Epílogo
9 meses depois...
Merlin encarou o porta-retratos na estante, arrumando-o um pouco para a esquerda em seguida antes de se afastar, inclinando a cabeça para um lado e para o outro, analisando-o. A foto fora tirada por um fotógrafo profissional no casamento de Morgana e tanto Arthur quanto Merlin usavam terno e gravata, sorrindo para a câmera como se eles próprios fossem os noivos.
"O que você acha?" Merlin perguntou ao ouvir Arthur sair do closet, encarando-o pelo reflexo do espelho.
"E por acaso minha opinião importa?" Arthur respondeu secamente, ao que Merlin rolou os olhos.
"Arthur, por favor..." Merlin já ia apelar para o senso de razão do namorado quando a campainha tocou, fazendo com que se sobressaltasse.
"Eu atendo" Arthur falou, já rumando para a porta.
"Onde é que eu guardo isso?" Merlin perguntou ligeiramente exasperado, apontando para uma caixa que estava bloqueando a TV.
"Coloque dentro do closet que depois eu vejo" Arthur disse sem olhar para trás e saiu.
Merlin mordeu o lábio inferior, olhando ao redor. Já fazia uma semana que eles tinham se mudado para o antigo apartamento de Morgana e as coisas ainda estavam longe de ficar totalmente em ordem, mas pelo menos eles conseguiram esconder boa parte da bagunça. Merlin pegou a caixa soltando uma exclamação de surpresa ao perceber que era mais pesada do que parecia e levou-a até o closet de Arthur – Merlin tinha seu próprio closet agora –, grunhindo ao colocá-la no chão. Apenas por curiosidade, Merlin espiou o seu conteúdo. Havia várias cadernetas de aparência gasta e seus olhos se arregalaram ao reconhecer a capa de uma delas.
"Ah, Arthur..." Merlin sorriu, sentindo parte da sua frustração se dissolver conforme alisava a capa antes de abri-la, folheando as páginas cheias de felicitações dos funcionários da Pendragon pelo aniversário de vinte e nove anos de Arthur. Merlin mordeu o lábio inferior ao chegar à última página, onde sabia que encontraria sua própria caligrafia e deu um passo para trás quando alguma coisa dourada escorregou de dentro da página para o chão. "Ah, meu Deus..." Merlin exclamou ao se abaixar para pegar a embalagem alisada da moedinha da Starbucks com que havia presenteado Arthur exatamente um ano atrás. Havia ainda uma foto da entrega dos brinquedos no orfanato e Merlin lembrou-se do rostinho encantado de Drea ao vê-la posando para a câmera ao lado de Arthur.
"Merlin?" ele ouviu a voz de Morgana vinda do quarto e guardou o caderno e a foto de volta na caixa rapidamente, terminando de arrastá-la até debaixo de uma prateleira mais afastada, respirando fundo e piscando rapidamente para dissipar a ardência em seus olhos.
"Aqui" Merlin falou ao sair, sorrindo para a cunhada, que deixou algumas sacolas na cama antes de abraçá-lo.
"Ei, até que está tudo arrumado por aqui" Morgana falou, olhando ao redor. "Adorei a decoração, aliás."
"Obrigado" Merlin agradeceu o elogio, sem jeito. "Nem acredito que finalmente tenho uma televisão no quarto! Eu costumava sonhar com isso, quando era criança."
"Ah, que fofo" Morgana apertou sua mão antes de soltá-la. "Se bem que acho que Arthur não gostará de disputar sua tenção todas as noites." Ela pareceu considerar por um minuto antes de balançar uma das mãos, como se isso não importasse. "Ah, aqui estão os presentes" ela alcançou as sacolas. "Este é do Arthur e este é seu."
"Meu?" Merlin arregalou os olhos. "Mas não sou eu o aniversariante!"
"Considere um presente de boas-vindas ao novo lar, então" Morgana falou, empertigando-se quando Merlin espiou dentro da sacola, sentindo um gelo no estômago ao ter um vislumbre de renda. Lembrava-se de ter visto algo parecido numa vitrine, numa das suas idas ao shopping com Morgana para o chá de lingerie de Gwen. "Acho que Arthur vai apreciar mais o seu presente, de qualquer forma" ela concedeu, vendo a reação de Merlin.
"Você não fez isso..." Merlin falou, sentindo o sangue se acumular em suas maçãs do rosto conforme voltava a fechar a sacola, afastando-a, como se contivesse algum material radioativo. "Morgana!"
"Não precisa me agradecer" ela piscou marotamente.
"Mas... eu disse que nunca seria capaz de usar isso!"
"Não, você disse que não seria capaz de comprar" ela falou e Merlin gemeu, escondendo o rosto nas mãos.
"Morgana, você é terrível!"
"E você me adora."
"Não consigo me lembrar do porquê" Merlin reclamou, mas deixou que ela segurasse suas mãos, abaixando-as.
"Ei, você não precisa usar. Mas deveria. Sinceramente. Vai ficar perfeito em você e tenho certeza que Arthur vai adorar."
"Não sei se consigo" Merlin admitiu. "Eu morreria de vergonha."
"Ora, deixe de bobagens. Você não teria nenhum motivo para se envergonhar. Eu já vi você de maquiagem e sei do que estou falando" Morgana falou com convicção, voltando a colocar a sacola perto dele quando a campainha tocou novamente. "Olha, você não precisa usar agora. Apenas pense a respeito. Mas certifique-se de me dizer como foi, depois" ela piscou e levantou-se. "Bem, vou ver se sua mãe está precisando de ajuda na cozinha. Você vem?"
Merlin assentiu apesar de saber que dificilmente compartilharia aquele tipo de informação com Morgana e guardou as sacolas dentro do seu closet, respirando fundo antes de descer. Seu olhar encontrou o de Arthur, mas o loiro desviou em seguida, continuando sua conversa com Leon como se nada tivesse acontecido. Resignado, Merlin forçou um sorriso ao dar as boas-vindas aos convidados.
Gwen e Lance tinham chegado com a pequena Katie¹ no colo e Merlin aproximou-se para cumprimentá-los. Ele gostava de crianças, mas não era muito fã de bebês. Apesar disso, conseguia entender o motivo de todos ficarem babando ao redor de Katie depois de espiá-la por cima do ombro de Morgana.
Depois de oferecer bebidas para os recém-chegados, Merlin pôs-se a terminar de arrumar a mesa. Gwen deixou Lance encarregado de cuidar da bebê e ela e Morgana juntaram-se a Merlin e Hunith na cozinha, que era bem maior do que a do antigo apartamento, com uma mesa de jantar para oito pessoas. Arthur tinha providenciado – ainda que a contragosto – outra mesa de montar na varanda, mas mesmo assim alguém teria que comer no balcão ou no sofá. Merlin tinha convidado apenas a família de ambos e os amigos mais próximos, porém era mais pessoas do que eles poderiam acomodar para um almoço.
Arthur não ficara muito empolgado com a perspectiva, a princípio, relutante em dar uma festa de aniversário. Ele achava que escaparia do alvoroço pelo fato de a data ter caído num sábado àquele ano, mas Gwaine organizara as arrecadações na Pendragon para doação no dia anterior, sexta-feira, como de costume, e Merlin argumentara que eles teriam que fazer alguma coisa para inaugurar o novo apartamento, então poderiam muito bem aproveitar a ocasião.
Agora, no entanto, Merlin se via arrependido de ter forçado a situação quando Arthur parecia determinado a evitá-lo pela duração do evento. Merlin não estava acostumado a dar festas. Na verdade, aquela história de ser anfitrião estava deixando seus nervos à flor da pele e a atitude de Arthur só piorava a situação ainda mais. Aproveitando-se da chegada de Mordred e Kara, Merlin aproximou-se para oferecer uma cerveja para Arthur num pedido de trégua, mas ele limitou-se a recusar com um aceno de mão, sem deixar de conversar com os amigos.
Merlin saiu para a varanda para tomar a cerveja, aproveitando para tomar um ar e tentar se acalmar. A princípio, quando Morgana disse que estava se mudando e ofereceu seu apartamento, Merlin relutara por causa da altura. Mas descobriu que poderia lidar com seu medo de altura se pudesse ter aquela vista todos os dias, principalmente no pôr do sol e à noite, quando a cidade se coalhava de luzes como um céu estrelado.
"Aconteceu alguma coisa?" Morgana perguntou, juntando-se a ele.
"Ah, só o de costume" Merlin encolheu os ombros. "Você conhece o seu irmão. Sabe como ele fica no próprio aniversário."
"Sim, eu sei. Mas o mínimo que ele poderia fazer era ter um pouco de consideração pelo seu esforço."
Merlin ofereceu-lhe um sorriso agradecido, mas não estava no humor para falar sobre aquilo. Até porque, não achava que conversar com Morgana resolveria alguma coisa, já que ela não sabia de toda a história. A verdade é que se sentia culpado.
"Então, como está de casa nova?" Merlin perguntou, mudando de assunto.
"Não tenho do que reclamar" Morgana suspirou. "Ou melhor, não tinha, até conhecer o vizinho da frente" ela fingiu um arrepio. "Cristo, que homem desagradável. O fato de ele me lembrar Cenred também não ajuda muito."
Merlin sorriu, meneando a cabeça. Uma das primeiras medidas que Morgana tomara ao assumir a presidência fora rebaixar Cenred para assessor novamente, nomeando outra pessoa como gerente da Contabilidade em seu lugar. Como já era de se esperar, Cenred não aceitou a humilhação e pediu demissão logo em seguida. Havia quem dissesse que ele e Sophia Feix – que fora demitida após ser surpreendida compartilhando informações confidenciais com a concorrência – estavam fazendo uma sociedade para começar uma concorrência, mas Morgana e Arthur não pareciam preocupados com a perspectiva.
"Já encomendou os bebês para encher todos aqueles quartos?" Merlin pressionou, ao que Morgana lançou-lhe um olhar atravessado.
"Nem comece, você também" ela avisou, pegando a garrafa de cerveja da sua mão para tomar um gole. "Se deixar isso por conta de Leon, ele provavelmente teria seu próprio time de futebol" ela ofereceu a garrafa de volta, mas Merlin declinou. "Por que você acha que ele fez questão de que nos mudássemos para uma casa?"
"Mas você quer ter filhos?" Merlin encarou-a, curioso.
"Eu quero" Morgana assentiu, seu olhar se suavizando. "Mas quero no máximo dois."
Merlin seguiu a linha de visão dela para dentro da sala, encontrando Arthur com Katie no colo, sorrindo e balançando-se nos próprios pés como se a ninasse. A cena fez com que Merlin experimentasse um misto de ternura e apreensão, sentindo um friozinho na barriga que destoava completamente da temperatura abafada daquela manhã.
"E quanto a você?" ele ouviu Morgana perguntando ao seu lado.
"Hã?"
"Você quer ter filhos?" Morgana perguntou, estudando-o atentamente.
Merlin desviou os olhos dela para a cena do lado de dentro novamente, assistindo conforme Arthur sorria e levava o dedo até o nariz de Katie, sua mão parecendo anormalmente grande comparada à cabeça do bebê. Merlin engoliu em seco. Não conseguia sequer visualizar a si mesmo segurando uma criatura frágil como aquela sem imaginar mil e um acidentes horríveis, quanto mais ter uma dependendo dele para sobreviver.
"Não sei" Merlin admitiu, franzindo o cenho. "Você acha que Arthur quer?"
"Vocês nunca falaram a respeito?" Morgana perguntou, ao que Merlin negou com a cabeça lentamente. "Bem, você é muito novo, de qualquer jeito. Talvez seja por isso que Arthur nunca tenha tocado no assunto com você. Mas você deveria perguntar para ele, se quer mesmo saber."
Merlin assentiu, apesar de seus pensamentos estarem longe dali. Até pouco tempo atrás, Merlin sequer imaginava que cogitaria a possibilidade de se casar com alguém. Ele gostava da ideia de se casar e já até fantasiara com aquilo algumas vezes – uma vez até vestira o velho vestido de noiva de sua mãe e encenara um casamento com Will, informação que ele esperava que Arthur nunca sequer sonhasse –, mas uma coisa era sonhar se casando com um desconhecido no futuro, outra totalmente diferente era visualizar a si mesmo no altar com alguém em específico. Entretanto, desde o casamento de Morgana ele começara a pensar a respeito e a possibilidade de se casar com Arthur num futuro não tão distante não parecia nada absurda. Muito pelo contrário.
Ainda assim, a possibilidade de Arthur querer filhos o assustava. Talvez Morgana tivesse razão sobre ele ser novo demais para pensar naquilo.
Merlin teve seus pensamentos interrompidos pela campainha. Ele pediu licença para Morgana e correu para atender à porta.
"Sr. Pendragon!" Merlin exclamou, arregalando os olhos ao ver Uther parado à sua porta, vestindo roupas leves e de braço dado com Catrina. "Que bom que veio!" ele disse assim que se recuperou da surpresa.
"Espero não termos atrasado muito" Uther falou um tanto formalmente, entregando uma garrafa de vinho para um Merlin abobalhado.
"Não, de maneira nenhuma" Merlin garantiu. "Ainda tem mais algumas pessoas para chegar."
"Você está maravilhoso, querido" Catrina falou, pegando-o de surpresa ao segurar seus ombros e beijar seu rosto. "Bela camisa."
"Ah, obrigado" Merlin piscou, desviando os olhos para a própria camisa, evitando o escrutínio do pai do namorado. "Foi Arthur quem me deu."
"E nós dois sabemos que ele tem muito bom gosto" Catrina continuou, piscando um olho. "Gostei do visual, a propósito. A barba faz você parecer mais maduro. Você definitivamente deveria mantê-la. Aqui, trouxemos uma pequena lembrança."
"Vocês não precisavam..." Merlin aceitou a sacola. "Por favor, entrem!" ele deu espaço para que eles entrassem e aproveitou para respirar fundo enquanto fechava a porta, tratando de colocar um sorriso no rosto ao encará-los novamente. "Fiquem à vontade!"
"Ah, você fez um ótimo trabalho com a decoração!" Catrina exclamou, olhando ao redor enquanto Uther se adiantava para cumprimentar Hunith, que finalmente tirara o avental e se juntara aos demais convidados. "Sempre achei o antigo apartamento de vocês um tanto impessoal."
"Hm... obrigado" Merlin falou, aproveitando quando ela seguiu para a sala, acenando o braço para chamar a atenção de Arthur. "Seu pai está aqui!" ele moveu a boca sem fazer nenhum som, ao que Arthur arregalou os olhos, surpreso, juntando-se a eles para cumprimentar o pai.
"Achei que você tinha dito que ele não viria" Hunith falou no seu ouvido assim que eles acompanharam Arthur até o sofá, cumprimentando os demais convidados.
Merlin relutara em aceitar a ajuda da mãe com o almoço, assegurando-a de que poderia muito bem se virar sozinho na cozinha, mas Hunith insistira em ajudar argumentando que ele já teria muita coisa para se ocupar como anfitrião. Agora Merlin não pôde evitar uma onda de gratidão pela mãe por ela não ter aceitado sua recusa.
"Eu tinha certeza que ele não viria!" Merlin exclamou, ainda abobalhado.
"Arthur também, pelo visto" Hunith falou, observando a maneira como Arthur coçava a cabeça enquanto apresentava os amigos à madrasta.
Antes que Merlin pudesse responder, a campainha tocou novamente.
"Quer que eu guarde isso no andar de cima para você?" Gwen se ofereceu, apontando para a sacola. "Arthur insistiu que eu colocasse Katie para dormir no quarto de visitas. Ela está morrendo de sono, mas não vai dormir com essa bagunça toda..."
Agradecido, Merlin aceitou a ajuda e fez questão de dizer para ela ficar à vontade.
"Ei" Merlin voltou-se para a mãe, que colocou uma mão em seu rosto, sorrindo ternamente. "Relaxe um pouco, filho. Você está se saindo muito bem."
Merlin acenou afirmativamente, ainda que apenas para assegurá-la de que estava tudo bem, abrindo a porta em seguida.
"Merlin!" Gwaine comemorou ao vê-lo, puxando-o para um abraço. "Que saudades!"
Merlin preparou-se para dizer que eles tinham se visto ontem mesmo, mas o que saiu da sua boca foi algo totalmente diferente.
"Uther está aqui!" Merlin disse em tom conspiratório, ainda espantado.
"O quê? Sério?" Gwaine estranhou, passando por ele ao entrar, sem esperar ser convidado. "Onde está Elyan? Ele me deve dez pratas...!"
"Ei" Percy sorriu para Merlin, entregando-lhe outra sacola, ao que Merlin suspirou, resignado.
"Achei que o motivo de termos feito todas aquelas doações ontem era para que ninguém precisasse comprar presentes para Arthur."
"Ninguém gosta de ir a uma festa de aniversário de mãos abanando" Percy encolheu os ombros.
Antes que Merlin pudesse fechar a porta, ouviu o barulho do elevador e virou-se para ver Will saindo com uma expressão determinada no rosto e o celular numa das mãos.
"Me explique isso aqui" Will disse, sem se preocupar em cumprimentá-lo antes de enfiar o celular debaixo do nariz de Merlin.
"O que...? Ah!" Merlin reconheceu a foto que postara em seu Twitter naquela semana e sorriu, apontando para a foto. "Bem, esse sou eu e esse aqui com cara de bobo é o Arthur. Esse é o Ricardo Regufe, da Nike, e esse aqui é o..."
"Cristiano Ronaldo!" Will perdeu a paciência, sacudindo-o. "O CR7², Merlin! Quando é que você ia me contar...? Como foi que...? Quando...?"
"Ei, ei, calma!" Merlin falou, rindo da empolgação do amigo – e talvez de satisfação, também. "Lembra daquele evento que eu falei que iria com o Arthur, na quinta-feira? Aparentemente, ele estava lá fazendo publicidade."
"Porra!" Will falou, segurando os cabelos. "Quinta-feira? Por que você não me contou antes?"
"Eu esqueci!" Merlin mentiu descaradamente. Na verdade, Arthur tinha pedido que ele não dissesse nada, pois queria contar pessoalmente só para ver a cara de Will.
"Ah, cara, não acredito!" Will gemeu. "Arthur deve estar ainda mais convencido, depois dessa. Mas juro que vou tirar aquele sorriso prepotente da cara dele hoje, quando acabar com ele no Fifa..."
"Ah, não, você não vai..." Merlin começou, mas as portas do elevador se abriram novamente e os dois voltaram-se para ver quem saía dele.
"Elena!" Merlin exclamou, agradavelmente surpreso.
"Ei, Merlin!" ela disse com sua voz suave e seu sorriso fácil. "Espero não estar muito atrasada..."
"Que bom que você conseguiu vir!" Merlin falou, adiantando-se para abraçá-la. "Arthur ficará feliz em ver você."
"Que bom, pois tenho algumas novidades" ela piscou, cumprimentando um Will catatônico com um aceno de cabeça ao passar por ele.
Merlin conduziu-a para dentro, aceitando o presente que ela trazia e disse que ficasse à vontade. Quando Will fez menção de segui-la como um cãozinho apaixonado, Merlin puxou-o de volta para o hall de entrada, encostando a porta atrás de si.
"Will..." ele disse em tom de aviso, mas Will ainda estava com uma expressão abobalhada no rosto.
"Por acaso eu morri e fui para o céu?" Will perguntou, tentando espiar através da fresta da porta.
"Will!" Merlin falou por entre os dentes cerrados. "Essa é a ex-namorada do Arthur, Elena."
Aquilo pareceu acordá-lo.
"O quê? Sério?" ele pareceu confuso. "Aquele... anjo é a ex-namorada do Pendragon? Como isso é possível? Como ele pode ter largado aquele avião por você...?"
"Will, escute bem o que vou falar" Merlin falou, sacudindo-o. "Hoje é aniversário do Arthur. O pai e a madrasta dele estão aí. Minha mãe está aí e Gaius deve estar para chegar. Se você não se comportar, não vou pensar duas vezes antes de colocar você pra fora. Ou chamar minha mãe e Gaius para lidarem com você."
"Você não faria isso" Will se remexeu, incomodado.
"Melhor não pagar para ver" Merlin soltou-o e alisou sua camiseta antes de abrir a porta e indicar para que ele entrasse.
.M.
Gaius foi o último a chegar e o almoço foi servido logo em seguida. A mesa de jantar foi ocupada pelos familiares – e Gaius, que era praticamente da família – e os demais se espalharam pelo apartamento, conversando animadamente. Merlin não conseguia se concentrar totalmente na conversa ao seu redor, preocupado em não deixar faltar nada para seus convidados e ainda mantendo metade da atenção em Will, que se sentara perto de Elena no balcão da cozinha. Além disso, havia ainda o fato de que Arthur continuava seco com ele.
"Sogra, você se superou nessa comida" Arthur falou olhando para além de Merlin, já que Hunith tinha se sentado ao seu lado.
O restante da mesa fez coro ao cumprimento e Uther levantou sua taça de vinho.
"Está mesmo tudo muito gostoso, Sra. Emrys. Não é verdade, querida?" Uther voltou-se para a esposa.
"Maravilhoso" Catrina concordou, levantando também sua taça.
"Obrigada" Hunith agradeceu modestamente, mas então cutucou Merlin, soando preocupada. "Você acha que ela não gostou da comida? Eu não a vi colocar nada na boca até agora! Ela parece estar só jogando a comida de um lado para outro do prato!"
"Mãe, está uma delícia" Merlin tranquilizou-a. "Não se preocupe com Catrina. Eu já a vi fazer a mesmíssima coisa nos almoços em família. Ela deve ter alguma desordem alimentar ou coisa do tipo."
"Jura?" Hunith falou preocupada, mas pareceu mais conformada ao voltar-se para responder a algo que Morgana dizia.
"... vocês fizeram com o antigo apartamento?" Uther perguntou e Merlin demorou a perceber que o homem se dirigia a ele.
"Ah, Arthur colocou à venda" Merlin respondeu, baixando os olhos para o próprio prato, sem jeito. Pelo menos não tinha gaguejado, daquela vez. Merlin duvidava que um dia se acostumaria com a maneira interessada com que Uther se dirigia a ele, ultimamente.
"Vocês estão vendendo?" Elena perguntou, do balcão, antes que Uther pudesse dizer mais alguma coisa e Merlin se viu grato pela interrupção. "Estou procurando um apartamento por aqui!"
"Sério?" Arthur estranhou. "Você está voltando para Londres?"
"Bem, era isso que eu tinha para falar, na verdade" Elena continuou, tendo chamado a atenção de todos na mesa. "A empresa para a qual trabalho está abrindo uma filial aqui e fui nomeada Gerente Executiva!"
"Uau, isso é ótimo, Elena!" foi Merlin quem falou primeiro, ao que os outros concordaram, exceto por Arthur e Uther, que tinham o cenho franzido.
"Quer dizer que agora nós seremos oficialmente concorrentes?" Arthur falou, arqueando uma sobrancelha.
"Basicamente, sim" Elena deu de ombros, bem-humorada.
"Ora, não ligue para o meu irmão" Morgana falou, virando-se para encará-la. "Seja bem-vinda de volta. E um pouco de competição é sempre bom para os negócios."
"Posso ajudar com a mudança" Will se ofereceu, ávido. "Moro pertinho do antigo apartamento do Merlin."
"Ah, é?" Arthur bufou, encarando Will com desconfiança. "Engraçado, eu me lembro de você reclamando toda vez sobre o quanto tinha que andar até o metrô..."
Will lançou-lhe um olhar assassino, espetando um pedaço de pernil em seu prato com mais força que o necessário.
"Ah, bem, ainda não sei se tenho condições de bancar o apartamento de vocês" Elena falou, por fim. "Estava pensando em algo menor, de preferência mais próximo do metrô ou da estação de trem, já que vou ter que ir e voltar da França periodicamente."
"Ouvi Gwaine dizer que também está vendendo o apartamento dele" Leon comentou. "Não é muito longe do de Arthur, mas é mais perto do metrô. E menor."
"Gwaine está vendendo o apartamento?" Merlin estranhou, voltando-se para Leon. "Por quê?"
"Parece que ele e Percy estão procurando algo aqui por esses lados" Leon encolheu os ombros.
"Ah, ótimo!" Arthur comentou, soando estranhamente magoado. "Todos os meus amigos estão se mudando para mais próximo de mim e, enquanto isso, meu namorado está arrumando um jeito de ir para a América..."
"Arthur!" Merlin exclamou enquanto todos pareciam segurar a respiração por um momento, os talheres congelando a meio caminho da boca, os olhos arregalados.
"Ir para a América?" Hunith encarou o filho com o cenho franzido. "Como assim?"
Merlin engoliu em seco, corando ao sentir todos os olhos sobre si. Até mesmo a conversa no sofá parecia ter morrido, apesar de ele ainda poder ouvir as risadas de Gwaine, na varanda.
"Não é nada disso" Merlin falou, lançando um olhar ressentido para Arthur, porém ele evitou encará-lo de volta, tomando um gole do seu vinho. "Um dos meus tutores me ligou ontem perguntando se eu estava interessado em inscrever meu trabalho para um congresso de Economia em Boston."
"Uau!" Gwen exclamou, do sofá, confirmando as suspeitas de Merlin de que ela e Lance estavam ouvindo a conversa.
"Merlin, isso é fantástico!" foi Gaius quem exclamou, ao que várias pessoas concordaram, inclusive Hunith, que apertou sua mão. "Eu participei de um congresso lá, uma vez, lembra Uther?" ele voltou-se para o ex-patrão. "Eles dificilmente aceitam palestrantes não graduados."
"Exatamente" Merlin concordou. "O fato de eu me inscrever não quer dizer que serei chamado. Além do mais, mesmo se eu for chamado, eu provavelmente teria que ficar no máximo um ou dois dias..."
"Sim, mas me diga" Arthur falou, apontando o garfo para Gaius. "Por que exatamente as pessoas vão a esses congressos?"
"Ora, para se inteirarem sobre as tendências da área, fazer contatos, trocar experiências..."
"Pescar talentos" Morgana completou, da outra ponta da mesa e Arthur apontou o garfo para ela daquela vez.
"Exatamente" ele exultou. "Pensa que não sei o tipo de público que frequenta esses congressos? Olheiros de multinacionais com ofertas de trabalho obscenas de tão tentadoras. Aposto como não pensariam duas vezes antes de convidarem Merlin para ficar por lá ou até mesmo ir para qualquer outro canto do mundo!"
Aquilo finalmente fez com que Merlin saísse do seu estupor, encarando o namorado como se o visse pela primeira vez durante todo aquele dia. Até aquele momento, Merlin achava que Arthur estava fazendo uma das suas cenas de ciúmes gratuitas por causa daquele congresso pela perspectiva de Merlin ser o centro das atenções pela duração da palestra, mas agora começava a entender o verdadeiro motivo de toda aquela cena.
"Arthur" Merlin falou, tentando chamá-lo à razão. "Ainda que eu seja chamado para o congresso e ainda que eu receba um milhão de propostas de emprego, isso não significa que eu vá aceitar!"
"Então por que se dar ao trabalho de ir?" Arthur devolveu, irritado.
Merlin abriu a boca para dar uma resposta atravessada, mas foi interrompido por ninguém menos que Uther Pendragon.
"Arthur, seja razoável" Uther disse, encarando o filho com reprovação. "Você sabe que não se trata apenas disso. Trata-se do reconhecimento pelo esforço de Merlin. Só o fato de o professor dele ter escolhido o trabalho dele dentre todos os outros alunos já quer dizer alguma coisa. Merlin tem todo direito de buscar ser reconhecido e participar desse congresso só vai acrescentar para o currículo dele. Além do mais, ele é muito novo para se estabilizar profissionalmente. E daí se ele quiser alçar voos maiores? Não há muito que a Pendragon possa fazer para a carreira dele e talvez seja bom para ele manter algumas opções para o futuro."
Merlin piscou, perplexo, diante do silêncio que se seguiu àquelas palavras. Ao seu lado, Arthur tinha a boca ligeiramente aberta em muda estupefação.
"Eu não poderia concordar mais com você, pai" foi Morgana quem quebrou o silêncio, parecendo genuinamente orgulhosa, ao que se seguiram várias exclamações e afirmações, mas os olhos de Merlin estavam fixos em Arthur, cuja expressão de fechou de repente.
"Com licença" Arthur pediu e levantou-se antes que Merlin pudesse impedi-lo, subindo as escadas.
Merlin sentiu um toque suave em seu braço e olhou para mãe, que ofereceu-lhe um pequeno sorriso.
"Pode ir, querido. Morgana pode me ajudar a servir a sobremesa."
Merlin assentiu, agradecido. Já ia se levantar quando encontrou o olhar perscrutador de Uther. Após uma breve hesitação, Merlin ofereceu-lhe um pequeno aceno em agradecimento, ao que a expressão do homem se suavizou e ele voltou-se, então, para comentar algo com a esposa. Merlin respirou fundo e pediu licença ao se levantar.
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Arthur jogou um pouco de água no rosto para tentar se acalmar e olhou para o próprio reflexo, fazendo uma careta ao perceber que tinha sujado a camisa nova. Morgana ficaria possessa caso visse aquilo. Ele enxugou o rosto e voltou para o quarto, atravessando-o até as portas de correr que davam para a sacada e abrindo-as. Estava quente do lado de fora, mas não a ponto de ser desagradável. Ele debruçou-se no parapeito, olhando o movimento abaixo e tentando colocar seus pensamentos em ordem.
Não sabia se estava mais irritado com seu pai ou consigo mesmo. Nos últimos meses, Uther tinha se mostrado bastante razoável e muito mais calmo do que Arthur jamais pensou ser possível. Não tinha dúvidas de que a aposentadoria – bem como o casamento – estavam fazendo bem a ele, mas às vezes Arthur se pegava imaginando o quanto daquilo era apenas fachada. Uther provara que estava disposto a reconquistar a confiança do filho e era astuto o suficiente para saber que o melhor caminho para conseguir aquilo era tratando Merlin com respeito e consideração. Ainda assim, Arthur tinha certa dificuldade em acreditar que ele fazia aquilo por algo além de interesse próprio. Da mesma maneira, Arthur tolerava os almoços em família e se esforçava para ser educado e cortês com o pai porque sabia o quanto Merlin valorizava sua aproximação com a família.
Entretanto, Arthur jamais teria imaginado que Uther pudesse defender Merlin com tamanha convicção como ele fizera naquele dia. E o pior era que Uther o havia defendido do comportamento mesquinho do próprio filho! Arthur sentiu-se envergonhado só de lembrar o que fizera, a maneira como acusara Merlin injustamente na frente de todos.
A verdade era que sentia-se frustrado. A começar por aquela maldita festa. Tudo que Arthur queria era ter Merlin só para ele o fim de semana todo, mas Merlin tinha insistido naquela história de almoço e Arthur não vira alternativa senão concordar. Então, na noite anterior, Merlin mencionara aquela história do congresso em Boston, cheio de empolgação. Tudo aquilo, somado ao fato de Merlin ter cortado o cabelo no dia anterior e ao humor sombrio que o acometia sempre no dia do seu aniversário, culminara naquela cena vergonhosa e agora tudo que Arthur mais desejava era voltar no tempo até o início daquela semana e começar tudo de novo só para não ter que se lembrar da expressão traída de Merlin.
Arthur ouviu a porta do quarto se abrindo seguido dos passos suaves de Merlin se aproximando, mas permaneceu imóvel, esperando pelo confronto que sabia ser inevitável. Apertou os dentes com força, preparando-se para o momento em que Merlin gritaria com ele, mas foi pego desprevenido pelo toque suave nas laterais do seu corpo conforme Merlin o abraçava por trás, encostando o nariz na curva do seu pescoço e pousando um beijo suave ali.
"Ei..." Merlin murmurou e só então Arthur permitiu-se relaxar, cobrindo uma das mãos de Merlin com a própria.
Eles ficaram em silêncio por um momento e Arthur podia imaginar Merlin com os olhos fechados, mesmo sem olhar para o lado. Sabia que ele não gostava de chegar tão perto do parapeito e aquilo fez com que se sentisse ainda mais enternecido pela atitude do namorado.
"Você sabe que não vai se livrar de mim tão fácil assim, não sabe?" Merlin falou próximo ao seu ouvido e Arthur fechou os olhos por um instante.
"Não mesmo?" Arthur perguntou, virando-se para encará-lo, ao que Merlin deu um passo para trás, mantendo as mãos em sua cintura. "Por mais que me doa dizer isso, meu pai tem razão. Minha vida inteira foi na Pendragon Consultoria e sempre vai ser, mas a sua não tem que ser sempre lá. Aliás, não seria justo quando nós dois sabemos que você pode conseguir coisa muito melhor."
"Poder não significa querer, Arthur..."
"Mas você deveria querer!" Arthur insistiu. "Você tem dezenove anos, Merlin! E, seja honesto comigo, você está feliz na Pendragon?"
"Arthur, você sabe que eu sempre quis..." Merlin começou, mas Arthur interrompeu-o.
"Eu sei que é o que você queria, mas você está realmente feliz lá?"
Merlin desviou os olhos e Arthur suspirou. Por mais que desejasse acreditar que Merlin estava realizado profissionalmente, sabia que as coisas não eram tão simples. Merlin não reclamava de nada, mas Arthur sabia que ele estava sofrendo com o preconceito, tanto dentro quanto fora da empresa.
Eles não escondiam mais o relacionamento deles. Muito pelo contrário: eles iam almoçar juntos sempre que possível e Arthur fazia questão de levar Merlin como seu acompanhante sempre que participava de algum evento pela empresa. As pessoas costumavam respeitar Arthur por sua posição dentro da empresa e, até onde sabia, ninguém nunca fizera nenhum comentário pejorativo ou discriminado Merlin abertamente, mas eram os detalhes que incomodavam.
As pessoas não acreditavam que Merlin conquistara sua posição dentro da empresa. Por mais que Morgana tivesse feito a seleção de modo transparente, poucas pessoas tinham acesso àquele tipo de informação e as fofocas corriam muito mais rápido do que os fatos. As pessoas não levavam Merlin a sério, tanto funcionários quanto clientes, e Arthur só poderia imaginar o quanto Merlin estava sofrendo com aquilo. Principalmente porque sabia que ele era muito mais capaz do que a grande maioria dos funcionários. Arthur sabia muito bem como era aquilo, pois já sofrera aquele tipo de preconceito na pele – e ainda sofria, na verdade, mas já passara do ponto de se importar.
"Sinto muito" Arthur falou, por fim, sentindo um peso ser tirado do seu peito quase instantaneamente. "Sei que fui um idiota egoísta hoje. Sei que você se esforçou para fazer tudo isso para mim, pelo meu aniversário. E sei que não é justo querer que você se contente com o que tem só para não correr o risco de perder você, mas... Quando penso que algum dia isso não vai mais ser suficiente para você..." foi a vez de Arthur desviar os olhos, sentindo a garganta se fechar.
"Ei..." Merlin tocou seu rosto suavemente, buscando seu olhar. "Olha, talvez você tenha razão. Talvez eu não me contente com isso, no futuro. Quero dizer, hoje é o melhor que eu poderia esperar: tenho um emprego flexível onde posso continuar com minha graduação e sou bem remunerado pelo que faço. Depois que eu me formar... pode ser que eu queira estudar outras possibilidades, pesar vantagens e desvantagens para fazer minhas escolhas. Mas, Arthur... No que depender de mim, você sempre vai ser uma constante na minha vida. O que quer que eu venha a escolher para o meu futuro, quero acreditar que você estará lá, do meu lado!"
Arthur abriu a boca para dizer o que veio em sua mente naquele exato minuto, mas tornou a fechá-la, espantado.
Não era a primeira vez que aquelas palavras ameaçavam sair da sua boca. Na verdade, desde o casamento de Morgana, Arthur vinha pensando naquilo cada vez com mais frequência. Ele já entrara várias vezes num site para examinar os modelos de aliança, porém sempre acabava se convencendo de que aquilo não era uma boa ideia. Merlin era muito novo. Por que ele quereria se casar tão cedo? Além do mais, aquilo não passava de uma formalidade. Eles já viviam como um casal, para que apressar as coisas?
Mas então Merlin dizia ou fazia algo e as palavras se repetiam em sua mente novamente.
Case comigo, Merlin.
Porém, naquele exato momento, a única coisa que impediu Arthur de dizê-las foi o fato de que não estava preparado. Ele jurou para si mesmo que tomaria as providências para consertar aquilo o quanto antes. E, verdade seja dita, Arthur adoraria ver Merlin desfilando com sua aliança no dedo.
Arthur segurou a mão de Merlin e levou-a até os lábios, beijando-a.
"Eu prometo que estarei lá para você, baby. Qualquer que seja sua decisão."
Merlin sorriu daquele jeito que fazia pequenas rugas ao redor dos seus olhos e fazia com que Arthur se sentisse a mais afortunada das pessoas.
"Eu sei, Arthur. Eu sei" Merlin garantiu. "Além do mais, você sabe que nunca coloquei os pés num avião, não é mesmo? Ainda não sei se vou me inscrever para o congresso, mas estava pensando se você concordaria em tirar alguns dias para me acompanhar?" ele perguntou, mordendo o lábio inferior. "Você sabe, para segurar a minha mão durante o voo?"
Arthur fingiu pensar por um momento.
"Bem, é um voo bastante longo, para um iniciante" ele argumentou.
"Exatamente."
"Você talvez precise estender um pouco a estadia para se recuperar. Nós poderíamos alugar um carro e viajar pela costa leste, talvez? Afinal, seria um desperdício você viajar através do Atlântico e não conhecer Nova York..."
"Se você diz..." Merlin sorriu e beijou seus lábios, prolongando o contato pelo máximo de tempo possível antes de se afastar novamente para encará-lo. "Sinto muito por ter insistido nesse almoço. Juro que nunca mais vou me atrever, até porque sou um péssimo anfitrião."
"Quem disse isso?" Arthur indignou-se. "Will? Gwaine? Apenas diga o nome e deixa o resto comigo."
"Ninguém disse isso" Merlin riu, meneando a cabeça e seus cabelos balançaram suavemente com o movimento. Apesar de ele ter aparado um pouco os cabelos, Arthur tinha que admitir que os fios ainda estavam bem compridos, emoldurando seu rosto perfeitamente. "Eu apenas... sei que não sirvo para esse negócio de dar festas, receber pessoas..."
"Então receio que você esteja engando. Você é um ótimo anfitrião. Você está ouvindo?" Arthur perguntou quando eles ouviram uma explosão de risos da varanda, no andar de baixo. "Nossos convidados estão se divertindo, não falta o que beber e a comida está perfeita. Ninguém tem o que reclamar. E se alguém reclamar, mande falar comigo."
"Ok" Merlin concedeu, embora não parecesse muito convencido. "Agora o que acha de descermos?"
"Nós temos mesmo?" Arthur puxou-o pela cintura, unindo seus quadris.
"Bem, nós poderíamos trancar a porta e esperar até eles irem embora, mas acho que ficaríamos com fome antes que Gwaine ficasse entediado o suficiente para ir embora."
Arthur suspirou, resignado.
"É, acho que você tem razão. Mas vou ter que trocar de camisa antes" ele apontou para a mancha de molho diante do olhar questionador de Merlin. "Morgana vai me matar se ver isso."
"Tudo bem, melhor tirar, então" Merlin falou, já se desvencilhando e entrando no quarto, rumo ao closet de Arthur, que seguiu-o enquanto desabotoava a camisa. "E deixe em cima da cama que eu cuido dessa mancha depois."
"E por acaso você sabe tirar manchas, Merlin?" Arthur perguntou, ao que Merlin respondeu de dentro do closet.
"Você ficaria surpreso com as coisas que aprendi no meu estágio!"
Arthur jogou a cabeça para trás ao rir.
.M.
"Arthur, por favor, jogue uma partida de Fifa com Will antes que eu jogue ele pela sacada" Merlin falou ao puxá-lo para um canto, mais tarde.
Merlin parecia levemente desarranjado, o cabelo em desalinho, a camisa amassada e uma garrafa de cerveja na mão – Arthur suspeitava que não era a primeira nem seria a última. Agora que os convidados mais ilustres já tinham ido embora – e por convidados ilustres Arthur se referia ao seu pai e sua madrasta, sua sogra e Gaius – Merlin parecia mais relaxado. Lance e Gwen também tinham ido embora com a pequena Katie, o que justificava o nível de barulho ter aumentado consideravelmente, incluindo uma das playlists mais dançantes de Merlin.
"E o que eu ganho com isso?" Arthur perguntou arqueando uma sobrancelha, ao que Merlin rolou os olhos, olhando ao redor antes de se aproximar para cochichar em seu ouvido. "Vamos dizer apenas que você não vai se arrepender."
"Hmm" Arthur fingiu pensar por um momento. "Tudo bem, vou quebrar seu galho dessa vez."
"Ah, e pelo amor de Deus, vê se deixa ele ganhar, senão ele não vai me dar sossego de qualquer jeito..."
"O quê?" Arthur fingiu indignação, elevando o tom da voz propositalmente. "Por que eu deixaria aquele folgado do Will ganhar?"
"Arthur!" Merlin exclamou num misto de incredulidade e afronta.
"Ei, quem disse que eu preciso que ele me deixe ganhar?" Will falou do outro lado da sala. Ele basicamente tinha dividido todo o tempo em que estivera ali entre flertar descaradamente com Elena e chamar Arthur de covarde por nunca ter aceitado sua revanche. Arthur teria ficado feliz em continuar ignorando as provocações se não estivesse seriamente preocupado com o fato de Elena estar bêbada e, aparentemente, dando bola para Will.
"Ei, Merlin, onde é que você escondeu os chips?" eles ouviram a voz de Gwaine da cozinha. "Tenho quase certeza que vi você trazer uma caixa cheia na mudança..."
"Gwaine, fique longe da minha cozinha" Merlin falou, já se afastando, mas não sem antes apontar um dedo acusador na direção de Arthur. "E você vai me pagar por isso, mais tarde."
Arthur bebeu um gole do seu uísque para esconder o sorriso torto.
"Ei, pessoal!" todos voltaram-se para Elyan, que lutava para falar entre os risos, segurando algo na mão. "Olha o que achei no armário do banheiro!"
"O quê?" Gwaine falou, abandonando sua busca pela cozinha para pegar a caixa da mão de Elyan e então foi sua vez de cair na gargalhada. "Mordred, quem diria, hein?"
Aparentemente, havia uma caixa de tinta para cabelo com o rosto de Mordred estampada na embalagem. A caixa passou de mão em mão enquanto Mordred ficava vermelho como um pimentão. Até mesmo Kara parecia segurar o riso. Mordred lançou um olhar traído para Arthur, que espalmou as mãos em frente ao corpo.
"Ei, não olhe para mim. Não faço ideia de como isso foi parar no meu banheiro."
"Espera" Gwaine estranhou. "Se não foi você, então quem..." ele olhou para Merlin, que examinava as próprias unhas.
"Já estava achando que ninguém ia achar" Merlin encolheu os ombros e Gwaine encarou-o, pasmo. "Estou trabalhando num projeto para Edwin Muirden e ele comentou que Mordred tinha feito um trabalho para ele como modelo..."
"Merlin!" Mordred exclamou, indignado. "Como você pôde?"
"O que posso dizer? Deve ser a convivência com Gwaine" Merlin falou e então não conseguiu mais conter o riso quando Gwaine e Mordred partiram para cima dele por razões completamente diferentes. Arthur já estava se preparando para intervir – não por achar que Merlin corria perigo, já que ele e Mordred estavam bastante próximos ultimamente, mas porque Gwaine e Mordred estavam atacando Merlin com cócegas e ninguém podia fazer cócegas em Merlin além de Arthur – quando Will colocou-se à sua frente.
"E aquela revanche, Pendragon?" Will perguntou cruzando os braços e Arthur rolou os olhos.
"Vai ligando o PlayStation, Seger" Arthur falou, empurrando Will para fora do seu caminho. "E prepare-se para perder!"
Ele, então, correu para tirar Gwaine de cima de Merlin.
.M.
Algum tempo depois, Will estava exultando por ter ganhado a última partida – embora tivesse perdido as duas anteriores – e Arthur estava fingindo estar irritado por ter perdido quando Merlin puxou-o para a varanda agora deserta.
"Você deixou ele ganhar, não deixou?" Merlin perguntou, prensando-o contra a parede mais próxima, a boca a centímetros da sua. Arthur podia sentir o cheiro da cerveja no hálito dele.
"Talvez" Arthur falou, deixando um sorriso torto tomar conta do seu rosto antes que Merlin o beijasse, esfregando-se nele.
"Você definitivamente não vai se arrepender" Merlin prometeu antes de se libertá-lo e Arthur teve que se ajustar melhor nas calças antes de voltar para dentro do apartamento.
"Ah, ali está ele!" Gwaine falou, passando um braço ao redor dos ombros de Arthur. "Eu estava sugerindo com o pessoal de irmos a uma boate gay para terminar de comemorar com estilo. Todos nós."
Elena e Morgana uniram suas taças em comemoração enquanto os outros faziam uma algazarra, mas Merlin limpou a garganta ruidosamente.
"Talvez outro dia, pessoal" ele falou, mantendo os olhos fixos em Arthur enquanto bebia mais um gole de cerveja. "Já temos planos para hoje à noite."
Outra algazarra seguiu-se àquela e os rapazes se revezaram em dar tapinhas nas costas de Arthur enquanto as garotas faziam algo semelhante com Merlin.
.M.
Arthur grunhiu enquanto investia contra Merlin, as mãos passeando pela renda preta transparente do corpete que cobria seu tórax, ainda que não escondesse quase nada. A calcinha da mesma renda jazia em algum lugar no chão do quarto, onde Arthur a atirara algum tempo atrás, mas ele não tinha deixado Merlin remover o corpete apertado, que evidenciava os músculos dos seus peitorais.
Merlin tinha ganhado bastante massa muscular nos últimos meses, depois que começara a se exercitar regularmente com Arthur na academia. Arthur deslizou as mãos pelas coxas dele – agora mais grossas – antes de segurá-lo pelo quadril, levantando-o e mudando o ângulo com que o penetrava.
"Ah! Ah!" Merlin gemeu, mordendo o lábio inferior em seguida, os olhos semicerrados – contornados de lápis preto – fixos nos dele. A maquiagem contrastava com a barba um pouco crescida, mas evidenciava o formato único dos lábios dele. "Hmmm..."
"Cristo, Merlin" Arthur murmurou, abaixando-se para beijá-lo, sentindo os resquícios do gosto sintético do gloss.
"Não se atreva a parar agora" Merlin demandou, empurrando-se contra ele.
Arthur tornou a endireitar o corpo, apoiando as mãos ao lado do corpo de Merlin para se sustentar conforme voltava a se mover com força, fazendo os cabelos de Merlin balançarem a cada investida, o barulho das suas peles se chocando preenchendo o aposento.
"Você está tão gostoso, Merlin" Arthur disse, ofegante, encarando-o mais uma vez desde o pênis rosado contrastando com a renda negra do corpete até a franja grudando na testa suada.
"Quase lá" Merlin falou, fechando os olhos e esticando o pescoço para trás conforme se segurava à cabeceira da cama, o pescoço e o rosto corados pelo esforço e pelo orgasmo que se aproximava.
Arthur continuou se movendo mesmo quando seus músculos protestaram, mesmo quando o aperto em suas bolas se intensificou, mesmo quando Merlin soltou um gemido que mais pareceu um choramingo. E então Merlin estava gozando, pintando o corpete de branco perolado, os músculos convulsionando ao redor do membro de Arthur, que empurrou-se mais algumas vezes com abandono antes de parar por um momento, pulsando dentro de Merlin, enchendo-o com sua semente, movendo-se lentamente até que não restasse mais nada além da dor-prazer dos músculos exauridos.
"Ok" Arthur falou, esticando-se ao lado de Merlin. "De agora em diante... eu adoro fazer aniversário."
"Hm" Merlin murmurou simplesmente e eles ficaram imóveis por um momento, aproveitando a letargia pós-coito. Arthur já estava achando que Merlin tinha adormecido quando ele voltou a falar. "Hoje faz um ano que nos beijamos pela primeira vez."
Arthur abriu os olhos, surpreso.
"Verdade! Mais um motivo para eu gostar de fazer aniversário."
"E por falar nisso..." Merlin falou, se sentando com um grunhido. Arthur apoiou a cabeça num dos braços para assistir conforme ele se levantava, ainda com o corpete, pegando a cueca de Arthur do chão para limpar suas pernas.
"Vai a algum lugar?" Arthur perguntou, esticando a mão para alisar a cintura dele, como que mesmerizado e Merlin encarou-o por cima do ombro, sorrindo de um jeito maroto antes de se levantar.
"Você sabe que vai ter que agradecer à Morgana por isso, não sabe?" Merlin falou, tirando o corpete e jogando-o em Arthur. "Por isso e pelo outro presente."
"E quem disse que pretendo ficar com o outro presente?" Arthur falou, fechando a cara.
"E por que você não ficaria?" Merlin colocou as mãos na cintura, agora completamente nu.
"Porque eu precisaria de um consolo vibrador, Merlin?" Arthur sentou-se na cama. "É obvio que ela só está tirando sarro!"
Merlin rolou os olhos, mas acabou fazendo um gesto de descaso.
"Faça como quiser" ele disse, por fim, entrando no closet de Arthur.
"Você quer que eu fique com aquilo?" Arthur perguntou, incrédulo. "Por acaso o meu não é suficiente? Sou até maior do que aquela... coisa!"
"Não é questão de ser suficiente..." veio a voz de Merlin, no outro cômodo. "Ah, quer saber? Esqueça isso. O presente é seu, faça como quiser."
Merlin murmurou mais alguma coisa e Arthur achou ter ouvido 'não acredito' e 'ciúmes', mas antes que pudesse fazer algum comentário, Merlin estava de volta com um caderno na mão e um sorriso no rosto.
"Olha só o que eu achei" Merlin sentou-se na cama ao lado de Arthur, que acomodou melhor as costas contra a cabeceira da cama e aceitou o caderno, sorrindo ao reconhecê-lo.
"Ah, sim... Eu guardo todos eles, não vá se achando todo especial só porque..."
"Eu vi o papel da moedinha de chocolate" Merlin interrompeu-o, presunçoso e Arthur fingiu descaso, mas folheou rapidamente até a última página, onde se lia:
'Parabéns! Agora você é um babaca ainda mais velho!
Do seu pior estagiário,
Merlin (só para o caso de você me confundir com algum dos seus outros estagiários)'
"Você foi meu primeiro e único estagiário, Merlin" Arthur disse, dando um beijo no topo da cabeça de Merlin. Ele franziu a testa, no entanto, quando percebeu que Merlin não parecia tê-lo ouvido, examinando uma foto atentamente e mordendo o lábio inferior. Arthur aproximou-se para espiar por cima do ombro dele, curioso. Merlin virou o corpo automaticamente, encostando-se em seu peito para que os dois pudessem ver juntos.
"Eu não sabia que você tinha essa foto" a voz de Merlin soou ligeiramente embargada.
"O pessoal do orfanato mandou na semana seguinte com uma carta de agradecimento" Arthur esclareceu, alcançando a mão livre dele e entrelaçando seus dedos.
"Sabe..." Merlin falou, pensativo. "Acho que me apaixonei por você nesse dia."
"É mesmo?" Arthur perguntou, enfiando o nariz nos cabelos dele e respirando profundamente o cheiro do xampu.
"Acho que sim. Quero dizer, eu já me sentia atraído por você há algum tempo, mas... acho que me apaixonei de verdade quando vi você no meio daquelas crianças" ele virou o rosto para o lado de modo que seus narizes quase se tocaram e Arthur sorriu, enternecido.
"Acho que me apaixonei por você muito antes disso" Arthur admitiu e Merlin franziu o cenho.
"Quando?"
"Não sei" Arthur encolheu os ombros. "Desde que coloquei os olhos em você, provavelmente."
Merlin riu, apertando sua mão.
"Estou falando sério."
"Eu também!" Arthur insistiu. "Não sei dizer ao certo quando. Só sei que não conseguia parar de pensar em você desde aquele primeiro dia."
Merlin fungou.
"Tenho certeza que sim. Provavelmente pensando na próxima tarefa absurda que me daria."
"Porque você ficava lindo, todo esquentadinho" Arthur disse e então corrigiu-se. "Você fica lindo, esquentadinho."
"E você continua o mesmo babaca de sempre."
"Mas você me ama do mesmo jeito."
"Eu amo" Merlin beijo-o delicadamente. "Eu amo" ele repetiu.
E, maldição, Arthur tinha que comprar uma aliança urgentemente.
.Fim.
¹ Em homenagem a Katie McGrath
² Cristiano Ronaldo, jogador do Real Madri e da Seleção Portuguesa, e Ricardo Reguf, responsável de marketing da Nike. Eles são muito amigos na vida real e há um rumor na internet de que são um casal.
N.B.: Não sou de deixar notas nas fics alheias, mas tenho que deixar nessa!
Quando eu pedi um presente de aniversário, eu realmente não esperava um livro! Kkkkkk E realmente, gente…dá um livro, se vocês forem parar para colocar em pdf. Enfim…apesar de não esperar, não achei nenhum pouco ruim, apesar de que não achei que isso me daria trabalho para fazer também! Hahahaha Eu só queria agradecer a Amy por ter aceito e por ter lutado para agradar minhas vontades e escrever detalhes exatamente da maneira como eu queria, mesmo que eu não tenha dito exatamente o que queria (ou eu disse, sei lá! Já faz tanto tempo que nem lembro!). Enfim…esperem por mais parcerias nossas em breve! Ou não! Hahaha
Aos leitores que por vezes esperaram atualizações e elas não vieram, é tudo culpa minha! Quem acompanha minhas fics já sabe disso. Eu não sou responsável e autodisciplinada como ela, então…sorry! Muito amor por esse fandom, muito amor pela autora, muito amor pelos fãs da Amy (AKA Dyváh!)…
PS: Leiam minhas fics…não sou a Amy, mas até que dou pro gasto! Beijos de luz!
N.A.: Gente que menino difícil de agradar, vocês nem imaginam! E exigente! O processo criativo dessa fic foi bem interessante, principalmente porque eu ia escrevendo e mandando para ele e ele basicamente pedia pra mudar um monte de coisas e ainda sugeria mais uma tonelada de cenas e situações para o futuro. Mas fico feliz em dizer que atendi a todos os pedidos dele (pelo menos os iniciais) exceto por um que eu tive que adaptar (pq, né, ninguém é perfeito).
Se eu faria de novo? Hell yeah! E provavelmente farei, no futuro, porque amigo é pra essas coisas e eu nem me diverti (pouco) escrevendo. XD
Falando sério agora, Matt, obrigada por me introduzir ao fandom e por inspirar essa fic (e outras que estão por vir). Jamais imaginei que poderia me apaixonar tanto por um casal como me apaixonei por merthur e devo isso a você. Obrigada por se esforçar por ser disciplinado, sei o tamanho do esforço que isso é para você.
Agora pra todo mundo que leu e que comentou ou que mandou e-mail ou que ficou quietinho, meu muito, muito obrigada. Adoraria ler os pensamentos de vocês, mas não posso, então gostaria de convidá-los a deixar um recadinho. Quem não tiver usuário aqui no site e preferir, pode mandar e-mail para amy(ponto)lupin(arroba)yahoo(ponto)com(ponto)br, assim eu consigo responder!
Vou preparar também um PDF da fic em breve, então quem quiser pode pedir por email também ;)
Até a próxima!
