é Porcupine, mas não chame ele assim em público, ou ele fica bravo.

- Hey! - Harry protestou, dividido entre o divertimento e o aborrecimento de ser chamado de porco-espinho.

- Viu só? - Sirius continuou seu meio sussurro. - Melhor o chamar de Sonic.

Remus e Jane caíram na gargalhada. Harry teve que se render também, diante do olhar admirado que recebeu de Mirella. Naquele momento, eles ouviram o barulho de algo pesado caindo no gramado e todos se voltaram para o carro, de onde parecia vir o barulho. Diante da porta aberta do carro, o garotinho, que antes estava no colo do pai, agora empregava todo o seu esforço e concentração em tentar levantar uma mala marrom, mas era vencido pelo peso desta.

- Hugh! - Jane foi ao encontro do garotinho, que olhou para a mãe com cara de quem foi flagrado em alguma coisa muito suspeita. - Hugh, deixe isso aí.

- Mamã! Qué azudá, mamã! - Hugh tentou escapar dos braços da mãe, mas ela foi mais rápida e pegou-o no colo. - Qué azudá! Qué azudá!

Hugh lutou bravamente para descer, mas Jane segurou-o com firmeza. No caminhão, o motorista e seu acompanhante já começavam a descarregar os móveis e o médico vinha em direção a eles.

- Não precisa ajudar, papai vai levar a mala lá pra casa, tá? - Jane tentava distrair o menino. - Depois a mamãe dá uma malinha menor pra você levar.

- Papá! - Hugh, de olhos brilhantes e fazendo bico, estendeu os bracinhos para o pai, que vinha chegando.

- Upa-lá-lá! - o Sr. Gareth livrou a mãe de sua carga esperneante. - Que é isso, Hugh? Já está fazendo manha? O que nossos vizinhos vão pensar de você?

Hugh parou de chorar, ao notar os expectadores e abraçou o pescoço do pai escondendo o rosto, subitamente tímido.

- Garotos - Jane chamou a atenção dos três, alegremente. - Este é meu marido, Dr. Gareth.

- Ryan, por favor - pediu o homem, estendendo a mão livre para cumprimentar os três, que se apresentaram também.

Naquele momento, alguma coisa gelada tocou a mão de Mirella e quando ela viu um enorme cachorro preto bem a seu lado, perdeu totalmente a cor.

- Aaaahhh!

A garota soltou um grito agudo e correu para trás das pernas da mãe, que também parecia assustada.

- Snuffles! - gritaram os três ao mesmo tempo e Snuffles abaixou a cabeça, seus olhos claros voltados diretamente para o dono com carinha de inocente.

- Harry, você não trancou a porta? - Sirius repreendeu o afilhado, que coçou a cabeça.

- Hummm eu... esqueci.

Sirius segurou o pêlo de Snuffles, já que ele estava sem coleira.

- Me desculpem. Não se preocupem, ele só tem tamanho. Veja, Mi, ele é mansinho, não precisa ter medo, ok?

Mirella aproximou-se corajosamente do cão e deixou que ele a cheirasse antes de acariciar seu pêlo macio. Snuffles pareceu achar seu cheiro muito interessante. Tentou lamber o rosto da garota, mas esta se esquivou, rindo.

- Não é Naná, papá? - Hugh perguntou, confuso.

- Não, esse não é a Naná, Hugh. Nós também temos um cachorro - esclareceu Jane. - Deve estar com Betty lá dentro. Elizabeth é minha filha mais velha, tem quinze anos. Mirella tem cinco e Hugh tem dois.

Enquanto todos riam da desenvoltura das duas crianças - que passaram a se divertir com Snuffles - Harry tinha um sobressalto ao notar um rapaz vindo de bicicleta. Cabelos loiros quase desbotados, camisa social, calça de marca e o que parecia ser um estojo de violão nas costas. Harry sentiu o coração disparar e uma onda de ansiedade correr por todo o seu corpo. Olhou para o relógio com intenção de conferir se ainda estava funcionando. Eram duas e vinte da tarde, ainda. De repente se achou a criatura mais feia do mundo com sua camiseta preta e calça jeans, diante do garoto que se aproximava sossegadamente até parar ao lado dele.

- Olá! - ele cumprimentou-o diretamente, um leve sorriso nos lábios, sem aparentar contentamento demais, nem indiferença.

Harry teve medo do motivo de ele ter chegado mais cedo. Será que queria cancelar o encontro?

- Está adiantado - não pôde se conter.

- Eu não agüentava mais ficar em casa, resolvi vir te buscar.

Harry sorriu, finalmente. Aliviado. E Draco arqueou uma sobrancelha para cima, divertido.

- Você está bem? - perguntou Harry, sem conseguir conter a preocupação, analisando o machucado ainda muito destacado na palidez natural da face direita do loiro.

- Inteiro - zombou o loiro e acenou com a cabeça para o grupo, que ainda se entretinha com as crianças. - Então, quem são?

- Nossos novos vizinhos.

- Animados, heim? - admirou-se Draco.

- Draco! - Remus notou-o e acenou em cumprimento.

- Outro? - exclamou Jane. - Vai me dizer que ele mora com vocês também?

- Não, ele é amigo do Harry - explicou Sirius. - Hey, Malfoy, venha cá.

Foi a vez de Draco ser apresentado e a reação de Hugh surpreendeu a todos. Imediatamente o garotinho estendeu os braços para que Draco o pegasse. Totalmente sem reação, o loiro olhou para Harry como se perguntasse o que deveria fazer. Harry sorriu e deu de ombros, divertido com a repentina vulnerabilidade na segurança do loiro.

- Deixe que eu segure isso pra você - Remus apontou para o instrumento ainda nas costas de Draco e o loiro passou-lhe o violão, ainda hesitante.

Pegou Hugh nos braços sem saber muito o que fazer, mas o garotinho cuidou de se acomodar e encará-lo timidamente.

- Ele gostou de você - Mirella concluiu, feliz.

- É difícil Hugh se dar bem com estranhos - admirou-se o Dr. Gareth, finalmente podendo descansar mais alguns minutos de sua carga. - Bom, querida, cuide dele um pouco, sim? Vou aproveitar para ajudar os rapazes a arrumarem as coisas lá dentro. Com licença.

Ryan se afastou e Jane sorriu para Draco. Harry não poderia gostar mais da cena. Draco parecia ao mesmo tempo amedrontado e curioso, admirando o garotinho, que não tirava os olhos dele. Hugh estava tão curioso quanto Draco. E quieto.

- Dodói - disse ele, de repente, apontando com a mãozinha gorducha para o machucado na face do loiro.

Draco não teve tempo de reagir, pois a atenção de todos, inclusive Hugh, voltou-se para a entrada da casa vizinha.

- ... esse lugar é um saco. Só um minutinho, Paty. Mãe! - uma adolescente de cabelos castanhos com mechas loiras presos em um coque frouxo acima da cabeça, shorts curtos e blusinha regata mostrando a barriga, saiu de casa segurando um celular. - Mãe, a Naná não dá sossego! Não consigo prend...

A garota já tinha descido os três degraus da porta da sala, mas estacou e arregalou os olhos quando reparou na platéia toda voltada para ela. Seu olhar passou de um rosto ao outro, fixando-se por algum tempo a mais em Draco, com o garotinho ainda no colo, e por fim Harry.

- Hey, Betty, querida, venha conhecer nossos novos vizinhos - chamou Jane.

A mão livre da garota voou para seu cabelo e ela deu um sorriso sem jeito para o moreno, que retribuiu, simpático.

- E-er... oi... - ela disse sem tirar os olhos do garoto. - Mãe, eu já volto - sem esperar pela reação da mãe, virou-se para voltar correndo pelo mesmo lugar de onde viera, o celular novamente no ouvido. - PATY! Paty, você não vai acreditar! Esqueça o que eu disse, isso aqui é o paraíso! Preciso de uma escova urgente, meu cabelo está um lixo... - eles puderam ouvi-la em sua corrida desesperada para dentro da casa.

- Betty! - Jane chamou, severa, mas a garota já estava longe. - Betty, volte aqui! Oh, me desculpem a indelicadeza dela. Não sei o que faço com essa menina...

- Naná! Betty feche a porta, ela vai sair! - eles ouviram a voz do médico de dentro da casa e Snuffles latiu, correndo até a porta da casa do vizinho.

- Snuffles! - Sirius chamou-o, mas o cão não deu atenção.

Da porta entreaberta, alguma coisa grande deslizou para fora correndo.

Uma enorme pastora alemã preta com manchas marrons no peito e no rosto derrapou em frente a Snuffles e soltou um latido rouco.

- Snuffles! Não me faça passar vergonha! - Sirius correu até o cão, segurando seu pêlo com força, mas conforme ele tentava arrastar Snuffles, este resistia e Naná não parecia nem um pouco incomodada com isso.

Pelo contrário, ela parecia interessada no cheiro de Snuffles tanto quanto a recíproca era verdadeira.

- Snuffles - Sirius usou um tom de aviso mais perigoso. - Não faça nada que eu não faria em público...

- Aqui, garota - o Dr. Gareth correu até eles e habilmente prendeu uma corrente na coleira que Naná usava, puxando-a com força para trás. - Vamos, de volta pra dentro. Hoje você não está para brincadeiras com um garotão como esse aí. Quem sabe outro dia, heim?

O que se seguiu foi uma luta tanto da cadela para permanecer quanto de Snuffles para acompanhá-la. Latidos, gritos de Sirius, um tapa e ganidos. Sirius dificilmente batia em Snuffles, por isso o cão pareceu ficar sentido e deixou-se carregar para dentro de casa sem mais protestos.

- Ufa! - Sirius voltou para junto deles, a chave da porta bem segura no bolso. - Pensam que é fácil segurar um cachorro desse tamanho? Que sufoco!

- Eu que o diga... - Jane pareceu aliviada também. - É o primeiro cio de Naná, nós estamos ainda meio assustados com a idéia da nossa garotinha ter crescido.

- Mamãe, o que é cio? - perguntou a esperta Mirella e um silêncio constrangedor caiu sobre eles.

- Ahm... depois eu te explico querida, agora o que acha de ajudarmos o papai com as malas do carro? - sugeriu Jane.

- Eeeee! Azudá! - Hugh bateu palminhas e lutou para descer do colo de Draco, que o colocou no chão rapidamente, aliviado.

- Hey, Moony, o que acha de darmos uma mãozinha, como os bons vizinhos que somos? - perguntou Sirius, enquanto Jane e as duas crianças se afastavam.

- Eu acho que são pelo menos quatro mãos, Padfoot - divertiu-se Remus, devolvendo o estojo do violão a Draco e já arregaçando as mangas da camisa.

- E por que não oito? - Sirius esticou o pescoço para Harry e Draco.

Uma sobrancelha de Draco se arqueou para cima, mas quem falou foi Harry.

- Humm nós estamos de saída, Padfoot.

Foi a vez de Sirius arquear uma sobrancelha enquanto Draco respirava aliviado novamente.

- Vamos, meu bem, deixe os garotos se divertirem, sim?

Remus adiantou-se em direção ao caminhão e Sirius piscou, encantado, seguindo-o.

- Só se você me chamar de meu bem de novo...

- Oh, céus...

- Me chame assim e eu vou a qualquer lugar, Moony! É só pedir! Faço qualquer coisa!

- Sirius, comporte-se, por favor...

- Voltei a ser Sirius agora?

Harry e Draco se entreolharam e riram dos dois, que se afastavam ainda conversando em voz baixa.

- Vamos sair logo daqui, Harry, antes que apareça mais alguma criatura esquisita pra nos impedir - disse Draco, voltando a acomodar o instrumento nas costas.

- Espera, vou pegar minha bicicleta - Harry saiu correndo em direção à garagem e voltou já montado na bicicleta bem na hora em que Betty voltava a sair de casa, sorridente, maquiada e de cabelos soltos.

Enquanto Harry acenava se despedindo, Draco notou o olhar decepcionado da garota, os ombros caindo e a cara de revolta quando sua mãe encheu suas mãos vazias de malas e sacolas para que ela levasse para dentro.

- Ah, que saco, mãe... droga... - Betty entrou pisando duro.

- Tchaaau! - Hugh acenou alegremente, carregando uma bolsinha de cosméticos com ar de importância.

- Divirtam-se - desejou Remus.

- Comportem-se - avisou Sirius.

Draco bufou, mas Harry sorria radiante.

- Criaturas esquisitas, é? - divertiu-se o moreno.

- E como! Aquele garotinho ficou me encarando de uma maneira estranha! Achei que ele gritaria "papai" a qualquer momento! A garota, Betty, só faltou arrancar pedaço de você de tanto que olhou. E aquela cadela no cio? Eu já estava ficando roxo de vergonha só de imaginar a cena se os donos dos animais não tivessem tomado providências... Além disso, não sei se você reparou, mas a Sra. Gareth é mais alta que o marido!

Harry gargalhou, quase se desequilibrando enquanto eles pedalavam no meio da rua sossegadamente em direção ao parque.

- Que aberrações! - zombou Harry, fazendo uma caricatura da pose indignada do loiro, momentos atrás.

- Cala a boca... - disse Draco, carrancudo.

Harry conteve o riso, apesar de um sorriso largo ainda permanecer em seu rosto.

- Eu gostei deles. Parecem simpáticos. E as crianças são uma boa distração.

- As crianças... sei... - Draco deu uma olhada de esguelha para Harry, de modo acusador.

- Ora, vai me dizer que você não gostou de Hugh? Ele adorou você!

- Pois é, Betty adorou você também.

Harry não resistiu e voltou a rir. Então olhou para os lados e abaixou a voz para que ninguém que por acaso os estivesse observando passar pela rua os ouvisse.

- Draco, você está com ciúme?

Draco primeiro se espantou, depois se indignou, depois se zangou.

- Não seja ridículo, Harry.

- Draco, você está com ciúme de uma garota de quinze anos!

- Cala a boca, Harry - exigiu, mau-humorado.

- Ok, já me calei - Harry mordeu o lábio inferior, como para impedir qualquer palavra, ou mesmo um sorriso de escapar.

Seguiu Draco para o parque e logo o flamboyant se fez ver em meio às arvores, totalmente florido. O verde quase sumia em meio ao vermelho vivo, mas ainda emprestava um contraste bonito de cores, fazendo um plano de fundo chamativo na predominância verde e marrom que era o parque. Uma brisa suave agitava as folhas, fazendo com que algumas flores minúsculas caíssem e formassem um bonito tapete vermelho na grama.

Harry achou que era pra lá que eles iam e já diminuía a velocidade quando percebeu que Draco continuava em direção ao bosque.

- Aonde vamos? - perguntou, por fim.

- Para a macieira. Aonde mais teríamos alguma privacidade? - a voz do loiro ainda estava um pouco sarcástica. Ou seria tensa? O olhar de Harry mais uma vez foi atraído para o violão.

- Tem a ver com a surpresa?

- Óbvio...

Definitivamente, Draco estava tenso. Ele tentava disfarçar aquilo com seu costumeiro mau-humor, aproveitando-se da desculpa que Harry dera ao zombar de seu ciúme. Tinha passado a manhã inteira pensando na bobagem que estava prestes a fazer. Queria gritar com aquela vozinha que lhe soprava no ouvido que ele estava inseguro. Harry definitivamente tinha o dom de abalar sua segurança.

Eles entraram no bosque, pegando a trilha conhecida para se aprofundarem ainda mais em meio às árvores. Lá o clima era mais fresco e o eucalipto ajudava com a sensação calmante. Draco inspirou várias vezes aquele aroma, tentando dissipar sua tensão.

- Então... - a voz de Harry voltou a soar depois de algum tempo de silêncio, com um toque de preocupação. - Você ainda não me disse direito como você está... Como foi ontem, com seu pai?

Draco demorou algum tempo para responder. Por um momento sentiu-se tentado a dar uma resposta curta e encerrar o assunto, mas voltou a perceber a apreensão de Harry no silêncio, sua expectativa, e achou que lhe devia essa explicação. Afinal, Harry o tinha defendido na noite anterior.

- Não foi. Nós não chegamos a nos falar. Quando eu cheguei em casa, meu pai estava discutindo com minha mãe sobre mim. Ele contou tudo a ela e disse que me expulsaria de casa, mas ela não deixou.

- Sua mãe também sabe, então? Sobre nós? - Harry preocupou-se em parecer apenas educadamente curioso.

- Sim.

- E então?

- Ela disse que não se incomoda, desde que eu seja discreto - Draco percebeu a amargura na própria voz. Não precisava repetir as palavras de Narcissa, nem dizer para Harry que ela o considerava seu mais novo brinquedinho.

Harry não se pronunciou, mas achou triste aquele comentário. Narcissa não se incomodava com a vida amorosa de seu filho? Provavelmente achava que aquilo era apenas mais um capricho de Draco... Achou melhor deixar o assunto de lado. Pelo menos parecia que estava tudo resolvido por enquanto. Talvez fosse apenas a calmaria antes da tempestade, mas não havia muito a ser feito para evitá-la.

Eles finalmente chegaram à macieira. O formato tão fora de padrão da árvore chamava atenção a quem passasse pela trilha, mas o caminho era muito pouco utilizado. Eles encostaram as bicicletas no tronco largo e se encararam por alguns instantes. Harry ficou sem saber muito o que fazer. Tinha vontade de beijá-lo desde o momento em que o vira se aproximando, mas aquela sensação de que não deviam se deixar levar em público acabara deixando-o desnorteado, mesmo naquele momento, em que não havia ninguém para assisti-los. Num momento eles eram amantes, no outro apenas amigos... estava difícil se acostumar com isso.

E agora? Devia beijá-lo? Será que Draco queria ser beijado?

O que nós somos agora, Draco? Bons amigos? Cúmplices? Amantes?

Harry procurou no rosto do loiro por alguma pista do que ele queria e viu uma ruga em sua testa apesar dos olhos brilhantes. Draco parecia preocupado, tenso. Talvez estivesse passando pelo mesmo dilema que ele.

Deixando de se preocupar tanto com o que devia ou não devia fazer, Harry relaxou os ombros e o maxilar, estendeu a mão para tocar a face de Draco, cujas linhas de expressão também se suavizaram. Harry deu dois passos curtos à frente e Draco fechou os olhos, convidando-o. O moreno envolveu sua cintura com calma e tocou os lábios de Draco com os seus, iniciando um beijo tranqüilo. Sentiu o gosto familiar, o perfume de Draco, a saudade daquele toque, do calor de seu corpo, do bater de seu coração contra seu próprio peito, os braços em volta de seu pescoço, a respiração dele tocando seu rosto quando o beijo terminou.

Eles sorriram um para o outro. Cúmplices. Amantes. E - porque não? - bons amigos.

- E a minha surpresa? - disse Harry, arteiro.

- Seu interesseiro de uma figa - Draco resmungou, divertido, retirando o estojo das costas e se sentando no chão, as costas apoiadas ao tronco, as pernas cruzadas.

Harry sentou-se diretamente à sua frente, na mesma posição, seus joelhos quase se tocando, da mesma maneira em que eles tinham ficado quando Draco tocou para ele da primeira vez. Ele não queria perder nenhum detalhe sequer.

Observou atentamente enquanto Draco retirava o violão cuidadosamente do estojo, limpando uma poeirinha da madeira polida e apoiando-o no joelho esquerdo.

- Olha, eu não tive muito tempo de ensaiar. Peguei a partitura só na quarta-feira e as dicas de Lupin valeram bastante, mas ainda assim...

- Como? - Harry interrompeu-o, intrigado. - As dicas de Moony?

- Sim - Draco disse, demonstrando alguma impaciência por ter sido interrompido. - Bem, ele me ofereceu ajuda um dia desses, quando nós estávamos brigados. Eu aceitei - ele deu de ombros.

- Mas então... era com você que ele estava quarta-feira à noite?

- Ele te contou? - Draco desconfiou.

- Não, o problema foi justamente esse. Ele não contou. Ele e Padfoot tiveram uma discussão ainda hoje sobre isso, Sirius é ciumento ao cubo, sabe? Não sei se a situação vai melhorar ou piorar depois que ele souber disso.

- Ora, Remus tem idade pra ser meu pai! Ele é meu professor! - indignou-se Draco.

- Eu sei disso. Mas Padfoot fica cego quando se trata do Moony - Harry deu de ombros.

- Que absurdo...

- Sim, sim, mas continue - incentivou Harry, apontando com o queixo para o violão, ansioso.

Draco respirou fundo.

- Ok, como eu dizia, não tive muito tempo para estudar a música, mas não queria fazer tão feio quanto naquele dia lá em casa.

Harry pensou em protestar, mas achou melhor não interrompê-lo novamente. Se ele "fizesse feio" como no domingo passado, já estaria de bom tamanho.

- Essa música, talvez você não conheça, mas ela vem me atormentando há muito tempo. Toda vez que eu ouvia ela, eu tinha vontade de atirar coisas nas paredes porque lembrava de você. Ela tocou quando você estava em casa, num dos meus cds, mas acho que não demos muita importância pra ela. Acho que estávamos muito entretidos um com o outro... - Draco arqueou uma sobrancelha para cima, arrogante.

- Coldplay? - perguntou Harry.

- Sim, Coldplay. Mas, enfim, ela é sua, Harry. Só sua. Eu sempre soube disso.

Draco corrigiu a própria postura, arrumou desnecessariamente o violão no joelho, pegou a palheta - de Remus, provavelmente -, testou a afinação e limpou a garganta antes de começar os primeiros acordes, a palheta acariciando as cordas com leveza de modo que o som saia suave. Harry remexeu-se inquieto, sentindo as mãos geladas quando apoiou o queixo em uma delas com o cotovelo numa das pernas. Não sabia para o que olhar, se para as mãos pálidas dedilhando as cordas, ou se para o rosto concentrado dele.

Percebeu logo que ele realmente tinha se desafiado um pouco mais com essa música, pois os acordes eram bem mais complexos que os de Yellow e muito mais trabalhados.

Quando Draco levantou os olhos para ele, Harry sentiu como se um anzol tivesse fisgado seu umbigo e a voz, suave assim como as notas, fez com que os pêlos de sua nuca se arrepiassem, tal a emoção que o conjunto todo passava: voz, olhar e as notas tiradas do instrumento.

Honey you are a rock

(Querido, você é uma rocha)

Upon which I stand

(sobre a qual eu me sustento)

And I come here to talk

(e eu vim aqui pra conversar)

I hope you understand

(espero que você entenda)

Harry observou Draco resistir ao impulso de espiar os dedos para mudar o acorde a cada nova frase. Ele estava indo muito bem, apesar da hesitação inicial e de olhar diretamente em seus olhos, sua boca, seu pescoço, seus cabelos. Provavelmente Draco não estava nem o enxergando direito, sua mente rodopiando com cifras e letras, às quais ele tentava se concentrar, mas ainda assim ele carregou de sentimento cada palavra e as dirigia diretamente para Harry.

O moreno sorriu ao ouvir as primeiras palavras do coro.

The green eyes

(Os olhos verdes)

Yeah the spotlight

(sim, o refletor de luz)

Shines upon you

(brilha sobre você)

How could

(Como poderia)

Anybody

(alguém)

Deny you?

(rejeitar você?)

Harry mordeu o lábio inferior e Draco sorriu para ele, dando uma espiada furtiva para baixo ao mudar os acordes com habilidade, a voz crescendo levemente conforme a música pedia.

I came here with a load

(Eu cheguei aqui com um fardo)

And it feels so much lighter

(e este me pareceu tão mais leve)

Now I've met you

(agora que eu te encontrei)

And honey you should know

(E, querido, você deveria saber)

That I could never go on

(que eu nunca poderia continuar)

Without you

(sem você)

Green eyes

(olhos verdes)

Harry percebeu a confiança de Draco crescendo à medida que a música ia fluindo. E que música! Harry estava de queixo caído, os olhos brilhando, o coração palpitante, a garganta apertada de emoção. Aquela música era dele, segundo Draco. E o loiro demonstrava tanta paixão ao interpretá-la que Harry tinha que acreditar naquelas palavras. Ele queria acreditar. Draco não cantaria aquilo se não fosse sincero.

Passou a entender a tensão que Draco demonstrara havia pouco e sorriu mais uma vez, encantado, ou ver como Draco superava sua insegurança a cada nota tirada do violão, a cada palavra que escapava de sua boca, a voz crescendo ainda mais e a palheta arranhando as cordas com mais forças.

Honey you are the sea

(Querido, você é o mar)

Upon which I float

(sobre o qual eu flutuo)

And I came here to talk

(e eu vim aqui pra conversar)

I think that you should know

(acho que você deveria saber)

Draco voltou a encarar fundo nos olhos de Harry e dessa vez o moreno acreditou realmente que ele o estava vendo, que cada som que saía de sua garganta e do vibrar das cordas do violão, toda a atenção, todo o sentimento que ele se empenhava tanto em colocar naquela interpretação, estavam totalmente voltados única e exclusivamente a ele. E somente ele.

A tensão no corpo de Draco se dissipava visivelmente, seus ombros já se moviam mais conforme ele empenhava mais vontade ao tocar, seu corpo se balançando quase imperceptivelmente ao ritmo gostoso da canção. Ele sacudiu a cabeça levemente para desalojar uma mecha incômoda da franja que já quase alcançava seus olhos.

That green eyes

(Que, olhos verdes,)

You're the one that

(você é aquele que)

I wanted to find

(eu queria encontrar)

Anyone who

(Qualquer um que)

Tried to deny you

(tentasse te rejeitar)

Must be out of their mind

(Deveria estar maluco)

- Exagerado - Harry sussurrou, sem jeito, arrancando outro sorriso de Draco, mas ele não se desconcentrou e pronunciou enfaticamente as próximas palavras enquanto acenava positivamente com a cabeça, como se conversasse com ele.

'Cause I came here with a load

(Porque eu cheguei aqui com um fardo)

And it feels so much lighter

(e este me pareceu tão mais leve)

Since I've met you

(desde que te encontrei)

And honey you should know

(E, querido, você deveria saber)

That I could never go on

(que eu nunca poderia continuar)

Without you

(sem você)

Depois de alcançar as notas mais altas com facilidade, Draco voltou a abaixar a voz levemente rouca. Olhos nos olhos. Harry não pôde deixar de achá-lo lindo, as íris límpidas, brilhantes, as pupilas pequenas por causa da claridade, o cabelo se mexendo com leveza conforme ele tocava.

Green eyes

Green eyes

Ohohohoh

Ohohohoh

Ohohohoh

Ohohohoh

E as palavras finais foram pouco mais de um sussurro.

Honey you are a rock

(Querido, você é uma rocha)

Upon which I stand

(sobre a qual eu me sustento)

O som do vibrar das cordas foi morrendo conforme Draco parou de arranhá-las, sustentando a finalização da música até o som desaparecer e só desaparecer e s finalizaçe arranhendo conforme Draco parou de tocaorpo se balançando quase imperceptivelmente ao ritmo gostoso restarem os sussurros das folhas e os demais sons do bosque enquanto eles se encaravam, sorrindo.

- Draco, isso foi... - Harry abriu a boca várias vezes, mas não encontrou um adjetivo apropriado para a ocasião. Não existiam palavras suficientes para descrever o quanto ele estava surpreso e maravilhado.

- Sim? - incentivou Draco, rindo de sua cara de bobo.

- Foi incrível, foi fantástico, foi... - Harry piscou, então fez o que queria fazer desde que tinha desgrudado os lábios dos dele, minutos atrás.

Ajoelhou-se, inclinando o corpo para frente e beijou-o novamente, com mais volúpia, apoiando as mãos nos joelhos do loiro, para se equilibrar. Draco sorriu em meio ao beijo e tirou o violão de entre eles. No mesmo momento Harry se precipitou contra Draco, fazendo com que ele escorregasse pelo tronco da árvore até cair de costas na grama, meio torto.

- Hey, minha camisa! - Draco protestou, ajeitando-se melhor na grama enquanto Harry se acomodava sobre ele com um sorriso safado no rosto. - Se não rasgou, pelo menos está toda suja agora!

- Sinto muito - disse o moreno com cara de quem não sentia nem um pouco. - Quer que eu deixe você tira-la para não suja-la ainda mais?

- Cala a boca, Harry - Draco puxou-o para outro beijo, que Harry logo quebrou novamente.

- Mas eu ainda não terminei de falar o quanto eu gostei da surpresa.

- Quem precisa de palavras? - insistiu Draco, tentando puxá-lo novamente.

- Mas e sua camisa? - insistiu o moreno, divertido ao ver Draco ficar irritado.

- Quem liga para a minha camisa?

- Você, ora! Estava reclamando ainda agora!

Draco agilmente girou o próprio corpo, invertendo as posições.

- Eu reclamo demais, você já devia saber que não deve dar atenção a tudo o que eu falo, mas ao que eu faço - disse, retirando os óculos de Harry antes de voltar a beijá-lo.

Ou tentar...

- Ai! Minhas costas - Harry gemeu. - Acho que estou em cima de uma raiz.

Draco aliviou um pouco de seu peso sobre Harry e o moreno aproveitou para pegá-lo desprevenido e inverter as posições novamente, o sorriso enviesado e os olhos brilhando, maroto.

- Se você não se importa com sua camisa, eu me importo com minha camiseta. Prefiro sujar a sua, que já está suja mesmo - ele deu de ombros.

- Seu farsante! E eu preocupado com suas costas!

- Mas era verdade! - Harry esticou a mão para o lado em que ele havia se deitado e trouxe um graveto para o campo de vista de Draco, o sacudindo enfaticamente. - Só não era uma raiz!

Draco riu com vontade da expressão indignada no rosto do moreno e fechou os olhos ao fazê-lo, sentindo-se ser sacudido pelo riso do outro também, aquele riso contagiante que ele tanto apreciava. Ao voltar a abrir os olhos, percebeu Harry fitando-o contemplativo, de cima, seu corpo ainda alinhado sobre o seu próprio, o peso que não era incômodo, mas reconfortante.

- Eu já disse que amo quando você sorri? - a voz de Harry saiu baixa, levemente rouca.

- Já - Draco sussurrou de volta, as mãos comichando para deslizar por entre aqueles cabelos desgrenhados, mas sentiu como se fosse estragar o bonito quadro à sua frente caso mexesse um músculo sequer. - Não com essas palavras, mas...

- Fica tão mais bonito... tão diferente...

Draco sentiu uma sensação de déjà vú àquelas palavras. O movimento das folhas da macieira logo acima, os desenhos formados pela parca luz que conseguia ultrapassar os vãos entre as folhas desde as árvores mais altas do bosque, isso parecia criar uma atmosfera familiar. Draco lembrou-se de já ter vivenciado aquilo, Harry encarando-o de cima, deitado sobre ele, sem os óculos, sorrindo-lhe daquela maneira estonteante.

"A nossa vida está mudando, não está?"

"Está?"

"Sim... Você está diferente."

Lembrou-se do sonho que havia tido semanas atrás, antes mesmo de descobrir o que sentia por Harry. E concluiu que ele tinha razão mesmo em seus sonhos. Draco estava diferente. Ele se sentia diferente. Mais vivo. E essa mudança tinha sido a melhor coisa que lhe acontecera em toda sua vida. Harry era a melhor coisa que poderia ter-lhe acontecido.

- Que foi? - a voz intrigada de Harry chamou-o de volta à realidade e Draco percebeu que sua vista tinha se desfocado, então piscou algumas vezes.

- Nada... eu estava apenas pensando...

- E em que você estava pensando? - Harry saiu de cima dele, ficando de lado, cotovelo no chão, uma das mãos apoiando a cabeça para que ele não saísse de seu campo de visão, a outra mão em sua cintura e uma das pernas entre as suas. Seus olhos vagaram por cada pedacinho do rosto do loiro.

- Em como nossa vida mudou de repente. Isso não te assusta, às vezes? Você não fica com uma sensação de que é tudo muito irreal? E que a qualquer momento você vai acordar e perceber que ainda me odeia?

Harry sorriu.

- Sim, eu tenho essa mesma impressão. Não, eu nunca te odiei, Draco. Tudo bem, a maioria das vezes você era muito incômodo, a pedra no meu sapato, mas... ainda assim, não era suficiente para que eu te odiasse. Nossa rixa era infantil demais para um sentimento tão complexo quanto o ódio.

- Falou o expert em sentimentos, hein - disse Draco, sarcástico.

- Hunf... estou muito longe disso... - Harry ponderou, então inesperadamente abaixou a cabeça, capturando seus lábios com precisão e suavidade, apenas selando-os. - Isso é real o suficiente para você? - perguntou ele, roçando seus narizes.

- Hummm, não sei... nem deu tempo de eu analisar. Pode repetir, por favor?

Harry sorriu e beijou-o novamente, sem pressa, saboreando as carícias dos lábios, das línguas, a textura de sua pele... até findar o beijo com um suspiro e se acomodar melhor a seu lado, a cabeça encostada em seu ombro. Draco aproveitou para enveredar seus dedos pelos cabelos negros, finalmente, o perfume do xampu invadindo suas narinas.

- Draco... - Harry murmurou depois de algum tempo de um silêncio confortável.

- Hum? - resmungou o loiro, que tinha fechado os olhos, preguiçoso em abri-los novamente.

- O que nós somos?

Draco pensou um pouco antes de responder. Ele tinha imaginado milhões de maneiras de abordar aquele assunto, pela manhã, enquanto tentava fazer o tempo passar mais depressa. Depois de encontrar Harry, no entanto, ele havia tido muito com o que se distrair. Um pedido de namoro tinha lhe parecido tão constrangedor antes, entretanto, depois de ele ter aberto seu coração com a música, parecia algo tão desnecessário! Eles estavam juntos, não estavam? Se existia mesmo a necessidade de definir seu relacionamento, então a palavra mais adequada seria...

- Namorados? - acabou devolvendo outra pergunta.

- É... acho que... é... sim.

Draco sorriu. Fora mais fácil do que ele pensara. Harry começou a gargalhar, seu corpo tremendo todo com o riso. Draco espiou com um olho, mas tudo o que conseguia ver eram as pontas desgrenhadas dos cabelos negros que tremiam conforme ele ria.

- Que foi? - perguntou o loiro, intrigado.

- Ohhh uma cena muito bizarra se formou na minha mente - explicou o moreno, ainda sem levantar a cabeça de seu peito. - Algo como você pedindo permissão a Sirius para poder me namorar e ele dizendo: "Quais são as suas intenções para com o meu afilhado?" - Harry engrossou a voz numa tentativa de imitar o tom do padrinho e voltou a gargalhar da própria imagem mental.

Draco teve que rir também.

- Nem um pouco donzela, hein, Harry? - zombou. - Nós teríamos que fugir então, porque minhas intenções com você são as piores possíveis!

- Hummm parece tentador - Harry aconchegou-se ainda mais a ele, uma de suas mãos se aventurando para dentro da camisa do loiro. - Melhor você não dizer nada então. A menos que você goste de viver perigosamente... eu, como tenho uma certa queda por aventuras, aceitei namorar com você mesmo que somente cinqüenta por cento de sua família "não se importe" e a outra metade queira me matar e jogar meus restos para os cachorros, não é empolgante? Ficaria muito monótono no seu caso, porque minha família aprovou sem muitos esforços...

- Sua família aprovou, é? - Draco arqueou uma sobrancelha.

- Sim! Bem, Padfoot esperneou um pouco, mas acabou aceitando. Ele gostou de você, já te disse! E Moony... bem, ele até ofereceu ajuda com sua surpresinha para mim, não foi?

- Foi... - Draco teve que concordar, afinal Lupin fora bastante prestativo, mesmo no começo daquela semana, quando ele e Harry ainda não se falavam. - Ele deu umas dicas muito úteis, sim. E me deu a palheta.

- Viu só? Eu disse que eles são caras legais... você ainda vai ter bastante oportunidade de comprovar isso por si mesmo. Isso se Sirius não resolver te matar por ter aula de violão com o namorado dele sem ele estar por perto pra supervisioná-los.

Draco arregalou os olhos.

- Você acha mesmo que ele vai ficar bravo?

- Pelos cinco minutos mais longos da vida de Moony, sim. Mas depois de uns beijos ele se acalma... Afinal, você é meu namorado agora.

- Isso não é garantia nenhuma - ponderou Draco, e continuou num tom sombrio. - Ele pode achar que eu me aproximei de você pra roubar o namorado dele, já pensou? Ou então que é só um disfarce para que ele não descubra que nós estamos tendo um caso...

- Cara, isso deve ser coisa de família! - divertiu-se Harry. - Achei que nunca encontraria uma mente tão fértil quanto a de Padfoot para supor planos mirabolantes de traição. Vocês deviam escrever um livro: "As mil e uma interpretações para cada frase de seu namorado: descubra se ele está realmente te traindo ou morra tentando". Aliás, eu quero um exemplar! Autografado, é claro.

- Engraçadinho - ironizou Draco enquanto Harry se acabava de rir. - Que mal há em sentir ciúme?

- Ciúme é uma coisa, paranóia é outra, né? Por favor... Por que ele tem que ser tão inseguro? Ele sabe que Remus o ama! Moony mostra isso todos os dias, ele seria incapaz de trair Sirius... Padfoot tem que mostrar um pouco mais de confiança ou Remus pode acabar se cansando.

- E o expert em relacionamentos volta a se pronunciar... - Draco estava aborrecido pelo rumo da conversa. Não queria ficar discutindo o relacionamento de seu professor com o padrinho de Harry. Seu lado ciumento sentia necessidade de se justificar, mas não encontrava argumentos.

- É sério, Draco - Harry finalmente voltou a encará-lo, sua expressão tão séria quanto seu tom de voz. - Eu não tenho experiência com relacionamentos, sei disso. Mas... posso te fazer uma pergunta? Mas você tem que responder com sinceridade, ok?

Draco franziu a testa, mas acabou concordando, curioso para saber o que ele iria propor e aliviado porque a conversa parecia ter voltado a girar em torno deles novamente.

- O que você sente por mim? - o moreno soltou, surpreendendo-o.

- Eu... não sei! - confessou.

- Tente descobrir então - Harry incentivou-o. - Você me disse pelo chat que estava apaixonado. É isso? Paixão?

Draco pensou por um momento, encarando uma maçã madura, bem vermelha, logo acima da cabeça de Harry.

- Não, eu não acho que seja paixão. Paixão é uma coisa intensa demais, mas também é como fogo de palha. Acaba tão rápido quanto começa. Eu me sinto atraído por você desde que te conheci, Harry. Isso já faz quase sete anos agora.

- É isso então? Atração? Aquela coisa que começa com "te" e termina com "são"?

Draco deu um sorriso cansado. Natalie já tinha lhe ajudado a encontrar a resposta para essa pergunta.

- Não, você não é tão gostoso assim, Potter - mentiu, não resistindo em deixar o assunto um pouco mais descontraído e dando um beliscão na coxa de Harry, perigosamente próximo a seu traseiro, mas então voltou a ficar sério depois de arrancar um sorriso do outro também. - Não é isso, Harry. Eu... acho...

Draco encarou fundo nos olhos de Harry, sentindo aquele calor no coração, uma euforia e uma calmaria ao mesmo tempo. Ele ficaria assim com Harry pelo resto da vida, admirando sua força, sua vivacidade, sua alegria contagiante... seu sorriso, seus olhos, seus cabelos apontando para todas as direções... Não havia nada que ele não gostasse em Harry. As roupas folgadas tinham seu charme, a cicatriz o fazia único... até os óculos não o incomodavam mais depois que ele soubera o verdadeiro motivo de Harry ter escolhido aquela armadura antiquada. Fazia com que ele se sentisse mais aparecido com o pai. Até combinava com seu rosto fino e suave... Gostava de ficar abraçado a ele, como na noite em que eles tinham dividido sua cama; gostava de ouvir sua voz, de sentir seu cheiro... de beijá-lo...

- Amor? - sugeriu o moreno, notando sua hesitação.

Será que aquela palavra conseguia realmente resumir tudo o que ele sentia? Parecia uma palavra pequena demais para conter tanto sentimento. Draco estendeu a mão e retirou uma folhinha presa nos cabelos do seu namorado - namorado! - e aproveitou para deixar seu dedo escorregar por seu maxilar, até acariciar seu queixo.

- Talvez - disse, por fim.

Harry sorriu e segurou sua mão, entrelaçando seus dedos como se elas tivessem sido feitas para se encaixarem uma na outra, exatamente dessa maneira. Voltou a deitar a seu lado, encarando a árvore acima.

- O que nós fizemos hoje foi assumir um compromisso um com o outro, não foi? Nós somos namorados, certo?

- Certo.

- Então eu quero que você confie em mim, assim como eu estou disposto a confiar em você. Sei que é inevitável sentir ciúme, mas quando tiver algo te incomodando, me deixe saber, ok? Pergunte, eu vou ser sempre sincero com você. Eu também não sei ainda ao certo se o que eu sinto vai durar para sempre, mas eu vou tentar fazer com que dure. Eu quero que dure. Talvez eu também te ame. Só o tempo vai dizer isso.

- E agora você me beija e nós vivemos felizes para sempre? - brincou Draco, virando-se de lado, para ficar de frente para ele, abraçando-o mais de encontro a si.

Harry sorriu, tocando sua face com delicadeza.

- O beijo eu posso garantir, mas a parte do felizes para sempre... - Harry beijou-o, abraçando-o também. - Só que está um pouco desconfortável aqui, não acha? Minha perna está dormente...

- É... definitivamente, não estamos num conto de fadas - resmungou Draco, se sentando analisando a própria camisa. - Olhe para isso! Vesti minha melhor camisa pra te ver hoje e veja como você me retribui!

Harry fez cara de arrependido, se sentando também e ajudando-o a varrer a sujeira de sua roupa.

- Me desculpe, mas eu não posso agitar um gravetinho, dizer algumas palavras mágicas e fazer aparecer um travesseiro e um colchão de plumas de ganso pra você se deitar, Draco. Pode ir se acostumando com esses lugares impróprios, porque afinal nós não temos muitas escolhas mesmo...

Draco suspirou e tentou não arrastar muito a calça no chão ao se aproximar do tronco da árvore e encostar-se nela, esticando as pernas à frente de corpo. Harry aproximou-se também e deitou a cabeça em sua coxa, recolocando os óculos no rosto. A reação de Draco foi automática, ao levar uma das mãos aos cabelos macios de Harry, sentindo prazer em despenteá-los ainda mais.

- É, Harry... vai ser sempre assim, não vai? Nós vamos ter que ficar atuando em público, procurando lugares escondidos até mesmo pra ficar assim, se tocando, se abraçando, se beijando...

- Eu não me importaria, sabe... - Harry analisou - que todos soubessem. Não me importaria de gritar para o mundo que eu estou com você, andar de mãos dadas... Mas não acho que seja uma atitude muito sábia. Principalmente para você, que tem um sobrenome a zelar, uma reputação a manter... As pessoas tendem a perder o respeito por todos que julgam imorais, e infelizmente têm uma visão distorcida sobre moral. Eu não quero que você perca o respeito que já conquistou. Percebi a maneira como olham para você na empresa, com admiração e até mesmo um pouco de temor pelo seu sobrenome. Não quero que isso mude por minha causa. Acho que não devemos ser descuidados.

Draco quase achou graça ao ouvir os mesmos argumentos que sua mãe utilizara na noite anterior. Mas com Harry falando, parecia tão mais aceitável! Parecia a coisa certa a se fazer, mesmo que ele também sentisse vontade de mandar o mundo às favas e anunciar que Harry era seu e de mais ninguém. Isso evitaria muita cena de ciúme, pelo menos.

- Eu tenho que ser cuidadoso - admitiu. - Prometi isso à minha mãe ontem. Garanti que ninguém diria que nós somos mais do que bons amigos. Vai ser difícil manter uma distância respeitável em público, mas acho que podemos fazer, sim.

Harry deu um sorriso levemente melancólico, as mãos entrelaçadas sobre o peito.

- Você pode ir lá em casa quando quiser - avisou. - Padfoot vai acabar entendendo. Ele sabe como é não ter muita escolha, afinal passa pelo mesmo problema que o nosso.

- Humm parece tentador - Draco sorriu de lado. - Aquela cama não é tão grande quanto a minha, mas vai ter que ser o suficiente.

- Eu sempre desconfiei que Padfoot tem uma cópia da chave do meu quarto escondida em algum lugar.

- O quê? - os olhos de Draco se arregalaram e Harry gargalhou.

- Brincadeira, Draco! Ele respeita minha privacidade, ok?

- Como você tem tanta certeza disso? - Draco estreitou os olhos. - Já se trancou com alguém em seu quarto, é? A Weasley, eu aposto!

- Humm na verdade não. Eu ainda não morava com Sirius quando nós namoramos. Meus tios quase não me deixavam entrar na casa deles, quanto menos levar visitas. E desde Ginny eu não tive mais nenhuma namorada.

Draco coçou o queixo e concluiu, satisfeito.

- É, eu acho que vou ter que estrear o seu quarto então.

- Pena que eu não tenho uma banheira como a sua - Harry disse, sorridente.

- Não precisa, eu posso ser bastante criativo com um chuveiro apenas.

Harry gargalhou. E Draco continuou a fazer planos.

- Tem o seu carro também. Não é tão confortável assim, mas é melhor do que esse chão duro e sujo. O vestiário, acredito que esteja fora de cogitação.

- Sem dúvida! - o moreno concordou. - E nós poderíamos criar alguns disfarces para sair, já imaginou?

- Potter, eu não vou me vestir de garota! - Draco ralhou, irritado com a imagem mental criada pelas palavras do namorado. - Nem você vai! Isso seria ridículo!

Harry riu ainda mais.

- Não estou falando pra ninguém se vestir de garota! Apenas usar óculos escuros, boné, alguma coisa do tipo, e ir para algum lugar que não estejamos acostumados a freqüentar, algum lugar menos movimentado, quem sabe...

- Bem... contanto que você não tinja seu cabelo de ruivo, está tudo bem - Draco sentenciou. - Além disso, meu pai vai estar bastante ocupado com o julgamento, talvez se ele passasse alguns dias fora...

- Julgamento? - Harry interrompeu-o, intrigado.

Draco fechou os olhos, lamentando-se por ter tocado no assunto. Não que pretendesse esconder aquilo de Harry, mas ele não queria ter que falar sobre o assunto. Com ninguém. Mas talvez fosse melhor assim. Natalie sempre insistia para que ele falasse sobre tudo com ela, e era ainda mais persistente quando descobria algo que ele não queria conversar a respeito.

Então ele respirou fundo e contou. Contou sobre a conversa que tinha entreouvido dos pais - seria admiração aquilo que vira em seus olhos ao contar a maneira como Narcissa tinha persuadido Lucius a deixá-la cuidar do assunto? -; contou sobre os julgamentos pelos quais seu pai já havia enfrentado, saindo sempre impune de todos eles; e contou como não estava realmente preocupado, pois nada seria diferente dessa vez.

Harry permaneceu em silêncio, fazendo um ou outro comentário e franzindo e desfranzindo a testa. Draco sabia que a assunto era delicado para seu namorado - namorado! - pois, afinal, seu pai fora um dos muitos seguidores do assassino dos Potter. Mas, provavelmente em consideração a ele, Harry não fez qualquer comentário desagradável, ainda que Draco tivesse certeza que o moreno torcia para que dessa vez o resultado fosse diferente.

Até mesmo Draco se pegou pensando: como seria se seu pai fosse mesmo declarado culpado? Será que ele lamentaria muito? Ou será que desejava isso secretamente também? Ultimamente, os crimes de Lucius não passavam de burlar impostos, manipular os relatórios da empresa e desviar o máximo possível de finanças para suas várias contas espalhadas pelo mundo. Não era nada que ele se orgulhava, mas havia muito deixaram de ser tão cruéis quanto quando Riddle estava vivo, comandando seu exército. Porém ainda assim, isso não mudava seu passado.

- Eu não sei se fico feliz por você ou se lamento por você ter um pai como... - Harry arrancou-o de suas meditações, depois de algum tempo de silêncio onde somente os dedos do loiro continuavam sua carícia nos cabelos do namorado.

Draco voltou sua atenção para Harry, mas este tinha mordido o lábio inferior e parecia arrependido de ter começado aquela sentença.

- Me desculpe. Eu acho que pensei alto demais - desculpou-se ele.

- Conclua - pediu Draco. - Um pai como...?

Harry ainda pensou um pouco, escolhendo as palavras:

- Meu pai era generoso, levava uma vida honesta e era batalhador, mas está morto. Seu pai é... foi um criminoso, inescrupuloso, mas ainda assim, é seu pai. E está vivo. Eu acredito que, mesmo que meu pai não fosse tudo o que dizem que ele era, eu não gostaria de vê-lo na cadeia. Seria egoísta de minha parte, desejar que Lucius seja condenado.

Draco pensou se era prudente dizer para ele não sentir tanto, já que às vezes ele próprio também desejava isso. Mas acabou sacudindo levemente a cabeça, como se quisesse arrancar aqueles pensamentos dela.

- Esqueça isso. Chega de falar sobre o meu pai. Vamos falar de coisas mais agradáveis. Quero ter algo para me lembrar do dia em que nós começamos a namorar.

Harry sorriu buscando uma das mãos do outro e entrelaçando seus dedos.

- Como por exemplo?

- Humm vejamos. Você pode começar dizendo como eu sou lindo e irresistível e...

- Modesto! - ironizou Harry, mas o loiro não lhe deu atenção.

- ... e confessar que foi paixão à primeira vista.

- Ah, claro, eu só quis te socar no nosso primeiro encontro.

- Viu só? Para mim está claro: é amor!

Harry ergueu o tronco e virou-se até estar de gatinhas no chão. Com um olhar predador e a lentidão calculada de um gato manhoso, ele engatinhou para mais perto do loiro, obrigando-o a encolher as pernas até que Harry estivesse entre elas e só parou quando seu nariz estava a centímetros do de Draco.

- E no seu caso, hein? – ele murmurou, inclinando a cabeça levemente para o lado, os olhos presos nos lábios do outro, como se estivesse prestes a beijá-lo, mas sem nunca fazê-lo. – Foi o quê?

- Ohh eu tenho certeza que fui enfeitiçado - justificou-se Draco, em tom de conspiração, também encarando os lábios de Harry, hipnotizado. Seu próprio rosto inclinou-se para o lado contrário, instintivamente, mas nenhum dos dois se moveu para mais perto.

- Jura? - Harry arqueou uma sobrancelha para cima, divertido e encantado com a seriedade que Draco conseguia empregar em seu discurso seguinte:

- Sim! Eu posso jurar que tem algo em seus olhos que faz com que eu não seja eu mesmo quando estou a seu lado. Você fez algum feitiço, confesse, Harry - Draco levantou os olhos, estudando as íris do namorado bem de perto. - Essa cor não é normal. Não pode ser. Além disso, o que mais poderia explicar o fato de que eu, Draco Malfoy, fiz uma serenata pra você - Draco bateu na própria boca. - Está vendo? Eu não acredito que eu usei a palavra "serenata" e o meu nome numa mesma sentença! Por favor, me belisque, eu devo estar preso em algum pesadelo!

- Hum não precisa pedir duas vezes - Harry finalmente deu um selinho em Draco e pretendia dar também um beliscão em sua coxa, mas algo o impediu. - Epa! O que é isso? – perguntou, sentando-se nos próprios tornozelos.

Draco riu, debochado, retirando o celular do bolso.

- Chama-se celular, dizem que é muito útil.

- Engraçadinho...

- Verdade! Além de fazer e receber chamadas, mensagens, e-mails, ainda tem joguinhos e tira fotos! Recentemente, eu descobri que é um ótimo instrumento de espionagem, sabe?

- Sério? - os olhos de Harry se arregalaram e ele tentou pegar o aparelho, mas Draco tirou-o de seu alcance.

- Na-na-não! Eu já ia me esquecendo - o loiro tirou uma mecha do cabelo da testa e abriu o celular, concentrando-se. - Estou te devendo uma coisa...

- O quê? - Harry observou, curioso, o estranho ritual que se seguiu.

Draco sacudiu os cabelos para se livrar de qualquer sujeira que tenha persistido e tornou a arrumá-los sem dificuldade nenhuma. Então segurou o celular de costas, da maior distância que seu braço alcançava, umedeceu os lábios rapidamente com a língua e ajustou o ângulo de seu rosto para ficar meio de lado para a minúscula câmera do aparelho, de modo a esconder o avermelhado do machucado em seu rosto. Ele piscou algumas vezes e lançou um rápido olhar para o moreno de boca aberta, bem a seu lado. Sorriu.

- Fecha essa boca, Harry.

E antes que Harry esboçasse qualquer reação, ele voltou a encarar a câmera bem no momento em que o flash bateu, lançando uma claridade ofuscante à sua pele pálida.

- Pronto - disse, como se nada de anormal tivesse acontecido. Deu uma checada rápida na foto recém tirada, como se não tivesse dúvidas de que tinha saído perfeita - o que Harry não duvidava - e fechou o celular com um "flip" macio. Deslizou-o para o bolso da calça novamente. - Vou mandar revelar para você colocar no seu quadro.

Harry piscou algumas vezes, só então fechando a boca. Franziu o cenho.

- Como assim? Só uma foto?

Foi a vez de Draco piscar.

- Bem, eu posso tirar mais, se você quiser. Mas vai sair caro, pode ter certeza. Pensa que eu saio distribuindo fotos minhas assim, a torto e a direito? Aliás, eu tenho algumas no meu computador que... hey! Me devolva isso!

Enquanto Draco fazia seu modesto discurso, Harry tinha se aproveitado da distração para deslizar agilmente os dedos para o bolso do namorado, retirando o celular sem dar tempo de o outro reagir.

- Se você quer fazer um serviço, faça direito, Draco... hey! - disse o moreno, assim que deu de cara com o wallpaper. - Eu conheço esses olhos.

- Me devolve isso - Draco fez mais uma tentativa infrutífera.

- Espere! Eu... eu me lembro disso! Foi a Luna quem tirou! Mas... como? Draco!

Draco levou um tapa na mão e um olhar que deixava bem claro que não teria outra alternativa, a não ser contar exatamente o que aconteceu.

- Sim, fui eu quem pediu que ela tirasse aquelas fotos suas. Sou culpado de todas as acusações, satisfeito?

Harry apenas sorriu, travesso.

- Quer dizer que fica pagando a outros para que tirem fotos minhas! O que mais você andou fazendo, hein? Vamos, confesse.

- Humm... além de espiar todos os seus treinos de uma das esteiras da academia e se trocando no vestiário?

- Seu pervertido, filho da mãe! Não acredito que você fez isso!

- Culpe a Natalie! - Draco levantou ambas as mãos para cima.

- Sei... - Harry voltou a atenção para o aparelho novamente, ativando a câmera sem dificuldade nenhuma e se acomodando melhor ao lado de Draco, encostando suas têmporas. - Diga "xis", Draco.

Flash!

- Hey! Eu não tive tempo de me preparar - protestou Draco, impaciente. - Eu posso ter piscado bem na hora, e você fotografou o lado machucado do meu rosto! Ou meu cabelo pode estar...

- Então vamos tentar de novo.

Flash! Flash! Flash!

Harry aproveitou para tirar algumas fotos de Draco irritado, afastando-se de seu beijo, tentando recuperar o celular... mas logo Draco cedeu e entrou na brincadeira. Eles gastaram um longo e agradável tempo nisso e revezavam para bater as fotos - que não foram poucas. Sorrindo; fazendo caretas - Harry era muito bom nisso -; de bochechas coladas; se beijando - inclua essa várias vezes -; se abraçando; Harry no colo de Draco; deitados na grama com os cabelos sujos; os dois mordendo uma mesma maçã; o loiro tocando violão... Draco até mesmo pediu para Harry deitar sobre ele e tirou uma foto do moreno sem óculos, com as folhas da macieira ao fundo, mas se recusou a explicar o motivo. Seria embaraçoso ter que admitir que vinha tendo esse tipo de sonho havia algum tempo.

- Como você consegue ser tão fotogênico? - Harry perguntou, admirado, enquanto examinava pela primeira vez as fotos tiradas. Estava encostado ao tronco da macieira com Draco sentado entre suas pernas, as costas do loiro contra seu peito, de modo que os dois pudessem ver as fotos.

Draco estufou o peito.

- É um dom natural, é claro que você não saberia como funciona... tsk... Mas me diga, como você vai fazer pra colocar mais alguma foto naquele seu quadro? Não acha que ele está um pouco lotado, não?

- Ah, eu dou um jeitinho. Sempre cabe mais umas fotos lá. É claro que não muitas, eu vou ter que selecionar umas duas ou três, só. Também tenho um porta-retrato que ganhei no último aniversário e que não ocupei ainda. Essa eu já sei qual vai ser.

Harry navegou entre as fotos até achar uma em que os dois sorriam radiantes, os rostos próximos o suficiente para suas bochechas se tocarem, mas ainda assim, poderiam passar facilmente por dois grandes amigos se divertindo.

- Essa. Vai ficar na sala - disse Harry, sorridente.

- Num lugar de destaque, eu suponho - Draco praticamente exigiu isso. Na verdade, tinha apreciado a escolha de Harry, principalmente depois de perceber o destaque que a luz tinha dado à covinha do lado direito de seu sorriso tão característico, além de ter disfarçado o seu machucado.

- Bem, eu não garanto... Se Sirius perceber que eu estou dando maior destaque a nossa foto do que a dele com Moony e Prongs, ele não vai deixar barato...

- Hunf... - Draco fungou, desgostoso.

- Oh, e por falar em Sirius, acho melhor nós irmos andando, já está escurecendo - o moreno fechou o aparelho celular e o devolveu ao dono.

- Ahhh fica mais um pouco, fica? - Draco se aconchegou mais de encontro a Harry, fazendo uma voz manhosa.

- Por que você não vem pra minha casa? A gente pode aproveitar mais um pouquinho nosso primeiro dia de namoro, hein? - Harry beijou a têmpora do loiro, alisando os fios macios de sua franja.

Draco suspirou, levantando-se e Harry fez o mesmo. Ambos espanaram a sujeira das vestes.

- Melhor eu ir pra casa - disse Draco, por fim, e Harry fez bico. - Não quero que meu pai pense que eu estou fugindo dele.

Harry notou certa amargura na voz do namorado e como ele evitou encara-lo nos olhos. Estava bem claro que Draco realmente estava fugindo do pai, mas Harry podia entender muito bem sua reação. Ainda mais se tratando de um assunto tão delicado quanto o orgulho Malfoy.

- Está bem - Harry concordou, mas não desfez seu bico, propositalmente.

Draco sorriu e aproximou-se, envolvendo-o em seus braços e iniciando um beijo longo e profundo. Quando eles finalmente se desgrudaram, se encararam com lábios avermelhados e olhos brilhantes que diziam muito mais que palavras.

- Te vejo amanhã? - perguntou o moreno.

- Com certeza. Vou te esperar no pátio no intervalo, ok? - Harry assentiu e Draco tomou uma postura mais ameaçadora. - E é bom você já ir pensando em alguma desculpa pra fazer umas visitas ao meu escritório, à tarde, porque se eu tiver que te chamar, vai ser muito pior, fui claro?

- Sim, chefe. Como quiser, chefe! - Harry bateu continência da melhor maneira que pôde, já que Draco ainda o abraçava.

Draco enterrou o nariz na curva do pescoço do moreno e aspirou seu perfume uma última vez.

- Liga pra mim antes de dormir? - sussurrou em seu ouvido, sentindo os pêlos de sua nuca se eriçarem sob seus dedos.

- Ligo. Não esquece de me mandar as fotos?

- Não vou esquecer - Draco sussurrou mais uma vez, dessa vez próximo aos lábios do moreno, antes de beijá-lo uma última vez.

Se afastaram relutantes e pegaram as bicicletas. Pelo caminho, quando a trilha era plana e enquanto ainda não havia possibilidade de serem vistos, seguiram de mãos dadas enquanto guiavam com uma só mão. Ao chegarem no parque aberto, o sol já tinha se posto e os postes de luz pareciam não fazer muito efeito perante a luz turva do anoitecer. Despediram-se com um simples "Até logo", mas o pequeno instante em que se entreolharam, valeu por uma longa despedida e uma promessa de que aquele dia fora somente o começo do resto de suas vidas.

Juntos.

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N.A.: Nunca achei que seria tão difícil escrever esse capítulo. Por quê? Simplesmente porque foi o último. Finais de fic, ou são muito bons, ou são muito ruins, daqueles que decepcionam a gente. Espero que este não seja o caso e que pelo menos eu tenha criado uma categoria intermediária de "finais de fic". Que vontade de chorar!

Sobre o capítulo, a música é Green Eyes - Coldplay, e ela estava planejada para esse capítulo desde o início da fic (pra quem prestou atenção, eu deixei uma pista nas Notas da Autora do primeiro capítulo). Espero que a cena dos vizinhos não tenha sido tão enfadonha... eu achei que seria interessante apresenta-los, só pra deixar a impressão de que a vida continua e que coisas novas aparecem a cada dia! Ou, no caso, pessoas novas rsrsrs.

Desde HBP, eu passei a imaginar Narcissa do jeitinho que eu escrevi nesse capítulo: com instinto maternal no lugar certo, manipuladora e, acima de tudo, elegante - aqui caberia esnobe também rsrs. Pra quem sentiu falta da Natalie, ela volta no epílogo, ok?

Quanto às cenas do casal principal... bom, tentei misturar bom-humor com romance e até algum atrevimentozinho... não queria deixar muito água-com-açucar, espero ter conseguido...

Bom, eu gostaria de agradecer a compreensão de vocês, o apoio que tenho recebido - apesar das cobranças, que de um jeito ou de outro sempre aparecem - desde o início da fic! Mas todo esse blá-blá-blá de autora chorona, eu vou deixar para o epílogo - sim, o Epílogo, socorro!

Passei por uma longa época de provas e quando as férias finalmente chegaram, fui acometida por uma "alergia a computador", não sei se vocês já ouviram falar rsrsrs. Passei bastante tempo lendo, pra ver se me curava, e quando começou a bater aquela saudade do pc, houveram várias alterações no meu serviço - eu não tenho mais um pc só pra mim - e a fonte do meu pc queimou, o que me fez passar bem umas quatro semanas sem.

Enfim... depois de muito tempo lutando com o finalzinho desse capítulo, espero que tenha valido a pena! Apesar da tristeza por ser o final de uma longa - e prazerosa - jornada, estou satisfeita com Green Eyes, graças às críticas de vocês!

Eu TENHO que agradecer e oferecer o capítulo à minha grande amiga e beta Lunnafe (vc soube muito bem como me emocionar mais que o normal dessa vez, Fefê!); à querida Nessa, que está sumida, mas que ainda mora no meu coração (beijos, linda!); à Dany e à Arsínoe, que sempre me incentivam; à Anna Malfoy e suas dicas mágicas; ao Marcos Tardeli, que logo logo vai ser meu vizinho (uhauhauhua ;D); e por último, mas não menos importante, à minha irmã e grande amiga de todas as horas, Idril Anarion.

E, é claro, agradeço de coração a todos que revisaram: Harumi Chan, Monica Dias, Torfithiel, YUkI.NeKO.KUn, Kah Slytherin, Anastasia K., Larme Delamort, Sarih, Lucas Mello, Sarah Costa, Eri Potter, carolzita malfoy, Nikkih, brian white, Tallentiertgould, kaio, Nessa Reinehr, RAYLATAN TIDAL TEMPEST, Clara dos Anjos, Maaya M., .lee., kamila, Mr.Marple, Cherryx, LeLeCa SaPeCa, lovecandy, Alis Clow, Ainsley Haynes, Ana K13 Poste, Fefah, Sy.P, Sam Crane, msmdhr, Patrycia, watashinomori, Nina Black Lupin, Arwen Mione, Alice P., Laura Piovesan, Barbara G., Larissa, Ainsley Haynes, biancaw, Ainsley Haynes, Moony, Marck Evans, tachel, Lena, Yoko Hiyama, Torfithiel, Mel Arwen, Amanda Poirot, Ana Paula, Juliana, Cin, Lady Athena-chan, Srta Black, Mewis Slytherin, Bela-chan, -Bem-Te-Vi-, Reh Brown, Shiva Shakti, Ivinne, Srta. Kinomoto, Thatah, Ayla Potter, LilsEvns, Mel Deep Dark, Mathew Potter Malfoy, Marcos Malfoy, Paula Lirio, DW03, Anna Malfoy, Northon Spears Malfoy, Pandora Black, Daia, paula, Neguinha, Isis, taci malfoy, Moi lina, Sakuya, Lís, Felton Blackthorn, Carol, gutinha, Sha, Dieggo, Karla Malfoy, ScheilaPotter. Espero não ter esquecido de ninguém. Recebi uma review fofa dia 23, mas a pessoa deve ter esquecido de se identificar. Por favor, se identifique!

Esse capítulo é dedicado também a vocês e a todos que vêm acompanhando a fic, mesmo sem se pronunciarem, aos que esqueceram de comentar, aos que não sabem o que dizer, aos que não tiveram tempo de deixar um olá... e também aos que ainda irão ler a fic!

Me desculpem, eu não venho tendo tempo de responder reviews, então achei por bem não responder nenhuma, já que não posso responder a TODAS. Leio cada uma delas, me emociono, fico rindo feito boba na frente do pc, abraço um travesseiro, bato os pés no chão... é tão bom receber reviews! Por favor, não desistam de revisarem! Não desistam de mim! Eu ainda tenho um epílogo pra escrever, preciso saber a opinião de vocês, preciso de incentivo!

Ainda não é uma despedida, então, até o Epílogo - que não deve ser muito extenso, por isso eu acredito que não demore a chegar. Beijos!

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N.B./ Esta Beta agradece imensamente o carinho de todos vocês com seus reviews e palavras de apoio (mesmo qdo cobranças) pra nossa querida Amy! Mas não quero atrapalhar o lindo discurso da Amy (enxugando as lágrimas), e vamos ansiosamente esperar pelo epílogo, pois mtos assuntos ficaram pendentes... (ou esta seria uma tática mercadológica para deixá-los com mta curiosidade!) XD (sorriso maléfico) Agradeço a todos pela paciência e apoio neste longo tempo de espera para este capítulo, e também explico que com um problema de mudança de casa, eu também demorei um pouco para betar, e foi uma espera justificada... ficou ótimo, não! Para que o epílogo não demore mto, faço um desafio! Vamos bater o recorde de reviews pra Amy, o que acham!